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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

15
Dez23

Lugares de memória da escravidão

Talis Andrade
 
Alexandre Calder
 

 

Comentário sobre o livro organizado por Isabel Cristina Martins Guillen

 

por Urariano Mota

Lugares de memória da escravidão e da cultura negra em Pernambuco é um livro que devia ser lido em todas as cidades do Brasil e do exterior. Foi organizado pela historiadora Isabel Cristina Martins Guillen, que reuniu pesquisadores e professores sob o tema da história da escravidão em Pernambuco e seu esquecimento. Nesse “esquecer”, ocultar, o leitor já vê semelhança com os crimes contra a humanidade de outros países.

No livro, são evocados, repostos alguns lugares da resistência negra no Recife: Monumento a Zumbi dos Palmares na Praça do Carmo, Estátua de Naná Vasconcelos no Marco Zero da cidade, Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Recife, Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos da Muribeca, Monumento aos maracatus-nação, estátua do poeta negro Solano Trindade e o Pátio de São Pedro do Recife.

Mas o mais importante vem dos textos que contextualizam tais lugares, a partir da discussão e referências aos documentos até hoje não postos em livre conhecimento. Nas palavras de Isabel Cristina Martins Guillen, organizadora do livro: “No caso específico do Recife e sua região metropolitana, há um sensível apagamento dessa memória da escravidão no espaço público. Há pouquíssimas referências explícitas ao passado escravista”.

Nesta altura, compreendemos que é sintomático ter a Rua do Bom Jesus reconhecida internacionalmente como uma das mais lindas do mundo, mas com o cenário esquecido do horror do mercado de homens escravizados. Como se encontra no texto de Ezequiel David do Amaral: “Vendidos na principal rua da cidade, a Rua da Cruz (conhecida atualmente como Rua do Bom Jesus). François de Tollenare, em 1816, viu uma cena cotidiana da escravidão no Recife: exposição de escravos à venda. Em suas Notas dominicais, sobre o Recife assim descreve a cena o viajante…”.

E aqui, mais uma vez, notamos que a indignidade da escravidão, em sua feroz inumanidade, é invisível para a elite local. A brutalidade só é percebida pelo olhar estrangeiros: “Grupos de negros de todas as idades e de todos os sexos, vestidos de uma simples tanga, acham-se expostos à venda diante dos armazéns. Estes desgraçados estão acocorados no chão e mastigam com indiferença pedaços de cana que lhes dão os compatriotas cativos que encontram aqui. Grande número dentre eles padece der moléstias da pele e está coberto de pústulas repugnantes” (Tollenare, citado por Ezequiel David do Amaral).

Mas aprendemos mais. Olhem só a impressionante descoberta. Na pesquisa que mostra o tráfico de escravos em Pernambuco, no texto revelador de Marcus Joaquim Maciel, passamos a conhecer: “O esquecimento da memória do tráfico também surpreende, porque, desde que se começou a estudar este assunto nas Américas, Pernambuco aparece nas fontes e na literatura, pois a capitania começou a receber gente escravizada da África muito cedo. Pode-se dizer que Pernambuco foi o primeiro lugar da América portuguesa onde esse processo se tornou rotineiro. Pelos dados do Trans-Atlantic Slave Trade Database, pode-se ver que, entre o século XVI e a invasão holandesa, em 1630, Pernambuco recebeu praticamente metade de todos os africanos levados para a América portuguesa”.

No texto de Marcus Joaquim: “Foi na década de 1820-1830, que Francisco de Oliveira realmente se destacou nesse importante negócio de tráfico. O fato de ser um traficante não o fazia diferente de outras tantas pessoas ditas de bem, porém imersas na sordidez de um cotidiano inescrupuloso. Ele tinha seus sentimentos, tanto que, em 1839, anunciou no Diario de Pernambuco o desaparecimento de Petit, seu cachorrinho branco, ‘muito magrinho, de olhos lânguidos, com as orelhas cor de café com leite, barriga fina, pernas muitos finas e compridas’”.

Mas, ao mesmo tempo (ou por isso mesmo), ele era capaz de inimaginável crueldade com os escravos: “Em 1845, Mr. Cowper, o cônsul inglês no Recife, disse que Francisco de Oliveira era provavelmente o homem mais rico da cidade. Francisco era muito temido por seus cativos. Quando uma joia foi roubada da sua casa, ele desconfiou de uma cativa doméstica que, desesperada, preferiu jogar-se janela abaixo a ser castigada. A pobre mulher morreu na hora. Francisco não se fez de rogado e mandou abrir a barriga da mulher em busca da joia. Ficou desapontado ao não encontrar o que procurava, para espanto do cônsul inglês”.

Observem esta denúncia anônima, nas páginas do Diário de Pernambuco em 29 de agosto de 1856 na seção Página Avulsa: “É lastimável ver um escravo de tal senhor! Arranhados, esfolados e esgalgados parecem fúrias; seus corpos macerados e chagados servem de pastos a vermes e mal cobertos jazem à mostra ao público, quando saem a mando de tal harpia. Ainda há três dias surrou ele por tal forma uma escrava de mais de 50 anos, que lhe furou o olho”. (Citado no texto de Ezequiel David do Amaral)

É curioso, para não dizer sintomático, que tamanha violência não passe pela obra de Gilberto Freyre. E olhem que ele pesquisou, e muito, em jornais. Sobre a miopia amenizadora da violência contra escravos na obra do escritor já publiquei uma vez.

Maria Graham, a digna escritora que visitou Pernambuco em 1821, viu. Cito as palavras da inglesa: “Os cães já haviam começado uma tarefa abominável. Eu vi um que arrastava o braço de um negro de sob algumas polegadas de areia, que o senhor havia feito atirar sobre os seus restos. É nesta praia que a medida dos insultos dispensados aos pobres negros atinge o máximo. Quando um negro morre, seus companheiros colocam-no numa tábua, carregam-no para a praia onde, abaixo do nível da maré-cheia, espalham um pouco de areia sobre ele”.

Mas na perigosa escrita de Gilberto Freyre o mesmíssimo quadro se conta assim: “Foi numa praia perto de Olinda que Maria Graham, voltando a cavalo da velha cidade para o Recife, viu um cachorro profanando o corpo de um negro mal enterrado pelo dono. Isto, em 1821. Olinda pareceu à inglesa extremamente bela vista do istmo e da praia pela qual, indo do Recife, chegou até ao pé dos montes da primeira capital pernambucana”.

Vocês leram: o horror ocupa uma só linha em Gilberto Freyre, perdida na bela vista de Olinda. Quem quiser, confira, essa ocultação do real está em sua Olinda, guia prático, histórico e sentimental de uma cidade.

Voltemos então ao livro Lugares de memória da escravidão e da cultura negra em Pernambuco. A professora Rosely Tavares de Souza faz impressionante crítica à falta de cumprimento, na prática, da Lei n.º10.639/2003 na Educação Básica: “Ao discutir as questões étnico-raciais, tomando como referência a memória da escravidão no Recife e sua região metropolitana, observamos um abismo entre o que conhecemos até o momento e sobre as devidas atualizações do tema no ensino. Durante minha experiência como professora de História do ensino básico, analisei a finco as coleções de livros didáticos da disciplina. Observei que a temática do período escravocrata no Brasil é tratada a partir de repetidas e antigas abordagens de lugares-comuns ao tratarem as práticas de negros e negras escravizadas no país. Pior ainda: os lugares e imagens que ilustram o período histórico, que aqui referenciamos, são circunscritos apenas a algumas regiões, como o Rio de Janeiro e Salvador, enquanto o Recife é negligenciado nos capítulos que tratam desse conteúdo”.

E mais: “Ao ministrar um curso de curta duração e oficinas sobre ‘análise de livros didáticos de História’ para professores de História, solicitamos como atividade que os docentes observassem se os referidos subsídios didáticos em análise contemplavam a Lei n.º10.639/2003. Quando questionados sobre o conhecimento da referida lei, para minha surpresa, grande parte dos docentes desconhecia não só o documento, mas também uma atualizada historiografia sobre a temática da escravidão”.

Isso acontece depois de mais de 20 anos da Lei em vigor: ‘Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.

§ 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.

§ 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.

“Art. 79-B. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como ‘Dia Nacional da Consciência Negra’.”

 Art. 2o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

 Brasília, 9 de janeiro de 2003; 182o da Independência e 115o da República.

Luiz Inácio Lula da Silva”

Isso mostra, infelizmente de novo, que o processo histórico da sociedade brasileira ultrapassa o legal. É como se a lei em relação aos negros “não pegasse”. Como se a civilização posta em lei pelo Presidente Lula não estivesse valendo. É revoltante isso. Aliás, é como se o tráfico de escravos ainda não estivesse acabado. Tanto pelos documentos ainda a serem revelados, pelo apagamento da história de pessoas negras nas cidades, quanto pelas torturas e mortes contra os dignos cidadãos, é como se o tráfico de pessoas continuasse.

Lugares de memória da escravidão e da cultura negra em Pernambuco é um livro para ser discutido em todos os lugares, escolas, universidades, congresso e partidos. Para assim incendiar a ignorância e o bárbaro preconceito contra os negros do Brasil. [https://amzn.to/4791Lkl]

18
Jul23

Dominância financeira e deformação do trabalho

Talis Andrade
Mihai Cauli

 

O trabalho produtivo expressando emprego assalariado protegido se encontra integrado ao processo de acumulação de capital quando a dinâmica da produção de mercadoria cria as condições de sua conversão em lucro. Video: Banco Central de Bolsonaro: o sabotador da economia brasileira

 

por Márcio Pochmann

Nem sempre as discussões em torno da definição da taxa básica de juros (Selic) e da condução da política monetária consideram os seus efeitos de curto e longo prazo em todas as atividades econômicas, bem como as consequências para o mundo do trabalho. Assim como juros elevados asfixiam o consumo e o investimento produtivo, potencializando ganhos financeiros especulativos e alimentando o rentismo improdutivo, a quantidade e qualidade das ocupações da mão de obra são negativamente atingidas.

Isso porque o trabalho mantém uma relação direta e de intensa tensão com o processo de acumulação de capital, tal qual o binômio Casa-Grande & Senzala, formulado por Gilberto Freyre – algo inseparável, ainda que em oposição, e mesmo que diferente e assimétrico, mantém-se interligado implícita e profundamente um ao outro.

No caso do capital e o trabalho, a relação é inconteste. Se, de um lado, o uso quantitativo do trabalho se encontra associado ao dinamismo econômico, de outro, o grau de sua exploração pelo capital gera profundo e contínuo questionamento por quem trabalha.

Na formulação geral da transformação do dinheiro em capital apresentada por K. Marx (O capital: crítica da economia política), por exemplo, o trabalho encontra a sua forma ou deformação estabelecida. Pela concepção marxista, a conversão do dinheiro em mercadoria e a sua reconversão pelo comércio da mercadoria em mais dinheiro (D-M-D’) constitui o movimento no tempo pelo qual o dinheiro se torna capital.

É para isso que a metamorfose do dinheiro em mercadoria conduzida pelo emprego da forma trabalho assalariado gera valor que se converte em lucro tensionado pela necessidade do pagamento de salário e de outros custos de produção. Do contrário, prevaleceria a simples circulação de mercadorias, expresso pela mera troca de dinheiro por dinheiro (D-D), sem que a valorização do trabalho se traduzisse em capital.

Mas há outra via pela qual o dinheiro se converte em mais dinheiro (D-D’), definida pela condição do capital fictício que se valoriza abreviado pela ausência da intermediação própria da produção de mercadorias. Diferentemente da gênese do dinheiro a partir da mercadoria como um produto do labor humano (relação entre capital e trabalho), o capital portador de juros permite que o empréstimo de uma soma de dinheiro se reverta em valorização de si mesmo, sem a necessidade de passar pelo processo que inter-relaciona extremos da associação do trabalho com o capital.

Neste cenário econômico, as possibilidades do trabalho ter a forma do emprego assalariado protegido por direitos sociais e trabalhistas, por exemplo, são decrescentes. O que tende a ganhar maior dimensão é a deformação do trabalho, pois distante do assalariamento e das condições de acesso aos direitos sociais e trabalhistas prevalece a precarização de uma população crescentemente sobrante aos requisitos capitalistas.

O trabalho produtivo expressando emprego assalariado protegido se encontra integrado ao processo de acumulação de capital quando a dinâmica da produção de mercadoria cria as condições de sua conversão em lucro. Na situação inversa, quando o processo de acumulação de capital ocorre liderado pela dominância do capital fictício, tende a prevalecer o trabalho improdutivo deformado, posto que se impõe o seu alijamento da dinâmica expansionista da financeirização da riqueza.

Para a realidade brasileira de longo prazo, percebe-se como durante o ciclo da industrialização nacional ocorrido entre as décadas de 1930 e 1980, a dominância do capital produtivo foi acompanhada pela elevação do nível do emprego assalariado protegido. Se, na década de 1940, apenas um a cada dez ocupados tinha trabalho assalariado protegido, nos anos 1980 esta forma aproximou-se de dois terços do total da ocupação nacional.

Desde os anos 1990, contudo, o ingresso passivo e subordinado na globalização tornou o capital financeiro dominante no processo de acumulação capitalista no país. A estagnação da renda por habitante indicou os constrangimentos pelos quais a forma trabalho assentada no emprego assalariado protegido passou a conviver.

No seu lugar emergiu o trabalho sem forma, ou melhor, a deformação do trabalho expressa pela variedade de atividades improdutivas aos requisitos capitalistas de produção. Sob a liderança do capital financeiro, os obstáculos à produção se impuseram, com a estagnação do assalariamento protegido em meio à deformação do trabalho pelo desemprego e à difusão de ocupações indeterminadas e gerais rebaixadas por atividades de contida produtividade e rendimento.

16
Mar23

“A elite brasileira é uma elite de ladrão”, diz Jessé Souza ao lançar livro na França

Talis Andrade
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Por Adriana Brandão /RFI

- - -

O livro “A Elite do Atraso”, do sociólogo brasileiro Jessé Souza, acaba de ser publicado na França pela editora l’Harmattan, com tradução de Jean-Luc Pelletier. Em francês, a obra ganhou o título de “Le Brésil et ses élites; l’esclavage em héritage” (O Brasil e suas elites, a escravidão como herança). O sociólogo reinterpreta o Brasil de um outro modo e afirma que no país “corrupta, é a elite”.

O sociólogo Jessé Souza
O sociólogo Jessé Souza RFI
 
 

Depois de passar uma temporada na França dando aulas na Sciences Po, o Instituto de Estudos Políticos de Paris, Jessé Souza está agora em Berlim, e conversou com a RFI por telefone.

O sociólogo é autor de mais de 15 livros, alguns deles publicados em inglês e alemão, que renovam a análise da questão social no Brasil e explicam o país sob um outro prisma. A “Elite do Atraso” é o seu primeiro livro lançado em francês.

Na obra, o autor critica clássicos da sociologia brasileira, como “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, e “Carnavais, Malandros e Heróis”, de Roberto da Matta. “Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Raymundo Faoro, Fernando Henrique Cardoso, Roberto DaMatta, ou seja, são as cabeças mais brilhantes do Brasil dos últimos 100 anos”, detalha. Esses autores ainda são muito usados e citados na França e Jessé Souza espera que o lançamento de “Le Brésil et ses élites” ajude os franceses a entender melhor o Brasil.

“O Brasil é percebido tanto pelos intelectuais como pelo povo inteiro de um modo elitista. Ou seja, foi criada no Brasil uma identidade nacional que é sempre produto desses grandes intelectuais que montaram uma ideia do Brasil que humilha o povo, chama esse povo de corrupto e eleitor de corruptos”, explica.

O sociólogo indica que essa teoria foi “antes de tudo, feita em São Paulo, sob os auspícios da elite paulista, para se livrar de Getúlio Vargas, o primeiro presidente a tentar a inclusão popular”. A versão da história que Jessé de Souza quis contar, “a história real”, segundo ele, é que “a elite é o problema. Quem rouba é a elite, por exemplo, por uma dívida pública que nunca foi auditada. O Brasil, no fundo, não tem nada a ver com Portugal. O Brasil tem a ver com a escravidão”, afirma.

 

Capa do livro do autor Jessé Souza
Capa do livro do autor Jessé Souza © Divulgação

 

Política criminalizada

A análise de Jessé Souza é alvo de críticas que dizem que ele minimiza a corrupção de políticos no Brasil. Ele responde que “o político, obviamente, ele é corrompido”, mas salienta que isso não pode ser usado como bode expiatório do processo histórico de dominação e de reprodução da desigualdade em um país rico.

“O importante é que a corrupção, no Brasil e em outros lugares, é realizada no mercado pelos proprietários”, que se beneficiam, por exemplo, de isenção fiscal. O sociólogo também faz uma comparação com a violação dos direitos dos povos indígenas brasileiros. “Essa coisa que está acontecendo no Brasil hoje, matando índio para tirar madeira, isso tudo é a elite brasileira funcionando, roubando. O nome disso é corrupção. Isso é ilegal, é contra a Constituição”.

Ele cita ainda o rombo das Americanas como mais uma prova de que “corrupta, é a elite”: “esse cara, Jorge Paulo Lemann, deu um cano de R$ 40 bilhões, entendeu? E esse cara era tido como um grande empresário do Brasil. A elite brasileira, é uma elite de ladrão.”

Jessé Souza espera que isso fique “claro para o povo brasileiro (que) aprendeu a se perceber, ele e seus representantes, como corruptos. Daí a ideia de criminalizar a política como único lugar da corrupção”. Ele acredita que “criticar as ideias é o primeiro passo, e o passo mais importante, para você mudar uma sociedade. É isso que é preciso compreender”.

 

Restituir a inteligência popular

O livro “A Elite do Atraso” foi publicado inicialmente no Brasil em 2017 com o subtítulo “Da escravidão à Lava Jato”. Em 2019, ganhou uma nova edição com o subtítulo “Da Escravidão a Bolsonaro”. Depois da reeleição de Lula em 2022, a obra continua mais pertinente do que nunca na opinião do sociólogo.

“O Lula continua falando exatamente contra os juros altos do Banco Central e você vê toda a imprensa o atacando por isso, por exemplo. Ou seja, essa elite não morreu. É uma luta desigual, né? Então, o Lula está dentro de um contexto extremamente hostil, adverso a ele.”

Para evitar novos “golpes”, como o que derrubou a presidente Dilma Rousseff e abriu caminho para a eleição de Jair Bolsonaro, Jessé Souza espera que o novo governo compre “a batalha cultural” e a disputa narrativa com implantação de uma imprensa plural que explique ”para essas pessoas por que elas são pobres, por que elas não têm futuro num país que é rico”.

O principal desafio do atual governo, de acordo com Jessé Souza, é restituir a inteligência popular: “no fundo, o povo brasileiro, que é um povo inteligente como qualquer outro povo, foi imbecilizado pela elite e por sua imprensa. E você tem que restituir a inteligência popular”. Leia mais:

03
Mar23

Heróis do Recife

Talis Andrade

Lembro os sem nomes, aqui nomeados pela primeira vez. Lembro a professora Termutes, do Ginásio Ipiranga, que sumiu no tempo

02
Jan22

O Papa-Figo no Alvorada

Talis Andrade

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Dizem que no Palácio da Alvorada mora um lobisomem. Não acredita nos avanços da ciência. Nem precisa

 

por Gustavo Krause

- - -

Gilberto Freyre enxergou com insuperável acuidade os fatos sociais. No livro Assombrações do Recife velho, explorou personagens sobrenaturais que povoam a vocação mística da cidade e seus efeitos sobre o imaginário popular.

O Papa-Figo, figura tenebrosa, tratava a doença do soturno lobisomem com fígados de criancinhas. Dizem que, atualmente, o lobisomem mora no Palácio da Alvorada e o Papa-Figo é o mais eficiente formulador e executor dos programas de governo.

Controverso e polêmico é dizer quase nada de Gilberto Freyre e da obra monumental que mudou e segue influindo a perspectiva de pensar o Brasil. A atração dialética do autor pelos “antagonismos em equilíbrio”, permite que, sobre ele, tudo possa ser dito e sentido: a emoção dos afetos e desafetos; admiração dos discípulos e a ira dos contrários; etiquetas das demências ideológicas. Tudo, menos indiferença ao patrimônio que legou aos saberes universais.

Não cabe em rigores metodológicos: ao da prosa científica, aliviava com a leveza da construção poética; não se submetia a pré-conceitos: versátil e plural reinventava e religava conhecimentos, criando uma espécie de ecossabedoria. Confessadamente vaidoso, reconhecia, segundo testemunho de Edson Nery da Fonseca, que “a verdadeira ciência é humilde”.

Ninguém olhou e enxergou o fato social com tanta acuidade: desde descrever a relação do senhor do engenho com a rede, até lançar luzes sobre as possibilidades de uma civilização tropical mestiça.

Nada escapava à percepção e aos significados freyrianos: o poder do patriarca, o recato oprimido das sinhás, o odor sensual da mucama, a imponência da arquitetura e do mobiliário, a mancha melânica, o jenipapo na bunda dos meninos brancos, marca da ancestralidade negra, o hábito indígena dos banhos diários e a culinária com o sabor especial dos temperos raciais no reinado do açúcar.

Em Assombrações do Recife Velho (1955, várias edições, Global, 2012, formato ePup), reencontro meus primeiros medos. A matéria-prima vem do imaginário popular, contadores de histórias e cantigas de ninar (boi da cara preta). O sobrenatural assustador é um traço da vocação mística e histórica do Recife, repleta de revoluções, fantasmas de padres executados, casas e sobrados mal-assombrados (Teatro Santa Isabel) nome de bairros e ruas que guardavam relatos aterradores (Afogados, Chora-Menino, Encruzilhada, Encanta-Moça).

Dentre as 27 histórias, a que mais apavorava às crianças, era a lenda do Papa-Figo. Conta-se que um sujeito rico estava com uma doença desconhecida e incurável: à noite virava lobisomem de quem todo mundo tinha medo. Procurou um misterioso negro velho que receitou: “Ioiô, somente fica bom comendo “figo” (corruptela de Fígado) de menino corado e gordo”. O curandeiro pegava os meninos, enfiava num saco pendurado nas costas e servia ao “paciente”.

O homem ficou bom. A história ainda me dá arrepios. Dizem que no Palácio da Alvorada mora um lobisomem. Não acredita nos avanços da ciência. Nem precisa. O Papa-Figo é um consultor eclético que define as políticas do governo.Nenhuma descrição de foto disponível.

 

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