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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

17
Nov20

Adversário do PT em Vitória é bolsonarista que invadiu hospital para “provar farsa” da Covid

Talis Andrade

Charge do Zé Dassilva: uma gravidez aos 10 anos | NSC Total

 

Pazolini também foi enviado por Damares para tentar impedir que garota capixaba de 10 anos interrompesse gravidez

 

O adversário do petista João Coser no segundo turno de Vitória (ES) não podia ser mais bolsonarista. O currículo do deputado estadual Lorenzo Pazolini (Republicanos) inclui uma invasão a hospital para, segundo pedido do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), “provar a farsa da Covid”.

Além disso, ele também foi enviado pela ministra da Mulher, Damares Alves, em agosto deste ano, para tentar evitar que uma menina capixaba de 10 anos, estuprada desde os 6 pelo tio e que engravidou devido aos abusos, interrompesse a gestação.

Em junho deste ano, no auge da pandemia do novo coronavírus, Bolsonaro conclamou seus apoiadores a entrarem em hospitais e “provar a farsa da Covid-19”. No pico das infecções no país, o presidente negava a gravidade e a expansão da doença. Ele chegou a pedir que seus seguidores dessem “um jeito de filmar, fotografar lá”.

À frente de um grupo de deputados estaduais, Pazolini seguiu as instruções de seu “mito”. Alegou estar “cumprindo seu dever” como parlamentar ao invadir o hospital Dório Silva, no município de Serra. Embora afirmasse ter autorização para a ação, o governo estadual entrou com queixa-crime contra os parlamentares e classificou a “visita” como invasão. A Secretaria estadual da Saúde declarou, na época, que não era permitida a entrada de estranhos em unidades de saúde onde houvesse infectados pela Covid no auge da pandemia.

Menina capixabaConJur - O fracasso! Numa palavra só! E leiamos Marcos, 3, 24-25!

Dois meses depois, Delegado Pazolini, nome que adota na campanha, foi enviado por Damares a São Mateus (ES).

A intenção seria, de acordo com reportagem do jornal Folha de São Paulo,  dissuadir a família da menina de 10 anos que havia engravidado após estupro de levá-la a um aborto. O bolsonarista foi inclusive mencionado em postagem feita pela ministra no dia 13 de agosto.

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Ele publicou em suas redes sociais fotos do encontro que teve com o Conselho Tutelar de São Mateus para tratar do caso.

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Detalhe: quando atuava como delegado, Pazolini foi titular da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente e, na Assembleia Legislativa do Espírito Santo, preside a comissão de mesmo tema. 

 

31
Jan20

127.585 estupros, dos quais 63,8% ocorreram em menores de 14 anos

Talis Andrade

 “Entre 40% e 60% dos casos de gravidez na adolescência resultantes de violência sexual"

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A campanha pela abstinência sexual que Damares Alves pretende lançar durante a Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, prevista para acontecer na primeira semana de fevereiro em parceria com o Ministério da Saúde, comandado pelo médico ortopedista Luiz Henrique Mandetta, vem colocando os dois ministros em lados opostos. O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos dita ―ou tenta ditar― as diretrizes da ação, mas o custo de 3 milhões de reais será bancado pelo Ministério da Saúde. Em nota técnica obtida pelo jornal O Globo no último fim de semana, a pasta comandada pela pastora evangélica afirma que o início precoce da vida sexual leva a “comportamentos antissociais ou delinquentes” e “afastamento dos pais, escola e fé”, entre outros resultados.

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Já a pasta de Mandetta afirmou, em outra nota técnica, que a campanha deve reforçar a autonomia e o protagonismo do jovem sobre sua iniciação sexual, colocando à disposição os métodos contraceptivos. Ao jornal Folha de S. Paulo o ministro afirmou que a mensagem do “comportamento responsável é válida”, mas que “o problema é complexo” e “não se pode minimizar a discussão e dar ênfase só para isso". Ele também disse que questões religiosas não devem pautar a discussão e que tem "apostado muito muito em informar as consequências, porque acredito que esse seja um ponto essencial para a conscientização”.

Fora desse embate estão os números alarmantes de estupros cometidos em meninas menores 14 anos, uma das principais causas da gravidez precoce, segundo diversos especialistas e estudos. Os dados mais recentes constam no último relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A entidade mostra que nos de 2017 e 2018 foram registrados um total de 127.585 estupros, dos quais 63,8% ocorreram em menores de 14 anos ―o que se configura como estupro de vulnerável. Além disso, 81,8% dos casos aconteceram em mulheres, 75,9% foram cometidos por alguém conhecido e em de 95% deles os autores pertencem ao sexo masculino. “É de se destacar que os crimes sexuais estão entre aqueles com as menores taxas de notificação à polícia, o que indica que os números aqui analisados são apenas a face mais visível de um enorme problema que vitima milhares de pessoas anualmente”, afirma o texto.

A ministra Damares também vem apontando para o aumento dos casos de doenças sexualmente transmissíveis, como a sífilis. Em julho do ano passado, a ONU apontou que o contágio do vírus da AIDS no Brasil cresceu 21% em oito anos, apesar das campanhas e tratamentos oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Essa tendência já vinha sendo observada por entidades e especialistas, que apontam para o nível de desconhecimento das novas gerações, que não vivenciaram o pânico gerado pelos primeiros contágios a partir da década de 1980. Seja como for, o Governo Bolsonaro foi criticado por ter transformado o órgão responsável pelo combate à doença em uma coordenadoria dentro do Ministério da Saúde —antes, era um departamento específico. Na prática, isso significou que a política de enfrentamento ao vírus, tida como referência no combate ao HIV em todo o mundo, perdeu relevância.

A ministra também abordou na entrevista alguns problemas reais e apelou para o senso comum: “A gravidez precoce está crescendo de uma forma absurda. E mais do que a gravidez precoce, as doenças sexualmente transmissíveis. Sabiam que estamos em epidemia de sífilis?

Em relatório de 2017, a Unicef aponta “entre 40% e 60% dos casos de gravidez na adolescência resultantes de violência sexual”..

Além disso, o estudo destaca que os abusos ocorridos repetidas vezes aconteceram em 45,6% dos casos de meninas de 10 a 14 anos e 25,7% das jovens de 15 a 19 anos. Entre as que ficaram grávidas em decorrência de estupro, em 72,8% (10 a 14 anos) e 44,1% (15 a 19 anos) dos casos a violação teve caráter repetitivo. Portanto, continua o estudo, “a gravidez na adolescência e as notificações de estupro podem estar associadas, evidenciada pela alta prevalência de violência de repetição, de ocorrência de estupro e outras vulnerabilidades”.

A ministra Damares Alves não nega esta realidade e diz que defende a educação sexual em escolas, desde que falada “de forma certa”. Coincidindo com movimentos feministas, afirmou ao Correio que “quem for falar para a criança de 3 anos sobre educação sexual deve fazê-lo inclusive para empoderar essa criança a se proteger”. Ela inclusive aproveitou para lembrar seu histórico pessoal de violação: "Vocês conhecem a história do meu abuso, daquele momento terrível da minha vida. Se eu soubesse o que era aquilo, eu teria gritado. Eu tinha 6 anos”. 

relatório da Unicef também aponta quatro “macrofatores” causais para o alto índice de gravidez precoce: além da violência sexual, aponta para o “descompasso entre o desejo sexual e o risco de gravidez, que pode resultar na gravidez não planejada (escapulida)”; a “vontade da maternidade, que resulta na gravidez desejada”; e a “necessidade de mudança de status social, que resulta na gravidez estratégica”.

Nesse contexto cabe também destacar o elevado número de uniões estáveis e casamentos entre adolescentes, uma realidade para 23,2% das meninas com de 10 a 14 anos, e 36,8% entre aquelas de 15 a 19 anos, lembra o Ministério da Saúde. “As dificuldades para resolver os vínculos de dependência do grupo familiar podem levar os jovens a buscar uma pseudoindependência, substituindo os laços com os pais pela dependência afetiva do casal. A adolescente que vive em um meio social desprovido de recursos materiais, financeiros e emocionais satisfatórios pode ver na gravidez uma expectativa de futuro melhor, embora ela possa se tornar mais vulnerável nessa situação”, explica. A Unicef coloca o Brasil como o país com mais casamentos precoces da América Latina e o quarto de todo o mundo.

[Transcrevi trechos de reportagem de FELIPE BETIM. Leia mais no jornal El País

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