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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

18
Abr22

A pílula azul e a pornochanchada bolsonarista

Talis Andrade

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por 

 

Em pleno festival de suspeitas de corrupção no governo Bolsonaro, o vice-presidente Hamilton Mourão partiu para o deboche: “O que são 35 mil comprimidos de Viagra para 110 mil velhinhos que tem? Não é nada”, disse. “Então, tem o velhinho aqui. Eu não posso usar o meu Viagra, pô?”

Óbvio que pode, deve, sexo é bom e faz bem em qualquer idade. O problema é a compra da milagrosa pílula azul com dinheiro público. O caso se torna ainda mais grave no momento em que carestia da farmácia tem matado de susto e humilhação os aposentados e aposentadas de todo o país. Carestia de tirar do ramo. Carestia da moléstia das cachorras, como dizia Marivone, uma prima costureira lá do Crato.

Com renda mensal na casa dos R$ 100 mil, incluindo o salário de político e os benefícios da reserva das Forças Armadas, é fácil levar a realidade no deboche, como faz o vice e a sua turma, na boa vida e na maresia do Posto 6 da praia de Copacabana.

Antes do “kit sexual”, incluindo próteses penianas, a lista de supermercado para as altas patentes já era um escracho com os brasileiros da fila do osso. Olha só como andam as despensas e geladeiras dos Mourões e das famílias militares, segundo a última comprinha: 557,8 toneladas de filé mignon, 372,2 toneladas de picanha e 254 toneladas de salmão.

A divulgação das mordomias, por parte da imprensa, virou rotina. Somente em leite condensado, doce que virou símbolo da “simplicidade” bolsonarista na campanha eleitoral, o governo gastou R$ 15 milhões em 2021, com sinais de superfaturamento na avalição de técnicos do Tribunal de Contas da União, o TCU.

A fala do vice foi digna de galã de pornochanchada, disseram alguns amigos nas redes sociais. Discordo. A bela sacanagem do cinema nacional dos anos 1970 e 80 tinha a sua graça. O general não passou do cinismo e do deboche.

E sabe o que o presidente acha disso tudo? “Com todo respeito, não é nada. Quantidade... O efetivo das três forças, obviamente... Muito mais usado pelos inativos e pensionistas", argumentou sobre o abastecimento de Viagra, diante de pastores e líderes evangélicos que o acompanhavam em um banquete em Brasília.

No Cabaré de Glorinha, e aqui retorno proustianamente mais uma vez aos cheiros e sensações do Crato, a cartilha da ética e da etiqueta era bem mais observada.Image

 

 

16
Abr22

Braço forte, mão amiga, 35 mil pílulas azuis, toneladas e toneladas de rabo e lombo in natura

Talis Andrade

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Aman licitou mais de 13 toneladas de rabo e lombo para serem comidos ali onde Bolsonaro, Braga Netto, et caterva foram escarrados para o Brasil. In Natura e naturalmente para manter ereto “o moral da tropa”

 

por Hugo Souza /Come Ananás

Em 2021, após estourar o escândalo, digamos, orçamentário-nutricional dos milhões gastos pelo governo Jair Bolsonaro com gêneros nem tanto alimentícios, o presidente da República e o Ministério da Defesa correram para destacar que sem mascar chicletes, sem consumir um mundão de latas de leite condensado, o Exército Brasileiro não poderia existir.

As gomas de mascar para aliviar a pressão auricular “durante a atividade aérea”; o Leite Moça para dar aos recrutas a energia da onça-pintada. “Selva!”. Na época, Bolsonaro acrescentou que as unidades militares, desculpe, as unidades enlatadas de 395 gramas de leite condensado tinham ainda a utilidade metafórico-funicular de “enfiar no rabo da imprensa”.

Guardem a palavra, o corte: “rabo”.

 

Os brigadeiros e os enfeites de frutas

 

O Leite Moça não é, está longe de ser o único produto altamente calórico na tabela da “alimentação nutricionalmente balanceada” que o Ministério da Defesa afirmou, em nota anti-escândalo do leite condensado, ter a responsabilidade de promover, em nome da “saúde da tropa”; não é, está longe de sê-lo no rol do “mais alto padrão alimentar dentro das possibilidades orçamentárias disponibilizadas”, como diz o edital de pregão eletrônico 20/2020 da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), lançado para a compra de “quantitativo de subsistência” pela Organização Militar (OM) que nutriu, susteve e proveu Jair Bolsonaro, bem como todo o generalato que compõe o Governo Federal.

Naquele edital, o Comando do Exército, via Aman, convocou à licitação de 73 artigos de padaria das mais diferentes qualidades e nas mais gigantescas quantidades, entre eles sete toneladas e meia de pão doce com cobertura de creme de confeiteiro e outras três toneladas com recheio de doce de leite; noventa mil unidades de bolinhos de baunilha, laranja ou chocolate; 500 quilos de bolo de aniversário com recheio de baba de moça, brigadeiro, ou doce de leite e enfeites de frutas; 62.500 unidades de docinho brigadeiro, a mesma quantidade de queijadinhas e de tartaletes e um pouco mais, 67.500 unidades, de quindim.

Mais artigos de padaria: 19 mil quilos de esfirra; 1.700 quilos de mini croissants recheados com ameixa com bacon, banana com canela, goiaba, maçã com canela ou queijo e presunto. Três mil e quinhentos quilos de folhados; cinco mil quilos de panetone; sorvete, muito sorvete; e 90 mil bombas – não o artefato bélico, mas o doce de confeitaria, especificado no edital como de “creme patissier, doce de leite ou goiabada com cobertura de chocolate preto ou branco”.

 

Açaí cremoso, não necessariamente da Wal

 

Destrinchando o documento, a certa altura supõe-se que a cereja do bolo seriam as 50 mil unidades de cupcake com recheio de doce de leite e cobertura de chantily com cereja, quitutes com os quais a Aman previa gastar até R$ 155 mil.

Mas nada chegou perto do que foi reservado para comprar 10 mil discos de pizza brotinho e nada menos que 100 mil unidades de mini pizza. Só neste edital, só em pizza, a Aman – só esta OM do Exército – previu gastar cerca de 750 mil reais, naturalmente para garantir “o mais alto padrão alimentar dentro das possibilidades orçamentárias disponibilizadas”, quesito em que brilha ainda a previsão de compra pela academia de algumas toneladas de quibe com catupiry.

Catupiry não é gênero alimentício, mas sim marca registrada de requeijão, no que o edital de pregão eletrônico 20/2020 da Aman está em desconformidade com a Lei de Licitações, que proíbe indicação de marcas, salvo quando for “tecnicamente justificável”. Não fosse isso e as quinhentas caixas de torrada “Wickbold ou similar” para canapés, nada haveria a ser justificado, com que escandalizar-se, neste retrato, neste instantâneo das compras do governo.

Nem as cinco toneladas de panetone. Nem os 50 mil copinhos de 200 ml de açaí cremoso pelos quais o edital previa pagar um total de mais de R$ 300 mil. Afinal, nada no edital induz a favorecimento de alguma Wal de Angra dos Reis.

 

Seu milico merece Baton

 

Por falar em marcas registradas, em um outro edital, anterior, o de número 38/2019, a Aman abriu chamamento para a compra de 20 mil tabletes de chocolate branco “Galak ou equivalente”; outros 20 de mil tabletes de chocolate ao leite crocante “Diamante Negro ou equivalente”; 30 mil tabletes de chocolate com flocos “Chokito ou equivalente”; outras 30 mil unidades de chocolate com leite maltado “Lollo ou equivalente”; mais 30 mil de “Charge ou equivalente”; e nada menos que 150 mil tabletes de 16 gramas de chocolate “Baton ou equivalente”.

Galak, Diamante Negro, Chokito, Lollo, Charge, Baton; R$ 157 mil só em tabletes de 16 gramas de Baton, só para a Aman; compre Baton, compre Baton, seu milico merece Baton.

Das seis marcas de chocolate citadas no edital, só uma da Lacta, só uma da Garoto e quatro cobertas com delicioso chocolate Nestlé. Assim, realmente, não é possível, com as empresas do jeito que estão, passando fome… Mas, pelo menos para a Lacta, a coisa melhora um pouco quando chegamos, no edital 38/2019 da Aman, na parte dos bombons, quando a OM anuncia intenção de compra de 3,2 toneladas de “Sonho de Valsa ou equivalente”.

Neste outro edital, datado de julho de 2019, a Aman anunciou intenção de compra também de onze toneladas e meia de muçarela. Daria mais de um quilo de muçarela para cada disco de pizza brotinho, pelo número de discos de pizza brotinho comprados na licitação de um ano depois, em julho de 2020. Mas não seria honesto fazer este tipo de associação, porque, além de ter que se levar em conta o misto-quente do oficialato, os cadetes da Aman devem consumir muçarela de outros jeitos, ainda que, em matéria de queijos, no mesmo edital tenham sido licitados nove toneladas de queijo minas padrão, quase três de parmesão, 12.700 quilos de queijo prato, 100 quilos de ricota, outros 100 de provolone, mais 100 quilos de gorgonzola, além de oito mil potes de requeijão.

Foi de oito mil também, no edital no número 38/2019 da Aman, o número de latas de leite condensado, que elas não poderiam faltar.

 

Lula, mas em anel

 

Numa laive feita à época do leite condensado, Jair Bolsonaro apareceu com uma lata de Leite Moça para marcar posição de que “aqui não tem lagosta”, numa referência a um famigerado edital pregresso do STF que licitou o crustáceo, além de vinhos internacionalmente estrelados, para a ceia das excelências.

No edital número 38/2019 da Aman, de fato não constava lagosta, mas abriu-se licitação para 300 quilos de lula, sem metáfora desta vez, mas sim em anel; 250 quilos de siri; 600 quilos de camarão branco, variedade grande (VG), a R$ 80 o quilo; mais de 600 quilos de camarão sete barbas; e 250 quilos de polvo.

Duzentos e cinquenta quilos de polvo, alimento que de resto tem poucas calorias, ao contrário do Leite Moça. Pode ser um sinal da “alimentação nutricionalmente balanceada” citada pelo Ministério da defesa na nota anti-escândalo dos chicletes e leites condensados. Ou pode ser que, além das insígnias das patentes, os frutos do mar também informem sobre postos e graduações do Exército Brasileiro.

O efetivo da Aman é de aproximadamente 4.630 militares, dos quais apenas 1.700 são cadetes. Os demais são aqueles que manuseiam, se não tentáculos, os 150 mil alfinetes para mapa licitados em outro edital da Aman do ano retrasado, o de número 30/2019, este para aquisição de “material de expediente”.

Cento e cinquenta mil alfinetes para mapa. Se não estamos em guerra, parece que vamos entrar numa em breve.

 

Cupcakes para “o moral elevada da tropa’

 

Nos outros editais, tanto naquele para compra de artigos de padaria, de 2020, quanto no de 2019, para compra de outros gêneros alimentícios, a Aman justifica as contratações de toneladas de quindins, cupcakes e “Sonho de Valsa ou equivalente” dizendo que “os cadetes realizam mais de 30 atividades de acampamento durante o ano letivo, nos quais (sic) são simuladas operações táticas de combate, sendo o fator alimentação primordial para suprir as necessidades de gastos calóricos, bem como para a manutenção do moral elevada da tropa empregada nessas situações”.

O curioso é que, mesmo com toda esta comilança, a Aman abriu recentemente, em setembro de 2020, edital para “contratação de empresa especializada na exploração e funcionamento de uma cantina (com a comercialização de alimentos e bebidas), mediante cessão onerosa de uso da área com pagamento de taxa de ocupação, para atender as necessidades dos militares e demais usuários desta OM”.

Não é de hoje, não é desde que chegou à presidência que Bolsonaro está sempre na Aman, na qualidade de ex-aluno e de “mito”. No dia 18 de outubro daquele 2020, ele postou em sua conta no Twitter um vídeo com imagens daquele dia, em que saudava a turma de cadetes formandos ao lado do então ministro da Defesa, general de Divisão Fernando Azevedo e Silva, mais um ex-aluno da academia.

As imagens eram intercaladas com outras, da saudação que Bolsonaro fez a outra turma de formandos da Aman, em 2014, ocasião em que disse à tropa: “alguns vão morrer pelo caminho, mas em 2018 nós vamos jogar para a direita esse país”.

Alguns, hein?

 

Agora sim, uma metáfora de respeito

 

No edital 38/2019, a Aman pediu preços ainda para 2.800 quilos de rabo bovino in natura e outros 2.800 de rabo de porco salgado in natura também. Isto para não falar nos lombos: exatos 7.437 quilos de lombo in natura para serem comidos na Aman.

Mais de 13 toneladas de rabo para serem comidos ali onde Bolsonaro, Azevedo e Silva, Mourão, Heleno, Braga Netto, et caterva foram paridos, escarrados para o Brasil. In Natura e naturalmente para manter ereto “o moral da tropa”.

Junte isso aos 35 mil comprimidos de Viagra e, agora sim, senhoras e senhores, agora sim é uma metáfora.

Metáfora?

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15
Abr22

População em situação de rua cresce 60% desde 2016

Talis Andrade

 

Quem percorre as ruas das grandes cidades brasileiras se depara com um cenário desolador. Passarelas, viadutos, praças e calçadas abarrotados de famílias sem casa escancaram as desigualdades e atestam a incapacidade do Estado em lidar com seus problemas. O crescimento da população em situação de rua é visto a olho nu.

 

 

Apesar da ausência de dados oficiais, estima-se que o total de pessoas em situação de rua no Brasil era de aproximadamente 221.869, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), em pesquisa publicada em março de 2020. Após o golpe de 2016, a população de desabrigados aumentou, pelo menos, 60,95%. Eram 137.849 contra os quase 222 mil de brasileiros na rua durante o governo Bolsonaro. A estimativa utiliza dados disponibilizados por 1.924 municípios via Censo do Sistema Único de Assistência Social (Censo Suas).

Enquanto isso, o governo do presidente que só sai às ruas para passeios de moto e jet-ski bate recorde de desemprego, corta orçamento de programas habitacionais e nada faz para o controle da inflação dos alimentos e aluguel.

 

A ausência de censo da população de rua nas capitais, sobretudo no contexto pandêmico, dificulta a criação de políticas públicas na área. Em Belo Horizonte, por exemplo, o último censo é de 2013. Na época, segundo a contagem, eram 1.827 pessoas vivendo nas ruas da capital mineira. Mas segundo o CadÚnico, em junho de 2021, já eram 8.473 pessoas. No Recife, 1.600 pessoas viviam em situação de rua em 2019, na última contagem pública. O volume é quase a metade da estimativa feita por entidades sociais.

 

 

O Censo realizado em 2021 na cidade de São Paulo permite ter uma ideia da situação do país com a pandemia. A população em situação de rua na capital paulista foi de 24.344, em 2019, para 31.884 no final de 2021, o que representa um aumento de 31%, contingente maior do que o número de habitantes da maioria das cidades do estado. A pesquisa revela que 18 em cada 100 pessoas estão na rua há menos de um ano.

 

 

A pandemia também agravou a situação da miséria em Brasília. Estima-se que, em agosto de 2021, havia 2.303 pessoas em situação de rua na capital federal, 17,5% a mais do que o registrado em 2020 (2.181). Na capital do Pará, apesar de não haver dados concretos, a Secretaria Municipal de Saúde estima que hoje existam entre 1.500 e 2.000 pessoas vivendo em situação de rua  na cidade. Mais de 8 mil pessoas moram nas ruas de Salvador, segundo dados do CadÚnico. 

 

Perfil familiar da pobreza extrema

 

Em São Paulo, o censo mostra que o perfil da população em situação de rua também mudou. Embora a maior parte dos desabitados seja ainda de homens jovens, hoje vê-se o aumento de idosos, mulheres e crianças. Essa mudança evidencia a ida de um “perfil familiar” para a rua, possivelmente por motivação econômica. Famílias inteiras sem lugar digno para viver.

 

 

Algumas famílias, inclusive, possuem um domicílio, porém estão desempregadas, sem alternativa, e utilizando a rua como estratégia de sobrevivência.

 

Desemprego com Temer e Bolsonaro

 

O desemprego no governo Bolsonaro segue alto, atingindo 11.2% da população economicamente ativa no trimestre encerrado em janeiro de 2022. Isso sem contar o contingente de desalentados, aquelas pessoas que desistiram de procurar emprego. Mesmo entre quem está empregado, a situação é desesperadora – 47% das categorias tiveram seu salário comido pela inflação.

 

 

Esse Brasil de agora em nada lembra o país sob Lula e Dilma. Entre 2003 e 2015 foram gerados mais de 20 milhões de postos de formais de emprego, com carteira assinada. A Era lula chegou ao fim com taxa de desemprego de 5,7% (quando ele assumiu, era 11,2%). O índice de desemprego caiu 45% nos oito anos de seu governo. Em 2014, o governo da presidente Dilma marcou taxa de 4,3% de desemprego (ou pleno emprego), a menor já existente na história desse país. 

 

Inflação do aluguel e política habitacional

 

O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), principal indexador de contratos de aluguel e dos preços de matérias-primas, não para de subir no governo Bolsonaro. A “inflação do aluguel” fechou 2021 com alta de 17,78%, a segunda maior alta anual desde 2002, atrás somente do resultado de 2020. O índice avançou de 0,87% no último mês de 2021 para 1,82%, acumulando alta de 16,91% nos últimos 12 meses.

A alta reflete diretamente no bolso do brasileiro, que, sem conseguir pagar o aluguel, corre o risco de ficar sem moradia. Os governos do PT, além de controlarem a inflação também sobre os aluguéis, enfrentaram a histórica crise habitacional que atingia as famílias mais pobres.

Em 2009, o governo Lula lançou o programa Minha Casa Minha Vida (MCMV). O programa trouxe resultados sociais extremamente positivos. Em primeiro lugar, beneficiou os mais pobres com moradia, apoiando especialmente as mulheres, proprietárias preferenciais dos imóveis. A iniciativa contratou a construção de 4,2 milhões de moradias em 96% dos municípios, das quais 2,7 milhões foram entregues, beneficiando 10 milhões de pessoas.

O presidente Jair Bolsonaro destruiu o Minha Casa e Minha Vida e, no lugar, colocou um programa que deixa de fora os mais pobres. Além disso, no início de 2021, o programa chegou a ficar praticamente sem orçamento, quando Bolsonaro vetou e bloqueou os recursos para a área.

 

 

13 anos do MCMV, o maior programa habitacional da história do Brasil

 

Desde o lançamento do programa até 2016, foram contratadas 4,2 milhões de casas e entregues 2,7 milhões, beneficiando cerca de 10 milhões de pessoas em 96% dos municípios brasileiros. O Minha Casa, Minha Vida reservou metade das unidades do programa para atender as famílias que recebiam até R$ 1800 mensais. Destas, 46% recebiam Bolsa Família, 677% eram negros, mais da metade não tinha o ensino fundamental completo e 70% tinha renda familiar de até R$ 800. Leia mais

04
Fev22

Bolsonaro aparece todo sujo de farofa após revelação sobre gastos estrondosos no cartão corporativo

Talis Andrade

 

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O presidente Jair Bolsonaro parece ter substituído o tradicional "marketing" do pastel de feira do ano eleitoral por um frango com farofa

 

Por Lucas Rocha /Revista Forum
 

Em ano eleitoral é comum ver políticos abusando do pastel de feira para tentar passar uma imagem popular. O presidente Jair Bolsonaro, que não perde uma oportunidade de tentar parecer o que não é, protagonizou uma cena insólita neste domingo (30) ao substituir o lanche popular por outro. O episódio ocorreu logo após virem à tona os gastos estrondosos com cartão corporativo.

Em vídeo publicado por assessores nas redes sociais, Bolsonaro aparece todo sujo de farofa em mais uma tentativa torpe de querer parecer “humilde”. Entre os que publicaram a gravação está o ministro das Comunicações, Fábio Faria.

Bolsonaro perambulou por Brasília neste domingo e fez uma parada para comer frango com farofa. No vídeo, o presidente aparece todo sujo de farinha, com cabelo bagunçado e olhando de relance para a câmera para confirmar que a cena ridícula estava sendo filmada.

A porcaria feita pelo presidente foi exaltada pelos apoiadores de Bolsonaro, que enxergaram no sujeito imundo uma espécie de “homem do povo”, “humilde”, “sem frescura”, “do povão”.

Bolsonaro gasta mais com cartão corporativo

Essa ideia contradiz com os gastos milionários no cartão corporativo da Presidência revelados neste domingo.

Bolsonaro já gastou R$ 29,6 milhões com cartões corporativos nos três anos de mandato, um salto de 18,8% quando comparados aos quatros anos anteriores, de Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB).

Ao longo de todo o ano de 2021, foram torrados R$ 11,8 milhões nestes cartões, o que representa o maior valor nos últimos 7 anos.

“Deplorável”

A deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL-RS) criticou a cena. “Deplorável! A tentativa é de humanizar um genocida? É impossível! Nem coberto de toda a farofa do mundo Bolsonaro convence que tem algum tipo de humanidade dentro de si. Vergonhoso”, tuitou.

18
Out21

Quem está pagando os gastos de Eduardo Bolsonaro em Dubai

Talis Andrade

 

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O deputado federal Marcelo Freixo (PSB-RJ), líder da minoria na Câmara, pediu ao Ministério Público Federal que investigue a viagem da delegação do governo federal a Dubai, especialmente o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e família. Freixo fez duras críticas à foto do filho de Jair Bolsonaro vestido de sheik nos Emirados Árabes. A postagem da foto por Eduardo gerou revolta nas redes sociais.

“ATENÇÃO! Acabo de acionar o MPF para investigar os gastos de Eduardo Bolsonaro em Dubai. Queremos saber quem está pagando essa conta”, cobrou Marcelo Freixo no Twitter. Ele protocolou a representação nesta segunda-feira (18).

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“Ali Banana e os 40 ladrões do desgoverno Bolsonaro estão fazendo farra em Dubai enquanto 20 milhões de pessoas estão passando fome, catando comida no lixo. Nós da oposição acionamos o TCU para investigar essa balbúrdia, paga com dinheiro que está saindo do bolso dos brasileiros”, escreveu o parlamentar.

 

17
Out21

Nova comentarista faz CNN mentir, Thaméa Danelon espalha fake news sobre Lula

Talis Andrade

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O guardião da Constituição é o Supremo Tribunal Federal

 

CNN perde credibilidade com uma procuradora dando. Dando de jornalista. Jornalista que mente deixa de ser jornalista. Thaméa Danelon escrevia acusações falsas na Lava Jato da Liga da Justiça da República de Curitiba, que acabou de podre. Jornalismo não tem espaço para quem escreve delações. Jornalismo se faz com a verdade. Com o sonho. Os blogueiros Allan Lopes dos Santos, Sara Winter não são jornalistas. Todo jornalista pode ser blogueiro, raros blogueiros são jornalistas. Um título de bacharel em Direito não faz um juiz, um procurador. Taí o caso do Sergio Moro parcial, incompetente e suspeito.

247- A procuradora Thaméa Danelon, ex-coordenadora da Lava Jato em São Paulo, espalhou neste sábado (16), durante seu comentário na CNN, uma fake news envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

No quadro “Liberdade de Opinião”, Danelon atribuiu a Ciro Gomes declaração de que que Lula estaria fazendo aliança com diversos políticos, dentre eles Romero Jucá, Renan Calheiros e o ex-deputado Eduardo Cunha e o ex-governador do Rio Sérgio Cabral, em uma "tentativa de assaltar novamente os cofres públicos”. 

Danelon destila mentiras e diz que durante o mandato Lula houve um assalto à Petrobrás e a inúmeras estatais. (Quem assaltou a Petrobras, com gula, foi a Lava Jato. Vide tag 'Lava Jato conta gráfica'. Vide nomes dos procuradores espertos)

A comentarista segue divulgando informações falsas. "Estima-se que mais de R$ 40 bi foi o prejuízo causado pela prática de corrupção e de lavagem de dinheiro praticados não só pelo ex-presidente Lula como por outros políticos”.

Veja no vídeo as mentiras da CNN estadunidense, da CNN de Thaméa Danelon coautora de Modesto Carvalhosa. 

 

A Lava Jato elegeu Bolsonaro. Lava Jato destruiu empresas. Lava Jato desempregou 4,5 milhões de brasileiros. Pela destruição da construção pesada. Destruição da indústria naval. Destruição da Indústria brasileira. O Brasil exportava plataformas de petróleo, automóveis, aviões (Embraer), gasolina. A Lava Jato destruiu empresas e reputações. O Brasil está quebrado, voltou a ser Terceiro Mundo exportador de produtos do fundo do mar e da floresta Amazônia. Um país colônia que exporta alimentos, e os brasileiros passam fome. O Brasil quebrado. Da fila dos ossos. Da fila da fome. 

 

 
13
Out21

Guedes, o ministro offshore

Talis Andrade

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Elvino Bohn Gass

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Enquanto os trabalhadores e a classe média empobrecem a cada dia com a nefasta política econômica do governo Bolsonaro, o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, ficam muito, mas muito mais ricos. As contas que ambos mantêm no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas, no Caribe, são ilegais, imorais, violam o Código de Conduta da Alta Administração.

Ambos controlam a política econômica do país, o que tem influência direta no câmbio e, com isso, engordam seus bolsos com a desvalorização do real frente ao dólar norte-americano, numa prática explícita de autofavorecimento.

Por 310 votos sim e 142 votos não, a Câmara aprovou a convocação de Guedes para que esclareça a fortuna que mantém no paraíso fiscal, pagando zero de imposto sobre os US$ 9,55 milhões (cerca de R$ 51 milhões) lá depositados. É a hora de o povo saber de onde saiu esse dinheiro e como foi parar numa conta escondida no Caribe. 

No dia 6/10, por exemplo, com a alta de 0,72% do dólar, o real passou de novo a valer menos, mas o ministro da Economia de Bolsonaro deve ter comemorado. Ficou mais rico. Com a atual política de dolarização da economia, estima-se que ele esteja engordando sua fortuna em cerca de R$ 420 mil a cada mês. Ou seja, desde que assumiu o cargo, ganhou algo próximo de R$ 14 milhões só com a conta no Caribe.  No governo Bolsonaro, o dólar valorizou quase 40%. 

É um escárnio! Que moral tem um ministro da Economia que mantém recursos via offshore num paraíso fiscal, mecanismo comumente utilizado por criminosos para lavar e esconder dinheiro e sonegar impostos? Como convencer investidores a utilizar seus recursos no País se ele mesmo dá exemplo contrário? 

O fato é que, com essa prática, Guedes ganha dinheiro com o desastre brasileiro, estimula a corrupção financeira e incentiva a sonegação de impostos: devia ser sumariamente demitido, se o governo fosse sério e não comprometido com práticas corruptas e antinacionais. É inaceitável sua continuidade no cargo.

A desastrosa gestão de Guedes está longe de atender às necessidades da economia real do país, com geração de empregos e renda e reforço às atividades como comércio e indústria, que têm papel central na melhoria de vida do povo brasileiro. O ministro do paraíso fiscal é adepto da financeirização da economia enquanto o povo brasileiro faz fila diante de um caminhão de ossos. A dolarização é consequência dessa visão de banqueiro ultraliberal com conta escondida num recanto do mundo onde se encontram hordas de saqueadores de recursos, lícitos ou ilícitos.

O dólar alto arruína a economia brasileira e é uma das grandes causas da volta do dragão da inflação ao País. Tudo sobe, menos os salários. Arroz, feijão carnes, combustíveis, gás de cozinha, pão têm preços nas alturas, deixando quem tem emprego exasperado para fechar as contas no fim do mês.

Esse ministro-offshore já chamou os servidores públicos de “parasitas” – e a proposta de reforma administrativa (PEC 32) que ele apresentou, se aprovada, eliminaria mesmo boa parte do funcionalismo, como se uma praga fosse. Mas diante da descoberta de que ele, sim, é que se serve das informações privilegiadas que tem como ministro, é o caso de perguntar: quem é mesmo o parasita do Estado brasileiro, senhor Guedes?

Por fim, cabe refletir: se todos os investidores agissem como Guedes, o Brasil estaria pior ainda que hoje, com uma economia em frangalhos e gravíssima crise social provocada pelo atual governo. A dolarização é um projeto antinacional e antipopular, e, ainda, provoca a desvalorização brutal de estatais que o governo militar atual quer privatizar. Quem tem dólar, vai  comprar patrimônio público pela metade do preço. O Brasil precisa de outra política econômica que leve em consideração os interesses da maioria da população, gere renda e empregos, segurança e um futuro melhor para todos. 

É condenável por todos os aspectos a política econômica atual e a conduta de Guedes em relação ao seu depósito no Caribe, prática adotada, diga-se, por outros brasileiros que enriquecem às custas da miséria coletiva em nosso País. Segundo o Banco Central, mais de 60 mil pessoas físicas residentes no Brasil mantêm no exterior nada menos que 1 trilhão de reais. 

Não é uma perversão do capitalismo. Isso é próprio capitalismo. Mas essa é outra discussão.

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10
Out21

Calçadolândia, o país da fome

Talis Andrade

 

por Fernando Brito

Existem mais de 66 mil pessoas vivendo nas ruas da capital paulista, estima do Movimento Estadual da População em Situação de Rua, informa o Poder360, quase o triplo do que havia em 2019, antes da pandemia.

Naquela época, avaliação da pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Tatiana Dias, o número de habitantes de rua em todo o Brasil era de de 221 mil pessoas e, se evolui da mesma forma que em São Paulo, significa hoje perto de 650 mil pessoas.

É o tamanho da “Calçadolândia” brasileira, que você mesmo pode conferir num “censo visual” andando bem cedo ou à noite nas ruas das áreas mais ricas e centrais das cidades grandes e médias do país.

Mas não é só, muitos mais estão vivendo em sua fronteira, cozinhando restos na lenha de caixotes, pois o dinheiro do botijão foi para dentro e não para fora das panelas.

Não há como negar que as nossas elites, políticas e econômica, estejam cada vez mais indiferentes a isso. Janio de Freitas, em sua coluna na Folha, escreve com amargura:

Mesmo a corrida aos ossos despejados, para a guerra contra a fome, causou mal-estar ou indignação muito maiores mundo afora do que aqui, onde não faltou mais revolta com a exibição de ossos e catadores do que a realidade que os uniu, como antes fizeram os cães.

Nossos avanços civilizatórios, no máximo, é parar-lhes de esguichar água nas manhãs enregeladas e parar de colocar pedras pontiagudas no vão dos viadutos, concedendo-lhes a glória macia do concreto.

O declínio da pandemia, longe de corrigir ou amenizar este drama, o amplia ao conjugar-se com uma das maiores explosões inflacionárias ocorrida desde a estabilização da moeda brasileira.

É um país devastado, onde não parecem ser só sete as pragas que nos vieram com o atual faraó.

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01
Out21

Desemprego e inflação agravam fome e brasileiro faz fila para ossos e pelancas

Talis Andrade

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A pobreza extrema, que leva pessoas a buscar os restos

 

 

por Agência O Globo

Pouco após as 10h, o caminhão estaciona na Glória, Zona Sul do Rio. Minutos depois, a fila se forma. É que já havia gente esperando o veículo, que recolhe ossos e pelancas de supermercados da cidade. Sensibilizados, motorista e ajudante da empresa doam ali toda terça e quinta parte do que foi recolhido. Diante do desemprego — que ficou em 14,1% no segundo trimestre de 2021, atingindo 14,4 milhões de brasileiros — e da inflação galopante — que com a prévia deste mês chegou a 10,05% no acumulado em 12 meses, ultrapassando os dois dígitos pela primeira vez desde fevereiro de 2016 —, é a esperança daquelas pessoas de encontrarem um pedaço de carne para matar a fome.

Uma vez por semana, a desempregada Vanessa Avelino de Souza, de 48 anos, que mora nas ruas do Rio, caminha até o ponto de distribuição. Com paciência, separa pelanca por pelanca, osso por osso em busca de algo melhor para pôr na sacola.

"A gente limpa e separa o resto de carne. Com o osso, fazemos sopa, colocamos no arroz, no feijão... Depois de fritar, guardamos a gordura e usamos para fazer a comida", explica Vanessa, que lamenta não conviver com os cinco filhos.

"Não tenho como cuidar deles. Por isso, eles são criados pela minha mãe. Não temos quase nada. O que temos é de doações. Lá, pelo menos, eles têm um pouco de dignidade", completa.

Na fila da fome, Vanessa não está só. Outras mulheres, homens e jovens se amontoam em busca do restolho da carne e dos ossos. A pobreza extrema, que leva pessoas a garimpar restos, foi acentuada no Brasil durante a pandemia de Covid-19. Levantamento da Rede Brasileira de Pesquisas em Segurança Alimentar e Nutricional mostrou que mais de 116,8 milhões de pessoas vivem hoje sem acesso pleno e permanente a alimentos. Dessas, 19,1 milhões (9% da população) passam fome, vivendo “quadro de insegurança alimentar grave”. Os números revelam um aumento de 54% no número de pessoas que sofrem com a escassez de alimentos se comparado a 2018.

Mãe de 5 e avó de 12, Denise da Silva, de 51 anos, ficou viúva recentemente. Agora, está sozinha na luta para alimentar a família. Duas vezes por semana, sai de São João de Meriti, na Baixada, onde mora, em busca das pelancas. De trem, percorre quase 33km até a Central. Sem poder pagar outra passagem, caminha outros 3km até a Glória.

"Não vejo um pedaço de carne há muito tempo, desde que a pandemia começou. Esse osso é a nossa mistura. Levamos para casa e fazemos para os meninos comerem. Sou muito grata por ter isso aqui", conta.

Irmã de Denise, a desempregada Sheila Fernandes da Silva, de 43 anos, também busca restos de carne. Ela mora numa ocupação no Centro do Rio e divide o que recolhe com o filho, que também não tem emprego. Dá apenas para dois dias: "Você não sabe a alegria quando o caminhão chega aqui. É a certeza que teremos algo diferente para dois dias."

 

A fome nossa de cada dia, triste rotina

Karlinca de Jesus, de 48 anos, é capixaba. Na esperança de dias melhores, veio para o Rio em 2018. Mas o sonho não se realizou e hoje ela vive com o companheiro na rua, no entorno do Monumento aos Pracinhas, no Aterro, perto de onde o caminhão da pelanca estaciona: "Pego aqui há uns seis meses às terças. É uma ajuda e tanto! Pego, levo e salgo. Durante a semana, vou fazendo para a gente. Na rua é tudo muito difícil. Várias vezes, a gente passa fome."

Luis Vander, de 39 anos, que mora nas calçadas da Glória, pega a sua parte enquanto ajuda a organizar a entrega. "Acho que umas dez pessoas comem do que levo", conta. Ontem, cerca de 12 pessoas recolhiam os ossos quando chegou Adailton da Silva, de 33 anos, com seu carrinho de mão. Era sua primeira vez. Os mais experientes o ajudaram a retirar sua parte: "Um rapaz me disse que aqui eles doam osso. Vou tentar tirar um pouco dessa carne e fritar. O restou vou fazer gordura. O óleo está muito caro."

 

"Pediam para o cachorro. Hoje, é para comer"

Nascido em Além Paraíba, interior de Minas Gerais, o motorista do caminhão, José Divino Santos, de 63 anos, conta que, nos últimos meses, aumentou o número pessoas pedindo ossos e restos de cebo.

"Tem dias que chego aqui e tenho vontade de chorar. Um país tão rico não pode estar assim. É muito triste as pessoas passarem por essa situação. O meu coração dói. Antes, as pessoas passavam aqui e pediam um pedaço de osso para dar para os cachorros. Hoje, elas imploraram por um pouco de ossada para fazer comida. Duas ou três pessoas em situação de rua passavam aqui e levavam. Hoje, tem dia que tem umas 15 pessoas", narra José Divino.

Ele lembra ainda que os restos seguem para uma fábrica no bairro Santa Rita, em Nova Iguaçu. Lá, parte do material vira ração para animais e a outra — a gordura — é utilizada para fazer sabão em barra. "Às vezes, está meio estragado, a gente fala, mas as pessoas querem assim mesmo", conta sem conter as lágrimas.

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27
Set21

Vivemos os piores mil dias de nossas vidas

Talis Andrade

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por Emir Sader

- - -

Já vivemos momentos muito ruins em nossas vidas. Momentos de ditadura, de fome, de falta de esperança.

Já vivemos tempos muito desesperadores, como durante o regime militar. Já vivemos anos de muita miséria, de abandono, de degradação do país.

Mas nunca como nestes mil dias. Nunca se juntaram tantas coisas ruins ao mesmo tempo. Nunca o que há de pior esteve no governo do Brasil como agora.

Pelo menos 2 milhões de pessoas tiveram a renda reduzida e caíram para a extrema pobreza.  Em regra são pessoas que vivem nas ruas ou em barracos e enfrentam insegurança alimentar. Só no estado de São Paulo há 1,79 milhões de pessoas na pobreza e cerca de 394 mil novos pobres desde 2020.

Temos o maior número de pessoas na miséria – 41,1 milhões. Há ainda 2,8 milhões de pessoas na pobreza, com renda per capita entre 90  e 178 reais mensais. O número de desempregados chega a 14,8 milhões de pessoas.    

O salário mínimo necessário seria de 5.422 reais, 5 vezes maior que o piso existente. A insegurança alimentar aumentou em 33%.

Entre desempregados e pessoas vivendo na precariedade – isto é, com formas de sobrevivência inseguras, sem carteira e contrato de trabalho, sem férias remuneradas, sem licença maternidade, sem garantia que seguirão tendo ganhos no mês seguinte -, estão hoje a maioria dos brasileiros. Nunca tanta gente vive e dorme nas ruas das grandes cidades brasileiras, completamente abandonados.

Não bastasse tudo isso, o país vive a degradação de ter um presidente que não governa o país, que se preocupa em sobreviver, ele e seus filhos, diante da imensa quantidade de crises cometidas. Vivemos em um país como uma nau desgovernada, na direção do abismo, sem que ninguém faça nada.

A inflação cresce dia a dia e corrói o parco salário das pessoas. Os preços, sobretudo dos alimentos, diminuem cada vez mais o que as pessoas conseguem comer.

Mil dias de dilapidação da ação do Estado, de liquidação do patrimônio público, de ausência da do Estado como regulador da economia, como limite para a superexploração dos trabalhadores.Image

Tentam impor o ódio entre as pessoas, o ódio contra quem diverge, as ameaças de golpe e os sentimentos de morte. Fazem do cotidiano das pessoas um inferno.

Passamos a ter, como nunca, vergonha de ser brasileiros. O país é escrachado pelo mundo afora, é vítima de chacotas. O país tem o presidente mais ridicularizado, mais vítima de piadas na mídia mundial.

São os piores mil dias que já tivemos nas nossas vidas. Dias e noites de ansiedade, de insegurança, de depressão, de desesperança.

Tempos de acordar e não ter coragem de contar quanto tempo ainda seguiremos nesse pesadelo interminável. Sem capacidade de pensarmos como vamos viver ainda no meio das mentiras e do descaso com a pandemia.

Como sobreviver com a grande maioria passando fome, na miséria, no abandono, sem governo e sem cuidados? Como ter ânimo para acordar cada manhã com esse governo, com esse cara na presidência do país?

Como o país pode sobreviver sem governo, sem Congresso, sem política econômica que faça o país voltar a crescer e gerar empregos? Como sobreviver a esse governo por tanto tempo ainda?

Mil dias querendo destruir nossas esperanças de que o Brasil pode ser melhor e vai ser melhor. Mil dias que tentam nos desmoralizar, nos desalentar. Como se tivéssemos que viver assim para sempre, como se não tivéssemos alternativas.

Mil dias de tentativas de que nos esqueçamos de que já tivemos um Brasil melhor para todos, um país que tinha outra imagem no mundo, que tinha presidente e presidenta respeitados e referência no mundo.

Não haverá rancor, mas justiça contra quem nos faz viver os piores anos das nossas vidas.

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