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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

04
Dez19

A tragédia de Paraisópolis e a desigualdade social em São Paulo

Talis Andrade

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por Simão Pedro

Uma das coisas que me chamaram a atenção no massacre de 9 jovens na comunidade de Paraisópolis no último domingo foi que a maioria dos que ali morreram não eram da comunidade. Foram para lá em busca de diversão no baile funk que lá ocorre semanalmente, atraindo jovens de todas as regiões da periferia da Capital.

 

Paraisópolis, bairro em que 49% dos domicílios são considerados irregulares - não tem termo de posse e nem escritura - é conhecido pelas imagens que contrastam suas casas pobres de blocos sem reboco e caixas d’água azuis aparentes fazendo divisa com os prédios com piscinas suspensas e mansões ricas do Morumbi. Um retrato da extrema desigualdade que é marca da sociedade brasileira e também paulistana.

vafela paraisopolis.jpg

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E essa desigualdade entre ricos e pobres que faz de nossa sociedade uma das mais injustas socialmente no mundo, aumentou mais ainda nos últimos anos. Segundo dados do IBGE divulgados recentemente, no ano de 2018 o rendimento da fatia mais rica da população aumentou em 8,4%, enquanto os mais pobres sofreram uma redução de 3,2%. Ou seja aumento da concentração de renda e consequentemente da pobreza e miséria em nosso País!

Quando falamos da parcela mais rica, falamos do 1% da população - cerca de 2 milhões de brasileiros - que vive com renda média de R$ 34 mil por mês. Quando falamos dos mais pobres, falamos dos 50% da população - mais de 100 milhões de brasileiros - que vivem com renda média de R$ 820,00 por mês. Ou seja, a parcela do 1% ganha 33,8 vezes mais que a parcela dos 50%, um patamar recorde.

Essa divisão não é só de renda. Ela também é espacial e no acesso a serviços de educação, cultura, saúde e trabalho, por exemplo. E a cidade de São Paulo é um exemplo disso! Estive olhando as informações do Mapa da Desigualdade que é o último levantamento (2018) feito pelo Movimento Nossa São Paulo em parceria com o instituto Ibope Inteligência. São estarrecedores!

Poucos paulistanos têm os mesmos acessos a serviços públicos. No Itaim Bibi, por exemplo, 0,83% dos domicílios são favelas e apenas 7 dos 96 distritos da Cidade não possuem residências nessas condições. Em Paraisópolis, já citei, 49% das residências são irregulares. Na questão de empregos, os moradores do distrito da Barra Funda têm 246 vezes mais chances de arrumar trabalho do que os que moram na 59 pontos na Cidade Tiradentes, que fica em último lugar no quesito emprego. E quem mora na Cidade Tiradentes morre bem mais cedo que os demais habitantes: enquanto a expectativa de vida naquele bairro situado no externo Leste é de 58 anos, os que moram no Jardim Paulista tem quase 2 décadas a mais: 81 anos. No tema do acesso à saúde privada, 66% dos paulistanos não têm plano de saúde e 31,6% dos domicílios viviam com renda mensal de 1/2 salário mínimo por pessoa.

No tema do acesso à atividades culturais as diferenças também são gritantes é isso tem a ver com a tragédia dos jovens de Paraisópolis. Segundo o Mapa da Desigualdade, 53 distritos de São Paulo não tem centros culturais, casas ou espaços de cultura. 60 distritos não têm museus. 52 não têm salas de shows e concertos. 54 não têm salas de cinema e 23 não têm nenhum equipamento de cultura como bibliotecas, por exemplo.

Esses números sobre os equipamentos culturais não são piores porque os CEUs, construídos a partir dos anos 2000 e as Fábricas de Cultura a partir de 2010 deram uma aliviada. Foi por isso que, quando fui Secretário de Serviços na gestão Haddad, recebi a missão de levar mais serviços públicos para a periferia. Levamos a Coleta Seletiva que só servia 85 distritos para os demais 21. Colocamos praças com WiFiLivre em todos os distritos; implantamos a rede de laboratórios de fabricação digital, os FabLabs, com 12 unidades, 9 delas na periferia; começamos o programa de iluminação com LED pelos distritos com maiores vulnerabilidades como Lageado, Cidade Tiradentes, M’Boi Mirim, Brasilandia, Raposo Tavares, Pedreira, Sapopemba e Guaianases. Isso se somando à iniciativas como os cursos universitários nos CEUs, além das 20 salas de cinemas também nos CEUs.

Paraisópolis não ficou de fora: além da praça WiFiLivre, ali inauguramos uma central de reciclagem e instalamos uma cooperativa, construímos 2 ecopontos e reforçando a iluminação pública e instamos pontos novos na nova avenida Hebe Camargo que corta o bairro, mantendo ainda os 3 telecentros em parceria com a Associação dos Moradores do local. Claro que, pouco ainda para melhorar a qualidade de vida dos moradores dali.

04
Dez19

O massacre de Paraisópolis e o apartheid social

Talis Andrade

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por Aldo Fornazieri

Os nomes dos nove jovens massacrados em Paraisópolis ecoaram nas redes sociais para não serem esquecidos. Não dá para esquecer. Não podemos e não devemos esquecer. São nove vidas em pleno florescimento que foram brutalmente ceifadas. Aquela brutalidade é o retrato do abandono das periferias, das periferias sem futuro, dos jovens sem futuro. É o futuro do Brasil que está sendo massacrado. É o futuro do Brasil que está sendo assassinado. 

 

As versões de João Dória e da polícia não se sustentam pelas evidências que existem. O cenário do massacre foi alterado. O SAMU sequer apareceu. Pessoas foram impedidas de socorrer os jovens. Culpar os policiais é fácil. Na verdade, os policiais são usados por essa elite assassina para matar pobres. São pobres matando pobres; são negros matando negros. Enquanto isso, os verdadeiros assassinos estão nos gabinetes, nos escritórios, nos palácios. 

O massacre é a manifestação de uma elite cruel e predatória, de um capitalismo criminoso, que não quer admitir os mínimos direitos. O massacre é a evidência do gigantesco apartheid social que impera no Brasil e que é, ao mesmo tempo, um apartheid racial, um apartheid da juventude pobre. As periferias são os guetos da pobreza e do desprezo e abandono a que os pobres são relegados. A prova mais indesmentível desse apartheid é que a metade da população brasileira vive com pouco mais de R$ 400 por mês. São os milhões de desempregados, de desalentados, de subempregados. 

As lideranças políticas e sociais precisam compreender que os termos da atual equação social e econômica do Brasil é absolutamente inaceitável e que é preciso agir de forma desmedida contra essa equação, contra essa indignidade. O massacre de Paraisópolis não é um fato isolado: é a expressão cruel e cruenta do apartheid, da injustiça, da desigualdade, da falsa democracia que impera no Brasil.

Os partidos de esquerda não podem tratar o massacre de Paraisópolis como um caso estadual. É preciso um pronunciamento nacional das direções partidárias. Existem parlamentares combativos nos partidos de esquerda. Mas, no geral, as bancadas têm atuações aquém do necessário para enfrentar a guerra que as elites promovem contra os pobres. 

No discurso que Lula fez em São Bernardo depois de ganhar a liberdade incitou que os parlamentares de esquerda a se tornem leões. Esta é uma necessidade urgente. O fato é que os governos tucanos de São Paulo nunca tiveram uma oposição efetiva. Os parlamentares progressistas não podem ser gatinhos manhosos de Alckmin, de Dória ou de quem quer que seja. Precisam estar onde está o povo. Precisam enfrentar junto com o povo as vicissitudes que o povo sofre. É preciso escolher: para ser progressista não se pode estar junto com os apartadores. É preciso caminhar junto com os apartados. É preciso colocar-se à frente dos apartados lutando com eles, liderando-os.

O secretário de Segurança precisa pedir demissão ou deve ser demitido. O comandante da Polícia Militar também. Dória massacra os pobres e precisa ser denunciado nas Cortes Internacionais de Direitos Humanos, na ONU, na OEA. A repressão violenta dos jovens que não têm alternativas de lazer não foi episódica em Paraisópolis. Ela é sistemática em toda a cidade de São Paulo. Sem alternativas, os jovens da periferia, para se divertirem, precisam se expor à violência policial, à violência do crime organizado, ao risco das doenças contagiosas, ao abandono cultural e social.

Dizer que a situação dos fluxos é complexa, todo mundo sabe. Dizer que não há soluções é mentira. Tive a oportunidade de conhecer esta realidade, instado por um gestor da administração Haddad a colaborar na elaboração de um projeto de intervenção de políticas públicas para buscar saídas para o problema dos fluxos. Infelizmente, as recorrentes trocas de gestores por intercorrências políticas fizeram com que a projeto não tivesse solução de continuidade. Mas ficou claro que soluções existem e são factíveis. Ocorre que não tem vontade política. Ocorre que o poder público é absolutamente incapaz de resolver os grandes problemas urbanos. Ocorre que os pobres e as periferias não são prioridades para o poder público e para os partidos políticos. Os pobres são massa de manobra, contam apenas na hora das eleições. 

Os equipamentos públicos, a segurança pública, as prioridades estão concentrados nos bairros ricos de São Paulo. Ali, os filhos das classes médias e das elites, além de contar com a proteção do poder público, com os benefícios dos equipamentos públicos de saúde, educação, cultura e lazer, contam com os seguranças particulares, com os condomínios fechados, com os prédios protegidos, com os carros para deslocamentos, com dinheiro para se divertirem.

Aos jovens pobres, filhos de pobres, resta a rua, as bombas, os cassetetes, a coação do crime organizado, as bebidas de péssima qualidade, o alcoolismo, as drogas dos becos, a violência sexual, Os fluxos são os ambientes onde os jovens se encontram para fugirem de si mesmos, para fugirem de um cotidiano sem alternativas, sem esperanças e sem um amanhã.  

São esses jovens, em sua maioria pobres e das classes médias baixas, que compõem a mais da metade do total de estudantes que não concluem o ensino médio, dos 60% que egressam do ensino universitário, que não têm qualificações para o trabalho, que não têm empregos qualificados, que não terão acesso ao sistema de saúde de qualidade e que terão aposentadorias precárias na velhice. É para esses jovens que os partidos de esquerda e os movimentos sociais precisam se voltar e resgatar. São esses jovens que precisam ser politizados e organizados. Mudanças se fazem com ideias, projetos e força organizada. Somente deles poderá vir a força e a energia necessárias à mudança.

Sem o engajamento ativo desses jovens não haverá mudanças. Sem esses jovens, os paridos, os sindicatos e os movimentos sociais não passarão de aparatos burocráticos que servem seus próprios interesses, que miram seus próprios recursos, que acalentam seus próprios altos salários, que se regozijam no conforto de seus próprios gabinetes, que se comprazem com os hotéis e restaurantes luxuosos. Sem a força e a energia desses jovens a mudança estará morta, a esquerda estará morta e o Brasil estará morto. 

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