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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

10
Jul22

‘PRECISAMOS DAR RESPOSTA POLÍTICA A GRUPOS QUE PREGAM EXTERMÍNIO’, DIZ PRESIDENTE DA PRIMEIRA CPI ANTIFASCISTA DO BRASIL

Talis Andrade
 
 

Câmara de Campinas abriu investigação após cidade registrar dois ataques nazifascistas em 15 dias, reflexo do crescimento da extrema direita no país

 

 

EM APENAS 15 DIAS, a maior cidade do interior brasileiro, Campinas, foi alvo de dois ataques nazifascistas, um tipo de violência que cresce no país encorajado pelo discurso de ódio da extrema direita e de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro.

Entre o final de abril e o começo de maio, o Instituto de Filosofia e Ciência Humanas da Unicamp foi pichado com símbolos nazistas e os trabalhadores e clientes de um bar próximo à universidade sofreram agressões físicas e insultos racistas. Um dos agressores chegou a atirar com arma de fogo, segundo testemunhas, e ostentava uma suástica.

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A repercussão dos ataques estimulou 22 dos 33 vereadores campineiros a criarem uma Comissão Parlamentar de Inquérito, batizada de CPI Antifascista. Ela foi instalada em 6 de junho.

“A gente está falando de grupos que pregam o extermínio, fazem ações violentas e têm crescido no Brasil. A gente precisa dar uma resposta política, achar o nexo entre as coisas”, me disse a vereadora Mariana Conti, do Psol, eleita presidente da CPI.

A comissão investiga as estruturas, membros, atuação dos grupos extremistas e, principalmente, se eles mantêm vínculos com partidos políticos e movimentos de extrema direita.

Em entrevista ao Intercept, a parlamentar avaliou que esses grupos saíram das sombras e se organizam em um movimento reacionário contra o avanço da representatividade de lideranças LGBTQIA+, feministas e negras.

“O bolsonarismo fez isso. Bolsonaro organizou isso, porque ele canaliza e organiza politicamente esse conjunto de grupos que têm diferentes formas de manifestação na extrema direita”, afirmou Conti.

A CPI deve se apoiar nos estudos da pesquisadora Adriana Dias, uma das principais especialistas no tema. Foi ela quem encontrou uma carta do então deputado Jair Bolsonaro replicada em um site nazista, como o Intercept revelou no ano passado.

Pelas regras da Câmara de Campinas, a CPI não tem poder de realizar quebras de sigilo ou determinar busca e apreensão. Por isso, irá buscar o apoio das polícias e do Ministério Público.

 

A gente sabe que existe essa tendência no Brasil [da violência], mas com o governo Bolsonaro isso tem respaldo institucional
 

Apesar de reconhecer que terá dificuldades devido à contaminação desses órgãos pelo bolsonarismo, Conti falou que mantém contato com policiais dispostos a apoiar a investigação e que estabelecerá uma relação institucional com as forças de segurança. A CPI é composta por sete vereadores e tem duração de 90 dias, que podem ser prorrogados por igual período.

No último dia 22 de junho, após a entrevista e na véspera da primeira audiência da CPI, um homem ligou para o gabinete da vereadora para ameaçar a parlamentar e suas auxiliares. Segundo ela, o agressor costuma frequentar a Câmara. Ela suspeita que ele tenha transtornos mentais e faça ameaças orientado por vereadores da extrema direita. Conti me disse que, por orientação de sua advogada, não revelaria o nome do agressor e dos parlamentares com que ele tem relação.

“Ele ligou no gabinete e fez as ameaças, falando que se não parasse de falar mal do Bolsonaro o bicho ia pegar para o meu lado”, disse a vereadora. Como esta mesma pessoa já ameaçou o gabinete de Conti, ela estuda quais medidas legais tomará.

 

Guilherme Mazieiro entrevista Mariana Conti

 

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“O movimento antivacina, organizado e orquestrado pelo governo Bolsonaro, serviu como elemento de organização da extrema direita”, afirmou Mariana Conti.

 

 

Intercept – A CPI foi criada para investigar grupos neonazistas e fascistas em Campinas, autores de ataques na Unicamp. O que significam esses atos?

Mariana Conti – Essas ações não são isoladas. Campinas tem um histórico de outras ações, de pichação no Taquaral [principal parque da cidade] de símbolos que remetem ao nazismo e fascismo, muitas vezes menos conhecidos. Essa é uma estratégia que os grupos têm adotado, ao invés da suástica, que é o símbolo mais conhecido. A gente já teve pichações na própria Unicamp, em 2018, na biblioteca do IEL [Instituto de Estudos de Linguagem].

As pesquisas da professora Adriana Dias têm mostrado e mapeado o aumento desses grupos. Para além disso, houve situações na Câmara. Durante uma manifestação antivacina [no ano passado], a gente viu cartazes com símbolos do QAnon, um grupo supremacista branco [dos Estados Unidos], racista. A gente sabe que o fascismo e nazismo tem esse conteúdo. É uma miríade de elementos que se organizam nesses grupos de extrema direita. Não são movimentos desorganizados. Eles têm ideologia, sentido, pauta. Isso é o que queremos averiguar, achar o nexo entre essas ações e as possíveis relações políticas que existem entre esses grupos e partidos e figuras da política campineira.

 

Por que os alvos são a Unicamp e locais próximos de uma das principais universidades do país?

O conteúdo desses grupos têm vários elementos, mas existem pontos em comum: o ataque à esquerda, o anticomunismo, o ataque a grupos sociais como os da negritude, os LGBTQIA+, as mulheres. Na universidade, onde houve um grande movimento para adotar cotas raciais, há um processo de popularização e diversificação da comunidade. Isso faz dela um alvo na medida em que se torna mais plural. O fato de a universidade ter movimento por cotas [para pessoas] trans diversifica o ambiente da universidade e traz grupos sociais que são marginalizados para o protagonismo. Isso incomoda grupos que, na verdade, pregam o extermínio de quem veem como inimigos: mulheres, pessoas LGBTQIA+, migrantes, imigrantes, negros, indígenas. Não é à toa que o ataque [a tiros] no Bar do Ademir, em frente à moradia estudantil, foi dirigido contra trabalhadores que atuam no bar e são imigrantes haitianos. Os relatos que temos é de que as pessoas [autoras dos ataques] imitaram macacos. São ataques racistas. É um movimento reacionário ao fato de que, graças ao processo de luta, de organização, a universidade está passando por um processo de diversificação e dando protagonismo a esses grupos sociais.

 

A Unicamp mostrou disposição em colaborar com a CPI? Os casos que aconteceram ali podem ser de autoria de alunos da própria universidade?

Uma das deliberações da CPI foi fazer uma conversa institucional com a reitoria e com a Comissão de Direitos Humanos da Unicamp. Pessoalmente, penso que a Unicamp precisa ser mais incisiva na posição que ela assume com relação a esses ataques. É bem possível que sejam de membros da comunidade universitária. Porque a gente sabe que ela é plural, tem uma série de posições políticas.

 

Vocês partem de uma lista de nomes de organizações suspeitas para começar este trabalho? 

A gente parte das pesquisas que já existem. Queremos chamar uma série de grupos para estarem com a gente, o movimento negro, dos terreiros, dos LGBTQIA+, grupos feministas, comunidades haitianas, nordestinas, ciganas. Queremos convidar, inclusive, a comunidade judaica.

 

A CPI vai se debruçar sobre o financiamento desses grupos de ódio?

Sim, e também como eles conseguem estar nas redes sociais, como acontece o recrutamento, quem são as pessoas recrutadas. E colaborar com as investigações que já existem no Ministério Público e na Polícia Civil.

 

Há limitações jurídicas e legais para a atuação da CPI. Por isso é importante o apoio das polícias e do Ministério Público, dois órgãos muito contaminados pelo bolsonarismo. Vocês já tiveram contato com essas autoridades? Há dificuldades ou ajuda?

Uma CPI municipal não tem o poder de fazer quebra de sigilo telefônico e de sigilo bancário. Isso dificulta o trabalho, porque vai exigir que pensemos estratégias de atuação. Ao mesmo tempo, se tivéssemos esse poder, penso que seria muito difícil aprovar uma CPI com esse caráter. Tanto que é inédito, não vi outro lugar em que tenha sido instalada uma CPI para investigar grupos fascistas, embora a gente saiba que [casos] acontecem no Brasil inteiro.

 

Mas que tipo de apoio vocês esperam das polícias e do Ministério Público?

A gente sabe que houve uma grande contaminação das forças de segurança em geral pela ideologia da extrema direita. O bolsonarismo fez isso. Bolsonaro canaliza e organiza politicamente esse conjunto de grupos que têm diferentes formas de manifestação na extrema direita. A gente sabe que existe essa tendência no Brasil [da violência], mas com o governo Bolsonaro isso tem respaldo institucional.

 

Isso pode ser uma dificuldade para CPI?

Pode, com certeza. Mas conhecemos e temos relações com grupos de policiais antifascistas. E é claro que policiais que discordam dessa abordagem, que questionam, se incomodam com essa ação de violência, estão em uma posição defensiva internamente na corporação. Existem perseguições e uma série de coisas que acontecem dentro das corporações. Vamos ter que elaborar uma estratégia de fazer uma relação institucional com a Polícia Civil, vamos procurar o delegado responsável pelos casos, fazer uma visita institucional. A extrema direita não é uma unanimidade. A polícia que mais mata é também a que mais morre no mundo.

 

Para fazer a CPI, vocês conseguiram a assinatura de 22 dos 33 vereadores campineiros. Por que um terço deles não assinou o requerimento?

Muitas vezes não tem justificativa, né? Teve um argumento de que vereador não é investigador de polícia. A manifestação pública que aconteceu contra a CPI foi de um vereador, o Marcelo Silva, que é declaradamente bolsonarista. Ele falou que era uma propaganda da esquerda.

É curioso que ele [o vereador Marcelo] é de origem judaica. Usou isso como argumento, como se só ele tivesse legitimidade para fazer algo. A professora Adriana Dias, que também é de descendência judaica, já explicou que esse argumento é usado como forma de se legitimar.

 

A extrema direita é o ponto do espectro político em que fascistas e neonazistas se encaixam. Em Campinas, há uma representação muito forte da extrema direita, principalmente com a família Santini, que tem um secretário [do Ministério da Justiça] em Brasília e tinha um vereador na cidade. Esses grupos de extrema direita ligados ao bolsonarismo trabalharam contra a criação da CPI?

Os vereadores declaradamente bolsonaristas não assinaram a CPI. São três: Major Jaime [do Progressistas], Marcelo Silva e Nelson Hossri [ambos do PSD]. E o Marcelo falou contra a CPI na tribuna. Mas foi curioso, um acaso, que no dia em que o requerimento da CPI foi lido, havia um ato organizado pelos bolsonaristas contra o passaporte sanitário. A esquerda foi xingada. Eles estavam raivosos, protestaram, xingaram, mas a CPI foi instalada.

A gente vê que o movimento antivacina, organizado e orquestrado pelo governo Bolsonaro, serviu como elemento de organização da extrema direita. E isso que precisamos identificar: existe vínculo entre grupos que estão cometendo violência fascistas, usando símbolos nazistas, com esses grupos? Estão se organizando politicamente para disputar pautas na cidade? Existe vínculo? Qual é?

 

Com a extrema direita é dado que esses grupos são identificados, mas com grupos políticos mais tradicionais, conservadores, já é possível identificar ligações? 

São hipóteses, isso que a gente quer verificar.

 

As hipóteses levam a esses grupos conservadores, bolsonaristas? 

A gente parte do mapeamento que a professora Adriana Dias colocou. E ela mesma disse, em uma entrevista ao Intercept, que encontrou um site de cunho neofascista que tinha um banner para o site do Bolsonaro. O que acho surpreendente é como essas questões são tratadas como menores, não é dada a devida importância para esses fatos da política, das instituições. Um dos motivos pelo qual pedi a abertura dessa CPI é porque incomoda muito que você não tenha respostas políticas. A gente está falando de grupos que pregam extermínio, fazem ações violentas e têm crescido no Brasil. As aproximações deles com grupos políticos organizados, com canais legais, está aí. A gente precisa dar uma resposta política, achar o nexo entre as coisas. As instituições não respondem, esse silêncio é muito grave.

Vai ser um desafio a gente caminhar nesse sentido. Com as limitações legais que tem uma CPI municipal, com as resistências que existem, ameaças e intimidações.

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Em Campinas, está a Escola de Cadetes do Exército, onde Bolsonaro estudou por algum tempo e boa parte dos militares estudam antes de ir à Academia das Agulhas Negras. De alguma maneira a CPI tem interesse em olhar para o Exército? Vai procurar ouvir a Escola de Cadetes?

É uma hipótese, não havíamos pensado nisso ainda. Mas é uma possibilidade. A gente sabe que no Exército há núcleos de extrema direita. O próprio Bolsonaro é de um grupo que não queria o fim da ditadura, que atuou contra a transição, a anistia, faz saudações à tortura, a torturadores. A gente sabe que ali é vespeiro. Vamos ver o que a gente consegue.

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21
Out21

ALUGAR EQUIPAMENTO HOSPITALAR PELO DOBRO DO PREÇO DE COMPRA? O EXÉRCITO ACHOU UM BOM NEGÓCIO

Talis Andrade

 

Tanto que o responsável por ele foi promovido. Mas o Tribunal de Contas da União discorda e está investigando o caso

 

 

SE VOCÊ ESTIVESSE pesquisando preços para comprar uma televisão que custa por volta de R$ 2 mil, diria o quê a quem te propusesse alugar o mesmo aparelho por seis meses por mais de R$ 4 mil? O atual comandante do 6º Batalhão de Engenharia e Construção do Exército, o 6º BEC, em Roraima, coronel Carlos Evando dos Santos, provavelmente acharia um ótimo negócio – se pago com dinheiro público, claro.

Ele e o tenente-coronel Júlio André Damasceno dos Santos são os responsáveis por um contrato pelo qual o Exército alugou cerca de 5 mil itens como armários, mesas, colchões, geladeiras, tomadas, lâmpadas e computadores pelo dobro do valor que gastaria para comprar todos eles. Trata-se de mobiliário e equipamentos para o hospital de campanha de Boa Vista, capital do estado, montado pela operação Acolhida para atender venezuelanos e brasileiros durante a pandemia de covid-19.

Quem detectou o mau negócio foi o Tribunal de Contas da União, o TCU, em processo aberto em setembro de 2020. Cópia da investigação foi enviada para a CPI da Covid no Senado, mas passou despercebida e permanecia intocada entre os terabytes de documentos recolhidos pela investigação. É mais um contrato mal explicado firmado por autoridades federais durante a pandemia – e mais um motivo para que o Exército seja chamado a se explicar por sua responsabilidade na pandemia, algo que a própria CPI procura evitar.

11
Out21

‘O PADRINHO’ Senador da CPI trabalhou com ‘gabinete paralelo’ de Carlos Wizard para popularizar cloroquina

Talis Andrade

Em reunião secreta, Marcos do Val afirma a grupo de médicos que trabalhava para garantir acesso à droga; CFM e Ministério participaram. Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil; Folhapress

senador Marcos do Val, do Podemos do Espírito Santo e membro da CPI da Covid, trabalhou com o gabinete paralelo que orientou o uso de medicamentos e políticas públicas inúteis contra a covid-19. Em uma longa reunião privada, classificada pelo empresário Carlos Wizard como um “encontro nacional” com médicos de “27 estados”, o senador foi apresentado como o “padrinho político” da iniciativa.

Uma gravação do encontro foi entregue agora ao Intercept por uma fonte que pediu para se manter anônima por medo de represálias. O material, com confissões até então inéditas, não faz parte dos documentos recolhidos pela CPI. Para preservar a identidade da fonte, o Intercept optou por não publicar a íntegra do vídeo, mas apenas trechos dele.

Numa fala de quase dez minutos, do Val afirmou que trabalhava para convencer autoridades para que adotassem o chamado kit covid, assim como para organizar a distribuição de fármacos comprovadamente ineficazes contra o novo coronavírus. O senador mencionou tratativas dele com as Forças Armadas, governadores, prefeitos, o Ministério Público e a Anvisa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A reunião ocorreu em 28 de junho de 2020.

“Estou aqui não só como padrinho, mas como ponta de lança para entrar onde vocês vão ter dificuldade”, disse o senador no encontro. “Até peço: não entre na seara política, que é muito complicada. Pode contar comigo que vou estar na neutralidade, não quero e não vou fazer publicidade disso. Para mim, fazer publicidade disso é um crime”.

A confissão do senador – que meses depois mentiu a respeito, como mostram notas taquigráficas de sessão da CPI – foi feita em uma reunião fechada de duas horas do grupo, que se autodenomina “conselho científico independente”.

No mesmo encontro virtual, o médico Emmanuel Fortes, que é um dos vice-presidentes do Conselho Federal de Medicina, o CFM, e membro ativo do gabinete paralelo, confirma que a entidade trabalhou alinhada aos defensores do tratamento precoce para dar garantias a quem prescrevesse a medicação inútil a pacientes de covid-19.

Além disso, o vídeo confirma o papel central de Wizard no gabinete paralelo montado por Jair Bolsonaro para aconselhá-lo no combate à covid-19. Ao longo de mais de duas horas, é ele quem preside a reunião, distribui tarefas e faz pedidos aos médicos que participam do encontro virtual.

31
Ago21

VICE-LÍDER DE BOLSONARO USA ESTRUTURA DA CÂMARA PARA APOIAR ACAMPAMENTO DO 7 DE SETEMBRO GOLPISTA EM BRASÍLIA

Talis Andrade

 

Ação de deputado federal de Rondônia indica apoio institucional do governo a manifestações que prometem ataques ao Supremo Tribunal Federal

 
 
 



A ASSESSORIA de um dos vice-líderes de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados deixou vazar num grupo de WhatsApp planos para a montagem de um acampamento de ruralistas na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, durante os protestos marcados pela extrema direita para 7 de setembro. A mensagem confirma a intenção dos bolsonaristas de coagir ministros do Supremo Tribunal Federal, o STF, e parlamentares em prol das pautas antidemocráticas do presidente.

Sigmar Rodrigues Nunes, assessor do deputado Lúcio Mosquini, do MDB de Rondônia, enviou na segunda-feira, 23 de agosto, uma mensagem a um grupo de servidores da Câmara explicando que o deputado pretendia instalar uma “tenda no canteiro central da Esplanada no dia 07 de setembro”. Nunes pedia, então, ajuda aos colegas para conseguir uma autorização para montar a estrutura. Ele foi orientado a procurar o Governo do Distrito Federal, o GDF.

26
Abr21

‘O CARA DA CASA DE VIDRO’

Talis Andrade

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Grampos sugerem que comparsas do miliciano Adriano da Nóbrega recorreram a Bolsonaro

 

por Sérgio Ramalho /The Intercept

Diálogos transcritos de grampos telefônicos sugerem que o presidente Jair Bolsonaro foi contactado por integrantes da rede de proteção do ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, chefe da milícia Escritório do Crime. As conversas fazem parte de um relatório da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Polícia Civil do Rio elaborado a partir das quebras de sigilo telefônico e telemático de suspeitos de ajudar o miliciano nos 383 dias em que circulou foragido pelo país.

Logo após a morte do miliciano, cúmplices de Adriano da Nóbrega fizeram contato com “Jair”, “HNI (PRESIDENTE)” e “cara da casa de vidro”. Para fontes do Ministério Público do Rio de Janeiro ouvidos na condição de anonimato, o conjunto de circunstâncias permite concluir que os nomes são referências ao presidente Jair Bolsonaro. “O cara da casa de vidro” seria uma referência aos palácios do Planalto, sede do Executivo federal, e da Alvorada, a residência oficial do presidente, ambos com fachada inteiramente de vidro.Bolsonaro Tests Positive for Coronavirus (COVID - 19)

Foto: Andressa Anholete/Getty Images

 

 

Após as citações, o Ministério Público Estadual pediu que a justiça encerrasse as escutas dos envolvidos nas conversas, apesar de eles seguirem trocando informações sobre as atividades ilegais de Adriano da Nóbrega. A interrupção reforça a ideia de que trata-se do mesmo Jair que hoje ocupa o Planalto. O MP estadual não pode investigar o presidente da República. Em casos deste tipo, tem a obrigação constitucional de encerrar a investigação e encaminhar o processo à Procuradoria Geral da República, que tem esse poder. Questionada, a PGR informou que buscas nos sistemas da Procuradoria por meio do número de processo indicado não retornaram resultados. Uma fonte ouvida pela reportagem que conhece o sistema da PGR, no entanto, entende que isso pode significar tanto que o processo foi encaminhado com outro número quanto que ainda não foi encaminhado ou mesmo que a procuradoria apenas não o encontrou em seus arquivos.

Intercept já havia reportado sobre as escutas em fevereiro, quando mostramos como Adriano dizia que “se fodia” por ser amigo do presidente da República, e em março, quando detalhamos a briga pelo espólio deixado pelo ex-caveira. As referências a “Jair” e “cara da casa de vidro” constam em novos documentos recebidos pela reportagem, que, em conjunto com as escutas anteriores, permitem entender a amplitude das relações do miliciano e da rede que lhe deu apoio no período em que passou foragido.

Adriano da Nóbrega fugia da justiça desde janeiro de 2019, quando o Ministério Público do Rio pediu a sua prisão, acusando-o de chefiar a milícia Escritório do Crime, especializada em assassinatos por encomenda. Ex-integrante da elite do batalhão de elite da Polícia Militar do Rio, ele foi expulso da corporação em 2014 por relações com a máfia do jogo do bicho.

As conversas de apoiadores do miliciano com supostas referências ao presidente começaram a aparecer nos grampos a partir do dia da morte de Adriano, em 9 de fevereiro de 2020, e continuaram por mais 11 dias.  No dia 9 pela manhã, o miliciano foi cercado por policiais do Rio e da Bahia, quando se escondia no sítio do vereador Gilson Batista Lima Neto, o Gilsinho de Dedé, do PSL, em Esplanada, cidade a 170 quilômetros de Salvador. Segundo os agentes, o miliciano reagiu a tiros à ordem de se render. Os policiais reagiram e mataram Adriano com dois tiros.

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De acordo com as transcrições, a primeira ligação supostamente feita ao presidente aparece no dia 9 de fevereiro de 2020 à noite, horas depois que Adriano foi morto. Ronaldo Cesar, o Grande, identificado pela investigação como um dos elos entre os negócios legais e ilegais do miliciano, diz a uma mulher não identificada (MNI, no jargão policial) que ligaria para o “cara da casa de vidro”. No telefonema, demonstra preocupação com pendências financeiras e diz que alertou Adriano que “iria acontecer algo ruim”. Ele fala ainda que quer saber “como vai ser o mês que vem” e que a “parte do cara tem que ir”.

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Identificado pela polícia como ele entre os negócios legais e ilegais do miliciano, Grande diz que vai “ligar para o cara da Casa de Vidro”. Imagem: Reprodução/MPRJ

 

Quatro dias após a morte de Adriano, em 13 de fevereiro de 2020, Grande fala com um homem supostamente não identificado (HNI), que tem ao lado, entre parênteses, a descrição “PRESIDENTE” em letras maiúsculas, e relata problemas com a família de Adriano devido à divisão de bens. O interlocutor se coloca à disposição caso ele venha a ter algum problema futuro. Apenas duas frases do diálogo de 5 minutos e 25 segundos foram transcritas.

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Polícia identifica interlocutor que conversa com comparsa de Adriano como “PRESIDENTE”. Imagem: Reprodução/MPRJ

 

No mesmo dia 13, o nome “Jair”  aparece em conversas de outros comparsas de Adriano – o pecuarista Leandro Abreu Guimarães e sua mulher, Ana Gabriela Nunes. O casal, segundo as investigações, escondeu Adriano da Nóbrega numa fazenda da família nos arredores de Esplanada após ele ter conseguido escapar ao cerco policial a uma luxuosa casa de praia na Costa do Sauípe, no litoral baiano, em 31 de janeiro de 2020.

Num dos diálogos, de pouco mais de cinco minutos, Ana Gabriela relata a uma interlocutora identificada apenas como “Nina” que “a polícia retornou com o promotor” a sua casa e que não pretende voltar para lá por causa dos jornalistas. Na sequência, diz: “Leandro está querendo falar com Jair”.

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Após a morte do miliciano, Ana Gabriela diz a uma interlocutora identificada apenas como Nina que o esposo, Leandro Guimarães, quer falar com Jair, numa possível referência ao presidente. Imagem: Reprodução/MPRJ

 

Leandro Guimarães é descrito pelos policiais como um vaqueiro premiado, que ganha a vida organizando e participando de rodeios. Foi num desses eventos que o ex-capitão comprou 22 cavalos de raça mesmo estando foragido da justiça.

Minutos depois, Ana Gabriela faz outra ligação. O telefonema iniciou às 8h50 e terminou às 8h51. No campo de comentários, o documento sugere que o diálogo aconteceu entre Gabriela e Jair. A conversa, contudo, não é transcrita na íntegra. Os analistas apenas reproduzem a mesma frase destacada anteriormente: “Gabriela diz que Leandro quer falar com Jair”.

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No campo de comentários, o documento sugere que o diálogo aconteceu entre Ana Gabriela e Jair. Imagem: Reprodução/MPRJ

Logo após os episódios, o analista da Polícia Civil sugere que não sejam renovados os grampos do casal. O mesmo acontece com Grande, que, pelo teor dos telefonemas, segue tratando dos negócios de Adriano da Nóbrega e chega a ser chamado de “chefe” em uma das interceptações. O Ministério Público Estadual do Rio, que não tem atribuição para investigar suspeitas sobre o presidente da República, aceitou a recomendação. O mesmo procedimento já havia sido adotado depois que Orelha e a irmã de Adriano citaram Bolsonaro em seus telefonemas, como mostramos em fevereiro no Intercept.

Questionamos o Ministério Público Estadual sobre o porquê das escutas dos suspeitas terem sido encerradas após as menções ao “homem da casa de vidro”, a “Jair” e “HNI (PRESIDENTE)” e, sobretudo, se a instituição remeteu à Procuradoria-Geral da República as suspeitas da ligação dos suspeitos com o presidente Jair Bolsonaro. Não recebemos nenhum retorno até a publicação desta reportagem.


Por favor, preste atenção: esta reportagem faz parte de uma série de matérias baseadas nas escutas que o MP realizou enquanto investigava o miliciano Adriano da Nóbrega. Apesar das escutas, o processo foi paralisado. Ele voltou a andar depois que começamos a investigar. O Intercept quer continuar contando essa história porque ela pode mudar os rumos do país. Precisamos da ajuda dos nossos leitores para isso. → Clique e contribua com qualquer valor.

‘Muito fiscalizado’

O nome do presidente já havia sido citado anteriormente em diálogos da irmã de Adriano, Tatiana da Nóbrega, e do sargento da PM Luiz Carlos Felipe Martins, o Orelha, um dos homens de confiança do miliciano, como revelou o Intercept em março. Ao dizer a um interlocutor não identificado que “Adriano falava que se fodia por ser amigo do presidente da República”, Orelha acendeu a luz amarela entre policiais e promotores envolvidos na perseguição ao ex-capitão. “Essa luz passou a piscar vermelha no decorrer da análise das escutas e transcrição das conversas dos suspeitos de proteger o miliciano foragido enquanto o cerco se fechava”, me disse um dos envolvidos na investigação sob a condição de anonimato.

Para os investigadores, o conteúdo das novas transcrições sugere que a amizade entre o miliciano e o presidente não seria mera bravata entre os seus comparsas. Os Bolsonaro têm uma relação antiga com o ex-caveira. Em 2005, enquanto estava preso preventivamente pelo assassinato de um guardador de carros, Adriano foi condecorado pelo então deputado estadual Flávio Bolsonaro com a medalha Tiradentes, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio, a Alerj. Uma semana após a morte do miliciano, em 15 de fevereiro de 2020, o presidente Bolsonaro o chamou de “herói” e afirmou que recomendou pessoalmente que o filho desse a medalha ao então policial. Flávio ainda empregou a mãe e a ex-mulher de Adriano em seu gabinete na Alerj, situação hoje investigada no inquérito das Rachadinhas.

Embora o ex-capitão usasse uma identidade falsa em nome de Marco Antônio Cano Negreiros, trechos das transcrições das quebras de sigilo mostram que todos os suspeitos ligados à rede de proteção de Adriano da Nóbrega sabiam que ele era foragido.

Em um diálogo captado em 7 de fevereiro, dois dias antes da operação que resultou na morte do ex-capitão, Ana Gabriela diz à mãe que não pode dar maiores explicações por telefone. A mãe então pergunta: “o rapaz está aí com você?” Ela reage com nervosismo e desconversa: “Não adianta que não vou dizer onde o rapaz está. Ele está em Esplanada com o Leandro”. A mãe insiste e acrescenta: “Graças a Deus que vocês não estavam na Costa do Sauípe. Esse rapaz não poderia estar por aqui. Ele está sendo muito fiscalizado”, concluiu.

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Trecho de uma conversa entre Ana Gabriela e a mãe em que ela diz que o “rapaz”, que a polícia entende ser Adriano, está em Esplanada (BA) com o marido. Imagem: Reprodução/MPRJ

 

Antes de se refugiar no sítio do vereador Gilsinho de Dedé, em que acabou sendo morto, e na fazenda do casal Leandro e Gabriela, o ex-oficial do Bope contou ainda com a ajuda de uma prima e de outro fazendeiro da região. As escutas dão a entender que a veterinária Juliana Magalhães da Rocha, que trabalhava como tratadora dos cavalos e das cabeças de gado do miliciano, chegou a alugar um carro que foi usado na fuga do ex-capitão do litoral baiano para o interior do estado. Já o fazendeiro Eduardo Serafim, proprietário de um rancho em Itabaianinha, na divisa de Sergipe com a Bahia, abrigou parte dos animais do chefe do Escritório do Crime.

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É na fazenda de Serafim que ficavam os 22 cavalos de raça comprados por Adriano. Nas transcrições, a polícia sugere que Adriano ou a atual esposa Julia Lotufo visitaram o local. Imagem: Reprodução/MPRJ

 

Mesmo com provas robustas de que ajudaram Adriano na fuga, nem o casal Leandro e Gabriela, nem o vereador Gilsinho, a veterinária Juliana ou o fazendeiro Serafim foram denunciados à justiça pelo MP do Rio. Procurada pela reportagem, a instituição não explicou porque preferiu deixá-los de fora da denúncia.

Uma investigação pegando poeira

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o Gaeco, do MP do Rio, levou 406 dias para denunciar parte da rede de apoio ao miliciano. A operação Gárgula foi posta em prática após o Intercept ter revelado a disputa em torno dos bens do miliciano, em 19 de fevereiro deste ano. No mesmo dia da publicação da reportagem, o MP denunciou à 1ª Vara Criminal Especializada do Tribunal de Justiça nove dos 32 suspeitos.

Apesar das evidências de que a mãe de Adriano, suas irmãs Tatiana e a sua ex-mulher também se beneficiaram do dinheiro ilegal acumulado pelo miliciano, o MP optou por levar à justiça apenas a então companheira do miliciano, Júlia Lotufo, e os policiais militares Rodrigo Bittencourt Rego e Orelha. Os três tiveram as prisões decretadas a pedido dos promotores.

No dia seguinte ao pedido de prisão, Orelha sofreu uma emboscada em frente de sua casa, em Realengo, na zona oeste do Rio e foi morto a tiros de fuzil. Dois dias depois, o coordenador do Gaeco, promotor Bruno Gangoni, aventou a possibilidade de o crime ter sido queima de arquivo, mas sem dar maiores esclarecimentos. Um dos principais aliados de Adriano, o PM poderia ter informações fundamentais para o desenrolar de investigações relacionadas às Rachadinhas no gabinete de Flávio Bolsonaro e à morte de Marielle, em que há fortes suspeitas do envolvimento do Escritório do Crime.

O Intercept questionou o MP sobre quem seriam os beneficiados com a morte do policial-miliciano e o motivo da denúncia não ter incluído os nomes dos integrantes da família de Adriano e seus aliados na Bahia. Mais uma vez, não obteve resposta até a publicação desta reportagem. A Presidência da República também não nos respondeu se o presidente entrou ou não em contato com comparsas do miliciano logo após a sua morte.

Atualização – 24 de abril de 2021, 12h40

O texto foi atualizado para acrescentar mais detalhes do posicionamento da PGR.

Colaboraram com a reportagem Paula Bianchi e Guilherme Mazieiro.

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