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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

22
Mai20

Guedes, o perverso, agora fala em reduzir auxílio para R$ 200

Talis Andrade

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Especialistas falam em manter a renda básica, enquanto a economia se recupera da pandemia, mas ministro de Bolsomaro diz que não dá para garantir ajuda ao povo: “Se falarmos que vai ter mais três meses, mais três meses, mais três meses, aí ninguém trabalha”

Em diversas partes do mundo, notadamente em países da Europa e nos Estados Unidos, governos e especialistas vêm discutindo a proposta de criar um programa de renda básica universal para assegurar recursos e minimizar a crescente desigualdade social. No Brasil, mesmo economistas de corte liberal, como Monica de Bolle, defendem a medida para promover inclusão e garantir um mínimo de dinheiro às pessoas em tempos de pandemia. Mas, se depender do ministro da Economia, Paulo Guedes, nem o parco auxílio emergencial de R$ 600 é certeza para os pobres, autônomos e trabalhadores que vivem na informalidade.

Na quarta-feira, 20, o ministro admitiu a hipótese de estender para depois de julho algum dinheiro para o povo, mas só como solução temporária e de curto prazo. Na cabeça dele, a cifra mágica é R$ 200, como defendeu o próprio Palácio do Planalto antes de o Congresso aprovar o seguro-quarentena de R$ 600. Guedes topa manter o auxílio, mas o dinheiro seria pago em, no máximo, duas parcelas. “Se falarmos que vai ter mais três meses, mais três meses, mais três meses, aí ninguém trabalha”, disse o perverso ministro de Bolsonaro.

“Ninguém sai de casa e o isolamento vai ser de oito anos porque a vida está boa, está tudo tranquilo”, ironizou Paulo Guedes. Desumano e criminoso e humilhante é que nem a primeira parcela de R$ 600 foi paga a todos que a solicitaram, há mais de 50 dias. Trinta e sete milhões de brasileiros ainda estão à espera do dinheiro, impedidos pela burocracia de ter acesso ao benefício. Pelo visto, nem R$ 200 receberão, a depender da crueldade de Guedes.

O pensamento abjeto do ministro da Economia é a tradução do desprezo de Jair Bolsonaro pelo povo brasileiro. Aos pobres, farelos do que o andar de cima administra a seu bel-prazer, mesmo em tempos de pandemia. Num dos países mais desiguais do mundo, o Brasil mantém uma parcela ínfima – 1% do topo da pirâmide social – abocanhando nada menos que 29% da renda nacional. Os miseráveis no Brasil já somam 13,9 milhões de brasileiros, de acordo com dados de 2019. Mas a situação tende a se agravar com a paralisação da economia. De qualquer forma, a declaração de Guedes confirma que nada virá desse governo a não ser arrocho e mais miséria.

Não precisava ser assim. Em artigo publicado na revista ‘Época’, Monica de Bolle sintetizou a crueldade da agenda neoliberal do governo. “Temos um governo cujo discurso é a exclusão”, lamentou. “No entanto, temos uma pandemia e uma crise econômica que revelam a forma crua a uma extensão dessa exclusão, como injustiças a ela associadas e precariedade da vida da imensa parte de nossa população, logotipo e nossa economia. Podemos optar por manter uma economia de exclusão. Ou podemos finalmente fazer algo para começar a resolver problemas que, se não solucionados, implicam em um desperdício de vidas e redução da capacidade de desenvolvimento do Brasil”.

A probabilidade da adoção de um bloqueio total de algumas das principais cidades brasileiras, levou um grupo de pesquisadores ligados às universidades do ABC e de Bristol, no Reino Unido, a alertarem que o governo será obrigado não apenas a rever os protocolos de saúde na resposta à pandemia, mas ampliar as medidas de socorro às populações vulneráveis, principalmente às populações que vivem nas favelas e nas periferias, onde as recomendações de isolamento e distanciamento sociais são quase impossíveis de serem adotadas.

Professores das universidades federais do Paraná (UFPR), do Rio de Janeiro (UFRJ) e de São Paulo (USP) desenvolveram o Índice de Vulnerabilidade Covid-19 (IVC19). Construído a partir de dados do Censo 2010, o indicador aponta o grau de exposição de cidades e bairros à pandemia. Com isso, as simulações determinam o nível de confinamento necessário.

Grande parte dos habitantes das favelas divide espaços precários, com fornecimento deficitário de água, além do alto índice de informalidade. “Isso significa que o governo terá que redirecionar recursos do asfalto, realocando no morro”, afirma o professor e economista José Paulo Guedes Pinto, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), referindo-se à topografia de Copacabana, em que as favelas estão nas encostas.

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18
Mai20

Não há risco iminente de faltar alimentos no Brasil

Talis Andrade

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II - João Fellet entrevista José Graziano da Silva 

BBC News Brasil - O diretor-executivo do Programa de Alimentação da ONU disse em abril que, por causa do novo coronavírus, o número de pessoas sob risco de morrer de fome pode passar de 130 milhões para 265 milhões. Como combater o problema?

José Graziano - Implementando políticas de segurança alimentar. Não apenas para quem está passando fome, mas também para quem está ameaçado de passar e quem sofre de malnutrição de forma geral.

Temos um número ainda maior de pessoas obesas, 804 milhões, e a obesidade é um dos elementos que podem agravar a covid-19. Pessoas com menos de 60 anos obesas têm probabilidade de morte bem maior que as não obesas.

 

BBC News Brasil - O sr. poderia citar exemplos de políticas de segurança alimentar que poderiam ser aplicadas em escala global? Os países mais pobres têm condições de implementá-las sozinhos?

Graziano - Os melhores exemplos são a merenda escolar comprada localmente de agricultores familiares, e o Programa de Aquisição de Alimentos em sua versão de compra com doação simultânea dos alimentos a pessoas em situação de risco alimentar.

É difícil que esses programas possam ser implementados pelos países mais pobres, porque não há apenas a questão dos recursos financeiros que eles demandam, mas principalmente da infraestrutura que precisa ter na área das políticas de segurança alimentar.

Implementar uma compra local para merenda escolar, por exemplo, faz supor que haja uma rede de escolas que tenham pelo menos uma cozinha ou um local que possa preparar seus produtos. E essa situação é muito distante da realidade da maioria dos países africanos, por exemplo.

 

BBC News Brasil - O sr. elogia as políticas de segurança alimentar adotadas no Brasil nas últimas décadas. Porém, uma pesquisa do Ministério da Saúde apontou que o número de obesos no país aumentou 67,8% entre 2006 e 2018. Houve falhas nessas políticas? O que precisa melhorar?

Graziano - Sem dúvida há muito a melhorar. A dimensão da obesidade foi negligenciada no primeiro momento do Fome Zero, em 2002. A preocupação era tanta em fornecer comida que não se perguntou sobre a qualidade dessa comida. Só depois é que passamos a dar prioridade às compras da agricultura familiar para merenda escolar, por exemplo. Essa lei é bastante posterior ao início do programa Fome Zero.

Mas o problema da obesidade tem muito a ver com as inovações da indústria alimentícia. A rapidez com que a indústria consegue produzir novos alimentos ultraprocessados vai muito além da capacidade do poder público de regulamentar essa matéria.

O que acho que falta é uma regulamentação mais ágil, principalmente da Anvisa e dos mecanismos de defesa do consumidor, tipo Procon, para rotulagem dos produtos e para evitar que a população continue a ser literalmente enganada pela propaganda que é feita de produtos alimentícios.

 

BBC News Brasil - Quais os riscos de faltar alimento no Brasil durante a pandemia? Estamos em situação melhor ou pior que países de outras regiões?

Graziano - O Brasil é um tradicional exportador de alimentos. Não vejo risco iminente de faltar alimentos, ainda mais porque estamos entrando em plena safra. A não ser uma falta localizada, por algum corte de rota, ou problema de logística de abastecimento de cidades aqui ou ali.

Estamos em situação muito melhor que outros países que dependem de importação de alimentos, como a maioria dos países africanos. Esses, sim, têm risco de crise alimentar grave. (Continua)

16
Mai20

Piora da alimentação na pandemia deixa população mais vulnerável à covid-19, diz ex-chefe da FAO

Talis Andrade

 

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João Fellet entrevista José Graziano da Silva 

Encorajadas a ficar em casa para não se expor ao novo coronavírus, muitas famílias têm preferido comprar alimentos industrializados, que duram mais tempo na despensa.

O problema é que a opção por esses itens - que tendem a ser mais calóricos e menos nutritivos que comidas frescas - pode no médio prazo acabar deixando seus consumidores mais vulneráveis a adoecer gravemente pela covid-19.

O alerta é do agrônomo brasileiro José Graziano da Silva, que chefiou a agência da ONU para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês) entre 2012 e 2019.

Em entrevista à BBC News Brasil, Graziano lembra que a obesidade, doença muitas vezes provocada pela má alimentação, é considerada um dos principais agravantes da covid-19.

O grande número de mortos pela doença nos EUA, onde 42% da população é obesa, reforça a tese. Muitos hospitais americanos têm relatado que grande parte dos adultos internados por covid-19 tem problemas de sobrepeso.

Graziano diz ainda que a maior procura por alimentos industrializados em supermercados tem prejudicado pequenos agricultores, muitos deles dependentes de feiras livres. Com o menor movimento nesses espaços, vários pequenos produtores temem não conseguir manter as atividades e começaram a descartar frutas, verduras e legumes.

"Precisamos valorizar circuitos locais de produção e consumo", defende.

Hoje consultor do Instituto Comida do Amanhã, Graziano tem passado a quarentena em sua fazenda no interior de São Paulo.

Entre 2003 e 2004, ele foi ministro de Segurança Alimentar e Combate à Fome no governo Lula, quando ajudou a implantar o Programa Fome Zero.

Formado em Agronomia pela USP, é doutor em Economia pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), onde foi professor, e pós-doutor pela Universidade de Londres e pela Universidade da Califórnia-Santa Cruz.

Na entrevista à BBC News Brasil, Graziano criticou ainda mudanças feitas pelo governo Jair Bolsonaro nas políticas de segurança alimentar e disse que "há uma desorganização completa na resposta" dos órgãos federais aos desafios atuais no setor. (Continua)

 

16
Mai20

Bolsonaro, para o povo trabalhar de sol a sol, oferece o salário da fome, do medo e da morte

Talis Andrade

Jair Bolsonaro, presidente dos banqueiros, aliado de Trump, não anuncia nenhum benefício para o camponês, para o operário, apesar de pregar que o "trabalho liberta (Arbeit macht frei],  salva, um slogan nazista eternizado em uma porteira de campo de concentração de trabalhadores escravos, em um campo de extermínio de 'raças inferiores' (judeus, ciganos, negros) e indivídios socialmente nocivos (aleijados, portadores de doenças contagiosas, homossexuais, comunistas, socialistas, anarquistas, sindicalistas, Testemunhas de Jeová).

Jair Bolsonaro voltou a atacar, na manhã deste sábado (16), as medidas de isolamento social adotadas por governadores, para conter o avanço do Covid-19, que já causou 14.962 mortes. Segundo Bolsonaro, “o desemprego, a fome e a miséria será o futuro daqueles que apoiam a tirania do isolamento total”. 

Em 14 de maio escreveu o presidente: "CAOS: povo quer trabalhar e passa fome". 

Bolsonaro, que defendeu a reforma trabalhista do governo de Temer, Bolsonaro que propõe uma reforma previdenciária que cassa todos os direitos conquistados pelos trabalhadores, desde quando foi criada a Justiça do Trabalho, apenas oferece o salário da fome, do medo e da morte. 

Bolsonaro não promete aumentar o salário mínimo do mínimo, não oferece o salário desemprego, nem um auxílio emergencial digno para os que perderam o emprego com a quarentena. 

Antes do coronavírus, o desemprego chegou a 12,9 milhões de pessoas. Dados da ONU apontam que mais de 5 milhões de brasileiros passam fome. Em novembro de 2019, o Brasil atingiu nível recorde de pessoas vivendo em condições de miséria, 13,537 milhões, contingente maior do que toda a população da Bolívia. Os dados são da Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

 

 

13
Mai20

Em meio à pandemia, fome ameaça maior favela de São Paulo

Talis Andrade

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Ao lado da filha de um ano e do filho de cinco, Márcia conta que a avó teve covid-19 e que o marido perdeu o emprego

 

Em Heliópolis, onde milhares dependem do trabalho informal, falta de alimentos é uma agonia diária para famílias. Doações e distribuição de comida ajudam a amenizar cenário de escassez durante a crise do coronavírus

por Nádia Pontes/ DW

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Heliópolis, maior favela de São Paulo. No cômodo onde mora com os três filhos, Jucileide, de 32 anos, diz que a comida está faltando. Sem poder trabalhar devido à pandemia do novo coronavírus, a diarista usou a renda emergencial dada pelo governo para pagar o aluguel de 400 reais. Sem saneamento básico, ela vive às margens de um córrego a menos de três quilômetros do monumento imponente que marca o local onde a história oficial conta que a independência do Brasil foi declarada, em 1822.

Para alimentar os filhos, Jucileide agora depende de doações. O frango que acaba de receber de voluntários da Cufa (Central Única de Favelas), vai reforçar as próximas refeições. "Com ajuda, com força do povo, com cesta básica que a gente recebe a gente vai vivendo", conta Jucileide à DW Brasil.

A vizinha, Márcia, 30 anos, também conseguiu um frango. Com a filha de um ano no colo e na companhia do filho de cinco anos, ela conta que o marido perdeu o emprego como pedreiro. "A minha avó chegou a pegar esse coronavírus. Ela está em casa agora, não pode ver ninguém", afirma sobre a familiar com covid-19.

Na manhã fria de outono em que a DW Brasil acompanhou o trabalho da Cufa por Heliópolis, filas se formavam rapidamente quando a distribuição de alimentos era notada pelos moradores. Diante da multidão, os voluntários pediam para que as pessoas não se aglomerassem para evitar o contágio.

Dentro do veículo que usam para fazer entregas, cedido por uma empresa para que a ONG execute atividades do tipo durante a pandemia, a quantidade de alimento não é suficiente para todos que aguardam. Na esperança de conseguir algo, alguns seguem o carro até a sede da Cufa. Na porta da organização, outros moradores de Heliópolis aguardam na expectativa de voltar pra casa com alguma doação. 

"A gente não esperava que essa pandemia fosse chegar na favela. Foi um susto quando chegou", diz Marcivan Barreto, que coordena as atividades da Cufa em Heliópolis. "São 220 mil pessoas que moram aqui. A maioria tem um trabalho informal e está sem renda agora", explica o morador da comunidade, que todos conhecem pelo nome. "A gente quer ajudar todo mundo. Já tem gente sofrendo com a fome", relata Barreto.

A maior favela de São Paulo tem uma população difícil de estimar. Segundo o Censo de 2010 do IBGE, há pelo menos 65 mil pessoas em Heliópolis, mas dados da subprefeitura do Ipiranga apontam 180 mil. Já a Cufa estima que sejam 220 mil.

Covid-19 em Heliópolis

Os primeiros moradores da área que ficou conhecida como Heliópolis chegaram por vias oficiais: em 1971, um alojamento provisório foi construído para abrigar famílias retiradas da favela Vila Prudente e Vergueiro para a construção de um viaduto. Desde então, o número de habitantes não parou de subir. A subprefeitura do Ipiranga, que administra a região, estima 18 mil imóveis e 3 mil comércios no bairro.

Por várias ruas estreitas de Heliópolis, folhas afixadas em muros explicam o perigo da covid-19, a importância de lavar as mãos, do uso de máscaras e do distanciamento social. Na prática, porém, algumas medidas são difíceis de serem seguidas.

"São ambientes muito escuros, pequenos e com bastante gente", diz sobre as moradias da comunidade a agente de saúde comunitária que prefere não ter o nome publicado. "A gente tem encontrado muitas pessoas com sintomas da covid-19, desempregadas ou sem salário", revela o cenário que se depara durante as visitas aos moradores.

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As bases de Heliópolis

Com uma área de 1 milhão de m², o terreno de Heliópolis, zona Sudeste de São Paulo, pertencia a órgãos públicos, como o antigo Instituto de Administração da Previdência e Assistência Social, a Petrobras e a Sabesp. Em 1971, os primeiros moradores foram levados provisoriamente à área pela prefeitura. Bastante precárias, as habitações eram feitas com madeiras e restos de plástico, papelão e metal.

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Vulnerabilidade social

Na favela, hoje com uma população estimada em 220 mil pessoas, os barracos improvisados, aos poucos, deram lugar à alvenaria. As primeiras ações de urbanização datam de 1981, com o programa Pró-Água e Pró-Luz. Segundo a União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região (Unas), fundada em 1978, muitas famílias ainda vivem em situação de vulnerabilidade social.

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Acesso à saneamento básico

Acesso ao saneamento básico não é universal em São Paulo, a cidade mais rica do país. Dos 15.843 domicílios contabilizados em Heliópolis num levantamento da Secretaria de Habitação, 62% estão ligados à rede de esgotamento sanitário, e 83% têm abastecimento de água. Por outro lado, há muitas ligações ilegais. A coleta de lixo é regular na região e 94% das casas estão conectadas à rede elétrica.

 

07
Mai20

Bolsonaro sabota os pobres para criar caos

Talis Andrade

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por Tereza Cruvinel

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Esta semana a lei que declarou a pandemia no país (Lei no. 13.979) completa 90 dias. 

Passado este tempo, com os imensos castigos infligidos à população e principalmente aos mais pobres, o governo Bolsonaro continua retendo recursos orçamentários para saúde, assistência social, empresas/emprego, estados e municípios. 

Não é só crueldade, é também uma aposta no caos, para turbinar o projeto golpista e ditatorial.

A assessoria técnica do PCdoB na Câmara constatou uma baixíssima execução orçamentária dos recursos autorizados por medidas provisórias aprovadas ou em vigor, concluindo que, além do atraso na proposição das medidas, o governo joga deliberadamente com a não liberação dos recursos que já poderiam estar sendo liberados com mais celeridade para socorrer a população, seja na frente social ou sanitária.

É a política perversa da asfixia financeira que leva os sem emprego a buscar algum ganho nas ruas, os empresários a pressionar governos pela reabertura da economia e os próprios estados e municípios, diante da perda de receitas, a afrouxar o isolamento. 

O resultado é mais gente nas ruas e o aumento crescente dos casos e das mortes. E depois virá o caos, o pesadelo social com que Bolsonaro conta para seu projeto autoritário.

Ironicamente, o ministério que menos gasta os recursos disponíveis é o da Cidadania, de Onyx Lorenzoni. 

Dos R$ 123,9 bilhões autorizados para socorro social com as três parcelas do auxílio R$ 600,00 (podendo chegar a R$ 1.200,00 para mães chefes de família), até agora foram gastos apenas R$ 35,7 bilhões, ou 28,9% do previsto. 

Enquanto isso, milhares de pessoas se aglomeram na porta de agências da CEF em busca deste caraminguá, outros são obrigados a refazer a solicitação e milhares, ao consultar a situação do pedido, encontram no site a resposta “sua solicitação continua em análise”. 

Mais de 13 milhões estão na última situação.

O ministério da Economia de Guedes gastou apenas 0,6% dos 51,6 bilhões destinados ao Programa de Manutenção do Emprego e Renda. 

Dele devem sair os pagamentos para quem teve o contrato suspenso, por exemplo, e passará a receber um salário-mínimo do governo, mas muita gente ainda não recebeu, e o patrão já deixou de pagar. 

O programa também deve pagar a compensação a trabalhadores que, para preservarem o emprego, fizeram acordo com o empregador para terem a jornada e o salário reduzidos (em 25%, 50% ou 70%), recebendo do governo um pequeno adicional, lastreado no valor a que teriam direito se recebessem o seguro-desemprego, proporcional à redução negociada. 

O pagamento destes adicionais também em sofrido atrasos.

Para o ministério da Saúde aplicar na Emergência em Saúde Pública, vale dizer, para ações de enfrentamento à Covid19, com aquisição de testes, respiradores e reforço da rede SUS, foram autorizados gastos adicionais de R$ 18,9 bilhões. 

Até agora só foram executados 30,2% deste total, ou R$ 6,7 bilhões. 

Enquanto isso acontece a tragédia de Manaus e em outras cidades. 

Pacientes de Covid morreram no Rio por falta de medicamentos necessários ao uso de respirador artificial.

Uma das maiores execuções é a do Itamaraty (76,9%), que recebeu adicional de R$ 62 milhões. Mas o que a pasta fez na pandemia foi repatriar brasileiros que estavam no exterior, e estes não estão entre os mais pobres. Estavam viajando.

Outra execução orçamentária mais avançada beneficia os bancos, que já receberam 50% dos R$ 34 bilhões disponibilizados para empréstimos a empresas, financiando a folha de pagamento das pequena e médias que perderam faturamento pelo encerramento de atividades durante a pandemia.

Do total de R$ 16 bilhões previsto para transferências a estados e municípios (previsão que não se confunde que o projeto que o Congresso está votando para compensar as perdas de arrecadação), o governo transferiu efetivamente apenas R$ 1 bilhão, ou 6,4%.

Estamos vivendo um pesadelo. A pandemia de um vírus letal e um governo que não tem limites em sua crueldade para atingir seus desígnios políticos.
 
23
Abr20

O retrocesso de Brasil de Paulo Guedes-Bolsonaro e do general Braga interventor de Temer

Talis Andrade

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Paulo Guedes, um agiota, um rentista de golpes econômicos, propôs para o governo militar de Bolsonaro o atraso do plano O Ladrilho, imposto ao Chile, em 1973, planejado por um grupo de economistas, chamados pela imprensa internacional da época de "os Chicago Boys", provenientes da Universidade de Chicago. O Ladrilho continha os fundamentos do que, depois, viria a ser chamado de neoliberalismo

Os governo militares do Cone Sul apelidaram esse período de "milagre chileno" da tirania de Pinochet. Na mesma época, o Brasil teve 'milagre' idêntico com Delfim Neto, com ditadores marechais e generais. Delfim tinha sua corte de economistas, os Delfim Boys, que eram também seus valets-de-chambre.

O general Braga, o interventor militar de Michel Temer no Rio de Janeiro, pretende o atraso no tempo do Plano Marshall dos Estados Unidos, para a reconstrução dos países aliados da Europa nos quatro anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, 1948-52. O objetivo principal era impedir a disseminação do comunismo.

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Pensava esse caboclo Plano Marshall visava impedir o avanço das quatro Bestas do Apocalipse: a Fome, a Peste, a Guerra do tráfico, das milícias, a Morte das lideranças dos sem terra, dos povos indígenas, dos quilombolas, dos movimentos sociais, notadamente dos direitos humanos, e o genocídio dos jovens negros. Esse Plano Marshall pura embromação, como enrolação foi a intervenção militar no Rio de Janeiro. Braga pediu 6,5 bilhões. Ninguém sabe quanto Michel Temer liberou. Sei que não teve, e nunca terá prestação de contas. A intervenção foi em ano de eleições, 2020. As milícias do Rio de Janeiro, camarada, democrática e pacificamente liberadas elegeram seus candidatos a presidente, a governador, dois senadores, mais deputados federais e estaduais. Essa dinheirama aquietou os golpistas militares. Com Bolsonaro presidente os oficiais das forças armadas tiveram régio aumento salarial e as filhas solteiras, maiores de idade, principesca pensão vitalícia. Para militares de pijama, a feira, o trem da alegria de mais de 2 mil e 500 cargos comissionados.  Entenda a demagogia, a safadeza, a ficção macabra desse Plano Marshall lendo Fernando Brito aqui, e Reinaldo Azevedo aqui

 

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22
Abr20

'Ter falta de ar é uma morte horrível'

Talis Andrade

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II - Drauzio Varella prevê 'tragédia nacional' por coronavírus: 'Brasil vai pagar o preço da desigualdade'

Ligia Guimarães entrevista

BBC News

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BBC News Brasil - Atualmente existem pelo menos duas versões de quarentena no Brasil. Há pessoas que estão em casa, com a família, conseguindo fazer esse home office, tendo até um momento de paz, de conviver com a família. E muita gente que está ou sem casa, ou em casas muito lotadas, sem comida, sem dinheiro. Como o senhor acha que essa situação influencia o combate brasileiro ao coronavírus?

Drauzio Varella - Nós vamos saber agora. Agora é que nós vamos pagar o preço por essa desigualdade social com a qual nós convivemos por décadas e décadas, aceitando como uma coisa praticamente natural. Agora vem a conta a pagar. Porque é a primeira vez que nós vamos ter a epidemia se disseminando em larga escala em um país de dimensões continentais e com tanta desigualdade. Na Europa, estamos vendo os problemas que eles estão enfrentando, mas são países que têm uma estrutura social relativamente bem organizada, fica mais fácil dessa maneira.

Agora estamos tendo este início de epidemia que aconteceu entre as pessoas que introduziram o vírus ao país, que vieram de fora, de viagens internacionais, e trouxeram o vírus para cá. E aí estamos vendo o que acontece nas cidades que tiveram um afluxo maior desses brasileiros que viajaram. São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Manaus também, estamos tendo esse primeiro impacto.

Vamos ter, forçosamente, a disseminação dessa epidemia para as camadas sociais mais desfavorecidas. É assim que está acontecendo em Nova York hoje, onde os negros são representados em muito maior proporção nas mortes que acontecem nas cidades. Nós não sabemos ainda o que vai acontecer quando esses 13 milhões de brasileiros que vivem em condições precárias de habitação e que têm condições precárias de saúde também vão se infectar. Não sabemos o que vai acontecer, vamos aprender agora a duras penas. Eu rodo muito pelo país, já gravei em periferias de quase todas as grandes cidades brasileiras. E você entra nessas casas, é uma pobreza em um nível...

 

BBC News Brasil - Não tem condições de higiene?

Varella - Nenhuma. E você tem um cômodo em que moram quatro adultos e três, quatro crianças. De dia aquele cômodo é a sala de refeições, de noite a mesa vai para o canto e os colchões saem da parede e vão para o chão, e as pessoas dormem ali. Você não tem condição mínima de separação. Vão dizer 'fica em casa, não vão para a rua'. Como é que essas pessoas não vão para a rua?

E além do que é um nível de pobreza, que você vê o que está acontecendo: em dois, três dias essas pessoas não têm o que comer. Porque a luta é sair, e conseguir passar no supermercado e levar alguma coisa para casa, diariamente. Imagina você o dinheiro que você tem não dá para aguentar dois, três dias isolada, porque não vai ter o que comer. E a ajuda do governo, lógico que é importante, mas é difícil organizar também. As pessoas falam também 'ah, mas devia ter chegado o dinheiro'. É, vai lá organizar para ver como é, não é fácil.

 

BBC News Brasil - Alguns dos países que tiveram mais problemas com a doença tinham suas peculiaridades. Por exemplo, a Itália tinha muitos idosos. E os Estados Unidos, a falta de um sistema público de saúde. O senhor acha que essas questões da desigualdade e da pobreza serão as nossas principais fragilidades?

Varella - Eu acho que vai ser. Acho que vai ser a grande dificuldade que o Brasil vai enfrentar. Porque o vírus é democrático, ele atinge qualquer pessoa. Então eu disse que a gente vai pagar o preço dessa desigualdade social toda porque enquanto tiver gente vivendo nessas condições, se infectando e transmitindo o vírus uns para os outros, esse vírus vai atingir todo mundo, porque as pessoas se interconectam de uma forma ou de outra, ou dividem espaços comunitários de um jeito ou de outro.

Enquanto tivermos essa disseminação em lugares impróprios para a vida humana, como são esses, você não se livra do vírus. E é esse vírus que ameaça a todos, o tempo inteiro.

Eu, sinceramente, eu já fui otimista, sabe? Acho que no início todos nós fomos, o mundo foi otimista. E eu participei desse otimismo e me recrimino por isso hoje. Porque nós recebíamos as notícias da China e essas notícias eram muito ocasionais, e não davam ideia de como eram realmente a epidemia. Isso foi durante o fim de dezembro, que eles relataram os primeiros casos, embora a doença já tivesse se espalhando lá. Daí em janeiro, as notícias que nós tínhamos eram da mortalidade. E os dados que eles apregoavam não eram tão preocupantes.

 

BBC News Brasil - Se falava muito, então, da baixa letalidade...

Varella - Baixa letalidade. Ficava alta depois dos 80 anos, que chegava aí perto de uns 15%. Quando a epidemia chegou na Itália, que é um país democrático, com livre circulação de informação, nós vimos aí pelo começo de fevereiro, ao redor do dia 12, 15 de fevereiro.

Aí nós tomamos consciência da gravidade do problema. E você veja que os países não tiveram tempo de se organizar. Os Estados Unidos, com todo o dinheiro que eles têm, todos os recursos e tudo, foram pegos de surpresa.

 

BBC News Brasil - E o senhor acha que essa precariedade em que uma parcela muito expressiva da população vive - não estamos falando de um nicho - sendo uma condição muito antiga, histórica, o senhor acha que isso é contornável? Ou estamos fadados a uma tragédia social?

Varella - Dá para fazer muita coisa, lógico. E acho que os governos federal, estadual, estão se movimentando para isso. Na hora que você sente a dimensão do problema, todo mundo fica assustado, todo mundo pensa que tem que fazer alguma coisa. Tenho visto a movimentação em todos os cantos, mas o problema é que a transmissão é muito rápida. Eu acho que vai acontecer uma tragédia nacional, eu não tenho dúvida disso. Eu acho que nós vamos ter um número muito grande de mortes, vamos ter um impacto na economia enorme, vamos ter uma duração prolongada.

Você vê que até hoje a gente não conseguiu definir a partir de quanto tempo nós podemos relaxar. Quanto tempo? Dois meses? Três meses? Seis meses? Ninguém sabe. Ninguém arrisca dizer por ter responsabilidade. Nós não sabemos. Isso é um vírus novo, nunca existiu uma situação como essa.

Mas 'ah, a gripe espanhola'. Não compare, são situações diferentes, o mundo era diferente há cento e tantos anos atrás. Não sabemos, estamos aprendendo agora, vendo o que está acontecendo em diversos países. Mas a realidade que vale para um país não vale para todos.

 

BBC News Brasil - Quando o senhor fala de muitos mortos, claro que não dá para fazer uma projeção, mas quando o senhor pensa nesse cenário ruim ou provável, o que o senhor vê?

Varella - Pensa como é a doença. Você pega com vírus, que se transmite com muita facilidade, isso está provado no mundo inteiro. Começa e não para mais. Ele tem uma fase que é muito tranquila, um pouquinho de dor de garganta, uma tossezinha irritativa, a pessoa perde o olfato, uma febre baixa, nada muito importante. Esse período dura mais ou menos uns cinco dias, de cinco a dez dias, mais ou menos. E aí você tem uma divergência. Tem gente que se recupera, tiveram sintomas mínimos, às vezes até ausentes, mínimos.

Depois desses cinco a dez dias você divide os infectados em dois grupos: aqueles que vão se recuperar, mais uma semana, vai melhorando aquele cansaço, passa, ficam bons. E tem aqueles que desenvolvem falta de ar. Esses que desenvolvem falta de ar são os que têm pneumonia associada ao coronavírus. Essa pneumonia tem várias explicações fisiopatológicas, mas enfim: aí você tem os doentes que vão parar nos hospitais. Esses que vão parar, uma parte se recupera recebendo oxigênio por máscaras. E tem os que vão para insuficiência respiratória progressiva. Esses têm que ser entubados.

Então por que se defende o isolamento? Primeiro porque ele é a única evidência de medida que reduziu o número de pessoas que procuram os hospitais. A gente diz que [existe o risco de que] o sistema de saúde entre em colapso. As pessoas estão acostumadas com essa coisa de ir ao pronto socorro e demora para atender, você não é atendido às vezes, ou é mal atendido e volta para casa.

Só que agora é uma situação diferente. Você só vai para o hospital quando você tem falta de ar. E essa falta de ar é progressiva, você tem que ter os recursos de ventilação mecânica à disposição. Se você não tiver esses recursos, o que vai acontecer? Não é que você volta para casa, sofre um pouco e passa. Não, falta de ar é o pior sintoma que existe. Porque se você tem dor, toma analgésico, você tem tosse, tem jeito de bloquear. Agora ter falta de ar é uma morte horrível. Horrível.

Quando você ouve dizer na Itália os médicos que têm que decidir quais são os que vão para a UTI, quem vai ter entubação ou não, quer dizer que os outros morrem de falta de ar. Essa é a situação real e isso que tem que ser colocado para a população. Não é que vai morrer gente. Vai morrer gente com um enorme sofrimento. Por isso que os médicos defendem: vamos segurar, para que as pessoas não tenham que morrer desse jeito, que é um jeito inaceitável.

 

BBC News Brasil - O isolamento, no Brasil, também tem algumas peculiaridades. Há protestos contra o isolamento, até por medo do impacto econômico, há ruído nas mensagens do governo, em que um fala uma coisa e o outro fala outra. O nosso nível de isolamento é preocupante?

Varella - Em alguns lugares está indo bem. Aí voltamos à questão social. Você pega quem mora em um cômodo com três, quatro crianças, como você mantém essas crianças? Você vê as palafitas, que são os piores lugares que eu conheci no Brasil, como você mantém aquelas crianças em um barracão de madeira, no Norte ou Nordeste do país, em uma temperatura que durante o dia chega a 40 graus, 45, 50 graus lá dentro. Como é que as pessoas vão ficar lá dentro? Sem água tratada, muitas vezes, que vão buscar de balde em alguns lugares. E a gente diz lave as mãos, olha como você lava, faz tudo direitinho. É bonito para quem tem pia em casa. (Continua)

22
Abr20

'Ter falta de ar é uma morte horrível'

Talis Andrade

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II - Drauzio Varella prevê 'tragédia nacional' por coronavírus: 'Brasil vai pagar o preço da desigualdade'

Ligia Guimarães entrevista

BBC News

- - - 

BBC News Brasil - Atualmente existem pelo menos duas versões de quarentena no Brasil. Há pessoas que estão em casa, com a família, conseguindo fazer esse home office, tendo até um momento de paz, de conviver com a família. E muita gente que está ou sem casa, ou em casas muito lotadas, sem comida, sem dinheiro. Como o senhor acha que essa situação influencia o combate brasileiro ao coronavírus?

Drauzio Varella - Nós vamos saber agora. Agora é que nós vamos pagar o preço por essa desigualdade social com a qual nós convivemos por décadas e décadas, aceitando como uma coisa praticamente natural. Agora vem a conta a pagar. Porque é a primeira vez que nós vamos ter a epidemia se disseminando em larga escala em um país de dimensões continentais e com tanta desigualdade. Na Europa, estamos vendo os problemas que eles estão enfrentando, mas são países que têm uma estrutura social relativamente bem organizada, fica mais fácil dessa maneira.

Agora estamos tendo este início de epidemia que aconteceu entre as pessoas que introduziram o vírus ao país, que vieram de fora, de viagens internacionais, e trouxeram o vírus para cá. E aí estamos vendo o que acontece nas cidades que tiveram um afluxo maior desses brasileiros que viajaram. São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Manaus também, estamos tendo esse primeiro impacto.

Vamos ter, forçosamente, a disseminação dessa epidemia para as camadas sociais mais desfavorecidas. É assim que está acontecendo em Nova York hoje, onde os negros são representados em muito maior proporção nas mortes que acontecem nas cidades. Nós não sabemos ainda o que vai acontecer quando esses 13 milhões de brasileiros que vivem em condições precárias de habitação e que têm condições precárias de saúde também vão se infectar. Não sabemos o que vai acontecer, vamos aprender agora a duras penas. Eu rodo muito pelo país, já gravei em periferias de quase todas as grandes cidades brasileiras. E você entra nessas casas, é uma pobreza em um nível...

 

BBC News Brasil - Não tem condições de higiene?

Varella - Nenhuma. E você tem um cômodo em que moram quatro adultos e três, quatro crianças. De dia aquele cômodo é a sala de refeições, de noite a mesa vai para o canto e os colchões saem da parede e vão para o chão, e as pessoas dormem ali. Você não tem condição mínima de separação. Vão dizer 'fica em casa, não vão para a rua'. Como é que essas pessoas não vão para a rua?

E além do que é um nível de pobreza, que você vê o que está acontecendo: em dois, três dias essas pessoas não têm o que comer. Porque a luta é sair, e conseguir passar no supermercado e levar alguma coisa para casa, diariamente. Imagina você o dinheiro que você tem não dá para aguentar dois, três dias isolada, porque não vai ter o que comer. E a ajuda do governo, lógico que é importante, mas é difícil organizar também. As pessoas falam também 'ah, mas devia ter chegado o dinheiro'. É, vai lá organizar para ver como é, não é fácil.

 

BBC News Brasil - Alguns dos países que tiveram mais problemas com a doença tinham suas peculiaridades. Por exemplo, a Itália tinha muitos idosos. E os Estados Unidos, a falta de um sistema público de saúde. O senhor acha que essas questões da desigualdade e da pobreza serão as nossas principais fragilidades?

Varella - Eu acho que vai ser. Acho que vai ser a grande dificuldade que o Brasil vai enfrentar. Porque o vírus é democrático, ele atinge qualquer pessoa. Então eu disse que a gente vai pagar o preço dessa desigualdade social toda porque enquanto tiver gente vivendo nessas condições, se infectando e transmitindo o vírus uns para os outros, esse vírus vai atingir todo mundo, porque as pessoas se interconectam de uma forma ou de outra, ou dividem espaços comunitários de um jeito ou de outro.

Enquanto tivermos essa disseminação em lugares impróprios para a vida humana, como são esses, você não se livra do vírus. E é esse vírus que ameaça a todos, o tempo inteiro.

Eu, sinceramente, eu já fui otimista, sabe? Acho que no início todos nós fomos, o mundo foi otimista. E eu participei desse otimismo e me recrimino por isso hoje. Porque nós recebíamos as notícias da China e essas notícias eram muito ocasionais, e não davam ideia de como eram realmente a epidemia. Isso foi durante o fim de dezembro, que eles relataram os primeiros casos, embora a doença já tivesse se espalhando lá. Daí em janeiro, as notícias que nós tínhamos eram da mortalidade. E os dados que eles apregoavam não eram tão preocupantes.

 

BBC News Brasil - Se falava muito, então, da baixa letalidade...

Varella - Baixa letalidade. Ficava alta depois dos 80 anos, que chegava aí perto de uns 15%. Quando a epidemia chegou na Itália, que é um país democrático, com livre circulação de informação, nós vimos aí pelo começo de fevereiro, ao redor do dia 12, 15 de fevereiro.

Aí nós tomamos consciência da gravidade do problema. E você veja que os países não tiveram tempo de se organizar. Os Estados Unidos, com todo o dinheiro que eles têm, todos os recursos e tudo, foram pegos de surpresa.

 

BBC News Brasil - E o senhor acha que essa precariedade em que uma parcela muito expressiva da população vive - não estamos falando de um nicho - sendo uma condição muito antiga, histórica, o senhor acha que isso é contornável? Ou estamos fadados a uma tragédia social?

Varella - Dá para fazer muita coisa, lógico. E acho que os governos federal, estadual, estão se movimentando para isso. Na hora que você sente a dimensão do problema, todo mundo fica assustado, todo mundo pensa que tem que fazer alguma coisa. Tenho visto a movimentação em todos os cantos, mas o problema é que a transmissão é muito rápida. Eu acho que vai acontecer uma tragédia nacional, eu não tenho dúvida disso. Eu acho que nós vamos ter um número muito grande de mortes, vamos ter um impacto na economia enorme, vamos ter uma duração prolongada.

Você vê que até hoje a gente não conseguiu definir a partir de quanto tempo nós podemos relaxar. Quanto tempo? Dois meses? Três meses? Seis meses? Ninguém sabe. Ninguém arrisca dizer por ter responsabilidade. Nós não sabemos. Isso é um vírus novo, nunca existiu uma situação como essa.

Mas 'ah, a gripe espanhola'. Não compare, são situações diferentes, o mundo era diferente há cento e tantos anos atrás. Não sabemos, estamos aprendendo agora, vendo o que está acontecendo em diversos países. Mas a realidade que vale para um país não vale para todos.

 

BBC News Brasil - Quando o senhor fala de muitos mortos, claro que não dá para fazer uma projeção, mas quando o senhor pensa nesse cenário ruim ou provável, o que o senhor vê?

Varella - Pensa como é a doença. Você pega com vírus, que se transmite com muita facilidade, isso está provado no mundo inteiro. Começa e não para mais. Ele tem uma fase que é muito tranquila, um pouquinho de dor de garganta, uma tossezinha irritativa, a pessoa perde o olfato, uma febre baixa, nada muito importante. Esse período dura mais ou menos uns cinco dias, de cinco a dez dias, mais ou menos. E aí você tem uma divergência. Tem gente que se recupera, tiveram sintomas mínimos, às vezes até ausentes, mínimos.

Depois desses cinco a dez dias você divide os infectados em dois grupos: aqueles que vão se recuperar, mais uma semana, vai melhorando aquele cansaço, passa, ficam bons. E tem aqueles que desenvolvem falta de ar. Esses que desenvolvem falta de ar são os que têm pneumonia associada ao coronavírus. Essa pneumonia tem várias explicações fisiopatológicas, mas enfim: aí você tem os doentes que vão parar nos hospitais. Esses que vão parar, uma parte se recupera recebendo oxigênio por máscaras. E tem os que vão para insuficiência respiratória progressiva. Esses têm que ser entubados.

Então por que se defende o isolamento? Primeiro porque ele é a única evidência de medida que reduziu o número de pessoas que procuram os hospitais. A gente diz que [existe o risco de que] o sistema de saúde entre em colapso. As pessoas estão acostumadas com essa coisa de ir ao pronto socorro e demora para atender, você não é atendido às vezes, ou é mal atendido e volta para casa.

Só que agora é uma situação diferente. Você só vai para o hospital quando você tem falta de ar. E essa falta de ar é progressiva, você tem que ter os recursos de ventilação mecânica à disposição. Se você não tiver esses recursos, o que vai acontecer? Não é que você volta para casa, sofre um pouco e passa. Não, falta de ar é o pior sintoma que existe. Porque se você tem dor, toma analgésico, você tem tosse, tem jeito de bloquear. Agora ter falta de ar é uma morte horrível. Horrível.

Quando você ouve dizer na Itália os médicos que têm que decidir quais são os que vão para a UTI, quem vai ter entubação ou não, quer dizer que os outros morrem de falta de ar. Essa é a situação real e isso que tem que ser colocado para a população. Não é que vai morrer gente. Vai morrer gente com um enorme sofrimento. Por isso que os médicos defendem: vamos segurar, para que as pessoas não tenham que morrer desse jeito, que é um jeito inaceitável.

 

BBC News Brasil - O isolamento, no Brasil, também tem algumas peculiaridades. Há protestos contra o isolamento, até por medo do impacto econômico, há ruído nas mensagens do governo, em que um fala uma coisa e o outro fala outra. O nosso nível de isolamento é preocupante?

Varella - Em alguns lugares está indo bem. Aí voltamos à questão social. Você pega quem mora em um cômodo com três, quatro crianças, como você mantém essas crianças? Você vê as palafitas, que são os piores lugares que eu conheci no Brasil, como você mantém aquelas crianças em um barracão de madeira, no Norte ou Nordeste do país, em uma temperatura que durante o dia chega a 40 graus, 45, 50 graus lá dentro. Como é que as pessoas vão ficar lá dentro? Sem água tratada, muitas vezes, que vão buscar de balde em alguns lugares. E a gente diz lave as mãos, olha como você lava, faz tudo direitinho. É bonito para quem tem pia em casa. (Continua)

21
Abr20

Tempos de peste e fome. ONU alerta para aumento da fome no mundo.

Talis Andrade

por El País

135 milhões de pessoas sofriam de fome aguda antes do coronavírus. Mais da metade, 73 milhões, na África, de acordo com o Programa Mundial de Alimentos (WFP na siga em inglês), da Organização das Nações Unidas. O órgão pede que os Governos não abandonem sua população mais vulnerável em meio à pandemia, para que dê condições das pessoas se alimentarem enquanto precisam ficarm em quarentena.

"Existem países com um grande número de pessoas pobres que não têm uma boa dieta; e quando você não está bem nutrido, seu sistema imunológico fica mais fraco", observa o economista-chefe das Nações Unidas. "E seus sistemas de saúde são muito, muito precários. Estamos falando de países de 12 milhões de pessoas para quatro ventiladores ou menos de 50 leitos de UTI. Esta é a realidade deste mundo. Por isso, estamos realmente preocupados com esses lugares. Sim não estamos preparados, o que acontecerá lá? ", diz Arif Hussein, economista-chefe do WFP e diretor de pesquisa.

Espanha autoriza crianças a fazerem caminhadas “curtas”, acompanhadas de um adulto

A partir da próxima segunda-feira, 27 de abril, crianças de até 12 anos de idade poderão sair às ruas acompanhadas por um adulto, uma saída que será para uma "curta caminhada”, segundo informou o Governo espanhol. Ainda não será permitido ir a parques. Entre 12 e 18 anos, os menores têm autorização para saírem sozinhos, também sob a condição de que sejam passeios rápidos e que todos os cuidados sejam tomados. Na Espanha

Desde que o decreto do estado de alarme começou na Espanha, em 14 de março, 8,3 milhões de menores estão trancados em suas casas, proibidos de sair. Nas últimas semanas, houve pedidos para facilitar o estrito confinamento de crianças, que, segundo um relatório da Plataforma pelos Direitos da Criança, são as mais difíceis do mundo, seguidas pelas da Itália (onde, como na França ou na Alemanha, eles podem sair com restrições). Apenas crianças com transtorno de espectro autista tinham autorização para sair acompanhadas, com identificação, mas ainda assim pais e cuidadores relataram ter sofrido agressões verbais nos passeios com os filhos.

Trump ameaça “suspender a imigração” aos EUA devido à pandemia

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou "suspender a imigração" para o país para, segundo ele, "proteger o emprego dos grandes cidadãos americanos". O mandatário norte-americano atribuiu à crise econômica causada pela pandemia do novo coronavírus para tomar sua decisão, que deve ser executada via decreto. 

O anúncio de Trump ocorreu via Twitter, mas não ficou claro a que o presidente estava se referindo, se essa ordem existe e se tal ação é viável. A covid-19 já causou mais de 42.000 mortes nos Estados Unidos e infectou 787.901 pessoas.

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