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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

11
Out21

Os senadores da CPI da Covid envolvidos com médicos da escola de Mengele, o anjo nazista da morte

Talis Andrade

bolsonaro onu tratamento precoce.jpeg

 

 

A CPI da Covid tem que denunciar senadores envolvidos na necropolítica. Pela divulgação de medicamentos ineficazes.

Hospital da polícia militar do RS testou proxalutamida sem autorização da Anvisa em pacientes com Covid-19

Pacientes internados no Hospital da Brigada Militar de Porto Alegre receberam remédio fabricado na China e tratado por Bolsonaro como a “nova cloroquina”. Não havia liberação para testá-lo em seres humanos na capital gaúcha.

 

Participação na CPI da Covid

Os responsáveis pelo experimento, segundo o major médico Christiano Perin, foram o endocrinologista Flávio Cadegiani e o infectologista Ricardo Zimerman, que trabalha como especialista terceirizado no hospital desde 2017, e teria sido o coordenador principal dos testes rodados na capital gaúcha. 

Em maio, Zimerman depôs na CPI da Covid a convite do senador Luis Carlos Heinze (PP-RS), para defender o uso de medicamentos ineficazes contra o coronavírus, de antiparasitários a antimaláricos. Na ocasião, também defendeu o uso de antiandrogênicos, como a proxalutamida. Outro suposto estudo semelhante ao de Porto Alegre, mas realizado em Manaus na mesma época, com participação de Cadegiani e Zimerman, está sob investigação da Conep por indícios de irregularidades e infrações éticas. O órgão prepara uma denúncia ao Ministério Público Federal com base em uma apuração interna sobre as irregularidades cometidas no estado do Amazonas.

 

Topa tudo por dinheiro

Essa ideia de testar bloqueadores de testosterona para conter o coronavírus existe desde o início da pandemia e tem sido promovida pela Applied Biology, um centro de pesquisas norte-americano focado em inventar e patentear terapias contra a calvície. Um dos idealizadores da tese do potencial dos antiandrogênicos contra a Covid-19 foi o presidente da empresa, o dermatologista norte-americano Andy Goren, que se define como um especialista na “descoberta de novas terapias”.

Infográfico: Pedro Papini

 

Antes mesmo de publicar o primeiro artigo sobre a teoria ou testar sua eficácia clinicamente, a empresa deu entrada para uma patente do tratamento antiandrogênico contra a Covid-19 nos EUA ainda em março de 2020, com menos de dois meses de pandemia decretada. Esse pedido de patente da Applied Biology tem validade internacional desde julho de 2020, após ter sido registrado na Organização Mundial de Propriedade Industrial (OMPI), na qual o Brasil é signatário. Isso significa que, no caso da aprovação de eventuais tratamentos antiandrogênicos contra a Covid-19, governos e hospitais deverão royalties à Applied Biology pela invenção. E o tratamento com proxalutamida sequer seria a primeira patente da clínica norte-americana no Brasil, que já reserva royalties a duas terapias para calvície criadas pelo centro de pesquisas.

Inicialmente, o tratamento em vias de ser patenteado para Covid-19 previa o uso de outros antiandrogênicos já disponíveis no mercado, como a dutasterida. A escolha pela proxalutamida como droga-propaganda da teoria surgiu após a Kintor, a farmacêutica chinesa que fabrica o medicamento, fazer sua primeira oferta pública de ações na bolsa de valores de Hong Kong, em maio daquele ano. Desde a sua fundação, em 2009, a startup opera no vermelho. A empresa se beneficiou de uma mudança de lei no mercado de capitais chinês que permitiu a oferta de ações de companhias que operam no prejuízo – mas a crise financeira que surgiu no início da pandemia atrapalhou parte do otimismo da startup, que foi forçada a fechar as portas de um centro clínico em Miami. A ideia da abertura das ações era viabilizar os trâmites necessários para a comercialização da proxalutamida, que recém concluía estudos preliminares que sugeriam sua potencial eficácia contra o câncer.

Na época, as ações da Kintor foram vendidas a preços entre HK$ 17,80 e HK$ 20,15 (em valores de dólares de Hong Kong), o equivalente a R$13,30 e R$ 15, segundo o câmbio do período, conforme a calculadora do Banco Central. Dois meses depois, em julho de 2020, a farmacêutica fechou uma colaboração com a Applied Biology dias após o pedido da patente para a terapia antiandrogênica ser registrado pelos norte-americanos. Hoje, com mais de um ano de parceria e as especulações sobre a eficácia da proxalutamida contra a Covid-19, o valor das ações da companhia em Hong Kong atingiu HK$ 79,95 em julho deste ano, o equivalente a R$ 54 por ação, uma valorização de quase 350%, que tem atraído ceticismo de agentes do mercado financeiro. 

Um dos motivos dessa desconfiança são informações duvidosas divulgadas pela própria Kintor a investidores: em julho, os chineses anunciaram uma aprovação emergencial para uso da proxalutamida no Paraguai que não existiu, conforme apuração da Agência France-Press. Procurado, o Ministério da Saúde paraguaio não respondeu às tentativas de contato do Matinal. No caso da Covid-19, a vigilância sanitária paraguaia depende das aprovações de nações vizinhas para autorizar vacinas em caráter emergencial – porém, o órgão não explica bem como funciona o processo para a aprovação de outros medicamentos contra o coronavírus. Sobre o caso, a Kintor Pharmaceutical se limitou a indicar as informações oficiais contidas em seu site, que não respondiam a nenhuma das perguntas enviadas.


Após a divulgação de resultados sem revisão de cientistas do estudo com indícios de fraude no Amazonas, em 11 de março, as ações da Kintor Pharma valorizaram mais de 300%. Fonte: Google Finance

 

O endocrinologista Flávio Cadegiani, um dos coordenadores do experimento realizado em Porto Alegre, foi diretor clínico da Applied Biology, conforme sugerem os “conflitos de interesse” apontados pelo próprio médico nos artigos sobre a proxalutamida que assinou com pesquisadores da companhia. Junto a Andy Goren, o presidente da empresa norte-americana, Cadegiani se reuniu com o ministro de Ciência e Tecnologia Marcos Pontes no ano passado com o objetivo de promover a teoria antiandrogênica no país. Desde ao menos outubro de 2020, o médico promove o uso da proxalutamida em supostos testes clínicos, inclusive com postagens públicas em suas redes sociais e recrutamento de voluntários via WhatsApp – o que não é usual em pesquisas médicas por criar um viés em que apenas os pacientes com tendência a “acreditar” na terapia são selecionados.

Além do experimento realizado no Hospital da Brigada, a dupla Cadegiani e Zimerman também assinou a pesquisa que amparou a criação do TrateCov, um aplicativo promovido pelo Ministério da Saúde que receitava um combo de medicamentos sem eficácia contra a Covid, como cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina, e que foi tirado do ar após dez dias, em janeiro, por causa da recomendação de doses cavalares dos medicamentos para crianças. O estudo que amparou a iniciativa do governo brasileiro teve participação da Applied Biology, e incluiu perguntas sobre calvície aos pacientes do app. O próprio aplicativo TrateCov foi hospedado nos Estados Unidos. Na época, mais uma vez, essas inconsistências motivaram questionamentos da Conep.  

No início do ano, a mesma Applied Biology, com apoio da Kintor Pharmaceutical e em parceria com o grupo hospital amazonense Samel, rodou o já mencionado estudo clínico com indícios de irregularidades no estado do Amazonas, com participação da dupla de médicos. Nessa época, Ricardo Zimerman havia viajado para Manaus a convite do Ministério da Saúde para promover o uso de cloroquina no estado por meio do TrateCov. Lá, encontrou-se com Cadegiani e passou a auxiliá-lo na pesquisa com proxalutamida. Em seguida, os dois médicos ampliaram o uso do medicamento para o Hospital da Brigada Militar, onde Zimerman trabalha. O infectologista gaúcho havia sido convidado pela pasta para viajar ao Amazonas por indicação do médico Helio Angotti, o secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde da pasta, um dos principais entusiastas do tratamento precoce no governo federal, que apresentou o experimento com proxalutamida realizado no Amazonas ao presidente Jair Bolsonaro.  

Na época, Bolsonaro se animou com a divulgação dos supostos resultados milagrosos da droga e chegou a usar um almoço que debateria a demissão do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello para discutir uma eventual aprovação do uso emergencial do medicamento. A Anvisa marcou duas reuniões com uma consultoria especializada em regulação de medicamentos contratada pela Applied Biology para discutir a aprovação da proxalutamida no Brasil, mas o escritório desmarcou e nunca mais procurou a agência reguladora. 

Em abril, o governo federal tentou convencer a Fiocruz a produzir a proxalutamida no Brasil, diante da falta de interesse de farmacêuticas da iniciativa privada brasileira. À Fiocruz, a Kintor Pharmaceutical garantiu que poderia entregar 100 milhões de comprimidos do medicamento ao País a partir de junho, segundo uma reportagem da CNN Brasil, mas as negociações novamente travaram na falta de anuência da Conep aos experimentos realizados no Amazonas. 

No mês seguinte, em maio, na CPI da Covid, o presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, chegou a ser perguntado sobre uma eventual aprovação do uso da proxalutamida pelo senador Eduardo Girão (PODE/CE), um dos defensores do uso do medicamento. Torres relatou o que discutiu sobre o remédio em conversas realizadas nos dias 11 e 15 de março, das quais participaram a Applied Biology, autoridades da Anvisa e o médico Flávio Cadegiani. “Um dos pontos que apresentamos foi, sim, a necessidade da interlocução com a Conep, porque, sem ética em pesquisa, absolutamente, não dá para fazer nada, a ética tem que prevalecer na seleção dos voluntários testadores, enfim, é fundamental. E esse grupo não voltou mais a nos contatar”, respondeu Torres na ocasião

Apesar dos entraves burocráticos e regulatórios, a droga continuou a ser defendida por Bolsonaro. Em julho, o presidente voltou a defender a liberação da droga. Com isso, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, reforçou que o medicamento precisa ser melhor estudado. [Transcrevi trechos de reportagem de Pedro Nakamura (com edição de Marcela Donini e Sílvia Lisboa e checagem de Juan Ortiz) para Matinal Jornalismo. Leia mais ]

Anvisa veta uso de remédio defendido por Bolsonaro contra a COVID-19Charges - Fotografia - Folha de S.Paulo

O medicamento proxalutamida, que vinha sendo testado no tratamento da COVID-19 no Brasil, foi barrado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A Diretoria Colegiada da agência reguladora decidiu, por unanimidade, suspender o uso da droga em pesquisas científicas no país e a importação da substância. A proibição foi feita de forma cautelar diante de denúncias e investigações que estão sendo feitas a respeito dos estudos com o fármaco, exaltado pelo presidente Jair Bolsonaro.

Em agosto, o Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul abriu um inquérito civil público para investigar o uso irregular da proxalutamida em testes no Hospital da Brigada Militar, em Porto Alegre. A medicação teria sido aplicada em cerca de 50 pacientes, em um ensaio supostamente clandestino, apesar de a Brigada ter assegurado que "o estudo obedeceu às exigências dos órgãos competentes e as normas legais aplicáveis aos procedimentos em questão" - afirmou em nota.
 
Porém, a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), órgão vinculado ao Conselho Nacional de Saúde (CNS) - responsável por autorizar a realização de pesquisa com seres humanos no país -, negou ter recebido "qualquer solicitação para a realização de estudo com a substância proxalutamida no Hospital da Brigada Militar de Porto Alegre" [Transcrevi trechos de reportagem de Maria Eduarda Cardim, para o Correio Braziliense]. É desconhecido o número de mortos nesse experimento nazista à Mengele em Porto Alegre. 
 

Unesco denuncia 200 mortes com experiência bolsonarista da proxalutamida no Amazonas como "das mais graves da história"

Arquivos josef mengele - Rede Brasil Atual

A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) considerou a denúncia de 200 mortes de voluntários de pesquisa clínica com a proxalutamida feita no Amazonas uma das infrações éticas mais graves da história da América Latina. A declaração foi divulgada nesse sábado (9) por meio da Rede Latino-americana e Caribenha de Bioética (Redbioética-Unesco). A informação foi publicada pelo jornal Folha de S.Paulo.

A Unesco deu seu posicionamento, após a Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) fazer uma denúncia à Procuradoria-Geral da República no mês passado. A entidade é responsável por regular a participação de seres humanos em pesquisas científicas no Brasil.

Jair Bolsonaro defendeu o uso da substância no combate ao coronavírus, mas o remédio não teve eficácia comprovada contra a Covid-19. O uso da substância em pesquisas científicas também foi vetado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no começo do mês passado.

De acordo com o comunicado da rede de bioética da Unesco, a denúncia da Conep incluiu graves violações dos padrões éticos de pesquisa com a proxalutamida. "É ética e legalmente repreensível, conforme consta do ofício da Conep, que os pesquisadores ocultem e alterem indevidamente informações sobre os centros de pesquisa, participantes, número de voluntários e critérios de inclusão, pacientes falecidos, entre outros", disse.

"Qualquer alteração em um protocolo de pesquisa deve ser aprovada pelo sistema de ética em pesquisa local", afirmou.

Por que o senador Marcos do Val deu “ombrada” no deputado Luis Miranda?

O deputado Luis Miranda passou a ser conhecido depois que denunciou ao presidente Jair Bolsonaro favorecimento na compra das vacinas Covaxin pelo Ministério da Saúde, crime que vem sendo investigado pela CPI da Covid 19.

Escreve Caio Barbieri: Em mensagens disparadas por WhatsApp no dia 23 de março deste ano, as quais o Metrópoles teve acesso, Luis Miranda questionou ao ajudante de ordens de Bolsonaro o motivo da falta de respostas do presidente sobre a pressão sofrida pelo irmão dele, Luis Ricardo Miranda, que é concursado do Ministério da Saúde, para autorizar a aquisição do imunizante indiano. 

“Bom dia irmão, o PR [presidente da República] está chateado comigo? Algo que eu fiz? Só precisamos saber o que fazer em uma situação como essa”.

Como resposta, o militar que assessora o presidente da República respondeu: “Bom dia. Negativo, deputado. São muitas demandas. Vou lembrá-lo”.

“Obrigado irmão! Você sabe que a vontade é de ajudar. Estamos juntos”, agradeceu o deputado, mas acabou ficando sem respostas.

Esta denúncia levou os irmãos Miranda à CPI. 

Pressão

À coluna Janela Indiscreta, ainda nesta quarta-feira (23/6), o deputado Luis Miranda afirmou que o coronel Marcelo Pires foi um dos nomes dentro da alta cúpula do Ministério da Saúde a pressionar o irmão dele, Luis Ricardo Fernandes Miranda, para a compra da Covaxin.

O militar chefiava desde janeiro a Diretoria de Programas do ministério, mas foi exonerado em meados de abril após a chegada do atual ministro Marcelo Queiroga.

“O coronel Pires foi um dos que pressionou meu irmão a assinar a compra da Covaxin, mas o processo estava todo errado e cheio de falhas. Esse foi um dos pontos que levamos ao presidente Bolsonaro sobre o que estava acontecendo no Ministério da Saúde”, garantiu o congressista em conversa exclusiva.

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No print encaminhado à coluna Janela Indiscreta, o militar que ocupava a diretoria da pasta escreveu: “Obrigada, meu amigo, estamos com muitos brasileiros morrendo. Precisamos fazer tudo para ajudar. O representante da empresa veio agora a noite falar com o Elcio para agilizar a LI para embarcar as vacinas esta semana. Quatro milhões”.

Bolsonarista e propagandista do tratamento precoce, do kit cloroquima, o kit me engana, o senador Marcos do Val não gostou do atrapalho dos irmãos Miranda, que colocaram uma pedra no meio do caminho do gabinete paralelo e o gabinete de Bolsonaro.

O deputado Luis Miranda (DEM-DF) e o senador Marcos do Val (Podemos-ES) se desentenderam durante intervalo de sessão da CPI da Covid na sexta-feira 25/6. No vídeo é possível ver que outros parlamentares precisaram apartar a briga entre as partes.

Marcos do Val é instrutor da SWAT desde o ano de 2000 e membro de Honra da SWAT de Beaumont no Texas desde 2003. Fundador e instrutor-chefe do CATI - International Police Training, inc, primeira e única empresa de treinamento policial Multinacional da atualidade, com filiais na Europa e EUA. Criador das inovadoras técnicas de IMOBILIZAÇÕES TÁTICAS®, hoje difundidas em várias unidades policiais ao redor do mundo. Treina policiais para derrubar com pernada, golpe de mão e ombrada

Do Val era mediador da entrega do kit covid (vide tags). Victor Fuzeira e Luciana Lima registraram: Luís Miranda reclamou da briga. “Aqui mesmo, no intervalo. Sempre admirei o Marcos Durval, e ele teve um descontrole comigo. Onde está a nossa história?”, disse. Onde? Uma história que precisa ser contada. Ninguém bate no próximo, dentro do Senado, de graça. 

 

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09
Out21

Bolsonarista presidente do CFM reconhece que liberou cloroquina “sem evidência científica”

Mauro Ribeiro investigado pela CPI do Genocídio

Talis Andrade

Filme de terror - Nando Motta - Brasil 247

 

O presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Mauro Ribeiro, reconheceu num vídeo com o representante do Conselho Regional de Medicina de Goiás que liberou o uso da cloroquina mesmo “sem evidência científica”, e “fora das normas” do órgão (veja ao final). 

“Existem estudos observacionais para a hidroxicloroquina, mas não existe nenhuma evidência científica que comprove alguma eficácia da hidroxicloroquina” disse o presidente do CFM na conversa. Ele ainda completou: “Mas nós, numa decisão fora das nossas normas, acabamos liberando o uso da hidroxicloroquina. Fizemos uma análise grande do que existe na literatura e não tem nenhum trabalho que sustente a hidroxicloroquina como recomendável para o tratamento da Covid. No entanto, o Conselho Federal de Medicina liberou o uso”.

Na mesma conversa, atacou a ex-presidente Dilma Rousseff por abrir escolas de Medicina e disse que o órgão atua em parceria com Jair Bolsonaro. O ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad ficou indignado com a divulgação do vídeo pelo site Metrópoles, uma conversa ocorrida em maio de 2020, e defendeu que Ribeiro seja julgado por um tribunal internacional. O CFM é alvo de investigação do Ministério Público Federal (MPF).Image

No vídeo, Mauro Ribeiro atacou a ex-presidente e o deputado federal Alexandre Padilha, ministro da Saúde de 2011 a 2014 por abrirem escolas de Medicina. "Não vamos recuperar o dano da época do governo da (ex) presidente Dilma e do ministro Alexandre Padilha", disse o presidente do CFM. "Teremos aproximadamente 1,5 milhão de médicos no Brasil, é a popularização da Medicina”.

Em outro trecho, o presidente Bolsonaro afirmou, enfaticamente, ter sido recebido cinco vezes por Bolsonaro entre janeiro de 2019 e maio de 2020 e regozijou-se: “Todas as nossas reivindicações foram atendidas pelo presidente, todas as nossas reivindicações. Ele nunca falou ‘isso aqui eu não posso atender’”. E escancarou: “por isso, existe sim apoio do Conselho Federal de Medicina ao Ministério da Saúde e ao presidente Bolsonaro”.

Lafa
“Não sou de direita, nem de esquerda”
 

Image

De acordo com o ex-prefeito Fernando Haddad, as declarações do chefe do CFM significam que a instituição "liberou o governo para promover desinformação que causou a morte de milhares de brasileiros". Seiscentos mil mortos. 

"Isso é caso para tribunal internacional", escreveu o petista no Twitter.

A CPI da Covid, que terminou a fase de depoimentos e apresentará o relatório final ainda este mês, investigou, por exemplo, a defesa do tratamento precoce, com remédios sem eficácia comprovada contra a Covid-19, como a cloroquina e a hidroxicloroquina. O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito, afirmou que a CPI vai pedir o indiciamento de 50 pessoas.

O senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI, confirmou que a comissão pedirá o indiciamento de Bolsonaro.

 

 

03
Out21

“Pacto da cloroquina” explica por que médicos bolsonaristas odeiam colegas cubanos

Talis Andrade

Image

 

por Cynara Menezes /Socialista Morena

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Médicos de Cuba fizeram um pacto secreto para promover um medicamento ineficaz contra o coronavírus e assim beneficiar o governo do país, gerando na população a falsa impressão de que a pandemia estava sob controle, às custas das mortes de centenas de milhares de pessoas. Isso te deixou indignado? Agora troque por “médicos do Brasil”, porque foi isso que aconteceu, segundo o depoimento à CPI do Genocídio da advogada Bruna Morato, que representa 12 profissionais da operadora de saúde Prevent Senior.

 

De acordo com Bruna, seus clientes foram constrangidos pela Prevent Senior a utilizarem nos pacientes o “kit Covid”, coquetel de remédios comprovadamente ineficazes para combater a doença, sob orientação do “gabinete paralelo” do governo.

Existia um conjunto de médicos assessorando o governo federal e esse conjunto de médicos estava totalmente alinhado com o ministério da Economia”, contou a advogada. “O que me explicaram foi que existe um interesse do ministério da Economia para que o país não pare. E se nós entrarmos nesse sistema de lockdown teremos um abalo econômico muito grande. Então existia um plano para que as pessoas pudessem sair às ruas sem medo.”

Os médicos envolvidos foram citados nominalmente por Bruna Morato: os bolsonaristas e negacionistas Anthony Wong (que teria morrido de Covid-19, mas a Prevent ocultou), Nise Yamaguchi e Paolo Zanotto, cada um deles com uma missão específica.

A “estratégia” que eles desenvolveram era “dar esperança para as pessoas irem às ruas, e essa esperança tinha um nome: hidroxicloroquina”, disse a advogada. “A Prevent Senior iria entrar para colaborar com essas pessoas, é como se fosse uma troca, o qual nós chamamos na denúncia de ‘pacto’, porque assim me foi dito. Alguns médicos descreveram como ‘aliança’, outros médicos descreveram como ‘pacto’.”

Randolfe Rodrigues 
ATENÇÃO! Informação importante: a advogada Bruna Morato, que representa os médicos da Prevent Senior, disse à CPI que a empresa fez “pacto” com médicos do gabinete paralelo que estariam alinhados com o Ministério da Economia. 

Bruna disse ainda que os médicos que se negavam a ministrar o “kit Covid” eram repreendidos publicamente, demitidos ou tinham seus plantões reduzidos. E os pacientes foram induzidos a assinar um termo que não era de consentimento quando recebiam os medicamentos, sem serem informados dos estudos desautorizando peremptoriamente o uso da hidroxicloroquina, da ivermectina e de outros remédios do “kit” para tratar a doença.

Traduzindo: por questões ideológicas e econômicas, médicos orientaram outros a utilizarem remédios que não funcionam em pacientes com Covid-19. Uau. Está explicado o ódio dos bolsonaristas pelos médicos cubanos. Elogiados pelo secretário-geral da ONU por seu trabalho humanitário, não há notícia de que os médicos cubanos tenham se curvado a um governo, rasgando o juramento de Hipócrates e deixando de salvar vidas, missão primordial da profissão.

Leonardo Rossatto
@nadanovonofront
A BRUNA MORATO EXPÔS UMA DENÚNCIA DE QUE A PREVENT SENIOR DIMINUIA DELIBERADAMENTE A OXIGENAÇÃO DOS PACIENTES APÓS 14 DIAS DE INTERNAÇÃO NA UTI PARA "LIBERAÇÃO DE LEITOS". ELES TRABALHAVAM COM O PRINCÍPIO DE QUE "ÓBITO TAMBÉM É ALTA". HOMICÍDIO SIMPLES ASSIM.
 
O ódio dos médicos de extrema direita aos colegas cubanos começou em 2013, quando a presidenta Dilma Rousseff lançou o programa Mais Médicos e importou profissionais da ilha para atuar nos lugares onde os brasileiros se recusavam a trabalhar (e depois que eles foram embora continuam a recusar, sobretudo nos distritos indígenas). Uma das cenas emblemáticas do período aconteceu em Fortaleza, na chegada do primeiro grupo de cubanos ao Brasil, quando médicos foram ao aeroporto hostilizar os colegas, com vaias e gritos de “volta pra senzala”.

 

Não por acaso, entre eles estava a médica Mayra Pinheiro, a “capitã cloroquina”, secretária de Gestão do Trabalho do ministério da Saúde de Jair Bolsonaro.

Lola Aronovich
@lolaescreva
Conheça a história da pediatra Mayra Pinheiro, a Capitã Cloroquina. Na foto de 2013, ela grita "Volta pra senzala" pra médico cubano q chegava ao aeroporto de Fortaleza. Ela foi candidata à dep fed (2014) e senadora pelo PSDB (2018), mas ñ se elegeu. Essa desgraça é do Ceará.
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Antes de assumir o cargo, Bolsonaro ofendeu tanto os médicos cubanos, duvidando inclusive de sua formação, que o governo da ilha decidiu, em novembro de 2018, chamar de volta os 8300 profissionais. O CFM (Conselho Federal de Medicina), bolsonarista de primeira hora e que tem apoiado todas as decisões absurdas do governo em relação à Covid-19, também combateu ferozmente o programa, uma das razões do ódio de classe ao PT que culminou no golpe contra Dilma, ao lado da PEC que garantiu direitos trabalhistas às empregadas domésticas. E sobre o “pacto da cloroquina”, o que dirá o CFM?

Se dedicar a salvar vidas deve mesmo gerar muito ódio em médicos que só pensam em ideologia, grana e poder. Ser um profissional de saúde comprometido com o bem estar e a vida das pessoas deve mesmo gerar muito ódio. Médico fazendo pacto para dar remédio que não funciona a paciente? Sem dúvida os cubanos jamais seriam cúmplices de atitudes criminosas assim.

 

01
Out21

A Wannsee brasileira e seu programa de extermínio

Talis Andrade

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por Alexandre Aragão de Albuquerque

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A Conferência de Wannsee consistiu num jantar, realizado nos arredores de Berlim, com membros superiores do governo nazista alemão juntamente com líderes das SS, organização miliciana, sob a chefia de Heirinch Himmler (1929-1945), sendo a principal polícia paramilitar de vigilância e terror durante o período da Alemanha nazista. O objetivo da reunião era o de coordenar todos os esforços dos chefes dos ministérios do governo e de seus servidores na implementação da Solução Final pela qual grande parte dos judeus das regiões europeias invadidas pela Alemanha seria deportada para os campos de concentração na Polônia para serem eliminados em massa.

A primeira grande dúvida apresentada pelos participantes girou em torno de qual tratamento deveria ser dispensado àqueles que não eram 100% judeus: deveriam ser mortos ou apenas esterilizados? A segunda questão centrou-se na definição de quais métodos de matar seriam utilizados para o genocídio. A reunião não durou mais que uma hora e meia; depois que foram servidos drinques e todo mundo almoçou, ficou decidido que 11 milhões de judeus tinham de ser assassinados. (ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém. Companhia das Letras, 1999, 16ª. impressão).

Ontem, a CPI da Covid, instalada no Senado Federal, cumprindo um papel histórico de desvelamento da realidade obliterada pela orquestração da estrutura de poder que assaltou o país desde o Golpe de 2016 (Temer, PSDB, PMDB, Mídia, Militares, Judiciário, Capital, Religião e EUA), tornou público, por meio do histórico depoimento da advogada Bruna Morato, a permissão que a Prevent Senior tinha para matar, em nome de uma orquestração nefasta desenvolvida no seio de setores do governo bolsonarista.

A advogada afirmou que os administradores e médicos da cúpula da operadora de saúde se sentiam seguros para utilizar seus protocolos de morte, cientes de que não seriam fiscalizados pelo Ministério da Saúde, sob o comando do General Pazzuelo. De acordo com ela, existia um pacto, intermediado pelo Gabinete Paralelo (Nise Yamagushi, Paolo Zanoto, Anthony Wong, entre outros médicos) pelo qual a seguradora poderia implementar suas experiências com medicamentos ineficazes, que  nos casos de aplicação em pacientes idosos eram repetidamente letais. Em 20 de maio de 2020, a doutora Mayra Pinheiro (PSDB-CE), que continua ainda hoje como secretária de Gestão do Trabalho e Educação do Ministério da Saúde, apresentou uma nota informativa pela qual fazia recomendações sobre o uso da hidroxicloroquina. Neste mesmo período, o maior garoto-propaganda do tratamento precoce era Jair Bolsonaro. Mayra Pinheiro citou a Prevent Senior como se fosse um “case” de sucesso. Portanto, a Prevent Senior estava no centro das artimanhas concertadas pelo poder. (https://www.brasildefato.com.br/2021/09/28/prevent-senior-tinha-permissao-para-matar-em-nome-de-formula-milagrosa-diz-senador).

O senador Rogério de Carvalho (PT-SE), membro da CPI, resumiu o depoimento da seguinte forma: “Estamos falando de homicídio abertamente. A Prevent Senior tinha autorização do governo, tinha autorização do Conselho Federal de Medicina, autorização do Ministério da Saúde, tinha autorização para matar em nome de uma “fórmula milagrosa” para apresentar à sociedade a fim de ela retornar ao trabalho”, como, por exemplo, defenderam desde o início Paulo Guedes e Jair Bolsonaro.

Em meio a toda essa fetidez criminosa, recorde-se que, em seu delírio de poder, o general do twitter, ex-comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, em 11 de janeiro de 2019, sentiu-se empolgado para anunciar em discurso de despedida o “Novo Rio da História”, fundado, segundo ele, na conjugação de três linhas ideológicas de práxis autoritária: o fascismo bolsonarista, a persecução-jurídica morista e a força armada braganetista. Afirmou o general naquela ocasião: “a nação brasileira festeja os sentimentos coletivos que se desencadearam a partir da eleição de Bolsonaro”. Indaga-se: que sentimentos seriam? Os mesmos da Wannsee alemã? Sentimentos de extermínio da população brasileira?

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18
Set21

'Gabinete paralelo' de Bolsonaro tinha ligação com a Prevent Senior, diz documento

Talis Andrade

JOSÉ PEDRIALI: 03/28/20

 

247 - Além das denúncias sobre a ocultação de mortes ocorridas durante testes com pacientes, um documento subscrito por 15 médicos que afirmam ter trabalhado na operadora de saúde Prevent Senior sustenta que o chamado “gabinete paralelo” do Palácio do Planalto não só tinha conhecimento, como acompanhava de perto das práticas ilegais da empresa. A reportagem é do jornal O Globo. 

Assim foi batizado um grupo de especialistas que assessoravam informalmente o presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia, muitas vezes contrariando orientações do Ministério da Saúde.

Por Guilherme Balza, GloboNews e G1 SP

O plano de saúde Prevent Senior ocultou mortes de pacientes que participaram de um estudo realizado para testar a eficácia da hidroxicloroquina, associada à azitromicina, para tratar a Covid-19, aponta um dossiê ao qual a GloboNews teve acesso.

A pesquisa foi divulgada e enaltecida pelo presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), como exemplo de sucesso do uso da hidroxicloroquina . Ele postou resultados do estudo e não mencionou as mortes de pacientes que tomaram o medicamento.

A CPI da Covid recebeu um dossiê com uma série de denúncias de irregularidades, elaborado por médicos e ex-médicos da Prevent. O documento informa que a disseminação da cloroquina e outras medicações foi resultado de um acordo entre o governo Bolsonaro e a Prevent. Segundo o dossiê, o estudo foi um desdobramento do acordo.

A Comissão ouviria nesta quinta-feira depoimento do diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Batista Júnior, mas ele informou que não vai comparecer.

Pedro Batista Júnior

A reportagem da Globonews teve acesso à planilha com os nomes e as informações de saúde de todos os participantes do estudo. Nove deles morreram durante a pesquisa, mas os autores só mencionaram duas mortes.

Um médico que trabalhava na Prevent e mantinha contato próximo e frequente com os diretores d operadora na época afirmou à GloboNews que o estudo foi manipulado para demonstrar a eficácia da cloroquina. Segundo ele, o resultado já estava pronto bem antes da conclusão do estudo.

 

Áudios, conversas em aplicativos de mensagens e dados contraditórios relativos à pesquisa - divulgados pela própria Prevent e apoiadores do estudo, como Bolsonaro – reforçam a suspeita de fraude.

 

Mortes escondidas

 

26
Ago21

Militares brasileiros: do abandono do monopólio do uso da força para manter a Democracia e a Constituição a biscates de um capitão malcriado e ignorante

Talis Andrade

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por Luís Costa Pinto /Plataforma Brasília

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Houve um tempo em que três patetas, um general, um brigadeiro e um almirante, ocuparam por breve período o comando político do País. Vivíamos sob a ditadura e dava-se ali um golpe dentro do golpe – facções de milícias militares não confiavam nos milicos da outra facção.

Houve um tempo, também, em que o presidente da República, um sociólogo de trajetória acadêmica à esquerda, exerceu a Presidência com uma aliança do centro à direita e não titubeou em demitir o ministro da Aeronáutica, o brigadeiro Mauro Gandra, por suspeita de corrupção e favorecimento indevido a empresas privadas na implantação do SIVAM – Sistema de Vigilância da Amazônia.

Reinando a normalidade depois da demissão do brigadeiro, meses adiante o Brasil evoluiu para a extinção dos ministérios militares, criou o Ministério da Defesa e o entregou a um senador civil.

A vida seguiu sem solavancos, bravatas ou arrepios da soldadesca até o golpe jurídico/parlamentar/classista de 2016. Tendo usurpado a cadeira presidencial e sem a legitimidade do voto popular, Michel Temer entregou a Defesa para um general da ativa, Silva e Luna, e nomeou outro ativo general, Sérgio Etchegoyen, para seu Gabinete de Segurança Institucional. Estava aberta a porta para a balbúrdia fardada.

Vestindo uniformes de gala ou de campanha, pijamas ou terninhos bem cortados cuidados pelos taifeiros que lhes servem como vassalos a senhores feudais, a milicada começou a ganhar ousadia. Passaram a se comportar como o idiota tão bem descrito por Umberto Eco depois do advento das redes sociais: sem pudor, vergonha ou limites, gostaram de ter opinião para tudo.

Sob Jair Bolsonaro, catapultado à presidência da República pelo voto dado em urnas eletrônicas, seguras e auditáveis, por 39% dos eleitores brasileiros aptos a votar em 2018 e que o fizeram com a baba elástica dos estúpidos com os olhos embaçados pela bile verde de se fígados estourados por recalques, vivemos agora o tempo em que generais, almirantes e brigadeiros se dão ao desfrute de serem biscate de um patético capitão.

Capturado por seus delírios e desvarios napoleônicos, típicos de homens frustrados pela descoberta da própria impotência sempre visível para aqueles mais críticos, Bolsonaro humilha, diminui, enxovalha, acadela e acoelha as Forças Armadas. O desfile de blindados velhos, ultrapassados e inúteis no Eixo Monumental de Brasília na manhã deste 10 de agosto envergonha e enfraquece uma instituição que deveria deter o monopólio do uso da força para a manutenção do Estado Democrático de Direito e se viu corrompida por um presidente embusteiro.

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14
Ago21

TEM CLOROQUINA?

Talis Andrade

 

 

Tempos de peste. Um balconista de farmácia conta seu dia a dia durante a pandemia

 

por SANDRO AURÉLIO /Revista Piauí

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1º DE ABRIL, QUARTA-FEIRA_Saí de casa às 8 horas, já preparado para um dia cansativo. O movimento da farmácia não diminuiu quase nada desde o começo da pandemia. Os clientes estão mais ansiosos, tem fila para atendimento no balcão, quase sempre com discussões, porque um reclama da proximidade do outro. Desde março, a farmácia dá aos funcionários uma máscara e um par de luvas por dia. Eu prefiro álcool em gel à luva, mas uso a máscara o tempo todo e também no trem de volta para casa. Não é o ideal, mas acabo tendo que usar a mesma máscara no dia seguinte ao voltar para o trabalho, e só então pego uma nova.

Normalmente, trabalho seis dias por semana, das 10 horas às 18h20. Nesta semana, estou trabalhando todos os dias até as 19 horas para compensar a folga extra que tive no domingo passado. Pode parecer pouco, mas como ficamos em pé o dia inteiro, faz diferença para as pernas.

Minha maior dificuldade com o trabalho é, de longe, o tempo que levo para chegar lá. Eu moro em Nilópolis, cidade da Baixada Fluminense, e a farmácia fica em Copacabana, na Zona Sul. São duas horas para ir e duas para voltar. Faço esse trajeto seis vezes na semana, há praticamente um ano, e ainda não me acostumei. Passar quatro horas dentro de transporte público não é coisa simples.

Antes dos bloqueios por causa do novo coronavírus, eu pegava um ônibus até a Pavuna, bairro da Zona Norte, onde fica a estação de metrô mais próxima da minha cidade, e de lá seguia para Copacabana. Agora não há mais ônibus entre os municípios da Baixada e o Rio. Então, como é complicado chegar ao metrô, só me restou o trem. Todos os dias tenho que mostrar minha carteira de trabalho para os policiais que ficam na frente da estação de Nilópolis provando que estou indo para o emprego.

Os trens estão demorando mais a chegar. Passam de 30 em 30 minutos (antes era de 12 em 12 minutos). Hoje a plataforma estava cheia, menos que nos dias anteriores à pandemia, mas cheia. Quando peguei o trem, às 8h19, já não tinha nenhum lugar para sentar. Em Ricardo de Albuquerque, três estações depois da minha, o vagão lotou. Fiquei bem nervoso quando me vi em meio a tanta gente. Nunca na minha vida cheguei perto de ser hipocondríaco, mas tenho medo de pegar o novo coronavírus. Ainda mais por morar com minha mãe, que tem 63 anos.

Tirei uma foto com o vagão abarrotado de gente, postei no Twitter e marquei o perfil da SuperVia. Eles me responderam: “Sandro, bom dia. Entendemos a sua insatisfação. Por conta do cenário atual em nosso sistema, realizamos alguns ajustes na operação para adequação à nova realidade. Estamos analisando essas mudanças de perto para possíveis melhorias.” Entendi assim: “Bom dia, Sandro, o serviço vai continuar do jeito que está, esperamos que você aceite da forma mais dócil possível.” Um escárnio.

Para mim, ficou claro que a SuperVia se aproveitou da situação para diminuir o número de trens ao mínimo possível. Claro que eles poderiam oferecer viagens mais confortáveis e que ocasionassem menos aglomerações, mas isso teria um custo maior. Me lembro das sábias palavras de Bernardo Negron, vulgo BNegão: Desde que o mundo é mundo, ele nunca foi brinquedo/enquanto uns choram/outros se apressam para vender o lenço/isso nunca foi segredo. O ideal seria ir e voltar com dignidade, mas, se em mais de quinhentos anos de Brasil a classe trabalhadora não recebeu isso, não seria diferente agora.

Na farmácia, cada funcionário é responsável por uma seção diferente. Eu fico com o chamado OTC (uma sigla em inglês: over the counter), os medicamentos de venda livre, que qualquer pessoa pode pegar: paracetamol, ibuprofeno, dipirona, Novalgina, Dorflex, Neosaldina, Buscopan etc. Passei também a fazer entrega nas casas. A farmácia teve que começar com delivery para não perder a clientela. Não ganho nada a mais com as entregas, mas eu gosto, pois me permite caminhar um pouco. Me faz lembrar do período em que trabalhei no IBGE, como recenseador. Também acho legal porque, assim, posso conhecer melhor as ruas de Copacabana. Acontece muita coisa nesse bairro. Às vezes, penso que, se Gabriel García Márquez passasse uns dias vendo o que eu vejo, ele acharia o Rio de Janeiro mais realisticamente mágico do que Macondo.

Hoje fiz quatro entregas. Em uma ganhei uma gorjeta de 5 reais. Na última, no fim do dia, fiquei bem chateado. Fui levar um Xarelto 20 mg, medicamento que custa 240 reais. Ao chegar ao prédio, percebi que tinha esquecido o troco na loja. Esperei o cliente descer, entreguei o remédio em mãos e avisei que voltaria com o dinheiro. E corri até a farmácia. O rapaz viu quando eu voltava correndo, mas ele nem sequer me agradeceu. Pegou o troco e entrou no prédio sem dizer uma palavra. Eu me senti como se nem fosse um ser humano.

 

2 DE ABRIL, QUINTA-FEIRA_Trem menos lotado do que ontem, mas ainda com muita gente. Em Deodoro, quatro estações após a minha, consegui lugar para sentar, ao lado de uma senhora de máscara. No vagão, vi apenas seis pessoas de máscara, contando ela e eu. Pouca gente está levando essa pandemia a sério. Na Baixada, as ruas ficaram até um pouco mais vazias em março, mas agora, em abril, o movimento voltou praticamente ao normal.

Lá pelas duas da tarde, uma senhora que eu atendia começou a falar mal do presidente. Adorei. Hoje em dia, muitos clientes começam, do nada, a falar mal dele. E olha que Copacabana é um bairro que, em 2018, apertou com força o 17, o número eleitoral de Bolsonaro. Passei quase um ano sem dar nenhuma opinião sobre política no trabalho. Não acho que possa ser vantajoso para mim e também não quero criar embates. O ponto de mudança foi o pronunciamento do presidente em rede nacional em 24 de março. No dia seguinte, logo que cheguei, não se falava em outro assunto: “Como assim? Um presidente se coloca contra o isolamento da população no meio de uma pandemia?” O fato de ele agir contra o que prega o mínimo bom senso foi demais para muita gente. Ver quase todos os meus colegas falando mal do presidente foi para mim uma libertação. O dia seguinte ao pronunciamento me marcou também de outra forma: pela primeira vez presenciei um panelaço ao vivo. Eram 20h30, eu ainda estava na farmácia quando ouvi muita gente bater panelas. Em Nilópolis, nem no auge do ódio contra a Dilma ouvi panelaço. Atualmente é a mesma coisa: na hora dos panelaços pelo país, que são divulgados nas redes sociais, coloco o ouvido para fora da janela da minha casa e tudo está um silêncio sepulcral.

No final do dia, fiz uma entrega perto de Ipanema, uma compra de 1 240 reais. A cliente morava no décimo andar de um prédio chique de frente para a praia. Quando ela abriu a porta do apartamento, pude avistar o mar. Eu nunca tinha visto o Oceano Atlântico de um lugar tão alto. Ela me deu uma gorjeta gorda de 10 reais (a primeira do dia) e fiquei bem feliz.

 

3 DE ABRIL, SEXTA-FEIRA_Minha mãe voltou ao trabalho depois de uma licença de três meses. Ela é funcionária da Prefeitura do Rio de Janeiro, trabalha na parte administrativa de um posto de saúde na Pavuna, que fica a quinze minutos de carro de Nilópolis. Peguei uma carona com ela, embarquei no metrô e fui da Pavuna até Copacabana. Bem mais confortável e vazio que o trem. Em nenhum momento vi gente em pé.

Trabalhar em farmácia nessa época me dá a oportunidade de testemunhar o efeito prático da disseminação de notícias sobre curas milagrosas. A primeira foi que o paracetamol era bom para combater o novo coronavírus. Do nada, as pessoas passaram a comprar loucamente cartelas e caixas de Tylenol. Depois, quando propagaram que a cloroquina e a hidroxicloroquina seriam a cura da Covid-19, os medicamentos baseados nesses princípios ativos, como Reuquinol, esgotaram. Agora, só podem ser comprados com receita médica. Mas até hoje não chegou nenhuma nova remessa desses produtos. Todo dia, alguém que de fato precisa do remédio por causa de alguma doença – lúpus, por exemplo – sai frustrado da farmácia.

Um dos três farmacêuticos da loja está afastado por suspeita de Covid-19. Além dele, outra pessoa também está afastada, mas por alergia. Todos os funcionários estão aflitos com a pandemia e passam álcool em gel na mão de hora em hora. O maior medo, disparado, é o de pegar o vírus de algum cliente. Estamos trabalhando mais, com menos pessoas. O telefone toca quase que ininterruptamente.

Às 11 horas, atendi ao telefone pela primeira vez. Anotei o pedido, mas só consegui sair para entregar às 13 horas. Antes não tivesse ido. A maquininha não funcionou na casa da cliente. Voltei à farmácia para pegar outra. Mais uma vez, não havia sinal. A cada tentativa frustrada de fazer o pagamento, ela ficava mais nervosa. Já bem alterada, começou a reclamar, num tom de voz alto e angustiado, dizendo que nada na farmácia funcionava e que não deveria nem estar tendo contato comigo, pois tem 75 anos. Eu já estava a mais de 1 metro dela, de luvas e máscara, mas dei dois passos para trás para que percebesse que eu também estava incomodado. Falou ainda que eu tinha atrapalhado o seu cochilo da tarde e que ela não merecia estar passando por aquilo. Eu ouvi tudo calado, mas no final não aguentei e respondi: “Eu também não, senhora.”

Parti para a segunda entrega do dia. Quem me atendeu foi a empregada doméstica, e logo ao abrir a porta senti um cheiro maravilhoso de comida. Já eram quase 14 horas, e eu ainda não tinha almoçado. Voltei para a loja, bati meu ponto do intervalo e devorei minha marmita em dez minutos na cozinha da farmácia, onde dispomos de mesa, geladeira e micro-ondas. Às vezes, depois do almoço, deito uns vinte minutos no chão para dar uma relaxada. Foi o que eu fiz hoje.

Sempre trago comida de casa, porque é mais barato e mais saudável. Minha mãe cozinha bem demais, tenho sorte. Além disso, o auxílio-alimentação é de apenas 4 reais por dia trabalhado. Uso o tíquete no mercado. Esse mês, como vou trabalhar 24 dias, serão 96 reais.

Na parte da tarde, mais uma vez uma pessoa foi até o balcão e perguntou: “Tem Reuquinol?” Chegou mostrando a foto do medicamento no celular e me pareceu ser alguém que não precisava do remédio. O movimento na farmácia foi ininterrupto, e só consegui bater meu ponto de saída às 19h15. Estava tão exausto que mal sentia as pernas.

 

4 DE ABRIL, SÁBADO_Dia de folga. Dormi onze horas seguidas. Foi uma delícia.

 

5 DE ABRIL, DOMINGO_Ao contrário da maioria das pessoas, eu prefiro trabalhar aos domingos. É o único dia em que o movimento é menor. No trem, sentei do lado de um homem que começou a tossir. Troquei de lugar.

Primeiro atendimento do dia: um senhor perguntou sobre cloroquina. Respondi que estávamos sem o remédio e não havia previsão de recebê-lo. Ele continuou, dizendo que conhecia pessoas que tinham sido curadas do novo coronavírus em 24 horas após usarem cloroquina. A história fazia tão zero sentido que em nenhum momento pensei em questionar o homem.

A primeira entrega do dia foi para uma senhora que fez questão de dizer que estava grata por estarmos prestando o serviço de delivery. Não deu gorjeta, mas só por ter me tratado com respeito e dignidade, eu já fiquei feliz. Na parte da tarde, anotei por telefone o pedido de uma cliente, separei o que ela queria e pedi o endereço: Rua Saint Roman. Só descobri que é a rua que leva à comunidade do Pavão-Pavãozinho quando já estava lá perto.

Aos 18 anos, trabalhei por três semanas como vendedor em uma empresa que vendia purificadores de água, porta a porta, nos subúrbios e nas favelas do Rio de Janeiro. Então eu já sabia que, caso encontrasse algum trabalhador do tráfico, era só me identificar que tudo ficaria tranquilo. Traficante respeita trabalhador. A não ser, é claro, que esse trabalhador seja da polícia.

A cliente morava na parte alta do morro, de onde se tem uma vista linda de Copacabana. Tirei uma selfie. Na volta, sentei numa calçada para postar minha foto nos stories do Instagram. Um moleque magrelo de uns 15 anos veio ao meu encontro. “E aí, mano?”, ele falou. Eu respondi: “E aí, mano, suave? Tô só dando uma sentada aqui que já tô cansadão.” O menino era olheiro do tráfico e perguntou se eu andava muito. Falei que sim, que estava com as pernas exaustas.

 

6 DE ABRIL, SEGUNDA-FEIRA_Hoje é aniversário do meu pai. Ele mora em Guapimirim, que fica depois de Magé. É o último município da Região Metropolitana, mas parece interior. Com a pandemia, em Guapimirim (como nos demais municípios da Região Metropolitana) só tem acesso à cidade quem mora lá. Mas, mesmo que tivesse um jeito de chegar, eu não iria, pois meu pai está no grupo de risco: é quase sexagenário, tem pressão alta e sobrepeso. Seria muita irresponsabilidade da minha parte. Postei uma foto nossa que eu amo: nós dois em frente ao Estádio do Maracanã, em 2014, antes de assistirmos ao primeiro jogo do Botafogo pela Libertadores em casa, em dezoito anos. E demos sorte, o placar foi de 4 a 0 contra o Deportivo Quito, do Equador. Em se tratando de Botafogo, assistir a uma goleada assim é sorte em dobro.

Decidi contar ao meu pai que estava escrevendo este diário para a piauí. Eu o ouvi chorando pelo telefone. Fiquei emocionado. Puxei dele a tendência a chorar sempre que dá vontade, e isso me orgulha. Ele disse que essa notícia era o melhor presente possível para ele. Se tem uma coisa que eu não curto nessa vida é me fazer de vítima. Mas o fato de eu nunca ter conseguido nada na área de comunicação depois de formado me dói, e dói muito.

Ninguém na farmácia sabe que eu fiz faculdade de jornalismo. Não contei porque, primeiro, não quero que me olhem ou me tratem de maneira diferente. Segundo, porque é doloroso lembrar como estou distante daquilo que sonhei.

Minha história com o jornalismo não é das mais usuais. Em 2007, eu fui jubilado do Cefet (Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca), onde eu fazia o ensino médio e também um curso técnico de eletromecânica. Eu tirava notas altas em português, história e geografia, mas me dava mal em física e matemática. Por causa dessas matérias, fui reprovado de ano duas vezes seguidas e acabei sendo expulso. A vergonha de ser expulso foi duas vezes maior que o orgulho de ter entrado na escola.

Nessa época, coloquei na cabeça que eu era incapaz de aprender certas coisas. Terminei o ensino médio em uma escola estadual e fui trabalhar numa escolinha de futebol da qual meu irmão era sócio. Com meu primeiro salário, comprei uma sandália da Mr. Cat para a minha mãe. Com o segundo, me matriculei em um curso de inglês. Era o que eu precisava para recuperar minha autoestima intelectual.

Em 2009, a Joss Stone veio tocar no Brasil. Na comunidade da cantora no Orkut, os fãs decidiram fazer uma vaquinha para dar presentes a ela: vestido, bijuterias etc. Eu resolvi dar um texto sobre dez artistas da música popular brasileira, escrito com meu inglês bem mais ou menos da época. Chamava-se “Introducing Brazilian Music”. Deixei na portaria do hotel dela. Como eu não tinha dinheiro para o ingresso do show, decidi imprimir dez cópias desse texto e tentar vender aos gringos na praia. Demorei o dia todo, mas consegui vendê-los e comprar o ingresso.

Em 2010, meus pais se separaram. Meu pai foi morar com uma médica, que o convenceu a pagar um pré-vestibular para mim. Eu estava com 20 anos. No ano seguinte, fui aprovado em letras na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e em jornalismo na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Então me lembrei do meu texto sobre música brasileira, que na minha cabeça era um trabalho jornalístico. Em 2012, fui para Minas Gerais.

Trabalhei durante todo o curso, por isso levei seis anos para terminar a faculdade. Fui garçom, entregador de panfleto, secretário em curso de ioga, recenseador do IBGE e até segurança em show do Michel Teló (apesar de minha baixa estatura: 1,68 metro de altura). Foi na universidade que conheci a minha companheira, Regina, o melhor presente que o curso me deu. Desde que voltei para o Rio, em 2018, vivemos um relacionamento a distância: eu na Baixada, e ela em Ouro Preto, fazendo mestrado em história. Prometi conseguir um trabalho para alugar uma casa para nós dois. Ainda não cheguei lá, mas vai rolar.

Por volta de 16 horas, fui entregar uma compra de quase 1 500 reais na Avenida Atlântica. A moradora foi super mal-educada, pegou a sacola e jogou no chão, não deu nenhuma gorjeta e ainda fechou a porta com força na minha cara. Depois pude ouvi-la gritando com o marido. Quando desci, disse para o porteiro: “Pô, grossa pra caramba essa fulana, hein?” Ele respondeu: “Tu não viu nada. Ela reclama o dia inteiro. Uma vez, na reunião de condomínio, pediu para retirar a televisão que fica na portaria para os porteiros não ficarem assistindo.”

Na volta para casa, li no Twitter que o presidente pretendia demitir o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Às vezes eu tenho a impressão de que estamos vivendo uma distopia. Fiquei balançando a cabeça, como se dissesse: “Não, não, não.” Uma moça sentada à minha frente ficou olhando para mim. Ela deve ter pensado que eu estava discutindo com a minha namorada.

 

7 DE ABRIL_TERÇA-FEIRA_Consegui me levantar às 4h30. Primeiro gol do dia. Peguei o trem exatamente às 5h19. Segundo gol. Cheguei na loja antes das 7 horas. Hat trick.

O bom de chegar a essa hora é que às 15h20 posso ir embora. Cheguei em casa às 17h20, e ainda deu tempo de passar no mercado e comprar o que faltava: produtos de higiene, frutas, pão, macarrão e 2 quilos de peito de frango. E duas barras de chocolate também, que ninguém é de ferro.

Eu moro só com a minha mãe, e temos uma relação muito boa. Ela está perto de se aposentar, então só trabalha às quartas e sextas. Vivemos em uma vila de seis casas, sendo três da minha família: além de nós, moram duas tias aposentadas, que agora estão também em quarentena. Só saem de casa pra ir ao mercado ou à farmácia, sempre protegidas.

Nossa casa é pequena mas confortável. Minha mãe tem o quarto dela, eu tenho o meu. Nos últimos meses, por causa das chuvas frequentes, um pedaço do teto do meu quarto abriu. Tive que dormir no quarto da minha mãe por alguns dias. Quando o sol voltou, juntamos uma grana e compramos o material necessário para consertar o estrago. Moro em uma das avenidas principais de Nilópolis e tenho uma vista privilegiada da estação de trem. Quando está muito quieto na rua, consigo ouvir da minha casa o sistema de som da SuperVia avisando em quantos minutos os trens vão chegar. É uma facilidade estar perto do principal meio de transporte público de que nós, baixadenses, dispomos para ter acesso ao Rio. Sou um suburbano privilegiado. Quase um playboy.

 

8 DE ABRIL, QUARTA-FEIRA_Voltei para o meu horário normal de 10 horas. O gerente já me esperava para fazer duas entregas, felizmente para duas senhoras bem simpáticas, que me deram gorjetas: a primeira, 2 reais; a segunda, 5 reais. O movimento estava bem baixo, então deu tempo de esfregar com esponja e sabão duas prateleiras da minha seção.

Às três da tarde, fui fazer uma entrega para uma senhora de 94 anos, que se tornou minha mais nova cliente favorita de todos os tempos. Primeiro, porque ela me chamou para entrar na casa dela. Eu não acreditei, a maioria das pessoas nem sequer me olha. Depois, logo que entrei, ela fechou a porta e perguntou se eu queria água. Nunca nenhum cliente tinha me perguntado isso. O tempo todo ela foi educada: é a personificação daquele estereótipo da velhinha fofa. Perguntou onde eu morava. Quando eu respondi que era na Baixada, ela contou que já tinha morado em Nova Iguaçu. Ela foi gentil e carinhosa o tempo todo, e eu, como bom pisciano, amo receber carinho. Teve um momento em que ela até pediu para me dar um abraço. Mas, infelizmente, tive que recusar e explicar que não era seguro. O turno foi até mais agradável depois de fazer a entrega para a dona Augusta.

 

9 DE ABRIL, QUINTA-FEIRA_No momento em que eu batia o ponto ao chegar no trabalho, o gerente falou: “Sandrinho, tem cinco entregas para você fazer.” Lá fui eu. Quando voltei, havia mais duas. Sete entregas antes do almoço! Um recorde. Só fiquei um pouco chateado porque não foi um dia de pessoas generosas. Apenas duas deram gorjetas, de 2 reais e 4 reais.

À tarde, criei coragem e fui pedir ao gerente para sair vinte minutos antes do meu horário. Como sou impulsivo e sincero, fui logo explicando que o motivo era fútil: assistir ao show do cantor Péricles Faria numa live no YouTube. Eu sou muito fã do Pericão. Minha psicóloga, a Cláudia, sempre me diz que eu tenho que ter mais malícia. O consultório dela fica no Centro de Nilópolis, a cinco minutos a pé da minha casa. Vou duas vezes por mês, que é o que dá para pagar com o meu salário, economizando muito. Mas vale a pena.

O gerente me deixou ver o Pericão.

 

12 DE ABRIL, DOMINGO DE PÁSCOA_Hoje saí de casa bem arrumadinho. Passei meu spray antifrizz no cabelo e borrifei três vezes o perfume que comprei de presente de Natal para minha mãe. Tirei uma selfie. Postei. Desejei que a foto tivesse cheiro. Não o cheiro do Centro de Nilópolis, que é bem desagradável, e sim o meu. A máscara escondeu meu sorriso (eu uso máscara o tempo todo fora de casa), mas meu cabelo estava lindo na foto. Não à toa minha namorada me chama de Príncipe da Baixada.

Cheguei na farmácia às 6h55. A supervisora, que abre a farmácia, mandou mensagem dizendo que ia atrasar. Fui olhar o mar. A praia estava deserta. Tirei uma foto que gostei tanto que mandei para a Regina, para a minha mãe, para o meu pai, para os meus stories e, se pudesse, colocava num outdoor.

Tenho uma conexão bem forte com o mar, desde pequeno. Na adolescência, ver o mar se tornou uma terapia para mim quando fui jubilado do Cefet. Eu aproveitava a gratuidade do transporte a que tinha direito e ia até a Zona Sul. Não gastava um real e passava a tarde sozinho olhando o oceano. De vez em quando, pedia para alguém olhar minha mochila e dava um mergulho rápido. Só de estar diante do mar, eu já me sentia melhor.

A farmácia abriu só às 7h30. Na maior parte da manhã fiquei no caixa. Nos raros momentos em que não tinha ninguém, fui separar as caixas de produtos que haviam chegado na noite anterior. Oito caixas de álcool em gel de 440 ml e duas de frascos de bolso. Para a alegria de quem estava sem Reuquinol, chegaram três caixas do remédio. Foi o primeiro medicamento à base de cloroquina ou hidroxicloroquina que a farmácia recebeu desde que os boatos começaram. Na parte da tarde, um rapaz passou pelo meu caixa com uma caixa de Reuquinol. E também com azitromicina, o antibiótico que geralmente é receitado junto com a cloroquina. Eu até tentei puxar assunto com ele, mas era muito mal-encarado.

Só fui fazer entrega a partir do meio-dia, quando chegou mais um funcionário. Não ganhei gorjeta nem votos de Feliz Páscoa. Mas a verdade é que não tem ninguém feliz nessa quarentena.

 

13 DE ABRIL, SEGUNDA-FEIRA_Manhã com movimento de domingo de final de mês. Bem fraco. Até as entregas estavam devagar, apenas duas. A segunda foi na Avenida Atlântica. Na volta, comecei a ouvir uma discussão. O som da briga foi ficando mais intenso e, quando procurei de onde vinha, reparei que era de um prédio. Uma moça, num dos andares mais altos, estava ameaçando se jogar da varanda. Teve uma hora em que ela se pendurou na tela de proteção, mas alguém a puxou de volta. Gelei. Acho que nunca me recuperaria do trauma que é ver um suicídio assim. Não faço ideia de quem seja essa mulher, mas hoje estou mandando pensamento positivo para ela.

Na hora do almoço, li sobre a morte do Moraes Moreira. Que triste. Como bom estudante de ciências humanas, ouvi muito os Novos Baianos durante os anos de faculdade. Minha tia me falou que o Moraes Moreira era amigo do balconista de uma farmácia perto da casa dele. Me imaginei esse rapaz, não vou mentir. Seria uma honra. Acabou chorare.

 

15 DE ABRIL, QUARTA-FEIRA_Hoje eu completo um ano na farmácia. É uma mistura de sentimentos. Existe a frustração por eu não estar trabalhando na área em que me formei, mas existe também o orgulho. Orgulho por saber que trabalho bem, que todo mundo, nas três lojas por onde passei, gosta de mim. Aprendi muito neste ano. Passei a pesquisar sobre os princípios ativos dos medicamentos, coisa que nunca antes tinha imaginado fazer.

Minha história com essa farmácia é um pouco curiosa. Quem me indicou foi uma amiga querida, que conheço da época em que eu frequentava a comunidade da Joss Stone no Orkut. Ela ficou com pena de mim, no ano passado, quando viu uma postagem que fiz sobre os sucos que eu estava vendendo no trem. Naquela época, eu trabalhava como massoterapeuta – o que ainda faço nas horas vagas –, mas fazia uma semana que não tinha nenhum cliente. Como estava parado, tive essa ideia dos sucos de laranja e maracujá. Preparei o suficiente para umas vinte garrafinhas e assim fui camelô de trem por dois dias. Vendi todos em menos de duas horas. Como amo um elogio, eu perguntava para alguns clientes: “Tá gostosão, né?”

Essa minha amiga é farmacêutica e trabalha na empresa há cinco anos. Com bastante moral aqui dentro, ela me indicou para uma entrevista, e fui aprovado. Comecei numa loja na Visconde de Pirajá, em Ipanema, das 7 horas às 15h20. Mas, como a gerente regional logo gostou de mim, três meses depois me transferiu para uma loja de Copacabana. De início foi horrível, porque o movimento é infinitamente maior. Demorei para acostumar meu corpo ao novo ritmo de trabalho. Em janeiro, fui promovido a atendente 2 e mudei de filial mais uma vez (mas ainda em Copacabana).

Esse tempo entre Ipanema e Copacabana serviu para que eu entendesse bem melhor a Zona Sul. Para muitas pessoas do subúrbio, a Zona Sul é uma coisa só. Agora que vou todos os dias, consigo enxergar bem as diferenças. Catete, Glória e Laranjeiras são bairros de classe média pouco elitizados. Flamengo e Botafogo são também de classe média, mas com algumas pessoas de classe alta. Copacabana é bem menos elitizado do que parece. Tem gente de classe alta, mas boa parte é falida. O que mais vejo na farmácia é gente implorando um desconto. Claro que há uma diferença abissal entre o custo de vida de Copacabana e o de qualquer lugar da Zona Norte ou da Baixada Fluminense. Mas Copacabana está longe de ser um bairro só de rico.

Ipanema, Leblon e Gávea são os bairros que mais se aproximam do imaginário propagado no subúrbio do que é a Zona Sul. Em Ipanema, eu atendia muito mais gente nitidamente endinheirada do que em Copacabana, e foi lá que vi empregadas domésticas uniformizadas, que para mim, até então, eram apenas personagens das novelas de Manoel Carlos. Como iam fazer compras na farmácia, eu conversava com elas. Eram em geral mulheres pretas, dando amor para os filhos brancos das patroas. Em Copacabana, atendo muita empregada doméstica, mas nunca vi nenhuma de uniforme. Eu também conversava muito com os gringos, por ser o único funcionário da farmácia que fala inglês. Eles eram muitos em Copacabana, durante o ano todo. Desde o início da pandemia, porém, os gringos sumiram.

Na parte da tarde, o gerente regional foi à nossa filial para falar sobre o farmacêutico que teve o diagnóstico de Covid-19 confirmado e ficaria mais catorze dias afastado. Explicou que uma equipe de limpeza viria desinfetar a loja.

 

16 DE ABRIL, QUINTA-FEIRA_Dia de folga. Dormir bem é delicioso demais.

Além da cloroquina, nos últimos dias o ministro da Ciência, Marcos Pontes, passou a apostar num outro medicamento que já existe – o vermífugo Annita – para combater o novo coronavírus. Pois bem, hoje ele virou um medicamento controlado, justamente por causa das fake news dos últimos dias. Agora, só com receita.

O que era esperado aconteceu. Mandetta foi demitido. Temos um presidente que demite um ministro por ele seguir as recomendações da Organização Mundial da Saúde. Chega a ser difícil acreditar nisso. Mais uma vez, teve panelaço em muitos lugares. Nilópolis não foi um deles.

Sandro Aurélio, com indumentária de trabalho: “Um rapaz passou com uma caixa de Reuquinol. E também com azitromicina. Até tentei puxar assunto com ele, mas era muito mal-encarado”

Sandro Aurélio, com indumentária de trabalho: “Um rapaz passou com uma caixa de Reuquinol. E também com azitromicina. Até tentei puxar assunto com ele, mas era muito mal-encarado” FOTO: RICARDO BORGES_2020

Sandro Aurélio, 29 anos, formou-se em jornalismo, mora na Baixada Fluminense e trabalha numa farmácia em Copacabana. No balcão ou nas entregas em domicílio, convive com clientes estressados, ouve desaforos, recebe algumas gorjetas – e ganha o dia quando é tratado com pequenos gestos de gentileza.

12
Ago21

Os crimes de Bolsonaro

Talis Andrade

 

 
 
 
 

Após os deliberados ataques à cultura, aos direitos humanos, ao meio ambiente e à democracia, o desmonte das universidades e dos sistemas de proteção das minorias, Jair Bolsonaro decidiu executar um programa necrófilo diante do mais duro teste civilizatório do nosso tempo. Enquanto assistíamos a altos esforços dos líderes mundiais no combate às causas e efeitos trágicos da pandemia de Covid-19, passamos a empilhar mais de 560 mil cadáveres e viver um sofrimento coletivo causado por um insano negacionismo.

A linha do tempo genocida é notória. Primeiro ignorou a seriedade da epidemia, minimizando com irresponsabilidade suas consistentes projeções internacionais. Passou ao curandeirismo oficial, com o estímulo de falsos tratamentos. Suprimindo a autonomia de ministros técnicos, o presidente avocou responsabilidades e optou pela ignorância em detrimento da ciência. O estímulo a aglomerações, o desrespeito às vítimas e a repulsa a sentimentos solidários aos familiares revelavam um execrável desprezo à vida.

Negligenciou a compra de vacinas, levantando suspeitas sobre sua comprovada eficácia. Vetou a obrigatoriedade de máscaras, permitiu o funcionamento de atividades econômicas não essenciais, desestimulou o isolamento social; condenou ações públicas imprescindíveis de contenção da pandemia, manipulou dados e promoveu desinformação, distorcendo estudos acadêmicos. Sob seu comando, a União falhou no contingenciamento de insumos médicos, causando a morte de cidadãos do Amazonas ao negar os esforços possíveis para o fornecimento urgente de oxigênio.

 
Como se todo esse mosaico já não fosse insuportável, Bolsonaro passou a promover criminosas agressões à honra dos ministros Luís Roberto Barroso e Alexandre de ​Moraes, juristas e homens públicos de biografias exemplares. Não estamos diante apenas de calúnias pessoais, mas de um assalto à independência de um dos Poderes da República.
 

Esse método autoritário é antigo, desde a completa desestruturação pelo nazismo do Judiciário alemão, mediante o banimento dos juízes sociais-democratas, comunistas e judeus, passando pelo afastamento de membros de cortes supremas nas ditaduras latino-americanas —inclusive no Brasil, com a aposentadoria compulsória dos ministros do Supremo Tribunal Federal Evandro Lins e Silva, Vitor Nunes Leal e Hermes Lima, decretada pela ditadura militar após a edição do AI-5.

Por esses episódios nefastos da história, a Assembleia Geral da ONU, em 1985, declarou que a independência da magistratura será garantida pelo Estado e consagrada na Constituição e que os juízes devem decidir todos os casos sem aliciamentos, pressões, ameaças ou intromissões indevidas.

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), tem o dever de admitir o processo de impeachment, e a Procuradoria-Geral da República precisa cumprir sua obrigação constitucional e denunciar o presidente em razão dos diversos crimes que vem praticando ao longo dos últimos meses, responsabilizando Bolsonaro pelas mortes que causou e pelos graves atentados ao funcionamento do Poder Judiciário.

30
Jul21

Impeachment: medalha de ouro

Talis Andrade

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Vamos falar como o cidadão comum, angustiado, que não se esconde de torcer para nossos atletas nas olimpíadas, mas que, no fundo, sabe que hoje o único pódio que interessa é a votação do impeachment

“Turbulência
O vento experimenta
o que irá fazer
com sua liberdade…”

 Hai-kai, João Guimarães Rosa

Na época do famoso caso Mensalão, havia uma maldade que corria entre os advogados, dizia-se que que a Globo investia muito na espetacularização da divulgação do processo, quase que de maneira romanceada, por ter perdido o direito de transmitir as Olimpíadas. Era uma espécie de concorrência. Claro que sabíamos que outros, muito além da audiência, eram os motivos daquela cobertura. E vimos tudo se repetir durante a Operação Lava Jato.

A verdade é que sinto agora, tantos anos depois, uma certa síndrome de abstinência com o recesso da CPI, exatamente quando as atenções se voltam para as Olimpíadas de Tóquio. Já havia manifestado minha opinião no sentido de que a Comissão não deveria ter tido recesso e que já era hora de elaborar um relatório parcial para começar a cobrar responsabilidade. Essa investigação visa descobrir e apontar os culpados pelas mortes de mais de meio milhão de brasileiros. E a omissão criminosa continua fazendo milhares de mortos todos os dias. Banalizamos a dor. Acostumamo-nos a contar os óbitos como quem conta números e não vidas. Então, como interromper a investigação? É como se tivessem pedido um tempo e parado o relógio, como se faz nos jogos de basquete. Um timeout. E nesse intervalo, as pessoas ficassem proibidas de morrer.

Repito: façamos um relatório parcial, somente com o seríssimo trabalho feito até agora para apontar os responsáveis pelo negacionismo que foi e é o responsável pelos óbitos. Compra de medicamentos sem base científica, desprezo pela vacina, política de culto à morte, enfim, tudo que a CPI já pode provar e que todos nós, o Brasil e o mundo já sabemos. Fecha.

Apontem os culpados e joguem no colo da dita sociedade organizada a cobrança a ser feita na Câmara, no Senado, no TCU, na PGR… E aí, instaura-se uma CPI parte dois: a dos corruptos, para investigar quem mercadejou com a vida!

Desculpem insistir no tema chato e pesado, entre uma tomada de onda no surfe e um lance de ousadia no skate. Mas nós somos ouro no número de mortos na olimpíada da irresponsabilidade no trato com o vírus.

Temos que entender que existem Comissões Parlamentares de Inquérito diferentes umas das outras. Lembro-me que, em 23 de março de 1994, recebi o telefonema de um colega advogado dando a notícia da prisão de um cidadão no Rio Grande do Sul que estava embarcando para Brasília, algemado, para depor numa CPI. O decreto prisional era assinado pela Presidente da Comissão. Teratológico. A ordem de prisão é ato privativo do Judiciário. Mas essa deputada, que assinou o mandado, realizava o sonho de muitos parlamentares: ocupar o lugar dos juízes. Àquela época, mal poderiam imaginar que hoje os juízes/ministros é que estão a legislar, ocupando o lugar de um Legislativo acuado e enfraquecido.

Impetrei um habeas corpus pela liberdade no STF, HC 71279/ RS, sem ter sequer acesso ao decreto de prisão. Despachei com o grande ministro Celso de Mello alegando a fé do meu grau para comprovar a veracidade dos fatos. No mesmo dia, adentrei a sessão da CPI para libertar meu cliente com um alvará de soltura nas mãos. Era o Supremo impondo limites constitucionais à CPI, e ao Poder Judiciário. Esse é o jogo democrático, todos saem ganhando com a definição clara dos poderes constituídos.

Qual a diferença dessas CPIs? Todas são importantes e a advocacia cumpre seu papel no resguardo dos direitos e garantias dos investigados, e mesmo das testemunhas. Hoje em dia, cumpre preservar até o direito dos advogados. Mas a importância fundamental e crucial é que a CPI da covid, mais do que apurar responsabilidades, tem o objetivo de salvar vidas. Esse tem que ser o compromisso principal: salvar vidas e responsabilizar os assassinos. Qualquer adiamento é perigoso.

Toda demora tem consequências. Vamos falar como o cidadão comum, angustiado, que não se esconde de torcer para nossos atletas nas olimpíadas, mas que, no fundo, sabe que hoje o único pódio que interessa é a votação do impeachment, é colocar a nossa bandeira hasteada e se emocionar ao ouvir o hino nacional dentro do Congresso, no plenário e nas galerias. Pode ser brega, mas significará que estamos tentando entrar no jogo democrático. Não existe vitória olímpica que possa superar a derrota do nosso país no trato com a tragédia sanitária. Vamos, ainda assim, nos permitir torcer e vibrar com os atletas. Sabendo que há um Brasil perplexo, triste, acabrunhado e humilhado com a condução criminosa e desastrosa desse técnico que preside o país. Resistir, com suavidade, mas com firmeza e sem medo, é a nossa única jogada. A que pode virar o jogo.

É necessário nos refugiarmos no Livro do Desassossego, do nosso Pessoa:

Na grande claridade do dia o sossego dos sons é de ouro também. Há suavidade no que acontece. Se me dissessem que havia guerra, eu diria que não havia guerra. Num dia assim nada pode haver que pese sobre não haver senão suavidade.”ImageImage

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08
Jul21

Omar Aziz responde às Forças Armadas: 'não aceitarei intimidação'

Talis Andrade

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Presidente da CPI da Covid, o senador Omar Aziz (PSD) respondeu à nota das Forças Armadas contra ele. Durante a sessão da CPI nesta quarta-feira, 7, o senador lembrou de atuais casos de corrupção no Ministério da Saúde envolvendo militares e foi atacado duramente pelo ministro da Defesa, Walter Braga Netto, e pelos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

Ao interrogar o ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde sargento Roberto Dias, Aziz declarou que “os bons das Forças Armadas devem estar muito envergonhados com algumas pessoas que hoje estão na mídia, porque fazia muito tempo, fazia muitos anos que o Brasil não via membros do lado podre das Forças Armadas envolvidos com falcatrua dentro do governo, fazia muitos anos". A declaração foi o motivo do ataque da cúpula militar contra ele. E animou Jair Bolsonaro a praticar o crime de ameaça ao estado democrático de direito.

Ameaça de golpe

bumba meu golpe.jpg

 

Disse o presidente das rachadinhas, que militarizou o Ministério da Saúde, que não aceitará o resultado das eleições presidenciais de 2022, caso não haja a implementação do voto impresso. 

“Eles vão arranjar problemas para o ano que vem. Se esse método continuar aí, sem inclusive a contagem pública, eles vão ter problema, porque algum lado pode não aceitar o resultado. Esse lado obviamente é o nosso lado, pode não aceitar esse resultado. Nós queremos transparência. […] Havendo problemas, vamos recontar”, afirmou Bolsonaro em entrevista à rádio Guaíba, de Porto Alegre. 

Sem provas, Bolsonaro atacou a credibilidade das eleições feitas por meio das urnas eletrônicas e disse que teria havido fraude nas eleições de 2014, na qual a presidenta Dilma Rousseff foi reeleita derrotando o candidato Aécio Neves (PSDB). Disse que teve fraude nas urnas que elegeu ele Zero-Zero presidente, o filho 01 Flávio Bolsonaro senador do Rio de Janeiro, o filho 03 Eduardo Bolsonaro deputado federal por São Paulo. O filho 02 Carlos Bolsonaro foi eleito vereador do Rio de Janeiro em 2020, no lugar da mãe que, desquitada perdeu o cargo. Bolsonaro não elegeu 04, Renan Bolsonaro porque impedido por lei. Idem 05, Laura Bolsonaro, nascida de uma "fraquejada".Image

"Nosso levantamento, feito por gente que entende do assunto, garante que sim. Não sou técnico de informática, mas foi comprovado fraude em 2014", mentiu Bolsonaro.

Na mesma entrevista, Bolsonaro voltou a defender o voto impresso e atacou o ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). 

"O parlamento brasileiro negociou com liderança partidária para que o voto impresso não fosse votado. Para quê? Para fraude. Brasil é o país que desponta no tocante da informatização. Por que o Japão não adota o voto eletrônico? Por que os Estados Unidos não fazem o mesmo? Porque o Barroso não quer mais transparência nas eleições, porque tem interesse pessoal", afirmou.Image

General Pazuello

Para enfrentar a covid-19, Bolsonaro nomeou um general da ativa para comandar o Ministério da Saúde, que colocou quadrilheiros para cuidar da vida do pobre povo pobre. Resultado: meio milhão de mortes. E o virus da peste correndo solto por falta de vacina. Primeiro para realizar o chamado tratamento precoce. Depois do kit cloroquina me engana, a espera pela vacina que oferecesse a maior propina. 

Bolsonaro ataca o poder desarmado da suprema justiça. Escreve Severino Goes, no Conjur - Consultor Jurídico:

O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Luiz Fux, divulgou nesta quarta-feira (7/7) uma nota na qual rebate novo ataque do presidente Jair Bolsonaro ao voto eletrônico e ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luís Roberto Barroso, além de outros ministros do Supremo. As declarações de Bolsonaro foram dadas em entrevista à Rádio Guaíba, de Porto Alegre. 

"O STF rejeita posicionamentos que extrapolam a crítica construtiva e questionam indevidamente a idoneidade das juízas e dos juízes da corte", afirmou Fux.

Sem apresentar qualquer prova, o presidente disse à emissora gaúcha que um ministro do STF está arquivando processos contra parlamentares para evitar a volta do voto impresso.

"O STF agora, não o STF, mas um ministro talvez, talvez esteja negociando isso com alguns partidos políticos. 'Olha, vamos arquivar os teus processos aqui, vamos dar um tempo, e você vota contra o voto impresso'."

Na entrevista, Bolsonaro também criticou duramente o presidente do TSE, que, para ele, está interessado em fraudar as eleições por interesse pessoal.

"A democracia se vê ameaçada por parte de alguns de toga que perderam a noção de onde vão seus deveres e direitos. Quando você vê o ministro Barroso ir ao Parlamento negociar com as lideranças partidárias para que o voto impresso não fosse votado na comissão especial, o que ele quer com isso? Fraude nas eleições", disparou.

Bolsonaro, que jamais provou sua denúncia de fraude na eleição presidencial de 2018, desta vez desafiou Barroso a apresentar provas de que as urnas eletrônicas são seguras.

"Falam que não temos como apresentar prova de fraude, eu vou apresentar. Desafio o Barroso antes, me apresente uma prova que não há fraude, que é seguro. Por que o Barroso não quer mais transparência nas eleições? Porque tem interesse pessoal nisso. Está interferindo no Legislativo. Depois da ida dele ao Parlamento, várias lideranças partidárias trocaram representantes na comissão que vão votar contra."

Em resposta às palavras do presidente da República, Fux lembrou que há limites para a liberdade de expressão.

"O Supremo Tribunal Federal ressalta que a liberdade de expressão, assegurada pela Constituição a qualquer brasileiro, deve conviver com o respeito às instituições e à honra de seus integrantes, como decorrência imediata da harmonia e da independência entre os poderes".

Outros alvos

A saraivada de críticas de Bolsonaro atingiu outros ministros do STF. Além de Barroso, ele atacou Edson Fachin, Rosa Weber, Carmen Lúcia e Marco Aurélio Mello. O presidente também fez referência a um julgamento do STF no qual os ministros decidiram que o Brasil não admite a existência de duas uniões estáveis ao mesmo tempo, o que impede o reconhecimento de direitos de amantes em discussões judiciais. Em dezembro do ano passado, a corte considerou que o país é monogâmico e rejeitou recurso em que se discutia a divisão de pensão por morte de uma pessoa que, antes de morrer, mantinha uma união estável e uma relação homoafetiva ao mesmo tempo.

A Casa do Povo

O Congresso é a Casa do Povo. Uma Casa desarmada. Uma Casa que representa o Povo, a Democracia, a Liberdade, a Fraternidade, a Igualdade.

O ministro da Defesa, Walter Braga Netto, ex-interventor de Michel Temer no Rio de Janeiro, e os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica emitiram uma nota oficial contra o presidente da CPI da Covid, senador Omar Aziz (PSD), nesta quarta-feira, 7. A cúpula militar negou ter militares envolvidos em corrupção no Ministério da Saúde

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Apesar do povo conhecer as atividades do general Eduardo Pazuello e corriola,

“O ministro de Estado da Defesa e os Comandantes da Marinha do Brasil, do Exército Brasileiro e da Força Aérea Brasileira repudiam veemente as declarações do Presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito, Senador Omar Aziz, no dia 07 de julho de 2021, desrespeitando as Forças Armadas e generalizando esquemas de corrupção. Essa narrativa, afastada dos fatos, atinge as Forças Armadas de forma vil e leviana, tratando-se de uma acusação grave, infundada e, sobretudo, irresponsável”.

“As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro”, finalizam os militares no documento.

Em sessão da CPI desta quarta, durante depoimento do ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde sargento Roberto Dias, que foi preso por ordem do presidente da comissão, Aziz afirmou que “fazia muito tempo que o Brasil não via membros do lado podre das Forças Armadas envolvidos com falcatrua dentro do governo”. O escândalo no Ministério da Saúde envolve, entre outros militares, o ex-ministro Eduardo Pazuello e o secretário executivo da pasta, coronel Élcio Franco.

Rogério Carvalho 
@SenadorRogerio
Inoportuna e inadequada essa manifestação do Ministério da Defesa. Que tenta interferir e intimidar a atuação do Senado Federal, uma instituição secular que representa a federação e o povo brasileiro.Imagem
 
Omar Aziz
@OmarAzizSenador
Prender alguém não é uma decisão fácil. Mas, não aceito que a CPI vire chacota. Temos mais de 527 mil mortos nesta pandemia. E gente fazendo negociata com vacina. A Comissão busca fazer justiça pelo Brasil.
Mais uma vez esse grupo se apega a fakenews para distorcer os fatos e criar sua narrativa. Mas a verdade sempre aparece.
Omar Aziz
@OmarAzizSenador
Estão tentando distorcer minha fala e me intimidar. Não aceitarei! Não ataquei os militares brasileiros. Disse que a parte boa do Exército deve estar envergonhada com a pequena banda podre que mancha a história das forças armadas.
 

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