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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

17
Out21

Imorrível e imbrochável

Talis Andrade

Medalha apresentada por Bolsonaro a apoiadores com os dizeres "imbroxável, incomível e imorrível"

 

por Gustavo Krause 

As palavras produzem efeitos impressionantes: acalenta a criança com cantigas de ninar; encanta plateias com a virtude artística e arrebatadora de vozes que tocam os sentimentos humanos; seduz e conduz multidões por causas nobres e vis; imortaliza o cântico dos poetas e o grito dos desafortunados.

Na construção das nações, as palavras deixam mensagens que representam a ruptura com passado escravizante e compromisso permanente de respeito aos valores universais, a exemplo da fonte de inspiração da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Grandes líderes, entre tantas virtudes, eram magistrais oradores. Notável pelo dom de se expressar, Churchill deixou um conselho precioso: “Das palavras, a mais simples; das mais simples, as menores”. Imbatível em matéria de concisão, Salvador Dali fez o discurso mais curto do mundo: “Serei breve, portanto, já encerrei”.

Jesus e Buda, profetas portadores do dom da graça, nunca escreveram coisa alguma. Em compensação, pregaram de tal forma iluminados que as multidões ainda escutam e seguem sábios e santos ensinamentos.

Imperdoável não mencionar Sócrates: não escreveu, pensou e lançou um desafio imortal: “Conhece-te a ti mesmo”.

Pois bem, na era da comunicação e informação, instantânea e global, o discurso político e o lugar da fala (para não perder o clichê) têm uma força enorme. Convenhamos que o nosso Presidente é um caso singularíssimo no uso do idioma pátrio.

Não haveria dificuldade em escolher, no farto repertório, a mais inadequada, porém, diante de uma pergunta desafiadora, respondeu que era “imorrível e imbrochável”. Mal sabia ele que se tornou a caricatura de recente ideologia: O TRANSUMANISMO, ideia mencionada pelo cientista britânico J.B. Haldane, em 1923, atribuindo-se o papel de fundador a Julien Huxley em 1957.

A ideia parte do princípio de que a atual Revolução Industrial resulta de quatro inovações: Nanotecnologia, Biotecnologia, Informática e o Cognitivismo (acrônimo: NBIC). Trata-se de um movimento fortemente apoiado pelos gigantes da tecnologia. Objetivos: para os “bioconservadores” “melhorar” a humanidade com avanços científicos que atinjam, por exemplo, uma longevidade de 300 anos; para os “bioprogressistas” é a busca da imortalidade, gerando a pós-humanidade. A polêmica é ampla e intensa.

Luc Ferry, autor de A Revolução Transumanista (Ed. Manole, 2018, SP), afirma: “É genial o que estamos vivendo. Não é o que esse bando de intelectuais tontos acham[…] só enxergam o que está sendo destruído[…] é o novo rosto da transcendência, a divinização do humano”.

O “imorrível” é a criatura antecipada do transumanismo e a desobediência a Montaigne: “Filosofar é aprender a morrer”.

 

10
Out21

Encontro com o futuro

Talis Andrade

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por Gustavo Krause

O futuro bateu nas nossas portas: o corpo desfigurado da natureza assustadoramente escassa. A COP26 é a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (197 países), a ser realizada entre 1 e 12 de novembro. A prioridade é encontrar o caminho para o mercado de carbono global.

Apesar da gestão predadora, o Brasil tem a oportunidade de assumir a liderança na construção de uma economia verde.

Reunião sobre avaliação de peças da propaganda eleitoral em campanha majoritária para televisão. Era um dos presentes, faz mais de uma década. Perguntei ao expositor: “foi feita alguma peça sobre a questão ambiental?”. A resposta foi curta e “suave”: “meio ambiente não dá voto!”.

Botei a viola no saco. Devia ter aprendido com a experiência que a centralidade global do tema seguia periférica para os governos. Importante, mas não “urgente” para o pragmatismo eleitoral. O assunto parecia distante; era coisa dos “verdes”, do “bicho-grilo” em defesa da ararinha-azul; afinal, a longo prazo, estaremos todos mortos.

Meia verdade, o prazo não seria tão longo: o futuro que não fala e não vota, bateu nas nossas portas. A visita é a natureza assustadoramente escassa. O que parecia abundante e inesgotável, água, ar, terra, florestas, não foi levado em conta pelo crescimento econômico a qualquer preço. Mais do que um passivo, era uma fatura a ser paga com a vida.

Ocioso descrever os malefícios de cada patrimônio natural destruído, porque, no conjunto, representam a verdadeira ameaça: o aquecimento global e a emergência climática que desafia o nosso futuro comum.

Em entrevista ao Valor Econômico, e ex-ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira (2010/2016) foi certeira: “Se à época do Acordo de Paris o que existia era o negacionismo climático, que nós vencemos, na COP26, é preciso superar o fatalismo climático, a sensação de que não temos saída”.

A COP26, a ser realizada entre 1 e 12 de novembro, em Glasgow, sob a experiência trágica de um fenômeno mundial, revelará aos governos e à sociedade global que uma pandemia climática mata, por atacado, ricos e pobres, sob a forma fulminante do ecocídio.

É provável que o senso de urgência tenha sido uma lição aprendida; que cooperação e solidariedade internacionais transformem palavras, promessas, cifras em ações concretas de financiamento para uma economia de baixo carbono.

Outra lição: acima de eventuais governos, o nível de responsabilidade das nações esteja atenta às gestões temerárias, consolidando compromissos globais e políticas públicas com os padrões de uma civilização sustentável.

É possível um encontro com o futuro? Com a palavra Francisco, o papa da ecologia: “[a humanidade] está sendo convocada para oferecer, urgentemente, respostas eficazes para a crise ecológica sem precedentes, para a crise de valores em que vivemos e que permitirá dar uma esperança concreta às próximas gerações”.

No Brasil, apesar dos predadores, nossos bosques, ainda, têm mais flores.

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03
Out21

Temores de setembro

Talis Andrade

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por Gustavo Krause

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O Presidente Bolsonaro apropriou-se da data da Independência do Brasil para levar às ruas apoiadores e assemelhados; dar uma demonstração de força política; emparedar as Instituições; proteger-se e, no limite, jogar “fora das quatro linhas”. No dia seguinte, uma carta psicografada gerou um “democrata” em meio a mil dias de tensões e desassossego.

Nono mês do calendário Gregoriano e o sétimo (Septem) do calendário Romano. Inicia o outono no hemisfério norte e a primavera no hemisfério sul.

Nada de excepcional, até que alguns eventos marcaram o mês de setembro. Dos sangrentos conflitos entre a OLP e o exército da Jordânia emergiu a organização terrorista (16/9/1970), Setembro Negro, que, em covarde investida contra equipe israelense na Jogos Olímpicos de Munique/1972, deixou como rastro o frio assassinato de 11 reféns.

O 11 de setembro de 2001 é uma tragédia inapagável da memória da humanidade. O medo remanescerá para sempre e a arma do terrorismo, imprevisível e cruel, estará sempre pronta para obedecer à loucura dos fanáticos.

No Brasil, setembro nos remete, rotineiramente, ao portal do ano que vem chegando. Mas não permitiu que passasse em branco o Sete de Setembro de 1822, episódio que bem, ou mal contado, está definitivamente inscrito na nossa História como a data da Independência.

Pois bem, a data foi apropriada pelo Presidente para colocar apoiadores e assemelhados na rua; dar uma demonstração de força política; emparedar as Instituições; proteger-se e, no limite, jogar “fora das quatro linhas”. Foi explícito quando, em São Paulo, deitou falação.

Palavras ao vento vão e voltam. A polarização “nós e eles” não começou agora; tem raízes na hegemonia lulopetista e, uma vez dominante, é quem manda, sem essa de aliança, tampouco, participar de qualquer movimento, iniciativa ou projeto que busque um mínimo denominador comum para aperfeiçoar nossa disfuncional democracia.

Em 2021, o Sete de Setembro representou o fio da navalha que pairou sobre o cidadão brasileiro. Como seria o dia seguinte? Uma carta de outro punho e, quem sabe, se outros punhos não impediram o avanço autoritário. Disse, não disse, nasceu um “democrata”.

São mil dias de tensões e desassossego. Basta olhar em torno: estamos no mundo convulsionado, instável, incompreensível e, mais grave, desinteressado em qualquer tipo de compreensão. Só o barulho cresce, enquanto a vaidade e a estupidez celebram o parentesco e colocam a brutalidade em ação.

Setembro, antes de terminar, nos submeteu a outros tremores vindos da ONU: o discurso do Presidente exonerou o Itamaraty no que ele faz de melhor e conseguiu a proeza de descrever uma realidade paralela.

O mais expressivo dos tremores foi a representação da “elite”, em refinado e divertido jantar, frente a frente a “homens comuns”, demagogicamente, devorando pizzas nas calçadas novaiorquinas. Unidas e patéticas.

26
Set21

A economia dos pobres

Talis Andrade

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por Gustavo Krause

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A pandemia virótica escancarou a pandemia da pobreza e o aumento da desigualdade. Ao lado emergência climática, são os maiores desafios da humanidade no século XXI.

No Brasil e no mundo, não faltaram grandes cientistas sociais, formuladores de políticas que defenderam ideias e participaram de experiências exitosas, porém insuficientes para estabelecer padrões aceitáveis de equidade social.

As dificuldades residem no tamanho e na complexidade do problema. Dimensão: 1bilhão e 100 mil pessoas que dispõem de menos de 1 dólar diário para sobreviver nos Estados Unidos, na Índia, 16 rupias correspondentes a 36 centavos de dólar; anualmente, 11 milhões de crianças morrem antes de completar 5 anos.

No Brasil, em 2019, 51,7 milhões de habitantes estavam abaixo da linha de pobreza (BIRD); entre agosto de 2020 e fevereiro de 2021, 17,7 milhões de pessoas voltaram à condição de pobres (FGV Social).

O panorama atual revela um contraste avassalador e ratifica a percepção de que o mercado pode muito, mas não pode tudo, inclusive, distribuir a riqueza gerada. O capitalismo e a afluência empurram para cume da pirâmide social novos bilionários, ampliando o fosso monumental entre a maioria crescente de excluídos e a ínfima parcela da população que se diverte, investindo no turismo espacial.

Por sua vez, não faltam recursos para financiar guerras e socorrer os trambiques monumentais dos que são “grandes demais para quebrar”.

De outra parte, as políticas públicas de renda são, em grande medida, insuficientes ou ineficazes para ofertar aos cidadãos a possibilidade de emancipação.

O título do artigo “A Economia dos Pobres”, propondo uma nova visão da desigualdade, é o recente livro de autoria do casal Abhijit V. Banergie & Esther Duflo (segunda mulher a receber o Nobel de Economia, 2019).

Durante 15 anos, foram além das formulações acadêmicas e, com “foco nos mais pobres” e procuraram compreender como eles vivem em “becos e aldeias” e a “existência econômica”, privados que são de informações e condições mínimas para tomar decisões sobre o próprio destino.

O livro é extenso: “em última análise – registram ou autores – trata do que a vida e escolhas dos pobres nos dizem sobre como combater a pobreza global”. Destacam o valor do poder comunal e das instâncias locais.

Eles contemplaram a tragédia: “Vi ontem um bicho /Na imundície do pátio /catando comida entre os detritos […] Engolia com velocidade /O bicho não era um cão /Não era um gato /Não era um rato /O bicho, meu Deus, era um homem” (Manuel Bandeira).

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19
Set21

Eu mi(n)to

Talis Andrade

por Gustavo Krause

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A mentira é um pecado que cometemos diariamente. A exceção é o líder político elevado à categoria de mito: mente autenticamente porque no imaginário do fanáticos seguidores é a encarnação da verdade absoluta.

Golpista confesso, Bolsonaro afirmou que só largaria o poder “morto, preso ou vitorioso”. Eliminou uma das regras de ouro democracia: a alternância pacífica do poder.

“Mentiram-me. Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente /Mentem de corpo e alma, completamente /E mentem de maneira tão pungente /que acho que mentem sinceramente”. Poema de Affonso Romano de Sant’Anna, A implosão da Mentira (Ed. Global, 2007).

Atualíssimo. A mentira é um pecado que cometemos diariamente. Pequenas, grandes, convenientes, analógicas, digitais. Segundo Otto von Bismarck, “Nunca se mente tanto como na véspera das eleições, durante a guerra e depois da caça”.

Há uma exceção à regra: o líder político elevado à categoria de mito. Ele mente autenticamente; diz o que pensa; no imaginário dos fanáticos seguidores é a encarnação da verdade absoluta.

Assim é o Presidente Bolsonaro. Um golpista confesso. Não mentiu para os brasileiros nem botou a máscara de democrata. Delimitou o quadrado de três lados quando definiu o espaço de sua relação com o poder: só largaria “morto, preso e com a vitória”. Eliminou uma das regras de ouro da democracia: a alternância pacífica do poder para os que perdem a eleição.

Tentou liquidar a eleição, outra regra de ouro da democracia, quando, em manobra diversionista, ocupou o espaço do debate político, ao arguir preventivamente a fraude das urnas eletrônicas. Seguiu o fracassado exemplo de do seu inspirador, Donald Trump.

Enquanto os brasileiros sofrem com a agonia de cada dia, o Presidente continua sua marcha obsessiva em continuar no poder, ultrapassando limites das regras do jogo e apostando no ambiente da radicalização e fragmentação das oposições.

O campo das oposições busca uma forma de se livrar de Bolsonaro. A solução é simples: a democracia aponta o caminho das eleições de 2022. O governo tem data marcada para acabar. As lideranças e grande parte da sociedade brasileira, espremidas pelo barulho das extremas, não discutem nem se articulam para construir um projeto estratégico capaz de enfrentar os problemas concretos das pessoas e, ao mesmo tempo, encarar os grandes desafios de um mundo em acelerada transformação.

Se, ao longo do percurso, houver um agravamento da crise institucional e se caracterizarem pressupostos jurídicos e políticos, a democracia, também, aponta a solução: o impedimento de Sua Excelência.

Os prejuízos do desgoverno afetam a sociedade. Para não ser repetitivo quanto à gravidade da situação, basta atentar para o que disse, em recente entrevista, o competente economista Pérsio Arida: “Os investidores veem o Brasil como um pária”.

Parafraseando Manuel Bandeira: “Cavalinhos andando. Cavalões comendo. O Brasil politicando”. O povo empobrecendo e muita gente morrendo.

 

 

 
12
Set21

Independência ou independência

Talis Andrade

Independência do Brasil – Wikipédia, a enciclopédia livre

 

O Sete de Setembro de 2021 não vai parir um salvador, um imperador, um déspota

 

por Gustavo Krause

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Sete setembro é uma data que pertence ao patrimônio histórico do Brasil.

Este ano, o Presidente usou como apelo mobilizador na intenção de parir um déspota. Os berros, ameaçando rupturas serão sempre respondidos pela voz firme das instituições democráticas. A nação brasileira somente admite o caminho da independência e da liberdade do seu povo.

O Sete de Setembro sempre foi um dia especial na minha vida.

Pirralha, era o dia da “Parada Militar”, comemorativo do Dia da Independência, a que assistia nos ombros do meu pai. Em seguida, dia inaugural da “abertura” das praias, destino: as águas mornas da encantadora Boa Viagem.

Na escola, a semana era dedicada ao estudo do fato histórico. Sempre tive por D. Pedro I uma relação de amor e ódio, admiração e repúdio. Ele era a síntese de contradições: despótico e liberal, impulsividade e ternura que revelava nas cartas aos filhos; sedutor incontrolável viveu a paixão escandalosa com a Marquesa de Santos submetendo à humilhação uma grande mulher, Dona Maria Leopoldina (autora da carta mexeu com os brios do marido e foi o gatilho da Independência).

A formação refinada (compôs com Evaristo da Veiga o Hino da Independência) convivia com rudeza da ignorância. Foi mesquinho com José Bonifácio, o Patriarca da Independência, porém teve a grandeza de confiar a educação do seu filho, o futuro Imperador Pedro II.

Percebi, a partir da leitura de Octavio Tarquínio de Sousa, consagrada biografia em três volumes e algumas obras recentes, que, entre as ciências sociais, a mais complexa é a ciência da História: exige profunda pesquisa das fontes; neutralidade dos autores; depende de sofisticada engenharia inter e multidisciplinar.

Neste sentido, senti-me atraído pela obra do pintor Pedro Américo “Independência ou Morte” que contemplava frequentemente para entender o simbolismo da criação artística (contratada em 1886 por Joaquim Ramalho, presidente da comissão do Monumento do Ipiranga”, concluída em Florença, 1888).

O artista, após exaustiva pesquisa, entre traços idealistas e realistas, eternizou um momento prosaico em expressão épica; enviou ao imaginário brasileiro a mensagem do nascimento de uma nação livre como obra de um líder salvador que rompia os laços da submissão política.

Para mim, o mais impressionante é que, no canto esquerdo do quadro, há um carreiro, um caipira, um camponês que a tudo assistia espantado, “bestializado”, enfim, excluído.

O Sete de Setembro de 2021 não vai parir um salvador, um imperador, um déspota. O carreiro pode fazer parte dos invisíveis, mas integra a terceira maior democracia de massas do mundo. Bem ou mal, está representado. Sem o oxigênio da democracia vamos perecer sufocados pelos ares venenosos da tirania.

Gritos, berros, ameaças de ruptura serão respondidos pela voz firme das instituições democráticas: a nação brasileira somente admite o caminho da independência e da liberdade do seu povo.

29
Ago21

O puxa-encolhe da Reforma Tributária (por Gustavo Krause)

Talis Andrade

Reforma tributária: hora de colar os liberais no genocida | O Cafezinho

 

Adiamento é o remédio eficaz para não decidir. O Parlamento adora. Vida que segue

 

por Gustavo Krause

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O sistema tributário é um dos piores do mundo: pesado, complicado, regressivo.

Resultado: um sócio parasitário que embolsa 1/3 do PIB, sem a devida contrapartida, os pobres pagam mais do que os ricos; os subsídios e incentivos celebram abraço cúmplice do ato de rapinagem.

Lá se vão quatro décadas que ouço falar em reforma tributária. O sistema brasileiro é, com razão, um dos piores do mundo. Atropela os princípios clássicos que regem a incidência do “preço” pago pelos cidadãos para viver no ambiente de sociedades civilizadas.

Ouvi a voz reformista em todos os espaços políticos e profissionais pelos quais passei. Reforma inadiável! Simplicidade, neutralidade, produtividade, progressividade! E aí começavam a nascer propostas e projetos.

Na mesma toada, o maior consenso no mundo da abstração virou o maior dissenso no mundo real. Com uma curiosidade: cada proponente batizava o projeto para ser chamado de seu. Simplifica? O imposto único natimorto. Mais justiça fiscal: progressividade para as camadas mais ricas da sociedade? Desestimula os investimentos. Então, fundem impostos e contribuições. Como ficam os Estados e Municípios? Cria um fundo de compensação (e uma guerra de secessão). Por que não taxar fortemente os “pecados e vícios” (fumo, bebida etc..)? O risco é a revolta da cerveja.
 

Sem consenso, adia a votação! Adiamento é o remédio eficaz para não decidir. O Parlamento adora. Vida que segue. Atualmente, chegou-se a uma combinação perversa: sócio parasitário, o Estado, embolsa sem a devida contrapartida, um terço do PIB; pobres pagam mais do que os ricos; os incentivos e subsídios celebram o abraço cúmplice do ato de rapinagem.

De adiamento em adiamento, o cobertor foi ficando mais curto. Uma dúzia de pessoas, ainda, acredita piamente numa política fiscal austera (ôpa, é “neoliberal”), digamos, então, sustentável (cabe em todo lugar); superávit primário (canibal, come fígado de criancinha); câmbio flutuante, metas de inflação e o teto de gastos (uma conspiração pela desprivatização do tesouro).

Agora, há várias reformas a escolher quanto ao tempo: à vista, a curto ou a longo prazo; quanto à autoria: coletivos (Câmara ou Senado), individuais (parlamentares ou especialistas). Este debate revela as forças que comem todas as reformas pelas beiradas: os lobbies. O discurso é: no meu, não! (bolso para os mal pensantes). Nem sei se está certo ou errado, mas bastou falar em tributar dividendos, o mundo veio abaixo.

O raro leitor tem direito de perguntar: oi cara, você é auditor fiscal, dê sugestões! Prezado leitor, vivi três fases: na primeira aprendi; na segunda, apreendi e na terceira estou desaprendendo.

Ressalvadas opiniões dos que têm autoridade técnica, o debate congressual mais parece o espetáculo sacrificial do esquartejamento da mais nobre e antiga criatura da democracia representativa: o orçamento público.

imposto a fome da formiga é maior que um elefant

22
Ago21

O mercado da sopa de letras

Talis Andrade

 

A ameaça de não haver eleições, caso a PEC do “voto impresso auditável” não fosse aprovado, é um blefe

 

por Gustavo Krause

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A maldição do mês de agosto chega com acintoso desfile de tanques e a Câmara de Deputados aprova a volta das coligações partidária. São afrontas à democracia. A primeira é uma demonstração de força patética. A segunda consagra o leilão de sopa de letras, vendendo ao melhor preço, verbas, tempo de televisão e o cardume de votos das piabas.

Os cientistas políticos diagnosticam uma crise global do regime democrático. E com razão. Os riscos são reais. Todavia, é um sistema jovem: pouco mais de duzentos anos. Prefiro falar em transformação a despeito do crescimento da autocracia e ideias extremistas que lhes dão sustentação.

A razão é simples: estar em transformação é o estado natural da democracia; o despotismo é estático.

Neste sentido, recorro à obra de Samuel Huntington, A Terceira Onda (1994. Ed. Ática): o autor refere-se, a partir de 1828, a períodos de “democratização e ondas reversas” com ênfase na onda de 1974.

O Brasil viveu a transição do regime militar para o regime autoritário, em dois processos: o da liberalização e o da democratização. A liberalização se consumou com a Constituição de 1988 e a democratização, ponto de chegada, depende do esforço permanente para integrar cincos campos: a Sociedade Civil, o Estado de Direito, a Sociedade Econômica, a Gestão Pública e a Sociedade Política.

Esta integração é obra inacabada; está sempre mudando e em processo de aperfeiçoamento. É um ponto de chegada nem por isso a salvo de aventuras e ameaças autoritárias.

O quadro atual aponta para circunstâncias preocupantes.

A maldição do agosto brasileiro chega, marcada por eventos que ratificam um projeto antidemocrático em curso.

Começou com o desfile de tanque em frente ao Palácio do Planalto sob o pretexto de entregar um convite ao Presidente da República. Tarefa rotineira que o agonizante Correios executaria. O despautério do evento permite interpretar como uma demonstração de força (?). Vale a tensão institucional.

A ameaça de não haver eleições, caso a PEC do “voto impresso auditável” não fosse aprovado, é um blefe. O fiel “centrão” entregou mercadoria: uma votação lida como resposta a um improvável impeachment. Com a palavra a CPI da Covid e investigações paralelas.

A Câmara, por sua vez, contribui para grave retrocesso do sistema político. Espertamente troca a aberração do distritão pelo retorno da coligação com o jeitinho da federação de partidos. Com isso, favorece os atuais parlamentares, aniquila a cláusula de desempenho e ratifica a fragmentação partidária.

A disfuncionalidade do sistema político reforça os argumentos dos que pretendem destruir a democracia. O Senado com a palavra.

Coligações partidárias têm outro significado: o leilão da sopa de letras (siglas) que vende pelo melhor preço, verbas, tempo de televisão e o cardume dos votos das piabas. Farra de 7 bilhões de reais à custa do dinheiro do povo.

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08
Ago21

O preço da alma (por Gustavo Krause)

Talis Andrade

Ciro Nogueira

 

É de se perguntar: governo tem alma? A alma do governo tem preço definido por unidade de medida? A resposta é sim

 
 
por Gustavo Krause
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O governo tem a alma do Presidente: autoritária e cruel. E paga aos aliados com as moedas dos cargos com orçamentos polpudos, emendas parlamentares públicas e secretas (cheque em branco); negócios no atacado e no varejo, a depender da habilidade dos nomeados.  
 

Alma é uma palavra dita e ouvida desde os nossos primeiros passos. Ao longo da vida, é apreendida nos múltiplos e ricos significados. A criança se depara com a cognição da assombração e do medo. Depois, a palavra vai se moldando no aprendizado da religião, filosofia, e vai assumindo significados na poesia, na literatura, nas artes, enfim, no vasto mundo da licença criativa e nas possibilidades de figuras de linguagem – a Alma minha gentil, que te partiste… (Camões).

O Rabino Nilton Bonder, autor de A Alma Imoral e grande pensador, afirma, em Alma&Política, que, ao se configurar, a Alma “é nossa essência e que a partir do momento em que somos capturados por esta definição, ela se cristaliza como uma identidade permanente[…] podemos provocar modificações pontuais em nosso comportamento. No entanto, sua marca é definitiva” (Ed. ROCCO LTDA. – Rio de Janeiro. Digital: abril 2018)

Ao selar a aliança com o Centrão, o Presidente da República, nomeou o Senador Ciro Nogueira (PP-PI) para Casa Civil a quem entregou “a alma do governo”.

É de se perguntar: governo tem alma? A alma do governo tem preço definido por unidade de medida? A resposta é sim.

A primeira resposta está em Antigona (Sófócles): “É impossível conhecer a alma, o sentir e o pensar de quem quer que seja se não o vimos agir com autoridade, aplicando as Leis”. A partes contratantes e o distinto público sabem exatamente como eles atuam.

E o preço? No jargão economês, não dá para precificar, porém as valiosos mercadorias têm nomes: cargos com orçamentos polpudos: emendas públicas e secretas (estas, cheques em branco); e negócios no atacado e no varejo, dependendo das habilidades dos nomeados.

Outra questão importante: qual objeto do contrato? A turma segura a onda do movimento de impeachment e o governo assegura a eleição dos parlamentares. E se o apoio do governo se tornar tóxico? Debandada geral, ou seja, a mesma “lealdade” já devidamente demonstrada, sob o argumento de que o próximo governo será sempre o melhor.

Ora, garantida a tranquilidade parlamentar, serão detonadas as armas do populismo que podem tornar o Presidente um candidato competitivo. A lição vem do mestre Bobbio: “Os extremos se tocam. Os moderados naturalmente democráticos são os principais inimigos e a antidemocracia é um ponto de acordo entre os `opostos extremismos`”.

O roteiro da escalada autoritária é tão óbvio quanto a incapacidade de unir democratas em torno de um projeto viável de nação.

01
Ago21

Coisas do semiárido

Talis Andrade

 

O Patrono dos Projetos de Irrigação de Pernambuco está vivíssimo. As sementes do sonho exportarão 1 bilhão de dólares de frutas, em 2021

 

por Gustavo Krause

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Este ano a fruticultura irrigada do semiárido nordestino exportará 1 bilhão de dólares. Podia ser mais. Falta dinheiro para infraestrutura. Mentira! Tem 6 bilhões para “irrigar” votos.

No dia 27/10/2015, visitei o ex-Deputado Oswaldo Coelho. Saúde abalada sem afetar a disposição de viver e acreditar no futuro. Obediente às prescrições médicas e aos padrões da conveniência, programei uma permanência em torno de 15 a 20 minutos.

Um largo sorriso de boas-vindas desfazia sintomas de fraqueza, reafirmava o vigor sertanejo e a crença visionária na viabilidade do semiárido tropical. Quando fiz menção de sair, escutei a voz suave da hospitalidade: “Não vai, agora, não. Menina, traz café, suco e um pedaço do bolo de rolo”. Marcas da família Coelho, mesa farta, coração generoso.

Osvaldo foi um inovador na administração pública pernambucana (Secretário da Fazenda, 1967-1971). Abriu as portas meritocráticas do concurso público, oportunidade que não desperdicei, e fincou os alicerces do aperfeiçoamento contínuo do capital humano. A conversa era a de um jovem idealista e saudável. Olho no futuro e nas causas que moveram sua vida pública: Educação, do fundamental, profissionalizante, à Universidade do Vale do São Francisco e o progresso que democratiza oportunidades, respeita a caatinga e as águas do São Francisco que dão mais do que recebem.

No dia 30/10/15, um presente: mangas, uvas, queijo de cabra e um cartão: “coisas do semiárido”. No dia 01/11/15, a dolorosa notícia: Doutor Osvaldo faleceu!

O Patrono dos Projetos de Irrigação de Pernambuco, por força da Lei 17.086/20, está vivíssimo. As sementes do sonho exportarão 1 bilhão de dólares de frutas, em 2021.

Os números revelam exemplos. O primeiro é a transformação de Petrolina, “uma povoação de passagem de Juazeiro”, no jardim das oportunidades: vitória do Político com causa.

O segundo desmente que a escassez dos recursos financeiros limitam os governos e consagra o princípio de que decisões estratégicas geram os recursos necessários.

No caso brasileiro, a política se transformou, com raras exceções, em instrumento de benefícios pessoais. É mentira que faltam recursos. Tem dinheiro para Fundo Eleitoral/imoral que reflete a política da miséria.

Os dados são uma chance histórica para que a ABRAFRUTAS, sob a lúcida presidência da Guilherme Coelho, mostre ao Brasil que no primeiro semestre o crescimento da exportações foi 30%, o faturamento 40% e 70% das exportações saem do Nordeste.

Competitivas, as frutas recebem certificação social, manipulação e sustentabilidade. No agronegócio, a fruticultura é o setor que mais emprega, inclusive, a mão-de-obra feminina, o que fortalece a renda familiar.

Orçamento é peça fundamental da democracia representativa. É hora de debater coisas sérias como “coisas do semiárido”.

 

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