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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

18
Abr20

Balé das baleias

Talis Andrade

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“Em compensação” não pode ser o começo de nenhuma frase sobre a pandemia que nos assola. Nada compensa, mitiga, inocenta, redime, atenua, suaviza ou absolve o vírus assassino, por respeito aos que ele já matou e continua matando. Portanto não veja como simpatia pelo demônio a simples constatação, noticiada pela imprensa internacional, que um efeito da pandemia e das medidas tomadas para controlá-la tem sido a queda dos índices da poluição em todo o planeta. Triste ironia: o ar se torna respirável pela diminuição da atividade industrial e a ausência de gente nas ruas justamente onde ele é mais venenoso. O demônio tem suas astúcias.

Li que os habitantes de Marselha, no sul da França, estão vendo, diariamente, um espetáculo raro. Baleias se aproximam da costa e se exibem, certamente surpreendidas pela sua própria súbita ascensão ao estrelato. O porto de Marselha é o mais importante da França, e seu movimento incessante mantém as baleias longe. Ou mantinha. Com as limitações impostas pelo coronavírus, abriu-se o espaço para o balé das baleias, que não demora estarão integradas na vida social de Marselha, provando a “bouillabaisse” do Vieux Port e dando autógrafos.

Perdão pela brincadeira, admissível num cronista inconsequente que só está tentando não sucumbir ao terror destes tempos – o equivalente literário a assoviar no escuro – mas inaceitável no humor involuntário e trágico com que o governo mais incompetente da nossa história vem tratando do assunto coronavírus, transformando o que pode significar a vida ou a morte para milhares de pessoas numa mesquinha briga de egos. Os heróis que estão na linha de frente da guerra contra o vírus, nos hospitais, arriscando sua vida pela vida dos outros, merecem, mais do que ninguém, outro governo. Nós todos merecemos outro governo. Até quem elegeu este governo, por convicção ou engano, merece um governo menos inconscientemente cômico.

 

31
Out19

Marielle na roda da História

Talis Andrade

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Por Paulo Moreira Leite

Jornalistas pela Democracia 

 

Qualquer que seja a verdade sobre a conversa de portaria no condomínio Vivendas da Barra, cabe não perder de vista o essencial.

Um ano e oito meses depois, o assassinato de Marielle Franco e de Anderson Gomes segue à espera de esclarecimentos capazes de levar ao julgamento e punição de responsáveis -- não apenas os operadores de ponta, mas os mandantes graduados.

A morte da vereadora do PSOL, em 18 de março de 2018, é o grande crime político ocorrido na estrada torta que conduziu uma democracia já esfrangalhada pelo impechament para um período de perseguição aberta e violência à espreita. A evolução dos acontecimentos tem uma cronologia clara.

Um mês antes da morte de Marielle, Michel Temer assinou o Estado de Emergência no Rio de Janeiro, entregando o segundo maior estado brasileiro, subjugado pelo poder paralelo das milícias, ao comando das Forças Armadas.

Um mês depois do assassinato, como se fosse uma sequência natural, Lula seria conduzido de helicóptero para a cela de Curitiba. Depois do assassinato impune, passou-se à prisão sem prova.

Em agosto, por 6 votos a 5, o Supremo decidiu que o candidato favorito ao pleito presidencial estava fora da campanha, decisão sacramentada por um tuíte do então comandante do Exército, general Villas Boas. Em janeiro de 2019, quando tomou posse, Bolsonaro reconheceu em voz alta que o general fora um dos responsáveis por sua  chegada à Presidência.

A história brasileira ensina que a preservação do esquema criminoso que assassinou Marielle e acobertou as responsabilidades maiores é parte essencial de mudanças recentes que ameaçam direitos e garantias conquistados com tantas dificuldades.

Acima de qualquer direito civilizatório, o segredo deve ser preservado de qualquer maneira. É o que se aprende nos manuais de guerra revolucionária dos professores da ditadura, heróis do presidente da República, que usavam até codinomes para dar choques e conduzir cidadãos indefesos para o pau-de-arara.

Quando foi possível acender luzes naquela indizível escuridão, diminuíram os crimes mais infames, a barbárie mais violenta, as atitudes mais hediondas. Nem tudo foi esclarecido, nenhum carrasco foi julgado, o que é uma lástima.

Ainda assim, por três décadas o país teve direito a encontrar-se consigo mesmo, curar  dores agudas, alimentar  esperanças.

Examinada em retrospecto, única forma de se compreender a História de um povo, a operação que assassinou Marielle Franco e Anderson representa uma tentativa de fazer a história andar para trás.

Está inteiramente ligada ao que veio depois. É preciso que seja esclarecida, para que a roda da história retome seu curso.

Alguma dúvida?

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22
Set19

Quero ver Witzel, Daniel Silveira, Rodrigo Amorim quebrar a placa do Jardim Marielle Franco em Paris

Talis Andrade

 

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A revista francesa L’Express publicou os perfis de políticos que saíram vencedores nas eleições de 2018 no Brasil. A matéria dá destaque ao fato de que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, que chamou atenção da comunidade internacional pelo discurso sexista, racista e homofóbico, está longe de ser "uma exceção" no cenário político brasileiro atual, segundo a publicação.

"Vários candidatos extravagantes foram eleitos deputados federais, estaduais ou governadores", diz a revista. "Pouco conhecidos dos brasileiros antes da campanha eleitoral, essas personalidades atípicas foram guiadas pela onda de 'renovação' e 'cansaço' que levou o ex-capitão do Exército à presidência do país. [...] É o caso do novo governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. Adepto de um discurso forte na cidade dominada pela violência, Witzel sugeriu o uso de armas e até mesmo de drones para abater os criminosos nas favelas", afirma L’Express.

A publicação lembra que o partido de Bolsonaro, o PSL, passou de um parlamentar desde as últimas eleições a 52 em 2018, tornando-se o segundo maior partido na Câmara dos Deputados. Entre os eleitos, "há quem se veste com roupas de estampa militar, como é o caso de Daniel Silveira, que, durante a campanha eleitoral foi fotografado destruindo uma placa em homenagem a Marielle Franco, veredora do Rio assassinada em março de 2018". Leia mais

Transcrevo do jornal O Globo:

Um vídeo gravado ao vivo, no domingo anterior à eleição, mostra Witzel junto com Daniel Silveira, eleito deputado federal pelo PSL, e Rodrigo Amorim, deputado estadual mais votado do Rio, também pelo PSL, durante ato de campanha em Petrópolis, na Região Serrana.

No começo do vídeo, Witzel pede votos para Silveira e depois a câmera mostra o discurso de Amorim em cima do carro de som:

"Marielle foi assassinada. Mais de 60 mil brasileiros morrem todos os anos. Eu vou dar uma notícia para vocês. Esses vagabundos, eles foram na Cinelândia, e à revelia de todo mundo, eles pegaram uma placa da Praça Marechal Floriano, no Rio de Janeiro, e botaram uma placa escrito Rua Marielle Franco. Eu e Daniel essa semana fomos lá e quebramos a placa. Jair Bolsonaro sofreu um atentado contra a democracia e esses canalhas calaram a boca. Por isso, a gente vai varrer esses vagabundos. Acabou Psol, acabou PCdoB, acabou essa porra aqui. Agora é Bolsonaro, p***", gritou Amorim pelo microfone.

Neste sábado, em Paris, foi inaugurado o Jardim Marielle Franco.

O jardim Marielle Franco, situado ao logo da via férrea no 10° distrito da cidade, é um espaço suspenso de 2.600m² ao composto por cerca de 70 árvores, a maior parte delas frutíferas. O acesso é feito pela rua d’Alsace.

Jardim Marielle Franco junto à Gare de l’Est, uma das principais estações de trem de Paris.Mairie 10
 

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Lá no Jardim, em Paris, a placa lembra o martírio, o heroísmo, a coragem, o idealismo de Marielle Franco, sua luta pelos Direitos Humanos, pela Democracia, pela Liberdade, pela Igualdade, pela Fraternidade. Lembra também a covardia dos políticos milicianos do Rio de Janeiro. Eis a placa do Jardim que eles jamais terão a audácia de quebrar:
 

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04
Abr19

A extradição de Olga Benário, que lutou contra a polícia e a justiça nazistas

Talis Andrade

Ernesto Araújo, o discípulo amado de Olavo de Carvalho, astrólogo do bolsonarismo, está escrevendo uma justificativa para a extradição de Olga Benário (Olga Gutmann Ben-Ario) ocorrida em 23 de setembro de 1936. 

O analfabeto do Ernesto compara Olga com Gustav Franz Wagner, um carrasco genocida, protegido do procurador Henrique Fonseca de Araújo, um nazistóide.

  

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Olga Benário

Escreve Sergio Caldieri: Anita Prestes fez um emocionante relato da vida de Olga Benário sacrificada no campo de concentração nazista Bernburg, na Alemanha, em 1942, depois do julgamento e deportação pelos juízes STF dos mesmos togados de capa preta. Olga era filha de um casal abastado em Munique. Seu pai era advogado social democrata e sua mãe filha de banqueiros. Ela saiu de casa aos 16 anos para se juntar à Juventude Comunista de Berlim, onde conheceu Otto Braun, depois seu namorado. Otto foi preso e Olga conseguiu entrar na prisão de Moahit, conseguindo libertá-lo. Fugiram para Moscou, tornaram-se militantes do Cominter, recebendo treinamentos de tiros e paraquedismo.

Olga foi convocada para fazer a segurança do líder comunista Luiz Carlos Prestes que estava exilado trabalhando como engenheiro na Rússia e pretendia voltar ao Brasil. Olga já tinha conhecimento do famoso revolucionário Cavaleiro da Esperança. Em dezembro de 1934, arrumaram documentos falsos como se fossem um casal de portugueses em lua de mel, passando por vários países na Europa, EUA, América Latina e por Buenos Aires e Montevidéu.

Chegaram ao Rio de Janeiro e foram morar no Méier em março de 1935. Quando os gorilas do Filinto Muller descobriram o paradeiro de Prestes, os policias invadiram a casa e Olga se postou na frente de Prestes dizendo que não podiam atirar, pois estava grávida. Foram separados e presos. Olga ficou na Casa de Detenção, na Rua Frei Caneca, onde estavam várias prisioneiras, entre elas, a advogada Maria Werneck de Castro, a psiquiatra Nise da Silveira, a poeta Beatriz Bandeira, que depois casou com Raul Ryff, a jornalista Eneida de Moraes e a atriz Eugênia Moreyra, esposa do escritor Alvaro Moreyra. Com decisão do STF, embarcaram Olga Benário e Elise Ewert na calada da noite no navio cargueiro La Curuña direto para Hamburgo, sem nenhuma escala em países europeus, pois os estivadores dos portos da Espanha e França estavam dispostos a entrar no navio para resgatar Olga Benário e Elise. Foram para prisão de Barnimstasse, em Berlim. Já havia um clamor mundial pela libertação por Olga Benário. Prestes estava preso e ficou durante 9 anos incomunicável debaixo de uma escada num porão de uma delegacia no Morro da Conceição, no Rio de Janeiro. O advogado Sobral Pinto exigiu do governo a aplicação do artigo 14 da Lei de Proteção aos Animais para retirar da prisão Elisa Ewert. Como foi advogado de Luiz Carlos Prestes e Harry Berger, que foi barbaramente torturado pelos gorilas do capitão Filinto Muller.

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Fotos dos passaportes de Luiz Carlos Prestes e Olga Benário como os portugueses Antônio Vilar e Maria Bergner (fonte: site da revista História Viva)

 

19
Set18

Dilma repudia preconceito de Mourão contra mães e avós "heroínas"

Talis Andrade

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Em palestra na ACSP,  o general Hamilton Mourão falou sobre as declarações dadas na segunda-feira na qual ligou famílias pobres "onde não há pai e avô, mas sim mãe e avó" a uma "fábrica de desajustados", que fornecem mão de obra ao narcotráfico.


"Um órgão de imprensa disse que critiquei as mulheres, estou apenas fazendo a constatação de coisas que ocorrem em comunidades carentes, com famílias lideradas por mães e avós, pois o homem ou morreu ou está preso, e a maioria dessas mulheres são trabalhadoras, cozinheiras, faxineiras e não tem com quem deixar seus filhos porque não tem creche e escola de tempo integral, então, essa criança vira presa fácil do narcotráfico."


"Não sou antidemocrático, se fosse não estaria disputando essas eleições, estaria em casa limpando as minhas armas."


Na palestra, ele citou ainda a prioridade, em um eventual governo de Jair Bolsonaro, da urgência de se colocar em execução da reforma da Previdência. "Estamos nos aposentando cedo demais, expectativa de vida aumentou mais 20 anos", emendou.

 

Marcelo Rubens Paiva: "Fui criado pela minha mãe e irmãs porque a ditadura matou meu pai"

 

O jornalista e escritor Marcelo Rubens Paiva repudiou a declaração do general Hamilon Mourão (PRT) sobre mães e avós.

 

"Mourão afirma nas entrelinhas que mulher não sabe criar filhos. Fui criado pela minha mãe e irmãs, porque a ditadura matou meu pai aos 11 anos, e meu avô morreu de tristeza dois anos depois. Por isso que sou um desajustado", afirmou o escritor no Twitter.

 

De acordo com o general, "a partir do momento em que a família é dissociada, surgem os problemas sociais". "Atacam eminentemente nas áreas carentes, onde não há pai e avô, mas sim mãe e avó. Por isso, é uma fábrica de elementos desajustados que tendem a ingressar nessas narco-quadrilhas".

 

Mourão afirma nas entrelinhas que mulher não sabe criar filhos. Fui criado pela minha mãe e irmãs, pq a ditadura matou meu pai aos 11 anos, e meu avô morreu de tristeza dois anos depois. Por isso que sou um desajustado.

 

"Repudiamos o preconceito de quem é indiferente ao amor verdadeiro de milhões de mulheres, mães e avós"

 

A presidente deposta pelo golpe e candidata do PT ao Senado por Minas Gerais, Dilma Rousseff, manifestou seu repúdio contra o preconceito do general Mourão (PRTB), que chamou de "fábrica de elementos desajustados" para o tráfico os lares formados apenas por mães, avós e seus filhos e netos, sem a presença de pais ou avôs.

 

"No Brasil, segundo o IBGE, há 11,6 milhões de lares formados por mulheres e seus filhos, sem a presença de cônjuges masculinos. Minha solidariedade às mães e avós que heroicamente criam os seus filhos e netos sozinhas", postou Dilma no Twitter. "Repudiamos o preconceito de quem é indiferente ao amor verdadeiro de milhões de mulheres, mães e avós. Meu respeito e admiração a todas elas", acrescentou.

 

Em evento do Sindicato da Habitação (Secovi), em São Paulo, Mourão declarou: "Família sempre foi o núcleo central. A partir do momento que a família é dissociada, surgem os problemas sociais que estamos vivendo e atacam eminentemente nas áreas carentes, onde não há pai nem avô, é mãe e avó. E por isso torna-se realmente uma fábrica de elementos desajustados e que tendem a ingressar em narco-quadrilhas que afetam nosso país".

 

Nesta terça, ele tentou consertar a declaração, mas piorou, ao atacar os homens das regiões mais pobres pobres. "Ontem, numa exposição similar a essa, em outro ambiente, eu deixei claro que esse atingimento da família é muito mais crucial nas nossas comunidades carentes, onde a população masculina ou está presa, ou está ligada à criminalidade ou já morreu, e que deixa a grande responsabilidade por levar a família à frente nas mãos de mães e avós", disse.

 

 

23
Jun17

Soledad Barrett

Talis Andrade

 

 

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Mãe, me entristece te ver assim
o olhar quebrado dos teus olhos azul céu
em silêncio implorando que eu não parta.


Mãe, não sofras se não volto
me encontrarás em cada moça do povo
deste povo, daquele, daquele outro
do mais próximo, do mais longínquo
talvez cruze os mares, as montanhas
os cárceres, os céus
mas, Mãe, eu te asseguro,
que, sim, me encontrarás!
no olhar de uma criança feliz
de um jovem que estuda
de um camponês em sua terra
de um operário em sua fábrica
do traidor na forca
do guerrilheiro em seu posto
sempre, sempre me encontrarás!

Mãe, não fiques triste,
tua filha te quer.

 

 

---

Álbum Por que as poetisas são lindas?

Último poema de Soledad Barrett, antes de ser torturada e assassinada no Recife, durante a ditadura militar.

Tradução do romancista Urariano Mota, romancista e biógrafo da poetisa mártir 

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