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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

04
Ago21

Mídia francesa destaca reação do TSE às ameaças de Bolsonaro às eleições de 2022

Talis Andrade

O diário Le Monde repercute a decisão do Tribunal Superior Eleitoral de investigar o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.

O diário Le Monde repercute a decisão do Tribunal Superior Eleitoral de investigar o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. © Fotomontagem RFI/Adriana de Freitas

A decisão do Tribunal Superior Eleitoral de investigar o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, recebeu destaque na mídia francesa nesta terça-feira (3). O diário Le Monde repercute esta investigação que irá determinar se o líder de extrema direita cometeu “abuso de poder, uso indevido da mídia, corrupção e fraude” em seus ataques ao sistema de votação eletrônica e à legitimidade das eleições.

Le Monde menciona a Folha de São Paulo que classifica esta como "a ação mais contundente" contra Bolsonaro "desde que ele começou a ameaçar o pleito de 2022", citando a decisão do TSE anunciada nesta segunda-feira (2).

O jornal acrescenta que a alta justiça eleitoral também concordou em pedir ao Supremo Tribunal Federal que investigue o presidente por espalhar notícias falsas sobre as eleições durante sua transmissão ao vivo pelo Facebook na última quinta-feira (29). Por mais de duas horas, ele disse que estava convencido de que houve fraude nas duas últimas eleições presidenciais.

A investigação do TSE determinará também se Bolsonaro cometeu crimes de "veto a funcionários públicos e propaganda extemporânea em seus ataques ao sistema de votação eletrônica e à legitimidade das eleições gerais de 2022”.

Já o jornal Le Figaro explica que o chefe de Estado, que busca a reeleição, não defende o retorno ao voto por cédula de papel, mas sim a impressão de recibo pela urna eletrônica para que cada voto possa ser recontado em caso de litígio.

Discurso que repercute em parte de seu eleitorado. Lembrando que no último domingo (1), milhares de pessoas se manifestaram em diversas cidades do Brasil, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, a favor do voto impresso.

O desgastado e o imbecil

Desgastado pela gestão caótica da pandemia e por uma investigação preliminar de "prevaricação", que o acusa de fechar os olhos às suspeitas de corrupção na compra da vacina Covaxin, o presidente não participou diretamente dos protestos, mas fez um discurso em videoconferência em que reafirmou que não aceitaria eleições que não fossem "limpas e democráticas".

Já o La Croix lembra que, há semanas, Bolsonaro já havia levantado protestos ao semear dúvidas sobre a realização da votação de 2022. "Ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não haverá eleições", disse ele, que chamou o presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, de "imbecil", quando esse argumentou que imprimir recibos em papel poderia expor o voto "aos riscos de manipulação do passado".

Para analistas consultados pela Agence France-Presse, ao questionar o sistema eleitoral, o dirigente de extrema direita prepara o terreno para contestar o resultado em caso de derrota, como fez o ex-presidente americano Donald Trump, de quem Bolsonaro é um admirador fervoroso.

Na manhã de segunda-feira (2), Barroso e todos os seus antecessores desde a promulgação da Constituição em 1988 assinaram um documento que garante a transparência e a segurança do sistema de votação eletrônica, em vigor desde 1996.

07
Jun21

Empresário é condenado a pagar R$ 300 mil por oferecer cloroquina a funcionários na França

Talis Andrade
Esta foto de arquivo, tirada em 20 de maio de 2020, mostra um frasco e comprimidos de hidroxicloroquina no balcão de uma farmácia em Provo, Utah, Estados Unidos.
Esta foto de arquivo, tirada em 20 de maio de 2020, mostra um frasco e comprimidos de hidroxicloroquina no balcão de uma farmácia em Provo, Utah, Estados Unidos. AFP/Archivos

Uma multa de € 50 mil (mais de R$ 300 mil) foi exigida na quinta-feira (3) em um tribunal francês do fundador de um importante grupo de empresas do setor químico da França, julgado por ter oferecido comprimidos de cloroquina a seus funcionários durante a pandemia de Covid-19. O uso do produto contra a Covid-19 é proibido na França.

René Pich, 80, foi processado por exercício ilegal das profissões de farmacêutico e médico, aquisição ilícita de drogas, contrabando e porte de substâncias tóxicas, e compareceu por quase seis horas ao tribunal durante o julgamento na França.

A investigação foi aberta no início de abril de 2020 após um relatório da Inspetoria do Trabalho na região do Loire (centro), desencadeado por uma nota do réu informando 384 membros da administração da SNF, uma empresa global de tratamento de água, sobre a aquisição de comprimidos de fosfato de cloroquina, que ele colocava à disposição dos funcionários.

René Pich, que continua trabalhando e goza de uma influência importante dentro da empresa, criada há mais de 40 anos, havia adquirido esses 1.200 tabletes de comprimidos de cloroquina, produzidos na Índia, por meio de uma plataforma canadense na internet.

No tribunal, ele confessou que não deveria tê-lo feito, afirmando no entanto, sem convencer o Ministério Público ou as partes civis, de ter encomendado o produto "com o fim de salvar vidas, num contexto de escassez da substância", sem saber que se tratava de um produto reservado à utilização exclusiva com receita médica.

Pleiteando sua liberação, os advogados do empresário argumentaram que nenhum dos 1.350 funcionários franceses do grupo havia tomado os comprimidos de cloroquina encomendadas por Pich pela internet.

“Seria difícil para mim ser gerente de recursos humanos da sua empresa, senhor Pich”, ironizou o representante do Ministério Público, André Merle, em relação ao réu, que se encontra em conflito aberto com os sindicatos de trabalhadores há anos na França.

Os sindicatos “cumpriram o papel de denunciantes”, segundo Sofia Soula-Michal, advogada do CFDT. François Dumoulin, assessor de outro grande sindicato francpes, a CGT, afastou o argumento do "estado de necessidade" apresentado pela defesa do empresário, acreditando que o dirigente "pressionou os empregados para que permanecessem no posto de trabalho custe o que custar" durante o primeiro confinamento em 2020.

(Com AFP)

 

11
Fev21

Brasil registra 1.351 mortes por covid-19 em 24 horas

Talis Andrade

A situação sanitária do Brasil é muito preocupanteProfessora distribui álcool gel para aluno em escola de São Paulo

Professora distribui álcool em escola de São Paulo

DW - O Brasil registrou oficialmente 54.742 casos confirmados de covid-19 e 1.351 mortes ligadas à doença nesta quinta-feira (11/02), segundo dados divulgados pelo Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass).

Com isso, o total de infecções identificadas no país subiu para 9.713.909, enquanto os óbitos chegam a 236.201.

Diversas autoridades e instituições de saúde alertam, contudo, que os números reais devem ser ainda maiores, em razão da falta de testagem em larga escala e da subnotificação.

Em números absolutos, o Brasil é o terceiro país do mundo com mais infecções, atrás apenas dos Estados Unidos, que somam mais de 27,3 milhões de casos, e da Índia, com 10,8 milhões. Mas é o segundo em número absoluto de mortos, já que mais de 474 mil pessoas morreram nos EUA.

Brasil pode ficar isolado mundialmente por causa de possíveis variantes do coronavírus

04
Dez20

Aplicativo desenvolvido por brasileiro é usado para combater violência doméstica em todo o mundo

Talis Andrade

A melhor maneira de pedir socorro - YouTube

 

Por Ana Carolina Peliz /RFI
 

Desenvolvido por um brasileiro, um aplicativo gratuito que facilita a assistência a pessoas vulneráveis está sendo usado em vários países do mundo para combater a violência contra a mulher. A tecnologia, que pode ser utilizada por qualquer pessoa em perigo, tem funcionalidades que facilitam os pedidos de socorro de vítimas de maus-tratos domésticos.

O aplicativo Linha Direta foi criado em 2017 para facilitar a comunicação entre a polícia do Rio de Janeiro e a população, como conta seu criador, o brasileiro Leonardo Gandelman. Dois anos mais tarde, em 2019, a ferramenta acabou se popularizando entre o público feminino.

“A gente era o canal oficial da polícia militar para a patrulha Maria da Penha (destinada a atender casos de violência contra a mulher) no Rio de Janeiro. Então a gente ouviu muito e focamos muito na violência contra a mulher”, explica.

Segundo ele, as usuárias temiam um aumento das agressões dos parceiros caso estes encontrassem mensagens com pedidos de ajuda em seus celulares.  

“O nosso aplicativo é o único no mundo que fecha automaticamente após o envio do pedido de ajuda”, explica seu criador. O programa também consegue localizar o emissor da mensagem, até mesmo em altitude, e avisa o destinatário da chegada do alerta com uma sirene. “A gente foi ouvindo as mulheres e botando isso dentro do app”, conta Gandelman.

Whatsapp da ajuda emergencial

O funcionamento do Linha Direta, em princípio, não é diferente de outros aplicativos de envio de mensagens. O usuário pode disparar alertas a grupos de amigos ou separadamente. Mas o programa envia também a localização da pessoa que está em situação de perigo e o itinerário para chegar até o local.

“A gente fala que é um Whatsapp de ajuda emergencial”, diz Gandelman. “Nossa diferença é que a gente não tem limite. Você pode mandar (o alerta) para 10 pessoas ou para 1.000.”

Em algumas localidades, também é possível enviar mensagens para embaixadas ou à polícia, como no caso do Rio de Janeiro. Mas muitas mulheres acabam preferindo pedir ajuda para o círculo próximo, para evitar a judicialização dos casos.

De acordo com dados da ONU Mulheres divulgados no fim de setembro, as medidas de lockdown, determinadas para conter o avanço da pandemia de Covid-19, levaram a um aumento das denúncias ou pedidos de ajuda por violência doméstica.

Ajuda fora do Brasil

O aplicativo já é utilizado nos Estados Unidos, em Portugal, na França, Inglaterra, no Equador e Japão e seu inventor trabalha em parceria com diversas organizações internacionais, entre elas a Mulheres do Brasil e seus vários núcleos, inclusive o de Paris. Gandelman também assinou uma parceria com o Conselho Regional de Brasileiros no Exterior (CRBE).

As mulheres imigrantes se encontram frequentemente em situação de isolamento, longe das famílias, muitas vezes sem falar o idioma do país e podem ter mais dificuldades em pedir ajuda. Em setembro deste ano, o assassinato da paranaense Franciele Alves da Silva a facadas pelo marido, o brasileiro Rodrigo Martin, na periferia de Paris, causou comoção entre a comunidade brasileira residente na França.

Apesar de indentificar a localização dos emissores dos alertas, o inventor da tecnologia ressalta que o aplicativo não tem acesso a dados dos usuários. “A comunicação vai direto para uma pessoa, e a gente não fica sabendo o que ela falou”, diz.

O aplicativo Linha Direta tem versões em português, inglês e espanhol. É gratuito e está disponível na Apple Store e no Google play.

 

 
14
Out20

Covid-19: França adota toque de recolher em Paris e mais oito metrópoles de 21h a 6h

Talis Andrade

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O presidente Emmanuel Macron anuncia toque de recolher na região de Paris e em oito metrópoles francesas, em entrevista em rede nacional no dia 14 de outubro de 2020.
 France 2


O presidente francês Emmanuel Macron anunciou nesta quarta-feira (14) as novas medidas do governo para conter a segunda onda da pandemia Covid-19, que já matou 33 mil pessoas no país. Um toque de recolher, que será aplicado em oito metrópoles francesas, além da capital, terá início à zero hora deste sábado (17) e vai durar pelo menos quatro semanas. As outras metrópoles atingidas são Grenoble, Lille, Lyon, Aix-Marselha, Rouen, Montpellier, Saint-Etienne e Toulouse.

Teatros, cinemas, bares e restaurantes terão de fechar imperativamente às 21h nestas cidades. A multa para quem for pego quebrando o toque de recolher é de 135 € (e de 1500 € em caso de reincidência). 

"O toque de recolher vai durar quatro semanas e iremos ao Parlamento para prorrogá-lo até 1º de dezembro. Seis semanas é o tempo que nos parece útil", disse o chefe de Estado em entrevista televisionado, especificando que a medida entraria em vigor no sábado à meia-noite

A decisão, explica o presidente, foi baseada em experiências feitas na Guiana Francesa e no departamento de Mayenne, que conseguiram frear a difusão do vírus. "No momento do confinamento, fomos um dos países que melhor acatou as medidas e é por isso que eu conto com os franceses como atores da luta contra a segunda onda", disse o presidente, chamando os cidadãos para a responsabilidade individual e coletiva. 

O chefe de Estado disse que não vai voltar a fechar escolas e empresas, como aconteceu no confinamento de março e abril. "No trabalho, nas escolas, colégios e universidades, a gente usa máscara e consegue se proteger. Mas é nos contatos mais festivos que a gente se contamina", disse o presidente, pedindo que os franceses evitem encontros "desnecessários" e não se reúnam em grupos de mais de seis pessoas em restaurantes e em lugares fechados. 

 
 

 

16
Set20

Queimadas no Pantanal e na Amazônia: carta aberta de países europeus a Mourão protesta contra política ambiental brasileira

Talis Andrade

 

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Destruição do Pantanal pelas queimadas chegou a quase 3 milhões de hectares

 

Por BBC News

No dia em que a destruição do Pantanal pelas queimadas chegou a quase 3 milhões de hectares (equivalente à área da Bélgica), oito países europeus enviaram nesta quarta-feira (16/9) uma carta aberta ao vice-presidente brasileiro, general Hamilton Mourão, para protestar contra a política ambiental brasileira.Image

Os países afirmam que nos últimos anos o desmatamento aumentou no Brasil em ritmo alarmante e que estão "profundamente preocupados" com os efeitos dessa destruição para o desenvolvimento sustentável do país.

A carta foi enviada pelos países que participam da declaração de Amsterdã, uma parceria entre nações para promover sustentabilidade e cadeias de produção de commodities que não cause a destruição de florestas. Participam Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Dinamarca, Noruega, Países Baixos e Bélgica.

"Durante muito tempo o Brasil liderou a redução do desmatamento na Amazônia através do estabelecimento de instituições científicas independentes que garantem monitoramento rigoroso e transparente, de agências de controle competentes e do reconhecimento de territórios indígenas. Nos últimos anos, no entanto, o desmatamento tem crescido em ritmo alarmante, como foi documentado pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)", diz a carta.

A situação das florestas

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Além das queimadas que estão devastando o Pantanal neste mês de setembro — e cujas origens podem ser criminosas, segundo investigação da Polícia Federal —, a Amazônia também está sofrendo com devastação gerada pelo fogo. Em apenas 14 dias, setembro de 2020 já registrou mais queimadas na Amazônia do que em todo o mesmo mês do ano passado, segundo o INPE.Independente e respeitada internacionalmente, a instituição científica que faz o monitoramento do desmatamento vem sendo criticada e tratada como "oponente" pelo governo Bolsonaro desde que seus registros passaram a mostrar aumento na destruição dos biomas. Na segunda (15/9), Mourão afirmou que "alguém lá de dentro" do Inpe "faz oposição ao governo".

"Quando o dado é negativo, o cara vai lá e divulga", afirmou o vice-presidente.

A destruição tem sido registrada também por outras entidades. Segundo a Global Forest Watch, que mantém uma plataforma online de monitoramento de florestas, o Brasil foi responsável pela destruição de um terço de todas as florestas tropicais virgens desmatadas no planeta em 2019 — foram 1,3 milhão de hectares perdidos.

Desmatamento dificulta o investimento

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Questionada internamente por entidades científicas, ambientalistas e até pelo Ministério Público, a política ambiental do governo é o principal ponto mencionado pela carta dos países da declaração de Amsterdã.

Eles afirmam que as preocupações com a situação ambiental no Brasil atingem consumidores, negócios, investidores e a sociedade civil na Europa.

"Na Europa, existe um legítimo desejo de que os alimentos à disposição sejam produzidos de forma justa, ambientalmente segura e sustentável", afirma a carta. "Fornecedores, comerciantes e investidores estão respondendo (à essa preocupação) incorporando esse desejo em suas próprias estratégias corporativas."

O desmatamento no Brasil está tornando cada vez mais difícil para que empresas e investidores mantenham seus critérios de sustentabilidade, diz a carta.

"Nossos esforços coletivos para gerar mais investimento financeiro em produção agrícola sustentável (...) também poderia dar apoio ao crescimento econômico brasileiro", afirmam os países.

"No entanto, já que os esforços europeus buscam formar cadeias de produção livres de desmatamento, a atual tendência de desmatamento no Brasil está está tornando cada vez mais difícil para que empresas e investidores mantenham seus critérios de sustentabilidade."

"No passado, o Brasil mostrou que é capaz de expandir a produção agrícola ao mesmo tempo em que reduz o desmatamento", também afirma o documento.

As nações que assinam o documento afirmam que "esperam um comprometimento renovado e firme do governo do Brasil para reduzir o desmatamento que seja refletido em ações reais e imediatas".

Os países afirmam também que estão prontos para discutir formas de ajudar o Brasil a melhorar a sustentabilidade e dar suporte a um "setor agrícola sustentável" no país.

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Veja galeria de fotos aqui

22
Ago20

Médica brasileira viveu início de pandemia em hospital francês e compara: “faltou liderança central no Brasil”

Talis Andrade

 

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Silvano Mendes entrevista Otilia Lupi

 

FFI - A infectologista brasileira Otilia Lupi estava em Paris, atuando como médica visitante no serviço de Infectologia do hospital Pitié Salpetrière, uma das referências em termos de medicina na França, quando a pandemia de Covid-19 chegou na Europa. Ela acompanhou o início da gestão da crise sanitária no país europeu e compara com a situação brasileira, onde o surto chegou mais de um mês depois.

"Eu gostei de ter presenciado a chegada da pandemia na França porque tive a oportunidade de ver a complacência de um outro sistema acontecendo”, conta a médica. Ela insiste que são sistemas muito diferentes e que “não seria correto comparar. O colapso aqui é diferente do colapso no Brasil”. 

Otilia já sabia dessa diferença, mas viveu a situação dentro de uma das instituições francesas mais reputadas na luta contra doenças infecciosas, em um momento em que os próprios médicos do país descobriam o vírus que desembarcava na Europa. A infectologista da Fiocruz fazia um estágio de observação no Pitié Salpétrière quando os primeiros pacientes foram hospitalizados, entre fevereiro e março.

“No primeiro momento, eles lidaram com deficiências, que é uma situação crônica também para a gente no Brasil, em particular no Rio de Janeiro, onde eu trabalho e conheço bastante. Foi muito interessante ver como um sistema mais rico foi capaz de encarar a falta. A falta de máscaras, de leito, de médicos, de enfermeiros”, conta a médica, que estava no hospital francês quando o lockdown foi decretado, em 17 de março.

Colapso no Brasil é atender nos corredores ou sobre a pia

Otília lembra que nesse dia os médicos alertavam para o fato de que “faltava muita coisa”. No entanto, ela se recorda que, mesmo se os profissionais falavam em falta de leitos, ela constatou que o hospital ainda podia receber pacientes, algo muito distante de sua realidade no Rio de Janeiro. 

“No Brasil, quando falamos de falta de leito, isso significa que eu estou atendendo no corredor, sobre a pia ou na bancada. Essa é a realidade no Rio de Janeiro. Não é sempre, nem em todos os hospitais, mas eu já passei por essa situação”, compara. “Aqui, apesar de algumas dezenas ou até centenas de leitos prontos para receber pacientes, eu vi as pessoas reclamando que a projeção indicava que seriam necessários mais. Eles não aceitavam a simples possibilidade de, em algum momento no futuro, ter falta de leito.”

A preocupação dos profissionais tinha fundamento, pois se no início do surto todos os pacientes suspeitos de contaminação eram hospitalizados, rapidamente os médicos passaram a receber apenas os casos graves. E em algumas regiões do país faltaram leitos, ao ponto de pacientes serem transportados para hospitais mais vazios, públicos e privados, em outras partes do país ou mesmo em países vizinhos, de trem e até de avião. “É claro que eles tiveram a capacidade de ampliar essa recepção de pacientes de uma forma que tem a ver como recursos e planejamento”, pondera Otilia.

Confiança em um único chefe

A médica também se recorda que no início da pandemia os médicos franceses subestimaram a força do vírus e sua capacidade de contágio pelo mundo. “Eles achavam que iam saber lidar, que estavam acostumados e que ir ser mais uma onda de influenza. Não era consenso que seria um tsunami, mesmo entre os profissionais mais experientes”, conta. Mas logo o contexto se alterou. “Eles mudaram de discurso e passaram a acreditar que, de fato, estavam diante de uma situação nova”, relata. 

Essa adaptação de estratégia no combate ao vírus foi vista em vários países. No entanto, nem todos se organizaram da mesma maneira, como ressalta a médica brasileira. “Baseados em estruturas e conhecimentos de epidemias antigas, os franceses tiveram a capacidade de adequar essa mudança de estratégia, e isso foi muito importante. Claro que a capacidade de compras (de equipamentos) e de captar recursos é maior na França. Mas me chamou a atenção que isso tudo teve a ver com uma liderança central. E isso foi a grande diferença”, constata a médica. “Mesmo se eles mudaram alguns fundamentos básicos sobre a adoção de algumas medidas, eles foram capazes de se adequar a essas novidades, mas sem mudar de liderança. E isso eu acho que faltou ao Brasil”, compara. 

“O discurso foi mudando porque a gente foi aprendendo. Porém, mesmo que houvesse discordâncias e divergências, existia quem ditava a norma. E isso foi fundamental para que eles conseguissem passar esse colapso – para os parâmetros franceses . E, de fato, eles souberam seguir um chefe e isso fez uma enorme diferença, não só no sistema de saúde, mas também para a população”.

A França enfrenta atualmente uma nova fase de contaminações, com mais de 4 mil casos registrados por dia. No entanto, os números de mortes e hospitalizações seguem estáveis, o que leva a crer que o sistema de saúde francês encontrou uma forma de gerir o fluxo de pacientes, apesar de críticas no ápice da pandemia, quando o país foi comparado com vizinhos, como a Alemanha, elogiada desde o início pela gestão da pandemia.

O país tenta agora encontrar a solução para outro problema: a questão da prevenção adequada da população, para evitar novas contaminação nesse momento que já está sendo chamado por alguns de "segunda onda" da Covid-19.

02
Jun20

Imprensa francesa vê insurreição nos EUA acirrada por aposta de Trump no caos

Talis Andrade

 

 

Os jornais desta terça-feira (2) dedicam suas manchetes à crise nos Estados Unidos. "O grito da América negra", diz a manchete do jornal católico La Croix. O jornal Le Parisien anuncia que, além de George Floyd, um segundo nome vai surgir nos protestos nos próximos dias: o de David McAtee, um negro de 53 anos, morto por disparos de policiais e militares na noite de domingo (31) para segunda-feira em Louisville, no Kentucky.

McAtee, dono do restaurante de carnes YaYa's BBQ, no West End, um dos bairros mais populares de Louisville, era um modelo em sua comunidade. Segundo sua mãe e sobrinho, ele era conhecido por fornecer comida de graça para as pessoas necessitadas e para policiais que frequentavam seu restaurante. Na noite de domingo para segunda-feira, como em muitas cidades do país, houve uma manifestação no bairro para denunciar a violência policial.

O chefe de polícia local, Steve Conrad, disse em comunicado que uma pessoa não identificada havia atirado contra a polícia, provocando disparos das forças de ordem para dispersar a multidão. Os tiros teriam sido efetuados por dois policiais e dois soldados da Guarda Nacional. McAtee morreu atingido pelas balas, próximo ao estacionamento do supermercado Dino's Food Mart, onde estava ocorrendo um incêndio.

Surpreendentemente, as câmeras corporais que a polícia carrega em seus uniformes, e deve acionar durante suas intervenções, não foram ligadas. O prefeito de Louisville, Greg Fischer, demitiu Steve Conrad depois de descobrir que os policiais envolvidos na morte de McAtee não tinham o vídeo do suposto tiroteio.

Segundo o Le Parisien, esta é a segunda vez que essa violação é observada em poucas semanas em Louisville: em 13 de março, uma jovem negra de 26 anos, Breonna Taylor, paramédica, foi morta a tiros em sua casa por oito balas disparadas por policiais, que foram fazer uma operação de buscas na casa dela. Os vizinhos disseram que a polícia não se identificou e não bateu na porta antes de quebrá-la. Mas essa alegação nunca poderá ser verificada, já que nenhum vídeo da intervenção policial foi registrado, destaca o Le Parisien.

"Pecado original"

"Os Estados Unidos não são o único país do mundo em que surgem questionamentos sobre o racismo e a brutalidade policial", afirma o editorial do jornal La Croix. "A própria França não está isenta", acrescenta o diário, que acredita que o fator Donald Trump não é suficiente para explicar a magnitude da revolta. "Pelo contrário, a resposta está em uma imensa contradição".

Essa contradição é a esperança que suscitou a Declaração de Independência dos Estados Unidos, firmada em 1776. O texto proclamou que "todos os homens nascem iguais e têm direitos inalienáveis, incluindo a vida, a liberdade e a busca da felicidade". "Mas, em vez disso, o que se vê no dia a dia é a grande violência da sociedade americana e as atrocidades policiais e civis contra a minoria negra do país", explica o La Croix. Para o jornal direcionado à comunidade católica francesa, "os Estados Unidos nunca conseguiram se livrar do pecado original", que foi declarar esse princípio de igualdade como um dos pilares da vida em sociedade, mas ter mantido, apesar do fim da escravidão, um sistema de segregação social e de discriminação contra os afrodescendentes.

Levante em plena campanha presidencial

O jornal Libération também dedica seu editorial às consequências desse levante em plena campanha para as eleições presidenciais de novembro. "Dificilmente, Donald Trump conseguirá unir a nação, uma vez que sua gestão é marcada por divisões e pelo conflito permanente". Segundo o Libération, "o caos constitui a zona de conforto de Trump, seu campo de expressão favorito e uma ferramenta crucial para mobilizar sua base eleitoral". Na segunda-feira (1), o porta-voz de campanha do republicano resumiu a próxima eleição como uma escolha "binária" entre "segurança" e "anarquia".

No campo democrata, o adversário Joe Biden quer incorporar a reconciliação de uma América polarizada, mas enfrenta uma situação delicada, avalia o jornal de esquerda. "Muito popular na comunidade negra, o ex-vice-presidente deve transmitir sua legítima revolta sem dar a impressão de tolerar a violência. "Somos uma nação que está sofrendo agora, mas não devemos deixar que esse sofrimento nos destrua", disse o futuro adversário de Trump no domingo (31).

Em seu editorial, o Le Monde afirma que a revolta que incendeia as cidades americanas tem suas raízes na reincidência da violência policial e nas desigualdades evidenciadas pela epidemia de coronavírus. "A desproporção na distribuição étnica das cerca de 100.000 vítimas da epidemia de Covid-19 nos Estados Unidos", tem inflado a revolta.

"Os afroamericanos têm entre duas vezes e meia a três vezes mais chances de morrer do vírus do que os membros das comunidades branca, latina e asiática", assinala o Le Monde. Os negros americanos têm mais comorbidades, como diabetes e obesidade, do que outros, porque também sofrem mais com a pobreza. "Essa é a realidade gritante da desigualdade nos Estados Unidos", escreve o Le Monde. "O presidente Trump não pode mais ignorar esse fato", conclui o editorial.

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21
Mai20

Artista faz ato de protesto contra Bolsonaro na Embaixada do Brasil em Paris

Talis Andrade

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Painéis foram instalados na fachada da Embaixada do Brasil em Paris

 

O artista brasileiro Julio Vilani instalou vários painéis na fachada da Embaixada do Brasil em Paris, em protesto contra o presidente brasileiro Jair Bolsonaro. O ato acontece na mesma semana em que o jornal francês Le Monde publicou um editorial criticando a gestão da pandemia de Covid-19 no Brasil. O texto do vespertino suscitou uma reação do embaixador brasileiro.

Quem passeava pelas margens do rio Sena, na região do 7° arrondissement de Paris, na manhã desta quinta-feira (21), feriado na França, foi surpreendido por seis grandes painéis verticais que tomavam boa parte da fachada da Embaixada do Brasil na capital francesa. As faixas traziam, sobre um fundo preto, frases como “#ForaBolsonaro#”, “E daí? ”, ou ainda “Um outro Brasil é possível”.

A instalação é obra de Julio Villani, artista brasileiro radicado em Paris desde os anos 1980 e reconhecido pela crítica especializada na França. Em sua conta nas redes sociais, ele publicou fotos e um vídeo do momento em que colocava as faixas diante do prédio, situado em um dos bairros mais nobres da capital francesa. “Pano preto na janela da Embaixada”, postou Villani.

“A instalação nos pegou de surpresa. Uma belíssima surpresa”, declarou Márcia Camargos, uma das fundadoras do grupo militante Alerte France Brésil, crítico ferrenho do governo atual brasileiro. “Diante da exacerbação das medidas arbitrárias do governo Bolsonaro, pessoas que não eram engajadas e militantes começam a fazer atos espontaneamente. Isso mostra a que ponto chegou o desespero e a revolta das pessoas que nem estão ligadas aos grupos de resistência”, afirma, lembrando que Villani não é conhecido por se exprimir publicamente sobre posicionamentos políticos.

A RFI entrou em contato com o artista, mas não teve resposta até o fechamento da matéria. Já a representação diplomática brasileira em Paris enviou, por meio de seu assessor de imprensa, a seguinte reação oficial : “Sem comentários da Embaixada do Brasil na França”.  

 

Brasil no centro das atenções na França

Protestos diante das embaixadas são corriqueiros, mas o ato de Villani acontece em um momento em que a situação atual do Brasil, que está se tornando o novo foco da pandemia de Covid-19, colocou o país no centro das atenções no cenário internacional. Na segunda-feira (18), o jornal francês Le Monde fez um editorial criticando abertamente a gestão do presidente Jair Bolsonaro.

"O negacionismo alimentado pelo poder (...) e a aposta política inacreditável de Bolsonaro, que pensa que os efeitos devastadores da crise na saúde serão atribuídos a seus opositores, mostra que esse obscuro ex-deputado de extrema direita não tinha nada de um homem de Estado", afirmou o jornal.

O texto do vespertino suscitou uma reação do embaixador brasileiro em Paris, Luis Fernando Serra. Em uma carta enviada à direção do jornal, o diplomata diz ter lido “com indignação, mas sem surpresa”, o editorial que, segundo ele, é “profundamente ofensivo”. Serra explica em sua missiva que “o presidente Bolsonaro nunca negou a existência da Covid-19. O que ele fez, desde o início da crise sanitária, foi tentar evitar que a histeria e o pânico tomassem conta da população”.

O embaixador também contestou as acusações de que o presidente estaria tentando levar o Brasil para um regime autoritário, como sugere o jornal. “Gostaria que vocês me mostrassem um único juiz ou político preso, um único jornalista perseguido, um único jornal censurado”, desafiou o diplomata.

Na tarde desta quinta-feira, um coletivo de militantes que se opõem ao presidente brasileiro também enviou uma carta ao jornal Le Monde, mas desta vez para apoiar o jornal e contestar a resposta do embaixador.

 

 
13
Mai20

“Brasil, o outro foco americano da pandemia de coronavírus, está em perigo”, diz La Croix

Talis Andrade

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O jornal La Croix traz duas paginas analisando a crise do coronavírus no Brasil e afirma: “O Brasil é o outro foco americano da pandemia e está em perigo”. © Fotomontagem RFI

O jornal La Croix desta terça-feira (12) traz duas páginas analisando a crise do coronavírus no Brasil e afirma: “o Brasil é o outro foco americano da pandemia e está em perigo”. A introdução do dossiê publicado pelo jornal católico francês diz que enquanto o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, considera o coronavírus uma “gripezinha”, o Brasil está em vias de ser o país mais contaminado do mundo e terá mais de 2 milhões de casos.

O diário lembra que a Europa registra uma inversão da curva da pandemia e começa uma prudente e cautelosa saída da quarentena. Agora, “a preocupação mundial se concentra no continente americano”, ressalta o texto. Os Estados Unidos são o país com o maior número de mortos do planeta, com mais de 80 mil óbitos. Mas o outro gigante ao sul do continente também gera muita consternação.

Será que as cenas registradas nos últimos dias em Manaus, com dezenas de mortos pela Covid-19 sendo enterrados em valas comuns, irão se repetir nas outras regiões brasileiras? Questiona o La Croix. O jornal informa que em menos de um mês o número de mortos no Brasil ultrapassou oficialmente o patamar de 10.000 vítimas fatais e de 155.000 contaminados e que em breve o país deve registrar mil mortos por dia.

Grito de alerta

Tudo leva a crer que os dados são subestimados e isso atrasa a tomada de consciência do perigo, alerta Domingos Alves, pesquisador da Universidade de São Paulo e organizador do grupo Covid-19 Brasil, entrevistado pelo diário. O grito de alerta é considerado essencial diante da mensagem incoerente formulada pelas autoridades políticas de Brasília, a começar pelo presidente Jair Bolsonaro que, como Donald Trump, minimiza desde o início da pandemia a gravidade da crise, compara La Croix.

 

O advogado Charles-Henry Chenut, especialistas nas relações comerciais entre a França e o Brasil, confirma nas páginas do diário o desinteresse de parte da população pelas medidas de distanciamento social, por motivos econômicos. “Uma parte importante da população, incluindo empresários, não tem ideia da gravidade da situação sanitária. O Brasil vive na negação e as consequências serão extremamente graves”, declara o sócio do escritório de advocacia franco-brasileiro Chenut Oliveira Santiago.

Populações indígenas em risco

As populações indígenas da Amazônia são particularmente vulneráveis e precisam ser protegidas, salienta o diário. La Croix aproveita para divulgar o manifesto lançado pelo fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, pedindo medidas urgentes em favor dos índios da floresta Amazônica.

Oficialmente, 28 índios morreram na região de Covid-19, mas o saldo de mortos é provavelmente muito maior. A solução diante da epidemia não é isolar ainda mais essas populações, mas levar até elas os serviços básicos de saúde de que precisam para combater o coronavírus. Essa reivindicação é feita várias ONGs e chefes indígenas, entre eles o cacique Raoni, citados na matéria.

Antagonismo com a Argentina

O diário católico encerra o dossiê indicando que os vizinhos sul-americanos do Brasil, como a Argentina, estão preocupados principalmente porque o pico da epidemia brasileira ainda não foi atingido e deve acontecer somente em junho ou julho. O correspondente do jornal em Buenos Aires informa que o governo argentino vai permitir a entrada em seu território de mercadorias brasileiras essenciais para sua economia, mas teme que essa decisão prejudique os esforços e as medidas impostas na Argentina para lutar contra a Covid-19.

Em tempos de coronavírus, o antagonismo histórico entre os dois vizinhos se acentuou. A política de prosperidade decidida por Brasília é diametralmente oposta à estratégia de Buenos Aires que, em 20 de março, instaurou uma quarentena obrigatória no país e, em seguida, fechou todas as suas fronteiras. As medidas quase paralisaram a economia argentina, mas o país tem 6.000 infectados e 305 mortos pelo coronavírus, isto é, muito menos vítimas do que o vizinho, informa o jornal La Croix.

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