Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

26
Fev21

Abaixo a máscara, vejam o rosto da morte!

Talis Andrade

por Fernando Brito

- - -

É tão assustador que muitos preferem fechar os olhos e não ver.

Racionalmente, porém, já não há como negar que há uma intenção deliberada de Jair Bolsonaro – e não só dele, infelizmente – que o vírus Sars Cov 2 faça o papel de “aliviar” aquilo que consideram uma carga inútil para o país: os velhos, os doentes, os “maricas”, sobretudo os mais pobres, menos capazes de obter cuidados.

Duvidar como, se o presidente da República do país que é o segundo em mortes no mundo, apela para que não se use máscaras, alegando que elas prejudicam as crianças. Se o prefeito de Porto Alegre pede que as pessoas “contribuam com a sua vida” para salvar a economia do município.

Tudo isso no dia em que o país amanheceu sob a marca de 250 mil mortes pela pandemia e chegaria à noite com o maior número de mortos, em 24 horas, desde o início deste pesadelo.

Isto tudo acontece em um país moralmente vencido, onde a classe dirigente, como o energúmeno alcaide de Porto Alegre, só enxerga oportunidades de ganhar dinheiro, poder, privilégio e retirar mais direitos da população, como a que anuncia hoje o Estadão, ao dizer que o governo prepara “decreto para ‘simplificar’ regras trabalhistas“.

Em O Globo, o médico e neurocientista Miguel Nicolelis, ainda se espanta:

(…)qual é o valor da vida no Brasil? Que valor os políticos dão para a vida do cidadão se não fecham as atividades num lugar com 100% de ocupação dos leitos? Ter que preservar a economia é não só uma falsidade econômica como demonstra completa falta de empatia com a vida das pessoas. O que mais me assusta é o pouco valor à vida. Os políticos são o primeiro componente, mas a sociedade também. (…) Nossa sociedade em algum momento perdeu a conexão com o quão irreparável é a vida.

As autoridades da Saúde – diria eu os militares da Saúde – portam-se como imbecis, como nesta “solução” encontrada por Eduardo Pazuello para a superlotação que está levando ao colapso os hospitais em diversos estados, é criar um “Coronatur”, transferindo pacientes entre unidades da federação, uma estratégia estúpida, ainda mais considerando a possibilidade de espalhar as variantes do vírus por toda parte.

Corrijo-me, porém, de minha própria incredulidade: não é estupidez ou, se for, é nossa, que não percebemos ou não queremos acreditar que é uma premeditação.

Mas é.

 

 

18
Fev21

Câmara terá de votar prisão de bolsonarista-brucutu

Talis Andrade

por Fernando Brito

- - -

Custou mas saiu.

A decisão do STF de manter preso o brucutu Daniel Silveira, detido há quase 48 horas por ameaças aos ministros do Supremo e à ordem democrática.

Sinal de que Luiz Fux não conseguiu levar adiante a “Operação Daniel de Quê?” com que tentava atender ao pedido do presidente da Câmara, Arthur Lira, que não queria submeter o Centrão e os deputados de extrema-direita a darem um voto aberto e claro para derrubar a ordem de prisão.

Agora, a prisão de Silveira terá de ser examinada pelo plenário da Câmara – o que já deveria ter acontecido, em cumprimento ao art. 53 da Constituição.

É preciso muito casuísmo para protelar a convocação de sessão para esta decisão, porque em Direito a existência de pessoa presa gera precedência sobre qualquer outro assunto.

A covardia do presidente da Câmara só piora a situação, porque é evidente que o Supremo não pretende pedir arreglo e “quebrar o galho”, relaxando a prisão sem o rito constitucional de seu exame pelo legislativo.

Capa do jornal O Dia 18/02/2021

16
Fev21

Na vala de Moro, volver!

Talis Andrade

vacina chacina.jpg

 

por Fernando Brito

- - -

Durante muito tempo “analista militar ” da Folha de S. Paulo, Igor Gielow é dos repórteres do jornal paulista que mais acessos e fontes tem nas Forças Armadas. A sua narrativa, hoje, sobre os bastidores da conspiração militar do então comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas – a expressão não é apenas minha, mas também da insuspeita Miriam Leitão, hoje, em sua coluna “Três generais e uma desonra” – é parte da conclusão aterradora de que tivemos – e será que ainda temos? – um “Partido dos Generais”, disposto a reuniões secretas de seu “Comitê Central” para decidir apenas entre eles quais são os rumos que o país pode tomar.

Está claríssimo que o “Partido dos Generais” tomou Jair Bolsonaro como sua montaria para alcançar o poder no país, certamente sem contrar que ele próprio, encilhado pela disciplina e obediência que traíram antes, a servirem de cavalgadura ao ex-capitão e, com isso, colocariam a Força Terrestre a patear na lama em que estamos metidos.

Recorro, outra vez, à absolutamente antilulista Miriam Leitão que, ao falar dos três desastrosos “Eduardos” do Exército – o Villas Bôas, o Luiz Eduardo Ramos e o Pazuello- diz que eles “ajudaram, com vários outros, a construir uma desonra para a instituição, apoiam o governo que tira dos militares a exclusividade em armas pesadas, que podem estar sendo usadas na formação de milícias de extrema-direita como as dos Estados Unidos. Mostraram ao país que topam tudo pelo poder.”

E topam articuladamente, porque ficou claro que não houve um desbordamento pessoal de Eduardo Villas Boas – com o tal segredo que Bolsonaro, a ele, disse publicamente que “morrerá conosco”.

O que se passou na cúpula militar é, em tudo, uma cópia fardada do que aconteceu na Lava Jato e que, agora, se sabe.

E o destino desta camada de militares, que se uniram a um – a expressão é de Ernesto Geisel – um “mau militar” vai, infelizmente, se refletir no apequenamento do Exército Brasileiro, que terá de ser “enquadrado” à democracia, a não ser que esteja disposto a virar força auxiliar das milícias.

Quem leva o Exército Brasileiro para a lama deve ir para lá em seu lugar.

 

armas.jpg

 

 

09
Fev21

Todos vão pulando do barco de Moro

Talis Andrade

por Fernando Brito

- - -

 

Embora pareça ter ainda os três luíses do STF – Luiz Fux, Luiz Fachin e Luiz Barroso – a situação de Sergio Moro vai se deteriorando a olhos vistos.

Hoje foi a vez de mais um saltar da canoa adernada: Demétrio Magnoli, ex-morista ferrenho e sempre antipetista feroz.

O colunista de O Globo e comentarista da Globonews chama o ex-juiz de Curitiba, a quem já entoou os maiores louvores, de “um nada jurídico” e de ter “mão de gato” ao sentenciar Lula:

“É dever do STF anular as sentenças condenatórias do líder petista tingidas pela mão de gato de Moro”.

Magnoli desmonta a petição em que Rosângela Moro, atuando como advogada do marido, requer que os diálogos entre Moro e os procuradores sejam postos numa gaveta trancada, dizendo que ‘a verdade factual expressa nas trocas de mensagens seria suficiente para condená-los por subversão do processo legal, se não tivesse vindo à luz pelo túnel da ilegalidade” mas que, mesmo assim, não a desqualifica para evidenciar que há “acertos entre o juiz e os procuradores para plantar notícias na imprensa e financiar a divulgação de propostas legislativas, além da ambição de reformar o sistema político-partidário”.

Há bons argumentos e texto duro – “a gangue manipulava suas prerrogativas de agentes da lei para deflagrar um projeto de poder centrado na figura de Moro” – mas o mais significativo é ter sido escrito por quem foi e onde foi.

Deixa mais evidente que nem mesmo lá se consegue segurar – apesar dos esforços de Merval Pereira em dizer que fazer justiça nesta caso implicaria uma anistia à corrupção – o imperativo moral que representa declarar-se o óbvio: Sérgio Moro foi um juiz parcial e, por isso, violou as normas do processo legal.

E fora dele, qualquer punição, a qualquer pessoa tem um nome ao qual a democracia é absolutamente alérgica: arbítrio.

 

08
Fev21

Em lugar de Curitiba, teremos “marrecos de Brasília”?

Talis Andrade

moro marreco Ohi.jpg

 

por Fernando Brito

- - -

Na newsletter que envia a assinantes, o editor do The Intercept, Leandro Demori faz uma comparação que dá ideia do que ainda pode surgir com a liberação dos diálogos entre procuradores da Lava Jato, Sergio Moro e outros personagens da misteriosa novela de Curitiba. Enquanto ao material que chegou a ele e à redação do Intercept tinha 43,8 gigabytes, o material apreendido pela Operação Spoofing tem 7 terabytes, 160 vezes mais e, deles, dos quais os advogados de defesa estão começando a ter acesso em parte, algo perto de 10% do total.

“O que há lá dentro, por enquanto, só deus, a PF e a defesa de Lula sabem”, diz Demori. Arrisco dizer que, por enquanto, nem a defesa de Lula sabe. Porque apenas um terabyte, dependendo do tipo de arquivo armazenado seria capaz de armazenar mil vezes toda a Enciclopédia Britannica.

Ainda assim, o que já se viu – antes, pelo Intercept, e agora, pelos arquivos da Spoofing – é suficiente para qualquer pessoa que não esteja obcecada pelo ódio político verificar que os processos de Curitiba foram conduzidos por pessoas que perderam, por ódio igual, todos os limites de contenção a que estão submetidos promotores e juízes.

Moro, Deltan e seus rapazes, que contaminaram um país ao ponto de levá-lo à situação de ser governado por um fanático, não contaminariam processos e seus sucessores, mesmo depois da vergonhosa saída do ex-juiz para tornar-se auxiliar do beneficiário de seu crime político.

Só a mais sórdida e suja utilização do Judiciário como ferramenta eleitoral pode justificar a conversa do “é suspeito num processo, mas não é no outro, cuja sentença (aliás, um “copia e cola” foi formalmente dada por sua juíza auxiliar”) seguiu o rumo traçado por ele.

Se o Supremo Tribunal Federal seguir esta impensável trilha estará, afinal, igualando-se ao próprio Moro. Afinal, se o juiz de Curitiba conduziu tudo com olhos postos em tornar Lula inelegível, ministros que julgarem com este mesmo fim como baliza bem merecerão se tornarem também “marrecos de Brasília”.

07
Fev21

Ponto de Vista: Folha, Datafolha: a fraude monumental e a normalização do golpe

Talis Andrade

aroeira temer golpe .jpg

 

 

por Sylvia Debossan Moretzsohn /objETHOS

temer 1 folha tijolaço .png

Reprodução Tijolaço

 

Quando a Folha de S.Paulo publicou, na manchete de sua edição de domingo (14/7), uma pesquisa que destacava o apoio de metade da população brasileira à permanência de Michel Temer na presidência, muita gente estranhou. Afinal, outras pesquisas – inclusive do próprio Datafolha – apontavam rejeição em torno de 60% ao personagem que conspirou para afastar do poder sua companheira de chapa. Essas pesquisas também indicavam mais ou menos o mesmo percentual de respostas favoráveis a novas eleições. Como seria possível que as expectativas tivessem mudado tão subitamente?

A resposta não demorou muito. No dia 20, reportagem de Glenn Greenwald e Erick Dau, do Intercept, e de Fernando Brito, do Tijolaço, esclareciam tudo.

Tratava-se de uma fraude. Uma fraude monumental, que coincide com um claro movimento da mídia hegemônica para a normalização do golpe.

Uma das perguntas da pesquisa era: “Na sua opinião, o que seria melhor para o país: que Dilma voltasse à presidência ou que Michel Temer continuasse no mandato até 2018?”. Era óbvio que a pergunta propunha apenas duas possibilidades. Como Greenwald e Dau observaram, as pessoas “disseram apenas que essa seria a melhor opção se a única alternativa fosse o retorno de Dilma. Além disso, simplesmente não procede alegar que apenas 3% dos entrevistados querem novas eleições, já que essa pergunta não foi feita. O que aconteceu foi que 3% dos entrevistados fizeram um esforço extra para responder dessa forma frente à opção binária entre ‘Dilma retorna’ ou ‘Temer fica’”.

O jornal, entretanto, ignorou esse pequeno detalhe e distorceu completamente o sentido dessas respostas, apresentando-as como se os entrevistados tivessem respondido a uma pergunta bem diferente, estampada na primeira página – com o atrativo das figurinhas coloridas do infográfico – e reproduzida em página interna: “O que seria melhor para o país?”, com a fantástica dianteira de Temer (50%, contra 37% de Dilma), e apenas 3% dos que pediam novas eleições.

temer 2 intercept.png

Reprodução: The Intercept

Os repórteres do Intercept então especulavam sobre o verdadeiro contingente dos que desejavam a antecipação das eleições, pois ainda não tinham as informações descobertas por Fernando Brito: esse percentual era de 62% e constava de uma tabela que o Datafolha simplesmente havia omitido em seu relatório inicial. A pergunta era: “Você é a favor ou contra Michel Temer e Dilma Rousseff renunciarem para a convocação de novas eleições para a presidência da República ainda neste ano?”.

“Não foi a única pergunta ‘abduzida’ do relatório”, informou o jornalista. “Também foi tirada a questão sobre a legalidade/ilegalidade da condução do impeachment – que apontou 49% para a primeira opção e 37% para a segunda. Talvez alguém tenha achado ‘pouco’”.

 

A pista do escândalo

 

O Intercept informou que a matéria da Folha começou a desabar quando Brad Brooks, correspondente chefe da Reuters no Brasil, “observou uma enorme discrepância: enquanto a Folha anunciava em sua capa que apenas 3% dos brasileiros queriam novas eleições e que 50% queriam a permanência de Temer, o instituto de pesquisa do jornal, Datafolha, havia publicado um comunicado à imprensa com os dados da pesquisa anunciando que 60% dos brasileiros queriam novas eleições”.

temer 3 intercept.png

Reprodução The Intercept

 

Entretanto, no relatório do instituto, não havia nenhuma informação relativa a esse percentual.

Fernando Brito desvendaria o mistério. Ele observou que o endereço URL do documento do Datafolha terminava em “v2”. Era, portanto, uma segunda versão. Como não encontrou a versão original no site do instituto, começou a “tentar adivinhar” o endereço da primeira versão, até que achou. “Embora a versão original tivesse sido retirada do ar pelo Datafolha”, diz o Intercept, ela “ainda se encontrava nos servidores do instituto”. Quando encontrou o endereço URL correto, o Tijolaço obteve o documento.

Brito esclareceu em seu site: “Houve uma segunda versão do relatório – veja aqui – na qual a pessoa encarregada de eliminar as ‘inconveniências’ se distraiu e deixou a chamada para ‘nova eleição’ no subtítulo, o que me deu a dica para ir atrás do primeiro arquivo. Mas foi a única distração. O resto foi escondido de forma deliberada, em verdadeira fraude aos leitores”.

O jornalista mencionou ainda a supressão integral de dois parágrafos inteiros da análise dos resultados, que constava no documento. Reproduziu o texto:

O Datafolha também consultou os brasileiros sobre a possibilidade de uma nova eleição presidencial neste ano, caso Dilma e Temer renunciassem a seus cargos, e a maioria (62%) declarou ser a favor de uma nova votação para o cargo de presidente. Uma parcela de 30% é contra a hipótese, e 8% são indiferentes ou não opinaram. A realização de uma nova eleição tem mais apelo entre os jovens de 16 a 24 anos (68% favoráveis) e na faixa de 25 a 34 anos (também 68%). Entre aqueles que consideram o governo Temer ótimo ou bom, 50% são a favor de nova eleição, e 44%, contra. 

Questionados se o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff está seguindo a regras democráticas e a Constituição ou está desrespeitando as regras democráticas e a Constituição, 49% disseram acreditar que as regras e a Constituição estão sendo seguidas. Uma parcela de 37% discorda e acredita que estão sendo desrespeitadas, e 14% não opinaram. Na parcela dos mais escolarizados, 58% avaliam que o processo de impeachment da petista segue as regras democráticas e a Constituição, índice que cai para 40% entre os menos escolarizados (neste segmento, 37% aderem à tese contrária e o índice dos sem opinião sobe para 23%)”.

Em outro texto, no mesmo dia 20, Brito reiterava: “É um enorme escândalo, comprovado com documentos, e joga um facho de luz sobre como se faz manipulação da opinião pública com pesquisas. Não são acusações:  é uma prova, concreta, material, indiscutível de que se sonegou informações ao público”.

Sobre manipulação da opinião pública, aliás, o Tijolaço já havia publicado longo artigo de Letícia Sallorenzo no dia 19, expondo as artimanhas de uma pesquisa que misturava a avaliação do governo Temer com o índice histórico de confiança – que supostamente mede “o sentimento dos brasileiros em relação ao país” –, a intenção de voto em 2018 e a opinião sobre a Previdência, e de quebra metia no meio uma avaliação do desempenho do juiz Sérgio Moro.

No dia 21, Fernando Brito detalharia melhor os passos da sua investigação e mostrava que, além da “sorte, um pouco de palpite” e da necessidade de “estar ligado” e “não aceitar o que não faz sentido”, importava ressaltar que todo trabalho é coletivo.

 

Uma “justificativa” cínica

 

O escândalo levou a Folha a se pronunciar – e a maneira como o fez evidenciou essa mistura de cinismo e canalhice que marca o jornalismo aliado ao golpe.

Num texto sobre o que chamou, candidamente, de “polêmica”, publicado on line na noite do dia 20 e na edição impressa do dia seguinte, o jornal trazia as “explicações” do editor executivo, Sérgio Dávila, e do diretor do Datafolha, Alessandro Janoni. “O resultado da questão sobre a dupla renúncia de Dilma e Temer não nos pareceu especialmente noticioso, por praticamente repetir a tendência de pesquisa anterior e pela mudança no atual cenário político, em que essa possibilidade não é mais levada em conta”, disse Dávila.

Se essa possibilidade não é mais levada em conta, por que incluí-la numa pesquisa?

Sobre a óbvia manipulação da pergunta original feita pelo Datafolha, que provocou o resultado falseador de apoio majoritário à permanência de Temer, nenhuma palavra. Já a exclusão de algumas questões do relatório da pesquisa obedeceriam, como é praxe, a critérios editoriais. Foi o que Dávila reiterou, afirmando que “é prerrogativa da Redação escolher o que acha jornalisticamente mais relevante no momento em que decide publicar a pesquisa”.

Curioso critério, entretanto. Pois é evidente que a publicação do percentual verdadeiro sobre os defensores de novas eleições simplesmente derrubava a tese que o jornal pretendeu impor: tratava-se da ligeira diferença entre 3% e 62%.

Já Alessandro Janoni conseguiu produzir uma afirmação espantosa: “Não há erro, e tanto a Folha quanto o Datafolha agiram com transparência”.

Notável “transparência”, que omite informações essenciais no próprio relatório de pesquisa. Quanto à ausência de erro, não há dúvida: o que houve foi mesmo uma fraude. Uma fraude escandalosa, indiscutível, indesculpável.

A falta de constrangimento diante das evidências, o despudor em mentir descaradamente, é algo assustador.

Finalmente, a matéria informava o link de acesso para a íntegra do levantamento, mas nessa “íntegra” ainda havia um buraco entre a pergunta 14 e a 21.

Em suma, uma mentira atrás da outra.

No mesmo dia, O Globo saía em defesa de seu concorrente-parceiro, com o mesmo eufemismo sobre a “polêmica” provocada pela pesquisa, tentando já no subtítulo desqualificar as críticas, atribuídas a “blogs pró-Dilma”. (Que o Intercept seja incluído nessa classificação talvez seja mais um dos surpreendentes critérios adotados por nossa imprensa, sempre tão criativa).

Já o El País, embora também falasse em “controvérsia” e em informações apresentadas “de maneira imprecisa” – e não na evidente fraude –, puxava para o título a informação correta: “62% apoiam novas eleições, diz dado que Datafolha publica agora”.

 

O efeito multiplicador e a normalização do golpe

 

A primeira reportagem do Intercept demonstrava bem a gravidade do que ocorreu. “Não se pode subestimar o impacto dessa pesquisa. É a única pesquisa de um instituto com credibilidade a ser publicada em meses. Sua publicação se deu exatamente antes da votação final do impeachment no Senado. E contém a extraordinária alegação de que metade do país deseja que o Michel Temer permaneça na presidência até 2018: uma manchete tão sensacionalista quanto falsa”. Os repórteres apontavam o efeito multiplicador daquela “notícia”, reproduzida, como seria esperado, em outros jornais e sites jornalísticos – sem contar os programas televisivos, como o Fantástico.

temer 4.png

temer 5.png

temer 6.png

Restaria assinalar que o que não pareceu “jornalisticamente relevante” aos olhos do editor executivo da Folha é nada menos do que decisivo na tentativa de reverter o impeachment: como lembrou o El País em reportagem anterior, a adesão popular à tese da convocação de novas eleições é uma das últimas possibilidades para a presidente afastada tentar obter os votos que lhe faltam no Senado.

 

A “normalização” do golpe

 

Não é difícil concluir que a fraude agora desmontada foi mais um passo – no caso, especialmente arriscado – na tentativa sistemática que a mídia comprometida com o golpe vem fazendo para dar o impeachment como fato consumado. Seja escondendo notícias favoráveis a Dilma – os “critérios jornalísticos” dos principais jornais do país não viram motivo para manchete, nem mesmo para chamada de primeira página, na decisão do MPF de arquivar o processo criminal sobre as “pedaladas fiscais”, que estão na base do pedido de impeachment –, seja promovendo a “agenda positiva” do governo interino. No dia 20 de julho, por exemplo, o colunista Elio Gaspari se derramava em elogios: “Com serenidade, Temer conseguiu estabilizar seu governo”. A própria manchete da Folha na reportagem fraudada, sublinhando o “otimismo” com a economia, é outro exemplo.

Nossa imprensa tem um longo histórico de deturpações escandalosas, no qual a famosa edição do debate entre Lula e Collor, pelo Jornal Nacional, no segundo turno das eleições de 1989, ocupa lugar de destaque. A Folha, que chegou a ser o “jornal das Diretas”, em 2009 virou o jornal da “ditabranda” e da ficha falsa da Dilma – o documento atribuído ao DOPS foi imediatamente contestado e se revelou uma montagem, mas o jornal insistiu numa esfarrapada justificativa para o suposto “erro”. Já então insinuava o discurso sinuoso incompatível com uma publicação que se preze: “a autenticidade [da ficha] não pode ser assegurada – bem como não pode ser descartada”. Nos últimos anos, a guinada à direita se radicalizou, culminando com a contratação de um adolescente político líder de um movimento golpista para escrever uma coluna semanal – ainda que “só no site”, como se isso fosse atenuante.

Se tivéssemos uma legislação que regulasse o exercício do jornalismo, provavelmente estaríamos em boas condições de contestar judicialmente essa monstruosa fraude cometida pela Folha. De qualquer forma, o desmascaramento dessa manipulação escandalosa abala diretamente tanto o jornal quanto seu instituto de pesquisa, naquilo que, para ambos, é um valor fundamental: a credibilidade.

É assim que uma publicação outrora referencial trilha o caminho de uma vergonhosa decadência.

[leia também: A fraude da Folha, a ombudsman e a objetividade da crítica]

 

06
Fev21

Se ‘Vaza Jato’ vale para o STJ, porque não valeria para todos?

Talis Andrade

Dallagnol-Moro combinação.jpg

 

 

por Fernando Brito

- - -

Vai ser curioso ver qual será a reação do Procurador Geral de Justiça, Augusto Aras, ao ofício do presidente do Superior Tribunal de Justiça, Humberto Martins, em que se pede que a PGR abra investigação sobre a tentativa de Deltan Dallagnol e os procuradores da Lava Jato manifestavam o desejo de fazer uma devassa patrimonial nos dois ministros que integram as turmas criminais do STJ.

O plano está numa das mensagens obtidas nos grupos de chats dos procuradores, agora entregue à defesa de Lula. Segundo a CNN, Deltan queria “uma análise patrimonial” , provavelmente à procura de eventuais valores ou bens que pudessem ser utilizados – em público ou reservadamente – para pressioná-los em suas decisões

A RF [Receita Federal] pode, com base na lista, fazer uma análise patrimonial, que tal? Basta estar em EPROC [processo judicial eletrônico] público. Combinamos com a RF”, escreve Deltan.

A seguir, completa a mensagem com a expressão “Furacão 2”, uma referência à “operação Furacão”, de 2007, que atingiu o então ministro do STJ Paulo Medina, denunciado por integrar um esquema de venda de sentenças judiciais e aposentado compulsoriamente do tribunal, enquanto responde a ação penal.

Ocorre que procuradores de 1ª instância não têm competência legal para investigar ministros do STJ e, claro, muito menos para pretender investigar seus patrimônios usando para isso a Receita Federal.

A ilegalidade é flagrante e a mera iniciativa de propor a devassa é o suficiente para caracterizar crime funcional.

Mas a informação vem de provas captadas de maneira ilícita, o que não pode ensejar ações penais contra quem quer que seja.

Mas o STJ, quando é na sua própria pele, quer que ao menos atos administrativos sejam praticados em razão da informação. E se entendem assim, porque diabos, esta semana, os ministros da 2ª Turma do STF poderiam considerar que as informações sobre estas e muitas outras ilegalidades da turma de Curitiba devessem ser mantidas em sigilo e que a população no possa saber o que faziam em nome da Justiça e no exercício de suas funções públicas?

Os vícios e situações de natureza privada eventualmente narrados ali, sim, devem ser mantidos sob reserva. Mas não os que tratam de processos judiciais públicos, no exercício de funções públicas, pelas quais recebem dinheiro público, ainda mais se são tratados em telefones pertencentes e pagos pelo poder público.

tres faca afiadas .jpg

Nota deste correspondente: Publica Migalhas: Em um dos trechos separados pela defesa do ex-presidente, datado de 27 de fevereiro de 2016, procuradores colocavam em xeque a atuação de ministros do STJ. "Dizem que é assim que funciona no STJ", disse Paulo Galvão sobre propina para assessores.

O diálogo começa com Deltan afirmando que recebeu novos nomes: "Há até pagamento para político". O procurador Paulo Galvão, então, disse que poderia ser propina para assessores e completou: "Dizem que é assim que funciona no STJ".

Deltan mostrou dúvida. "Improvável. Se for, aí o sistema tá muito pior do que o pior que eu já imaginei. Se fosse TJ, tudo bem. Mas STJ??" Deltan ainda sugere uma análise patrimonial.

"A RF pode, com base na lista, fazer uma análise patrimonial, que tal? Basta estar em EPROC público. Combinamos com a RF. Furacão 2."

O procurador Diogo Castor de Mattos, então, cita o ministro Felix Fischer, "Eu duvido, é um cara sério". Diogo diz que tem que ver quais processos que os ministros "podem ter julgado de interesse da Andrade [Gutierrez - empreiteira]"(Imagem: Arte Migalhas)

Mais safadezas estão para aparecer. Mais prisões sob vara, arbitrárias, ilegais, injustas. Prisões políticas. Para arrancar delações sob tortura. Que Moro, quando assumia as secretas personagens "russo", "Putin", "marreco", deixava que se revelassem diferentes personalidades. Foi assim que praticou uma justiça apressada, ativista e de exceção. Inventou um Código de Processo Penal, chamado de Código Russo ou CP-CU. Dizem que nas audiências baixava a pombagira. Era quando falava fino. Era quando usava o martelo das feiticeiras.

Existem muitas histórias ainda não contadas. Principalmente as gravações dos cárceres da Polícia Federal. Jamais reveladas. Basta analisar os inquéritos dos delegados dissidentes.

Existem muitas histórias ainda não contadas. São 79 fases, 1.450 mandados de busca e apreensão, 211 conduções coercitivas, 132 mandados de prisão preventiva, 163 mandados de prisão temporária, 130 denúncias, 533 acusados, 278 condenações. Cada prisão uma história cabeluda. Tem até prisão de crianças como acontecia na ditadura militar. 

Existem muitas histórias ainda não contadas. De acordo com o MPF, mais de R$ 4,3 bilhões foram devolvidos por meio de 209 acordos de colaboração e 17 de leniência. Se o dinheiro falasse... Tem a conta gráfica que a juíza Gabriela Hardt autorizou. Uma bufunfa ao deus-dará de 2 bilhões e 500 milhões. Que diabo é conta gráfica? 

MPF estende o manto do segredo para a quadrilha da lava jato. Que interessante. Eles pretendiam fazer (ou realizaram) uma devassa patrimonial de dois ministros que integram as turmas criminais do STJ. 

Existem muitas histórias ainda não contadas. Falta uma devassa patrimonial dos procuradores da equipe de Moro. Pra saber o destino da grana misteriosa, invisível, fácil, jamais auditada dos 209 acordos de delação e 17 de leniência. 

Existem muitas histórias ainda não contadas. Como Moro, ministro de Bolsonaro, auxiliou Gabriela Hardt na condenação de Lula, a famosa sentença cópia e cola...

livro historia.jpg

 

05
Fev21

Globo chora o fim inglório da Lava-Jato

Talis Andrade

 

mentiroso morodallagnolgloboBerzé.jpg

 

Por Fernando Brito


Não é o fim das investigações, como canta o chororô das viúvas de Sérgio Moro, porque elas seguem com os mesmos promotores.

Mas o início do fim de uma ‘franquia’, nascida em Curitiba, que passou a designar a atuação do Ministério Público e do Judiciário na contramão do “não haverá juízo ou tribunal de exceção” inscrito no Art 5º, inciso XXXVI da Constituição Federal.

Isso quer dizer que não se julgará – e nem se processará exclusivamente com um grupo de procuradores – possíveis crimes em razão da natureza de seus supostos autores.

Esta é a raiz de tudo o que aconteceu nos últimos sete anos.

Um diretor corrupto da Petrobras – Paulo Roberto Costa – operando através de um informante de Sérgio Moro, Alberto Youssef, libertado por ele em troca de delações no caso do Banestado, e seu ex-sócio, o deputado federal José Janene – dariam início a um processo que, desde o começo, tinha alvos definidos: o governo, o PT e o grande prêmio, o ex-presidente Lula.

Claro: em governo algum – naquele, neste e em outros, por toda a parte do mundo, não hão de faltar corruptos, gente que encara a função pública como um bilhete premiado de uma loteria secreta. E corrupção de todos os tipos, porque muitas vezes ela é indireta, vem das vantagens políticas e econômicas que lhe dá exercer cargos com notoriedade.

O tribunal de Curitiba, chamando a si tudo o que dizia ter respeito à Petrobras deu origem a inacreditável frase de um dos procuradores, nas mensagens agora reveladas: “Se o avião usou combustível da Petrobras [o caso] é nosso!”, na falta de competência para investigar informações oferecidas pelo próprio Moro que seriam “a pá de cal no 9”. 

O 9 – o “Nine” ou 9 dedos, como se referiam a Lula.

O nome Lava Jato se tornou símbolo de um processo político que nos levaria a Temer e, depois a Bolsonaro. 

Mas a ambição pessoal que movia Sergio Moro acabou sendo o veneno que o mataria, deixando viva e ameaçadora a sua criatura, Jair Bolsonaro, com seus 28 anos de inserção nos ambientes mais corrompidos e desclassificados da política e do Congresso.

Repita-se, foi no útero do ódio político que se gestou o Frankenstein que nos preside, mas não contava que este fosse voltar-se contra ele para ser o único dono da histeria e do fanatismo.

Este útero foi a Globo e foi lá que o embrião inseminado por Moro cresceu e pariu-se nas eleições de 2018.

Nem o Império dos Marinho, nem o ex-juiz decaído podem, porém, confessar que ele é seu fruto.

Agora, e nisto o chororô está certo, a Lava Jato judicial está morta e precisa ter, como diria a turma do Deltan, a sua “pá de cal” com a declaração judicial da suspeição de Moro.

Este será o primeiro passo para que nos livremos da histeria irracional que a defunta deixa como espólio e que vai exigir-nos muita dor para dissipar.
24
Jan21

PGR abre inquérito contra Pazuello. Parabéns, generais!

Talis Andrade

general cloroquina.jpg

 

 

por Fernando Brito

- - -

O Procurador Geral da República, Augusto Aras, não resistiu à pressão da corporação – e do que é seu dever, afinal – e pediu a abertura de inquérito sobre as responsabilidades do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, na catástrofe de Manaus.

Vai ser um espetáculo de nudez na praça, onde se vão mesclar omissão, desídia, charlatanismo e todas as vergonhas que marcaram e marcam o arrogante e infeliz papel de um ministro que só tem como programa a obediência canina às loucuras de seu chefe, Jair Bolsonaro.

Acolhido o pedido pelo Supremo Tribunal Federal, o passo inicial será a devassa das operações do Ministério pela Polícia Federal – inclusive na “Missão Cloroquina” enviada à capital amazonense e sobre os avisos – formais e documentados – de que o desastre e as mortes de pacientes por sufocamento viriam.

Por exemplo, como explicar que oxigênio não veio, mas chegaram 120 mil caixas de cloroquina e hidroxicloroquina para serem despejadas goela abaixo dos doentes.

E é inevitável, pela mobilização de meios que seria necessária das três Forças, que sejam os militares que se vejam arrastados para dentro deste episódio trágico por permitirem que Jair Bolsonaro se servisse de um general da ativa para impor às estruturas de Saúde do país alguém que estivesse disposto a seguir sua política genocida, pró-morte e charlatã.

Por falta de aviso não foi e, agora, estão todos metidos numa sinuca de bico.

Bolsonaro não pode trocar de ministro nem Pazuello pode passar à reserva sem que qualquer dos dois atos se configure como, antes mesmo de uma confissão de culpa, uma demonstração de covardia.

E os generais, que elevaram um louco, sedento de poder, à Presidência da República e que agarraram-se, como carrapatos, às oportunidades políticas que ganharam com isso.

Era mais que avisado e aqui mesmo se disse que Pazuello apodrecia na praça e levava o Exército com ele.

A omissão dos comandantes militares – afinal, o ministro é um general da ativa – e a apropriação das Forças Armadas como ferramenta de poder, mesmo que isso significasse deixar o país entregue aos delírios negacionistas e desumanos de um sujeito que, afinal, nem para tenente do Exército servia.

Ou será que, em lugar de adminitir as baixas que seu mau comando está causando, irão investir contra o poder civil, pela audácia de achar que um general está, como qualquer um, sujeito a leis e à Constituição?

Ou vão querer que o general que ignorou o sufocar agônico de brasileiros é bom demais para sentar num banco da polícia e dar explicações?

golpe pazuello.jpg

 

18
Jan21

“Me dá uma cloroquina aí, bagual… “

Talis Andrade

comunismo.jpg

 

 

por Fernando Brito

- - -

O prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, é um campeão.

Devia ganhar o Troféu Osmar Terra de negacionismo , acumulado com o Prêmio Eduardo Pazuello de puxassaquismo santário.

A esta altura, quando o charlatanismo presidencial não consegue nenhum adepto capaz de passar por um hospício e por lá ficar, o prefeito pediu ao Governo Federal 25 mil doses de hidroxicloroquina, 60 mil de azitromicina e outras 25 mil unidades do vermífugo Ivermectina.

Todos, claro, descartados pela comunidade científica e, agora, até pela Anvisa, como o tal “tratamento precoce” para a Covid-19.

Desconhece-se se, por razões regionais, o prefeito deixou de pedir também cilindros de ozônio para aplicação retal, como preconizado pelo seu colega prefeito (de Itajaí) e de MDB, Volnei Morastoni.

O caso foi parar na Justiça e ainda assim Melo insiste em fazer o “agrado” ao presidente, de olho em que este “amor sincero” renda recursos federais para a sua administração.

À custa, é claro, da saúde e do dinheiro da população.

homemaranha x nazista porto alegre.jpg

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub