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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

O CORRESPONDENTE

23
Fev24

Mídia vira-latas vive de mentiras no Brasil

Talis Andrade

Gaza Israel.jpg

 

Entenda por que o presidente Lula venceu o embate com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu

 

Por Tiago Barbosa, no X

A mídia inventou que Lula estava isolado – errou: a chefe da diplomacia da UE e o secretário dos EUA destacaram papel do Brasil.

A mídia apostou nas críticas à fala sobre Gaza – errou: nenhum chefe de estado relevante repreendeu o presidente.

A mídia aventou a imposição de sanções contra o Brasil – errou: nenhum país sugeriu esse absurdo.

A mídia repudiou a hipótese de analogia com nazismo – errou: estudiosa de genocídios deu razão a Lula.

A mídia delirou para atribuir a Lula antissemitismo – errou: intelectuais e jornalistas judeus derrubam essa tese.

A mídia apontou banalização do holocausto por Lula – errou: quem usou em chacota foi o chanceler israelense.

A mídia temeu represália dos EUA por fala de Lula – errou: Biden manifestou solidariedade (tímida) aos palestinos.

Na fantasia criada pela mídia vira-lata e iludida, a única verdade é viver de mentiras.

O ex-chanceler e assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, Celso Amorim, classificou como “absurda” a decisão de Israel que considerou o presidente Lula como “persona non grata” devido a fala em que ele comparou Netanyahu a Hitler, pelos ataques israelenses contra os palestinos em Gaza. À jornalista Andreia Sadi, do G1, Celso Amorim afirmou: “Isso é coisa absurda. Só aumenta o isolamento de Israel. Lula é procurado no mundo inteiro e no momento quem é persona non grata é Israel”. Confira.

Após conversar por duas horas com o presidente Lula (PT), o secretário de Estado dos EUA, Anthony Blinken, disse que as relações com o Brasil estão "mais fortes que nunca".

O alto representante da União Europeia para Política Externa, Josep Borrell, disse nesta quinta-feira (22) que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não comparou a guerra de Israel na Faixa de Gaza com o Holocausto. E sim os crimes de guerra de Netanyahu e Hitler. As declarações foram dadas em entrevista a um restrito grupo de veículos de imprensa internacionais, incluindo a ANSA, à margem da reunião de ministros das Relações Exteriores do G20 no Rio de Janeiro.

Reunidos no Rio de Janeiro, ministros do exterior do G20 defenderam a criação do Estado Palestino como forma de acabar com o conflito na Faixa de Gaza. O chanceler Mauro Vieira, anfitrião do encontro, voltou a defender a ampliação do Conselho de Segurança das Nações Unidas

22
Fev24

Gaza: Parar a "carnificina" e restaurar a força do direito internacional

Talis Andrade
2202 opiniao -  (crédito: Caio Gomez)

O governo do Brasil afirmou, em manifestação na Corte Internacional de Justiça, em Haia, na Holanda, nesta terça-feira (20), que a comunidade internacional não pode normalizar a ocupação de territórios na Palestina por Israel

 
por José Geraldo de Souza Júnior - Correio Braziliense
 
O governo do Brasil afirmou, em manifestação na Corte Internacional de Justiça, em Haia, na Holanda, nesta terça-feira (20), que a comunidade internacional não pode normalizar a ocupação de territórios na Palestina por Israel. No espaço das audiências públicas para ouvir a posição dos países-membros das Nações Unidas sobre os 56 anos de ocupação de Israel em territórios palestinos, que a CIJ realiza, a avaliação do Brasil busca interromper o curso de uma resposta unilateral de Israel que, descolada da via jurídica do direito internacional, acaba levando a uma ação não de força, mas de pura violência, "desproporcional e indiscriminada", que não expressa uma disposição de justiça e se cobre de finalidade geopolítica, neocolonial.
 

A intensidade da ação militar na região havia levado o presidente Lula a classificá-la como "genocídio", na esteira das preocupações lançadas pela CIJ, a ponto de comparar a ofensiva como equivalente àquela infringida aos judeus na Alemanha nazista. (https://www.cartacapital.com.br/mundo/mundo-nao-pode-normalizar-a-ocupacao-de-territorios-palestinos-por-israel-defende-o-brasil-em-haia/).

A manifestação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, feita durante a 37ª Cúpula da União Africana, não foi um arroubo. Só a vê assim, aqueles que, por posicionamento ou tática política de mobilização de interesses e de alianças, estão de acordo com a prepotência da intervenção de força para concretizar hegemonias de qualquer matiz, estratégica, econômica ou ideológica. No local ou no global, acaba difundido uma narrativa que esconde a intencionalidade de suas razões, deslocando a objeção que deveria se dirigir ao argumento, para desqualificar o oponente.

Note-se que a manifestação não é a de uma voz isolada. O Vaticano pela palavra do cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado, também falou de uma resposta "desproporcional" em comparação com o ataque do Hamas. É preciso "parar a carnificina". O direito à defesa, o direito de Israel de garantir a justiça para os responsáveis pelo massacre de outubro, não pode justificar essa carnificina". (https://www.ihu.unisinos.br/636611-por-tras-das-frases-do-cardeal-parolin-tem-o-consentimento-de-francisco).

A posição do presidente Lula, desde o início do conflito, mantém-se coerente e firme, na chamada à mediação pelo direito internacional, como pela possibilidade mediadora de um conjunto de países, com assento na Assembleia-Geral, mas que não têm seus interesses estratégicos envolvidos na região e no conflito, ou em sua ideologia.

Em minha participação, juntamente com Cristovam Buarque — os dois únicos sul-americanos convidados e presentes no Colóquio Internacional de Argel - Encontro de Personalidades Independentes sobre o tema "Crise du Golfe: la Derive du Droit", instalado exatamente em 28 de fevereiro de 1991, dia do cessar-fogo na chamada Primeira Guerra do Golfo, o que procuramos foi indicar, a partir da premissa de convocação do Colóquio, que a crise coloca o direito à deriva, tendo perdido o seu rumo no trânsito ideológico entre a "historicidade constitutiva dos princípios que consignam a sua força e força mesma, representada como Direito porque formalizada como norma de Direito Internacional".

Já então, uma inquietação com o emprego hegemônico de razões de fato, para que, em qualquer caso, principalmente quando há nítida disparidade entre forças, inclusive militares, que se deixem arrastar por um pretenso "direito de violência ilimitada", cuja resultante "sugere a cessação da beligerância pelo aniquilamento inexorável de toda forma de vida". Minhas razões completas estão no texto A Crise do Golfo: a Deriva do Direito, in Sousa Júnior, José Geraldo de. Sociologia Jurídica: Condições Sociais e Possibilidades Teóricas. Porto Alegre: Sergio Fabris Editor, 2002, p. 133-144).

O que urge é "restaurar a humanidade incondicional em Gaza". Essa é afirmação de um médico sem fronteiras (https://www.msf.org/unconditional-humanity-needs-be-restored-gaza). O que assistimos aqui, diz ele, em matéria que me enviou o querido amigo Alessandro Candeas, o incansável e presente diplomata brasileiro, embaixador do Brasil na Palestina: é um "bombardeamento indiscriminado [que] tem de acabar. O nível flagrante de punição coletiva que está atualmente a ser aplicado ao povo de Gaza tem de acabar". É preciso "parar a carnificina". Resgatar o humano que se perde nesse drama. E restaurar a mediação dos verdadeiramente fortes, que confiam e aplicam a força cogente (Hannah Arendt) do direito internacional e dos direitos humanos.

21
Fev24

Netanyahu é alvo de criticas e chacotas em Israel após dizer que Holocausto foi ideia palestina

Talis Andrade
Protesto contra Netanyahu

 

por BBC News

O premiê israelense Binyamin Netanyahu recebeu uma onda de críticas dentro do próprio país após dizer que Hitler inicialmente não queria exterminar os judeus, mas foi convencido por um líder religioso palestino.

Em discurso durante o 37º Congresso Sionista Mundial, em Jerusalém (em 2015), Netanyahu afirmou que a ideia de Hitler era apenas expulsar os judeus da Europa, e que o ditador alemão teria mudado os planos após orientação de Haj Amin al-Husseini, grão-mufti de Jerusalém entre 1921 e 1937.

"Haj Amin al-Husseini foi até Hitler (em 1941) e disse: 'Se você expulsá-los, eles virão todos para cá.'", disse o premiê. "'Então o que devo fazer com eles?', ele (Hitler) perguntou. Ele (Husseini) disse: 'Queime-os'", completou Netanyahu.

A descrição do Holocausto como sugestão palestina gerou reações imediatas, dentro e fora de Israel.

A chefe do memorial de Israel para as vítimas do Holocausto, Dina Porat, disse que Netanyahu cometeu erros factuais.

"Você não pode dizer que foi o mufti quem deu a ideia a Hitler para matar ou queimar judeus", afirmou a historiadora ao jornal Yedioth Ahronoth. Ao jornal Jerusalem Post, a professora sugeriu que o líder israelense se retrate das declarações.

O líder de oposição israelense Isaac Herzog escreveu em sua página no Facebook que a versão do premiê "minimiza o Holocausto, o nazismo e o papel de Hitler no terrível desastre de nosso povo".

O jornal Haaretz registrou como Netanyahu foi ridicularizado em vídeos e imagens que se espalharam pela internet - a publicação diz que a repercussão foi tamanha que "quebrou a rede". [Transcrevi trechos. Leia mais.]

 

Judeus ortodoxos dizem que Netanyahu é nazista e que o mundo deve parar seu genocídio

 

247 – O grupo de judeus ortodoxos Torah Judaism fez uma de suas mais duras postagens contra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que já assassinou mais de 27 mil palestinos durante o genocídio que vem promovendo contra o povo palestino em Gaza.

"Netanyahu é um líder nazista sionista assassino e genocida. Os sionistas são os nazistas de hoje. Israel não é o estado dos judeus. O mundo inteiro deveria conhecer bem estes sionistas genocidas e mentirosos", postou o coletivo."O mundo deve agora intervir a nível nacional contra Israel, caso contrário o genocídio continuará. Os israelenses sofrem uma lavagem cerebral e vivem em mentiras, longe da verdade", acrescentou. [ Confira aqui]

 

 

20
Fev24

Em carta, Einstein denunciou o fascismo sionista em Israel em 1948

Talis Andrade

 

Albert Einstein durante aula em Viena, 1921. Foto: Ferdinand Schmutzer. Restaurada por Adam Cuerden.

 

Cientista ressaltou as práticas semelhantes entre o Partido da Liberdade israelense e o nazismo. Lula e jornalistas denunciam o genocídio em Gaza

30
Dez23

Inquérito contra Breno Altman por críticas ao sionismo é assédio ao jornalista

Talis Andrade

Breno Altman

 

por Patricia Faermann

 

O inquérito contra o jornalista Breno Altman, aberto pela Polícia Federal (PF), acusando-o de antissemitismo por suas críticas ao regime sionista e ao genocídio do povo palestino, é um assédio contra o jornalista, segundo a Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

“Para a ABI essa investigação soa como evidente assédio a um jornalista crítico. Uma tentativa de calá-lo com ameaça de um processo criminal, o que é inconcebível no estado democrático de direito, que todos nós jornalistas sempre nos empenhamos em defender, notadamente nos últimos anos”, escreveu a instituição, em nota.

“Confundir as posições antissionistas de Altman – cidadão judeu – com crime de antissemitismo é fazer o jogo dos que defendem o genocídio que o governo de Israel comete na Palestina, ao provocar milhares de assassinatos, inclusive de inocentes crianças”, continuou.

A ABI pediu o arquivamento do inquérito ao Ministério Público Federal e à Justiça Federal.

Leia a nota na íntegra:

INQUÉRITO CONTRA BRENO ALTMAN É INTIMIDAÇÃO!

Pelas informações veiculadas na manhã deste sábado no site Brasil 247, o inquérito é resultado de reclamação descabida da Confederação Israelita do Brasil, que de forma enviesada e conveniente rotula as críticas de Altman ao sionismo como antissemitismo.

A ABI lembra que a Constituição de 1988 garante a todo e qualquer cidadão a liberdade de expressão. Da mesma forma, respaldado nesse princípio constitucional, o Supremo Tribunal Federal tem garantido por inúmeras decisões a liberdade de imprensa, assegurando a todos os jornalistas o direito à crítica. 

Confundir as posições antissionistas de Altman – cidadão judeu – com crime de antissemitismo é fazer o jogo dos que defendem o genocídio que o governo de Israel comete na Palestina, ao provocar milhares de assassinatos, inclusive de inocentes crianças. 

Para a ABI essa investigação soa como evidente assédio a um jornalista crítico. Uma tentativa de calá-lo com ameaça de um processo criminal, o que é inconcebível no estado democrático de direito, que todos nós jornalistas sempre nos empenhamos em defender, notadamente nos últimos anos.

Nesse sentido, entende que o próprio MPF ou a Justiça Federal, respeitando o estado democrático de direito e a Constituição Cidadã, devem providenciar o trancamento desse inquérito.

Certos de que a democracia que saiu vitoriosa no 8 de janeiro de 2023 prevalecerá e será respeitada, a ABI aguarda providências dos responsáveis por tal situação para dar um fim à campanha intimidatória que Altman vem sofrendo.

Aproveitamos o ensejo para desejar a todos um próspero 2024, no qual a democracia, a liberdade de expressão e de imprensa prevaleçam.

Rio de Janeiro, 30 de dezembro de 2023  

17
Nov23

Apagar a Palestina

Talis Andrade
Ao final, Gaza, como o Gueto de Varsóvia, será inabitável. Mas “exterminar todos os bárbaros” vai além de Hitler e de Netanyahu. Sua origem está nas guerras coloniais que o Ocidente faz há cinco séculos, em nome de sua “civilização”

 

Por Chris Hedges para Mint Press News | Tradução: Maurício Ayer | Imagem: Hannibal Hanschke/EPA

Eu era repórter do New York Times, durante o cerco a Sarajevo. Nunca enfrentamos o nível de bombardeamento de saturação e o bloqueio quase total de alimentos, água, combustível e medicamentos que Israel impôs a Gaza. Nunca tivemos de suportar centenas de mortos e feridos por dia. Nunca enfrentamos a cumplicidade da comunidade internacional com a campanha sérvia de genocídio. Nunca suportamos a intervenção de Washington para bloquear resoluções de cessar-fogo. Nunca enfrentamos carregamentos maciços de armas dos EUA e de outros países ocidentais para sustentar o cerco. Nunca enfrentamos que notícias provenientes de Sarajevo fossem sistematicamente desacreditadas e rejeitadas pela comunidade internacional, embora 25 jornalistas tenham sido mortos na guerra pelas forças sérvias sitiantes. Nunca toleramos que os governos ocidentais justificassem o cerco como o direito dos sérvios de se defenderem, embora as forças de manutenção da paz da ONU enviadas para a Bósnia tenham sido em grande parte um gesto de relações públicas, ineficazes para travar a matança até serem forçadas a responder aos massacres que tiraram a vida de 8 mil homens e meninos bósnios em Srebrenica.

Não pretendo minimizar o horror do cerco de Sarajevo, que me dá pesadelos quase três décadas depois. Mas o que sofremos – trezentos a quatrocentos bombardeamentos por dia, quatro a cinco mortos por dia e duas dúzias de feridos por dia – é uma pequena fração da morte e destruição em massa em Gaza. O cerco israelense a Gaza assemelha-se mais ao ataque da Wehrmacht [as forças armadas alemães durante o cerco nazista] a Stalingrado, em que mais de 90% dos edifícios da cidade foram destruídos, do que a Sarajevo.

Na sexta-feira, a Faixa de Gaza teve toda a sua comunicação cortada. Ficaram sem internet. Sem serviço telefônico. Sem eletricidade. O objetivo de Israel é perpetrar o assassinato de dezenas, provavelmente centenas de milhares de palestinos e fazer a limpeza étnica daqueles que sobreviverem em campos de refugiados no Egito. Trata-se de uma tentativa de Israel de apagar não apenas o povo, mas a ideia da Palestina. É um cópia das campanhas maciças de massacre racializado levadas a cabo por outros projetos de colonização que acreditavam que a violência indiscriminada e generalizada poderia fazer desaparecer as aspirações de um povo oprimido, cujas terras roubaram. E tal como outros autores de genocídio, Israel pretende mantê-lo escondido.

A campanha de bombardeamento de Israel matou mais de 7.300 palestinos, quase metade dos quais crianças, juntamente com 26 jornalistas, profissionais de saúde, professores e funcionários das Nações Unidas. Cerca de 1,4 milhão de palestinos em Gaza foram deslocados, e cerca de 600 mil estão desabrigados. Mesquitas, 120 instalações de saúde, ambulâncias, escolas, blocos de apartamentos, supermercados, estações de tratamento de água e esgoto e centrais elétricas foram reduzidos a escombros. Hospitais e clínicas, sem combustível, medicamentos e eletricidade, foram bombardeadas ou estão fechadas. A água limpa está acabando. Gaza, no final da campanha de terra arrasada de Israel, será inabitável, uma tática que os nazistas empregavam regularmente quando enfrentavam a resistência armada, incluindo no Gueto de Varsóvia e, mais tarde, na própria Varsóvia. Quando Israel terminar, Gaza, ou pelo menos Gaza como a conhecíamos, não existirá.

Não só as táticas são as mesmas, também a retórica é igual. Os palestinos são chamados de animais, bestas e nazistas. Eles não têm o direito de existir. Seus filhos não têm o direito de existir. Eles devem ser extirpados da terra.

O extermínio daqueles cujas terras roubamos, cujos recursos saqueamos e cujo trabalho exploramos está codificado no nosso DNA. Pergunte aos nativos americanos. Pergunte aos indígenas. Pergunte aos congoleses. Pergunte aos Kikuyu no Quênia. Pergunte aos Herero na Namíbia que, tal como os Palestinos em Gaza, foram baleados e levados para campos de concentração no deserto, onde morreram de fome e doenças. Oitenta mil deles. Pergunte aos iraquianos. Pergunte aos afegãos. Pergunte aos sírios. Pergunte aos curdos. Pergunte aos líbios. Pergunte aos povos indígenas em todo o mundo. Eles sabem quem somos.

A face distorcida da invasão colonial de Israel pertence a nós. Nós fingimos ser outra coisa. Atribuímos a nós próprios virtudes e qualidades civilizatórias que são, como em Israel, justificativas frágeis para privar um povo ocupado e sitiado dos seus direitos, confiscando as suas terras e recorrendo à prisão prolongada, à tortura, à humilhação, à pobreza forçada e ao assassinato para mantê-los subjugados.

O nosso passado, incluindo o nosso passado recente no Oriente Médio, baseia-se na ideia de subjugar ou exterminar as raças “inferiores” da terra. Damos a essas raças “inferiores” nomes que personificam o mal. Estado Islâmico. Al Qaeda. Hezbolá. Hamas. Usamos insultos racistas para desumanizá-los. “Haji” “Sand Nigger” “Camel Jockey”, “Ali Baba”, “Dung Shoveler”. E então, porque eles personificam o mal, porque eles são menos que humanos, sentimos ter uma licença para – como disse Nissim Vaturi, membro do parlamento israelense pelo Likud, partido do governo – apagar “a Faixa de Gaza da face da terra”.

Naftali Bennett, ex-primeiro-ministro de Israel, em entrevista à Sky Newsem 12 de outubro, disse, “Estamos lutando contra os nazistas” – em outras palavras, contra o mal absoluto.

Para não ficar atrás, primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, numa coletiva de imprensa com o chanceler alemão Olaf Scholz, descreveu o Hamas como “os novos nazistas”.

Pense sobre isso. Um povo, preso no maior campo de concentração do mundo durante 16 anos, a quem foi negada comida, água, combustível e medicamentos. Sem exército, força aérea, marinha, unidades mecanizadas, artilharia, comando e controle e baterias de mísseis, que está sendo massacrado e submetido à fome por uma das forças militares mais avançadas do planeta – e eles são os nazistas?

Há uma analogia histórica aqui. Mas não é algo que Bennett, Netanyahu ou qualquer outro líder israelita queira reconhecer.

Quando aqueles que estão ocupados se recusam a se submeter, quando continuam a resistir, abandonamos toda a pretensão da nossa missão “civilizadora” e desencadeamos, como em Gaza, uma orgia de massacre e destruição. Ficamos bêbados de violência. Essa violência nos deixa loucos. Matamos com ferocidade sem limites. Tornamo-nos as feras que acusamos os oprimidos de serem. Expomos a mentira da nossa alardeada superioridade moral. Expomos a verdade fundamental sobre a civilização ocidental: somos os assassinos mais implacáveis ​​e eficientes do planeta. Só por isso dominamos os “miseráveis ​​da terra”. Não tem nada a ver com democracia ou liberdade. Estes são direitos que nunca pretendemos conceder aos oprimidos.

“Honra, justiça, compaixão e liberdade são ideias que não têm adeptos”, lembra-nos Joseph Conrad, autor de No coração das trevas. “Só existem pessoas, sem conhecimento, compreensão ou sentimentos, que se intoxicam com palavras, repetem palavras, gritam-nas, imaginando que acreditam nelas sem acreditar em mais nada senão no lucro, na vantagem pessoal e na própria satisfação.”

O genocídio está no cerne do imperialismo ocidental. Não é exclusivo de Israel. Não é exclusivo dos nazistas. É o alicerce da dominação ocidental. Os partidários do “intervencionismo humanitário” que insistem que devemos bombardear e ocupar outras nações porque somos a encarnação da bondade – embora promovam a intervenção militar apenas quando esta é percebida como sendo do nosso interesse nacional – são idiotas úteis da máquina de guerra e do imperialismo global. Eles vivem em um conto de fadas de Alice no País das Maravilhas, onde os rios de sangue que geramos tornam o mundo um lugar melhor e mais feliz. Eles são os rostos sorridentes do genocídio. Você pode assisti-los em suas telas. Você pode ouvi-los proclamar sua pseudomoralidade na Casa Branca e no Congresso. Eles estão sempre errados. E eles nunca vão embora.

Talvez sejamos enganados pelas nossas próprias mentiras, mas a maior parte do mundo nos vê – a nós e a Israel – com clareza. Eles entendem nossas tendências genocidas, classificam a hipocrisia e a justiça própria. Eles veem que os palestinos – em grande parte sem amigos, sem poder, forçados a viver em campos de refugiados miseráveis ​​ou na diáspora, privados da sua pátria e eternamente perseguidos – sofrem o tipo de destino outrora reservado aos judeus. Esta, talvez, seja a ironia trágica final. Aqueles que anteriormente necessitaram de proteção contra o genocídio, agora, cometem-no.

14
Nov23

A “guerra” é o colonialismo continuado por outros meios

Talis Andrade
 

 

Não estamos falando do direito à defesa. Mas de uma política sistemática de extermínio, uma limpeza étnica justificada com uma mentira e a conivência silenciosa das democracias liberais

12
Nov23

Carta a uma amiga sionista

Talis Andrade

por Marcia Tiburi

Percebi que suas redes sociais deram um salto em número de seguidores desde que você começou sua intensa campanha sionista.

Sempre ouvi seus argumentos sobre a existência de um Estado de Israel, com a escuta que se deve aos amigos.

A princípio não sou contra os Estados, desde que a religião fique de fora disso.

Percebendo sua angústia, incentivei que você conversasse sobre o tema com pessoas que entendiam mais do assunto do que eu, por ex., uma amiga jornalista que cobre a questão Palestina há 30 anos. Você apenas disse que “esse tipo de judeu é anti-judeu” e não quis o encontro.

Eu fiquei preocupada. Vi que você caminhava para o fanatismo.

Lembro de uma tarde em que você me visitou angustiada e que tivemos uma boa conversa na qual, com muito cuidado para não te magoar, tentei sugerir que você evitasse clichês tais como o “islamo-gauchiste”, ou “esquerdo-islamismo”, para se referir a mim.

Eu não me ofendi quando você me criticou como islamista identitária.

Passei a vida estudando pensadores judeus e convidei você para fazermos um grupo de estudos, esperando criar espaço para aprofundar questões, mas você alegou não ter tempo. Já não era possível conversar sobre temas da vida sem medo da sua reação. Ao mesmo tempo, via amigos em comum constrangidos perguntando o que havia acontecido com você.

Lembro que você demorou a decidir votar em Lula e não tenha visto as afinidades entre Bolsonaro e Netanyahu.

Então, há dias, você me mandou mensagens de voz dizendo que não havia lido nenhuma postagem minha sobre os ataques a Israel. Eu também não havia postado sobre os ataques à Palestina. Percebi que estava sendo vigiada e que você fazia parte da polícia linguística.

Eu te enviei meu texto sobre Gaza/Auschwitz. Você me definiu como uma “petista defensora do Hamas”, logo eu que acho o Hamas um bando de machistas amantes da guerra.

Você avisou que não falaríamos mais. Eu falei que você não tinha o direito de exigir de mim uma postura sionista. Você me bloqueou. Queria que você pudesse ver que o ataque do Hamas a Israel, a morte e o sequestro dos israelenses é tão horrível quando é tenebroso o genocídio que o Estado de Israel move contra o povo palestino.

12
Nov23

Os palestinos nos livros didáticos de Israel

Talis Andrade
Ilustração: Doaa Eladl
 
 
Por Jair de Souza

A esta altura, passados mais de 30 dias do início de um massacre sem paralelos na história, os mais de 2.300.000 palestinos habitantes da Faixa de Gaza estão submetidos a um cerco total, estando privados do acesso a água, alimentos e eletricidade. E, como bonificação especial, quase todos os seus edifícios residenciais, seus hospitais e suas escolas vêm sendo implacavelmente arrasadas por intensos bombardeios das forças militares de Israel.

No entanto, apesar das monstruosas cenas de horror que conseguem furar o bloqueio comunicacional das autoridades israelenses e chegam ao conhecimento público, boa parte da população israelense não demonstra estar muito sensibilizada diante deste imenso quadro de dor e sofrimento.

O que poderia explicar tamanha indiferença, tamanha falta de empatia com o drama sofrido por toda essa gente desamparada? A resposta, em boa medida, é dada pelo resultado de uma pesquisa conduzida por Nurit Peled-Elhanan, uma pesquisadora israelense da Universidade Hebraica de Jerusalém.

É interessante observar que a motivação inicial de seu trabalho se deu em função de um terrível golpe por ela sofrido quando perdeu a própria filha, vítima de um atentado suicida cometido por um palestino. Uma síntese de sua pesquisa está no vídeo deste link:https://youtu.be/GCcV7AtYgwo

Neste documentário, Nurit Peled-Elhanan fala de sua pesquisa relacionada com o conteúdo dos livros didáticos de Israel. Ela expõe em detalhes como estes livros são elaborados com o objetivo de desumanizar o povo palestino e fomentar nos jovens estudantes israelenses a base de preconceitos que lhes permitirá atuar de forma cruel e insensível com o mesmo durante o serviço militar.

Conforme explica Nurit Peled-Elhanan, as construções de mundo feitas a partir dos livros didáticos, por serem as primeiras a se sedimentarem na mente das crianças, são muito difíceis de serem erradicadas. Daí a importância que o establishment israelense dedica à ideologia a ser transmitida nos livros didáticos. Neles, os palestinos nunca são apresentados como seres humanos comuns. Nunca aparecem em condições que possam ser consideradas normais.

Segundo Nurit Peled-Elhanan, não há nesses livros nem sequer uma fotografia de um palestino que mostre seu rosto. Eles são sempre apresentados como constituindo uma ameaça para os judeus.

Foi por entender o grande valor desta mensagem que, já em 2012, me dispus a traduzir ao português o vídeo-documentário e produzir as respectivas legendas. Nosso objetivo era e é possibilitar que um maior número de pessoas venham a entender as técnicas de desumanização utilizadas para viabilizar a aprovação, a aceitação ou a indiferença em relação àqueles grupos humanos que são escolhidos como alvos para extermínio.

Considero um dever moral de todos os que se sentem vinculados à humanidade dedicar os esforços possíveis para impedir que este genocídio venha a se consumar. Neste momento, as palavras do saudoso reverendo evangélico Desmond Tutu se tornam mais válidas do que nunca: “Aquele que se mostra indiferente em uma situação em que a opressão é evidente está tomando o lado do opressor”.

Não pode restar nenhuma dúvida para ninguém sobre quem são os opressores e quem são as vítimas no atual conflito entre o Estado de Israel e o Povo Palestino.

Israel quer arrastar o Brasil para a guerra

 
 

Embaixador de Israel afronta Lula

 
 
11
Nov23

O silêncio dos indecentes

Talis Andrade
Imagem: IA

 

por Hildegard Angel, no Instagram e jornal GGM

Expressiva essa foto, não? Comovente, triste. Pois se trata de Inteligência Artificial. Até a IA se manifesta, mostra serviço nessa hora em que Gaza clama ao mundo por socorro. Já a Inteligência Natural brasileira está impávida, muda.

Onde estão as organizações médicas brasileiras, nossas entidades e associações humanitárias, que não protestam, que não se manifestam em cartas abertas nos jornais, que não dão entrevistas se posicionando contra esse genocidio, esse holocausto em tempo real nas redes sociais?

Onde estão as organizações e lideranças católicas? A Pastoral, a Cúria, a CNBB? O único padre que vimos se manifestar foi o caridoso Júlio Lancelotti. Será que dom Helder Câmara e dom Paulo Evaristo Arns vão precisar ressuscitar para a comunidade católica brasileira ouvir uma voz que pregue a mensagem do palestino Jesus Cristo?

As seitas neopentecostais milionárias badaladas na mídia parece que apoiam o massacre de crianças, mulheres grávidas e pessoas inocentes. São extremistas de direita, neofascistas, neonazistas. Os demais sacerdotes evangélicos nada falam, a não ser alguns poucos, como o pastor Henrique Vieira, que eu tenha visto.

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