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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

26
Mar21

Na contramão

Talis Andrade

Charge de Miguel Paiva

 

por Miguel Paiva /Jornalistas pela Democracia

- - -

São muitos os significados dos gestos que fazemos com as mãos. O presidente adora fazer o da arminha, com o dedo polegar levantado e o indicador apontando para o alvo. Ai que medo! Tem o do rock and roll que é aquele que levanta o indicador e o mindinho. Tem o hang loose dos surfistas, o do dedo maior de todos pra cima num claro “aqui ó”. Mas temos também o dos dedos em v do paz e amor, símbolo dos hippies que veio do V de vitória, o do mindinho erguido que é para trocar de mal, tão bonitinho, o da mão girando pelo polegar na outra palma para dizer que está passando a mão na grana, a mão fechada dando uma banana, os dois dedos cruzados que mostram o quanto estamos torcendo para este país retomar o rumo da democracia e ao mesmo tempo correndo do dedo-duro que nos aponta. 

Mas tudo bem, levantemos o polegar em um claro OK e batamos a palma da mão esquerda na mão direita fechada num saudoso top-top eternizado pelo Henfil. Só não vale fazer o coraçãozinho com as duas mãos. Esse é muito cafona. 

Mas o Filipe Martins, assessor do homem, foi escolher o pior gesto, o da supremacia branca, o indicador e o polegar unidos em circulo e os outros três abertos. Esses fazem o W e os outros dois o P- White Power. Nojento. Coloco a mão na boca para não vomitar. Quem quiser erguer as mãos para os céus pedindo benção porque acredita, erga. Eu que não acredito prefiro erguer a mão esquerda com o punho cerrado como faziam os Panteras Negras.

Nessa guerra de mãos eles vem com a mão que apedreja, as mãos bobas, na mão grande, lavando as próprias mãos sujas. Nós não largamos a mão do outro. Damos nossas mãos seguindo em mão dupla ou tripla, mas jamais em mão única. Dependendo de quem está do outro lado pode até ser na contramão. Só não podemos ficar de mãos atadas.

Mas vamos logo que hoje em dia não dá mais para confiar nem nas linhas das mãos. São linhas tortas em mãos suadas, escondidas nos bolsos, segurando armas, apontando para culpados que não existem, batendo, enforcando, tirando as máscaras e contaminando.

Que a mão esquerda, mesmo faltando um dedo nos guie, nos ajude, nos dê uma mão para encontrar a mão certa dessa estrada, a mão livre que trabalha a terra, dirige os trens e caminhões, abre as portas, acende as luzes, constrói, pinta e borda. Queremos fazer somente um gesto a mais, entrelaçar as mãos com outras mãos e ajudar a apertar esse abraço que tanto queremos dar e ainda não podemos. Mas é só sentar e contar nos dedos das mãos o tempo que falta.

08
Ago18

Cartas do Pai: “Decisões injustas do Judiciário”

Talis Andrade

justiça por henfil.jpg

Será que alguém tem alguma dúvida de que lado da história você estaria hoje, pai? Tenho certeza que continuaria do lado esquerdo da história, sempre a favor da quebra de decisões injustas do Judiciário, e a favor da democracia!

 

por Ivan Cosenza de Souza

 

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Rio de Janeiro, 7 de agosto de 2018

Pai,

Semana passada, me perguntaram se você “iria apoiar a quebra de uma decisão do Judiciário”. Confesso que fiquei meio surpreso com a pergunta, pois durante toda a sua vida foi exatamente o que você fez! Aliás, você não só apoiou, você lutou pela quebra da decisão do Judiciário, que legitimou o golpe de 64.

 

Lutou pela quebra da decisão do Judiciário, que legitimou o AI-5.

 

Lutou pela quebra da decisão do Judiciário, que legitimou o fechamento do Congresso.

 

 

Lutou pela quebra da decisão do Judiciário, que legitimou os mandados de prisão dos meus tios, Betinho, Gildásio, Gilse e Gilseone, por serem contra o Golpe Militar.

 

Lutou pela quebra da decisão do Judiciário, que legitimou a censura que tanto lhe perseguiu, e aos seus colegas do Pasquim… e a tantos outros!

 

 

Lutou pela quebra da decisão do Judiciário, que legitimou tantas outras barbaridades…

 

Você era a favor da justiça, coisa que o Judiciário normalmente não é, quando se trata de política. Será que alguém tem alguma dúvida de que lado da história você estaria hoje, pai? Tenho certeza que continuaria do lado esquerdo da história, sempre a favor da quebra de decisões injustas do Judiciário, e a favor da democracia!

 

Continuamos aqui, lutando contra qualquer tipo de ditadura, inclusive a do Judiciário!

 

Um beijo do seu filho,

Ivan

 

Ivan Cosenza de Souza, cronista, produtor cultural, curador da obra de Henfil, seu pai, e presidente do Instituto Henfil. Escreve as Cartas do Pai para a Revista Fórum.

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