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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

23
Fev24

Mídia vira-latas vive de mentiras no Brasil

Talis Andrade

Gaza Israel.jpg

 

Entenda por que o presidente Lula venceu o embate com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu

 

Por Tiago Barbosa, no X

A mídia inventou que Lula estava isolado – errou: a chefe da diplomacia da UE e o secretário dos EUA destacaram papel do Brasil.

A mídia apostou nas críticas à fala sobre Gaza – errou: nenhum chefe de estado relevante repreendeu o presidente.

A mídia aventou a imposição de sanções contra o Brasil – errou: nenhum país sugeriu esse absurdo.

A mídia repudiou a hipótese de analogia com nazismo – errou: estudiosa de genocídios deu razão a Lula.

A mídia delirou para atribuir a Lula antissemitismo – errou: intelectuais e jornalistas judeus derrubam essa tese.

A mídia apontou banalização do holocausto por Lula – errou: quem usou em chacota foi o chanceler israelense.

A mídia temeu represália dos EUA por fala de Lula – errou: Biden manifestou solidariedade (tímida) aos palestinos.

Na fantasia criada pela mídia vira-lata e iludida, a única verdade é viver de mentiras.

O ex-chanceler e assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, Celso Amorim, classificou como “absurda” a decisão de Israel que considerou o presidente Lula como “persona non grata” devido a fala em que ele comparou Netanyahu a Hitler, pelos ataques israelenses contra os palestinos em Gaza. À jornalista Andreia Sadi, do G1, Celso Amorim afirmou: “Isso é coisa absurda. Só aumenta o isolamento de Israel. Lula é procurado no mundo inteiro e no momento quem é persona non grata é Israel”. Confira.

Após conversar por duas horas com o presidente Lula (PT), o secretário de Estado dos EUA, Anthony Blinken, disse que as relações com o Brasil estão "mais fortes que nunca".

O alto representante da União Europeia para Política Externa, Josep Borrell, disse nesta quinta-feira (22) que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não comparou a guerra de Israel na Faixa de Gaza com o Holocausto. E sim os crimes de guerra de Netanyahu e Hitler. As declarações foram dadas em entrevista a um restrito grupo de veículos de imprensa internacionais, incluindo a ANSA, à margem da reunião de ministros das Relações Exteriores do G20 no Rio de Janeiro.

Reunidos no Rio de Janeiro, ministros do exterior do G20 defenderam a criação do Estado Palestino como forma de acabar com o conflito na Faixa de Gaza. O chanceler Mauro Vieira, anfitrião do encontro, voltou a defender a ampliação do Conselho de Segurança das Nações Unidas

14
Nov21

Memória de um capitão de milícias

Talis Andrade

atirar no pé.jpg

 

por Flávio Aguiar /A terra é redonda

De todas as gafes acumuladas do Usurpador do Palácio do Planalto na Europa – de sua solidão auto-satisfeita à menção à Torre de Pizza – nenhum me impressionou tanto quanto a do pisão no pé de Angela Merkel.

A frase dela – “só podia ser você” – foi um tapa que ele não ouviu; ou se ouviu, não escutou; se escutou, não avaliou. Porque, na sequência, veio a gafe maior.

Disse ele, de volta ao Brasil, que ficou impressionado com o bom humor de Merkel, e que gostaria de ter dançado com ela. Foi assim que ele interpretou o episódio do pisão no pé da projetada Dulcineia.

Jair Bolsonaro, o presidente do tiro no pé |
Na hora lembrei-me do romance de Manuel Antonio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias, publicado em 1852.

No romance, o protagonista, que alguns críticos consideram um pícaro, é filho de um meirinho, Leonardo Pataca, e de uma saloia, habitante dos arredores de Lisboa, Maria da Hortaliça, que vêm para o Rio de Janeiro, “no tempo do Rei”.

O namoro destes dois começou no navio em que vinham de Portugal para o Brasil, quando o Pataca deu um pisão no pé da Hortaliça. No romance, consta que o pisão foi intencional. Em Roma, teria sido fruto do acaso, pois o Usurpador caminhava de costas para a pisada. Melhor: Freud explica o ato falho que não falha. A Merkel transformou o episódio banal e desajeitado no que se diz em alemão ser um Schicksal, um destino: “só podia ser você”.

Desconfio que foi esta frase que despertou no Usurpador o instinto dançarino. Se de um lado, ela aponta o desajeito, de outro, ela abre a interpretação para o jeito do desajeitado. No romance, não deu outra: ao pisar o pé da Hortaliça, o Pataca deu início a uma cadeia de acontecimentos que, entre traições, desavenças, perseguições, infortúnios, alegrias e muito favor, levaria a um final feliz: o casamento de seu filho, o Leonardinho, o sargento de milícias, com a linda Luizinha.

O mesmo deve ter passado pela mente do infeliz-feliz Usurpador no encontro em Roma. Depois de tanto infortúnio, desconsolo, solidão, rejeição, desprezo sofrido, ele encontrou um pé de apoio, que lhe valeu meia hora de conversa e uma fantasia dançarina ulterior. Melhor, impossível. Ri melhor quem dança por último.

As palavras são um peso na vida das pessoas. Pois o fato é que o Usurpador dançou em Roma. Às custas dos impostos pagos pelo povo brasileiro, mas quem liga? Nada fez de útil por lá, exceto estar ausente do país, quando a gente respira, embora sinta a vergonha que ele é incapaz de sentir. Recebeu o título de cidadão honorário do neo-fascismo italiano. Honrou os pracinhas ausentes no cemitério de Pistóia, na companhia do líder dos neo-fascistas italianos. Honrou-os, cuspindo na sua memória, untando-os, embora ausentes, com seu nojo pela democracia. Comeu salame na rua, porque não pode entrar em restaurantes.

Diante de tudo isto, o que é um pisão no pé alheio? Uma esperança, ainda mais no pé da Grande Dama da União Europeia que ainda reconheceu, insisto: “só podia ser você”. Convenhamos: para um candidato a Romeu infeliz e deserdado da sorte, Julieta nenhuma faria melhor bem.

Eu daria um dedo – nem precisaria ser pisado – para saber o que a Merkel está pensando disso tudo. Além de, provavelmente, passar arnica no dedão do pé.

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01
Nov21

Com agenda "à margem" da cúpula, Bolsonaro fica isolado no G20

Talis Andrade

bolsonaro isolado g20 zé dassilva.jpeg

 

Presidente evita compromissos oficiais no domingo e deixa evento sem reunião bilateral com chefes de Estado. Ao acompanhar o chefe do Executivo em Roma, jornalistas são agredidos e hostilizados

 
por Fernanda Strickland /Correio Braziliense
 
O presidente Jair Bolsonaro encerrou ontem sua participação na Cúpula de Líderes do G20, o grupo das 20 maiores economias do mundo, na Itália, com uma agenda “à margem” da reunião. Ele não participou do passeio de autoridades — que incluiu uma visita à Fontana de Trevi —, mas se reuniu com o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus. Enquanto a passagem do chefe do Executivo por Roma chegava ao fim sem qualquer reunião bilateral com líderes globais na agenda, jornalistas brasileiros que acompanhavam o presidente na cidade relataram agressões por parte de sua equipe de segurança.
 

Como evitou compromissos oficiais, o presidente foi visto por diversas vezes passeando pela cidade italiana. Ele compartilhou nas redes sociais vídeos em que cumprimenta apoiadores em Roma. Aparece acenando pela janela e, logo em seguida, vai ao encontro do grupo, que gritava palavras de apoio ao presidente. “Agradeço imensamente a todos pela consideração”, escreveu o presidente na publicação.

Para Nauê Bernardo Pinheiro de Azevedo, cientista político e advogado, a ausência de Bolsonaro nos compromissos do evento, em suma, demonstra isolamento por parte do governo brasileiro, algo péssimo no atual contexto. “Nestes espaços, há oportunidades para conversas e estabelecimento de acordos, aproximações, criação de situações e oportunidades que podem ser benéficas a todos os países. Esse isolamento é muito ruim para o Brasil, cuja economia vem claudicante mesmo com o avanço da vacinação, fruto do descompasso político vivido no país. Estar afastado dos demais países, sobretudo daqueles que trazem consigo capacidade de consumo de produtos brasileiros, é bem ruim”, criticou.

As hostilidades a jornalistas aconteceram, conforme os relatos, antes e durante uma caminhada improvisada de Bolsonaro com apoiadores que se reuniram frente à Embaixada do Brasil. No local, o presidente acenou, da sacada, para os simpatizantes que carregavam cartazes de apoio ao governo. Depois, desceu para falar com o grupo. Durante a espera pelo presidente, uma jornalista da Folha de S.Paulo foi empurrada por seguranças e uma produtora da GloboNews foi hostilizada pelos manifestantes.

Ao indicar que faria uma caminhada pelo bairro, Bolsonaro foi seguido por equipes de reportagem. Neste momento, jornalistas passaram a ser empurrados pelos seguranças e houve agressões. Um profissional da TV Globo disse ter recebido um soco no estômago. Os veículos que presenciaram o momento foram impedidos de gravar. O celular de um jornalista do UOL foi jogado na via.

Repórteres do jornal O Globo e da BBC Brasil relataram agressões verbais. De acordo com o UOL, nenhum dos policiais disse se fazia parte da embaixada brasileira ou italiana ou se era de uma empresa privada. Segundo relatos de presentes, havia tanto italianos quanto brasileiros no grupo responsável pela proteção do presidente. Com a confusão, a caminhada durou pouco menos de 10 minutos e Bolsonaro voltou à embaixada. Os jornalistas estavam com credenciais e identificações no momento das agressões.

Repercussão

Em nota, a TV Globo condenou a agressão e cobrou “apuração completa de responsabilidades”. A Folha de S.Paulo e o UOL também repudiaram o episódio. “Mais um inaceitável ataque da Presidência à imprensa profissional”, registrou o jornal. A Associação Nacional de Jornais (ANJ) divulgou comunicado no qual “repudia com indignação as agressões”. “A violência é consequência da postura do próprio presidente, que estimula a intolerância diante da atividade jornalística. É inadmissível que o presidente e seus agentes de segurança se voltem contra o trabalho dos jornalistas.”Capa do jornal Folha de S.Paulo 01/11/2021

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) afirmou que, “ao não condenar atos violentos de seus seguranças e apoiadores, o presidente incentiva mais ataques do gênero, em uma escalada perigosa e que pode se revelar fatal”. O Palácio do Planalto não se manifestou.
Homenagem

Antes, em seu primeiro compromisso de domingo, Bolsonaro concedeu entrevista [mentirosa] a uma TV italiana, na qual criticou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e disse que o petista foi financiado pelo “narcotráfico da Venezuela”. Afirmou, ainda, que a Amazônia “não pega fogo”. O presidente embarcou para a capital italiana na última quinta-feira. Como não participará da 26ª Conferência das Nações Unidas para a Mudança do Clima, a COP 26, a previsão é de que o presidente vá hoje para a cidade Anguillara Veneta receber um título de cidadão local. O projeto para homenagear o presidente é de autoria da prefeita Alessandra Buoso, da Liga — partido de extrema-direita.

A decisão desagradou a políticos italianos, religiosos católicos e brasileiros que vivem na Itália. Na sexta, ativistas jogaram esterco e fizeram pichação na sede da prefeitura. O protesto foi organizado pelos ambientalistas do Rise Up 4 Climate Justice. (Com Agências)

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05
Mai20

"O cenário da política externa é um cenário de ruínas"

Talis Andrade
 

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III - "A 'lava jato' acabou, pertence mais ao domínio da história do que ao da realidade"

Por Tiago Angelo e Fernanda Valente

ConJur

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ConJur — Falando agora de política externa: é possível resumir a diplomacia brasileira, a partir da redemocratização, como a busca da autonomia por meio da participação. Com essa atuação, o país conquistou prestígio. Agora, a marca definidora da política externa é o alinhamento com os Estados Unidos. Quais os impactos disso?
Rubens Ricupero —
 É mais do que isso. Não é um alinhamento com os EUA, mas com o governo de Donald Trump, que, por sua vez, conduz uma campanha sistemática contra todas as instituições do sistema internacional criado no pós-guerra — o multilateralismo, um sistema que funciona na base de normas, de leis, não da força. Ao se alinhar com esse governo, o Brasil trabalha contra o seu próprio interesse, pois os EUA têm muito poder. Já o Brasil é um país com pouco poder, que pode se tornar vítima da força alheia. Nosso país não é uma potência econômica e militar. Mas tem poder brando, que é a diplomacia do convencimento, da persuasão, da negociação. Ao se alinhar com os EUA, abrimos mão disso e nos subordinamos a um país que, esse sim, tem poder e que pode utilizá-lo de maneira deflagradora, sem nenhum limite. 

O saldo líquido das decisões brasileiras é nos levar ao isolamento — em todos os sentidos do termo — e a uma perda extraordinária do poder brando que o país tinha acumulado. Hoje, sem nenhum exagero, o Brasil é o país cujo governante figura entre os mais menosprezados e mais detestados do mundo. O cenário da política externa é um cenário de ruínas.

 

ConJur — Outra consequência apontada é o esgarçamento da relação com a China. Essas relações podem se desgastar ainda mais?
Rubens Ricupero —
 Essa deterioração é, em grande parte, culpa daquele núcleo mais ideológico, mais fanatizado do governo brasileiro. Mas, para além disso, há uma competição estratégica entre EUA e China, em todos os sentidos — militar, econômico, político etc. Quando o Brasil se alinha a Trump, ele está comprando a agenda norte-americana, que vem com todas as inimizades que os Estados Unidos têm: contra a China, Rússia, Irã, Cuba, e assim por diante.

Portanto, sem nenhuma justificativa para isso, o Brasil está no momento em posição antagônica a todos esses países que constituem grandes mercados para as nossas exportações. É claro que de imediato a China não vai, por exemplo, deixar de comprar soja do Brasil, pois não há uma alternativa fácil para nos substituir como fornecedores de alguns produtos. Mas, no médio e longo prazo, as relações comerciais ser tornarão cada vez mais difíceis. O Brasil está jogando todas as suas esperanças em um país [EUA] do qual ele não pode esperar nada. Nem mercado, nem investimento. 

 

ConJur — Se não há justificativas, essa postura brasileira com relação à China ocorre por uma questão meramente ideológica?
Rubens Ricupero —
 Puramente ideológica. É o equívoco de uma maneira de ver o mundo. O Brasil vê o mundo com os olhos da guerra fria. É uma visão completamente fora do tempo histórico, anacrônica, porque o país se comporta hoje em relação à China como o governo militar do Castelo Branco em 1964 se comportava em relação à União Soviética. O Brasil vê a China como o centro do comunismo mundial, uma espécie de "origem do mal", quando nada disso corresponde à realidade internacional. 

 

ConJur — O senhor disse que os EUA — e agora o Brasil — se portam de modo contrário ao sistema criado no pós-guerra, indo no caminho do anti-multilateralismo. Agora o mundo passa por uma pandemia. O coronavírus matou o multilateralismo?
Rubens Ricupero —
 O que está acontecendo com a pandemia é que quase todas as reações têm sido majoritariamente de tipo nacional, infelizmente. Em um primeiro momento, é até compreensível que seja assim, porque diante de uma emergência cada nação reage da forma mais rápida que pode e isso quase sempre é mais fácil no plano nacional. Mas deveríamos rapidamente passar a uma fase de coordenação internacional, tanto para combater a doença quanto para combater as consequências econômicas dela. Há algum esboço para utilizar o Grupo dos Vinte [G20, formado pelos ministros de finanças e chefes dos bancos centrais das maiores economias do mundo] para sustentar a dívida dos países mais pobres durante um ano. Mas são reações fracas.

Mesmo na União Europeia, os países mais afetados pelo coronavírus, como a Itália e a Espanha, não receberam uma ajuda significativa da comunidade europeia. A Itália recebeu mais ajuda da China do que dos seus vizinhos no começo. Agora a União Europeia começa a reagir, mas o panorama é de sombras e luzes — mais de sombras. Existe algum grau de cooperação, mas é pequeno. E existe muitos, infelizmente muitos exemplos de egoísmo nacional, inclusive esses que afetaram o Brasil, de países que se atravessaram para comprar equipamentos que já tinham sido negociados. Então, sem dúvidas, o multilateralismo está em crise. Mas não desespero dele, porque acho que existem inúmeras perspectivas de que isso melhore. Por exemplo, ainda é incerto o que vai acontecer na eleição dos EUA. É possível que, devido a tudo isso, as eleições acabem enfraquecendo o atual presidente e ele não consiga se reeleger. Se ele não se reeleger, teremos condições de recuperar muito do que se perdeu em matéria de multilateralismo, porque 90% ou mais do que está acontecendo é praticamente resultado da ação do governo Trump. 

 

ConJur — Dentro desse cenário de pandemia, o senhor vislumbra a possibilidade de que surja uma nova ordem econômica e jurídica?
Rubens Ricupero —
 Sobre isso eu tenho dúvidas. Pandemias e epidemias, mesmo as muito mais graves que essa, em geral nunca mudaram o sistema econômico-político. Quando elas foram muito fortes, elas afetaram tendências que já existiam. Mas mesmo a peste negra, a peste bubônica, assim como as pestes que se seguiram, nunca afetaram o sistema político das monarquias da época. As tendências, as rivalidades que existiam, assim como os sistemas econômicos de troca, permaneceram iguais. Os sistemas econômicos, políticos e jurídicos obedecem à ação de forças profundas.

O que podem ocorrer são mudanças de curto prazo, que às vezes se seguem quando há acontecimentos suficientemente poderosos. Eu não ficaria surpreso, por exemplo se, passada essa crise, os países buscarem adquirir uma certa autonomia, uma certa autossuficiência em matéria de produtos farmacêuticos e médico-hospitalares. As nações podem buscar reduzir a dependência sobre esses produtos que existe com relação à China e outros países asiáticos. Isso pode acontecer, mas não vejo a possibilidade de uma reforma profunda na estrutura do capitalismo ou do sistema político que temos hoje. 

 

ConJur — Com o avanço do novo coronavírus, aliás, foram adotadas algumas medidas emergenciais. O Senado aprovou, por exemplo, o PL 1.179/20, que, entre outras coisas, flexibiliza dispositivos do Código Civil. O que acha de medidas como essa?
Rubens Ricupero —
 A ideia básica de tentar encontrar uma solução para o momento é correta. Há um abalo muito grande até no sistema normal de pagamentos. Muitas empresas e indivíduos não são capazes de cumprir suas obrigações. Em certos casos, as regras precisam ser suspensas, da mesma forma como está se fazendo com regras de contrato de trabalho, flexibilização que busca manter a existência do emprego. Portanto, acredito que essas iniciativas são necessárias. Não me refiro especificamente ao PL citado, mas à tentativa de dar uma resposta ao que está acontecendo. Os contratos são vigentes enquanto mantidas as condições em que eles foram celebrados. Quando as condições se alteram de modo muito radical, muitas vezes não há a possibilidade de manter os termos tal como foram acordados. 

 

ConJur — Nos últimos anos, uma série de conflitos entre Legislativo e Executivo acabaram sendo resolvidos pelo Judiciário. O que pensa a respeito dessa judicialização?
Rubens Ricupero —
 Eu tenho a impressão de que esse fenômeno coincide com o agravamento da crise institucional. Vivemos uma crise prolongada, que começa no primeiro governo da Dilma Rousseff e que se prolonga até hoje. O impeachment não resolveu a crise e em cada governo surgem problemas novos. No fundo, o quadro é de mau funcionamento das instituições. O sistema presidencialista tem uma rigidez que não permite a solução de problemas quando há impasse entre Executivo e Legislativo — e a tendência é a de que esses poderes entrem cada vez mais em conflito.

Um exemplo que vem logo à mente é a incapacidade que o Legislativo tem de resolver problemas com conteúdos ligados à questões de tipo moral: moral familiar, moral sexual, aborto, casamento entre homossexuais etc. O Legislativo fica paralisado diante dessas questões porque há uma representação grande de grupos religiosos. Então, embora sejam claramente do âmbito do Legislativo, esses temas acabam indo ao Judiciário. Quase todas as grandes decisões envolvendo temas como esses — o aborto no caso de fetos anencéfalos, casamento homoafetivo — foram talhadas pelo Judiciário. Creio que isso continuará acontecendo, porque a solução definitiva é fazer uma reforma profunda do sistema político, o que não parece estar no horizonte. Assim, as pautas continuarão indo ao Judiciário. 

 

ConJur — Em casos como esses, em que o Legislativo deixa um vácuo ao não tratar de certas questões, é justificável a atuação do Judiciário?
Rubens Ricupero —
 Existe a necessidade colocada pelo próprio sistema político. Não se pode conviver com o vácuo de poder. Há decisões que precisam ser tomadas. Se não forem pelas instâncias que normalmente deveriam resolver o problema, acabam indo aos tribunais. Nesse sentido, a necessidade justifica as decisões judiciais. Não é o ideal, mas não vejo outra saída.

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28
Jun19

Estadão: "Acabou o arsenal" contra Moro. Greenwald: "Hoje foi o pior dia para eles dizerem isso”

Talis Andrade

 

osaka beiradas.jpg

"Comido pelas beiradas", por Genildo Ronchi

Pelas beiradas…e o “suspense” de Greenwald

Pode não ter sido espetacular, como certamente ainda irá acontecer em novas revelações, mas os nomes que o The Intercept Brasil forneceu à Veja nos arquivos dos diálogos entre Sérgio Moro e Deltan Dallagnol consistem, até agora, na maior comprovação de que as conversas eram não só verdadeiras como levaram o Ministério Público a realizar as investigações determinadas pelo então juiz da 13ª Vara Criminal de Curitiba.

O técnico de contabilidade  Nilton Aparecido Alves e o empresário  Mário César Neves existem e foram procurados pela Força Tarefa  da Lava Jato, o que prova que a conversa entre Moro e Dallagnol não foi “enxertada” e que produziu os resultados concretos combinados entre os dois.

Não sei os termos do acordo entre o The Intercept e a Veja, mas este primeiro produto foi o atestado material de que as conversas já reveladas são verdadeiras e produziram resultados práticos, concretos. Um checagem que, por óbvia limitação de meios, o site talvez não pudesse fazer.

O principal, porém, ao que parece, ficou guardado para novas reportagens, hoje, na publicação de Glenn Grenhald no Twitter.

suspense o pior já passou? .jpg

 

Ironizando o recorte do Estadão que  se reproduz na imagem, ele diz que  se deve “esperar até o final do dia – hoje – e depois me dizer se o que o Estadão publicou aqui hoje é verdade ou não”, referindo-se ao suposto esvaziamento do “arsenal” contra Moro.

“Eu acho que a resposta será bem clara”, diz o jornalista, ” e hoje foi o pior dia para eles dizerem isso”.

 

bode-na-sala moro.jpg

 

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