Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

30
Jan21

As imagens históricas do Recife

Talis Andrade

dic. urariano.jpg

Dicionário Amoroso do Recife.jpg

 

por Urariano Mota

Histórico é tudo que tenha valor político, humano, artístico, literário, ainda que tenha acontecido hoje. Mas o que é que vai determinar a qualidade, a importância social para o Recife, da senhora que passa a caminhar na rua? Então vocês já veem que desejando simplificar, meti-me de novo em uma nuvem.

Nesta semana, li que em São Paulo existe o projeto Fotografia Paulistana, que reúne registros históricos da cidade a partir de 1920. No momento, já dispõem de mais de 400 fotos.

Li, parei, e fiquei a me perguntar: quantas imagens históricas existiriam do Recife? E nessa pergunta, quantitativa, notei logo que seria o mesmo que penetrar numa nuvem pensando que nuvem é algodão e se pega. É impossível determinar um número de fotos históricas da “noiva da revolução”, como a chamava o poeta Carlos Pena Filho. Depois, mais sério que a quantidade, me perguntei: o que seriam mesmo as tais imagens históricas? O critério de antiguidade seria a qualidade histórica? 

Então, primeiro acordei para o fato de que a história não é um resumo do que ficou no passado. Histórico é tudo que tenha valor político, humano, artístico, literário, ainda que tenha acontecido hoje. Mas o que é que vai determinar a qualidade, a importância social para o Recife, da senhora que passa a caminhar na rua? Isso é histórico, isso tem valor para cravar num álbum da história do Recife? Então vocês já veem que desejando simplificar, meti-me de novo em uma nuvem. 

Então penso em sair da dificuldade elegendo o que vem antes, depois o recente, mas que nos remeta a uma meditação sobre as nossas vidas no Recife. E que a foto mais nova, agora tão frágil e fugaz, ganhará o seu valor se não lhe escrevemos uma legenda, uma breve moldura da sua importância social? E nesse caso, a pesquisa histórica é uma pesquisa de sensibilidade, daquilo que está além do filme mais sensível, ou da última foto saída de um celular. É uma pesquisa que vai aos lugares e pessoas mais comuns, tidas como desimportantes. Sabem aquela prática de colecionar fichinha, tampa de garrafa, ou juntar flâmulas, guia de exposição, convites de casamento, para um dia quem sabe talvez por hipótese ter alguma utilidade? É parecido, ainda que esse termine por ser um caminho meio às cegas, à beira da mania. 

Então eu penso que as fotos históricas do Recife vêm de tudo que toque o nosso coração. Do antes, depois, agora e adiante. Quero dizer, para ser mais claro, além da foto do zepelin sobre a cidade em 1930

foto

era bom agregar os versos à beira do cômico de Ascenso Ferreira: 

“– Parece uma baleia se movendo no mar!
– Parece um navio avoando nos ares!
– Credo, isso é invento do cão!
– Ó coisa bonita danada!
– Viva seu Zé Pelin!
– Vivôôô!
Deutschland über alles!
Chopp!
Chopp!
Chopp!
– Atracou!”  

Ou da Ponte Duarte Coelho em 1950

foto1

E mais Gregório Bezerra ferido, preso e altivo no quartel do exército em 1964 

foto 3

Ou a volta de Miguel Arraes no grande comício com a anistia em 1979 

foto 4

Afeto e memória do frevo histórico

foto 5

Até chegar mais perto da cidadania com o cinema Império em Água Fria, nos anos 50, 1958 

foto 6

Mas quero e devo dizer, sem interrupção: as fotos, por mais sentimentais, amadas e queridas, não revelam o raio X da alma. Elas são momentos objetivos, físicos de um instante, ainda que nelas a pessoa faça uma pose. Quero dizer, elas não trazem gravadas, impressas o coração do fotografado ou de quem vê a fotografia. Nas fotos chamadas por convenção de históricas, pela distância do tempo o seu valor é político ou documental. Mas nós, como ficamos? Onde estamos perdidos nesse mar de datas e rostos antigos? Em que lugar da foto está o momento de carinho ou tremor da nossa voz? 

Então o que é objetivo vira subjetivo, como na foto do cinema Império em Água Fria. Nela vejo a imagem de costas da minha mãe, falecida naquele ano de 1958. E para cada um de nós a foto objetiva recebe uma certa subjetividade, uma tradução da sua imagem. No zepelim no alto, podemos ser um dos meninos parados, em pleno encanto do objeto pesado cruzando o céu. E nos perguntamos, “por que não lembro desse dia do zepelim?” , e para nosso espanto somos informados de que a sua aparição no Recife foi antes do nosso nascimento. Já na fotografia da Ponte Duarte Coelho retomamos o Recife da infância, quando em pé no banco do ônibus víamos o rio Capibaribe. Hoje aberto, ao sol da manhã, ele é um rio que nos dá bom dia. Da ponte Duarte Coelho à Princesa Isabel, e desta a se estender até a ponte do Limoeiro, há uma vista de esperança. 

Já na imagem do frevo da mulher, é tudo revelação da primeira vez do desejo na multidão. É mais que uma foto, é um flagrante da carne sob o frevo. Então vem a foto de Gregório Bezerra, os anos de terror da ditadura, um Recife rebelde no momento do golpe militar. Ele, na imagem, é o comunista que gostaríamos de ser, se a felicidade e a sorte fossem nossas companheiras. E na volta de Arraes, no comício do bairro de Santo Amaro, eu estou na multidão, como um dos rostos contentes que no anonimato é protagonista. Todos ali somos protonotários, diria Manuel Bandeira. Mas assim é para todos? Não e sim. Não, porque as histórias pessoais e sentimentos não são idênticos - podemos até dizer, ninguém atravessa o mesmo rio Capibaribe. Sim, porque todos refletimos o que vemos, como indivíduos que somos da humanidade. Cada um na sua tradução faz o subjetivo da objetividade.

Então eu penso que as fotos históricas ideais deveriam ser um grande álbum onde as legendas fossem os comentários dos moradores da cidade. Elas se tornariam então fotos traduzidas em palavras para o sentimento. E não só, as falas das pessoas seriam informação histórica que daria movimento e corpo à imagem. As fotos históricas seriam mais que um cinema falado. Uma democracia plena do coração de toda a gente. Nesse grande álbum caberia a foto de um princesinha do carnaval 

com este comentário de um recifense:

princesa menina.jpg

“Uma negra princesinha ficou na memória porque não era uma imagem. É uma pessoa. Uma linda menina, passado e futuro do carnaval. A princesinha na memória era a filha da cozinheira de um boxe do Mercado da Boa Vista. Ela, a menina, tão feliz estava, que nem comeu todo o seu almoço no prato. Talvez a mãe, generosa como todas, tenha posto mais comida do que a menina queria. Mas não, penso mais é que a princesinha estava tão feliz, que perdeu a vontade de comer”. 

Entre as fotos históricas, enfim, caberia com louvor esta de José Marques de Santana, em 27 de janeiro de 2021. Aos 86 anos de idade, ele assim  expressou a emoção por receber a vacina: 

foto 8

Das mais antigas à mais recente, imagens para as fotos históricas do Recife. 

 

30
Jun20

Revista francesa de fotografia tem como tema Brasil vertiginoso

Talis Andrade

vertige.jpg

Capa da revista bianual 6Mois, que traz três reportagens fotográficas sobre o Brasil 

06
Jun20

Toda a beleza e tragédia da Terra vista do céu durante pandemia

Talis Andrade

 

cemiério manaus.jpg

AFP 2020 / MICHAEL DANTAS
Vista aérea de cemitérios para falecidos contagiados pelo coronavírus no bairro Tarumã de Manaus.

 

Entre protestos políticos, pandemia do coronavírus e grandes avanços no setor espacial, apesar de terem decorrido não mais que seis meses, 2020 tem se mostrado um ano marcante para a história humana.

Grandes e diversos eventos ocorrem simultaneamente em todos os continentes. A Sputnik preparou uma seleção de fotos dessas fascinantes cenas e desafios da atualidade.

Graças a imagens aéreas recentemente capturadas, podemos contemplar a magnitude destes grandes eventos globais, que afetam as vidas dos habitantes do planeta Terra como um todo.

02
Mar20

Lula recebe título de cidadão honorário de Paris

Talis Andrade

Lula, acompanhado de Dilma e Haddad, recebe título de cidadão de Paris da prefeita Anne Hidalgo

Lula, acompanhado de Dilma e Haddad, recebe título de cidadão de Paris da prefeita Anne Hidalgo

 

Na capital francesa, ex-presidente critica ataques à democracia no Brasil e agradece apoio da prefeita Anne Hidalgo. Honraria é concedida a personalidades que se destacam pela defesa dos direitos humanos.

por DW Deutsche Welle

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu nesta segunda-feira (02/03) o título de cidadão honorário de Paris em uma cerimônia na prefeitura da capital francesa, onde aproveitou para criticar o que chamou de "enfraquecimento do processo democrático" no Brasil.

A honraria a Lula foi concedida pela prefeita de Paris, Anne Hidalgo, em outubro do ano passado, quando ele ainda estava preso, e aprovada pelo Conselho da cidade. De acordo com a prefeitura, a cidadania honorária parisiense é concedida a personalidades que se destacam na defesa dos direitos humanos. Um dos homenageados foi o ex-líder africano Nelson Mandela.

Hidalgo disse que a sucessora de Lula na Presidência, Dilma Rousseff, havia lhe pedido uma ação em favor da libertação do petista, o que a levou a sugerir sua indicação como cidadão honorário de Paris. A prefeita, em plena campanha para a reeleição, destacou o legado do PT na luta pela igualdade social – a qual, segundo ela, está comprometida com a chegada ao poder de Jair Bolsonaro.

Lula@LulaOficial

Merci, Paris!

View image on TwitterView image on TwitterView image on TwitterView image on Twitter

A relação entre os governos do Brasil e da França vem se deteriorando, após Bolsonaro entrar em várias ocasiões em confronto com o presidente francês, Emmanuel Macron.

Em seu discurso na prefeitura de Paris, com a presença de Dilma e do ex-candidato do PT à Presidência Fernando Haddad, Lula fez uma série de críticas ao governo Bolsonaro e alertou para o empobrecimento da população brasileira.

Ele disse que o Brasil vive o enfraquecimento da democracia "estimulado pela ganância de poucos e pelo desprezo em relação aos direitos do povo", e denunciou o que chamou de "ataques ao Estado de direito e à Constituição".

Lula contou que, ao saber da homenagem de Paris quando estava preso, teve renovadas as esperanças de recuperar a liberdade. O ex-presidente valorizou o reconhecimento vindo de uma cidade que, segundo ele, "tem um apego especial aos direitos humanos e que sempre acolheu os brasileiros e latino-americanos que os defenderam".

O petista ainda prometeu unir a esquerda nas eleições presidenciais de 2022. Ele disse que, aos 74 anos, está "mais motivado do que nunca para reconquistar a democracia em nosso país".

François Hollande@fhollande
 

Très heureux d’avoir reçu l’ancien président @LulaOficial, @dilmabr et @Haddad_Fernando aujourd’hui à Paris. Nous avons échangé sur la question climatique et la lutte contre les inégalités, qui doivent être au cœur de tous les combats d’aujourd’hui et de demain.

View image on TwitterView image on Twitter
Lula foi preso em 2018 por corrupção no caso do apartamento tríplex no Guarujá, quando foi acusado de receber propinas de empreiteiras em troca da concessão de contratos públicos. Ele foi libertado em novembro do ano passado, após 580 dias de encarceramento, depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) mudar as regras para as prisões em segunda instância.
 

Antes da cerimônia na prefeitura da cidade, Lula se reuniu com líderes da esquerda francesa, como o ex-presidente francês François Hollande e o líder do partido França Insubmissa e ex-candidato à presidência, Jean-Luc Mélenchon.

Ainda em Paris, o ex-presidente participará, juntamente com Dilma e Haddad, de um evento de campanha de Hidalgo, antes de partir para Genebra e Berlim.

Na Suíça, ele deverá participar de uma reunião do Conselho Mundial das Igrejas (CMI), que reúne representantes de mais de 120 países, sob o tema da desigualdade social.

Na capital alemã, Lula se reunirá com líderes políticos e representantes de sindicatos e participará de um ato público em defesa da democracia no Brasil.

RC/efe/ots/rtr

______________

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. Veja a TRAJETÓRIA POLÍTICA DE LULA (galeria de 22 fotografias aqui)

 
27
Jan20

A incrível vida de Benedicta Sánchez, fotógrafa no Brasil, vegetariana aos 17 e vencedora do Goya aos 84

Talis Andrade

A atriz estreou no cinema como protagonista do filme ‘O Que Arde’, de Oliver LaxeBenedicta Sánchez, em um helicóptero no Rio de Janeiro em 1971.Benedicta Sánchez, em um helicóptero no Rio de Janeiro em 1971.

24
Mar19

7 de Abril Leilão de Fotografias: Quarenta Anos de Brasil e de Lula, uma História Contada por Olhares

Talis Andrade
Dezenas de fotógrafos se unem para organizar leilão de imagens do ex-presidente, captadas desde o final dos anos 1970. Evento será no dia 3 de abril, com participação presencial e online
 
por Vitor Nuzzi - RBA
 
CELSO JUNIOR
Praia da Lagoa Doce, Luis Correia/PI, 22.02.2006

Uma imagem da liberdade, que contrasta com o momento atual: Lula em uma praia do Piauí, em 2006, último ano de seu primeiro mandato presidencial

 

Era noite de sábado, 19 de abril de 1975, no centro de convenções da prefeitura de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Diante de 5 mil pessoas – incluindo o governador, Paulo Egidio Martins –, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, Paulo Vidal, transmite o cargo ao sucessor, ainda no período da ditadura. A posse coincidia com o período do feriado de Tiradentes, patrono dos metalúrgicos. Pouco conhecido, o novo presidente integrava a diretoria desde 1972. Tinha 29 anos – completaria 30 em outubro – e era um torneiro-mecânico da Villares. Viúvo, havia casado novamente em 1974, com Marisa Letícia, também viúva. Nessa época, usava apenas bigode, ainda sem a barba que se tornaria característica.

Luiz Inácio da Silva, o Lula, encabeçava a chapa única das eleições daquele ano, vitoriosa com 97,5% dos válidos, ou pouco mais de 14 mil votos. Receberia 52,7 milhões em 2002 e 58,3 milhões em 2006, eleito e reeleito presidente da República. Esses 40 anos de história serão resumidos em 50 imagens, que irão a leilão no próximo dia 3, a partir das 19h, em um bar da Vila Madalena, zona oeste de São Paulo, que pode ter participação online, além de presencial. (Confira, ao final do texto, vídeo com todas as fotografias.). Dezenas de fotógrafos, de diferentes vivências e com olhares sensíveis, cederam as 50 imagens, em preto e branco.

 

MÔNICA ZARATTINIfoto assinada por lula
Todas as 50 fotos que irão a leilão (como esta, no estádio de Vila Euclides, em São Bernardo, em 1979), foram autografadas por Lula e pelo autor

 

Todas as fotografias foram autografadas pelo ex-presidente em sua cela na Superintendência da Polícia Federal no Paraná – Lula está preso em Curitiba desde 7 de abril do ano passado. As fotos foram levadas para lá em três lotes. A maior parte foi assinada nos dias de Natal e ano-novo. O último chegou à capital paranaense na semana da morte de um de seus irmãos, Genival Inácio da Silva, o Vavá, cujos velório e enterro Lula não conseguiu presenciar. 

Os profissionais da imagem também assinam suas obras. As fotos cobrem um período amplo: começa na redemocratização brasileira, com os célebres flagrantes de assembleias no estádio de Vila Euclides, hoje com o nome 1º de Maio, em São Bernardo. Contam um pouco da história dos movimentos sociais, mostram encontros com personagens como Dom Paulo Evaristo Arns, Barack Obama, Fidel Castro, Leonel Brizola e José (Pepe) Mujica, as eleições presidenciais e os governos protagonizados por Lula.

Mostram, inclusive, momentos de intimidade, como a de um Lula despenteado, camisa meio aberta e descalço, ao lado de Marisa, em 1983. Ou engraçados: em um festival da juventude na Bahia, em 2017, perto dos 72 anos, ele mostrou jovialidade – e agilidade – e não teve dúvida em entrar na roda e dançar ao ritmo de Sarrada no Ar (Passinho do Romano), de Mc Crash, um clique inesquecível de Ricardo Stuckert, fotógrafo oficial de Lula.

E, claro, estão ali as imagens de 7 de abril de 2018, o sábado em que Lula se entregou à Polícia Federal, após extensas e tensas negociações. Correu mundo a foto em que o ex-presidente é carregado pela multidão, no curto trajeto do caminhão de som até a entrada do Sindicato dos Metalúrgicos.

Para a história

O gaúcho Paulo Pinto, que veio para São Paulo no final dos anos 1980, conta que viveu naquele dia um de seus momentos de maior emoção, pessoal e profissional. "Gravei em vários HDs. É uma imagem que não pode ser perdida." Um instante que não chegou a dois minutos e meio, segundo sua cronometragem, mas que será falado "daqui a 50, 100 anos".

Hoje com 39 anos de profissão, Paulo lembra que tinha ido à sede do sindicato no dia anterior, véspera de um ato ecumênico que seria celebrado na rua, diante da entidade, já sob a expectativa de "rendição" à PF. "Desci para o primeiro andar, tinha uma janela que me dava a dimensão exata de onde seria a missa. A minha ideia era ficar no mesmo nível", recorda o fotógrafo, que no sábado chegou às 7h e, na hora do ato, posicionou-se no lugar escolhido previamente. Trocou a lente 70/200 por um grande angular e se preparou. 

"Eu tinha a consciência de que aquela imagem era uma coisa histórica. Foi muito emocionante, o pessoal aplaudindo e chorando, gritando 'não se entrega'", lembra Paulo. "Fui dosando, foi clique a clique, pensando na história."

 

ROBERTO PARIZOTTIMônica Zarattini foto lula
Mônica Zarattini fotografou Lula na eleição de 1989, quando o petista perdeu no segundo turno. Em 2003, captou o presidente eleito subindo a rampa
RICARDO STUCKERTLula participa da “Sarrada”
Em 2017, o ex-presidente, cotado para vencer novamente, não pensou em duas vezes e participou da dança da "sarrada" em encontro de jovens do PT

 

 

Uma das organizadores do leilão, Mônica Zarattini conta que a preocupação era garantir "imagens históricas, icônicas ou inusitadas". Ela participa com duas, com intervalo de 12 anos: na primeira eleição para presidente após a ditadura, em 1989, Lula beija a cédula – ainda não havia urna eletrônica, e a contagem era no papel. Ali, ele perdeu no segundo turno, para Fernando Collor. A outra mostra o petista sorridente, subindo a rampa do Palácio do Planalto, no dia de sua posse como presidente da República, em 2003.

Mônica começou a fotografar em 1981, ainda estudante, e acompanhou muitos dos passos de Lula como dirigente sindical. Teve foto de um ato sobre a anistia publicada no jornal Tribuna Metalúrgica. Em 1988, entrou na Agência Estado, pela qual cobriu a eleição do ano seguinte. Paulistana, tem formação em História, e leva essa perspectiva para o trabalho profissional. 

"No momento que a gente está fotografando, tem muita preocupação técnica, de um bom enquadramento, a leitura da luz, se está tudo correto... Agora, quando se trata de Lula, você tem uma carga de emoção muito grande, pelo carisma que esse homem tem", conta. "Obviamente, como historiadora, sei do papel que eu estava cumprindo naquele dia, em 1989 e 2003. Era o papel de estar registrando um momento histórico. Além de ter uma estética boa, sempre pensei nisso, esse momento histórico tinha que ser captado."

Pela democracia

Ela lembra que em 2016, ano do impeachment de Dilma Rousseff, organizou-se um grupo, Fotógrafos contra o Golpe, que se mobilizou contra a posse de Michel Temer, com direitos a manifestações como o Varal da Resistência, com fotografias penduradas na Avenida Paulista. No ano passado, surgiram os Fotógrafos pela Democracia. "Nosso intuito é dar visibilidade à campanha pela libertação de Lula, preso sem provas", afirma o grupo. 

O lance inicial para cada foto é de R$ 1.313, referência ao número do PT. Todo o dinheiro arrecado será doado ao Instituto Lula, "por desejo do próprio ex-presidente". Detalhes sobre o evento pode ser encontrados na internet (www.leilaolulalivre.wordpress.com), inclusive para interessados em participar virtualmente (http://v2.leiloespb.vlance.com.br/leilao/index/leilao_id/11).

Roberto Parizotti tinha quase 20 anos quando Luiz Inácio tornou-se presidente do Sindicato dos Metalúrgicos pela primeira vez. O próprio Lula acostumou-se a chamá-lo pelo apelido de Sapão. Militante desde a adolescência, como conta, distribuía jornais na periferia, vendia sanduíche natural e "era rato de teatro, cinema e biblioteca". Jovem, morava perto do Teatro Municipal de Santo André. "Isso me propiciou ver ciclos de cinema", conta Parizotti/Sapão, citando vários autores e diretores.

 

MÔNICA ZARATTINIRoberto Parizotti foto lula
Roberto Parizotti, conhecido como Sapão, inclusive por Lula, fez esta imagem do presidente em 1989, durante uma festa em São Bernardo

 

A imagem, o olhar, sempre despertou interesse, e ele foi fazer um curso no Museu Lasar Segall, em São Paulo. Posteriormente, se tornaria auxiliar de fotografia. Suas primeiras imagens saíram em publicações do Sindicato dos Químicos do ABC, em meados dos anos 1980. Reconhecido em todo o meio sindical – e fora dele –, Sapão hoje trabalha para a CUT. Faz questões de lembrar de alguns de seus mestres na área jornalística, como Roberto Baraldi e Júlio de Grammont. 

Na foto cedida para o leilão, Lula segura com as duas mãos uma bandeira do PT. A imagem foi tirada em uma festa na sede da Associação dos Metalúrgicos Aposentados (AMA), em São Bernardo, ao lado do sindicato da categoria, durante a campanha eleitoral de 1989. Mas Parizotti gosta, particularmente, de uma fotografia tirada anos depois, com Lula e a bandeira brasileira. "Já estava com essa foto na cabeça fazia tempo, e colei nele. Já sabia que era 'a' foto. Lula mandava fazer de 100 (para distribuir)." Outro momento marcante da vida profissional foi durante a greve dos chamados "golas vermelhas" da Ford de São Bernardo, em 1990. Só ali foram 1.200 fotogramas. 

Antes da prisão

Dez anos antes, em abril de 1980, Hélio Campos Mello estava no Sindicato dos Metalúrgicos, trabalhando pela IstoÉ, "então uma revista combativa", como lembra, que em 1978 já havia colocado Lula na capa, com foto dele e entrevista para os jornalistas Bernardo Lerer e Mino Carta. Naquele 1980, já com o último general-presidente, João Figueiredo, no poder, os metalúrgicos estão em greve e o governo decreta intervenção no sindicato. "Fotógrafos e repórteres praticamente acampávamos por lá", recorda.

Na foto tirada em 1980, aparece um Lula de boina, cobrindo-se para deitar em um sofá, sob as vistas dos jornalistas. Ele e outros sindicalistas seriam presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional. O movimento operário chamou a atenção do mundo – e a imagem de Hélio, tirada dias antes da prisão, reserva uma curiosidade. "A greve repercutiu internacionalmente e trouxe para o Brasil jornalistas de vários países, entre eles o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, contratado pela revista francesa Actuel, uma mensal dirigida pelo pessoal que teve participação destacada nos movimentos de maio de 68 na França." Salgado, que ainda não havia se tornado ícone, tinha 34 anos. Ele aparece sobre a mesa, em pé, mexendo em seu equipamento. 

Outro momento de Lula em 1989 foi acompanhado por Douglas Mansur: o futuro candidato e o cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, encontraram-se na Igreja São Domingos, no bairro de Perdizes. "Eles conversavam muito. Dom Paulo tinha um respeito muito grande pelo Lula", lembra Douglas, que conhecia muito bem o universo da religião. "Como fui diácono, seminarista, mesmo antes de ser repórter-fotográfico eu acompanhava Dom Paulo, ia nas pastorais, na Casa de Detenção..."

Ele entrou definitivamente para a fotografia em 1987, ao sair da Igreja, mas sempre gostou de tirar imagens. Tinha registro profissional e era sindicalizado desde 1984. Especializou-se em acompanhar movimentos sociais – onde há uma atividade, certamente Douglas estará lá. Ele fez, inclusive, uma mestrado cujo tema era a importância da fotografia na documentação desses movimentos, tendo como objeto de pesquisa os trabalhadores sem-terra do Brasil e do Paraguai. Nascido em Timburi, no interior, e com título de cidadão paulistano, vê a imagem como "um instrumento pedagógico". 

"Grudando" em Lula

Pelo jornal O Estado de S. Paulo, Luludi havia acompanhado Lula em uma das Caravanas da Cidadania, realizada em 1994. Fotografou o candidato em cima de um ônibus, no interior do Ceará. A outra imagem que faz parte do leilão é de janeiro de 2002, quando ela já trabalhava para a revista Época e o diretor de redação, Paulo Moreira Leite, imaginou uma pauta para aquele ano eleitoral.

Segundo Luludi, era para "grudar" nos candidatos. Ele (PML) queria fotos de intimidade", conta a fotógrafa, que "grudou" no petista. E fez uma imagem de Lula preparando um coelho, no sítio Los Fubangos, em São Bernardo, às margens da represa Billings. O único que realmente pertence à família, como observa a profissional. O avental usado pelo presidente, que acabou virando presente, adquirido na Fundação Casa de Jorge Amado, em Salvador, foi levado pela própria Luludi, para quem Lula, que conhecia desde 1989, sempre foi tranquilo em relação a fotografias. Ele só se aborrecia, conta, "se o fotógrafo quisesse dirigir ele".  

No caso de Eliária Andrade, 31 anos de profissão, a sorte ajudou um pouco. Em 21 de março de 2011, Lula recebeu uma premiação no Clube Sírio Libanês, e participava de um jantar. A cerimônia oficial terminou depois das 23h. "Como já estava tarde para o fechamento, e o local reservado para imprensa era a galeria superior e sem iluminação, todos resolveram sair para transmitir (as fotos)", lembra a fotógrafa, que trabalhava para O Globo. Como o jornal fechava mais cedo e o notebook já estava aberto, ela decidiu permanecer ali mesmo.

"Quando eu estava acabando de transmitir as fotos, entram algumas pessoas dançando e em volta do Lula, e na sequência colocam o turbante nele", conta Eliária. "Era quase meia-noite e eu já havia recebido uma mensagem que o jornal estava fechado. Como achei a foto interessante, liguei para o jornal, que já estava rodando. Eles cancelaram a foto anterior e colocaram esta na capa", acrescenta a fotógrafa, que com essa imagem inusitada acabou fazendo com que sua publicação "furasse" as concorrentes.

Em 7 de abril de 2018, o acaso acabou propiciando a Paulo Pinto, então no Imagens Públicas, outra fotografia histórica, embora ele lamente o desfecho daquele dia. Começando no jornal gaúcho A Plateia, com cinco anos de Diário Popular e 17 de Estadão, coberturas de Copa do Mundo e Olimpíadas e inúmeros acontecimentos políticos no Brasil, ele já sabia que tinha feito uma imagem histórica. "Essa foto só vai ser superada quando ele sair (da prisão).  Espero estar junto."

Confira o vídeo com as fotos do Leilão Lula Livre

 

 

26
Out18

Qual o papel do jornalismo quando a democracia e a liberdade de imprensa estão com a faca no pescoço?

Talis Andrade

 

É nossa obrigação documentar o momento histórico, mostrar as caras deste país com imagens, textos e sonoras capazes de traduzir o inclino à barbárie da sociedade brasileira



Quarta feira, 17 de Outubro de 2018. Um silêncio arrebata as ruas do centro de São Paulo. Passos apertados e olhares desconfiados. Nos acostumamos a andar com medo. Assistindo à propaganda eleitoral, o porteiro de um edifício discreto aponta para o alto antes que uma pergunta saia da boca do jovem casal de fotógrafos que pela primeira vez visita o Baixo Augusta, reduto de resistência cultural com sede na rua Major Certório. Sim, somos um país violento cujas ruas carregam nomes de oficiais militares do passado. Um passado opressor, um presente tenebroso.

.

Sim, o militarismo tem raízes poderosas e está estampado nas placas de ruas e avenidas. O silêncio desconfortável pega carona no elevador até o primeiro andar onde uma multidão de fotógrafxs se amontoa amedrontado num salão. A atmosfera do local deve ser semelhante aos encontros secretos dos militantes nos tempos da ditadura. “Resistência!” Alguém grita no canto esquerdo do recinto. É o primeiro encontro do grupo Fotógrafos contra a barbárie cuja reunião tem como objetivo marcar o posicionamento de parte da categoria contra a candidatura do presidenciável Jair Bolsonaro. “Precisamos estar unidos agora mais do que nunca”, comenta uma jovem ao lado, que acredita no amor para reverter votos. A campanha vira voto , que apresenta no Instagram depoimentos de pessoas que mudaram seu voto de Jair Bolsonaro para Fernando Haddad, ganhou força nas redes sociais nas últimas semanas ao mesmo tempo em que fotógrafxs saem às ruas diariamente para informar e debater com a população. Num país onde dois terços da sociedade se informa por WhatsApp, o acesso à informação é um privilégio imensurável.

 

A conjuntura atual é de ameaça à democracia e às já fragilizadas instituições brasileiras, como alertam a imprensa internacional e diversas ONGs como a Repórteres Sem Fronteira e a Human Rights Watch. Atos de opressão e agressão que eclodem por todos os cantos há anos, nos últimos dias se intensificaram e escancaram o ódio e a intolerância em que a sociedade brasileira está mergulhada. A violência da periferia está chegando à classe média, mas antes disso foi preciso que Amarildos e Marielles sangrassem por aí nas periferias. O pavor é grave na outra parte da população “A caixa de pandora está aberta, conviveremos com o fascismo daqui para frente” discursa no microfone a fotógrafa Marlene Bergamo. Enquanto o microfone anunciava a lista de fotógrafxs apoiadores como se fosse o elenco de uma novela das oito alguém na arquibancada do auditório reclamava da hierarquização da categoria e sintetiza a rachadura existente. Para uma categoria em que o ego e a vaidade muitas vezes cega à união é preciso repensar as atuações pois o momento de urgência exige que nós, fotógrafos e jornalistas, nos posicionemos frente à barbárie e façamos nossa militância nas ruas com câmeras na mão e informações na cabeça para reverter a situação eleitoral. É nossa obrigação documentar o momento histórico, mostrar as caras deste país com imagens, textos e sonoras capazes de traduzir o inclino à barbárie da sociedade brasileira. No período do regime militar, inúmeros companheiros foram presos, torturados e assassinados, muitas vezes na frente dos próprios filhos, para que pudéssemos exercer nosso ofício e se expressar livremente. Essa condição infelizmente pode estar com os dias contados.

 

Para constar nos autos, neste ano, até o momento, a ABRAJI registrou 137 casos de violência contra jornalistas durante o exercício da profissão. Vale lembrar que o Brasil dos “cidadãos de bem” é o segundo país da América Latina em que mais morrem jornalistas, ficando atrás do México e o sétimo no mundo. Façamos a resistência com nossas armas: uma câmera fotográfica um bloco de notas e uma caneta munidos de um rádio a pilha. Documentar a complexidade deste país a beira do caos não será uma tarefa fácil mas nós somos destemidos por natureza, corremos em direção às bombas de gás lacrimogênio nos protestos reprimidos com opressão. Somos células de resistência. Todos ecoam o grito de #elenãodurante a foto oficial.

 

Chegamos à ponta de um iceberg sombrio que vem emergindo nos últimos anos e agora conquistou a superfície sem sinais de que vai afundar. Vivemos há décadas num Estado opressor, especialmente das minorias atacadas por Bolsonaro. O pontapé inicial de um longo período de resistência já foi dado, a história dirá quantos sobreviverão e com quais imagens documentaremos o período sombrio que estamos prestes a adentrar.

 

Manifesto Fotografia contra a Barbárie

Carta do Baixo Augusta

 

photographer__victor_borograd.jpg

 

 

17 de Outubro de 2018. Casa do Baixo Augusta, São Paulo, Brasil.

A fotografia tem na sua origem a luta pela justiça social e pela denúncia, assim neste momento crucial da democracia brasileira ela deve se manter fiel àsrbári tradições dos grandes fotógrafos e fotógrafas que usaram suas câmeras para resistir e apontar as injustiças, a miséria, a opressão, o autoritarismo e as ditaduras em todo o mundo.

 

Somos profissionais da imagem das mais diversas áreas, fotógrafas e fotógrafos, coletivos, curadores, galeristas, editores, ONGs, professores, instituições, redes e festivais de fotografia em todos os estados brasileiros que nos somamos nesse Manifesto “Fotografia Contra a Barbárie”.

 

Reunimo-nos em um ato público em caráter de urgência, no dia 17 de Outubro de 2018, em São Paulo, na Casa do Baixo Augusta, com o objetivo de unificar simbolicamente a categoria, tendo em vista o impacto e poder de formação de opinião de tantos nomes fundamentais na história da fotografia brasileira e mundial, cujas causas estão diretamente ligadas aos direitos humanos, convivência plural e respeito mútuo.

 

Todos os presentes e participantes online nos manifestamos contra a ameaça fascista representada pela candidatura de Jair Bolsonaro. Não aceitamos intolerância, preconceito, violência e discriminação. Estamos ante um projeto de poder que idolatra a existência de um passado autoritário no Brasil como caminho para o futuro ao flertar explicitamente com conceitos violentos, machistas, lgbtfóbicos, racistas, xenofóbicos e discriminatórios contra setores diversos da sociedade. A candidatura de Jair Bolsonaro e sua postura antidemocrática, apoiado em grande parte pela elite que explora este país desde o descobrimento, representa uma ameaça direta aos patrimônios civilizatórios primordiais: a Democracia e a Liberdade.

 

É nosso dever como cidadãos resistir e lutar pelos princípios fundamentais da sociedade brasileira ameaçada pelo candidato do PSL, que insurge contra os direitos conquistados com tantas lutas e sacrifícios após a ditadura militar e a constituição democrática de 1988. Direitos esses como a legislação trabalhista, a luta contra a criminalização das minorias e dos movimentos sociais, a preservação das nossas riquezas e reservas naturais.

 

Não estamos lutando só pelo Brasil, mas contra a ameaça conservadora e autoritária que se baseia no medo e na ampla disseminação de falsas notícias ouvidas pela população. Não aceitamos o incitamento ao ódio. O que nos une é o compromisso incondicional com a democracia, a tolerância, a paz, os direitos humanos e a liberdade de expressão. Acreditamos num Brasil para todas e todos. Por isso, estamos preparados para estar juntos na sua defesa em qualquer situação. Nos reunimos para que nossas vozes e nossas imagens ajudem a impedir o obscurantismo que se anuncia e nos auxiliem na reconstrução de um Brasil do qual possamos nos orgulhar pela justiça social e igualdade.

 

 
08
Set18

Perpignan: festival destaca fotos de duas tragédias brasileiras

Talis Andrade

 

Perpignan: festival destaca fotos de duas tragédias brasileiras
 
Samuel Bollendorff registrou a tragédia do Rio Doce.(c) Samuel Bollendorff/Le Monde
 

 

O Festival de Fotojornalismo Visa Pour L’Image, de Perpignan, no sul da França, é parada obrigatória para os profissionais do setor. Para amantes da fotografia e turistas, é um evento excepcional para conhecer o trabalho de pessoas que rodam o mundo para contar histórias através de imagens.

 

Duas exposições mostram imagens do Brasil. Uma traz o Brasil do rio Doce, isto é, o “Rio Morto”, contaminado pelo rompimento das barragens da mineradora Samarco. Outra traz o Brasil como parte atuante da produção mega industrial de alimentos que avança pela Amazônia.

 

Usina de transformação de frangos na China.© George Steinmetz / Cosmos

 

 

O francês Samuel Bollendorf acompanhou jornalistas do diário francês Le Monde em várias partes do mundo ameaçadas pela contaminação, como Fukushima, no Japão, e o oceano Pacífico repleto de dejetos plásticos. No Brasil, o tema foi a catástrofe do rio Doce na região de Mariana.

 

Impunidade

 

“É horrível, pois a princípio são lugares muito bonitos, mas o que encontramos é um pesadelo. Conhecemos pessoas doentes, que perderam familiares, e que se sentem como Davi contra o gigante Golias, ou seja, pequenos demais para lugar contra lobbies poderosos e grupos industriais ligados à política e à justiça, e assim ficam impunes”, disse Bollendorf.

 

Samuel Bollendorff diante de uma foto sua do Rio Doce.(c) Patricia Moribe

 

 

O americano George Steinmetz é um fotógrafo conhecido por suas fotos aéreas. Armado de paraglider, drone e câmeras, ele sobrevoou estufas, plantações, criações e abatedouros, produzindo imagens impressionantes, coloridas e futurísticas. No Brasil, ele fotografou a produção industrial de ovos e carne de frango e porco, além de testemunhar o desmatamento da floresta amazônica.

 

Mundo natural vira industrial

 

George Steinmetz, em Perpignan.(c) Patricia Moribe

 

“O que me choca no Brasil é ver a Amazônia se transformando em zonas de cultivo. Não é o mundo que vai decidir o destino da Amazônia, é o Brasil. Mas acho que há uma ruptura entre a vida das pessoas na zona rural e urbana. Deveria haver mais conexão entre os dois lados. É perturbador ver o mundo natural se transformar em um processo industrial”, declarou Steinmetz à RFI Brasil.

 

A realidade nua e crua é obrigatória em Perpignan. A brasileira Alice Martins traz imagens duras da Síria, conflito que ela acompanha há seis anos. A americana Andrea Bruce mostra o problema da defecação ao ar livre e o saneamento em países carentes como Índia e Haiti. Ou ainda programas que deram certo, como no Vietnã. Cerca de 950 milhões no mundo não têm acesso a um sistema sanitário, provocando graves ameaças à saúde da população. Leia mais aqui

 

 
22
Mai18

17 fotos inusitadas da Terra vista do espaço

Talis Andrade

Empresa especializada em satélites fez registros com as lentes a uma inclinação entre 45 e 60 graus: “Assim conseguimos imagens similares à vista de um avião”. Veja as fotos no El País, Espanha

 

sao paulo.jpg

 

Nesta fotografia de São Paulo podem ser vistos os bairros residenciais que cercam o Parque Ibirapuera, a área natural na parte inferior da imagem. No canto superior esquerdo fica o rio Pinheiros. Foto tirada em 12 de março de 2018

10
Mai18

Uma outra história: a iconografia de um país nada cordial

Talis Andrade


Exposição em cartaz no IMS, em SP, abrange 75 anos de conflitos mostra país longe de ideia conciliadora

degola revolução federalista.jpg

 

Simbólica da violência dos conflitos brasileiros, imagem mostra a degola de um revoltoso durante a Revolução Federalista, guerra que durou cerca de dois anos no Rio Grande do Sul, entre 1893 e 1895

 

por André de Oliveira

 

 


Quando olha para as disputas, conflitos e violências atuais, o Brasil tem muitas vezes dificuldade em entender de onde partiu a centelha do conflito, exatamente. Afinal, o retrato do brasileiro como um povo cordial, pacífico e conciliador abunda tanto na historiografia, quanto na iconografia. As grandes imagens do Brasil falam, muitas vezes, de um país icônico: jangadas ao mar, religiões afro-brasileiras, novas cidades sendo erigidas em meio ao cerrado. Oferecer uma outra representação, que ilustre os conflitos e violências constantes que fizeram e fazem parte da história do país, é o que pretende a exposição Conflitos: Fotografia e Violência Política no Brasil 1889-1964, que, depois de uma temporada no Rio de Janeiro, chega ao Instituto Moreira Salles (IMS) de São Paulo nesta terça-feira, dia 8.

 

Cobrindo um período de 75 anos, as cerca de 400 imagens que compõem a exposição fazem um percurso através de revoltas populares, rebeliões, guerras civis, golpes de Estado e tentativas de revolução que se deram a partir da proclamação da República, em 1889, até o golpe militar de 1964. O grande período abarcado pela mostra e as especificidades de cada evento – são 19 ao todo – têm em comum o fato de que todos os conflitos retratados tiveram, de alguma forma, o envolvimento do Estado e foram parte de um processo maior de disputa política.

 

Na exposição, capítulos menos e mais conhecidos da história brasileira ganham, através das imagens, uma materialidade que permite uma compreensão maior de suas reais dimensões e reverberações, como a Guerra de Canudos (1896-1897) e o Tenentismo, que durou boa parte da década de 1920. A primeira foto que abre o percurso de eventos retratos, por exemplo, mostra um homem sendo degolado durante a Revolução Federalista (1893-1895), conflito pela disputa do poder do Rio Grande do Sul. Na época, a cruel degola era um evento corriqueiro desde, pelo menos, a Guerra do Paraguai (1864-1870), por motivos tão fúteis quanto a economia de munição e afirmação de superioridade. Chocante, contudo, a imagem é simbólica de uma prática disseminada não só naquele Brasil, mas também neste – quando se lembra das atuais rebeliões e disputas de facções em presídios.

 

Em conversa com o EL PAÍS, a curadora da exposição, Heloísa Espada, ressalta o fato de que, se por um lado, a mostra é um resgate de acontecimentos marcantes da vida nacional, também serve como uma pequena história da fotografia documental e do fotojornalismo no Brasil.

 

 

“Toda imagem realizada num conflito é interessada e abordá-la é abordar também os fatores que moldam seus significados”, diz Espada na abertura do livro catálogo – que pode ser lido e comprado separadamente. Por isso, segundo ela, o material serve ainda como um registro de como e por quem foi contada a história das violências brasileiras. Na elaboração de Conflitos: Fotografia e Violência Política no Brasil 1889-1964, foram gastos cerca de quatro anos, entre pesquisa e confecção do material, em que a curadora contou com o apoio de uma equipe de pesquisadores. A socióloga Angela Alonso, que participou do processo, escreve também no livro: “Se você aprendeu na escola que este é um país pacífico e conciliador, vai desaprender. Aqui se descortina uma sociedade de faca, tiro e bomba. Não pense que se fala de um mundo à parte, o dos 'marginais'. É do coração da República que se trata”.

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub