Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

22
Mai22

A resistência da democracia (por Gustavo Krause)

Talis Andrade

democracia thiago.jpg

 

por Gustavo Krause

- - -

A irreverência de Nelson Rodrigues definiu o prazer da releitura: “Deve se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três a quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obstinada pertinácia”.

Carinhosamente, retirei da biblioteca um livro com as marcas de frequentes consultas – O Tempo da Memória – De senectute e outros escritos autobiográficos – do admirável pensador Italiano (Turim), Noberto Bobbio (1909-2004).

“A velhice é um tema não-acadêmico. Sou um velho professor. Permitam-me falar, desta feita, não como professor, mas como velho”, à época, com 84 anos, dizia que ultrapassara a terceira se encontrava na quarta idade.

O livro é um emocionante tratado de sabedoria humana. Filósofo da Política e do Direito, Bobbio foi, também, “um filósofo militante” no enfrentamento à monstruosidade das ditaduras, a exemplo do fascismo que assassinou Carlo Rosselli, jovem autor de: “O socialismo liberal”.

Paradoxal, era um “dualista impenitente”; declarava fervorosa afeição pelos clássicos; pertencia a linhagem dos que acreditam que “a virtude está no meio”; exerceu, sempre, a moderação na função mediadora do intelectual diante de dogmatismos opostos; rejeitava os “ismos”, porque “os ismos fecham”, o que conferiu a Bobbio a singularidade de ser moralmente liberal, radicalmente democrata e teleologicamente socialista.

Ao longo da releitura, fiquei a imaginá-lo, defensor da democracia, dos direitos humanos e da paz, testemunhando as graves ameaças da sedução populista, do desrespeito aos direitos do indivíduo e à paz mundial.

Os índices que medem o estado da democracia no mundo não são animadores. O relatório do Instituto V-DEM sobre a variação das democracias, ligado à Universidade de Gotemburgo num ranking de 202 países, 450 indicadores, revelou que a população mundial, sob regimes ditatoriais, subiu, na última década de 49% para 70%. O Brasil foi o quarto que mais se afastou da democracia.

Por sua vez, o Índice de Democracia, criado pela revista The Economist, avalia 167 países, com base em cinco critérios, para definir democracia plena, democracia imperfeita, regimes híbridos e regimes autoritários. O Brasil se enquadra na categoria imperfeita em 52% lugar.

É preciso resistir às reiteradas tentativas de retrocesso democrático.

Com a experiência de “filho do século XX”, Bobbio diria: “Prefiro falar de transformação e não de crise, porque ‘crise’ nos faz pensar num colapso iminente. A democracia não goza no mundo de ótima saúde, como de resto jamais gozou no passado, mas não está à beira do túmulo”.

Charge: tribunadainternet.com.br

24
Abr22

Favela holding

Talis Andrade

favela 11-milhoes-e-meio-de-pessoas-no-brasil-vive

 

Os moradores de favela movimentam cerca de R$ 63 bilhões/ano gerados pelo empreendedorismo de 24 empresas, agrupadas na Favela Holding

 
 
por Gustavo Krause
- - -
 

“Quando você evita um termo para se livrar do estigma, como é o nome Favela, você reforça o estigma. Você não pode mudar o nome do lugar, mas você pode mudar a realidade”.

O autor é Celso Athayde, nascido em 1963, empresário, produtor de eventos e ativista social. Completando o currículo: nasceu na Baixada Fluminense, onde viveu até os sete anos, criado na Favela do Sapo. Antes de completar 20 anos, já havia morado em três favelas, em abrigos e na rua.

Hoje, autodidata, é coautor com o rapper MV Bill do livro Falcão – Mulheres do Tráfico, do documentário Falcão – Meninos do Tráfico, fontes para e Cabeça de Porco, livro de autoria do sociólogo Luiz Eduardo Soares.

A obra mais recente (três edições, a primeira em 2014), Um País Chamado Favela – A maior pesquisa já feita sobre a favela brasileira, Renato Meirelles&Celso Atahyde, revela dados impressionantes sobre o desafiador fenômeno urbano brasileiro que expõe a cidade partida entre “o asfalto e a favela”.Um país chamado favela | Amazon.com.br

Mesmo considerando a visão crítica da academia sobre a pesquisa, Luiz Eduardo Soares adverte: “A obra inaugura um novo momento, um tempo de abertura, liberdade crítica, diversidade. A era em que não é mais preciso crachá e diploma para se fazer ouvir e para escrever a história do nosso país”.

O ponto de partida foi a criação da CUFA, (Central Única das Favelas), idealizada e fundada por Celso Athayde em 1999, Organização Não-Governamental que promove um amplo e diversificado repertório de projetos sociais. Hoje, está presente nos 27 estados brasileiros em 17 países.

O conhecimento de quem teve a favela por berço não submeteu Celso ao destino da vitimização ou da idealização poética de que “morava pertinho do céu”. Entendia do assunto e se propôs a mudar, com a força da união, o roteiro da tragédia pessoal e social.

Criou o lema: “Favela não é carência, favela é potência”. Partiu da CUFA, para explorar o empreendedorismo social. Atualmente, é o CEO da Favela Holding, grupo de 24 empresas a exemplo de logística, passagens aéreas, economia criativa e vários segmentos que movimentam cerca de R$ 63 bilhões/ano.

A Favela Holding está lançando um fundo de venture capital de R$ 50 milhões para startups. Neste mês de abril, ocorreu, em São Paulo a 1ª Expo Favela. Em maio, Athayde receberá, em Davos, o Prêmio de Empreendedor de Impacto Social e Inovação da Fundação Schwab.

Por aqui, as favelas permanecem invisíveis para os governos.

 

Numinosum Teologia: FAVELA CARIOCA [CHARGE]

 

17
Abr22

A ressurreição

Talis Andrade

 

A encenação da peça de “A Paixão de Cristo de Nova Jerusalém” no maior teatro ao ar livre do mundo 

 
por Gustavo Krause
 
Os cinquenta quilômetros do percurso que separa Caruaru do Teatro de Nova Jerusalém, em Fazenda Nova, distrito do município do Brejo da Madre de Deus, são ladeados de terra seca, esturricada, paisagem típica do semiárido. Nela, o heroico mandacaru, com longos e verdes braços, clamando pelo milagre da chuva, convive com o testemunho mudo do rebanho de pedras, rochas, desafiando a força transformadora da capacidade humana.
 

Pois bem, do sono das pedras nasceu o sonho de construir o que se tornou o maior teatro ao ar livre do mundo: uma obra monumental com nove palcos, setenta torres, cercada por uma muralha de 3.500 metros.

Por mais de quatro décadas, convivi com a obstinação do idealizador: Plínio Pacheco, autêntico visionário, senhor do sonho e operário da gigantesca obra. Pele alva, tostada pelo sol das longas jornadas de trabalho, o franzino Plínio Pacheco mais parecia o nordestino teimoso do que um gaúcho dos pampas, berço de nascença.

Ao lado de Diva, uma verdadeira “Diva” no ambiente cultural, artistas talentosíssimos e incansáveis trabalhadores, atravessou um deserto com coragem e abnegação. Ao final, legaram a Pernambuco e ao mundo, o magnífico Teatro que, por 54 anos, abrigou a encenação da “Paixão de Cristo de Nova Jerusalém”.

A monumentalidade da obra está à vista para o espanto de todos que a visitam. Palavras são insuficientes para descrevê-la. Arrisco, pois, a falar não do que se vê, mas do que se sente.

Cada polegada de areia, pedra e sol exalam o sagrado, o profano, o místico, o belo, o trágico, o poético, o épico e o transcendental. Impossível escapar da emoção que contamina e envolve a multidão de espectadores/atores.

A figura austera de Plinio, uma fruta fina de casca grossa, assumiu lições da poética cabralina “Educação Pela Pedra” na “sua carnadura concreta”, quando percebeu que “(de dentro para fora), a pedra, uma pedra de nascença entranha a alma”.

Se em Drummond “no meio do caminho tinha uma pedra”, para Plinio, as pedras foram o próprio o caminho de uma sólida criação com profundo significado.

O ator que interpreta Jesus afirmou: “Amigos, chegou a hora de purgar os males dos vilões que andei fazendo”. Gabriel Nunes pressentiu a faísca redentora do Personagem e, como ator consagrado, dividiu com a plateia.

Em tempos de violência, o espetáculo reitera a vitória do amor sobre o ódio e celebra a ressurreição frente ao horror da pandemia. A vida do Teatro segue sob a liderança de Robson Pacheco.

10
Abr22

O bezerro de ouro

O Estado brasileiro foi capturado pelo crime organizado da corrupção. O tesouro virou propriedade do

Talis Andrade

bezerro de ouro.jpg

 

por Gustavo Krause

- - -

Poder e Estado são palavras de amplo significado. As ciências sociais delas se ocupam como fenômenos em tempos e formas distintas. Segundo Weber, passam a ter uma relação simbiótica na medida em que o Poder “é toda chance, seja ele qual for, de impor a própria vontade numa relação social, mesmo com a relutância dos outros”. Esta chance é o Estado racional, como espaço de dominação, que “exerce o monopólio da coação física legítima”.

É melhor ficar por aqui. O campo teórico é muito vasto. Neste ano, Poder e Estado são objetos de acirrada disputa eleitoral. E neste procedimento, nossa cultura política mostra rugas e males de um carcomido padrão de comportamento, aferrado às raízes históricas do patrimonialismo.

As campanhas, formalmente disfarçadas de pré-candidaturas, estão nas ruas. Ao arrepio das leis, os postulantes fazem propaganda e pedem votos. Concluído o prazo da “janela de infidelidade”, cada um se agrupa em busca da reeleição. Com uma especial característica: o nosso Parlamento é o mais caro do mundo.

Debate sério e programas partidários, nem pensar. O que está em jogo é o Poder e a consequente captura do Estado como uma fonte inesgotável de privilégios e favores: uma espécie de terra prometida onde jorra mel da fortuna para poucos e fel dos desmandos para muitos. O que vale é “se dar bem”. Às favas o interesse público.

Apurados os votos, o governismo impenitente prevalecerá: o mandato é um valioso ativo no jogo “toma lá dá cá”. No mercado de capitais, se investe em ações; na eleição, em votos.

Resultado: o estado brasileiro é o inferno burocrático para o cidadão comum e o paraíso de delinquentes e associados. Estes associados são os cães farejadores da origem e do destino dos recursos públicos: saúde, educação, obras e emendas/municípios.

Sempre “amigos” e aduladores dos poderosos, são bregas, “simpáticos” ou “paus-mandados”. Lobistas devidamente regulamentados? Jamais, o PL 6232 de Marco Maciel é de 1990. Aperfeiçoaram e organizaram o crime da corrupção na captação e manejo dos valores: do pixuleco às rachadinhas; do dinheiro vivo às criptomoedas.

A cada escândalo sucede outro numa velocidade que anestesia a indignação. O mais recente envolve autoridades e pastores. Transformaram o tesouro num mundano “Bezerro de Ouro” de forma tão literal que exigiram pepitas do melhor quilate. Isso, pagamento em barras de ouro!

PS. Recomendável a releitura bíblica: os fariseus, vendilhões do Templo, esgotaram a santa paciência de Cristo e tiveram a reação merecida.

Image

03
Abr22

Se Noronha falasse

Talis Andrade

 

por Gustavo Krause

- - -

Começaria pedindo humildemente ao distinto público “Paz e Respeito”. Não lhe faltariam razões. O nascimento do arquipélago de origem vulcânica no meio do mar é um ato de rebeldia geográfica que aflora frente ao gigantesco oceano. Inspira, como seus irmãos espalhados, mundo afora, sentimentos díspares: desafiam e encantam; enternecem e assustam; aconchegam e isolam. Todos têm atributos paradisíacos.

Quem sabe se o ficcionista Thomas Morus (1480-1535) não escreveu a Utopia (1516) a partir do sonho com uma comunidade insular. Morus propunha atualíssimas regras de preservação ecológica a começar pela limitação do número de habitantes; “viver de acordo com a natureza”; proibir que se “tragam coisas sujas para evitar a poluição e a doença; cuidar do “Rio Anidro” fonte escassa de água potável; enfim, acreditar que o engenho humano pode construir uma sociedade em que haja equilíbrio nas relações Homem/Natureza, indivíduo/coletividade, prosperidade geral/bem-estar social.

No mundo real é diferente. Por que não buscar a “utopia concreta”, vertida, simplesmente, no conceito de sustentabilidade?

Com mais ênfase, afirmaria Noronha: “este é o meu destino e vocação” (Americo Vespúcio já dissera “o paraíso é aqui”). “Desde que nasci, vivo sob o clima da instabilidade, da insegurança e das dúvidas: Loronha ou Noronha? Descoberta em 1501 ou 1503? Capitania Hereditária que não conheceu seu dono? Provei de tudo: abandono, invasão, presídio, Território Federal Militar na II Guerra Mundial, Território Federal e, por força do artigo 15 do Ato Das Disposições Constituições Transitórias, a reincorporação da área ao Estado de Pernambuco”.

A partir de então, um conjunto de normas alicerçam o esquema de proteção à Unidade de Conservação do Arquipélago: o Dec. 92.755/86 definiu uma Área de Proteção Ambiental; o Dec. 96.693/88 que criou o Parque Nacional Marinho; no âmbito estadual, decreto estadual 13.553/89 declarou o Arquipélago como Área de Proteção Ambiental.

Do ponto de vista formal, o valioso ecossistema de Noronha estava delineado, culminando com reconhecimento, em 2001, pela UNESCO como Patrimônio Natural da Humanidade. O grande desafio tem sido adotar no plano político-administrativo medidas que assegurem a preservação ecológica e a atração do ecoturismo, uma das grandes potencialidades econômicas do século XXI.

De fato, além de intervenções na infraestrutura, obedecidos critérios de sustentabilidade, houve uma significativa mudança cultural dos empreendedores: compreenderam que os peixes vivos valem mais do que as “vítimas” da pesca predatória e o valor da água limpa é uma resposta saudável e civilizada aos danos da água poluída.

Trata-se, no entanto, de luta permanente. Noronha ganhou a relevância de objeto do desejo exatamente porque fez prevalecer a integridade do ecossistema. O jogo das pressões políticas e a visão equivocada de que economia e meio ambiente são incompatíveis ameaçam a sustentabilidade do Arquipélago.

Assustado, Noronha mandou um grave alerta às autoridades brasileiras e a todos que, no Planeta Terra, são apóstolos dos cuidados com natureza viva e generosa: “a passagem do ‘boi e da boiada´ é uma agravante métrica do crime ambiental: por onde passam golfinhos, mamíferos sociáveis, passam, também, cardumes de ‘tubarões’ famintos de fauna e de lucros.

Uma demanda judicial movida pelo Governo Federal (AGU), junto ao STF sob a argumentação do descumprimento por Pernambuco das cláusulas dos acordos celebrados entre a União e o Estado, ratifica a supremacia do conflito sobre a serenidade do diálogo. Noronha precisa e pede paz. Importante registrar: o atual governo não tem demonstrado o menor compromisso com a questão ambiental.

E por que merece respeito? Porque é “um bem da vida” tal como o poeta Thiago de Mello se referia à Amazônia.

E “Cancún” não é aqui.

Pernambuco e União duelam por Fernando de Noronha | Brasil | Valor Econômico

27
Mar22

Parlamentares, anões ou gigantes?

Talis Andrade

por Gustavo Krause

- - -

A maior prova de resistência física e mental a que se submete o ser humano não é a disputa por uma medalha olímpica: é disputar, no Brasil, uma eleição para qualquer mandato nos diferentes espaços de poder.

Tive experiências em duas majoritárias: como Vice-Governador na chapa do candidato Roberto Magalhães (1982/1986) com sucesso; em 1994, como candidato a Governador, eleição vencida por Miguel Arraes; duas para mandatos proporcionais de Vereador pelo Recife (01/01/1989-01/02/1991) e Deputado Federal por Pernambuco (01/02/1991-01/01/1995).

A maratona começa diante do enigma: a indecifrável cabeça do eleitor. Não faltam especialistas na “arte” de encontrar o Santo Graal. Há um jargão que serve como escudo para justificar o fracasso das análises e das previsões: “Foi um eleição atípica”. Ora, toda eleição é atípica. Única. As conjunturas são voláteis. Os motivos do voto permanecem misteriosos entre os impulsos da emoção e a serenidade da razão.

Aí se misturam os mais diversos saberes de comunicólogos e as magias de bruxo. Das cores da campanha a uma frase-síntese, ferve a cabeça do/a candidato/a. Um sorriso, não! Sisudo. Forçar a barra soa falso! O eleitor prefere a autenticidade. Mas beijar criancinhas é um mandamento sagrado.

Isso sem falar no “salve-se quem puder” das prévias. No troca-troca de partidos, a moeda é Real. A cauda eleitoral robusta ajuda.

Sistema político disfuncional é a forma elegante de reconhecer a persistência das oligarquias como promessa não cumprida pela democracia. A salvação é saquear o Orçamento Público.

Antes de assumir o mandato na Câmara Federal, recebi dois conselhos de experientes parlamentares: “cachorro novo não entra muito no mato” e “faça constar no seu currículo que não fez parte da Comissão do Orçamento”.

Bingo! Em 1993, o então Deputado Roberto Magalhães, relator da CPI dos Anões do Orçamento, pediu a cassação de 18 dos 37 deputados investigados. Os “anões” eram, de fato, homúnculos morais que fraudaram, algo em torno de R$ 100 milhões de verbas orçamentárias, pixuleco quando comparado às futuras “tenebrosas transações”.

Os tempos mudaram e trouxeram obscena novidade: os “gigantes do orçamento” que abocanham R$ 16,2 bilhões sob o manto opaco das Emendas do Relator, atropelando o princípio constitucional da transparência em troca de apoio ao governo. De quebra, R$ 5 bilhões no Fundo Eleitoral.

Recente decisão da Ministra Rosa Weber negou ampliação do prazo pedido pelo Congresso para adotar medidas que deem publicidade ao espúrio “orçamento secreto”.

Vistos pelo retrovisor, os “anões do orçamento” seriam meros “flanelinhas”.

Sinesio Gomes: Os escândalos nosso de cada dia - Corrupção no Brasil
20
Mar22

Guerra, terror e o Major “Berga"

Talis Andrade

guerra por vaccari.jpeg

 

 

por Gustavo Krause

- - -

“Nunca se mente tanto como antes de uma eleição, durante uma guerra e depois de uma caçada”, frase célebre de quem conhecia o assunto: Otto Von Bismarck (1815-1898), o Marechal de Ferro, unificador da Alemanha.

Dado o desconto, a verdade é que, atualmente, armas e estratégias matam muitas pessoas com requintes de crueldade.

As grandes potências militares chegaram a um ponto culminante: querendo, um governante narcisista, tirânico, com delírios identitários e impulsos imperialistas pode destruir a humanidade com o gesto prosaico de apertar botões.

Não basta destruir. O prazer mórbido do ditador é alimentado pelas preliminares de sofrimentos e atrocidades. As quatro Convenções de Genebra, os três protocolos complementares, a Corte Internacional de Justiça, a Corte Penal Internacional, o Direito Internacional Humanitário, a Carta da ONU, a Declaração Universal de Direitos Humanos são insuficientes para impedir reiterados atentados à paz.

A vida das pessoas se tornam insignificantes diante do arsenal nuclear a exemplo do uso das armas termobáricas, de fragmentação, do estoque de mísseis submarinos, Bulava, dez vezes mais potentes do que as bombas atômicas que destruíram Hiroshima e Nagasaki.

Trata-se de terrorismo explícito. Dispensa esforços conceituais. Os elementos constitutivos do terror podem ser encontrados na singela definição do folclórico caruaruense, “Major Berga”, relatada pelo refinado humor do talentoso e saudoso jornalista Fenando Menezes.

Remanescente da guarda nacional, o “Major” dizia-se culto e informado. Falava francês, ingrês e “berga”; lia jornais e ouvia o “Repórter Esso”; fazia ponto numa frequentada barbearia: tinha opinião sobre tudo e, era tratado como “lente e escrevente” da província.

Certo dia, o tema de conversa era a guerra do Vietnã. Calado, ele escutava, quando o dono da barbearia, espertamente, provocou: – Major, o que é mesmo guerra do Vietnã? – Menino, tomou fôlego, a guerra do “Vietinão” é uma arenga lá pro lado da África. O vietinão é um cara meio amarelo, oios ripuxados, torado no grosso, brabo que nem uma galinha choca e praticava um tal de terrorismo. – E que diabo é isso? perguntou um ouvinte. -É o seguinte: o gringo tava lesando no pátio da feira, aí, o vietinão pedia: bom dia, Jone, bota sentido no meu tabuleiro de cocada que tô com uma precisão danada; ele respondeu gudimorningue, oh, iesse! Ôxe, em um minuto, as cocadas buuuum! Foi caco de gringo e cocada pra todo lado.

Terrorismo é a guerra da surpresa, da covardia e mata a granel. Os gringos desistiram da arenga.

Image

13
Mar22

A armadilha da insignificância

Talis Andrade

SciELO - Brasil - O conservadorismo moderno: esboço para uma aproximação O  conservadorismo moderno: esboço para uma aproximação

 

por Gustavo Krause

- - -

“Estou aqui de passagem – alerta Caetano – sei que adiante um dia vou morrer de susto, de bala ou vício”. Seja como for, o Homem é o único animal que tem consciência de sua própria finitude, fonte de angústia que se manifesta de várias formas.

Não abandona, porém, a luta inglória pela sobrevivência e, neste sentido, ensina o filósofo francês Luc Ferry: “Apender a viver, aprender a não mais temer em vão as diferentes faces da morte, ou, simplesmente superar a banalidade da vida cotidiana, o tédio e o tempo que passa”.

Trata-se de um sério desafio, especialmente, quando as trombetas da guerra não cessam de anunciar a nossa fragilidade existencial.

Inconformado, o ser humano segue a busca improvável da imortalidade. No alvorecer do século XXI, pensadores transumanistas, bioconservadores e bioprogressistas desbravam novos horizontes ao manejar a NBIC (Nanotecnologia, Biologia, Informática, Ciências Cognitivas – Inteligência Artificial e Ciências do Cérebro).

Polêmico, Alexandre Laurent, autor de A morte da morte (Barueri: Manole, 2018) argumenta com o crescimento expressivo da longevidade (200 anos no fim do século XXI) para afirmar: “A morte é um problema a resolver e não uma realidade imposta”.

À afirmação que o homem híbrido ou o pós-humano são possibilidades, prefiro, as dúvidas de Harari, expressas na obra Homo Deus: uma breve história do amanhã (Ed. SCHWARTZ. São Paulo, 2016): “1. Será que os organismos são apenas algoritmos, e a vida apenas processamento de dados? 2. O que é mais valioso – a inteligência ou a consciência? O que vai acontecer à sociedade, aos políticos e à vida cotidiana quando os algoritmos não conscientes, mas altamente inteligentes nos conhecerem melhor do que nós mesmos?”

Atualmente, a Humanidade enfrenta quatro persistentes ameaças: fome, pestes, guerras e aquecimento global. “Pela primeira vez na história – escreve Harari – morrem mais pessoas que comeram demais do que de menos; mais pessoas morrem de velhice do que de doenças contagiosas; e mais pessoas cometem suicídio do que todas as que, somadas, são mortas por soldados, terroristas e criminosos”.

Aí percebemos a armadilha da insignificância. O ser humano perde relevância em distintas situações; a luta pela vida em tensão doentia; a luta contra a guerra, vítima, por atacado, da tecnologia do assassinato.

Neste cenário, o poder despótico manipula pessoas em massa. Na sequência das vertiginosas mudanças, serão usadas como chips do Dataísmo – a religião dos dados, uma configuração de poder com efeito explosivo em que algoritmos eletrônicos decifrem e superem os algoritmos bioquímicos.

06
Mar22

As ideologias jogam bombas

Talis Andrade

thiago otan russia.jpeg

A extrema direita mostra o seu poder de fogo sob o conjunto de ideias bizarras e esotéricas

 

por Gustavo Krause

- - -

Neste espaço, dia 24 janeiro de 2021, publiquei artigo intitulado O pesadelo. Tema: livro Guerra Pela Eternidade (Ed. Unicamp, 2020). Destaquei a análise do autor Benjamim Teitelbaum sobre o Tradicionalismo, fonte de inspiração ideológica dos populismos de extrema-direita como ameaça real às democracias liberais do ocidente.

Persistente, o autor ouviu três ideólogos do Tradicionalismo: o americano Steve Bannon, o brasileiro Olavo de Carvalho e o russo Aleksandr Dugin a partir da obra do patriarca René Guénon (1886-1951) e Julius Evola (1898-1974).

Descontadas divergências pontuais, todos exerceram real influência sobre governantes de três grandes países: EUA, Trump; Brasil, Bolsonaro; Rússia, Putin, cada qual com estilos e estratégias distintas.

Bannon ajudou a eleger Trump; indicou secretários de Estado em áreas estratégicas. (O conflito com a filha e o genro do Presidente causou uma demissão humilhante). Fortaleceu a direita americana com o legado do trumpismo; teve decisiva participação no resultado do Brexit: segue dando conselhos a peso de ouro.

O autor aproximou-se do ideólogo de Bolsonaro, Olavo de Carvalho a quem definia como um Tradicionalista heterodoxo. Língua solta e agressiva gerou frequentes atritos. Indicou Velez Rodriguez e Ernesto Araújo, genuíno tradicionalista, em áreas estratégicas para uma frustrada revolução cultural.

Dugin é o intelectual de maior densidade e ativista/guerreiro presente na brutalidade do conflito entre a Ossétia do Sul e a Geórgia. Rebelde e ousado, se movia no espaços de poder, lembrando Gregori Rasputin. Não tinha relacionamento oficial com o governo Putin.

Expressava o ódio às democracias ocidentais, em especial aos EUA, com a frase: “Tudo que é antiliberal é bom”. No seu livro, Fundamentos da geopolítica, encoraja os russos “a introduzir a desordem na atividade interna americana”. O secularismo corrompido era o grande adversário espiritual da guerra pela eternidade.

O objetivo estratégico Tradicionalista é a destruição dos valores iluministas: estado-nação, secularismo, direitos humanos, ciência, feminismo, instituições, globalismo. A proposta se alicerça no tempo cíclico e na hierarquia: a Idade do ouro (sacerdotes), prata (guerreiros), bronze (mercadores), sombria (escravos). A motivação central: a espiritualidade. Eles veem caos na estrutura, ordem nas ruínas e o passado no futuro.

A regeneração do tempo como um fim em si mesma é violenta. Múltiplas causas estão por trás dos bombardeios. A ideologia é o gatilho. Em 2014, Dugin convocou, em entrevista, os ouvintes a “matar, matar e matar” os leais a Kiev. Sonha com a unipolaridade eurasiana.

O cleptocrata Putin, hoje, obedece a voz cruel que ordena os crimes de guerra.

Image

27
Fev22

Por que a guerra?

Talis Andrade

russia ucrania otan.jpeg

 

por Gustavo Krause

- - -

Gelei quando o noticiário mostrou imagens do exercício militar de armas hipersônicas e nucleares do exército russo, em Belarus, fronteira com a Ucrânia. Dias depois, a insanidade do conflito começou. Como se não bastasse o estresse dos últimos dois anos de pandemia virótica e pandemônio político, veio-me à lembrança a trágica estética das guerras: o mortal cogumelo atômico em Hiroshima e Nagasaki.

O século XX deixou as marcas de dois conflitos mundiais e, segundo John Gray, “Desde 1950, ocorreram perto de vinte genocídios; pelo menos três deles tiveram um milhão de vítimas (Bangladesh, Camboja e Ruanda)” (Cachorros de palha, p. 108).

Autêntico baby boomer, vivi os tempos da Guerra Fria; senti na pele o ambiente ameaçador e os momentos de risco para a paz universal: os blocos pautavam as relações internacionais no pragmatismo econômico e no equilíbrio do medo da catástrofe universal.

Por sua vez, o século XXI é um vendaval de inovações: quebra paradigmas em todas as dimensões sociais: ultrapassa limites convencionais de tempo e espaço; coloca na agenda global enormes desafios; aterroriza a humanidade com o destino escatológico.

Foi precisamente a combinação tempo/imagem/comunicação instantânea que me assustou, bombardeado pela mídia, redes sociais, sobre várias questões: pandemia, pobreza, desastres ambientais, violência, racismo, homofobia, feminicídio, enfim, uma carga de informações rasas e duvidosas que inibem o debate consistente e permitem estridente cacofonia de opiniões.

Agora, testemunhar a monstruosidade da barbárie. Evitei o ansiolítico, quando recordei a leitura de uma preciosidade: “Por que a Guerra?” indagações entre Einstein e Freud (cartas, 1932) em que o gênio da física consulta o gênio da psicologia, cortês e humildemente: “Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça da guerra?” “É possível controlar a evolução da mente do homem, de modo a torná-lo à prova das psicoses do ódio e da destrutividade?”

Por serem geniais, ambos têm mais dúvidas do que certezas. Freud caminha pelo conflito das pulsões de vida e da morte. Acredita na força civilizatória e, concordando com Einstein, afirma: “As guerras só serão evitadas se a humanidade se unir para estabelecer uma autoridade central a que será conferido o poder de arbitrar todos os conflitos de interesses”.

A Liga das Nações fracassou. Porém, não há outro caminho para paz, senão a Política na concepção de Hannah Arendt: “A Política se baseia na pluralidade de homens […] A Política trata da convivência entre diferentes […] O sentido da Política é a liberdade”. E adverte: “A guerra, quando posta em andamento, será necessariamente conduzida com as armas que estiverem à disposição das potências que a estão travando”.

Image

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub