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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

24
Mai20

Golpista festejou divulgação de grampo ilegal de Dilma e Lula, agora ameaça democracia por celular de Bolsonaro

Talis Andrade

 

O Vazamento Seletivo do Juiz Moro.jpg

 

por Hugo Melo

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Em 16 de março de 2016, o então juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, vazou para a TV Globo um grampo ilegal colhido pela Polícia Federal (PF), de uma conversa telefônica entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a então presidenta da República, Dilma Rousseff.

Moro era juiz de primeira instância e o grampo foi vazado no mesmo dia da gravação.

Nesses diálogos particulares, com pessoas de sua confiança, Lula contou ter recebido um apelo da presidenta para ajudá-la a tirar o país da crise. E afirmou, textualmente: “eu jamais aceitaria ser ministro para me proteger”.

Apesar da origem espúria da gravação, não havia nenhuma palavra por parte dos dois que denotasse  ilegalidade ou obstrução à Justiça.

“Na época, os golpistas em peso comemoraram, inclusive o atual presidente Jair Bolsonaro e aliados”, relembra o jurista Hugo Cavalcanti Melo.

“Agora, um ministro do STF [Celso de Mello], competente para a matéria, solicita parecer ao MPF sobre pedido de apreensão do telefone de Bolsonaro e o general chefe do GSI ameaça o STF e a combalida democracia”, observa o jurista.

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15
Mai20

Grampeado por Moro, Zanin ironiza defesa da "paridade de armas" chorada pelo próprio Moro ex-funcionário de Bolsonaro

Talis Andrade

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Vítima de uma das maiores arbitrariedades judiciais da história do Brasil, ao ter seu escritório grampeado para que se encontrasse a estratégia de defesa do ex-presidente Lula, o advogado Cristiano Zanin Martins se surpreendeu com o fato de o ex-juiz Sergio Moro agora defender o tema da paridade de armas entre defesa e acusação. "O tema da 'paridade de armas' no exercício do direito de defesa é realmente muito importante. Que bom que hoje foi lembrado. Deveria sempre ser lembrado", escreveu Zanin. Foi uma resposta ao seguinte choro sem velas postado por Moro: 

“Sergio Moro e seus advogados foram surpreendidos com a petição da AGU, em favor do presidente da República, no inquérito junto ao STF. A transcrição parcial revela disparidade de armas, pois demonstra que a AGU tem acesso ao vídeo, enquanto a defesa de Sérgio Moro não tem".

Moro contratou três advogados de acusação, que ele chama de "defesa". Moro acusa Bolsonaro de pretender interferir na Polícia Federal, polícia que sempre teve a interferência de Moro, desde o assalto ao BanEstado, desde a volta do adido militar Maurício Valeixo, em Washington. Valeixo trazia a estratégia de transformar um inquérito de tráfico internacional de drogas em uma campanha de endeusamento de um juiz, para substituir a presidente esquerdista Dilma Roussef, ex-guerrilheira contra a ditadura militar que teve início com o golpe que derrubou Jango Goulart. 

Moro interferiu na Polícia Federal, e no Ministério Público Federal. Uma interferência que teve de tudo, que nem a feira de Caruaru. Tudo de ruim. De maléfico. Escutas ilegais. Vazamentos seletivos para os meios de comunicação de massa. Prisões e mais prisões sob vara. Sequestros, inclusive de crianças. Tortura de presos. Delegados e agentes dissidentes. Assédio moral de funcionários da PF. Com enforcamento. Procuradores vendidos. Advogados de porta de cadeia que viraram nababescas bancas da indústria de delações mais do que premiadas. Criação de um fundo iniciado com 2 bilhões e 500 milhões dados de presente pelo governo dos Estados Unidos, pelos serviços de inteligência prestados pela lava jato. Dinheiro depositado pela Petrobras no dia 30 de janeiro de 2019, em uma conta gráfica, na Caixa Econômica Federal de Curitiba, capital da República do Paraná. Essa dinheirama secreta, ora chamada de fundo, ora de fundão, era para o gasto de seis procuradores. Bufunfa que, no nome de qualquer outro grupo de funcionários públicos,  seria considerada propina para uma gangue de quinta-colunas que detonaram as grandes empresas nacionais e explodiram milhões de empregos, criando graves crises econômica, política e social. Crises que criaram o golpe que derrubou a presidente reeleita Dilma Roussef. Espetáculo da justiça ativista que prendeu o candidato a presidente Lula da Silva, para eleger o deputado Jair Bolsonaro. Crises que forçaram o Brasil do BRICS retornar ao Terceiro Mundo.

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Relembre o grampo no escritório de Zanin em reportagem do Conjur:

Os investigadores da “lava jato” grampearam o ramal central do escritório que defende o ex-presidente Lula por quase 14 horas durante 23 dias entre fevereiro e março de 2016. Ao todo, foram interceptadas 462 ligações, nem todas relacionadas à defesa do ex-presidente, mas todas feitas ou recebidas pelos advogados do escritório.

E as conversas que estavam relacionadas à defesa de Lula foram transcritas em relatórios diários enviados pela Polícia Federal aos procuradores da “lava jato” e ao ex-juiz Sergio Moro. E, conforme mostraram conversas de Telegram obtidas pelo site The Intercept Brasil e divulgadas pela Folha de S.Paulo, os grampos foram usados para que a força-tarefa se antecipasse às estratégias da defesa.

 

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13
Mai20

Mourão é a ditadura militar, a extrema direita, e a volta de Moro, o queridinho das Américas

Talis Andrade

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Se o capitão Bolsonaro empolga mando para um auto-golpe, e para fechar o Congresso, para cassar ministros do STF, mais perigoso o general Mourão, que traria Moro de volta como propaganda de falsa luta contra a corrupção, contra a velha política, contra a ameaça vermelha dos comunistas e petistas e satanistas com seus ktis gay e mamadeiras de piroca. 

Os partidos de esquerda precisam entender: mil vezes mais fácil lidar e viver com Bolsonaro, um anti-presidente, falastrão, com um passado conhecido da imprensa, um político que usufrutua  28 anos ininterruptos de mandatos de deputado federal. 

O Mourão, o antidemocrata, assinalou o apoio militar ao golpe da extrema direita que derrubou a presidenta Dilma Roussef. Em pronunciamento público na loja maçônica Grande Oriente do Brasil em setembro de 2017, no Distrito Federal, afirmou que entre os deveres do Exército Brasileiro está a garantia do funcionamento das instituições e da lei e da ordem, e que se o judiciário não fosse capaz de sanar a política existente no país isso seria imposto pelo exército por meio de uma intervenção militar, que na visão dele estaria prevista na Constituição Federal de 1988

Publicou a Gazeta do Povo, em 18.09.2017, reportagem de Chico Marés: 

"O general Antonio Hamilton Martins Mourão, que aventou a possibilidade de uma intervenção militar no país em evento maçônico, já causou mal-estar no Exército por posicionamentos pró-ditadura. Em 2015, ele foi removido do Comando Militar do Sul (CMS) após fazer homenagem póstuma ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, responsável pelo DOI-CODI entre 1970 e 1974 e reconhecido pela Justiça brasileira como torturador."

Quando Bolsonaro votou o impeachment de Dilma e citou Ustra, estava repetindo Mourão, o golpista:"“O que interessa é termos a consciência tranquila de que fizemos o melhor e que buscamos, de qualquer maneira, atingir esse objetivo. Então, se tiver que haver haverá”, ameaçou Mourão com a volta da ditadura de 1964. 

 

 

11
Mai20

As ligações partidárias da Lava Jato

Talis Andrade

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Na capa da Veja, os delegados Igor de Paula, Marcio Adriano, Mauricio Moscardi e Erika Mialik 

 

Crimes da Lava Jato (II): falsa delação “por um prato de comida”

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As acusações da chamada “República de Curitiba” aos “Dissidentes da PF” era de que denunciavam inverdades sobre a Operação Lava Jato. Tal como a escuta ilegal instalada na cela dos doleiros, descoberta pelos presos no final de março de 2014. No entendimento dos advogados, como posteriormente uma nova investigação sobre o fato gerada pelo alerta do próprio Fanton – a sindicância 04/2015, feita pela Coordenadoria de Assuntos Internos (Coain) da Corregedoria Geral do Departamento de Polícia Federal (COGER/DPF) – confirmou a existência e funcionamento da escuta ilegal na cela, as inverdades estavam na acusação. Logo, na interpretação dos defensores, delegados e procuradores praticaram uma “denunciação caluniosa” contra os quatro.

O que a ação em Bauru não esmiúça, mas noticiamos diversas vezes no BLOG, é que esta retaliação ao delegado Herrera foi armada a partir da divulgação na imprensa de páginas do Facebook onde os mesmos delegados da Força Tarefa de Curitiba faziam campanha política. Foi na disputa eleitoral de 2015, quando encamparam a candidatura do tucano Aécio Neves.

Ao mesmo tempo ridicularizavam a candidata à reeleição Dilma Rousseff (PT), bem como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não escapava nem o então ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, superior hierárquico deles. O que por si só deveria gerar alguma punição, ainda que mera censura. Mas nada aconteceu, pois Cardozo e o governo Dilma se omitiram com medo da chamada opinião publicada. Ou seja, da grande mídia, que abraçara e defendia a Operação Lava Jato.

As páginas com as propagandas políticas foram noticiadas por Juliana Duailibi, em O Estado de S.Paulo, em 13 de novembro de 2014, na matéria “Delegados da Lava Jato exaltam Aécio e atacam o PT na rede“. Uma história que o BLOG contou desde nossa primeira matéria sobre a operação comandada por Sérgio Moro. Foi em agosto de 2015, na reportagem Lava Jato revolve lamaçal na PF-PR.

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Tais reproduções realmente partiram de Herrera. Preocupado com as ilegalidades cometidas por seus colegas da superintendência, que até poderiam gerar nulidade da operação, buscou, sem sucesso, providências dos seus superiores no DPF em Brasília. Diante da inércia na instituição, decidiu levá-las ao conhecimento do então ministro da Justiça, Cardozo. Para isso contou com a ajuda do advogado Maués. Por precaução, o ex-APF Gnazzo, seu amigo pessoal, passou a intermediar a conversa com o advogado curitibano.

Maués procurou o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos através do escritório que o representa em Curitiba. Arruda Botelho foi escalado como interlocutor entre os paranaenses e o ex-ministro. Foi Thomaz Bastos quem repassou as reproduções das páginas do Facebook à jornalista. Herrera as entregou a Arruda Botelho e este levou ao ex-ministro. 

Com a perseguição, Herrera teve que se licenciar por questões médicas. Principalmente por conta do massacre sofrido nas mídias onde era apontado como “Dissidentes da PF”, autor de um “dossiê”. Dossiê, repita-se, que jamais apareceu. As informações vazadas para a grande mídia diziam que o tal “dossiê” seria negociado ao preço de milhares de dólares, uma vez que apresentaria provas para sustentar a nulidade da operação que combatia a corrupção. Portanto, os “Dissidentes da PF” estariam defendendo os corruptos. Na verdade, combatiam as ilegalidades na operação, que a mesma grande imprensa se recusava a noticiar.

Os informes de Romário de Paula – um dos que teve as páginas do Facebook divulgadas -, como ele mesmo diz nos documentos, foram construídos com informações recebidas de jornalistas, procuradores ou, simplesmente, “fonte humana”. Tal como o BLOG noticiou, em novembro de 2016, em Com ajuda de jornalistas, delegados criaram versão do dossiê contra Lava Jato. Como mostramos nessa reportagem citada, algumas informações foram desmentidas. Inclusive pela direção do jornal Folha de S.Paulo. Por conta dos informes, porém, surgiu a investigação.

A decisão de instaurar o procedimento criminal só foi oficializada em fevereiro, mês em que Fanton aportou em Curitiba, convocado para ajudar na superintendência. Foi para o Paraná para colaborar na investigação que, em 2017, resultou na Operação Carne Fraca. O caso dos “Dissidentes da PF” lhe caiu no colo. Recebeu ainda o IPL 768/2014, que investigava um vazamento de informação envolvendo a descoberta de celulares entre os presos. Na realidade, eram aparelhos grampeados com os quais os delegados pretendiam obter informações dos doleiros. Como o BLOG narrou na primeira reportagem desta série sobre os Crimes da Lava Jato, quarta-feira (06/05).

No entendimento de Fanton, porém, os dois informes de Romário de Paula não justificariam a instauração de um inquérito. Eram fracos. Foi preciso surgir uma testemunha para a investigação ser aberta. Como o delegado explicou no despacho que deu nos autos ao ser informado do seu retorno a Bauru. Ou seja, ao ser obrigado a deixar o caso. Nesse documento, com data de 4 de maio, último dia em que atuou na capital paranaense, lê-se sobre a importância do depoimento da doleira: 

A partir do momento em que o testemunho da presa Nelma Kodama subsidiou em parte as notícias crimes apresentadas pelo Delegado Igor Romário, vimos indícios de verossimilhança de que as notícias fossem verdadeiras e fidedignas para instaurar o Inquérito Policial“. (Continua)

 

 

 

01
Mai20

Moro e Bolsonaro: entre o balé o xadrez. E nós com isso?

Talis Andrade

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por Mendel Aleluia 

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O encontro de Moro e Bolsonaro, se não chega a ser fruto de um cuidadoso planejamento, também não é exatamente um acidente histórico. Bolsonaro, não sendo a escolha preferida da burguesia brasileira, apresentava a vantagem de encarnar, com muita desfaçatez, o discurso de ser um político “antissistema”. Nada mais falso, visto que a este pertence com tamanha afinidade que nenhuma contrapartida ofereceu ao povo brasileiro, nem mesmo à sua base mais antiga e fiel de apoiadores, nas suas décadas de “atividade” parlamentar (exceção feita às defesas das pautas corporativas dos militares). Sérgio Moro, este já com uma roupagem mais simpática aos setores golpistas da burguesia nacional e com afinidade estética com o grosso da classe média brasileira, já foi muito mais facilmente abraçado e incensado pela grande mídia. Mas, além da empatia pela cafonice e a realização do desejo infantil de transpor heróis dos quadrinhos para a realidade, o agora ex-juiz e ex-ministro mostrou uma característica fundamental para as pretensões golpistas que rondavam aquele Brasil do ocaso dos governos petistas: a disposição para burlar normas, leis e fazer o que fosse preciso para viabilizar a necessária interferência no processo eleitoral de 2018.

Feita a conversão de Bolsonaro, via Paulo Guedes, ao neoliberalismo, e verificada a adesão cada vez maior do ex-capitão entre as massas, a sua postura fascista declarada (e não velada, como preferiam as elites brasileiras) passou a ser tolerada. Sérgio Moro, herói por tirar o líder das pesquisas eleitorais do jogo, para a surpresa de ninguém deixa a magistratura e assume um ministério no novo governo. De lá pra cá, Bolsonaro e Moro dançam e jogam, são bailarinos e ao mesmo tempo enxadristas. Seguem exemplos:

1- Bolsonaro sabe que o arrivismo de Moro não tem no Ministério da Justiça seu fim. Há voos mais altos no Executivo ou no Judiciário. Um dos destinos desses voos, o STF, por enquanto está nas mãos de Bolsonaro;

2- Moro, mais popular que o próprio presidente, encampou, a despeito de tímidas resistências, a pauta do armamento e do tal “excludente de ilicitude”. Em nome do bom trânsito com o chefe, não se furtou a participar ativamente do projeto neofascista, o que tentará negar nos seus próximos movimentos políticos;

3- As revelações do The Intercept Brasil sobre os crimes cometidos por Sérgio Moro na Operação Lava-Jato invertem o jogo. De avalista do governo Bolsonaro, o ex-juiz passa a ser avalizado por este, o que muito agrada ao ex-capitão;

4- Passada a tempestade, a blindagem oferecida ao presidente por Moro começa a ficar cara. Os vínculos de Bolsonaro e família com o mundo do crime começam a ficar mais escancarados. A hora de pular do barco chegou e foi bem calculada. No bote salva-vidas microfones e holofotes, junto com uma boa dose de verniz democrático para contrastar com a amplificação do discurso autoritário do Planalto.

Isto posto, cabe reafirmar que, embora o desgaste do governo seja importante e sinalize algum grau de debilidade e fragilidade do projeto que o mesmo representa, não podemos criar nenhum tipo de ilusão sobre esta disputa. O Fora Bolsonaro ganha as redes e as varandas. Em breve terá também que ganhar as ruas. Sua queda, ainda no campo especulativo, precisa ocorrer por nossas mãos, impedindo o protagonismo daqueles que estão ao lado de Moro. Estes, servirão o mesmo prato: nós. Apenas querem uma mesa mais bem decorada.

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01
Mai20

Por qual buraco Bolsonaro cairá?

Talis Andrade

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Mesmo diante de 29 pedidos de impeachment, Rodrigo Maia reluta. Mas inquérito da PF pode colocar o capitão em maus lençóis. Por isso, ele foge em busca do Centrão, que cobrará caro. Agora, quem piora o calvário, são os filhos investigados

 

por Almir Felitte

No Outras Palavras

Desde que o tucano Aécio Neves resolveu juntar sua turma para dizer publicamente que não aceitaria os resultados das eleições de 2014, calmaria tem sido raridade na política brasileira. Com um golpe via impeachment contra Dilma, um governo ilegítimo de Temer sem qualquer tipo de apoio popular e uma eleição de Bolsonaro decidida por mentiras absurdas, qualquer brasileiro que tenha falado em normalidade democrática nos últimos 6 anos ou é muito ingênuo ou está do lado que venceu.

Levando o país ao que deve ser a crise econômica mais persistente e, agora, também a mais profunda da nossa história, o rompimento democrático ganhou dois aceleradores nos últimos tempos: Bolsonaro e o coronavírus. Se o Brasil já indicava que desceria a ladeira com os resultados econômicos previsivelmente pífios da agenda liberal de Guedes e as pernadas autoritárias de Bolsonaro, a crise mundial causada pela pandemia parece ter encontrado em nosso país o Governo ideal para experimentar as suas consequências mais dramáticas.

Oscilando entre a incapacidade e a maldade, Bolsonaro segue levando o país rumo a uma tragédia anunciada que já contabiliza milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas, não fosse o negacionismo suicida de nosso Governo. Porém, a atitude do Presidente, que já é vista como um deboche contra seu próprio povo, parece finalmente ter levado Bolsonaro a um ponto insustentável até mesmo entre os grupos que o levaram ao Palácio do Planalto. Assim, 16 meses após sua posse, várias cartas que podem derrubar o inapto Presidente já estão sobre a mesa.

A primeira delas, mais óbvia e ainda recente na memória do povo brasileiro, é a do impeachment. Nela, um pedido que pode ser realizado por qualquer cidadão, justificado por um crime de responsabilidade de Bolsonaro, chegaria à Câmara dos Deputados, ficando a cargo do Presidente da Casa, Rodrigo Maia, aceitá-lo ou não. Uma vez aceita, a denúncia seria submetida ao plenário, que poderia autorizar o processo com o voto de 2/3 do total de deputados. Com isso, Bolsonaro seria afastado até o julgamento final de seu processo de impedimento pelo Senado.

Os crimes de responsabilidade estão previstos no artigo 85 da Constituição e na Lei 1.079/50. Quem quiser dar uma conferida não vai precisar de muito conhecimento jurídico para perceber que Bolsonaro comete pelo menos um deles por dia.

O impeachment, porém, é o caminho mais político e, ao menos por enquanto, o que mostra menos chances de derrubar Bolsonaro, ainda que, pelo menos até 25 de abril, 29 pedidos de impeachment já tenham chegado à mesa de Rodrigo Maia. O Presidente da Câmara, por outro lado, vem demonstrando distância da possibilidade, sempre afirmando que esta não seria a prioridade do país no momento.

Vale lembrar que Maia é o mesmo que, desde o Governo Temer, chefia o trator das reformas liberais que passou por cima dos trabalhadores na Câmara dos Deputados e, nesse ponto, ele, seu DEM e toda a direita parlamentar andam de mãos dadas com Bolsonaro e Guedes. É de se perguntar até que ponto Maia, como representante do patronato brasileiro, estaria realmente insatisfeito com o Governo a ponto de liderar um processo para derrubá-lo, ainda que ele tenha virado vítima constante das “milícias online” bolsonaristas que, convenhamos, já enquadraram praticamente todo e qualquer brasileiro sem sobrenome Bolsonaro nessa extensa lista de inimigos.

Por outro lado, as recentes tentativas de aproximação entre Bolsonaro e o chamado “Centrão” (aquele velho grupo de partidos de direita que ocupam o Congresso com o objetivo exclusivo de realizar negociatas) mostram que o Presidente já não se sente completamente protegido pelo Congresso. Sem partido e a todo momento perdendo protagonismo até mesmo pra figuras medíocres como Mandetta, possivelmente Bolsonaro já não está mais tão seguro quanto no primeiro dia de seu governo.

Outro caminho seria o afastamento de Bolsonaro para julgamento por crime comum. Neste caso, uma denúncia realizada pela Procuradoria Geral da República só poderá ser recebida pelo STF com a autorização de 2/3 da Câmara dos Deputados, ocasião em que o Presidente já seria afastado enquanto aguarda seu julgamento final pela Suprema Corte (e não pelo Senado).

Nesse sentido, algumas possibilidades de concretização já surgiram. Nesta segunda (27), o Ministro Celso de Mello autorizou a abertura de inquérito para investigar acusações que Sérgio Moro, em sua explosiva demissão, fez a Bolsonaro, que claramente vem tentando interferir no trabalho da Polícia Federal, enquanto esta fecha o cerco contra seu esquema de “fake news”.

O resultado dessa movimentação, porém, é de difícil previsão, já que depende, primeiro, da ação de um Procurador Geral da República (Augusto Aras) recentemente nomeado pelo próprio Bolsonaro, podendo culminar apenas em denúncias contra Sérgio Moro que, ao que tudo indica, também pode ter cometido crimes comuns em suas relações espúrias com o Presidente.

Desse modo, a discussão em torno de um afastamento de Bolsonaro por crime comum levanta mais dúvidas do que respostas. Quais seriam os impactos do rompimento entre Bolsonaro e Moro? Num país regido mais por vontades privadas do que pelas leis, a que vontade Aras vai ceder? A do Presidente que o nomeou ou a da “turma lavajatista” do MPF? Teremos novos “tweets” de Generais quando a decisão voltar ao STF? Além disso, a necessidade de autorização pela Câmara dos Deputados repete os outros pontos já debatidos aqui, apesar de menos centralizados na figura de Maia neste caso.

Por fim, há, ainda, a saída puramente política da pressão pela renúncia de Bolsonaro, que ainda parece distante de chegar a este ponto, mas está, sem dúvidas, cada dia mais acuado. Em Brasília, pululam as notícias de que, por motivos diferentes, o cerco estaria cada dia mais fechado para os filhos do Presidente.

De um lado, o The Intercept publicou documentos que mostram que o Ministério Público do RJ já organizou provas do envolvimento de Flavio Bolsonaro com o loteamento ilegal de imóveis na Zona Oeste carioca pela milícia através do esquema de rachadinha. A mesma milícia suspeita de assassinar Marielle. Por outro lado, a imprensa informou amplamente que a Polícia Federal teria finalmente comprovado o envolvimento de Carlos Bolsonaro com o escândalo das “fake news” que, entre outros, atingiu em cheio a honra de Ministros da Suprema Corte do país.

Com esse cenário, não é à toa que alguns veículos da grande mídia já têm ventilado a possibilidade de que o Presidente poderia aceitar uma renúncia em troca do perdão a seus enrolados filhos. Mas esse caminho, é preciso que se diga, não passa de mera especulação de jornalistas até agora. O isolamento de Bolsonaro e as denúncias pesadas contra sua família, porém, fazem com que a tese pareça cada dia menos distante da realidade.

Note-se que, até aqui, somente instrumentos institucionais e ações envolvendo autoridades foram citadas. Nenhum dos caminhos apresentados contam com qualquer tipo de participação do povo. E, perdoem o pessimismo, mas, após 6 anos de intenso rompimento democrático, não parece que será num momento de isolamento social forçado pela pandemia que a vontade popular vai voltar a ter alguma força decisória no país.

Em todo o caso, nunca se viu a conjuntura política mudar de forma tão rápida no Brasil. O que se comprova hoje é refutado amanhã e não é este artigo que terá a intenção de fazer as vezes de bola de cristal para prever o tão incerto futuro brasileiro. Esta coluna teve a única intenção de analisar as cartas já postas na mesa que podem ou não culminar com a queda de Bolsonaro. Outras tantas perguntas que poderiam ajudar em tal análise seguem sem resposta.

Duas delas, possivelmente relacionadas, podem ser centrais para entender este período triste que vivemos. Que força política ainda dá sustento a Bolsonaro? E que papel têm os militares no atual cenário político do Brasil?

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01
Mai20

"A Lava-Jato é a mãe do bolsonarismo", diz Gilmar Mendes

Talis Andrade

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Em entrevista ao Timeline na manhã desta sexta-feira (1º), o ministro Gilmar Mendes apontou observações em relação à crise na política brasileira atual, engrandecida pela pandemia de coronavírus. Questionado sobre a hipótese de impeachment do presidente Jair Bolsonaro, Mendes afirmou não haver muitas conversas sobre tal possibilidade. 

— Como o país enfrentaria um impeachment agora? É muito cedo, é preciso aguardar. Neste momento, não há uma insistência, impeachment parece uma palavra banida do vocabulário — disse.

O ministro acredita que o tema, muito discutido em meio à atuação de Bolsonaro durante a pandemia, é uma "ampla construção desses anos todos, uma verbalização que vinha de Curitiba e da Lava-Jato". Nesse contexto, ele ainda afirmou que considera a Lava-Jato a "mãe do bolsonarismo", e que é necessário ter mais cautela para a análise de todas as informações que ainda serão trazidas pelo ex-ministro da Justiça, Sergio Moro

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As escolhas de Moro, de acordo com Mendes, foram arriscadas, principalmente porque o ex-ministro estava "muito próximo desse movimento político" (bolsonarista). Mendes destacou que Moro teve "sucessivas derrotas" durante o período em que esteve presente no governo Bolsonaro, como a vez em que convidou a cientista política Ilona Szabó de Carvalho para assumir um cargo de suplente no Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP). Moro teve que voltar atrás na indicação em razão de críticas feitas por bolsonaristas.

Elogios aos governadores por atuação durante a pandemia

Para Mendes, a crise provocada pelo surto de coronavírus no Brasil só não foi maior por conta da "boa atuação dos governadores". Ele afirma que não há possibilidade de deixá-los de fora do diálogo de enfrentamento à pandemia. 

— O desentendimento entre Bolsonaro e o ex-ministro Mandetta foi como se um meteorito tivesse se chocado com o país. Acredito que o Brasil restaurou a política dos governadores, num sentido positivo, pois há união em prol do bem-estar nacional, os Estados cumpriram as recomendações de isolamento social com êxito.

Mendes finalizou afirmando ter observado Bolsonaro muito "angustiado com crise econômica".

— O presidente ficou entre duas escolhas e priorizou a questão econômica. Isso obviamente tem consequências.

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01
Mai20

O acaso e a incompetência de Bolsonaro recolocam Moro no centro da política

Talis Andrade

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O segundo tempo do jogo é a direita se reunificando em torno de Moro, apesar das supinas demonstrações de mediocridade em toda sua gestão. E uma tentativa de reavivar a Lava Jato para inviabilizar tentativas das esquerdas de se reagrupar para 2022.

28
Abr20

Que seja nomeado um delegado da PF que defenda a imprensa livre

Talis Andrade

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Quem nomeia inimigo para o fisco, a polícia, a justiça é o PT. Os generais, os marechais jamais nomearam um esquerdista, um comunista para qualquer cargo no governo. Que o lugar dos adversários é na cadeia ou no cemitério clandestino. Onde já se viu um adversário nomeado para a polícia de Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique, Temer, Bolsonaro?

Sergio Moro levou para o governo de Bolsonaro o amigo de sempre, companheiro no assalto ao Banco do Estado do Paraná - BanEstado, o adido policial em Washington, que serviu de ponte para o FBI, a CIA atuarem na lava jato, o cara que prendeu Lula, o delegado que peita a justiça, que rasgou o habeas corpus que soltava Lula, o habeas corpus do desembargador Rogério Favreto, o delegado sempre pronto para servir a Moro, quando Moro esteve a serviço de Bolsonaro, desde a campanha eleitoral, quando aprovou como peça de propaganda política a delação fajuta, mentirosa de Antonio Palocci - delação mais do que premiada, delação que Dallagnol recusou, mas que Valeixo, interesseira e subserviente, aceitou. 

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Que delegado policial, com ou sem agentes da CIA, com ou sem agentes do FBI, gravou Dilma Roussef, quando presidenta do Brasil, e gravou Lula e espionou a Petrobras, o Pré-Sal?

Depois de Moro, jamais Bolsonaro irá nomear um ministro sabotador, traidor, inseguro, suspeito, e sim pessoas de sua máxima confiança. Vale para a polícia federal. Não existe autonomia da PF. 

Mais polícia, menos democracia. A PF é um departamento do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O presidente responde perante o Congresso, a Suprema Justiça, a HIstória, pelos crimes praticados pela Polícia Federal, notadamente contra os Direitos Humanos, contra a Liberdade de Imprensa, como fez Moro ameaçando, investigando, perseguindo jornalistas.

Transcrevo da Wikipédia: "O primeiro passo para um movimento em direção à renovação da matriz tecnológica da PF foi dado no ano 2000. Até ali, a PF era vista como uma organização repleta de policiais 'chuta-portas' e apodrecida pela corrupção. Chamavam-na de 'apêndice' das agências policiais dos Estados Unidos. Ao final dos anos 1990, os carros e até a gasolina da estrutura da PF brasileira eram doações da Agência Central de Inteligência (CIA). 'O dinheiro é o nosso, as regras são nossas', chegou a declarar, em maio de 1999, o segundo da embaixada americana em Brasília, James Derham. Com a volta de Derham para os EUA, o orçamento saiu de R$ 100 milhões em 1999 para R$ 200 milhões no ano seguinte. As promoções passaram a privilegiar competência em lugar da antiguidade. Em 2006, o orçamento da PF era de R$ 600 milhões e tinha 11 mil policiais federais se revezando em missões pelo País com o apoio de cinco helicópteros, nove aviões, duas dezenas de embarcações e 2.327 viaturas". Com Moro, as promoções dos amigos de Moro, dos policiais sediados em Curitiba.  

 

28
Abr20

Moro consegue ser pior que Bolsonaro

Talis Andrade

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"Decerto que o mais desejável é que tanto Moro como Bolsonaro se queimem juntos nessa fogueira inquisitorial que virou o país. Mas entre um e outro, ouso a dizer que Moro é o que representa o maior risco aos interesses da nação e o mais difícil de ser enfrentado e derrotado"

 

por Luciano Resende Moreira

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Ontem (23/04), durante uma entrevista que dei ao blog “O Outro lado da Notícia” do amigo Osvaldo Bertolino, disse que, a meu juízo, Sérgio Moro é mais nocivo ao país que Bolsonaro.

E digo mais: numa briga entre Bolsonaro e Sérgio Moro, na impossibilidade dos dois se esfacelarem juntos, torço para que Moro perca.

Como a entrevista foi rápida, não deu para explicar o porquê dessa, digamos, escolha. Mas a faço por aqui, de maneira pontual:

1 – Já dizia Rui Barbosa: “a pior ditadura é a do poder judiciário, contra ela não há a quem recorrer”. Foi ditadura da Lava Jato, com apoio escancarado da grande mídia, que apeou Dilma do poder por meio de um Golpe e alçou ao poder esse governo de corruptos e milicianos. Ao menos a ditadura a qual é defendida por Bolsonaro tem rosto, forma e é tangível. Pelo contrário, a ditadura de toga é um espectro, disfarçada e intangível.

2- A Lava Jato é a expressão máxima da criminalização da política. Sérgio Moro, embora seja um agente político, sempre posou como um cidadão apolítico. A tal “República de Curitiba” aparecia ao público como um Estado Paralelo, verdadeira “milícia judiciária” para definir os rumos da política, criminalizando aqueles que foram eleitos para tal. Se hoje assistimos a sociedade defendendo a volta dos militares é muito graças à essa campanha insidiosa de criminalização da política e suas instituições.

3 – É possível vencer Bolsonaro e seu clã no voto. Mas o Lavajatismo não. O Lavajatismo do qual Sérgio Moro é representante maior, está entranhado nas estruturas de poder. Faz parte do que chamamos de Superestrutura do Estado. É um câncer em metástase.

4- Por mais deplorável que seja e por mais que as milícias virtuais tenham atuado para garantir sua vitória, Bolsonaro foi eleito pelo voto popular. Sérgio Moro chegou onde está sem nunca ter tido um voto. 

5- Sérgio Moro é tão criminoso quanto o clã Bolsonaro. Ainda que não pese contra ele nenhuma denúncia de assassinato, sua conivência com massacres ocorridos em presídios e a condescendência com as constantes declarações de seu chefe em favor de torturadores o coloca no mesmo campo. Ademais, cometeu crimes que influenciaram decisivamente no Golpe de 2016, como a condução coercitiva ilegal de Lula, as escutas telefônicas fora da lei, os grampos de advogados entre tantas outras ilicitudes.

lula guatámano lava jato a serviço do império.j

 

6- Bolsonaro é rude, tosco e abrutalhado. Embora também seja tosco, o “conje” de Maringá ao menos é um homem de “classe”. Engana melhor. Mantém uma máscara de civilizado e cordial.

7- Moro parece ter um vínculo mais profissional com as agências de inteligência dos EUA. Enquanto Bolsonaro faz questão de externar seu servilismo, Moro adota uma postura mais técnica de subalternidade. É mais discreto em seu trabalho de “office boy” do Império. 

Decerto que o mais desejável é que tanto Moro como Bolsonaro se queimem juntos nessa fogueira inquisitorial que virou o país. Mas entre um e outro, ouso a dizer que Moro é o que representa o maior risco aos interesses da nação e o mais difícil de ser enfrentado e derrotado.

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