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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

06
Nov23

Patrimônio multicultural: bem de quem?

Talis Andrade
 
 

Mãe Bernadete era líder quilombola na cidade de Simões Filho — Foto: Redes socias

Mãe Bernadete, assassinada por crime de mando, era líder quilombola na cidade de Simões Filho, Bahia

 

Por Anauene Dias Soares e Ana Paula Lessa Belone

Consultor Jurídico

O patrimônio cultural tem sofrido, ao redor do mundo, danos, destruição e/ou risco de ser traficado, bem como de ser comercializado ilegalmente. Porém, ainda mais dificultoso é o perdimento desses bens, qual seja a prática delitiva ou a apropriação indevida deles.

Ora, isso aponta para a necessidade de políticas culturais que visem a proteção, o estímulo e o reconhecimento da identidade e da diversidade desse patrimônio cultural, principalmente pela via da interlocução entre a sociedade civil e o poder público, de maneira a estabelecer o respeito e a valorização das minorias culturais e de outras lógicas culturais, reconhecendo o pluralismo cultural. A negligência ou a destruição da cultura de qualquer grupo social é uma perda irreparável!

Toda cultura representa um conjunto único e insubstituível de valores. Tradições e formas de expressão de cada comunidade são os meios mais eficazes de demonstrar a sua presença no mundo, afirmando sua identidade cultural. O patrimônio cultural pode abranger, portanto, as dimensões tangíveis e intangíveis da vida coletiva por meio das quais as manifestações do povo encontram expressão e materialização; são os idiomas, ritos, crenças, lugares e bens móveis culturais, literatura, obras de arte, arquivos e material bibliográfico.

É uma relação que envolve, ao mesmo tempo, a sociedade (ou seja, os sistemas de interações que conectam pessoas) e as normas e os valores (ou seja, ideias, a exemplo dos sistemas de crenças que atribuem importância relativa).

Representações em objetos são evidências tangíveis de normas e valores subjacentes. Elas estabelecem uma relação simbiótica entre o tangível e o intangível. O patrimônio intangível, então, pode ser considerado como a estrutura mais ampla dentro da qual o patrimônio tangível assume forma e significado.

Uma determinada expressão cultural — por exemplo, um festival de folias — não é necessariamente um patrimônio cultural intangível. O intangível só pode ser patrimônio quando é reconhecido como tal pelas comunidades, grupos ou indivíduos que o criam, praticam, mantêm e transmitem. Sem esse reconhecimento coletivo, ninguém mais pode decidir por eles que uma determinada expressão ou prática é seu patrimônio, principalmente sobre os objetos que integram os modos de vida dessa comunidade e representam as suas manifestações, como, por exemplo, determinados instrumentos musicais de práticas ritualísticas de origem africana, tal como o atabaque.

A Declaração de Istambul, adotada em uma mesa redonda de 71 ministros da Cultura, organizada pela Unesco, em setembro de 2002, enfatiza que "uma abordagem abrangente do patrimônio cultural deve prevalecer, levando em conta o vínculo dinâmico entre o patrimônio tangível e intangível e sua estreita interação". Essa Declaração é uma afirmação expressa de que o patrimônio intangível só alcança o seu verdadeiro significado quando lança luz sobre seus valores subjacentes.

Neste sentido, o intangível pode ser "encarnado" em manifestações tangíveis, ou seja, em sinais, materiais, o que contribui para a sua salvaguarda (o que é apenas uma das formas de protegê-lo) elo) e evita as suas apropriações indevidas e ilegais, como o seu tráfico ilícito.

Um exemplo dessa representatividade material do intangível é a categoria etnográfica da Red List brasileira, que elenca bens culturais como cocares, colares e outros adornos produzidos com matéria-prima de animais silvestres ou em extinção que são bens indisponíveis e ainda hoje usados em manifestações e no modo de vida de comunidades indígenas.

Essa dialética é particularmente frutífera ao proporcionar maior representação para as culturas de povos, cuja tradição oral é mais importante do que a escrita. As regiões mais beneficiadas por esse conceito são a América Latina, a África, a Ásia e a Oceania, cujos patrimônios consistem em uma riqueza inigualável de tradições orais e de práticas culturais, e que a abordagem "monumentalista" hegemônica negligenciou por muito tempo.

Uma série de declarações e convenções internacionais foram adotadas para a proteção do patrimônio cultural e da diversidade cultural em âmbito internacional, como as da Unesco: Convenção sobre a Proteção do Patrimônio Cultural e Natural, de 1972; a Declaração Universal sobre Diversidade Cultura, de 2001; a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, de 2003; e a Convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais, de 2005.

O Artigo 2, "Da diversidade cultural ao pluralismo cultural" da Declaração Universal da Diversidade Cultural da Unesco, de 2003, traz que "nas sociedades cada vez mais diversificadas, é essencial garantir a interação harmoniosa entre pessoas e grupos com identidades culturais plurais, variadas e dinâmicas".

Garantir também a coesão social e a vitalidade da sociedade civil através de políticas de inclusão e de participação social de todos os cidadãos é mais do que fundamental para que o pluralismo cultural possa dar expressão política à realidade da diversidade cultural, já que "o pluralismo cultural é propício ao intercâmbio cultural e ao florescimento de capacidades criativas que sustentam a vida pública" (Unesco).

O direito à cultura é consagrado no artigo 215 da Constituição Federal de 1988, que assim diz: "O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais".

É sabido que os bens culturais possuem um valor inestimável para os povos, sendo a sua produção, promoção e difusão (artigo 215, § 3º, II), a valorização da diversidade étnica e regional (artigo 215, § 3º, V) e a democratização do acesso aos bens culturais (artigo 215, § 3º, IV), alguns dos caminhos que conduzirão à defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro (artigo 215, § 3º, I). Dessa forma, o texto constitucional consagra a diversidade cultural brasileira e prevê a proteção aos bens culturais materiais (tangíveis) e imateriais (intangíveis) dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.

Tanto o patrimônio tangível quanto o intangível dependem um do outro quando se trata de entender o significado e a importância de cada um. Atualmente, políticas específicas são essenciais para permitir a identificação e a promoção dessas formas de "patrimônio misto", que geralmente estão entre os espaços e expressões culturais mais nobres produzidos pela humanidade.

Logo, abranger uma gama mais ampla de bens culturais com representatividade material pelas organizações internacionais atuantes na luta contra o tráfico ilícito desses bens e na devolução deles para o seu local de origem, inclusive quando não há uma previsão legal para o dito caso, transcende até o reconhecimento dessa pluralidade cultural, afirma a intenção de reparação histórica.

É recomendável que as autoridades políticas não limitem as suas atividades às funções meramente regulatórias para controlar o comportamento individual. Em vez disso, devem agir de tal forma que suas ações beneficiem não apenas a elite dominante, mas também grupos não hegemônicos. Essas são as condições que darão ao processo de desenvolvimento no Brasil uma chance razoável de sucesso no que tange à proteção do patrimônio cultural e ao entendimento de um conceito contemporâneo mais abrangente e de salvaguarda comunitária.

Foto: Divulgação

 

Um exemplo de comunidade tradicional que tenta manter viva sua identidade cultural e ter reconhecida a propriedade de suas terras que ocupam há séculos, é o das comunidades quilombolas, sobretudo, com o Marco Legal.

Conforme o Decreto 4.887, de 20 de novembro de 2003, os remanescentes de comunidades de quilombos podem ser definidos como "grupos étnico-raciais, segundo critérios de autoatribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida".

A emergência, no cenário político, de comunidades etnicamente diferenciadas, povos indígenas, grupos vulneráveis e aqueles excluídos por motivos de origem étnica, afiliação social, idade ou gênero, levou à compreensão de novas formas de diversidade, fez com que o poder político se visse desafiado, e a diversidade cultural assumiu o seu lugar na agenda política na maioria dos países do mundo.

A diversidade cultural surgiu como uma preocupação fundamental na virada de um novo século. Alguns preveem que a globalização e a liberalização do mercado de bens e serviços levarão à padronização cultural, principalmente na facilitação do comércio ilegal de bens culturais, reforçando os desequilíbrios existentes entre as culturas.

Outros afirmam que o fim do mundo polarizado da Guerra Fria e o eclipse das ideologias políticas resultaram em novas falhas religiosas, culturais e até mesmo étnicas, preludiando um possível "choque de civilizações". Pois bem, a diversidade cultural é, acima de tudo, um fato. Existe uma ampla gama de culturas distintas, mesmo que os contornos que delimitam uma determinada cultura sejam mais difíceis de estabelecer do que pode parecer à primeira vista.

Para Juliana Santilli (Socioambientalismo e Novos Direitos. São Paulo: Peirópolis, 2005.), a influência do multiculturalismo está presente não apenas na proteção das criações e manifestações culturais dos diferentes grupos sociais e étnicos formadores da sociedade brasileira, mas permeia também a preocupação do legislador constituinte em assegurar direitos culturais e territoriais às comunidades tradicionais, ainda que de forma costumeira como praticado no Direito Internacional.

No mais, a orientação multicultural na Constituição brasileira reconhece os direitos coletivos das comunidades tradicionais, enquanto povos culturalmente diferenciados. Já em relação aos povos indígenas, o artigo 231 trata, especificamente, sobre a adoção do pluralismo, vez que reconhece na organização social indígena, seus costumes e tradições.

O multiculturalismo ou o pluralismo cultural podem ser descritos por meio da existência de muitas culturas numa localidade, cidade ou país, sem que uma delas predomine, porém, separadas geograficamente e complementares culturalmente, como a representação materializada dos bens intangíveis.

Por fim, observa-se uma prática emergente associada ao entendimento de haver uma obrigação com certos valores do patrimônio cultural, incluindo a identificação, memória e uso social de um bem cultural. Essas considerações éticas se aproximam da opinio juris necessitati, condição necessária para a existência de um costume na comunidade internacional e internalização dele pelos Estados. É por meio de práticas éticas de uma visão multiculturalista de salvaguarda dos bens culturais que um Estado de Direito é formado.

Quilombo dos Palmares: parque memorial em Alagoas mantém viva história de resistência dos negros

O Parque Memorial Quilombo dos Palmares reconstitui a história do maior, mais duradouro e mais organizado refúgio de negros escravizados das Américas. Fotos: Tereza Cidade

20
Mar23

Antonio Maria, do Recife e do Mundo

Talis Andrade
Foto: Arquivo familiar

 

 

As crônicas de Antônio Maria misturavam humor, crueldade e lirismo, a depender dos dias e da vida, que não eram iguais, para ele ou para ninguém

 

22
Fev23

O carnaval dos convidados de Bolsonaro

Talis Andrade
 
 
Mamilos à mostra no carnaval: com política contra assédio, mulheres se  sentem mais livres na folia do Rio | Carnaval | O Globo

 

"Brasileirinhas" site pornô.

Triste fama de 'prostituta'

Retirantes da pobreza, da fome, do desemprego, o exilado brasileiro, a exilada brasileira tiveram de escolher: na ditadura militar, a ponta da praia na terra natal ou a esquina da rua nas capitais dos Estados Unidos e Europa.

O racismo nos Estados Unidos, a xenofobia das ditaduras nos países da Europa, e a extrema direita no mundo hodierno facilitaram a pecha infame: brasileiro, brasileira, inclusive em alguns dicionários, sinônimos de gay, de prostituta.

O presidente gigolô, do lema nazi=fascista "deus, pátria e família", para propagar a má fama, o turismo sexual, convidou: "Quem quiser vir fazer sexo com mulher, fique à vontade", disse Jair Bolsonaro.

Os estrangeiros jamais celebraram o carnaval brasileiro como uma diversão inocente, colorida, de serpentinas, confetes, da alegria nas ruas, dos blocos de papangus, a festiva brincadeira, pela participação de crianças, pela música, pela dança do samba, pelos passos do frevo.

Este ano o carnaval vai propagar o escândalo da orgia. Escrevem Taís Codesco, Luana Reis e Giovanna Durães:

Mamilos à mostra no carnaval: com política contra assédio, mulheres se sentem mais livres na folia do Rio.

 
Mamilos à mostra no carnaval: com política contra assédio, mulheres se  sentem mais livres na folia do Rio | Carnaval | O Globo
Mamilos à mostra no carnaval: com política contra assédio, mulheres se  sentem mais livres na folia do Rio | Carnaval | O Globo
 

 

Depois de dois anos de privação, nos blocos de 2023 só se fala em uma coisa: liberdade. Em meio às fantasias elaboradas , apenas uma hot pant e um tapa-mamilo, que estão em alta entre as mulheres, foram capazes de expressar a alegria desse momento. Não se sabe ao certo quando o adereço tomou conta dos cortejos, mas se tornou uma verdadeira tendência. Os acessórios lembram aqueles usados pelas dançarinas em espetáculos burlescos nos séculos XIX. Se antes remetia a sensualidade feminina, hoje foi ressignificado como um símbolo de autonomia do próprio corpo.

Os melhores do carnaval: Beija-Flor é a melhor escola pelo Estandarte de Ouro

Carnaval 2023: confira em tempo real tudo sobre os desfiles das escolas de samba e os cortejos dos blocos de rua no Rio

É a primeira vez que Luciana Abud, 35 anos, de São Paulo, está saindo de casa para pular carnaval usando somente um pequeno pedaço de fita colante nos seios, a hot pant, uma peça que há vários carnavais virou hit. Ela conta que, a princípio, se sentiu insegura, e até levou uma blusa, mas depois o sentimento de liberdade foi tomando conta. O seu maior medo era o assédio, mas Luciana se surpreendeu com o respeito das pessoas nos espaços.

— Está sendo uma experiência muito legal. Todo mundo olha, isso é inevitável, até mesmo mulheres. Mas não me incomoda. Sinto que isso gera uma curiosidade — conta.

Sua amiga, Lorena Ribeiro, advogada de 28 anos e também de São Paulo, aderiu a um visual parecido, com uma blusa de renda transparente e sem nenhuma outra peça tapando os mamilos.

— É óbvio que os caras olham, mas eu acho que há 10 anos seria muito pior. Eu sinto que a gente venceu, mesmo que um pouquinho, mas só de conseguir andar pela orla sem ser importunado já é uma vitória. Isso para mim também é uma evolução pessoal, tanto mulher quanto como feminista, considero até mesmo uma licença poética — diz Lorena. Elas concordam que o visual é mais confortável, ainda mais em meio ao calor e à multidão dos blocos.

O Brasil devia realizar programas para eliminar a má dos brasileiros e brasileiras no exterior. O Governo Brasileiro precisa promover campanhas contra a xenofobia, o racismo, tormento dos exilados brasileiros nos Estados Unidos e países europeus, notadamente Portugal. Criar políticas que evitem o tráfico humano, a propaganda sexual, inclusive a  permanência de sites pornôs 'verde e amarelo', as cores de uso exclusivo das prostitutas na Roma Antiga.

Publica a revista 'Veja': 

O mistério sobre a assinatura de Carta Zambelli em site pornô

Suposto extrato do "Brasileirinhas" em nome da deputada circula pelas redes sociais

Desde a manhã desta quarta-feira, 22, circula pelas redes sociais um suposto extrato de débito, atribuído à deputada federal Carla Zambelli (PL-SP), referente à assinatura mensal do site pornô Brasileirinhas. No recibo, não aparece o nome da parlamentar, apenas uma montagem com sua foto. O assunto tornou-se um dos mais comentados do Twitter. Desde que recuperou acesso às redes sociais, a parlamentar tem se manifestado sobre vários temas, mas ainda não tocou no caso Brasileirinhas, apesar das insistentes cobranças dos internautas.

Procurada pela reportagem de  VEJA, a parlamentar não respondeu aos pedidos para confirmar ou não a informação. O diretor do Brasileirinhas, Clayton Nunes da Silva, em contato com a revista, afirmou que precisaria ter acesso aos dados pessoais da parlamentar para confirmar ou não se a assinatura realmente foi feita por ela. Ou seja, o mistério permanece.

Este proxeneta Clayton Nunes da Silva devia ser processado por usar o nome de "Brasileirinhas" em site pornô. Não é de estranhar tal absurdo, esse crime contra a imagem do Brasil, contra a mulher brasileira, que Paulo Guedes, que era super ministro da Economia de Bolsonaro, criou sites de relacionamentos, segundo reportagem publicada pelo jornal O Globo. De acordo com o texto, Guedes é dono, ao lado do irmão, da empresa Nol Web Services, que se propõe a encontrar “soluções para solteiros que procuram um relacionamento sério”. O grupo Nol atua em inúmeras frentes, mantendo diversas marcas na área amorosa. “O Romance Cristão” é um site de relacionamento para evangélicos e “Nunca é Tarde para Amar” dedica-se à terceira idade. Já o “Namor o Online” é a versão mais liberal. Ao inscrever-se, o usuário pode dizer se tem interesse em amizade, namoro, sexo casual, casamento ou apenas em “ficar”. Há opções para heterossexuais e homossexuais.

12
Fev23

Para o Dia do Frevo

Talis Andrade

O texto a seguir é uma adaptação do verbete Frevo no Dicionário Amoroso do Recife

12
Fev23

Espetáculo de circo traz arte, cultura, dança e política brasileiras aos palcos de Paris

Talis Andrade

Maíra Moraes no espetáculo '23 Fragments de ces derniers jours" (23 fragmentos dos últimos dias), em cartaz no Teatro Silvia Monfort, em Paris, até 18 de fevereiro de 2023.
Maíra Moraes no espetáculo '23 Fragments de ces derniers jours" (23 fragmentos dos últimos dias), em cartaz no Teatro Silvia Monfort, em Paris, até 18 de fevereiro de 2023. © João Saenger

Democracia, passinho, Constituição de 1988, forró, demarcação de terras indígenas, frevo, racismo e maracatu. Um espetáculo de circo, um mergulho (auto)reflexivo, uma sopa de Brasil. Tudo isso está no palco do espetáculo bilíngue de circo "23 fragments de ces derniers jours" (23 fragmentos dos últimos dias), em cartaz em Paris até 18 de fevereiro, no Teatro Silvia Monfort.

Idealizado pela "circógrafa" francesa Maroussia Diaz Verbèke e pelo coletivo Instrumento de Ver, de Brasília, o espetáculo incita a refletir sobre o momento histórico atual no Brasil.   

Maroussia contou à RFI sobre o processo de criação.

"O processo se deu em duas partes. A primeira, no Brasil, quando o coletivo Instrumento de Ver, de três mulheres artistas, me convidou para um festival de circo que elas organizam. Em seguida, a gente começou a trabalhar juntas com a pesquisa que elas já desenvolviam sobre objetos, e a nossa relação artística funcionou muito bem", explica.

Mas a situação política e artística no Brasil começou a se deteriorar muito, relembra, e ela então propôs continuar o trabalho na França, por meio de residências artísticas.

Destruição e fragmentos

"Eu cheguei ao Brasil no final de 2018. Foi um momento difícil para o país. Logo começou o governo de Bolsonaro e eu acompanhei o momento que, pelo menos no aspecto cultural, foi uma destruição", conta. 

"Então, a gente trabalhou, nesse início, com essa ideia de destruição, de fragmento, do tempo quebrado... É por isso que no espetáculo tem uma forte pulsação, necessária para enfrentar a situação que estávamos vivendo, porque a gente fez (um trabalho de) resistência lá no Brasil."

"A segunda parte do projeto foi desenvolvida na França, com a minha companhia, que se chama 'Le troisième cirque' (O Terceiro Circo), e eu convidei três artistas masculinos dançarinos, porque antes mesmo de conhecer o coletivo, eu já tinha um amor pelo Brasil, para onde já fui várias vezes e tive a chance de descobrir um pouco da cultura, do Carnaval e das danças brasileiras".

A circógrafa - palavra de vem de "circografia", neologismo que ela mesma criou para definir a escritura e a realização de um espetáculo de circo - tenta explicar em palavras o seu arrebatamento pelo Brasil, sua cultura e o Carnaval.

"É difícil explicar um amor. A gente ama antes de saber o porquê. Eu acho que as culturas francesa e brasileira são muito complementares. E eu encontrei no Brasil uma coisa que me faltava na França, que tem a ver com o prazer de viver, o prazer de estar juntos", sublinha a circógrafa francesa.

Lucas Cabral Maciel no espetáculo "23 Fragments de ces derniers jours" (23 fragmentos dos últimos dias), em cartaz no Teatro Silvia Monfort, em Paris, de 8 a 18 de fevereiro de 2023.
Lucas Cabral Maciel no espetáculo "23 Fragments de ces derniers jours" (23 fragmentos dos últimos dias), em cartaz no Teatro Silvia Monfort, em Paris, de 8 a 18 de fevereiro de 2023. © João Saenger

 

Carnaval como libertação

O carnaval é também um ponto de virada na trajetória do contorcionista e dançarino Lucas Cabral Maciel. Ele explica o poder do Carnaval sobre os corpos e como trouxe isso para o espetáculo. 

"Tem um momento no espetáculo em que a gente relata como o meu primeiro encontro com o Carnaval teve um efeito muito forte em mim. O Carnaval de Recife, em particular, com a força da música e do frevo e como aquilo realmente tirou uma trava que estava estabelecida há muito tempo em mim de não poder dançar, eu não me permitia. E foi o Carnaval que me permitiu, pois o Carnaval é a festa em que tudo pode, onde você pode ser, em teoria, pelo menos na fantasia, o que você quiser", reflete Lucas, que tem raízes pernambucanas, mas cresceu entre Salvador e Maceió. 

E eu acho muito importante que a gente entenda que Carnaval não é evento. Carnaval é significado. Carnaval é momento, é todo um sentido para quem vive, é uma maneira de afirmar a existência. Então, quando você vive isso e coloca os pés lá, é muito poderoso. E a gente tem de trazer um pouco dessa ideia para cá", conta Lucas, que dança frevo no espetáculo.

André Oliveira e Marco Motta no espetáculo « 23 Fragments de ces derniers jours » (23 fragmentos dos últimos dias), em cartaz no Teatro Silvia Monfort, em Paris, de 8 a 18 de fevereiro de 2023.
André Oliveira e Marco Motta no espetáculo « 23 Fragments de ces derniers jours » (23 fragmentos dos últimos dias), em cartaz no Teatro Silvia Monfort, em Paris, de 8 a 18 de fevereiro de 2023. © João Saenger

 

Racismo

E, por falar em corpos, o racismo é um dos temas tratados pelo dançarino e artista baiano Marco Motta, que mora há 13 anos em Madri.

"Eu falo de racismo dentro do show e sobre a questão linguística, do racismo no idioma e também sobre os corpos da gente. A forma como a gente se expressa com o corpo, por exemplo, varia dependendo da cultura de onde a gente vem", reflete Marco. 

"Eu faço breakdance, que é uma dança da diáspora africana norte-americana, e um pouco de capoeira, que é da diáspora africana no Brasil", explica o dançarino.   

O espetáculo já foi apresentado na Suíça, na Bélgica e em outras cidades francesas. O dançarino carioca André Oliveira, que estreia no circo com esta peça, conta como tem sido a recepção do público na Europa:

"São coisas que eles não conhecem, em geral. É interessante trazer essa vivência do nosso corpo brasileiro, da minha vivência na favela, com a minha dança, para o outro lado do mundo", conta. 

Julia Henning e André Oliveira no espetáculo "23 fragmentos dos últimos dias", em cartaz no Teatro Silvia Monfort, em Paris, até 18 de fevereiro.
Julia Henning e André Oliveira no espetáculo "23 fragmentos dos últimos dias", em cartaz no Teatro Silvia Monfort, em Paris, até 18 de fevereiro. © João Saenger

 

Circo e política

Além do Carnaval e das danças típicas brasileiras, os 23 fragmentos destes últimos dias tratam de temas políticos atuais. Julia Henning, uma das fundadoras do coletivo Instrumento de Ver, de Brasília, criado em 2002 na capital federal, explica que o circo e a política andam de mãos dadas.

"A gente sempre lidou com o momento histórico, que é o que a gente entende como sendo o circo, a contemporaneidade, que não tem a ver exatamente com uma estética, mas tem a ver com o diálogo com o seu tempo e estar aberto às influências do momento; não estar desconectado do mundo", explica.

"Quando a Marisa chegou, a gente não hesitava em passar muito tempo discutindo sobre o assunto. E durante todo o processo de criação, a gente teve que manter a energia mesmo assim, porque foi depressivo, sim, para quem trabalha com cultura", diz Julia, referindo-se ao governo Bolsonaro (2019-2022).  

"Arte em geral é política. Desde que a gente começou, nós sempre estivemos abertas às influências do que está acontecendo no mundo, o que está acontecendo com a gente e como trazer isso para a cena", conclui.  

Maíra Moraes, artista circense desde os 18 anos e cofundadora do Instrumento de Ver, acrescenta: "No sistema de produção cultural do Brasil, a gente se reveza em todas as funções. A gente passa de artistas, acrobatas, para produtoras, para quem divulga, para quem limpa... Somos só nós três e temos que dar conta de tudo o que o coletivo precisa para sobreviver. Então, é inevitável a gente estar realmente por dentro de todos os movimentos".

Béatrice Martins, acrobata desde os 5 anos, a terceira integrante do coletivo Instrumento de Ver, resume o espetáculo: 

"É um espetáculo brasileiro. Fala sobre o Brasil, tem músicas totalmente brasileiras. Trazemos, além das acrobacias, danças típicas do Brasil. A gente trouxe toda essa brasilidade para o espetáculo aqui na França, um calorzinho brasileiro", fala.

Béatrice Martins e Lucas Cabral Maciel dançam no espetáculo 23 fragmentos dos últimos dias, em cartaz até 18 no fevereiro no Teatro Silvia Monfort, em Paris.
Béatrice Martins e Lucas Cabral Maciel dançam no espetáculo 23 fragmentos dos últimos dias, em cartaz até 18 no fevereiro no Teatro Silvia Monfort, em Paris. © João Saenger

 

Esperança e arte

As artistas do coletivo, que são também cocriadoras deste espetáculo,  frisam o jeito brasileiro de encarar as mazelas do dia a dia sem perder a esperança.

"A esperança está viva e tem a ver com arte. Parece com coisa inocente, mas é com a esperança que a gente constrói as coisas. E é matando a esperança que a gente destrói as coisas. A esperança é a única arma que a gente tem de construção de um novo mundo. E não é tão utópico, mas algo mais pragmático mesmo: eu preciso saber aonde eu quero chegar para construir os caminhos para ir até lá. Então, a esperança tem um lugar importantíssimo agora", completa Julia Henning.

O espetáculo "23 fragmentos dos últimos dias" deve ser apresentado no Rio de Janeiro e em São Paulo em meados de 2023. 


 
10
Set22

Flaira Ferro: ‘A ignorância é aliada do desmonte da cultura’

Talis Andrade

Flaira Ferro: “A cultura é o que está sustentando algum | Cultura

por Augusto Diniz

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Cantora e compositora conta sobre novo trabalho e diz: ‘É preciso entender qual o jogo político que está por trás do boicote à cultura’. 

O frevo foi sua primeira terra fértil nas artes. Por meio dele e de outros da cultura popular que conviveu no Recife, construiu sua carreira na música. Hoje, Flaira Ferro caminha para o seu terceiro álbum, depois de Cordões Umbilicais (2015) e Na virada da Jiraya (2019). O segundo disco surgiu em um momento delicado, de novo governo, de desmonte da cultura.

“[O disco] veio com força da raiva, de sair do silenciamento, da opressão do corpo feminino, do senso crítico”, diz. “O Áua (nome do terceiro disco) é de buscar e cuidar um dos outros”. 

O novo trabalho é um projeto junto com a cantora paulista Clara Coelho. “Fomos entendendo toda a filosofia que tínhamos em comum. A gente foi bebendo de muitas influências”, afirma. Segundo a cantora pernambucana, o trabalho atual está ligado ao autoacolhimento: “A gente vive num mundo onde tudo é muito descartável. As relações humanas estão muito fragilizadas”.

Da parceria de Flaira e Clara nasceram sete das nove canções do disco. As duas restantes, uma é assinada pela própria Flaira e a outra foi composta em parceria com Juliano Holanda. 

Flaira conta uma curiosidade do disco. O título completo do álbum é Áua: Nove Luas para Nascer Outra Vez (Selo Tropical Gold), com lançamento de uma música por mês (aliás, duas já foram lançadas), fechando um ciclo de gestação. “No meio do processo [de produção], acabei engravidando e teve essa coincidência, sincronicidade. Foi uma surpresa feliz”.

A cantora integra um dos mais importantes coletivos de música surgidos no País nos últimos tempos, o Reverbo, que reúne cerca de 30 cantores-autores do Recife e de outras regiões de Pernambuco. “Ele abraça a diversidade desse mundo que a gente precisa, para deixar de padronizar a canção que muitas vezes a indústria cultural faz",

O grupo, liderado por Juliano Holanda, conta ainda com nomes como Almério, Isadora Melo, Gabi da Pele Preta, Jr. Black, Martins, Sam Silva, Una, entre outros. 

“Não tem alternativa para a vida não ter arte. Entendo a arte como necessidade básica. É a maior forma de resistir a esse desmonte, do pensamento do governo”, diz. “É preciso entender qual o jogo político que está por trás de todo esse boicote à cultura. A cultura faz as pessoas pensarem, sentirem, refletirem. A ignorância é uma aliada do desmonte da cultura. Por isso a gente não pode se silenciar".Programa Espaço Cultural destaca disco de Flaira Ferro nesta quinta-feira |  Paraíba Já

Ignorância é aliada do desmonte da cultura

 
 
11
Abr22

Basta de ordem unida vamos aprender a dançar e cantar o frevo

Talis Andrade

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Nenhuma descrição de foto disponível.

Flaira Ferro

 

O Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares é uma iniciativa do Ministério da Educação, em parceria com o Ministério da Defesa, que apresenta um conceito de gestão nas áreas educacional, didático-pedagógica e administrativa com a participação do corpo docente da escola e apoio dos militares.

O Estado do Paraná da supremacia branca, do racismo, do conservadorismo, do prefeito de Curitiba que tem nojo de pobre, do Ratinho pai que ameaça mulheres de morte, do Ratinho Filho também podre de rico, seguindo a política da extrema direita do governador Richa, danou-se a criar escolas cívico-militares. Foi a represália, o castigo imposto pela ousadia dos estudantes com o Movimento Ocupa Escola.

As escolas cívico-militares é uma pobre compensação, que nas escolas militares impera o corporativismo. A prioridade das matrículas uma herança dos filhos dos militares. 

As escolas cívico-militares ensinam ordem unida, valores do conservadorismo caduco da Tradição, Família, Propriedade - a triunfante TFP da pregação do golpe de 1964, misturada com a Teologia da Prosperidade da campanha bolsonarista de 2018, bem representada pelos pastores dos negócios da educação, e pelos coronéis da vacina na militarização do Ministério da Saúde.Nenhuma descrição de foto disponível.

Ana Júlia Ribeiro Ocupa Escola

 

Duvido nas escolas militares e nas escolas cívico-militares um movimento ocupa escola para prostestar contra o kit robótica (roubótica), para um exemplo. Duvido chegar uma Ana Júlia, que liderou o Ocupa Escola no Paraná, para falar na sala de aula:

"O pior ministro da educação da história acaba de ser exonerado. Milton Ribeiro sucedeu o pior ministro da educação da História, Abraham Weintraub, que sucedeu o pior ministro da educação da história, Vélez, e deve dar lugar, mais uma vez, ao pior ministro da educação da história.

Milton Ribeiro correu e se escondeu pra evitar que o governo sangrasse com mais um escândalo. Mas e agora? Os atos do ex-ministro precisam ser investigados e punidos".

O governo Bolsonaro forma o aluno disciplinado, obediente, subordinado, hierarquizado, nivelado, passivo, decoreba, elogiado pelo comportamento automático, treinado na ordem unida, no passo de ganso. Um estudante robotizado. 

A corrupção do Mec vai além da comelança do dinheiro público. 

Não vou teorizar aqui. 

E sim propor a volta das aulas de História. 

Que a ginástica da ordem unida e as aulas de hinos marciais sejam substituídas pelo frevo. O frevo é ritmo, arte, educação física, ginástica, dança, cântico, poesia, música, cultura popuar, alegria, liberdade, democracia, fraternidade, igualdade, felicidade, (re) união, união, povo. 

Ditadura nunca mais

Tortura nunca mais

Exílio nunca mais

A Democracia não constrói cemitérios clandestinos

06
Abr22

A arma que o povo precisa: o revólver de Flaira, o fuzil de Bolsonaro

Talis Andrade

www.brasil247.com - Aroeira: remando com fuzis, Bolsonaro quer flexibilizar armas

O presidente vem repetindo que “o povo armado” representa um obstáculo para o surgimento de um “ditador"

Propaga Bolsonaro:

Os bandidos estão armados, você não tem paz nem dentro de casa. Eu não consigo dormir, apesar de uma segurança enorme aqui no Alvorada, sem ter uma arma do meu lado.

Quem não quer ter arma, é só não comprar. Não tem problema nenhum. Agora, se estiver sofrendo uma invasão, até pegar o telefone e ligar, muitas vezes a polícia leva horas. Uma arma é sua defesa, ou será que você não se garante? Arma protege a sua vida, sua família. Arma não mata; quem mata é o elemento que está atrás dela.

Eu tenho 2 [fuzis] em casa. Se a mulher sair do quarto, tudo bem. Mas o fuzil fica lá. Tá certo? Ele não sai. E para chegar no meu quarto tem duas portas […] E sempre foi assim a minha vida. Meu tempo de tenente, capitão do Exército, deputado federal. Nunca deixei de dormir com arma em casa.

Dificilmente alguém invade ou rouba uma casa em que há uma arma. A pessoa armada é uma segurança para sua família.  

A arma é inerente à defesa da sua vida e à liberdade de um país. Meus filhos todos atiraram com cinco anos de idade, real, não é de ficção nem de espoleta não, tá ok?

Não há nada de errado em ensinar valores e disciplina aos nossos filhos, pelo contrário, é fundamental e edificante. A bronca de parte da imprensa agora é que não vesti meus filhos de menina, nem incentivei o ensino de sexo para crianças na escola.

equilibrista.jpeg

Canta e encanta Flaira: 

flaira.jpeg

O meu revólver
É um estado de espírito
E o pessimismo
É luxo de quem tem dinheiro
 
A covardia
Impera sob a ignorância
Mas a esperança
É substância pra mudar (é substância pra mudar)
Mudar as coisas de lugar (mudar as coisas de lugar)
 
Uma cidade triste
É fácil de ser corrompida (é fácil de ser corrompida)
Uma cidade triste
É fácil ser manipulada
 
No contra-ataque da guerra, arte!
Pra não viver dando murro em ponta de faca.
No contra-ataque da guerra, arte!
Ninguém nessa terra vai comer farinata
 
Eu quero ver você dizer que
Não vai ter mais frevo
Eu quero ver você dizer que
Não tem frevo mais
 
Eu quero ver você dizer que
Não vai ter mais frevo
Eu quero ver você dizer
Eu quero ver quem vai
 
O frevo é um ser humano
O frevo é o nosso Rock
O frevo é a luta armada
De Zenaide, de Capiba e de Spok
 
Meu corpo é uma cidade
Com pernadas de aço
Pra furar um buraco
Na rocha do egoísmo
A revolta do passo
 
Ferrolho, tramela
Rojão, abre alas
Tesoura, martelo
Espalhando brasa
 
Ferrolho, tramela
Rojão, abre alas
Tesoura, martelo
Espalhando brasa
 
Eu quero ver você dizer que não vai ter mais frevo
Eu quero ver você dizer que não tem frevo mais
 
Uma cidade triste
É fácil de ser corrompida
Uma cidade triste
É fácil ser manipulada
 
No contra-ataque da guerra, arte!
Um corpo liberto deixa a mente afiada
No contra-ataque da guerra, arte!Flaira Ferro | Cifra Club
 

 
 
 
17
Mar22

Flaira Ferro se firma ao soltar o som e a fúria feminina do álbum 'Virada na jiraya'

Talis Andrade

Flaira Ferro se firma ao soltar o som e a fúria feminina do álbum 'Virada na jiraya'Foto Matheus Melo 

 

17
Mar22

Flaira Ferro a mais completa musicista brasileira hoje e sempre

Talis Andrade

flaira.jpeg

 

Redação Maah Music!

 

Além
de cantora, compositora você é bailarina. Conte para os leitores, como foi o
seu envolvimento com cada uma dessa área?

A
memória mais viva sobre meu envolvimento com a dança e com a música vem aos
seis anos de idade, quando brinquei meu primeiro carnaval em Recife, em 1996.
Sou de Recife e lá fevereiro é mês de tradição carnavalesca, a cidade fica em
função da festa. Há uma explosão de manifestações populares, ritmos, danças e
fantasias, o que me seduziu desde o primeiro contato.

A
dança, em especial o frevo, foi minha porta de entrada para o universo das artes.
Fui me interessando, me dedicando, e entrei na Escola Municipal de Frevo do
Recife, tive aulas com o Mestre Nascimento do Passo e nunca mais parei. Aos
poucos, conheci outras linguagens, fiz sapateado, ballet, dança contemporânea e
a dança virou profissão.

Meu
envolvimento com a música e a composição foram consequências diretas dessa
relação com o movimento corporal. Sinto que essas linguagens conversam o tempo
todo entre si, tudo passa pelo corpo.

 


Queria saber um pouco mais sobre seu passado pré-musica. O que você ouvia
quando era pequena? E quando você descobriu seu amor pela musica e composição?

Por
influência dos meus pais, ouvi muita música regional na infância. Coco,
ciranda, maracatu, bumba-meu-boi, forró e frevo sempre foram ritmos presentes
na prateleira de CDs da minha casa. Só vim conhecer música internacional na
adolescência. Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Elis Regina e Raul Seixas eram
os artistas que mais tocavam no som do carro durante as viagens da família pro
interior de Pernambuco.

Meu
pai é um poeta tímido. Apesar de não seguir carreira artística, sempre gostou
de declamar poesias e escrever versos e rimas. Acredito que por influência dele
tomei gosto pela palavra escrita, falada e cantada. Compus minha primeira música
aos 8 anos e descobri esse amor quando percebi que através da composição eu
conseguia desafogar minha energia criativa. Coisas que eu não conseguia dizer
numa conversa ou ideias que eu não desenvolvia na escola iam acumulando na
minha cabeça e desaguavam em poesias e canções. Até hoje é um tipo de escape
que me ajuda a entender meus sentimentos.

 


Há pouco tempo você lançou seu álbum “Cordões Umbilicais”. Como foi a escolha
do nome do álbum e do repertorio do seu novo trabalho?

O
nome do álbum veio da necessidade de dar uma imagem ao afeto. Quando vim morar
em SP tive que me reinventar para me adequar a uma cidade na qual eu não tinha
vínculos afetivos. Conheci a solidão e aliada a ela, paradoxalmente, o
sentimento de não estar só, de estar conectada com todas as pessoas, com a
criação de algo maior, o divino.

Além
das questões existenciais, minha mãe é obstetra e assisti muitos partos feitos
por ela. Um certo dia, após presenciar uma cesariana, saí inspirada e compus
uma música que nomeei Cordões Umbilicais e é também uma faixa do disco.

Quanto
ao repertório, percebi que a temática do autoconhecimento era predominante na
maioria das minhas letras. Selecionei as músicas que mais representavam meu
momento de vida e  organizei o
repertório. O disco é um estado de espírito.Luíza Boê lança “Amanheci” com as participações de Illy e Flaira Ferro -  Gazeta da Semana


No seu álbum você traz 11 faixas de autorais. Qual música do seu cd mais te
representa?

Por
se tratar de um disco inteiramente autoral no qual a maioria das letras são
minhas, cada música é um pedaço do que sinto e penso. Sou tudo que tá lá, o que
muda é a intensidade, eu acho. Tem dias que me vejo mais numa música do que
noutra, por exemplo. Depende.

 


O álbum vem com ritmos bastante brasileiros e você mistura esses ritmos.
Qual  ritmo musical mais te encanta ou
chama sua atenção?

Além
do frevo, eu tenho um carinho especial pelo caboclinho perré e pelo batuque de
umbigada. São ritmos que adoro dançar e me tocam de maneira mais visceral. 

 

Como
foi o processo de composição para o álbum “Cordões Umbilicais”? Alguma
influencia em especial?

Tom
Zé, Elis Regina, Gilberto Gil, Lenine e Bjork são artistas que me influenciam
muito. Mas não teve nenhuma música que pensei em um artistas específico para
compor. Eles estão presentes de maneira inconsciente, tudo que escuto é
referência e alimenta meu processo de composição.

 


No disco você contou com algumas participações especiais.  Como maestro Spok e do pandeirista Léo Rodrigues entre outros. Como foi a escolha das participações especiais?

Conheço
Spok há 12 anos, trabalhamos juntos em vários projetos. Além de excelente
maestro e instrumentista, ele é um grande amigo que a vida me deu. Eu queria
que o disco tivesse um frevo e ninguém melhor do que ele para compor o arranjo
instrumental na faixa Bom dia, doutor cuja letra é de outro grande amigo,
Ulisses Moraes. Já Léo Rodrigues eu o conheci no Instituto Brincante e
tornamo-nos amigos rapidamente. Quando vi ele tocar fiquei encantada com a
propriedade e o domínio do pandeiro de couro. Admiro muito o trabalho dele e o
convidei pra participar na música Mundo invisível. 

 


Como você descrever no geral o seu álbum?

É
uma obra de afeto e um retrato do tempo.

 


Gostaríamos de saber mais sobre seu gosto musical. Quais as 6 músicas
preferidas e o por que?

Como
falei antes, cada música me representa com muita verdade e não tem nenhuma que
eu ache menos importante. Elas estão dentro de um conceito e a ideia de cada
uma agrega à mensagem do disco como um todo. Mas se eu fosse fazer um pocket
show e tivesse que escolher seis músicas, eu escolheria: Templo do tempo, Atriz
Cantora ou dançarina?, Pondera, Me curar de mim, Bom dia, doutor e
Lafalafa.  

 


Fiz duas matérias sobre você aqui no blog. E as criticas foram muito positivas.
Como é para você ver  o carinho do
publico e até mesmo dos críticos musicais falando bem do seu álbum?

É
bom né? Um estímulo, sem dúvida. É gostoso compartilhar algo que ressoa em
outras pessoas de maneira positiva. A coisa vai ganhando outras dimensões,
interpretações e significados. Mas acredito que a aceitação do público nunca deve
ser o objetivo de um artista. A opinião dos outros, positiva ou não, deve ser
apenas consequência daquilo que nasce da verdade de quem cria.

 


Como é seu contato com o publico? Você usar muito as redes sociais para bate um
papo com os fãs? Você acha importante esse contato?

Não
gosto muito da palavra fã como denominação de alguém. Tenho a impressão de que
ela cria uma fronteira entre o público e o artista que não deveria existir.
Tenho pavor desse endeusamento do artista, essa coisa de colocá-lo num pedestal
para se admirar e contemplar, como algo inalcançável.

Sim,
uso muito as redes sociais e quem se interessa pelo meu trabalho e entra em
contato eu adoro trocar ideia. Respondo, pergunto, leio, opino, etc. E é isso
que rola, uma troca constante com quem chega junto.

 


Entrevista quase no final. Quais as próximas novidades, lançamento e agenda de
show?

Recentemente
gravei dois clipes. Um da música Lafalafa, dirigido por Patrícia Black e outro
da música Me curar de mim. Em breve estarei lançando eles nas redes sociais.
Quanto aos shows, as agendas são divulgadas na fanpage e no meu site
flairaferro.com.br

 


Qual mensagem você deixa para os fãs e leitores do blog?

Leiam
a autobiografia de Gandhi.    

 

 

Agora Flaira lança um
clipe, no qual pode, de alguma forma, unir música e dança. Escolheu a canção
“Lafalafa” para inspirar esse primeiro vídeo que foi gravado em junho de
2015, entre as ruas de São Paulo e o Instituto Brincante, espaço onde atua como
artista e professora. 

Os vídeos de dança solo da bailarina
Sylvie Guillem foram grandes fontes de inspiração. O minimalismo, a
simplicidade estética e a pesquisa de intenções de movimento de seu trabalho
clarearam o rumo do que seria o clipe e a performance de Flaira. Como venho da dança
popular e o ritmo de ‘Lafalafa’ é o cavalo-marinho, mergulhei numa pesquisa de
movimentos que partissem dessa matriz. Decidimos que minha atuação se basearia
no improviso, sem coreografia definida
 
explica ela. Quando a música termina, o clipe ainda continua por alguns
instantes. Fique por dentro de todas as novidades sobre a cantora: 

 

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