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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

15
Out20

Polarização Lula-Bolsonaro é sinuca de bico para o sistema

Talis Andrade

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Por Gustavo Conde

A indigência prossegue. As elites brasileiras e os grandes jornais continuam apoiando Bolsonaro e fingindo que não apoiam. É o mesmo protocolo usado quando o PT era governo: eles atacavam o PT e a democracia e fingiam que estavam sendo técnicos, imparciais e republicanos.

O Brasil não é para amadores e o jornalismo brasileiro idem. É para profissionais. Aliás, eles gostam de ser chamados assim: jornalismo profissional.

Profissional em obedecer o patrão, profissional em criminalizar a política, profissional na autodomesticação disciplinada que se refestela na prepotência e no arbítrio.

Para não dizerem que não dou margem ao contraditório – e que pratico o mesmo jornalismo de cabresto desses arautos da dissimulação editorial – menciono uma excelente matéria publicada no jornal Folha de S. Paulo de ontem, assinada por Flávio Ferreira.

Trata-se da reportagem sobre a avalanche de processos que recaem sobre o escritor João Paulo Cuenca, muito provavelmente orquestrados pela Igreja Universal. A reportagem é equilibrada e faz jus ao conceito “jornalismo investigativo”. Ouviu todas as partes e não pendeu para nenhuma delas, oferecendo ao leitor a oportunidade de constituir juízo de valor e de, igualmente, ponderar e aguardar desdobramentos sem incitações editoriais de ódio.

A exceção faz a regra. Se a Folha, por exemplo, tratasse dos processos contra Lula com essa mesma integridade, certamente não teríamos Bolsonaro a nos destruir enquanto país, enquanto povo, enquanto economia e enquanto natureza neste preciso momento.

Há portanto, jornalistas íntegros e jornalismo responsável, mesmo nos grandes jornais. O que não há é o ‘negócio do jornalismo’ íntegro – seria ingenuidade demais acreditar que houvesse (nem os publishers acreditam nessa lorota que, para eles, é ‘moralista’).

O fato relevante, no entanto – e a despeito de toda essa precarização e covardia embutidos em nosso modo institucional de conceber a produção de informação – é o alinhamento sub reptício das elites brasileiras (cuja voz está incrustada em nosso jornalismo profissional) ao projeto Bolsonaro 2022.

Como Bolsonaro é o produto mais bem acabado deste jornalismo de guerra, a aliança ontológica entre as duas entidades consagra apenas o curso natural da história.

A equação é até simples: já que Bolsonaro não aceitou a total domesticação imposta por esses grupos de mídia, bastou e bastará reorganizar a narrativa: os arroubos verbais apopléticos consagrando tortura, morte e genocídio serão “faceta folclórica” de sua excelência, o verme.

Serão apenas um lado cômico e perturbador do ‘presidente’ e da representação política que simboliza o pós-PT, esse escândalo de democracia e soberania popular que alçou o Brasil a uma das maiores potências do mundo e que, agora, é apenas uma vaga lembrança do passado.

Não se avexem com tal prognóstico (ele é enunciado por mim para que lutemos, não para que nos acovardemos). A movimentação nas elites e no jornalismo de cabresto é forte. Eles perceberam, enfim, que as possibilidades de João Doria, Luciano Huck e Sergio Moro escoaram pelo ralo insidioso os cenários imprevisíveis pós-golpes.

À elite e a esse jornalismo não há mais opções. É Bolsonaro ou Bolsonaro. A alternativa à sequência de horrores seria o PT, mas tais segmentos são prepotentes demais para enfiar a viola no saco e reconhecer que, se há algum líder político anti-Bolsonaro nesse país, esse líder é Lula.

A evidência olímpica a essa percepção é o empuxo narrativo em todas as colunas editorializadas dos grandes jornais. Ali, “Bolsonaro se aproxima do centrão” e “ocupa o lugar de Huck, Doria e Moro”.

Eles enunciam essa fatalidade quase em tom de lamento – é divertido ler.

Isso significa duas coisas: 1) que eles não têm candidato para 2022, e 2) que entre PT e Bolsonaro, mais uma vez, eles escolherão Bolsonaro.

Isso é motivo para lamentarmos ou comemorarmos?

Depende.

Se for para julgar e processar o papel histórico da imprensa brasileira, é para lamentar aos prantos. É uma vergonha muito grande ver os grandes jornais de um país supostamente republicano apoiando um genocida confesso e mentiroso obsessivo.

Mas se for para interpretar o fenômeno à luz da história e dos desdobramentos eleitorais, abram a champagne: os setores anti-democrático estão assaz demarcados com Bolsonaro: elites e jornalismo de cativeiro de um lado e Lula, PT e defensores da soberania e do meio ambiente do outro.

É a tal da ‘polarização’ tão temida e combatida por esta imprensa cativa: eles temem a polarização porque a polarização evidencia quem é quem – e fortalece um campo democrático ‘desambiguado’, longe das contemporizações frenteamplistas e das suavizações intelectuais.

O jogo, meus caros, neste sentido, está bom. Tudo se orienta para uma eleição hiper polarizada em 2022 entre PT e Bolsonaro. O centro, povoado pelo bolsonarismo, antes de representar uma ameaça, representa uma fragilidade (para a direita): não há muito como maquiar Bolsonaro. Sempre estará à mão suas declarações-atrocidades, sua índole fascista e sua vocação familiar a práticas corruptas e criminosas.

Pari passu, estará a enxurrada de absolvições de Lula e de dirigentes do PT, bem como a execração nacional e internacional de Sergio Moro.

O bom da história e da civilização, mesmo sendo elas tão violentas e pró sistêmicas, é que elas são relativamente espontâneas e não atendem a desejos classistas nem a percepções intuitivas contaminadas com os pressupostos neoliberais.

Muitos marxistas nem suspeitam, mas a história atende às demandas simbólicas – linguísticas e semânticas – da própria história, não da dimensão que a oprime e controla, como o mercado financeiro e os grupos empresariais de mídia.

Se assim o fosse, Lula jamais teria chegado à presidência da República.

É bom lembrarmos disso antes de destilarmos nossos pessimismos e ceticismos de ocasião: historicamente, quem está encurralado é o bolsonarismo nativo e o jornalismo cativo, cânceres da mesma cepa, frutos do mesmo ódio, sobras da mesma xepa.

 

04
Dez19

Brasil, paraíso dos genocidas

Talis Andrade

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por Gustavo Conde 

A 'imprensa brasileira' (sei que parece deboche, mas o nome é realmente esse: imprensa brasileira) ameaçou sair do lodaçal em que sempre se encontrou, mas se arrependeu e mergulhou com gosto no caldeirão putrefato de racismo, berço esplêndido da nossa elite.

Eles associam a palavra "economia", untada com cifras de positividade ética, ao massacre dos direitos sociais conquistados a duras penas - e com muito sangue - desde o trabalhismo dos anos 30.

Sem uma gota de pudor.

Eles falam em "economia" de "um trilhão" quando mencionam a reforma da previdência. Falam em "economia" de "4 bilhões", quando citam os cortes no INSS.

E a legião de economistas "formados em Harvard" assiste a esse espetáculo grotesco de distorção desumana dos fatos e de suas consequências como quem assiste a um desfile de escola de samba.

O duro é ver Bolsonaro chamando Globo e Folha de S. Paulo de canalhas e ter de concordar com isso.

É blefe, é deboche, é estratégia de comunicação de guerra (Bolsonaro insultar a imprensa) e, por isso mesmo é a sinuca de bico do século, que nos empurra a sofrimentos inomináveis de depressão semântica - e a respectiva "preguiça" em lutar contra os fraudadores profissionais do sentido e da linguagem: imprensa e governo nazi-fascista.

Fingindo ser contra a imprensa brasileira, Bolsonaro quer induzir os segmentos democráticos a defender esta imprensa - ou valores correlatos e igualmente fraudulentos como o delírio conceitual nomeado "liberdade de imprensa" - e assim, promover de forma miseravelmente inteligente a manutenção do pior jornalismo praticado no mundo: o jornalismo brasileiro.

As últimas teatralizações da rixa Bolsonaro-imprensa são o suprassumo do deboche assistido a que estamos sendo lançados dia após dia, com a disciplinada cumplicidade do jornalismo denominado independente, que repercute, reverbera, comenta, tonifica e leva a sério o aniquilamento explícito da possibilidade de debate público qualificado neste momento lamentável da nossa história.

O nome disso é "ressaca de civilização".

A gente aprendeu a ser gente com a democracia espetacular e teimosa de Lula e jogamos essa oportunidade no lixo carnavalizado de nossa cultura racista, pretensiosa e languidamente suicida.

Somos todos capitães-do-mato, inclusive essa casta autoproclamada branca (tão bem representada por Globo, Folha e Bolsonaro), que vive de oferecer as próprias vísceras apodrecidas aos vampiros de mercado que falam inglês sem sotaque.

O Brasil é um vexame.

Vivemos o teatro permanente, opressivo e devastador de semidemocracia em curso, chancelado de maneira torpe por instituições pestilentas, por nossa 'casta média' assassina - que se locupleta com o massacre de Paraisópolis, balbuciando "CPFs cancelados" - e pelo mais genocida jornalismo de que se tem notícia, com o perdão da reiteração e do pleonasmo.

Porque "jornalismo", no Brasil de Bolsonaro, virou sinônimo de "genocídio". Tal como as palavras do Seu Jair torturador, o texto jornalístico é um estimulador de ódio e de violência.

Globo, Folha, Estadão e Bolsonaro são irmãos siameses, rabos da mesma besta, pústulas do mesmo verme, rasgos purulentos não apenas em qualquer possibilidade de debate público, mas em qualquer possibilidade de vida simbólica, de linguagem, de subjetividade.

Por isso, Lula lhes queima a alma.

Há momentos em que o ceticismo e a desesperança nos lançam aos pensamentos mais dolorosos. Nesses momentos, chego até a pensar que o povo trabalhador brasileiro não merece Lula, que a humanidade de um homem que lhes materializa o verbo e o sentido, com generosidade e humildade, é assaz monumental para o acovardamento que vamos tendo a infelicidade de testemunhar.

O Brasil vive sob o signo do medo e do acovardamento.

Quero dizer, no entanto, que este momento é um momento de dor, de solidão, de desamparo, de desalento, mas que ele passa e deve passar.

Resta a indignação e a revolta que tento traduzir em palavras para também tentar, humildemente, ao menos deixar um testemunho do espancamento de civilização a que estamos sendo assujeitados.

Não haverá país com o perdão a essa imprensa genocida. Não haverá país com tolerância a essa 'casta média' assassina e egoísta. Não haverá país com esses comentadores cúmplices que buscam conciliação classista e um lugar no panteão podre de nossa cultura de grife, status infame do colunismo de aluguel que sobrevive às custas do sangue e da alma de uma população inteira que pena para se alimentar.

Basta de compreensões e de explicações. Morte aos genocidas.

Senão às ruas, ao menos à palavra, que é o que me resta.

bandeira sao paulo paraiso arma negro.png

 

02
Ago19

Lava Jato agoniza enquanto verdade de Lula fica cada vez mais forte

Talis Andrade

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por Gustavo Conde

___

Deltan vai saindo de cena escorraçado, verme pútrido que é.

Lentamente, o castigo vai se debruçando a todos agentes corruptos do Ministério Público, essa instituição-vergonha que ainda não emitiu uma nota de desculpas ao povo brasileiro.

O Brasil conseguiu a proeza de produzir o caso mais escandaloso de combate à corrupção. Tentou extirpar a corrupção com... Corrupção.

Óbvio que não iria dar certo (e a besta parida foi Bolsonaro, só o pior ser humano que a história teve a ânsia de vômito de produzir).

Convenhamos: o discurso de 'combate à corrupção' é um dos discursos mais corruptos no campo da linguagem humana. É o mecanismo preventivo de defesa que a falta extrema de caráter produz nos homens: finge-se combater a sua própria existência para imobilizar o seu adversário que joga nas regras do jogo.

Em outras palavras: o sistema protege a si mesmo fingindo que combate o mal que lhe é estrutural e, com isso, apropria-se da exclusividade de polícia.

 

Uma engrenagem que devasta qualquer sociedade e a impregna de ódio, insanidade e descrédito absoluto em si mesma.

Uma bomba de fragmentação que fragmenta os sentidos e afugenta a esperança ou a possibilidade de futuro, um mergulho no passado opressor, um devaneio grotesco de maus perdedores e péssimos - e fraudulentos - vencedores.

Nem tudo, no entanto, é horror. A necessidade de tal estratégia criminosa - a Lava Jato - apenas confirma a força da verdade e da civilização que pressupõe as demandas reais da linguagem e da sociedade.

 

Não é à toa que eles sabem do retorno da civilização - e o temem e o querem retardar a todo custo.

A linguagem possibilita o logro e a mentira, mas ela é essencialmente uma estrutura de sentidos sem acionistas ou proprietários legalmente constituídos - ainda que se tente enquadrá-la nesses termos à fórceps (e a Lava Jato é a maior expressão dessa tentativa, pois a operação quis se apropriar de todos os sentidos compartilhados na sociedade brasileira, totalitária e antidemocrática que é).

As contradições, mal-feitos, induções, prevaricações promovidas por essa playboyzada infame do direito concurseiro estão sendo expostas às vísceras não apenas pela reportagem do The Intercept, mas pelo que a linguagem humana possibilita na sua pletora de sentidos e possibilidades.

Não há como domesticar uma língua, por mais que se tente.

Dessas constatações é que surge a felicidade e o gozo em se entender e se acreditar um linguista - e enxergar a poesia e a verdade existente no ofício de amar a linguagem e respeitá-la.

É na língua e nas suas possibilidades que está o nosso retorno à civilização. A língua é a nossa maior tecnologia, um infinito à frente das plataformas digitais ou das técnicas de comunicação de guerra.

A língua é dor e delícia, mas para quem a vê como delícia, não há como escapar da sua esperança onipresente, insuportável para quem a nega e para quem a estigmatiza.

Quando sairmos desse pesadelo, que tenhamos a delicadeza e a humildade de a agradecer à maior instituição de todas - a língua -, aquela que levou um imenso susto ao se ver corrompida por sujeitos interrompidos, cozidos nas próprias frustrações existenciais e cognitivas, humilhados pelo esplendor de inteligência e humanidade concentrados em um único metalúrgico que viveu uma vida inteira para nos ensinar a todos o que é democracia - e que vai viver outra para reforçar a lição.

O ódio a Lula é o ódio à linguagem e à humanidade. É por isso também que o antipetismo é sinônimo de fascismo - o que já está dado e reiterado pela história e pelos fatos do dia, todos os tristes dias recentes.

Nesse sentido, Lula é linguagem e linguagem é Lula.

Eu disse, tempos atrás, que a história é 'aliada' de Lula, porque Lula sabe interpretá-la e travar diálogos com ela de igual para igual.

Lula tem o tempo histórico em sua mente e em seu coração.

Mas ele tem mais do que isso - para terror de seus inimigos, tão rasos quanto sujos: Lula tem a linguagem do seu lado.

É por isso que ele sempre teve a absoluta certeza de que a conspiração em torno de sua imagem cairia por terra cedo ou tarde. É por isso que ele insistiu em intitular o livro que versa sobre sua força política de "A Verdade Vencerá", indo na contramão de todos que ali editaram o volume, amedrontados com o preconceito elitista à palavra "verdade".

Lula é isso. Ele não apenas restituiu, com sua paciência e sua teimosia, o valor de verdade às narrativas forçadas que vinham sendo costuradas por gente que não merece ser chamada de gente, como também estabeleceu a força de uma palavra e de um conceito: a palavra 'verdade' volta a ter um sentido poderoso por ação de um sujeito, um sujeito que dedica a sua vida à produção de uma realidade mais generosa para todos os seus iguais e até para os 'diferentes' - pois este sujeito governou para todos quando pôde governar.

A língua retorna ainda lentamente em parceria com a história para, juntas, celebrarem a vida de um de seus maiores rebentos: a criança retirante que se recobriu de generosidade para mergulhar em uma odisseia de amor por seu povo e ainda aceitou uma prisão política tardia, arquitetada sob o signo da vingança, para justamente recobrar os sentidos de seu legado e da história e servir de exemplo mais uma vez a todos que acompanham e admiram uma vida dedicada ao outro, à felicidade, à solidariedade e à paz.

A Lava Jato e seus próceres do terror político vão agonizando em praça pública enquanto Lula e sua verdade histórica renascem mais forte que o próprio legado de amor e democracia deixado por eles, Lula e verdade, a verdade da língua e dos sentidos, irrefreável, inquebrantável.

A verdade vencerá e o amor vencerá. Abaixo os céticos e os confusos! Viva Lula, viva a democracia, viva o amor!

Que não se tenha medo de se dizer o que está entalado em nossas gargantas.

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