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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

14
Mai21

É a narrativa, estúpidos?

Talis Andrade

por Fernando Brito

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Não é preciso puxar muito pela memória e ver como a tropa de choque bolsonarista na CPI e o próprio presidente da República usam, agora, a palavra “narrativa” para minimizar ou desqualificar os fatos escandalosos que surgem agora aos borbotões, revelando os absurdos e safadezas que habitam o círculo próximo a Jair Bolsonaro: filhos, entourage militar, fundamentalistas religiosos e adeptos da picaretagem pseudofilosófica.

Mas, se o leitor fizer um pequeno exercício de memória verá que, a rigor, imundícies e estupidez nunca faltaram neste governo e, de alguma forma, tiveram divulgação pela mídia. Isto é, não ficaram escondidos como, por exemplo, os abusos e violações da Lava Jato, os quais a mídia esmerou-se em exilar do noticiário, até que os diálogos da Vaza Jato começaram a revelá-los cruamente. Não foi assim com Bolsonaro e, desde as rachadinhas, passando pelas ameaças antidemocráticas e as fogueiras amazônicas, tudo era exposto, sem lhe provocar grandes danos de popularidade.

As notícias negativas, simplesmente, “não colavam” ou, ao menos, não com a gravidade que tinham. Bolsonaro tinha o tal “efeito teflon”.

Mas, desde o final do ano (e do auxílio-emergencial) o fio aparentemente virou.

Virou por dos “B”: o bolso e o braço, à espera de vacina.

A soma da perda de renda e da elevação dos preços, notadamente o dos alimentos, começou o boca a boca. Eu próprio, saindo muito pouco de casa, nas raras idas ao supermercado, ouvi as reclamações espontâneas que ligavam Bolsonaro à alta de preços. Semanas atrás, um homem me disse, do nada, diante da prateleira onde se vendia óleo de soja (e a mais de R$ 7) saiu-se com o “precisamos tirar este cara de lá rápido”. O homem do ferro velho, semana passada, me apontou o depósito vazio e comparou: “na época do Lula isso aqui estava cheio”.

Cheias estão, agora, as calçadas e hoje, na Globonews assisti a insólita informação de que, com a queda do movimento, os restaurantes têm menos restos de comida a serem revirados pelos moradores de rua. É inevitável que se considere este “Datafolha da sarjeta” para interpretar as mudanças políticas.

O braço também ficou vazio. Ao contrário do que cria Bolsonaro, que a vacina seria rejeitada e a cloroquina santificada, a discussão sobre imunização – recordem-se dele e Pazuello duvidando de que “haveria demanda”? – passou a ser uma realidade prática, o que tornou concreta a realidade de falta de doses para a população. Ao mesmo tempo, o país entrava numa escalada de mortes pela doença que, embora agora ligeiramente atenuada, está, teme-se, em vias de ser retomada, pelo aumento de casos de infecção, ainda que sem os testes que, como anuncia a Folha, serão incinerados por perda de validade.

Não é “terceira via” ou a “escolha difícil” reeditada agora pelo Estadão em opor o atraso ao retrocesso’ o que está na cabeça da população.

É a sobrevivência, alimentar e sanitária, que ocupa e preocupa o pensamento coletivo.

Não é por acaso que Lula, que sabe entrar sem ficar dentro da “bolha” da política, escolhe o auxílio emergencial e a vacina como núcleos de suas raras falas públicas, com o que busca evitar uma superexposição e dar combustível para que se acene com a mesma tônica antipetista que se levantou em 2018.

A “narrativa” da qual tanto reclamam os bolsonaristas não seria nada sem a realidade dos fatos e sem que se despertasse a sensibilidade das pessoas para eles.

E isto é a política, não a mera construção de uma narrativa ideológica ou de conchavos e articulações partidárias. Vem-me sempre à mente a frase que ouvi de Brizola sobre ideologia: é como um radar, que ajuda a gente a não se perder nos nevoeiros, mas quando o tempo limpa podemos por o olhar a nos guiar e sabermos se estamos no rumo certo.

Quando não se perde a ligação com a população, nem que seja ficando 580 dias encarcerado, não se perde o rumo, mesmo que possa se voltar em todas as direções.

05
Dez20

MORO Mentiras, farsas e trapaças - 7

Talis Andrade

moromente.jpg

 

Carta da ABJD explica por que Moro mente

 

CARTA PÚBLICA DA CAMPANHA #MOROMENTE feita pela ABJD (Associação Brasileira de Juristas pela Democracia)

O Brasil vive uma crise institucional sem precedentes.

Um governo eleito no pleito mais controverso da história, com perfil explicitamente autoritário, neoconservador e fundamentalista religioso, impondo retrocessos vertiginosos a direitos e conquistas democráticas, atuando por meio de decretos e medidas provisórias como forma de consolidar um projeto antipopular e antinacional.

Um governo liderado por um Presidente que constrange o seu povo diariamente, das mais diversas formas, envergonhando a todos com preconceitos incontidos, palavras chulas e desconcertantes, violentando o acúmulo de civilidade conquistado com muita luta social.

Bolsonaro planeja destruir os espaços de participação social, projeta interferir na autonomia escolar e universitária, decide dilapidar o patrimônio ambiental e multicultural, aposta em arruinar as relações com outras nações. Mais que isso, orgulha-se em servir aos interesses de outra nação e projeta raiva, ódio e discórdia entre o povo brasileiro.
 

https://youtu.be/41HzptEKSI8

No centro deste deprimente retrato, está o sistema de justiça, setores do Poder Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal emparedados diante das evidencias espantosas que demonstram o cometimento de crimes contra a democracia e a soberania nacional.

O Brasil tornou-se famoso pela utilização do sistema de justiça com fins alheios ao devido processo legal. Algo que já era percebido e denunciado por juristas , mas que agora revela-se nas minúcias.

 

https://www.youtube.com/watch?v=pLI2DQicFkU

Documentos obtidos pelo jornalista Glenn Greenwald e sua equipe confirmam a desconfiança de todos nós, juristas, de que a força-tarefa anticorrupção serviu para maquiar a interferência política e a desestabilização democrática por intermédio de procedimentos judiciais supostamente legítimos, uma espécie de “lawfare à brasileira”. Sob o pretexto de combater a corrupção a qualquer preço, procuradores e juízes violaram leis processuais e garantias constitucionais, como a presunção de inocência.

Mas as revelações são muito mais graves. Os procuradores da Lava Jato, hipervalorizados pela mídia hegemônica, com o tempo conquistaram poderes e competências excepcionais para criar uma força-tarefa especial, atraindo para uma só repartição judicial,  na cidade de Curitiba, processos judiciais que não deveriam originalmente ser julgados ali. Desta forma esses processos, forçosamente conexos, foram submetidos a um mesmo juiz.

Foi assim que Sergio Moro se consagrou herói nacional, legitimando-se como saneador da corrupção sistêmica, centralizando todos os processos e desfrutando de popularidade jamais vista na magistratura.

O estilo do juiz de primeiro grau sempre foi singular, destoando da discrição recomendada pela lei da magistratura. A extravagância de comparecer a eventos sociais e premiações, além de sua forte presença nos meios de comunicação, produziu grande poder midiático e o constrangimento das demais instâncias do judiciário, em parte inebriadas pela comoção popular midiaticamente forjada, em parte convencida das mentiras comunicadas por aquele que, subterraneamente, atuava na chefia de um conluio entre colegas do Judiciário e membros do MP e da PF.

 

https://www.youtube.com/watch?v=VeFkpj4nnyo

Moro Mentiu. Moro Mente!

Esse alinhamento entre a instância judicial de Curitiba, a mídia empresarial e a opinião pública criou condições para que a lei penal fosse aplicada de forma cada vez mais arbitrária. Exemplo são as chamadas “conduções coercitivas”, transformadas em espetáculos midiáticos, e as longuíssimas prisões preventivas a fim obter delações premiadas que, espelhada no modelo estadunidense, foram negociadas com ampla margem de liberdade e abuso pelos acusadores. Acrescenta-se ainda que a mídia empresarial obtinha semanalmente informações privilegiadas de inquéritos e processos sigilosos, vazados criminosamente por agentes públicos que estavam obrigados a protegê-las, o que era utilizado para a construção de um clima manipulado de indignação pública.

Os processos contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como exemplo, foram os mais violentos e midiáticos, sendo em tudo excepcionais: nos prazos, na prisão antecipada, no uso de provas e testemunhas, e nas negativas aos direitos políticos e civis, desrespeitando até mesmo decisão obrigatória das Nações Unidas.

Os diálogos divulgados sugerem que o juiz Moro orientava clandestinamente os trabalhos da acusação, chefiando e subordinando os procuradores, o que  contraria a Constituição brasileira, que obriga a imparcialidade dos magistrados. Aquele que acusa não pode ser o mesmo que prolata a sentença, e o juiz/acusador Moro atuou ao mesmo tempo em um dos lados do processo, o que é uma violação primária do Direito.

O conjunto de informações reveladas até o momento confirma o que os juristas pela democracia já sabiam desde muito: que no Brasil uma trama complexa e perversa sequestrou a autonomia e a independência do Poder Judiciário.

Esse conluio comprometeu o destino político do Brasil desde 2016 e talvez muito antes. Num cenário de crise econômica e desestabilização política, as eleições presidenciais de 2018 foram, em grande medida, também decididas pela Lava-Jato e pelo juiz Moro, abrindo espaço para a eleição de Jair Bolsonaro, que posteriormente premiou o juiz que condenou Lula, fazendo dele seu Ministro da Justiça.

A campanha #MoroMente busca explicar à sociedade brasileira as consequências para a justiça quando um magistrado assume um dos lados do processo, desequilibrando a balança para condenar previamente adversários e desafetos políticos. A campanha também visa conscientizar sobre os riscos que a democracia corre quando o povo é enganado por fake news e pelo uso arbitrário e perverso do direito.

É com este compromisso que a Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD), entidade jurídica criada para defender o Estado Democrático de Direito, vem a público dizer, em alto e bom som: Moro Mente! Mentiu como juiz, mentiu como Ministro. 

https://www.youtube.com/watch?v=mlbk7YNwoNw

É com a disposição de reestabelecer a verdade dos fatos que a ABJD  cobra dos poderes constituídos respostas à sociedade. Não aceitaremos que se naturalizem os graves fatos revelados como se lícitos fossem.

Esperamos: Que o Parlamento constitua CPIs para averiguar responsabilidades e eventuais crimes cometidos por servidores públicos; que sejam verificadas as condições contratuais dos acordos de leniência de empresas estatais e nacionais no contexto da Lava Jato; que sejam tornadas públicas as investigações e os documentos que protegem autoridades que participaram do conluio entre MP e judiciário; que sejam correicionados os juízes que atuaram contrariamente à lei, violando o princípio basilar da imparcialidade e as garantias do devido processo legal. Que seja devolvido ao povo brasileiro a confiança no poder judiciário contaminado pela corrupção funcional e pela mentira.

Ninguém está acima da Lei e a verdade histórica prevalecerá

Com relação a Moro nós fizemos duas representações no CNJ:

1) Quando ele impediu o cumprimento do HC do Lula em julho de 2018

2) Quando ele aceitou o cargo de Ministro sendo juiz, em dezembro de 2018

Com relação a Dallagnol fizemos 3 representações:

1) sobre as palestras em fevereiro de 2018

2) Sobre a Fundação Lava Jato em maio de 2019 (e fizemos junto com a AJD uma carta à PGR pedindo providências)

3) Sobre as revelações do The intercept em julho de 2019

16
Nov20

Boulos foi a estrela da eleição

Talis Andrade

 

por Fernando Brito

- - -

A se confirmarem os resultados das pesquisas de boca de urna, muitas mistificações cairão, embora, como estão falando as urnas, numa apuração extremamente lenta, seja prudente esperar.

Por exemplo, em que candidatos “terceira via” seriam a esperança para derrotar reacionários e fundamentalistas.

Martha Rocha, no Rio, e Márcio França, em São Paulo serviram para, em nome de um suposto voto útil, ajudaram a esvaziar , antes mesmo de candidaturas progressistas, a ideia de frentes de oposição.

Não houve, desta vez, uma “onda nacional”, à direita ou à esquerda, como é natural em eleições municipais.

Os candidatos bolsonaristas marcaram bons resultados, mas dentro de uma “bolha” limitada.

Embora com um resultado medíocre, o PT também não sofreu um massacre semelhante aos de 2016 e 2018.

Seus tradicionais aliados tiveram bons resultados: o PCdoB via a um difícil segundo turno em Porto Alegre e o PSOL, mesmo sem considerar Boulos, teve um ótimo desempenho eleitoral.

Porque Boulos é um capítulo à parte, o candidato que mais se poderia chamar de fenômeno nestas eleições.

Empolgou a juventude e, no segundo turno, ganhará Lula como elo de ligação com o povão.

Os números de pesquisa de boca de urna (a apuração, enquanto escrevo, é desprezível) de Bruno Covas são fraquíssimos para quem era dado até como capaz de fechar a disputa na primeira volta.

Não será, ao que parece, o passeio de segundo turno que as pesquisas anteriores à eleição previam.

Covas é prisioneiros de duas rejeições – a de Bolsonaro e a de Doria – e de um terceira: a rejeição dos bolsonaristas a Doria.

Mas tudo o que se pode comentar, sobre São Paulo e Rio, com quase nada dos votos apurados, são também pesquisas e as urnas é que importam.

Vai ser preciso esperar mais para falar mais, inclusive sobre o futuro das articulações dos partidos de centro-direita, sobretudo com o crescimento do DEM, que estava moribundo seis anos atrás.

25
Jun20

Peça 2 – os fatores do desgaste de Bolsonaro

Talis Andrade

 

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II - Xadrez do novo centro do poder, o Supremo Tribunal Federal

- - -

Os absurdos cometidos pelos Ministros fundamentalistas, os arroubos retóricos de Bolsonaro, os indícios de envolvimento com o crime organizado, passaram a desgastar progressivamente Bolsonaro.

Houve alguns episódios centrais que aceleraram o isolamento dos Bolsonaro:

  1. A demissão de Sérgio Moro. Antes dele, o esvaziamento da Lava Jato. Nas milícias digitais, o discurso anticorrupção da Lava Jato foi inteiramente substituído pelas pirações retóricas de Carlos e Eduardo Bolsonaro e dos Youtubers de direita, aumentando gradativamente os ataques às instituições.
  2. O fracasso do combate ao Covid, no plano político, social e econômico.
  3. Os absurdos reiterados da área fundamentalista do governo.
  4. Os julgamentos internacionais sobre o país, gradativamente transformado em pária da ordem internacional. As impropriedades na área internacional, especialmente os ataques gratuitos à China.
  5. O vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril, acabando de vez com a narrativa de que os militares bolsonaristas poderiam manter Bolsonaro sob controle.
  6. A demissão de dois Ministros da Saúde que não aceitaram compactuar com as loucuras de Bolsonaro (Continua)
 
 

 

13
Jun20

Relato da invasão a hospitais estimulada por Bolsonaro

Talis Andrade

Leticia Aguiar (PSL), Marcio Nakashima (PDT), Adriana Borgo (Pros), Neri (Avante) e Telhada 

 

‘Ele está incentivando a baderna’: o desabafo de enfermeira após Bolsonaro pedir que seguidores invadam hospitais

 

11
Jun20

PODERES IMPUROS

Talis Andrade

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Colaboração transnacional mostra lobby e estratégias de grupos religiosos e ultraconservadores durante a pandemia de coronavírus na América Latina


por Nelly Luna Amancio, Kennia Velázquez, Gloria Ziegler, Andrea DiP, Mariama Correia

_ _ _ 

“É muito provável que, com essa vacina [que está sendo desenvolvida contra a Covid-19], queiram colocar dentro do nosso corpo um nanochip com geolocalização”, disse há algumas semanas o pastor argentino Alberto Savazzini, aspirante à presidência do Peru, admirador de Jair Bolsonaro e líder da organização Deus é Amor (I.D.E.A, da sigla em espanhol), uma pequena igreja evangélica localizada na cidade de Buenos Aires. A declaração de Savazzini expõe um dos pontos que os grupos religiosos mais fundamentalistas da América Latina têm reforçado durante a pandemia, apelando para o medo e para a culpa: o coronavírus foi inventado em laboratório, a vacina que está em desenvolvimento será um instrumento de controle da humanidade e essa crise é o resultado de uma série de pecados.

Um dos principais traços desta crise sanitária é a incerteza. Sem cura específica, com tratamentos clínicos experimentais, conhecimento progressivo sobre o vírus e com unidades de tratamento intensivo em colapso, milhares de mortos e uma crescente crise econômica para os tantos que ficaram sem emprego por conta das medidas de isolamento, organizações fundamentalistas religiosas têm se utilizado do contexto para difundir medidas e ações que colocam, inclusive, a saúde das pessoas em risco. Seus líderes têm questionado as medidas sanitárias e chamado de pecados direitos adquiridos como o aborto legal, o casamento igualitário e a educação com foco em questões de gênero. E neste momento esses grupos têm encontrado ainda aliados perigosos: os movimentos antivacina.

A reportagem registrou ações no Peru, Argentina, Brasil e México que vão desde recomendações antissanitárias, discursos contra direitos adquiridos, falsos remédios e argumentos sem evidência científica que colocam os seguidores em risco, até iniciativas legais para impedir o acesso ao aborto em países onde este é legal. Esta série de reportagens mostra também que as medidas de isolamento não interromperam o pagamento de dízimos. Em todos os países, há uma forte campanha para que os fiéis continuem contribuindo financeiramente, mesmo que tenham sido afetados pela quarentena ou perdido o emprego devido às medidas restritivas.

Além da agenda política, duas ações promovidas por algumas dessas organizações colocaram em risco a saúde dos fiéis. No Brasil e no Peru, quando os casos de Covid-19 ainda não haviam chegado aos dolorosos números atuais – mais de 30 mil e 4 mil mortos, respectivamente –, um grupo de igrejas evangélicas continuou realizando cultos massivos e recomendando aos fiéis a fé como a única cura. “Não se preocupem com o coronavírus, porque essa é a tática de Satanás”, chegou a dizer o bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, organização investigada por lavagem de dinheiro e fraude de mais de US$ 765 milhões arrecadados de dízimos de seus fiéis.

exorcismo religião dizimo pastor .jpg

 

Não só estimularam a aglomeração massiva de pessoas como também divulgaram falsos remédios nas semanas seguintes. “Vou te ungir com álcool em gel, com nardo puro, e você estará pronto para vencer o coronavírus”, disse Héctor Aníbal Giménez, fundador da igreja Cumbre Mundial de los Milagros e um dos pastores evangélicos mais conhecidos da Argentina. No México, o deputado do estado de Sonora pelo Partido de Encuentro Social, organização política de centro-direita fundada pelo ex-pastor evangélico Hugo Eric Flores Cervantes, chegou a dizer que a Covid-19 “não é tão grave como dizem” e “que pode ser curada tomando chá de canela de manhã, ao meio-dia e à noite”. (Transcrevi trechos. Leia mais)

 

 

11
Jun20

Até 'O Globo' admite que Moro derreteu

Talis Andrade

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Por Fernando Brito

-  -  -

Até mesmo em seu bastião, o grupo Globo, o derretimento de Sérgio Moro já é admitido.

Hoje, o jornal reproduz as análises da Fundação Getúlio Vargas de que “o ex-ministro está isolado e restrito ao campo lava-jatista”, segundo o diretor de Análises de Políticas Públicas da fundação.

— Bolsonaro tem uma erosão da credibilidade e Moro viu nisso uma oportunidade, fez contraponto, mas não tem a máquina do bolsonarismo de circulação de narrativas.(…) Moro fica numa situação em que quer brigar, busca um segmento de direita crítico ao bolsonarismo, mas não consegue sair dai, não consegue crescer em direção ao centro.

A rigor, Moro ficou sem chão, porque seu campo foi absorvido e tomado por Bolsonaro, desde a campanha eleitoral.

A parcela da direita que se afastou do Governo também não tem confiança no ex-ministro, que pode, para eles, ser recebida como apoiador, mas não como “dono do pedaço” que já não lhe pertence.

Até o fidelíssimo Carlos Fernando dos Santos Lima, par de Deltan Dallagnoll na Lava Jato reclama que a ida do “juiz indômito” para o “mito” comprometeu a cruzada fundamentalistas que ele e o MP protagonizaram.

Moro, entretanto, ainda tem o cabotinismo que exibiu ontem, na Folha, ao arrogar-se ao papel de “poder moderador” do Governo Bolsonaro.

Vai demorar ainda para que muitos, a começar dele próprio, percebam que ele foi um instrumento para o processo de destruição da vida civilizada no Brasil e que, agora, já não tem mais serventia.

Nem para vice serve, pois é de duvidar que algum candidato vá levar um escorpião para casa.

 

 
01
Jun20

Peça 2 – o fracasso do governo

Talis Andrade

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II - Xadrez do caminho aberto para a cassação de Bolsonaro

por Luis Nassif

- - -

Para completar o ciclo semanal, a divulgação do PIB do primeiro trimestre comprovou que Paulo Guedes blefava, quando mencionava uma suposta recuperação da economia que teria sido abortada pelo coronavirus. Os dados trimestrais, portanto com dois meses sem o Covid, mostraram uma economia exangue, sem fôlego, mesmo antes da pandemia. O capital estrangeiro já tinha começado a sair meses antes.

O quadro vai piorar devido à absoluta inoperância de Guedes, na frente econômica, e do gabinete da crise, comandado pelo general Braga Neto, na frente sanitária.

Guedes não foi capaz de destravar o crédito para pequenas e médias empresas, nem para financiamento da folha salarial. Atrasou enormemente os repasses para estados, travou o plano Pró-Brasil, ignorou as grandes discussões mundiais para financiamento do gasto público, minimizando os desdobramentos da crise. Só acordou com os resultados do PIB e, aí, desesperou-se, comportando-se como aeromoça apavorada com a tempestade.

Por tudo isso, fica claro que o governo Bolsonaro é uma ameaça não apenas devido às pirações fundamentalistas do presidente, mas a uma incompetência generalizada, que coloca em risco as relações externas, as políticas científico-tecnológicas, educacional, o meio ambiente.

O ponto final desse festival de amadorismo foi a tomada do Ministério da Saúde por militares sem conhecimento do setor.

21
Abr20

O inferno em nome de Deus

Talis Andrade

por Fernando Brito

- - -

Já faz tempo que Jair Bolsonaro tornou-se um aproveitador da fé.

Isso, porém, chegou ao ponto do mais farisaico fundamentalismo.

Sua política não tem a menor vergonha de invocar Deus como avalista de seus atos demoníacos, que despreza vidas humanas.

Hoje, chegou a cúmulo, ao levantar uma imagem de Cristo diante de fanáticos adoradores. Adoradores de um homem que está lançando pessoas à morte pela doença, como antes adorava a morte pelas armas.

Ninguém, religioso ou não, que conserve o mínimo de razão, não pode se conformar em ver a fé assim manipulada por interesses políticos, num num espetáculo orgiástico, onde se urra por um autoproclamado e falso profeta.

Já não é direita e esquerda o que nos separa de Jair Bolsonaro, mas o simples exercício da inteligência humana.

As instituições de uma república laica não pode aceitar ser coagida pelo fundamentalismo.

Num governo, não temos um deus a quem o povo serve e dá a vida, mas um presidente que serve ao povo e deve dar a vida, até, pelo povo.

É preciso reagir contra este “estado islâmico” cristão, contra os talibãs que se proclamam evangélicos, contra este fanatismo obtuso que está desmobilizando nossa defesas médicas contra uma doença mortal.

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22
Fev20

Vai ter golpe?

Talis Andrade

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Por Julian Rodrigues

O aumento da participação de militares no núcleo do governo somado à escalada de declarações extremistas e à ação descontrolada das polícias nos estados seriam o prenúncio de uma ditadura aberta?

Já houve um golpe no Brasil, que começou em 2016. Esse sempre deve ser o pressuposto de qualquer análise.

Estamos diante de um “necrogoverno”. Um governo de destruição do país, que ataca simultaneamente os direitos sociais, o meio-ambiente, as liberdades democráticas e a soberania nacional. A operação Lava-Jato, a destituição de Dilma, a prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro inauguraram um Estado de exceção – houve drástica ruptura com o pacto liberal democrático de 1988.

Apesar de muitas contradições e dificuldades, o bolsonarismo logrou consolidar uma aliança que aglutina os interesses do imperialismo, do grande capital (sobretudo do capital  financeiro), da mídia, do agronegócio,  dos setores reacionários das classes médias, do Exército, do sistema de justiça, das polícias militares, das milícias e dos fundamentalistas religiosos.

As elites – auto intituladas “liberais” – precisam do capitão para avançar no desmonte do país e dos direitos dos trabalhadores. E Bolsonaro precisa dos “liberais” para sustentar seu governo e impulsionar a luta contra o “marxismo cultural” e toda a sua agenda obscurantista.

A retirada dos direitos dos trabalhadores, o desmonte das políticas sociais, a privatização/desnacionalização são ações indissociáveis do ataque às artes, à cultura, às ciências, do estimulo do ódio contra as mulheres, à população negra, às LGBTI e também da restrição às liberdades democráticas em geral. Não há “cortinas de fumaça”. Existe uma plataforma unificada – é ela que viabiliza e põe de pé o atual governo.

Claro que há contradições. A mídia corporativa, os bancos, etc prefeririam ter um governo do tipo FHC, Aécio ou Huck, sem verborragias e tosquices medievais. Porém, essa turma sabe que é a tropa de choque bolsonarista que garante e assegura a implantação das reformas anti-povo. Então, tapam o nariz e seguem em frente. Vez ou outra esboçam reações, mais ou menos hipócritas, em relação a algum destempero gritante (como agora no ataque misógino à jornalista da Folha de S. Paulo Patrícia Campos Mello).

Sem ilusões, todavia. O governo é fortíssimo, conta com ampla base de apoio; opera com estratégia, com tecnologia, método e alinhamento orgânico à extrema-direita norte-americana. Nada mais errado do que acreditar que Bolsonaro e família são “burros” ou avaliar que o impeachment é apenas questão de meses.

Sim, estamos diante de um governo que tem um núcleo neofascista. Contudo, o regime político não é fascista nem é uma ditadura aberta. Isso não significa que o clã presidencial, os olavistas e o núcleo duro do bolsonarismo não sonhem com um regime autoritário. Bolsonaro já insinuou que pode ficar mais de oito anos na presidência. Mas nem tudo que se quer, se pode…

Privatizações, reforma da previdência, nova reforma trabalhista, reforma sindical e agora reforma administrativa. O programa ultraliberal de Guedes – e de Rodrigo Maia, o queridinho da galera da tal frente ampla – vai muito bem, obrigado.

Até o momentonão foi preciso restringir ainda mais as liberdades democráticas para impor a agenda das grandes corporações internacionais, do rentismo, da grande mídia – da burguesia brasileira como um todo. Não há, portanto, razão objetiva para que as classes dominantes nacionais e os EUA, apostem, nesse momento, em uma ditadura militar ou assemelhada, que tem custos muito altos. O fechamento total do regime ainda não é necessário.

É muito mais funcional e palatável para a burguesia operar em um ambiente que preserve um mínimo de liberdades democráticas. Os sinais deles, aliás, são outros: estão mandando recados para Bolsonaro de que há limites nas coisas. E, como disse um amigo: “não estão minimamente interessados em dar todo poder para um Napoleão de hospício”.

Isso quer dizer que está descartado um golpe? Não. Se precisar, eles fazem. Retomam a ditadura oldschool. Vide o golpe na Bolívia – estilo tradicional, anos 1970, com pitadas modernas de guerra híbrida comunicacional e mobilização do fundamentalismo religioso. Mas, não é esse o cenário principal no Brasil hoje.

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Por último: as Forças Armadas. Um tema complexo, que a esquerda domina pouco, é verdade. Temos dificuldade para analisar com profundidade o seu papel, suas contradições internas, suas pretensões, etc.

A recente “militarização” do núcleo palaciano do governo não deve ser entendida como indício de golpe militar iminente. Por várias razões. A principal delas – na minha opinião – é que não há nem acúmulo, nem unidade estratégica-política-programática no Exército ( muito menos combinação com os EUA) que coloquem, hoje, os militares como protagonistas de um eventual golpe.

Se houver fechamento, não será prioritariamente pela mão deles. E não será do jeito antigo. Reparem em Moro, nas milícias, nas PMs, no Ministério Público e no Judiciário. São outros os atores principais do núcleo neofascista.

Isso não quer dizer que a cúpula e a maioria das Forças Armadas não apoiem totalmente o governo ou mesmo que sejam democráticas. Mas, de forma aparentemente paradoxal, elas exercem um papel racionalizador e moderador na bagunça instalada. Não nos deixemos enganar pelas bravatas do tal general Heleno, que sempre foi ligado ao esgoto do Exército e exerce bem menos influência real do que tenta aparentar.

Resumindo: muita calma nessa hora. Mas sem calma demais. Não vai ter golpe amanhã. Muito menos impeachment. A situação é grave, as dificuldades de mobilização são imensas. O bolsonarismo não é uma chuva de verão que passará rápido. O estrago promovido no tecido social e institucional do país é profundo e nos impactará por muitos anos.

Por outro lado, há desgaste crescente – mesmo que limitado – do governo. A economia não vai entregar o que prometem. O mal estar pode crescer. Começam a pipocar lutas e greves, como a heroica paralisação dos petroleiros. Teremos logo, logo eleições municipais, quando se abrirá uma janela maior para contestação de massas à Bolsonaro.

Nosso desafio, de fato, talvez seja acertar mais na análise conjuntural e estrutural, pressuposto para operar a reorganização, fortalecimento e construção de convergências práticas no campo democrático-popular. Ah, e claro: mudar tudo na nossa comunicação – mas isso é tema para outros artigos.

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