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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

09
Set21

Ao sequestrar o Sete de Setembro, Bolsonaro certamente desagradou à caserna

Talis Andrade

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por Ricardo Bruno

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Após se apropriar do verde e amarelo e da bandeira nacional, Jair Bolsonaro conseguiu ofuscar as comemorações da Independência Brasileira. Reduziu o Sete de Setembro a um espetáculo grotesco, beligerante, um revide público às instituições com viés profundamente antidemocrático.  O fez movido exclusivamente por interesses pessoais, num movimento em que sobrepôs as questões que o afligem – entre elas a possibilidade de prisão – aos valores de bravura e coragem historicamente evocados neste dia pelas Forças Armadas. 

A irresponsável subordinação dos grandes temas nacionais à pauta estreita do bolsonarismo certamente não agradou aos comandantes das tropas. A fala do general Carlos Alberto Santos Cruz de que o 7 de setembro foi sequestrado por interesses políticos não foi fortuita, fruto de um arrobo verbal disparado ao acaso. Ao contrário, representa com clareza a posição de setores importantes da caserna.

Em 199 anos de independência, pela primeira vez, um presidente da República - logo um ex -oficial do Exército Brasileiro - se coloca acima da Nação. Trata as questões penais que o adormentam com mais importância do que o conjunto de valores que dignificam a história das Forças Armadas e, de resto, do povo brasileiro. 

Historicamente, o Sete de Setembro é o momento em que as Forças Armadas exaltam a essência do patriotismo dos brasileiros, dada a importância do fato para a construção da identidade nacional. Os conceitos que fundamentam a independência constituem a base de nossa formação cívica. Nesta terça-feira, contudo, os compromissos inarredáveis de devoção pública à pátria e a seus símbolos  foram substituídos por achincalhes do presidente da República à Suprema Corte.  Assim,  valores cívicos basilares da Nação, os quais as Forças Armadas tradicionalmente exaltam e dos quais se orgulham em datas simbólicas, foram obnubilados pela fanfarronice presidencial. 

Ressalvadas as diferenças ideológicas e de caráter de seus protagonistas, a mobilização de Jair Bolsonaro para o Sete Setembro poderia ensejar a apresentação de medidas estruturais para a transformação do País, a exemplo do que fizera João Goulart com as reformas de base no comício da Central do Brasil. 

Ao juntar em praça pública a sua base de sustentação política, Bolsonaro poderia estar criando, hipoteticamente, as condições objetivas para apresentação de um conjunto de metas e diretrizes governamentais num ato altissonante em que supostamente obteria o aval popular para seus planos. Ainda que se discordasse de tudo que ele propusesse, seria inegavelmente um momento afirmativo do governo.

Nada disto aconteceu. É esperar demais de Bolsonaro. Minúsculo em tudo que faz, ele se ocupou apenas de uma contraofensiva retórica às investigações do STF que podem eventualmente levá-lo à cadeia. Capturou o sentimento pátrio do Sete de Setembro para promover uma patuscada cívica. Sequestrou valores nobres num movimento que, por baixo, malbaratou a história de bravura e coragem das tropas na construção da identidade nacional.

Ao fazê-lo, praticou crimes de responsabilidade aos borbotões numa cena pública deplorável para um país da importância e da dimensão do Brasil.

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10
Jul21

Marcia Tiburi: "vai acontecer um golpe militar que será uma caricatura de 1964"

Talis Andrade

 

 

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Vai acontecer um golpe militar e ele será uma caricatura de 1964, assim como Bolsonaro será um ditador caricatural. O golpe vai ser ainda mais grotesco do que todos os que já vimos e vamos ficar ainda mais estarrecidos do que estamos hoje.Image
Leonardo Attuch
Replying to
Todas as ditaduras são grotescas, mas esta, se vier a ocorrer, será ainda mais grotesca.

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Meire de Assis 
Replying to
Você acha que isso é possível? Eu acho que eles ameaçam, mas não têm força para isso. Claro, sou leiga, mas acho que é só chantagismo.Image
Alliye LIRA É CÚMPLICE ♪
Replying to
Golpe vai ser a panela que vou jogar na cara do primeiro milico que vier com papinho de ditadura. Vão tudo cair do cavalo, pois estarei com os bolsos cheios de bolinhas de gude esperando por eles.
Marcelo Adnet
- Bolsonaro, entrearrotos, confessa que prevaricou
- mulher é presa por bater panela contra o presidente
- jornalistas mulheres ameaçadas pelo governo
@ArthurLira_ se mostra cúmplice e foge de seu dever.
Mais um dia normal no EvangelistãoMulher é presa em Porto Alegre por bater panela contra Bolsonaro
Luísa Martins
@julianadalpiva Embora assustador, o comportamento de Wassef infelizmente não surpreende: em 1º de outubro de 2019, ele foi até a porta do STF e me coagiu a entrar no carro dele para reclamar de uma matéria. Não é fato isolado. Minha solidariedade à incrível repórterdesenhosdonando (@desenhosdonando) | Twitter
João Villaverde
Wassef, Bolsonaro, Weintraub, Salles, Guedes, Ernesto, Kicis, Heinze, Zambelli, Garcia, Hattem, Girão, Pazuello. Que desgraça. Esse bando vai passar. Está acabando. Mas, nossa, que desgraça.
Marcelo Rubens PaivaImage
Lázaro Rosa
Todo meu respeito a essa senhora na Motociata Fascista Rio Grande do SulImage
Tiago Barbosa
A prisão ilegal de uma mulher pela PM do Rio Grande do Sul por protestar contra um genocida é de inteira responsabilidade do governador Eduardo Leite, o tucano vestido de democrata pela Globo para enfrentar Lula. Não adianta marketing de sair do armário quando a alma é fascista.
Lafa
@UltraLafa
 
 
 
30
Jan21

Ruy Castro: Bolsonaro rebaixou o Brasil ao nível de estrebaria de quartel

Talis Andrade

 

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247 - Em sua coluna publicada no jornal Folha de S.Paulo, o escritor Ruy Castro afirma que Jair Bolsonaro foi "quem rebaixou o Brasil ao nível de estrebaria de quartel, ao inundar os lares com um vídeo sobre golden shower, chamar um jornalista para a briga ('Minha vontade é encher a sua boca de porrada!') e ejacular mais palavrões numa reunião ministerial do que em todas as reuniões ministeriais somadas desde 1889".

No texto, Ruy Castro destaca que, "desde sua posse, Jair Bolsonaro já foi chamado de cretino, grosseiro, despreparado, irresponsável, omisso, analfabeto, homófobo, mentiroso, escatológico, cínico, arrogante, desequilibrado, demente, incendiário, torturador, golpista, racista, fascista, nazista, xenófobo, miliciano, criminoso, psicopata e genocida". 

"Nenhum outro governante brasileiro foi agraciado com tantos epítetos, a provar que a língua é rica o bastante para definir o pior presidente da história do país. Mas é inútil, porque nada ofende Bolsonaro. Ele se identifica com cada desaforo".

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14
Nov20

“Canalhas”, diz Cristina Serra a quem contribuiu para que Bolsonaro chegasse ao poder

Talis Andrade

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247 - A jornalista Cristina Serra observa que muitos dos que apoiaram a chegada de Jair Bolsonaro ao poder “agora fingem espanto cada vez que ele aumenta a voltagem das barbaridades que despeja de sua boca pestilenta. Teve até general escrevendo cartinha lamuriosa. Sentem-se traídos? Bem feito”.

“Bolsonaro arrasta o país ao ridículo mundial junto com sua figura grotesca, capaz de comemorar a interrupção dos testes da vacina contra a Covid e de lançar suspeitas infundadas sobre a imunização; aparelhar a Anvisa e destruir o que resta da credibilidade do órgão regulador, num momento em que a pandemia está longe de ser controlada. Isso é um crime contra o país”, diz a jornalista em sua coluna deste sábado (14) na Folha de S. Paulo.

“No Amapá, o clima é de convulsão social em consequência do apagão de energia. Há mais de dez dias, a população se tornou refém da inépcia da empresa transmissora e das autoridades, em todos os níveis. Abandono não é novidade nos confins da Amazônia. E qual o plano dos fardados para a região ? Controlar ONGs e levar embaixadores para um passeio”, destaca.

“Bolsonaro nos legará um farrapo de país. Na mesma cerimônia, disse: "Não estou preocupado com minha biografia, se é que tenho biografia". Nisso, ele tem razão. Bolsonaro e família não têm biografia. Sua história será contada nos arquivos policiais”, diz Cristina no texto.

“Aos que contribuíram para o estado de coisas que levou à sua eleição, aos que o naturalizam como figura normal do jogo democrático, aos que lhe dão sustentação política, evoco Tancredo Neves em 1964. Canalhas, canalhas, canalhas!”, finaliza. 

 
01
Nov20

De vexame em vexame, nos convencemos que o Brasil não tem mais graça

Talis Andrade

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'BUTTOCKS' E CUECA
 
por Luis Fernando Veríssimo
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O jornal The Guardian, da Inglaterra, deu a notícia com precisão anatômica: o senador Chico Rodrigues estava com dinheiro entre seus “buttocks”, nádegas. A imprensa brasileira preferiu localizar o inusitado cofre do senador numa vaga “cueca”, que abrange as nádegas, mas, desculpe, não vai tão fundo. Ou o Guardian tem informantes que ninguém mais tem sobre os hábitos do senador, ou está querendo nos anarquizar – ou precisa explicar seu noticiário exclusivo. Ou então o que deve ser estudado é a opção da imprensa nacional pela cueca em vez dos mais desmoralizantes “buttocks”. Por que escolheram a menos desmoralizante?
 
Minha interpretação é que, com o dinheiro escondido nos fundilhos do senador, chegamos a uma espécie de limite de tolerância com nós mesmos. Não nos aguentamos mais. De vexame em vexame, culminando, desculpe, com a história do dinheiro entre os “buttocks”, ou na cueca, nos convencemos que o Brasil não tem mais graça. Não somos mais nem folclóricos, o folclore que nos redimia amargou. Ficamos grotescos, reduzidos às peculiaridades que nos caracterizavam quando éramos simpáticos e hoje só divertem o mundo.
 
Chargistas e humoristas não receberam ordens para maneirar quando afundam, desculpe, no assunto, claro. Estão apenas fazendo o que fazem muito bem, e dinheiro entre “buttocks” ou na cueca do vice-líder no Senado de um governo que iria acabar com a corrupção é um assunto irresistível demais, e as piadas não acabam. Mas imagino que o sentimento que predomina até entre os mais acerbos críticos desse governo é o de tristeza. Uma tristeza imensa, continental, amazônica. O que fizeram do Brasil! Aquele país tão promissor, que fim levou? Para onde o levaram?
 
Eu acho que os vexames começaram junto com o governo Bolsonaro, quando o presidente recém-eleito comentou que um dos seus filhos poderia ser o embaixador brasileiro em Washington – e ninguém reagiu. Tínhamos ali uma medida do homem e uma oportunidade de chamá-lo para a realidade, mas ninguém reagiu. Depois, ficou tarde e multiplicaram-se os vexames.

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22
Out20

Veríssimo: Bolsonoro é o governo do vexame continuado e sem graça

Talis Andrade

 

247 - "De vexame em vexame, culminando, desculpe, com a história do dinheiro entre os 'buttocks' ou na cueca, nos convencemos de que o Brasil não tem mais graça", afirmou o escritor Luis Fernando Verissimo em sua coluna publicada no jornal O Globo

"Não somos mais nem folclóricos, o folclore que nos redimia amargou. Ficamos grotescos, reduzidos às peculiaridades que nos caracterizavam quando éramos simpáticos e hoje só divertem o mundo".

De acordo com o escritor, "os vexames começaram junto com o governo Bolsonaro, quando o presidente recém-eleito comentou que um dos seus filhos poderia ser o embaixador brasileiro em Washington — e ninguém reagiu". 

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22
Out20

Bolsonaro, Exército e política homicida. E a pressão dos EUA contra a China

Ainda sobre o cancelamento da compra de 46 milhões de doses da CoronaVac por parte de Jair Bolsonaro

Talis Andrade

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por Reilnaldo Azevedo

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Jair Bolsonaro protagoniza o espetáculo mais grotesco de sua lastimável trajetória na vida pública. Raramente vileza e pusilanimidade se casaram de forma tão virulenta — palavra especialmente eloquente para o caso — como agora. A atitude que tomou, suspendendo o protocolo firmado entre o Ministério da Saúde e o Instituto Butantan para a aquisição de 46 milhões de doses da CoronaVac, está abaixo até mesmo dos piores momentos daquele deputado estupidamente folclórico, que pertencia à periferia do baixo clero. Vejam o que a destruição da política institucional, causada pelo moralismo estúpido, fez pelo Brasil: permitiu que um celerado chegasse à Presidência da República. Por seu comportamento irresponsável, pode-se deduzir que já induziu milhares à contaminação e à morte.

Há pesquisas quantitativas a respeito, diga-se. Uma delas, realizada pelas universidades da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, e Bocconi, na Itália, publicada em maio, evidenciava que as cidades que mais votaram em Bolsonaro tinham uma taxa de contaminação 18,9% maior do que as menos "bolsonarizadas". Um segundo estudo é mais recente, com dados divulgados neste mês, numa parceria entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e o IRD (Instituto Francês de Pesquisa para o Desenvolvimento). A conclusão é a mesma: os estragos provocados pelo vírus e pela doença são bem maiores nas cidades mais simpáticas ao presidente. De acordo com este segundo levantamento, para cada 10 pontos percentuais a mais de votos para o atual presidente, há um acréscimo de 11% no número de casos e de 12% no número de mortos.

Vale dizer: a crença em Bolsonaro e a descrença na ciência matam. E daí? Ele segue, pelo visto, reivindicando a sua cota de mortos.

O general Eduardo Pazuello, ministro da Saúde — que contraiu Covid-19 — já é o mais desmoralizado de todos os que passaram pela pasta na história. As Forças Armadas, que colonizaram o governo, com o patrocínio do presidente, são sócias do desastre em curso. Voltaram ao poder para ter sua honra enlameada em troca de uma penca de cargos. Deixaram a condição de entes que servem ao Estado para servir a um governo doidivanas e potencialmente homicida. Merecem o epíteto de Forças Armadas da Boquinha — ou, então, que seus homens deixem a administração e voltem para seus afazeres, distanciando-se da baixa política.

As barbaridades ditas por Bolsonaro em entrevista deixam entrever a suspeita de que ele pode tentar instrumentalizar a Anvisa para inviabilizar a CoronaVac. Fez ataques absolutamente infundados à vacina, pondo em dúvida a sua segurança, sem dispor de um miserável dado a respeito. Como admitiu nota do próprio Ministério da Saúde nesta terça, antes de o presidente desmoralizar o ministro, 75% das vacinas aplicadas no Brasil são produzidas pelo Instituto Butantan, de renome internacional.

Bolsonaro está apenas fazendo política rasa para atacar um adversário. Além de ser uma atitude burra, já que poderia ser sócio político do eventual sucesso da CoronaVac, está pondo em risco a saúde da população e alimentando teorias conspiratórias contra a vacina, o que certamente concorrerá para que muita gente resolva fugir da imunização — por meio dessa vacina ou de outra qualquer. E isso tudo com que propósito? Atacar um adversário político apenas? Ou há mais?

O presidente empregou duas vezes, diga-se, a palavra "inalar". Em ambas, de modo impróprio. Estamos vivendo as consequências de uma espécie de delírio coletivo, motivado pela razia provocada na chamada política tradicional. Somos governados por um líder que não conhece o vocabulário básico dominado por pessoas acima da linha da normalidade, ainda que sem instrução. Vive, de resto, cercado por uma súcia de extremistas, que precisam, de vez em quando, ganhar uma batalha. Como o extremismo ideológico tem perdido algumas pelejas para o Centrão, ele resolveu fazer uma concessão aos brucutus: e o fator de ajuste com seus malucos é a saúde dos brasileiros.

De resto, como ignorar? Bolsonaro concedeu uma entrevista anti-China depois de se encontrar com a delegação americana chefiada pelo embaixador Robert O'Brian. O grupo está no Brasil justamente para fazer carga contra os chineses. Tudo indica que a saúde dos brasileiros está sendo usada para o presidente, mais uma vez, se ajoelhar no altar de Donald Trump, que, tudo o mais constante, será banido do poder.

Cabem as perguntas: em benefício de quem e a troco de quê? 

 

28
Set20

Nonsense no governo Bolsonaro comanda e sufoca todo resquício de gravidade

Talis Andrade

 

por Janio de Freitas

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O possível é apenas sondar os traços anedóticos que lhe dão forma e grotesco; e rir

 

Um riso mal contido, pode ser, talvez envergonhado. Como na extravagância de alguns tombos, sobretudo os vistos. E é disso mesmo que se trata: cenas patéticas de um tombo, o deste país.

O Brasil a ameaçar de represália os grandes países que sustem importações de produtos brasileiros, em reação à sanha destruidora na Amazônia. Cada grão de soja e grama de carne que deixem de importar é um rombo na economia bolsonara. E logo quem a propalar a ameaça, o general Heleno, não propriamente do alto de sua lucidez.

Fiel ao sentimento de que o cinismo não tem limite, nem para traição à memória de seus ídolos torturadores e matadores, Bolsonaro a dizer à ONU que “a liberdade é o bem maior da humanidade”. Depois de atribuir a interesses internacionais na riqueza da Amazônia uma campanha para “prejudicar o governo e o próprio Brasil”. No que foi corrigido pelo general Heleno, que, a partir do nível um tanto prejudicado da sua visão do mundo, identificou outra motivação etérea do mundo: é uma “campanha internacional para derrubar Bolsonaro”.

Tamanho nonsense sufoca todo resquício de gravidade que se queira atribuir-lhe, consideradas as responsabilidades funcionais dos emitentes. O possível é apenas sondar os traços anedóticos que lhe dão forma e grotesco. E rir.

Acima e abaixo dos delírios, o problema é que os militares influentes do Exército não compreenderam que a Amazônia é um amálgama de características de flora e de fauna, geológicas, climáticas, fluviais e pluviais, todas em mútua dependência. E que a entrega desse mundo de peculiaridades interligadas à exploração humana resultará, é inevitável, em que não será mais a Amazônia.

Da mata atlântica, por exemplo, restam no máximo 16%, em estimativa otimista. Do Nordeste ao Sul, por toda a costa e por entradas até o interior profundo, o que há são terras descascadas, depauperadas, ocupadas do modo mais desordenado. Cidades em que tudo se amontoa com vastidões vazias em torno. Poluição, agravamentos climáticos —é a realidade que tomou o lugar da mata atlântica. Assim seria com a entrega da Amazônia à exploração humana: não mais Amazônia.

A “exploração racional e planejada” é balela. Iniciado o processo, será o mesmo de sempre. Os aldeamentos logo se transformam em vilas, daí em cidades, a necessidade de infraestrutura e mais exploração transformam mais áreas, e assim em sucessivas destruições ambientais. A entrega da Amazônia à exploração industrial terá, porém, consequências climáticas muito maiores no Brasil todo, e por extensão no mundo, do que o miserável fim da mata atlântica.

Apesar disso, a ocupação da Amazônia é uma tese dita estratégica dos militares do Exército. Ricardo Galvão, cientista e ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, desmontou o argumento do vice Hamilton Mourão para criação de uma agência para concentrar todos os monitoramentos da Amazônia. Uma agência sob controle militar. “Como o norte-americano NRO” é um argumento aqui muito forte. Mas errado, se de boa ou má-fé, fica por clarear. A verdade é que o NRO está proibido de atuar no território dos EUA. E o monitoramento por lá é civil.

Mas a agência militarizada seria apenas a porta-estandarte do Exército. Atrás viria o que consiste no projeto real: não só o monitoramento, mas o controle absoluto da Amazônia pelo Exército. Um grande território militar, sonhado como o meio eficaz de neutralizar a presumida ganância de uma ou de outra potência sobre a posse da Amazônia. Até décadas recentes, e por muito tempo, o delírio era a guerra inevitável com a Argentina —motivo até de promoção a general por mérito de planejamentos, como foi o caso do último algoz de João Goulart, o seu amigo Amaury Kruel. No mapa, da Argentina para a Amazônia são centímetros possíveis.

Enquanto o nonsense comanda, o fogo está autorizado a antecipar o serviço.

Paraíso

O Conselho Nacional do Ministério Público vai decidir se suspende por 90 dias o procurador Diogo Castor de Mattos, como proposto pelo corregedor Rinaldo Reis Lima. Ex-integrante do grupo de Deltan Dallagnol em Curitiba, Castor patrocinou enorme outdoor na cidade com fotos do seu chefe e de Sergio Moro. Falta disciplinar e, entre nós outros, ética.

Mas não só. Castor o fez com identidade falsa, usando nome de pessoa que nem ao menos foi informada. No paraíso corporativista, mesmo para tal fraude bastam 90 dias de suspensão. Para os de fora da patota, processo criminal e possibilidade até de cadeia.

Mais que ironia

Bolívia tem na América Latina, como constatado pela ONU, a segunda melhor condição para as mulheres em direitos políticos e em paridade política com os homens (só o México a supera, sendo o Brasil o 3º pior). As bolivianas vieram das últimas colocações para o topo com as conquistas introduzidas, muitas, e outras incentivadas, por Evo Morales como presidente eleito e legítimo, caso raro na história boliviana.

As mulheres congressistas foram uma força decisiva no golpe que derrubou Morales. E uma delas usurpou-lhe a Presidência, que exerce até hoje ilegalmente, com apoio da OEA e de muitos países latino-americanos. Entre os quais, é claro, o Brasil.

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01
Ago20

Marcia Tiburi mapeia as tecnologias políticas da era Bolsonaro em “Como derrotar o Nazifascismo”

Talis Andrade

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A filósofa, artista plástica, professora universitária, escritora e política brasileira, Marcia Tiburi © RFI
 
Márcia Bechara entrevis Marcia Tiburi
 

Após o sucesso de “Como conversar com um fascista”, em 2015, a filósofa, escritora e artista visual Marcia Tiburi lança em agosto no Brasil seu novo livro “Como derrotar o Nazifascismo”, também pela editora Record. Radicada em Paris desde 2018, ela falou à RFI sobre o resgate da simbologia e da iconografia fascista em pleno Brasil de 2020 e sobre as tecnologias políticas que ajudaram a construir o “mito” nazifascista que elegeu Jair Bolsonaro.

Marcia Tiburi é filósofa, escritora, artista visual e atualmente professora do laboratório de lógicas contemporâneas da filosofia e também do Departamento de Artes Plásticas e Fotografia da Universidade Paris 8, na capital francesa. Seus livros, que fazem muito sucesso no Brasil, são agora traduzidos e lançados na Europa, em países como Itália, Espanha e Inglaterra. Na França, ela conta com o apoio do programa POSE e do Artist Protection Fund.

 

RFI - Você começa querendo ensinar “Como conversar com um fascista”, livro que foi um grande sucesso no Brasil em 2015, e agora notamos uma mudança metodológica e, por que não estratégica, você lança o “Como derrotar o Nazifascismo”, seu novo livro, que sai no Brasil agora em agosto. O que aconteceu nestes cinco anos? A negociação se tornou impossível no Brasil de Bolsonaro?

Marcia Tiburi -  Passamos de um fascismo em potencial, instaurado no cotidiano e na subjetividade das pessoas para um fascismo de Estado. Ainda não chegamos a uma configuração formal disso, mas todos os sinais estão dados por Bolsonaro. Não podemos falar apenas de fascismo, um nome genérico que resume todas as formas de autoritarismo que começaram a se combinar no Brasil. Coloquei o elemento nazi porque de fato este aspecto apareceu com mais força a partir de 2018, quando o governo tomou posse. O governo de Bolsonaro traz vários sinais da ascensão nazifascista, não mais apenas de um fascismo genérico em potencial.

 

 

RFI - Na sua opinião, por que o fascismo figura ainda com tanto vigor, com tanta potência, no imaginário brasileiro de 2020?

MT - Acho que o Brasil acabou caindo numa espécie de transe, de hipnose, numa situação estupefaciente, promovida pela figura política de Bolsonaro. O problema nem é mais ele, Bolsonaro é apenas o golem, o fantoche, a marionete de todo um projeto bancado pelas oligarquias e pelos donos do poder no Brasil. A parte que eu considero importante reside na produção mítica: Bolsonaro foi criado pelos seus pares como sendo um mito e não existe nazifascismo nem fascismo sem a invenção de um mito. Ele foi investido pessoalmente dessa configuração e ele é muito bom no papel que ele desempenha, porque é um grande mistificador das massas. Bolsonaro é da estirpe de um Nero, de um Heliogábalo, um Hitler, um Mussolini, de um Trump, ele é dessa estirpe dos governantes grotescos, como falava Foucault, do governante infame, que tem tanto mais poder quanto mais desqualificado é. Isso virou moda no Brasil, se transformou numa tecnologia política e acho que teremos muita dificuldade para sair desse cenário. Podemos resumir isso na questão do psicopoder: Bolsonaro é especialista em manipular essas estruturas psíquicas inconscientes das pessoas.

 

RFI - Sua obra recente dialoga bastante com a contemporaneidade brasileira. Você se inspira em teóricos europeus como Foucault e Adorno para definir o fascismo que dá título ao novo livro. Mas o nazifascista, e o nazifascista brasileiro, deseja sobretudo a “aniquilação do Outro”, daquele que é diferente. Na Europa, nos anos 40, isso significava uma coisa. O que isso significa no Brasil do século 21?

MT - Existe uma grande diferença entre os fascismos de 100 anos atrás, que tomaram conta da Europa e o Brasil de agora. Naquela época, o fascismo era ainda uma tendência, com tudo o que tinha de nacionalismo autoritário. Era uma tendência, digamos, analógica. A televisão surge em 1950. Antes, o rádio e o cinema já eram instrumentos importantes no contexto tecnológico dessa tendência autoritária. Mas não podemos falar de um autoritarismo fora da História e, quando falamos de História, falamos também da história das tecnologias. A partir de 1950, com a TV, temos um incremento radical de todas as tecnologias da informação de imagem, e temos a internet. O Brasil vive hoje o que chamei no livro novo de turbo-fascismo, ou tecno-turbo-fascismo, um fascismo turbinado não apenas pelas tecnologias, mas por um tipo de capital. Não viveríamos o que vivemos no Brasil hoje sem Facebook, Whatsapp, Twitter. Ele e Trump se construíram nas redes sociais. (...) Se nós não elaborarmos filosoficamente, antropologicamente e fisioteologicamente a nossa relação com as tecnologias, seremos devorados por elas.  (...) Existe toda uma cultura da desinformação, como se essa desinformação tivesse se tornado no Brasil uma nova episteme, ou seja, uma nova forma de pensar.

RFI - Se existe uma guerra cultural no Brasil, quem são os atores dessa guerra?

MT - Existe uma guerra híbrida, muito complexa, onde a direita brasileira instrumentaliza a extrema direita. Vê-se uma guerra psíquica promovida sobretudo por Bolsonaro, que tem um caráter manipulador clássico, como todo fascista, ele leva isso adiante com um rigor criativo. Todas aquelas asneiras que ele produz têm a ver com um procedimento de tortura psicológica que, a meu ver, está sobre o Brasil desde o dia 17 de abril de 2016, quando Bolsonaro fez o elogio do torturador Ustra. Ele vem aplicando todas as técnicas e táticas de tortura elevadas a uma potência governamental. Ele é imbatível nessas táticas de guerra psíquica que as mulheres conhecem muito bem. As mulheres conhecem essas produções de gaslighting, o sujeito que faz tortura psicológica com as mulheres no dia-a-dia. É um tipo de violência simbólica, e Bolsonaro é muito bom nisso. No Brasil há uma utilização da terminologia do sexo e da sexualidade como uma arma de guerra contra o gênero, as feministas, os estudiosos de gênero no Brasil. Isso se expande para uma guerra de destruição das universidades, da Ciência, do conhecimento e, neste sentido Bolsonaro et caterva atualizam os sinais mais evidentes dos fascismos de 100 anos atrás, só que turbinados por um tipo de tecnologia que não há como ser controlada, senão por meio de uma regulamentação das empresas de comunicação que atuam no Brasil. Quem viu documentários como “The Great Hacker”, sabe o que está acontecendo, é exatamente aquilo.

 

RFI - Vimos, na escalada que levou Bolsonaro ao poder, mas também durante o exercício da presidência de Bolsonaro, de símbolos e alegorias claramente nazistas, como a encenação do ex-secretário de Cultura, Roberto Alvim, onde ele tenta incarnar Joseph Goebbels, o chefe da propaganda hitlerista. Você pode falar um pouco sobre isso?

MT - Isso foi muito forte no Brasil e este secretário foi derrubado apenas porque houve uma pressão da comunidade judaica, e também de Israel. (...) Quem quiser ver, está na internet, esta secretário vestido com o terno da mesma cor que Goebbels, cabelo penteado como o nazista, e citando um texto muito semelhante ao do chefe da propaganda de Hitler. (...) No Brasil esse tipo de coisa virou um espetáculo, porque o próprio ridículo político, no sentido de ser uma cena, uma performance, isso se transformou em uma espécie de capital político. A partir de 2016, houve uma capitalização radical de cenas desse tipo e, em 2018, tivemos o resultado nas urnas. As figuras mais patéticas conseguiram se eleger. Esse secretário fez essa cena em 2019, mas, se ele continuar, corre o risco de se eleger rapidamente, porque os brasileiros estão nesta espécie de transe, achando inclusive que vão se vingar da situação política vivida no Brasil. Temos que lembrar que houve manifestações recentes na frente do Congresso Nacional com vários nazistas, um grupo chamado “300”, cerca de 30 pessoas que demoraram muito a serem presas. Considerando o cenário brasileiro, é até surpreendente que tenham sido presas. Essas pessoas confrontaram os ministros do STF de maneira absolutamente violenta, sem nenhum tipo de medo de serem presos. Não era mais uma violência decorativa, mas ostentatória e radicalizada. Existem cerca de 500 grupos nazistas catalogados no Brasil em ação, é importante que a gente saiba que eles podem evoluir e tomar o poder, a coisa pode ficar ainda pior com as portas que foram abertas por Bolsonaro. Como as igrejas neopentecostais, que também começaram assim poucas células aqui e ali, e depois cresceram e hoje dominam a política brasileira. Há um arranjo hoje que passa pelo Estado, pela religião, e por esses arruaceiros nazifascistas. E ainda estamos no começo disso tudo...

 

 

RFI - Qual a participação do povo brasileiro nesta construção do mito Bolsonaro, seria uma identificação com o agressor?

MT - Quando Bolsonaro exalta Ustra e sublinha que o torturador foi o “terror de Dilma Rousseff”, em 2016, ele ocupa o lugar do boneco do ventríloquo da pedagogia da tortura e coloca o Brasil inteiro sob ameaça de tortura, do pavor. Como dizem os torturadores, cujos testemunhos podem ser vistos pela internet, ensinam que não é preciso fazer tortura física, pode ser psicológica. O ponto mais importante é o terror. Por isso se usavam baratas, ratos, jacarés durante a tortura de presos [políticos]. (...) Bolsonaro usa as mesmas técnicas da Ditadura Militar. Isso é visível na pandemia, as pessoas estão com medo de morrer. Nessas horas, surge o Complexo de Estocolmo [síndrome onde o sequestrado desenvolve dependência com o sequestrador]. Nesse ponto, as pessoas começam a aderir à figura de seu algoz, por medo de que esse algoz faça ainda mais mal. Você pode até aceitar os insetos sobre seu corpo e inventar desculpas para o que o torturador está fazendo, porque você tem medo da morte e de que o terror se aprofunde.

 

RFI - Como você explicaria o negacionismo de parte da população brasileira em relação à pandemia de Covid-19, geralmente identificada com a ideologia bolsonarista?

MT - Isso faz parte também de estruturas autoritárias do passado, ou seja, aquilo que não se deseja ver, aquilo que não colabora para a manutenção do poder, deve ser negado. Por outro lado, prefiro analisar também a cultura política, ou seja, pensar subjetividade e cotidiano. Como as pessoas podem cair nesse tipo de armadilha? Como elas podem defender seu algoz contra elas mesmas? Como elas podem estar do lado da morte, defendendo a morte? Nesse caso, acho que o Brasil tem que se entender com o seu ressentimento, seu ódio, seu complexo de vira-lata. Precisamos comparar isso com os ressentimentos e a baixa auto-estima que há em vários países autoritários do mundo. Na França, as pessoas têm orgulho de serem francesas, porque há uma história francesa, uma história intelectual, politica, de luta, das mulheres, dos imigrantes, uma história de todas essas pessoas que foram capazes, por exemplo, de guilhotinar as suas oligarquias, que era a nobreza da época. O Brasil é um país emocionalmente massacrado, um país que nasce da humilhação, que vive diariamente várias formas de humilhação e que se deixa humilhar. Nelson Rodrigues, que criou a expressão “Complexo de Vira-Lata”, já falava disso. Por que se deixar tratar a pontapés como um cachorro espancado? A resposta para isso, ao meu ver, está nessa história de humilhação e de massacre.

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O novo livro de Marcia Tiburi sai em agosto de 2020 no Brasil

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