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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

25
Jun20

'Esquecida', sem UTI e com prefeita afastada, Oiapoque apela à Guiana Francesa por ajuda contra covid-19

Talis Andrade

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por Ligia Guimarães
Da BBC News

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De acordo com boletim atualizado até o dia 23 de junho, a pequena Oiapoque já contabiliza 10 mortes por covid-19, dos 380 óbitos registrados pela doença no Amapá.

No dia 21 de maio, a prefeitura da cidade pediu socorro internacional. Em um ofício que foi entregue ao governo francês e a outros 20 países, a gestão municipal informava que não há leitos, equipamentos de proteção individual (EPIs), profissionais de saúde ou medicamentos suficientes para enfrentar a pandemia.

Quase um mês depois, no dia 14 de junho, quando a cidade já contabilizava 7 mortos e 925 casos confirmados da doença, a Polícia Federal descobriu "fortes indícios de desvio dos medicamentos utilizados no tratamento da covid-19 e dos testes de diagnóstico da doença, possível motivo que gerou a falta de medicação na rede pública municipal". Apreendeu, inclusive, testes e equipamentos na casa da prefeita Maria Orlanda Marques (PSDB). Na terça-feira (23/6), a prefeita foi afastada do cargo, depois que a PF deflagrou a segunda parte da operação.

Além dos indícios de desvio de insumos relacionados ao combate à pandemia, as investigações apuraram que houve a compra de pelo menos três bolsas femininas, no total de R$ 4,8 mil, por meio de transferências da conta bancária da própria prefeitura.


Espera na Justiça

No começo da pandemia, em 31 de março, o Ministério Público do Amapá obteve decisão liminar que obrigaria o Estado a adotar medidas urgentes para garantir o pleno funcionamento do Hospital Estadual de Oiapoque (HEO), sob pena de multa por descumprimento. A Procuradoria do Estado recorreu, no entanto, e os efeitos da decisão foram suspensos pelo Tribunal de Justiça do Estado.

"Estamos aguardando agora o julgamento", explica o promotor de Justiça Benjamin Lax, titular da 1ª Promotoria de Justiça de Oiapoque.

A ação do MP cobrava resposta do Estado a problemas urgentes, como a falta de medicamentos, a falta de UTI e o número insuficiente de ambulâncias para transportar doentes até a capital para atendimentos de média e alta complexidade, entre outros. "Não existe UTI e não existem médicos intensivistas no Hospital de Oiapoque, mas deveria ter. Eu posso afirmar para você que as pessoas têm morrido por causa disso", disse o promotor.

A reportagem tentou por dias contato com a assessoria de imprensa do governador do Estado, Waldez Góes (PDT), mas não obteve retorno.

A BBC News Brasil ouviu moradores, profissionais da saúde, e familiares de vítimas da covid-19 em Oiapoque, que se sentem "esquecidos" no extremo norte do Brasil, e apontam que a pandemia apenas agravou a precariedade da saúde pública local.

Além da pandemia e dos escândalos de corrupção, a cidade ainda convive com a greve por atrasos nos salários de profissionais de limpeza que trabalham no hospital estadual de Oiapoque, o único da cidade.

Profissionais de limpeza terceirizados do hospital entraram em greve parcial no meio da pandemia, dedicando-se só a limpar o que é mais essencial para o atendimento dos pacientes, porque estão com salários atrasados por mais de três meses.


Fronteiras fechadas e 'barril de pólvora'

Desde que os primeiros casos de covid-19 começaram a chegar ao Brasil, Oiapoque tem recorrido por diversas vezes à ajuda da vizinha Guiana Francesa, território ultramarino da França, considerado uma extensão do país: é membro a União Europeia, a língua é o francês, a moeda é o euro e é subordinada ao presidente da França, Emmanuel Macron, que tem descrito o combate à covid-19 como uma "guerra sanitária".

Desde o início de junho, parte dos testes dos moradores da cidade é analisada na Guiana Francesa, a partir de uma cooperação internacional.

Comparada à precariedade do atendimento em Oiapoque, a Guiana pareceu enfrentar a doença com mais planejamento e infraestrutura.

Oiapoque tem no território francês sua "cidade-irmã": é vizinha do o município de São Jorge de Oiapoque (Saint-Georges), na qual 40% da população é de brasileiros. É, atualmente, a única cidade da Guiana que continua confinada contra a pandemia, em lockdown. A população da Guiana Francesa, como praticamente todo o território francês foi liberada do confinamento no dia 11 de maio.

Os dois municípios têm relação comercial e social e direta e são divididos pela Ponte Binacional Brasil-França, inaugurada em 2013. Os moradores da Guiana se aproveitam da força do euro em relação ao real para fazer compras em Oiapoque; muitos brasileiros, por outro lado, trabalham em garimpos ilegais na Guiana; e o fluxo entre as duas cidades é constante, seja pela estrada que cruza ponte (a distância entre as cidades é de pouco menos de 10 km), ou seja pelo rio Oiapoque.

"Dos que se encontram na Guiana Francesa, praticamente todos têm parentesco direto com o Estado do Amapá, com o Norte ou o Nordeste", afirma Isaac Silva, chefe das relações internacionais da prefeitura de Oiapoque, que diz que essa dependência tornou mais difícil limitar a circulação pela fronteira.

Quando os primeiros casos de covid-19 foram confirmados na Guiana Francesa no início de março, época em que as fronteiras e os voos ainda estavam liberados, o território francês pareceu reagir de maneira eficiente: criou políticas de isolamento dos casos suspeitos em hotéis, adotou testes em massa, aumentou a fiscalização da fronteira restringiu a entrada no território apenas a casos especiais, documentados.

Mas no mês passado, quando a doença avançou pelo rio Oiapoque e atingiu a "irmã gêmea" São Jorge, as coisas parecem ter saído de controle também do lado francês. Atualmente, a Guiana tem oito mortos e 2.548 casos confirmados de covid.

Com o fechamento das fronteiras, os moradores de Oiapoque perderam também a opção de tentar atendimento de emergências de saúde na vizinha, possibilidade que era prevista em um acordo de cooperação.

"O mais grave que está acontecendo conosco aqui é a falta de medicamentos, que nós não temos. Nem nos postos de saúde, nem para comprar", afirma Lilma Campos, dona de uma pousada na cidade e presidente da associação comercial de Oiapoque.

Junto com outros membros da sociedade civil, ela têm se organizado para conseguir doações, principalmente vindos da Guiana Francesa. Organizações como a Associação Internacional das Enfermeiras da Guiana, Corpo de Bombeiros da Guiana e a Agência Regional da Saúde estão entre os que doaram Equipamentos de Proteção Individual, oxigênio e medicamentos para Oiapoque.

Houve também o pedido para que um hospital de campanha fosse instalado em Oiapoque, financiado pelo governo europeu. Waddy Many Benoit, responsável por mediar as relações interfronteiras da ONG Pirogue Humanitaire, dedicada ao recrutamento de médicos para a região, diz que a operação da PF em torno da prefeita reduziu a credibilidade em torno dos pedidos. "Foi um efeito muito muito negativo. Franceses não gostam desse tipo de situação", afirma Benoit.

A partir de agora, a ideia da ONG é formalizar tais solicitações por meio dos parlamentares das bancadas estadual e federal do Estado, sem envolver a prefeitura. Na quarta-feira (24/6), a administração da Guiana anunciou a intenção de instalar um hospital de campanha na capital, Caiena.

O chefe de relações internacionais da prefeitura de Oiapoque, Isaac Silva, diz que a cidade convive há tempos com a falta de medicamentos e estrutura básica de saúde, mas a gravidade da situação ficou mais evidente com a pandemia.

"Eu, como relações internacionais, me obrigo, coloco a vergonha de lado e vou para lá me humilhar mesmo, no sentido literal da palavra, e pedir mesmo para a Guiana para que eles nos doem alguma coisa para poder salvar as vidas aqui."


Preconceito e conflitos

Na últimas semanas, brasileiros que moram na Guiana relataram que foram alvo de preconceito por parte dos guianenses franceses. "O brasileiro tem sido mal visto, por não querer respeitar o confinamento, querer jogar bola todo dia", afirma o presidente da Associação de Brasileiros na Guiana Francesa, José Hermegildo Gomes, o Dedé, que vive na Guiana Francesa há 20 anos.

"A gente vê que a comunidade guianense está com mais receio de que a comunidade brasileira vá lá. A comunidade francesa vê na televisão parabólica o pessoal brincando, vê a política do presidente achando que é brincadeira. E daí vem todo o preconceito."

A brasileira Andressa Duvigneau, vice-representante dos brasileiros na Guiana e que mora na cidade de Curru, também diz que são mais frequentes as críticas aos brasileiros nas redes sociais durante a pandemia. "Tem muito guianense francês dizendo que brasileiros entram pelo mato e fazem festa, clandestinamente. Já estão comentando na internet, ligam para o rádio para falar mal, para criticar."

Benoit Van Gastel, responsável pela cooperação em saúde na Agência Regional de Saúde da Guiana Francesa, diz que, embora seja difícil afirmar que a má condução da pandemia em Oiapoque tenha prejudicado o território francês, sabe-se que alguns dos casos de São Jorge do Oiapoque vieram de contágios entre as cidades vizinhas.

"Para as pessoas, o rio Oiapoque é mais um ponto de ligação do que uma fronteira entre os países. Na rotina normal, as pessoas circulam pelo rio várias vezes por semana para necessidades básicas, como trabalho, para ver a família, amigos. Então é muito difícil barrar esse tipo de conexão", afirma Van Gastel. [Transcrevi trechos]

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09
Mar19

Vaticano faz em Manaus reunião preparatória para Sínodo da Amazônia, criticado por governo Bolsonaro

Talis Andrade

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Por RFI
 

A Igreja católica está preocupada com a preservação do planeta e organiza a partir desta quinta-feira (7) duas reuniões para discutir o desenvolvimento sustentável. A primeira começou nesta manhã no Vaticano e vai durar até 9 de março. A segunda acontece em Manaus e é uma reunião preparatória para Sínodo da Amazônia, previsto para outubro e que provoca polêmica com o governo Bolsonaro.

Gina Marques, correspondente da RFI em Roma

A conferência no Vaticano “As religiões e os objetivos do desenvolvimento sustentável: ouvir o grito da terra e dos pobres” propõe um diálogo inter-religioso para estabelecer objetivos de como ajudar a salvar o meio ambiente. Participam representantes da Organização das Nações Unidas para e Agricultura e Alimentação (FAO), além de religiosos da Comissão Justiça, Paz e Integridade da Criação entre outros. A finalidade é reforçar o empenho das religiões e o envolvimento da sociedade civil na preservação do meio ambiente.

Em Manaus, ocorre o seminário de preparação para Sínodo da Amazônia previsto para outubro. O tema central dos dois dias de debates, abertos ao público, é a preservação ambiental da Amazônia.

As duas reuniões recordam a encíclica do papa Francisco Laudato si', na qual ele critica o consumismo e desenvolvimento irresponsável e faz um apelo à mudança e à unificação global das ações para combater a degradação ambiental e as alterações climáticas.

Críticas do governo brasileiro

Recentemente o governo brasileiro criou polêmica com a realização do Sínodo da Amazônia. O ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, disse em fevereiro que ONGs estrangeiras e chefes de Estado de outros países não devem dar "palpite" na Amazônia brasileira.

Não houve um comunicado oficial do Vaticano respondendo ao governo do Brasil. A Santa Sé não entra neste tipo de polêmica. Já o bispo de Marajó, no Pará, dom Evaristo Spengler, afirmou que não cabe ao governo brasileiro monitorar os debates da Igreja. Segundo ele, a igreja “não é neutra”, o que não significa que tenha partido. Dom Evaristo declarou que “a igreja está do lado dos mais fracos, dos mais pobres, dos ribeirinhos e dos indígenas”.

O bispo criticou também os interesses econômicos do governo brasileiro. De acordo com ele, existem dois modelos de desenvolvimento: o sustentável e o predatório. Sobre o Brasil, ele falou que “estão incentivando um modelo predatório, que extrai as riquezas da floresta e deixa a população na pobreza”. Além disso, o governo brasileiro “quer construir hidrelétricas, abrir rodovias e permitir o avanço do agronegócio e das mineradoras”.

Vale lembrar que o papa Francisco anunciou o seminário em 2017, muito antes da eleição de Jair Bolsonaro. O Sínodo da Amazônia vai ocorrer de 6 a 27 de outubro deste ano. O Sínodo da Amazônia preocupa o governo de Bolsonaro, que teme que suas políticas contra a demarcação de terras indígenas e ONGs que combatem as mudanças climáticas sejam questionadas durante o encontro.

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Preparativos para o Sínodo da Amazônia

Na semana passada, o Vaticano já havia organizado em Roma um seminário preparatório para o Sínodo de outubro. Foram três dias de debates sobre a Amazônia que contaram com a participação do cardeal Cláudio Hummes, que é presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica, e do bispo de Marajó, Dom Evaristo Spengler. O Sínodo é para a Amazônia, mas sua preservação ou destruição tem repercussão mundial.

Nove países compartilham a Pan-Amazônia: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa. Nesta região, importante fonte de oxigênio para toda a Terra, concentra-se mais de um terço das florestas primárias do mundo. É uma das maiores reservas de biodiversidade do planeta, abrigando 20% da água doce não congelada.

Neste imenso território vivem cerca de 34 milhões de pessoas, das quais mais de 3 milhões são indígenas, pertencentes a mais de 390 grupos étnicos. Povos e culturas diferentes como afrodescendentes, camponeses, colonos, vivem em uma relação vital com a vegetação e as águas dos rios.

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