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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

09
Jun19

A reforma da previdência no Chile, a capitalização, deixou metade dos idosos sem aposentadoria

Talis Andrade

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por Luís Eduardo Gomes

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O Chile foi o primeiro país da América Latina a fazer uma reforma da Previdência que provocou a mudança de um regime solidário para outro de capitalização, em que o indivíduo é responsável pela sua própria aposentadoria e não conta com aportes de seus empregadores ou do governo. Esse sistema, implementado lá em 1981, agora é defendido pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, ainda que ele não tenha especificado como seria implementado, caso a reforma da Previdência seja aprovada — precisaria ser regulamentado posteriormente por meio de uma lei complementar. Para entender o que ocorreu no Chile após a implementação da capitalização, o Sul21 conversou com Andras Uthoff, economista e professor da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade do Chile, que esteve em Porto Alegre na última semana para participar de um seminário sobre o tema.

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Sul21 – Como foi o processo de implementação do sistema de capitalização no Chile? O que tinha antes? O que aconteceu com os trabalhadores que estavam na ativa?

Andras Uthoff: Efetivamente, a reforma da capitalização individual foi feita no ano de 1981 sob o regime militar de Pinochet. 

O que veio a ser a reforma de 1981: uma vez que os Chicago Boys convenceram Pinochet de que precisava reformar o sistema, transformaram a parte contributiva do sistema de pensões em um mercado obrigatório de poupança individual.  

É a transformação do trabalhador com direito a aposentadoria em um consumidor de serviços financeiros. E aqueles que não tinham nenhuma capacidade de poupança, não tinham um emprego formal, foram ficando excluídos do sistema.

Levou quase 25 anos até que o governo da Dra. Bachelet fizesse uma avaliação do sistema e ali se percebeu, muito seriamente, que o sistema excluía a metade da população idosa, que não ia ter nenhuma aposentadoria.

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Sul21 – E o sistema de capitalização acabou com a contribuição do empregador?

AU: Na capitalização, sob determinação dos supostos neoliberais de que é preciso baratear a contratação de mão de obra para o empregador, isso significa que o empregador não tem que contribuir para a aposentadoria. Eles disseram que 10% de poupança do trabalhador bastava para ter uma taxa de retorno de 70% dos salários da ativa no momento da aposentadoria. Isso não se tornou realidade, era uma fantasia.

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Sul21 – Quando se cita a situação da previdência chilena aqui no Brasil, muitas pessoas dizem que 80% dos aposentados chilenos recebem menos que um salário mínimo. Essa informação procede?

AU: A primeiro avaliação que se fez em 2006, com a presidenta Bachelet, preocupou-se com a cobertura. Metade não estava ganhando absolutamente nada. Em consequência, na reforma de 2008, criou-se o pilar solidário, que são dois benefícios. Uma aposentadoria básica solidária, para quem não participou de nenhum sistema e não fez contribuições, e um subsídio previdenciário solidário para quem fez algum tipo de poupança e autofinanciou a aposentadoria. Esse pilar solidário é financiado pelo governo, é um subsídio do estado para um mercado que não funciona. Mas não é um direito, somente tem acesso quem não tem aposentadoria ou tem aposentadorias ruins e pertencem a 60% das famílias mais pobres. Não é para todos. Então, hoje em dia, há um sistema de proteção para os mais pobres, mas muito ruim, e um sistema que poderia operar relativamente bem para quem tem um emprego formal por 40 anos. Mas a grande classe média não tem nada.

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Sul21 – Qual o valor do benefício do governo?

AU: Hoje em dia, a aposentadoria básica solidária está em 107 mil pesos chilenos, que são aproximadamente US$ 140, US$ 150 [cerca de R$ 560]

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Sul21 – Esse subsídio é um complemento até chegar ao valor do salário mínimo?

AU: Se tu tem aposentadoria pelo sistema de capitalização, mas ela é muito baixa, o estado complementa até um teto. O importante é que, com a capitalização mais os subsídios do estado, entrega os números que tu dizia, 44% dos aposentados abaixo da linha da pobreza e 80% abaixo do salário mínimo. [Transcrevi trechos]

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29
Mai19

Dez razões para participar do 30M pela Educação, pela Previdência

Talis Andrade

Entenda os Atos de Resistência que devem levar estudantes e trabalhadores às ruas nesta quinta-feira e a participar da greve geral marcada pelas centrais para 14 de junho

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Por Marize Muniz

1. Reforma da Previdência é o fim do direito à aposentadoria de milhões de trabalhadores e trabalhadoras

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A reforma da Previdência de Bolsonaro (PSL) acaba com a aposentadoria por tempo de contribuição e impõe a obrigatoriedade da idade mínima de 65 anos para os homens e 62 para as mulheres, aumenta o tempo mínimo de contribuição de 15 anos para 20 anos e muda o cálculo do valor do benefício para reduzir o valor pago pelo INSS – trabalhadores vão receber apenas 60% do valor do benefício. Para ter acesso à aposentadoria integral, o trabalhador e a trabalhadora terão de contribuir por pelo menos 40 anos.

Compare com as regras atuais

Pelo modelo atual, os trabalhadores podem se aposentar após 35 anos de pagamento ao INSS e as trabalhadoras após 30 anos de contribuição, sem a exigência de idade mínima. Nesse caso, para ter acesso ao valor integral do benefício, as mulheres precisam que a soma da idade mais o tempo de contribuição seja igual a 86 (56 anos + 30 contribuição = 86 – aposentadoria integral). Já os homens precisam que a soma final totalize 96 (61 anos + 35 contribuição = 96 – aposentadoria integral).

No caso dos trabalhadores que não conseguem se aposentar por tempo de contribuição, a aposentadoria é por idade: 65 anos para os homens e 60 para as mulheres, com no mínimo 15 anos de contribuição.

 

2. Quem já está aposentado também vai ter prejuízo

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A reforma exclui da Constituição Federal a regra que determina a reposição da inflação para os benefícios acima do salário mínimo pagos a aposentados e pensionistas da iniciativa privada e do setor público. E mais: desvincula os valores dos benefícios do salário mínimo.

Isso significa que os reajustes do salário mínimo não serão mais usados como base de cálculo para corrigir as aposentadorias e pensões. Essas mudanças podem rebaixar drasticamente os valores dos benefícios, inclusive de quem se aposentou antes de a reforma ser aprovada.

 

3. Reforma ataca até viúvas e órfãos
No caso de morte, o cônjuge ou filho que tem direito a pensão receberá apenas 50% do valor do benefício a que o trabalhador ou trabalhadora tinha direito, mais 10% por cada dependente. Como a viúva ou o viúvo contam como dependentes, a pensão começa com 60% do valor do benefício.

Os filhos menores de idade têm direito a 10% cada. Quando um filho atingir a maioridade ou falecer, sua cota não será reversível aos demais dependentes.

Em 2017, mais de 7 milhões e 780 mil (22,7%) do total de benefícios pagos foram por pensão por morte. O valor médio mensal foi de apenas R$ 1.294,05, segundo o Anuário da Previdência Social.

Mais um ataque às viúvas e viúvos

A reforma de Bolsonaro quer restringir a possibilidade das viúvas ou viúvos acumularem os, em geral, parcos benefícios. Pela regra proposta, se uma pessoa for acumular aposentadoria com pensão poderá escolher o benefício de valor mais alto e o outro vai ser repassado com desconto, de acordo com reduções por faixas escalonadas de salário mínimo.

Por exemplo, quem tiver um segundo benefício no valor de até um salário mínimo (R$ 998,00), poderá ficar com 80% do benefício (R$ 798,40).

Confira detalhes sobre as mudanças que Bolsonaro quer fazer nas pensões.

 

4. Reforma ataca também doentes e acidentados (incapacidade temporária)
Trabalhadores e trabalhadoras da iniciativa privada e servidores públicos que se acidentarem ou sofrerem de doenças s em relação com o ambiente do trabalho, impedidos de trabalhar por um longo período – vão receber apenas 60% do valor do auxílio-doença, se tiverem contribuído no mínimo durante 20 anos para o INSS. Se ele tiverem contribuído por mais de 20 anos, terá direito a 2% a mais no valor do benefício por cada ano de contribuição.

Pela proposta, um trabalhador acidentado, ou doente, pode receber menos do que o valor do salário mínimo (R$ 998,00).

Confira como calcular suas perdas se a reforma for aprovada.

 

5. Reforma praticamente acaba com aposentadoria por invalidez (incapacidade permanente)
A PEC propõe que os trabalhadores acidentados ou que tenham doenças contraídas sem relação com o ambiente de trabalho – exemplos: teve um câncer que o impede de trabalhar para sempre ou sofreu um acidente de carro no fim de semana e ficou paraplégico – terão de contribuir por, no mínimo, 20 anos para receber apenas 60% do valor da aposentadoria. Se ele tiver contribuído por mais de 20 anos, terá direito a 2% a mais no valor do benefício por cada ano de contribuição.

Atualmente, para ter direito ao benefício integral, basta o trabalhador ter contribuído durante 12 meses, o chamado período de “carência”.

 

6. Capitalização da Previdência

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O governo quer criar a capitalização da Previdência, mas ainda não disse como serão as regras. Só vão apresentar a proposta, por meio de uma lei complementar, depois da aprovação da PEC 06/2019.

O que se sabe sobre a capitalização é que o sistema funciona como uma poupança pessoal do trabalhador, não tem contribuição patronal nem recursos dos impostos da União para garantir o pagamento dos benefícios.

O trabalhador deposita todos os meses um percentual do seu salário nessa conta individual para conseguir se aposentar no futuro. Essa conta é administrada por bancos, que cobram tarifas de administração e ainda podem utilizar parte do dinheiro para especular no mercado financeiro.

Para saber mais sobre o modelo de capitalização, clique aqui.

 

7. Reforma quer acabar com pagamento da multa de 40% do FGTS

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A reforma da Previdência de Bolsonaro não se limita a Previdência, mexe também com a legislação Trabalhista ao propor o fim do  pagamento da multa de 40% do saldo do FGTS quando o trabalhador se aposentar e continuar na mesma empresa. Esse item também isenta o empresário de continuar contribuindo com o FGTS.

 

8. Governo quer excluir do acesso ao PIS PASEP 18 milhões de trabalhadores

Outra proposta da reforma que não tem a ver com aposentadoria nem pagamento de benefícios é a sugestão de pagar o abono salarial do PIS/PASEP apenas para os trabalhadores e trabalhadoras formais que ganham até um salário mínimo (R$ 998,00).

Se a PEC for aprovada pelo Congresso Nacional, dos 21,3 milhões (52%) trabalhadores e trabalhadoras formais que hoje recebem o abono, 18 milhões deixarão de receber.

 

9. Cadê a política para gerar emprego e renda do governo?  

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No primeiro trimestre deste ano, faltou trabalho para 28,3 milhões de trabalhadores e trabalhadoras no Brasil, segundo a Pnad Contínua, do  Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A taxa de desemprego do período foi de 12,7% e atinge 13,4 milhões de trabalhadores e trabalhadores.

Mas, até agora, o governo Bolsonaro não apresentou sequer uma proposta que, de fato, contribua para aquecer a economia e gere emprego e renda.

 

10. Os cortes na educação prejudicam do ensino básico a pós-graduação

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Com os cortes anunciados na educação básica vão faltar recursos para a compra de móveis, equipamentos, para a capacitação de servidores e professores e até para pagamento de contas de água e luz.

Os cortes também inviabilizam investimentos no programa de Educação Jovens e Adultos (EJA) e também o ensino em período integral.

Além disso, afeta profundamente a educação, saúde, produção científica e tecnológica. As universidades públicas são responsáveis por mais de 90% da pesquisa e inovação no país e prestam serviços à população por meio de projetos de extensão e hospitais universitários. 

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29
Mai19

O 30 de Maio e a Greve Geral: por que Educação e Previdência mobilizam? (vídeo da convocação)

Talis Andrade

TEMPO DE RESISTÊNCIA

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Ato de resistência no Rio, no dia 15M último, reuniu mais de 250 mil pessoas

 

 

A manifestação desta quinta-feira é um desdobramento do chamado Tsunami da Educação, que no dia 15 contou com grandes atos em mais de 200 cidades, reunindo mais de 1 milhão de pessoas. O mote foi a resistência aos cortes orçamentários e o posicionamento contrário à perseguição ideológica que o governo Bolsonaro pretende impor ao ensino público em todos os âmbitos, do ensino fundamental às pesquisas científicas.

O #15M ocupou também o topo das menções em redes sociais e ficou marcado por agregar nas ruas movimentos populares organizados e cidadãos comuns, alunos e pais de escolas públicas e da rede privada. Na maioria dos atos, se ergueram ainda faixas e cartazes em defesa da previdência pública e contra a Proposta da Emenda à Constituição (PEC) 6, que inviabiliza o direito à aposentadoria para milhões de trabalhadores.

O movimento incomodou o governo, que convocou, com apoio da imprensa, manifestações para o último domingo. Os atos, que ocorreram em menor número, tiveram no geral pouco público e bandeiras difusas. Os bolsonaristas mais raivosos atacaram o Supremo Tribunal Federal, o Congresso Nacional e defenderam o pacote “anticrime” de Sergio Moro; o governo tentou carimbar as ações como em defesa da “nova” Previdência; tentar tirar proveito para um suposto apoio à “reforma” também foi o mote da mídia comercial.

Por isso, o 15 de maio, como agora também este dia 30, teve para os principais organizadores – como as frentes Povo sem Medo e Brasil Popular – um caráter de “esquenta” para a greve geral de 14 de junho, que em muitos lugares já conta com importante adesão do setor de transporte. Leia a seguir as razões que unem a defesa da educação e da Previdência públicas.

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19
Mai19

Na terra de Sergio Moro, estudantes lotam o centro de Maringá

Talis Andrade

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Ato em Maringá (Foto: Victor Simião/CBN Maringá)

 

GMC Online -Centenas de manifestantes iniciaram no fim da tarde desta quarta-feira (15) uma caminhada por ruas e avenidas de Maringá. O trânsito foi bloqueado, inclusive na Avenida Colombo, onde o fluxo de veículos ficou impedido durante cerca de 15 minutos. O ato faz parte da paralisação nacional da educação contra os cortes anunciados pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub.

As ações do governo federal envolvem congelamento no orçamento e de bolsas da pós-graduação das universidades, além de corte de repasses. Contra essas medidas, alunos e professores da UEM e também de outras instituições se concentrou em frente à Biblioteca Central da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Maria Clara Santos, acadêmica do curso de Psicologia da UEM, diz que os estudantes

Estão indignados com a atual situação da Universidade Estadual de Maringá. Desde o governo Richa não são lançados concursos públicos. Então a gente está com falta de professores. Estamos muito satisfeitos com a participação estudantil. Esse é um trabalho árduo e contínuo de mobilização contra esse governo (do Bolsonaro)

 

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18
Mai19

COMO A MILÍCIA DIGITAL BOLSONARISTA RESGATOU SUA MÁQUINA DE FAKE NEWS PARA ATACAR UNIVERSITÁRIOS

Talis Andrade

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por Quilherme Pavarin

The Intercept

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FAZIA MESES QUE o cientista da computação Fabrício Benevenuto não via nada de novo na sua ronda diária por grupos políticos de WhatsApp. Criador de uma ferramenta capaz de elencar os conteúdos mais compartilhados no aplicativo, o WhatsApp Monitor, o professor associado da UFMG via com tédio os mesmos tipos de montagens, áudios, notícias falsas, correntes e vídeos motivacionais percorrerem sua tela, dia após dia nos 350 grupos políticos abertos que acompanha.

Na tarde de 8 de maio, porém, Benevenuto notou algo estranho: quase todas as imagens mais compartilhadas no seu sistema mostravam universitários nus, teses com nomes esdrúxulos e desenhos irônicos sobre estudantes de humanas. Aquilo, percebeu, não era espontâneo. Checou os altos números e concluiu que se tratava de algo novo, orquestrado. Estava diante de uma nova ofensiva da milícia digital de Bolsonaro, grupo que andava pouco ruidoso após as eleições.

“Soou como ataque, uma tentativa de desconstruir a imagem das universidades públicas com conteúdos antigos ou tirados de contexto, como se todas fossem uma bagunça”, diz Benevenuto. “Como trabalho em uma, fiquei preocupado.” Os variados tipos de compartilhamentos chamaram sua atenção. Notou que, depois de alguns meses de marasmo, muitos grupos ociosos associados a Bolsonaro espalhavam as mensagens com afinco comparável ao do ano passado, quando operavam em sua capacidade máxima e com fortes indícios de disparo em massa. Era o despertar de uma engrenagem que havia feito grande estrago meses atrás.

 

Das 30 imagens mais compartilhadas no WhatsApp em maio, 17 são referentes ao que bolsonaristas chamam de depravação nas universidades federais

 

levante das redes bolsonaristas não vinha por acaso. Duas pesquisas divulgadas em maio apontavam para um naufrágio do otimismo com o presidente, Jair Bolsonaro. A primeira, do instituto XP Ipespe, mostrou que, de abril para maio, o percentual de ruim e péssimo na avaliação do Bolsonaro subiu de 26% para 31%; já a segunda, uma análise de sentimentos de redes sociais feita pela startup Arquimedes, apontou que, nas últimas semanas, mais pessoas que se mostravam neutras ao novo presidente passaram a avaliá-lo negativamente. Para as duas empresas, os principais motivos foram o desgaste entre militares e Olavo de Carvalho e o corte na educação anunciado no dia 30 de abril pelo novo ministro da Educação, Abraham Weintraub.

As táticas de guerrilha soavam similares às das eleições de 2018. Pelo WhatsApp, centenas de grupos de apoiadores de Bolsonaro passaram a espalhar imagens que reforçavam a ideia, endossada pelo próprio Weintraub, de que as universidades públicas se tornaram lugar de “balbúrdia”. Montagens de gosto estético e moral duvidosos foram replicadas sem parar. Eram fotos e vídeos de performances artísticas, capas de monografias sobre sexualidade e paredes com pixações provocadoras. Em cada mídia, havia a legenda com o suposto nome da instituição federal e um texto que dizia: “Veja em que se transformaram nossas Universidades Federais! É UM ABSURDO”.

Surtiu algum barulho. Segundo a ferramenta de Benevenuto, nas duas primeiras semanas de maio, das 30 imagens mais compartilhadas no WhatsApp, 17 são referentes ao que bolsonaristas chamam de depravação nas salas de aula das universidades federais. (De resto, quatro associavam Marielle Franco ao tráfico de drogas a outros crimes, três eram denúncias de militantes petistas infiltrados em grupos, uma era uma defesa para fechar o STF e cinco eram imagens com tarja preta de conteúdo impróprio — provavelmente parte de uma mensagem em texto.)

Algumas das imagens mais compartilhadas no mês de maio.Crédito: WhatsApp Monitor

 

Benevenuto ressalta que seu software dá apenas uma amostra do turbilhão de montagens fabricadas a todo vapor: os 350 grupos que monitora são uma parte ínfima dos mais de 127 milhões de usuários e dos incontáveis grupos fechados no país. “Damos acesso a jornalistas e agora a pesquisadores para terem uma noção do que é compartilhado lá dentro, mas sabemos que não é um número preciso”, me disse Benevenuto.

Imerso em dezenas de grupos pró-Bolsonaro nos últimos dias, conclui que o grosso das mensagens dos bolsonaristas vem de grupos fechados, em que, em grande parte, apenas administradores podem enviar conteúdos. Vários dos grupos também adotam uma estratégia de renovação, isto é, são encerrados e depois abertos com outro nome e endereço. “É uma tática comum: eles fecham um grupo, depois mandam o convite para as pessoas que estavam lá entrarem em outro, assim vão renovando”, me disse Sergio Denicoli, diretor da consultoria AP/Exata e pós-doutor em comunicação digital. Isso explica por que vários dos grupos importantes durante a época das eleições não funcionam mais. Eles só mudaram de cara para provavelmente fazer uma faxina em usuários inativos.

Estudioso das redes de Bolsonaro desde 2017, Denicoli também notou atividade incomum nos últimos dias. De primeira, diz, os militantes de direita iniciaram sua tática de testar narrativas. No caso, a de que universidades públicas são lugares repletos de nudez, performances e cursos inúteis. “Eles vão chegando, vão testando narrativa, ensinando como argumentar”, explica Denicoli. “A eleição foi uma guerra retórica. A rede do Bolsonaro foi muito inteligente, impôs os temas que queria, e as pessoas repetiam os argumentos, mas agora não estamos vendo o mesmo sucesso.”

 

‘Os movimentos começam nos grupos e se cristalizam no Twitter, mas isso pode levar dias ou semanas. O laboratório é o WhatsApp.’  

Na análise de Denicoli, o corte na educação desagradou e mobilizou muita gente, o que fez com que os grupos de WhatsApp pró-Bolsonaro tentassem mais esforços para reverter a opinião de massa. O tiro, no entanto, saiu pela culatra. “Notamos em nossos dados que o movimento da educação é o mais importante da oposição, tem uma capilaridade e uma autenticidade muito fortes. São muitos pais, alunos e funcionários que fazem parte do sistema educacional, eles sabem que a realidade não é como os memes. Algo parecido ocorreu no Carnaval, quando Bolsonaro tentou generalizar o Carnaval com a polêmica do golden shower. Algumas narrativas não funcionam.”

Baseada em recursos de inteligência artificial e conceitos da psicologia, a análise de Denicoli capta oito tipos de emoções nos textos deixados em redes sociais como Instagram, YouTube e principalmente Twitter. Sua plataforma consegue, pela combinação de palavras dos usuários, saber se uma mensagem possui sensações como indignação, raiva, tristeza, desgosto, alegria ou confiança. Sua conclusão, depois confirmada pelas pesquisas de opinião, é que, ainda que Bolsonaro ainda conte com grande confiança em parte do seu eleitorado, os índices de medo e tristeza subiram bastante. “A rede de Bolsonaro era o único discurso vigente, era a mais barulhenta, mas agora as redes de esquerda cresceram”, diz Denicoli. “Começou a ter uma mobilização das pessoas pedindo mobilização, as pessoas demonstraram interesse e aí surgiu a ideia de greve dos movimentos sindicais. Foram manifestações espontâneas, principalmente de estudantes, que ganharam adesão.” A referência de Denicoli é à greve e aos protestos que estão marcados por todo o país para esta quarta-feira com milhares de menções nas redes sociais.

Os dados de Denicoli lidam com a parte acessível, mais clara, das redes bolsonaristas. Segundo ele, o Twitter é onde ocorre a segunda etapa da estratégia, a parte final e concreta das pautas do clã de Bolsonaro. Lá é onde se consolidam as narrativas iniciadas na parte escura, mais difícil de mensurar e de rastrear, no WhatsApp. “Os movimentos começam nos grupos e se cristalizam no Twitter, mas isso pode levar dias ou semanas. O laboratório é o WhatsApp.” Isso significa que, daqui pra frente, no Twitter, no Facebook e no YouTube, provavelmente haverá uma enxurrada ainda maior de montagens a fim de desmoralizar as instituições públicas de ensino.

Os conteúdos são disseminados primeiro no WhatsApp e depois espalhados para outras redes sociais.Crédito: Viktor Chagas/ UFF

 

Nas esteiras da fábrica de fake news

O pesquisador Viktor Chagas, da Universidade Federal Fluminense, analisa desde o começo do ano passado como funcionam as redes bolsonaristas no WhatsApp. Com a ajuda de sua equipe, ele monitora mais de 150 grupos de apoio ao político do PSL. Chagas foi o primeiro a expor, no ano passado, a existência de variados tipos de grupo pró-Bolsonaro que integravam uma estratégia maior e calculada. De acordo com ele, havia ao menos três espécies: o de divulgação (que envia links, panfletos etc.); o de mobilização (que incentiva boicotes ou subidas de hashtags, bem como ações nas ruas); e os de debate (responsáveis pela elaboração das narrativas e trocas de conteúdos). Todos eles, afirma Chagas, seguiam uma hierarquia e eram divididos de acordo com localização. A lógica se mantém viva hoje, ainda que, ao menos até semanas atrás, houvesse uma escala bem menor de mensagens e produção.

“Houve uma latência na transição pro novo governo, em janeiro”, afirma Chagas. “Teve uma baixa de usuários e muitos grupos estavam aguardando sinal para retomar a força de antes. Em meados de janeiro, começaram a voltar os listões públicos e adesão em massa para desmobilizar a oposição.”

 

‘Há um claro indicativo de que se trata de trabalho profissionalizado, de disparos automatizados.’  

 

Os listões a que Chagas se refere são nomes e endereços de canais pró-Bolsonaro no WhatsApp de acordo com tema e região. Podem ser chats como “Lavatogas ZAP” (que busca uma limpeza no judiciário) e o “Rede Bolsonarista TO” (de militantes de Tocantins). Eles podem ser acessados em sites e plataformas específicas, como o zapbolsonaro.com e a rede social de extrema-direita Gab, em que moderadores informam quais grupos possuem vagas. A ideia, diz o pesquisador, é manter os grupos funcionando no limite da plataforma, de 256 membros. Também notei que existem espécies de mensageiros individuais que passam a enviar mensagens em separado para todos os integrantes dos grupos. Ao entrar em um grupo pró-Bolsonaro em SP, por exemplo, vários usuários pediram autorização para enviar conteúdos de direita diretamente via celular.

Os disparos em massa, muito falados durante as eleições, também continuam. “É possível reparar em padrões de disparo profissional para os mesmos grupos quatro vezes ao dia, em horários diferentes, pela manhã, à tarde, à noite e de madrugada”, afirma Chagas. “Há uma circulação bastante intensa de imagens e apelo persuasivo das mesmas fontes, reiteradamente acionadas. São vídeos de influenciadores, como Luciano Hang, dono da Havan, e de anônimos em situações cotidianas.”

Definir com precisão quem está no comando das operações não é possível. Hoje, a maior parte dos moderadores usa números internacionais — durante a apuração, quase todos os prefixos com que cruzei eram de cidades dos EUA. Ainda assim, há algumas pistas deixadas na época da eleição. O número público do celular de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da República e deputado federal eleito ano passado, era um dos que mais liderava grupos de WhatsApp em setembro de 2018, segundo Viktor Chagas. Eduardo moderava mais de 30 grupos. Agora o número está desativado. Em seu lugar, entraram números internacionais sem nome ou foto para identificação.

“Há um claro indicativo de que se trata de trabalho profissionalizado, de disparos automatizados, mas isso por si só não é ilegal”, diz Chagas. O problema, claro, é quando essa profissionalização de envio de mensagens em massa se trata de uma fábrica de notícias falsas e informações tiradas de contexto. A Justiça Eleitoral, porém, ainda não encontrou meios de mapear ou rastrear os autores de conteúdos mentirosos e de má fé, como os memes que mentem sobre a questão estudantil.

O ponto destacado lá em cima nos dois gráficos é Eduardo Bolsonaro.Crédito: Viktor Chagas/ UFF

 

A incidência de mensagens nos grupos bolsonaristas de WhatsApp é por certo menor do que na época das eleições. Pelo Monitor WhatsApp, a plataforma que serve como amostra de Trending Topics de grupos abertos do aplicativo, o número de compartilhamento dos principais conteúdos chega a ser dez vezes menor do que em outubro. Uma das hipóteses dos pesquisadores é que agora, após as eleições, há menos financiamentos de disparos em massa profissionalizados do que no segundo semestre do ano passado.

Em outubro de 2018, reportagem da Folha de S. Paulo mostrou que diversos empresários — entre eles Luciano Hang, da Havan — contrataram agências para espalhar mensagens contra o PT no WhatsApp. Cada contrato teria o valor de R$ 12 milhões. A prática, tida como ilegal por consistir em doação de empresas para campanha, ainda continuaria em ação nesses primeiros meses de governo, mas em menor escala. Para os pesquisadores, o levante das redes está crescendo aos poucos com três pautas principais: manter o COAF com Moro, os ataques ao Supremo e a deslegitimação dos movimentos estudantis.

Outro ponto de consenso entre os pesquisadores é que a equipe de Bolsonaro se planejou com antecedência para montar sua estratégia de WhatsApp. As principais evidências são a grande organização hierárquica das redes e, também, dois projetos de lei que o então deputado federal Jair Bolsonaro apresentou em 2017, claras demonstrações de sua preocupação com WhatsApp no futuro. O primeiro deles dizia que apenas juízes do STF poderiam derrubar aplicativos e redes sociais no Brasil e o outro impediria operadoras de oferecer planos de internet com dados limitados; em ambos os casos, a justificativa do parlamentar é a de que as medidas evitariam a ameaça à livre circulação de ideias no Brasil.

 

                 Bolsonaro agora tenta se apoiar numa máquina baseada em robôs e mentiras orquestradas — a mesma que o elegeu — para recuperar apoio popular. 

 

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Para Denicoli, o ponto de partida da estratégia digital de Bolsonaro contou com uma imensidão de perfis automatizados no WhatsApp e, depois, no Twitter. “No começo da campanha, o número de robôs era muito alto. Eles estavam construindo narrativas em cima dos temas de modo experimental”, diz. “No final, eles conseguiram estabelecer um apoio real das pessoas, muitos compraram a ideia e viraram cabos eleitorais.”

De tanto serem replicadas, as mensagens encontraram seus receptores e adoradores. E a lógica segue no Twitter –um levantamento recente apontou que mais da metade dos seguidores de Bolsonaro é falso. A conclusão foi do Fake Followers Audit, uma ferramenta capaz de determinar a porcentagem de seguidores automatizados — isto é, robôs ou bots — que cada usuário tem. O método é estatístico: a empresa pega uma amostra aleatória de dois mil seguidores e analisa um a um. O software verifica dados que podem caracterizar ou não um perfil falso: número de seguidores, discrepância na localização, inexistência de foto de perfil, alta frequência de posts, baixo número de seguidores, data de criação da conta, dias de inatividade e a linguagem usada. Segundo esses critérios, cerca de 60,9% dos quatro milhões de seguidores de Jair Bolsonaro (mais de 2,5 milhões de usuários) são contas inativas. A companhia estima que, em cada post de Bolsonaro, 17% dos retuítes são feitos por perfis fakes. Embora os próprios autores da ferramenta reconheçam que ela não é infalível, o cálculo é eficaz para estimar porcentagens de seguidores falsos.

Bolsonaro agora tenta se apoiar numa máquina baseada em robôs e mentiras orquestradas — a mesma que o elegeu — para recuperar apoio popular. Mesmo depois de assumir a presidência, o político não se esforçou num discurso apaziguador, de união. No mundo real, ele segue com seu posicionamento contra minorias, numa fantasmagórica luta contra o comunismo e o que chama, sem saber articular, de ideologia de gênero. As redes o acompanham nisso e devem seguir essa lógica enquanto houver lenha para queimar. “A rede é toda mobilizada pela raiva, a gasolina é o conflito”, afirma Denicoli.

O problema que se expôs para o presidente é que nem sempre o WhatsApp pode instigar o ódio e criar uma realidade paralela endossada pela população. Boa parte dos brasileiros não acha que o Carnaval é sinônimo de golden shower e que a universidade é lugar em que todos assistem aula pelados. Ainda que lentamente, a máquina de mentira do clã bolsonarista parece perder sua força.

Era uma vez um sertão que sonhou que podia ir para a universidade

por Nayara Felizardo 
 

Os cortes que Bolsonaro está promovendo nas federais vão ter consequências em todo o Brasil, mas é longe dos grandes centros que está a verdadeira tragédia. Leia aqui

18
Mai19

Bolsonaro sabe a fórmula da água?

Talis Andrade

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por Hélio Messender

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Bolsonaro sabe a fórmula da água?

Eu duvido. A gente pode achar que saber a fórmula da água é repetir H.2.O. Pronto. Permita-me discordar do presidente
Saber a fórmula da água é conseguir olhar para essa representação e reconhecer que nela se encontra a partícula formadora de um recurso natural do planeta que não está disponível para todos. Tá sendo privatizado.

É reconhecer que tem H2O na lágrima da mulher preta que chora por seu filho morto. E chorar junto com ela. E não aceitar. E lutar para mudar isso.

É saber que o conjunto de moléculas de água que não chega no sertão, tem relação com a falta de políticas públicas e não com os limites naturais que nós já fizemos recuar.

Saber a fórmula da água é reconhecer que essa substância está presente na composição de uma porção de medicamentos que não chegam nos postos de saúde, por falta de uma política que valorize o SUS.

Saber a fórmula da água é saber que esse líquido corre nas nossas veias e compõe o sangue. Sangue derramado todo dia por uma galera que insiste em lutar.

Caro Bolsonaro, quem sabia, de fato, a fórmula da água estava lá para lutar. Quem não sabia, estava lutando pelo direito de saber. Lutava por uma educação que não ensina "apenas" a formula da água ou regra de três, mas a humanidade encarnada e as contradições em cada um desses conceitos

A gente sabe a fórmula da água. Mais do que você. A molécula H2O tá na saliva que a gente não consegue engolir quando gritamos: "A nossa luta unificou, é estudante junto com trabalhador".

Eu não ensino a meus alunos a recitarem H.2.O. Eu ensino o que essa representação significa para formar a humanidade!

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Hélio Messender, professor do Instituto de Química da UFBA

16
Mai19

“Chefia das universidades nas mãos de Santos Cruz é quase a volta do SNI”

Talis Andrade

 

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General chefe da Secretaria de Governo terá o poder de avalizar a nomeação de vice-reitores, pró-reitores e outros cargos diretivos

 

por Thais Reis Oliveira

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Em meio aos protestos contra os cortes em universidades e institutos federais, o governo editou um decreto que altera profundamente o critério de nomeações de dirigentes do ensino superior público.

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O decreto 9.794/2019 dá ao general Santos Cruz, chefe da Secretaria de Governo, o poder de avalizar a nomeação de vice-reitores, pró-reitores e outros cargos diretivos nas universidades federais. Conforme o decreto, caberá ao militar “decidir pela conveniência e oportunidade administrativa quanto à liberação ou não das indicações submetidas à sua avaliação”.

Deputados do PT, PSB e PSOL já protocolaram pedidos para a anulação do projeto, alegando que a proposta atropela a independência dos reitores e viola a autonomia universitária.

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O decreto também cria um sistema que permite aos ministros verificar a “vida pregressa” de indicados para esses cargos, o Sinc (Sistema Integrado de Nomeações e Consultas), que vai centralizar informações como experiência profissional e detalhes sobre eventual vínculo com o serviço público.

“É quase uma renovação do SNI [Serviço Nacional de Informações, órgão de inteligência da ditadura]“, critica Fernando Cássio, doutor em Ciências (Química) pela USP e professor da UFABC. Ele defende que entidades como a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior no Brasil (Andifes) levem a questão aos tribunais.

A Andifes ainda não tem uma posição definitiva, mas vai estudar o caso. “Entendemos que, para fazer uma boa gestão, é preciso nomear equipe. Se você perde a capacidade de nomear sua equipe, qual a responsabilidade sobre o cumprimento das metas, a execução das atividades?”, afirmou o presidente Reinaldo Centoducatte em coletiva na tarde desta quinta-feira 16.

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16
Mai19

Poder transformador da educação uniu o Brasil

Talis Andrade

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São Paulo

Por Cláudia Motta,

na Rede Brasil Atual

 
“Ô, Bolsonaro, preste atenção: a juventude vai fazer revolução”, dizia um grito de guerra dos estudantes. E foi o que pareceu ontem. Em todo o Brasil, as ruas das capitais e de mais de 200 cidades, grandes e pequenas, se encheram de gente para protestar contra o governo Jair Bolsonaro e os cortes de recursos para a educação, sobretudo as universidades e institutos federais.

Em São Paulo, a Avenida Paulista foi tomada (assista o vídeo). A multidão se estendia desde a Rua da Consolação por mais de um quilômetro e meio e ultrapassava as imediações da Fiesp, a federação das indústrias, sempre vaiada por sua participação no golpe de 2016.

Era tanta gente que ficava difícil encontrar os amigos. Quando isso acontecia, o que se viam eram abraços apertados, olhares vibrantes, sorrisos largos. A alegria de encontrar “um dos seus” nas ruas, clamando por direitos, não tem preço.

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Ouro Preto


Estudantes, professores, trabalhadores lotavam as estações de metrô que pareciam formigueiros e subiam as escadarias para se somar ao ato. “Pisa ligeiro, pisa ligeiro, quem não pode com formiga não atiça o formigueiro”, ilustrava um dos tantos gritos de guerra.

Havia movimentos organizados e cidadãos indignados. Bandeiras de sindicatos, movimentos sociais, partidos, compartilhavam espaço com cartazes feitos a mão no calor do dia. Alguns já respondiam à ofensa de Jair Bolsonaro, que dos Estados Unidos, num ambiente em que não era bem-vindo, chamou os brasileiros preocupados com educação de "idiotas úteis".

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João Pessoa



Houve quem comparasse com as manifestações de 2013. Mas as diferenças eram claras, começando pelo fato de que nenhum “grande” veículo de comunicação usou sua programação para inchar as ruas ontem – muitos ignoraram por completo. A mídia comercial acabou capitulando, surpreendida pelo sucesso de uma manifestação em que diferentes setores da sociedade encontraram uma bandeira que os une.

O ato paulista, marcado para 14h, encorpava ao avançar das horas. Quem saia da labuta, se juntava à luta. Conforme o expediente acabava, o cordão humano que da Paulista desceu a Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, rumo à Assembleia Legislativa de São Paulo, se agigantava. 

Palavras de ordem das antigas se misturavam às mais atuais. "Ei, burguês, a culpa é de vocês" ou “Nas ruas, nas praças, quem disse que sumiu, aqui está presente o movimento estudantil”, eram entoadas ao mesmo tempo que “Não vou parar de perguntar: a Marielle, quem mandou matar?”.

Num caminhão de som, uma imagem, atacada por aqueles que tiram verbas do ensino público era reverenciada. Todos queriam uma foto tendo como fundo um painel do pedagogo Paulo Freire e seus dizeres sob o poder transformador da educação.

Os atos, que reuniram mais de 1 milhão de pessoas Brasil afora, segundo estimativa parcial divulgada ontem pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), não deixavam dúvida sobre esse poder. O saber transforma e não tem volta. Felizmente.

Em todos os gritos, nas longas caminhadas, nos atos que reuniram gente de todo tipo – de esquerda, de centro, politizados, apolíticos, jovens, velhos, crianças – o objetivo era um só: defender a educação pública e o futuro do Brasil. 

Ficou mantida a promessa, ouvida em tantas outras oportunidades e que nunca falhou: não vai ter arrego. Pelo tamanho e capilaridade das centenas de atos pelo país, é bom o governo se acostumar com a ideia: ninguém vai sair da rua. Novos protestos já estão convocados para 30 de maio e a greve geral, de 14 de junho, foi aprovada em assembleia simbólica na região da Paulista.

“Tira a mão da nossa aposentadoria, tira a mão da educação”, gritava uma liderança do alto do carro de som quando a enorme passeata chegava ao Ibirapuera. Já passava das 18h30 e muita gente, mas muita gente mesmo, ainda descia a Brigadeiro. Era a São Paulo formigueiro, do chão, na defesa do futuro agora.

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São João del Rey

16
Mai19

Defesa da educação catalisa insatisfação

Talis Andrade

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por Jeferson Miola

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Os protestos multitudinários em defesa da educação que ocorreram em todo o Brasil neste 15 de maio catalisaram a ampla insatisfação da sociedade brasileira com Bolsonaro.

A resistência ao projeto de destruição da educação e da Universidade pública se transformou na plataforma de enfrentamento global ao governo Bolsonaro e suas políticas ultraliberais, eugenistas e racistas. A resistência à contrarreforma previdenciária ganhou ainda mais centralidade.

Em algumas capitais brasileiras, como Porto Alegre e Rio de Janeiro, as manifestações foram de magnitude equivalente aos comícios das Diretas Já de 1983/1984 – até então o principal marco de mobilizações populares do país.

A vibração genuína das juventudes em luta, sobretudo estudantes secundaristas e universitários, se comunicou com a inconformidade generalizada do povo com os desatinos do governo e com o caos instalado no país.

Esta formidável contraofensiva democrática e popular acontece numa circunstância difícil para Bolsonaro, que enfrenta uma confluência de crises e dificuldades: o país à beira da estagnação, desemprego brutal, hostilidade na base parlamentar, instabilidade política e sua estigmatização como pária internacional e aberração humana [aqui].

Além disso, Bolsonaro se defronta com o que ele próprio chama de tsunami: o avanço da investigação dos esquemas de corrupção, enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiro do filho Flavio em associação com Fabrício Queiroz – fato que poderá revelar, às claras, a conexão da FaMilícia Bolsonaro com o submundo das milícias e das organizações criminosas.

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A energia, a presença massiva e o vigor dos protestos evidenciaram o potencial crescente de oposição ao governo, inclusive de segmentos desiludidos e assustados com a barbárie em marcha.

Uma mensagem que fica deste 15 de maio é que o governo poderá prosseguir a imposição da agenda austericida e genocida, porém não sem enfrentar uma enorme, vigorosa e crescente resistência popular e disposição de luta social.

A preparação da greve geral de 14 de junho ganhou um importante alento no dia de hoje. O enfrentamento à extrema-direita fascista e seu projeto destrutivo entrou numa nova e promissora etapa.

A luta política dura e intensa será a marca do próximo período. Será fundamental aprofundar a organização unitária e solidária dos subalternos.

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16
Mai19

Bolsonaro está fazendo água…

Talis Andrade

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por Fernando Brito

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A capa do popular jornal carioca O Dia, com ironia, vai a direto à linha do processo político: crise ecômica conduz à insatisfação, insatisfação conduz à rejeição e rejeição, cedo ou tarde, conduz a protestos.

Um “é a economia, estúpido”,  escrito de forma gráfico-editorial.

Bolsonaro, com as declarações que deu ontem, chamou inteiramente para si o problema dos cortes na educaçao, cujos alvos primários poderiam ser o sujeito lá do Ministério da Educação, Abraham Weintraub, e o ministro da Economia, Paulo Guedes.

Colou, portanto, em sua testa um estigma, como se não bastassem os que já tem.

Ainda mais em meio a uma viagem autopromocional, sem sentido, ao exterior.

Literalmente, não está nem aí, nem aqui.

Sabendo ou não a fórmula, o ex-capitão está visivelmente fazendo água.

E quando um barco faz água, começam a pular para fora dele…

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