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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

10
Jan21

Está claro: maluco por maluco, o nosso é muito mais

Talis Andrade

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por Janio de Freitas

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Se não for enfrentado, um poder enlouquecido será cada vez mais autoritário

Na Folha

“Tirar Donald Trump com um impeachment veloz é o único meio de talvez evitar o que seria seu maior feito: aproximar ainda mais os Estados Unidos de uma convulsão. Até a prevista posse de Joe Biden em 20 de janeiro, serão mais de dois meses concedidos a um presidente ensandecido, que acusa de roubo e corrupção o sistema eleitoral e avisa o país de que resistirá ‘até o fim’.”

Aí estão a primeira e a terceira frases do artigo “Trump até o fim, transmitido à Folha em 6 de novembro, ou três dias depois de encerrada a eleição americana, e publicado no domingo 8. Trump e Joe Biden esperariam ainda um mês e sete dias para ver a vitória e a derrota respectivas.

Quatro anos antes, Trump vencera Hillary Clinton no Colégio Eleitoral, mas perdera na preferência (inútil) do eleitorado, iniciando aí as acusações de fraude que prometia provar, e nem estranhezas superficiais apontou. O desespero alucinado da contestação à vitória de Biden, explodindo já na apuração inicial, atualizava e exacerbava quatro anos de mentiras, acusações e ameaças sobre a eleição presidencial. Não precisaria de mais para justificar uma reação altiva das instituições feridas em sua moralidade e do ameaçado teor democrático do regime.

invasão do Congresso decorreu de longo processo de incitação generalizada por Trump contra a democracia de cara americana, até a culminância com o discurso à turba convocada —uma hora e dez de enfurecimento concluído com a ordem de rumo ao Congresso. Mas esse processo não avançou por si só. Nem foi o único a esfolar a democracia à americana e levar à invasão do Congresso.

Trump chegou à Casa Branca como portador de um currículo de trapaças e relações violentas, muitas já condensadas em processos, inclusive falência fraudulenta e volumosa sonegação de impostos —o crime dos crimes, por lá. O programa que propôs foi um amontoado de monstruosidades, incabíveis na índole apregoada da democracia americana: expulsão em massa de latino-americanos; um muro na fronteira sul, com a mesma finalidade do muro de Berlim, que os mexicanos seriam obrigados a pagar; retirada de várias entidades da cooperação internacional; acirramento da crise no Oriente Médio, guerra comercial com a China, e incontáveis outras agressões à incipiente civilização.

O partido e a mídia (sic) republicanos aceitaram muito bem a presença dessa figura delinquente, com seu sonho demente, em eventual presidência do país, dito “a maior democracia do mundo”. E todas as instituições, entidades civis e oficiais com o dever de defesa da democracia e da moralidade política, acompanhadas pelo Partido Democrata, fugiram de suas responsabilidades.

Trump cumpriu grande parte do que programara. O que não fez, substituiu por atitudes e decisões equivalentes em imoralidade e desumanidade. Como a separação de milhares de crianças e seus pais, recolhendo-as ao que nos próprios Estados Unidos foi comparado a campos de concentração. Prática típica do nazismo. Essa e as demais, no entanto, insuficientes para motivar a Justiça americana, o Congresso, a mídia, os setores influentes da riqueza, nem alguns deles, a levantar-se a todo risco para impedir a demência no poder, antes que se tornasse a demência do poder.

Donald Trump teve caminho livre para ser Donald Trump, mesmo quando despontou uma tentativa de reação democrata, sob a forma de impeachment derrotado.

Está claro: um poder enlouquecido de autoritarismo, ambição e desumanidade, se não for enfrentado e vencido cedo, será cada vez mais autoritário, ambicioso e desumano.

Está claro: por perturbadoras que sejam, medidas como interdição e impeachment serão sempre menos danosas à população, ao presente e ao futuro do país, do que a omissão fugitiva dos guardiães das conquistas democráticas, se agredidas ou postas em perigo —institucional ou social.

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ESTÁ CLARO

Maluco por maluco, o nosso é muito mais.

10
Jan21

Trump, Jair e Tracajá: com o fiofó na mão

Talis Andrade

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por Ribamar Bessa Freire /Taqui Pra Ti

Quase todos os jornalistas da editoria de internacional, nos anos 1930-40, exibiam suas próprias fotos nas colunas portando um indefectível cachimbo na boca ou um charuto, o que lhes dava ar de especialista no assunto. Numa polêmica com um deles, Leon Trotsky ironizou:

– Esse cara, só porque fuma cachimbo, crê que pode explicar o que acontece no mundo.

Não fumo cachimbo, nem charuto. Não sou, portanto, capaz de avaliar a invasão do Congresso dos EUA nesta quarta-feira (6) por uma horda de neofacistas e supremacistas brancos insuflados por Donald Trump. Tentativa de golpe? Terrorismo doméstico? Insurreição? Sei lá. O que sei se limita às contraditórias versões do noticiário televisivo. Confesso que para mim política internacional é como química inorgânica: não entendo bulhufas.  

No entanto, por via das dúvidas, pego o meu petynguá guarani, dou uma baforada e assim me qualifico para tentar entender, pelo menos, por que Trump, sempre tão truculento e arrogante, afinou o bico de quarta para quinta-feira e ficou tão submisso e comedido. Só isso. E não precisa ser comentarista internacional para tal sondagem. Basta recorrer à experiência de vida no bairro de Aparecida, em Manaus, que já viveu tudo o que acontece ou ainda vai acontecer no mundo, como comprova a briga de vizinhos e a mudança súbita do velho Luís Tracajá em processo similar ao de Trump.   

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Mister Tracajá

Deixa-me te apresentar o mister Luís. Alguém deu-lhe o apelido de Tracajá, por causa da cabeça totalmente careca cheia de manchas amarelas idênticas às existentes na carapaça convexa e ovalada do quelônio irmão da tartaruga amazônica – o tracajá – que dá um sarapatel supimpa com sua carne saborosa.

O nosso Luís Tracajá morava na rua Gustavo Sampaio. O quintal do seu vizinho João Barbosa era um pouco mais elevado e quando chovia a água escorria para lá e daí vazava muito devagar para o vizinho do outro lado, o Nardo Treme-Treme, escoando em seguida para o quintal da Leonor e depois para a rua.

Inconformado com o tempo lento de escoamento, Tracajá aproveitou a missa do sétimo dia de morte do velho Barbosa, quando não ficara ninguém na casa vizinha, e convocou o exército que comandava formado por seus filhos Pé-de-pincha, Boca-livre, Pororoca e Pretinho. Ordenou que invadissem o quintal vizinho e bloqueassem com cimento a passagem da água. Na primeira chuva, o lago não drenado adentrou a casa da dona Elisa, que diante da inundação, pegou um cano e abriu furos no muro para facilitar a drenagem.

Armou-se um tremendo bafafá. Tracajá a ameaçou com uma nova obstrução. Ela, valente, contestou:   

– Eu quebro o seu casco se o senhor tapar outra vez – dizia, brandindo o cano de ferro.

– Seu marido era um cachaceiro vagabundo – xingou Tracajá, conhecido por ser supersticioso e por temer as almas do outro mundo, em cuja presença acreditava piamente.  

Foi aí que o filho da dona Elisa, de 14 anos, deu o xeque-mate:

–  Seu Tracajá, a alma do papai vai vir para infernizar sua vida.

Encagaçado e tremebundo, ele recuou:

– Retiro o que disse, vizinho. Retiro o que disse.

Eis o que eu queria dizer: a frase que circula até hoje na família pode explicar o recuo de Trump.

Retiro o que disse

O inquilino da Casa Branca tachou as eleições que o derrotaram de fraudulentas, sem qualquer prova, e empenhou-se em desmoralizar o sistema eleitoral americano, o mesmo que o elegera há quatro anos. Com retórica hostil e falaciosa, usou as redes sociais para açular um bando de delinquentes armados a invadirem o Capitólio, com o objetivo de impedir a certificação da vitória de Biden, numa operação que resultou em cinco mortes, mais de 50 feridos e quebra-quebra generalizado, além de roubo de computadores dos congressistas e apreensão de armas.

No discurso que fez em frente à Casa Branca para uma turba exaltada e armada, além de uma declaração de amor ‘We love you’, buscou cumplicidade com os manifestantes, vaticinando que “nunca concederiam a vitória a Biden”, dando sentido à ação dos depredadores. Entre eles, havia militantes supremacistas brancos armados do grupo Proud Boys e outros vestidos com camisas “Nós somos Qanon”, uma apologia à organização de extrema-direita para quem Trump é o comandante de uma delirante “luta contra uma rede de pedófilos adoradores de Satanás infiltrados na imprensa e no próprio governo”.  

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A insensatez criminosa de Trump foi condenada unanimemente por representantes de diferentes instituições, nacionais e internacionais e até por membros do seu próprio partido, além das redes sociais que bloquearam suas contas. A possibilidade de ser chutado pra fora do poder sem concluir o mandato que se esgota em pouco mais de uma semana, a chance de ser incriminado e processado, inclusive corresponsabilizado por 5 mortes, fizeram com que Trump, com o fiofó na mão, afinasse a sua voz. Depois da merda feita, aconselhado por seus advogados, ele mudou seu discurso radicalmente e abandonou seus apoiadores à própria sorte:  

– Aos que se engajaram em atos de violência e de destruição, eu digo que vocês não representam o nosso país. Para aqueles que desrespeitaram a lei, vocês irão pagar.

É o caso dele, que desrespeitou a lei. Que pague!

Cadê aquele Trump todo poderoso, agressivo e racista, homofóbico e mentiroso? Foi um prazer inenarrável ver aquela petulância derreter.

Trumpinho de igarapé

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A atitude de Trump é o sonho de consumo de Jair, o Trumpinho de igarapé que sempre demonstrou submissão incondicional e vergonhosa ao seu ídolo americano. Por enquanto, ainda rosna aquela retórica falaciosa, jura que a eleição de 2018 na qual foi vitorioso foi fraudada: “Tenho provas em minhas mãos que vou mostrar brevemente” – ele disse num evento em novembro de 2019 em… Miami. Foi o único dirigente de um país que não condenou a invasão ao Capitólio e ainda fez ameaças: “Se o Brasil não voltar ao voto impresso, enfrentará problema pior que nos Estados Unidos”.

Seu ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, permaneceu mudo e só muito depois dos acontecimentos, não em nota oficial, mas no twitter, assumiu parcialmente o “retiro o que disse, vizinho”. Declarou que “há que se lamentar e condenar” as manifestações de seus comparsas de extrema direita nos Estados Unidos, mas orientou o FBI a “investigar se houve participação de elementos infiltrados na invasão”. Vai ver, petistas se infiltraram e promoveram o quebra-quebra para culpabilizar Trump.

Bolsonaro e Ernesto Araújo expõem o Brasil ao ridículo no cenário internacional ao seguir caninamente essa eloquência fajuta, fazendo pronunciamentos em nome próprio, que estão muito longe de uma postura republicana.

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Que ninguém se impressione com o discurso do Trumpinho de igarapé. O Brasil, que já ultrapassou 200 mil óbitos, é o segundo país do mundo em número de mortos por Covid: Brasil acima de tudo! Perde apenas para os Estados Unidos – America First – com 370.000 vítimas. As almas de mais de 570 mil mortos irão infernizar a vida dos dois. Todo Trump – ouviu Jair? – tem seu dia de Tracajá.

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29
Nov20

Fraude em pesquisa no RS já devia ter gente presa

Talis Andrade

 

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Extrema direita mela campanha com

pesquisa falsa na véspera da votação

por Fernando Brito

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O Brasil já teve regras que proibiam pesquisas eleitorais a menos de 15 dias das eleições, sob o fundamento de que terminavam por influenciar o eleitor indeciso a “apostar no cavalo vencedor”.

Naquela época, os colunistas de jornal, com informações privilegiadas, gostavam de dizer que “o elevador do candidato tal subiu dois andares” e “o do candidato qual desceu três”.

Liberaram-se as pesquisas sob o argumento de que os institutos de pesquisa eram sérios e os meios de comunicação mais ainda.

Mas o Tribunal Superior Eleitoral e os regionais passaram a ser fiadores das responsabilidades dos que faziam e divulgavam as pesquisas, a partir da obrigatoriedade de que fossem registradas lá.

Portanto, a divulgação de uma pesquisa falsa pela rede Bandeirantes – atribuindo-a ao Datafolha – dando a vitória ao candidato Sebastião Melo em Porto Alegre não é só um crime de fraude à opinião pública como, também, uma ofensa à Justiça Eleitoral.

E, até agora, não se viu uma ação do Ministério Público Eleitoral para descobrir a autoria deste crime.

Só o que há é uma “correção” da Band: “Diferente do que foi publicado anteriormente pelo Band.com.br, não houve pesquisa de intenção de voto para o segundo turno de Porto Alegre (RS) do instituto Datafolha divulgada neste sábado”.

Não houve e a Band publicou?

Não há sigilo de fonte, neste caso. A emissora precisa explicar quem lhe trouxe a informação e exlipar porque a suposta confiabilidade da fonte a dispensou da checagem.

É preciso saber quem levou números falsos, indicando a vitória de Melo, e a mando de quem o fez.

 
18
Nov20

Pai, irmão e cunhada da bolsonarista Zambelli não se elegem

Talis Andrade

 

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Para levar vantagem em tudo, e imitar o mito, a deputada federal Carla Zambelli lançou candidaturas familiares para mamar nas burras do Estado. 

Tal como acontece com Bolsonaro pai, presidente Zero Zero, que elege: o filho mais velho Flavio Bolsonaro 01 senador, o segundo filho Carlos Bolsonaro 02 vereador do Rio de Janeiro, o terceiro filho Eduardo Bolsonaro 03 deputado federal por São Paulo.

Rogeria Bolsonaro, mãe dos marmanjos, candidata a vereador, foi derrotada no dia 15 último, pelos eleitores cariocas. 

Clã Zambelli

A bolsonarista Zambelli, afilhada de Sergio Moro, justifica:

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Esse nepotismo eleitoral constitui uma mamata que precisa ter fim. Ser combatido pelo povo nas urnas.

Publica UOL:

Pai, irmão e cunhada da deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) bem que tentaram, mas não conseguiram se eleger durante as eleições deste ano, segundo resultados apontados pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

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Em São Paulo, o seu irmão, Bruno Zambelli, se candidatou para vereador pelo PRTB. Conseguiu apenas 12.302 votos, ou 0,24%, número insuficiente para conquistar uma cadeira na Câmara Municipal.

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Também derrotado, o pai, João Hélio Salgado (Patriota), tentou uma vaga como vice-prefeito em Mairiporã, cidade localizada na Região Metropolitana de São Paulo. Ao lado de Major Paulo (Patriota), a chapa alcançou apenas 9,83% —o eleito, neste caso, foi Aladim (PSDB).

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A cunhada, Tatiana Flores Zambelli, também tentou uma vaga como vereadora em Mairiporã, mas não conseguiu. Registrou apenas 190 votos, ou 0,45%.

Nos três casos, a deputada federal "emprestou" a sua imagem aos candidatos de sua família, promoveu engajamento e publicou vídeos nas redes sociais pedindo votos. "O meu irmão é candidato na raça e a gente precisa da ajuda de vocês", disse ela, em um dos vídeos publicados no Instagram.

"Damos o sangue para combater as injustiças. Mas o compromisso é dele. Não é só comigo, é com você. Por transparência, por ética, pela luta dos nossos direitos e garantias individuais", completou.

Cobrou a militância

No Twitter, Zambelli demonstrou irritação com os resultados apresentados nas urnas, de forma geral, e cobrou a militância. "O que houve com os conservadores? Erramos, nos pulverizamos ou sofremos uma fraude monumental?", escreveu ela, em seu perfil.

E a reclamação de Zambelli faz sentido: além da derrota particular, os conservadores não conseguiram eleger a maioria dos prefeitos que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) apoiou nas eleições municipais —somente quatro se elegeram ou foram para o segundo turno.

Carla Zambelli
@CarlaZambelli38
O que houve com os conservadores? Erramos, nos pulverizamos ou sofremos uma fraude monumental?
06
Abr20

Um vírus que se trai, e morre. Por Janio de Freitas

Talis Andrade

 

Os interessados no ato contra o Congresso e o Supremo persistem no seu propósito

A receosa intranquilidade de muitas das pessoas mais informadas e experientes, no decorrer da semana, teve motivos que o coronavírus, paradoxalmente, abrandou. Mas só por um tempo incerto.

O conjunto de indícios comuns a investidas antidemocráticas fez concluir por um alto risco: a propensão do ato contra o Congresso e o Supremo, marcado para hoje, de tornar-se movimento de agitação de massa — sem controle do seu desenvolvimento, como é próprio das ações de turbas incitadas.

O coronavírus esvaziou o ato, sem deixar dúvida de que os interessados, os organizadores e os empresários pagadores persistem no seu propósito.

Por vias institucionais, o caminho lhes é hostil, com Câmara e Senado mostrando-se mais altivos do que as últimas legislaturas. O bolsonarismo crente ou ganancioso é parte da massa pastosa que se amolda a qualquer sedução esperta ou endinheirada. É a alternativa, portanto.

Bolsonaro esperou sair de Brasília para, em Boa Vista no sábado (7), deixar de fingir-se alheio à manifestação contra as duas principais instituições democráticas, e chamar o povaréu a engordá-la.

A convocação original era explícita contra o Congresso e o Supremo, e ainda engrossava suas intenções com menção ao general Heleno, remanescente do mais antidemocrático na ditadura.

Já em Miami, na segunda (9) Bolsonaro desfecha o seu avanço contra o Congresso, em torno da distribuição de verbas orçamentárias. Paulo Guedes e o general Luiz Eduardo Ramos haviam chegado a um acordo com as lideranças parlamentares, mas Bolsonaro tanto o aceitou como logo o desmoralizou. Com o apoio do vernáculo de sarjeta do irado general Heleno contra o Congresso. Reduzir o acordo a uma crise de fundo institucional foi ato conjugado, assim como a data. A investida dos dois foi informativa nesse sentido.

Bolsonaro seguiu adiante. Ou para trás. Além de outras estocadas no Congresso, ainda nos EUA voltou, de repente, à acusação de fraude nas eleições presidenciais de 2018. Ele, como vítima. E, hoje, “com provas”, que não exibiu nem explicitou. Ataque direto à Justiça Eleitoral, mas não só: ataque ao Judiciário, logo, às instituições vigentes.

No Brasil, mais atividade bolsonarista em torno da manifestação convocada, exibindo-se já alguns cartazes definidores: “Intervenção militar já”, “Intervenção sem Congresso e Supremo”, e outras não menos eloquentes.

confronto governo/Congresso cresceu, a especulação financeira aproveitou e acionou o lucrativo desce-sobe da Bolsa, Bolsonaro usou o tema para mais um ataque à imprensa por notícias de crise: “Durante o ano que se passou, obviamente temos momentos de crise”.

Esse que chegou a capitão do Exército não consegue expressar nem a ideia mais simplória. Como sempre, falatório longo, esticando, em todos os sentidos da palavra, desinteligências. E mais um tema.

Necessário, porque o coronavírus levava à suspensão de muitas atividades mundo afora, e era preciso evitar, não a expansão do vírus no Brasil, mas a proibição de aglomerações como a manifestação antidemocrática. “Coronavírus não é tudo isso, muito do que tem ali é fantasia, a questão do coronavírus, que não é tudo isso que a grande mídia propaga. O que eu ouvi até o momento outras gripes mataram mais do que esta”. Era o melhor estilo Bolsonaro, a serviço da grande causa: manter a manifestação.

Não deu. Ainda houve tempo para que Deltan Dalagnol aderisse com um ataque ao Congresso e ao Supremo, que “dificultam a a tarefa da Lava Jato”. É, só fechando. Um dia o coronavírus acaba. Como disse Bolsonaro em rede social, “daqui a um mês, dois meses, se faz. Foi dado um tremendo recado”.

De fato. Quem não o quiser ouvir, perde por antecipação as condições de defesa caso se depare com quebra-quebras, empastelamentos, violências pessoais, a ferocidade das PMs bolsonaristas, das milícias formais e das informais que se coordenavam em São Paulo e Rio. Ou mais do que isso. Porque, como diz Bolsonaro, “daqui a um, dois meses, se faz”.

O coronavírus traiu seu destino perverso, mas também ele morre.

Os encobertos

Aparece, então, a presença de um contingente do FBI com os patriotas da Lava Jato curitibana. Tardou menos do que o habitual. Faltam agora os aparecimentos da CIA e dos grampos clandestinos da NSA, a agência das já conhecidas gravações de presidentes brasileiros, ministros e outros.

A soberania brasileira é furada como o corpo de uma vítima dos heróis milicianos da família Bolsonaro.

Destaque: Coppo di Marcovaldo, Inferno (1260-70). Fragmento de mosaico do teto do Batistério de Florença

Publicado na Folha, no Combate, no dia 15 de março de 2020

 

14
Mar20

Guedes usa vírus para “apressar” entrega do BC

Talis Andrade

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Vigarista quer acelerar o controle do BC pelo cartel financeiro e a entrega da Eletrobrás e Correios às multinacionais. Tudo para “combater” o coronavírus

Uma das medidas “urgentes” enviadas por Paulo Guedes ao Congresso Nacional, supostamente para enfrentar a crise econômica, agravada pela epidemia do Covid-19, o projeto sobre autonomia do Banco Central, mostra bem quais são as “preocupações” do governo Bolsonaro e a que interesses ele está se dedicando. Há uma pergunta que não quer calar.

Qual a ligação da autonomia do Banco Central, que Guedes quer que seja votada com urgência, com as necessidades imediatas de ampliação de leitos hospitalares, contratação de mais médicos, mais enfermeiros, remédios, etc, para enfrentar a epidemia? Nenhuma. Eles estão se aproveitando da crise que eles mesmos provocaram para acelerar a destruição do país.

Estão preocupados em garantir que o Banco Central, um dos últimos no mundo a reduzir as taxas de juros, seja totalmente controlado pelo cartel financeiro. Que não haja nenhuma interferência da população, através de seus representantes eleitos, naquilo que eles decidem. O setor, que se esbaldou em lucros recordes enquanto o país patinava na recessão e na estagnação, não está satisfeito. Ele quer mais. Os três maiores bancos privados do país lucraram R$ 68 bi em 2019, na esteira da crise.

Os banqueiros querem total autonomia para fazer o que bem entenderem. Leia-se arrancar o couro dos brasileiros. Que se dane a epidemia, que se dane o desemprego, que se dane o país. Surdo para os reclamos de medidas para enfrentar a crise, para fazer o país voltar a crescer, Guedes se empenha com urgência em aprovar esse pleito dos banqueiros.

O PLP 19/2019, que Guedes pediu pressa na votação, trata dos mandatos de duração determinada para o presidente e os diretores do BC. Atualmente, esses cargos são de indicação da Presidência da República. No modelo proposto, os mandatos seriam de quatro anos, e a dispensa só seria possível em casos de condenação judicial ou desempenho insuficiente.

Nessa última hipótese, o Senado precisaria concordar com a decisão. O poder eleito não teria nenhuma interferência na indicação de membros do BC, que vão definir o preço do dinheiro, quanto dinheiro haverá em circulação, e outra medidas fundamentais para a vida econômica do país. Ou seja, o presidente e os parlamentares eleitos não teriam nenhuma interferência nesses assuntos. Poderão discutir tudo, menos o que mais interessa para a vida das pessoas e da economia.

ELETROBRÁS E CORREIOS

Outras medidas “emergenciais” do governo vão no mesmo sentido. Só que desta vez, os felizes agraciados são as multinacionais. Guedes disse que o coronavírus exige pressa na privatização da Eletrobrás e dos Correios. Ele está afoito para entregar essas duas empresas públicas altamente lucrativas e estratégicas para o capital estrangeiro. O que isso tem a ver com o coronavírus ninguém sabe.

Apressar a entrega de empresas públicas por causa da pandemia é coisa de vigarista, de charlatão. É claro que de Guedes, um vigarista dos mais conhecidos nas hostes financeiras, assaltante de fundos de pensão, só se poderia esperar medidas como essa. O Congresso começa a dar sinais que já percebeu tudo isso.

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13
Mar20

Associação de Juristas pede ao TSE início de processo contra Bolsonaro

Talis Andrade

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O presidente disse nos EUA possuir provas de que houve fraude nas eleições de 2018 e de que ele teria vencido as eleições no primeiro turno

A ABJD (Associação Brasileira de Juristas pela Democracia) protocolou nesta quinta-feira, 12, uma representação (acesse a íntegra) no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) solicitando a instauração de processo administrativo para que se apure as declarações do Presidente da República, Jair Bolsonaro, de que teria ocorrido fraude no processo eleitoral de 2018.

A entidade pede que o chefe do Executivo seja notificado para que apresente as provas que afirma possuir. Caso seja verificada a improcedência da acusação, que o Tribunal tome as ações necessárias para responsabilizar Bolsonaro. Além disso, a ABJD irá requerer uma audiência com a presidente do TSE, ministra Rosa Weber.

Em pronunciamento feito em Miami, nos Estados Unidos, no último dia 9 de março, o presidente disse que possui evidências de que o último pleito foi fraudado e que sua eleição, de fato, se deu em primeiro turno.

“A acusação do Presidente da República coloca em dúvida a instituição [Justiça Eleitoral] com competência pela lisura do processo eleitoral, bem como a instituição que tem a responsabilidade de garantir a transparência, a eficiência e a neutralidade na administração do jogo eleitoral”, reforça a ABJD.

A Associação destaca que após 30 minutos de discurso, Jair Bolsonaro seguiu sem apresentar indícios concretos, ou, ao menos, uma descrição mais precisa do que havia chamado de “fraude eleitoral” na eleição de 2018. Para os juristas, uma mentira difusa e sem nenhuma comprovação em fatos, praticada com o objetivo de obter meios e instrumentos de poder político em detrimento da Justiça Eleitoral, mediante restrição à confiabilidade no pleito eleitoral, constitui uma conhecida tática de política fascista que não traz resposta aos problemas diários da população, cujo fim é obter ilegítimo poder político, uma vez que contraria as regras democráticas.

A ABJD sustenta que as acusações de fraude eleitoral colocam em dúvida a própria democracia brasileira, em sua forma mais pura de expressão: o voto popular. “Deslegitimar o voto popular é desacreditar toda organização dos poderes de nosso país. As acusações proferidas pelo Presidente da República nos parecem caracterizar conduta passível de responsabilização”, conclui.

 

12
Mar20

A resposta acovardada do TSE

Talis Andrade

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por Jeferson Miola

Dos EUA, Bolsonaro lançou a grave suspeita de que só não foi eleito no 1º turno da eleição de 2018 porque ocorreu fraude. Ele foi peremptório na acusação à justiça eleitoral brasileira:

“Eu acredito que, pelas provas que tenho nas minhas mãos e que vou mostrar brevemente, eu fui eleito em primeiro turno, mas no meu entender houve fraude, né?! E nós temos não apenas palavra, nós temos comprovado, brevemente eu quero mostrar, porque nós precisamos aprovar no Brasil um sistema seguro de apuração de votos”.

Bolsonaro sabe que a eleição de 2018 foi fraudada. Mas a fraude foi montada justamente para favorecê-lo, não para prejudicá-lo.

A grande fraude daquela eleição foi o impedimento da candidatura do Lula, que venceria o pleito no 1º turno, como indicavam os institutos de pesquisa.

E outro fator fraudulento que também favoreceu Bolsonaro foi a conivência da justiça eleitoral com a disseminação de fake news através mensagens por WhatsApp, cujo impulsionamento foi financiado por empresários com caixa 2 eleitoral.

A nota publicada pela presidente do Tribunal Superior Eleitoral [íntegra aqui], ministra Rosa Weber, é um atestado do nível de amedrontamento e covardia do poder judiciário diante de Bolsonaro.

A nota trata a acusação de fraude feita por Bolsonaro como “a recente notícia, replicada em diversas mídias e plataformas digitais, quanto a suspeitas sobre a lisura das eleições 2018”.

E, ao invés de exigir do presidente-acusador a imediata apresentação das “provas que tenho nas minhas mãos e que vou mostrar brevemente”, com incrível cortesia a nota do TSE declarou que “naturalmente, existindo qualquer elemento de prova que sugira algo irregular, o TSE agirá com presteza e transparência para investigar o fato”.

Esta reação tíbia e covarde do TSE é tão grave quanto à acusação de fraude feita por ninguém menos que o presidente da República, que ainda disse que “e nós temos não apenas palavra, nós temos comprovado, brevemente eu quero mostrar, porque nós precisamos aprovar no Brasil um sistema seguro de apuração de votos”.

Bolsonaro testa, constantemente, a resistência ao seu intento golpista. Ele ataca os poderes de Estado, esgarça o limite de tolerância do sistema jurídico-político e, como as reações não são equivalentes à gravidade da violência política e institucional perpetrada, passo-a-passo Bolsonaro sobe um degrau na escala do seu plano ditatorial.

A resposta acovardada do TSE à grave acusação do Bolsonaro, uma vez que cria um “novo normal” aceitável, impulsiona o plano ditatorial do Bolsonaro.

Se não apresentar as provas correspondentes, Bolsonaro terá cometido mais um crime de responsabilidade e colecionará, em vista disso, mais um motivo para ser afastado da presidência do país pelo Congresso e pelo STF. Isso, naturalmente, se não continuarem se acovardando por completo.

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11
Mar20

Bolsonaro mentiroso: diz que teve fraude nas eleições presidenciais e que coronavírus "muito mais fantasia" da imprensa

Talis Andrade

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A presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministra Rosa Weber, sem citar o nome de Bolsonaro, reagiu nesta terça-feira, 10, à gravíssima acusação de fraude nas eleições presidenciais:

"Naturalmente, existindo qualquer elemento de prova que sugira algo irregular, o TSE agirá com presteza e transparência para investigar o fato".

Bolsonaro declarou que tem as provas (plural). E agora TSE? E agora ministra Rosa Weber?

Escreve Reinaldo Azevedo: "Augusto Aras, procurador-geral da República e procurador-geral eleitoral, está obrigado a pedir à PF que abra um inquérito para apurar a denúncia feita por Jair Bolsonaro, segundo quem houve fraude na eleição de 2018, e ele estaria de posse das provas.

Ocorre que o presidente está contando uma mentira. E prova, pois, ele não tem. É claro que cabe uma denúncia por crime de responsabilidade, com base da Lei 1.079, a do impeachment. Qualquer um do povo pode fazê-lo. O primeiro juízo de admissibilidade é do presidente da Câmara. Hoje, a coisa não prosperaria na Câmara, ainda que Maia a admitisse. Como já expliquei aqui, para que chegasse ao Senado, teria de contar com o apoio de dois terços dos deputados. Por enquanto, não há esse número. Mas Bolsonaro faz um esforço danado para chegar lá.

Só para deixar claro: o presidente comete crime de responsabilidade quando denuncia uma fraude eleitoral que não houve e quando faz chantagem aberta com os respectivos presidentes da Câmara e do Senado: 'Ou fazem o que eu quero, ou jogo as ruas contra vocês e o Parlamento'.

Veremos se temos, de fato, um procurador-geral que honra o cargo se, depois de o inquérito da PF não chegar a lugar nenhum e de ficar claro que Bolsonaro conta uma mentira quando diz dispor das provas, Aras terá a clareza e o discernimento de apresentar ao Supremo uma denúncia contra o presidente da República por crime comum". Citei trechos. Leia mais

Outra mentira de Bolsonaro também grave: a "questão do coronavírus" não é "isso tudo" e se trata muito mais de uma "fantasia" propagada pela mídia no mundo todo.

Irresponsável e criminosamente, o presidente vem conclamando o povo a participar de marchar nas principais cidades, pelo fechamento do Congresso e do Superior Tribunal Federal, no "dia do foda-se", domingo próximo, 15 de março. 

Veja as manchetes de hoje da imprensa no mundo todo. 

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Bolsonaro pretende levar o gado dele para o matadouro do coronavírus

 

11
Mar20

Ministra Rosa Weber responde para Bolsonaro que denunciou fraude nas eleições presidenciais: "Existindo prova TSE agirá com presteza e transparência"

Talis Andrade

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Ao participar de um evento na Flórida, Estados Unidos, nesta segunda-feira 9, Jair Bolsonaro desacreditou o TSE e disse ter provas de que foi eleito no primeiro turno nas eleições de 2018.

“Eu acredito que, pelas provas que tenho nas minhas mãos e que vou mostrar brevemente, eu fui eleito em primeiro turno, mas no meu entender houve fraude”, declarou.

A presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministra Rosa Weber, sem citar o nome de Bolsonaro, reagiu nesta terça-feira, 10, à gravíssima acusação:

"Ante a recente notícia, replicada em diversas mídias e plataformas digitais, quanto a suspeitas sobre a lisura das eleições 2018, em particular o resultado da votação no 1º turno, o Tribunal Superior Eleitoral reafirma a absoluta confiabilidade e segurança do sistema eletrônico de votação e, sobretudo, a sua auditabilidade, a permitir a apuração de eventuais denúncias e suspeitas, sem que jamais tenha sido comprovado um caso de fraude, ao longo de mais de 20 anos de sua utilização.

Naturalmente, existindo qualquer elemento de prova que sugira algo irregular, o TSE agirá com presteza e transparência para investigar o fato. Mas cabe reiterar: o sistema brasileiro de votação e apuração é reconhecido internacionalmente por sua eficiência e confiabilidade. Embora possa ser aperfeiçoado sempre, cabe ao Tribunal zelar por sua credibilidade, que até hoje não foi abalada por nenhuma impugnação consistente, baseada em evidências.

Eleições sem fraudes foram uma conquista da democracia no Brasil e o TSE garantirá que continue a ser assim."

 

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