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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

23
Ago20

A LUA DE LORCA

Talis Andrade

 

poets.org — Six drawings by Federico García Lorca (1898-1936)


Federico:
- Que tem teu divino
coração de festa

A menina:
- Tenho uma rosa
uma linda rosa
amarela

Federico:
- Ai menina
não se faça
tão bela

A menina:
- O sol
me fez assim
hoje é manhã
de primavera

Federico:
- Ai menina
a noite
uma longa noite
me espera

A menina:
- Triste sina tua
querer a lua
que no céu
sorri distante

Federico:
- Ai menina                                                                                                                                                muito mais triste
não saber
se de verdade
desejo a lua
como amante

 

- - -

Talis Andrade, Vinho Encantado, p. 31, Livro Rápido, 2004, Recife

Ilustração Federico García Lorca

12
Mai18

Oração para fechar o corpo

Talis Andrade

benze.jpg

benzedeira1.jpg

benzedeira .png 

dona_da_dores_benzedeira.jpg

 

Seja teu nome

Ghandi ou Guevara

o corpo permaneça

guardado fechado

a todos os inimigos

encarnados descarnados

 

O corpo permaneça

invisível à mira

na tocaia dos fuzis

à bala quente

explodindo o cérebro

de Kennedy

à pontaria no peito

que matou Luther King

o anjo negro da paz

 

Indivisível permaneça

à faca fria

que cortou a mão

de Victor Jara

à lâmina pesada

que rolou por terra

a cabeça

de Thomas Morus

 

O corpo permaneça

livre do destino

do poeta Lorca

que depois de morto

esconderam o corpo

preservado permaneça

do fogo das grelhas

que assaram Atahualpa

do fogo ateado

ao corpo de Joana

reduzido a cinzas e carvão

do fogo que queimou

o coração de Bruno

nos porões da santa

Santa Inquisição

 

Preservado permaneça

da mutilação

que dilacerou em quatro

o índio Tupac Amaru

da corda no pescoço

e do facão que separou

em pedaços

o cadáver de Tiradentes

a cabeça pregada num mastro

braços e pernas

espalhados pelos caminhos

dos inconfidentes

 

Fecha o corpo

com rezas

coisa feita

fecha o corpo

a sete chaves

a sete cadeados

e joga as chaves

na secreta

encantada cova

de Salomão

 

Fecha o corpo

em copas

toda cautela

é pouca

 

 

 

===

Talis Andrade, O Enforcado da Rainha, ps. 93/96

26
Jun17

LUNAS DE JULIETA VIÑAS ARJONA

Talis Andrade

Julieta.jpg

Quando se foi o sol

Julieta no balcão

se fez poesia

esperando o rouxinol

 

As mãos de Julieta deslizam

pelas cordas de uma harpa

os dedos dando voltas

pela lua de Lorca

 

Seus dedos vão dando voltas

na lua de inúmeras faces

Seus dedos vão dando voltas

na luna violácea

donde unos poetas

beben cazalla

y otros traman

nuevos despropósitos

 

Julieta no balcão

se fez música

amanhecia o dia

nem percebeu

a companhia

de uma cotovia  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  

 

 

---

Ilustração: Foto de Julieta Viñas Arjona

Texo: Talis Andrade

 

mulher balcão julieta por Anita Malfatti.jpg

ROMEU E JULIETA, WILLIAM SHAKESPEARE, ATO III, Cena V

JULIETA - Já vais partir?

O dia ainda está longe.

Não foi a cotovia,

mas apenas o rouxinol

que o fundo amedrontado do ouvido

te feriu.

Todas as noites

ele canta

nos galhos da romeira.

É o rouxinol, amor;

crê
no que eu digo.

 

ROMEU - É a cotovia,

o arauto da manhã;

não foi o rouxinol.

Olha, querida,

para aquelas estrias invejosas

que cortam pelas nuvens

do nascente.

As candeias da noite

se apagaram;

sobre a ponta dos pés
o alegre dia se põe,

no pico das montanhas úmidas.

 

JULIETA - Não é do dia aquela claridade,

podes acreditar-me.

É algum meteoro

que o sol exala,

para que te sirva de tocheiro

esta noite

e te ilumine no caminho.

Assim, espera.

Não precisas partir
assim tão cedo.

 

---

Ilustração: Mulher no balcão. Julieta,

tela de Anita Malfatti

 

 

 

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