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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

24
Abr21

Candidata em Berlim, teuto-brasileira quer pressão sobre Bolsonaro

Talis Andrade

Juliana Wimmer

Filha de brasileira e alemão, Juliana Wimmer é candidata a deputada pelo Partido Verde. Ela vê o populismo de direita como ameaça real à democracia alemã, e a atual gestão no Planalto, como risco ao mundo inteiro

por Clarissa Neher /DW

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Apesar da aparente pouca idade, a teuto-brasileira Juliana Wimmer, de 31 anos, tem uma longa trajetória de engajamento político, que neste ano pode culminar com a consolidação do início de uma carreira na política alemã. A jovem jurista é uma das candidatas do Partido Verde para o Bundestag (Parlamento alemão).

Formada em Direito, mestre em Políticas Públicas e com experiências de trabalho no Ministério alemão da Justiça e no Centro Europeu para Direitos Constitucionais e Humanos (ECCHR), Wimmer começou a cogitar a candidatura há cerca de um ano, após conversas com colegas da legenda. A ideia foi também impulsionada pelo crescimento da sigla populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD).

"Nunca pensei que um partido destes pudesse entrar em qualquer parlamento aqui na Alemanha. Agora vimos que eles chegaram para ficar, por isso, é importante nos levantarmos e dizermos que temos uma visão da política diferente desta legenda que não é democrata", conta Wimmer à DW Brasil. Ela lembra o episódio ocorrido em 18 de novembro, quando deputados da AfD liberaram a entrada no Bundestag de ativistas de extrema direita e influencers conspiracionistas que invadiram gabinetes na tentativa de intimidar parlamentares e um ministro.

Wimmer é desde 2018 assessora da deputada do Partido Verde Katja Keul e estava trabalhando no dia do incidente. "Recebi um e-mail do partido alertando para ficarmos nos escritórios e fecharmos a porta. Isso me deixou chocada e mostrou que realmente esse partido no Parlamento é um perigo para todos. Isso me motivou como alemã, mas também como estrangeira, a deixar claro que esse não é um Bundestag que desejo e também a participar mais ativamente deste Parlamento", ressalta.

O passo rumo ao Parlamento não foi algo completamente inesperado na carreira da jurista. A política sempre esteve presente na vida de Wimmer. Filha de uma brasileira e de um alemão que se conheceram no Brasil no fim da década de 1980, Wimmer nasceu em Berlim em 1989. Nas conversas em família, tanto a política alemã quanto a brasileira eram temas constantes.

"Na escola aqui, tínhamos uma aula de política e, quando terminei o colégio, sentia falta destas aulas. Também queria participar ativamente de um partido e da campanha eleitoral de 2009", conta.

A escolha do partido

Com a decisão tomada, faltava então escolher a legenda. Para isso, Wimmer fez uma pesquisa sobre as plataformas de cada um dos partidos alemães. "O Partido Verde foi o que mais me convenceu pelos seus valores baseados na ecologia, pacifismo e feminismo". Com 19 anos na época, decidiu entrar para a juventude verde.

Juliana Wimmer

Wimmer nasceu em Berlim

Em 2015, com 28 anos, ela passou a integrar grupos de trabalho da legenda que tratam de política externa e questões locais do distrito eleitoral onde mora em Berlim. A história de vida de Wimmer foi fundamental para o foco em temas internacionais.

"As duas nacionalidades são muito importantes para mim. Essas duas perspectivas e culturas foram uma das razões que me levaram a trabalhar com política externa", destaca.

Neste ano, veio o grande passo na carreira política: em 21 de março, Wimmer participou da seleção interna do Partido Verde para a escolha dos nomes que entrariam na lista de candidaturas da legenda em Berlim para as eleições de 26 de setembro.

A jurista concorreu com outros 25 candidatos e conquistou a oitava posição. As chances da teuto-brasileira de entrar no Parlamento dependem da quantidade de votos que a legenda obtiver. Na Alemanha, cada eleitor tem direito a dois votos: o direto no candidato do distrito eleitoral e o na legenda. Metade das 598 cadeiras do Bundestag são ocupadas por candidatos eleitos diretamente e a outra metade pelas listas distritais, sendo distribuídas conforme a proporção de votos das siglas.

Caso conquiste uma cadeira no Bundestag, a política internacional deve ser uma das plataformas de seu mandato. Wimmer defende uma atuação alemã no exterior voltada para a paz, desarmamento, e para prevenção de conflitos, com uma visão feminista e envolvendo a sociedade civil.

Ela pretende também contribuir para uma maior diversidade no Parlamento. "As raízes migratórias fazem parte da minha identidade. Há muitos alemães que também tem uma outra nacionalidade e esse grupo ainda é pouco representando no Bundestag. No meu mandato, também pretendo lutar por todas as crianças de migrantes que vieram para a Alemanha", acrescenta.

Governo Bolsonaro

Ao comentar a política brasileira, Wimmer lamenta os inúmeros retrocessos ambientais e de direitos humanos que vêm ocorrendo desde o início do governo de Jair Bolsonaro. "Antes da pandemia, ainda havia grupos que estavam sendo beneficiados com o governo, como a elite ou quem votou nele, mas agora todo mundo está sofrendo", afirma, acrescentado que o descaso do presidente com a crise do coronavírus é "irresponsável".

"Essa política não é sustentável e se tornou um perigo, não só para o Brasil, mas pro mundo inteiro quando vemos essas mutações", comenta.

Para a jurista, o governo da chanceler federal alemã, Angela Merkel, apesar de ser crítico de Bolsonaro, poderia fazer muito mais para pressionar o presidente brasileiro. "O poder econômico da Alemanha e da União Europeia é muito forte, mas ele não está sendo usado suficientemente para mostrar que o Brasil agora não é um parceiro confiável no comercio mundial". Como exemplo de pressão que poderia ser feita, ela cita a aprovação de leis que aumentem a transparência e os padrões exigidos em relação a produtos importados do Brasil.

Além disso, ela considera importante iniciativas que apoiem a sociedade civil e mostrem que o país europeu está ciente do que o ocorre no Brasil, como a carta de deputados alemães enviada ao Congresso brasileiro com um pedido para não flexibilizar leis de proteção ambiental.

Atualmente com chances reais de comandar o novo governo alemão, como mostram pesquisas recentes de intenção de voto, o Partido Verde poderia no futuro aumentar a pressão sob Bolsonaro. No entanto, segundo Wimmer, uma mudança neste aspecto dependerá muito da coalizão que formará o novo governo. Caso seja feita uma aliança com os social-democratas, a tendência é o fortalecimento das conexões com a sociedade civil, o endurecimento das críticas e o uso do poder econômico.

"Se só for possível uma coalizão com a CDU, será bem difícil mudar o caminho que estamos agora, pois os conservadores têm em mente os interesses econômicos e são muito influenciados pelo lobby da economia alemã, e isso é o que impede o atual governo alemão de se posicionar mais fortemente contra a política de Bolsonaro", avalia.

31
Out20

Cânticos de Liberdade de Ana Júlia (vídeos): "Ocupar a política depende de você"

Talis Andrade

Image

 

Tentam dizer que nós não vamos longe

mas se escondem de medo quando nos ouvem chegar

Esse é o bonde dos que constroem pontes

que não temem o sistema e vieram ocupar

A esperança é a nossa opção

a mudança se faz com educação

Livros na mão, sonho na mente

Vem, vamos fazer diferente

Por nós, que temos algo a dizer

Quem sonha, quem luta e faz acontecer

Ocupar a política depende de você

Y La Culpa No Era Mía/El Violador Eres Tú
DJ Ariel Style

Y La Culpa No Era Mía /El Violador Eres Tú
El patriarcado es un juez
Que nos juzga por nacer
Y nuestro castigo
Es la violencia que no ves

El patriarcado es un juez
Que nos juzga por nacer
Y nuestro castigo
Es la violencia que ya ves

Es femicidio
Impunidad para mi asesino
Es la desaparición
Es la violación

Y la culpa no era mía, ni dónde estaba, ni cómo vestía
Y la culpa no era mía, ni dónde estaba, ni cómo vestía
Y la culpa no era mía, ni dónde estaba, ni cómo vestía
Y la culpa no era mía, ni dónde estaba, ni cómo vestía

El violador eras tú
El violador eres tú

Son los pacos
Los jueces
El estado
El Presidente

El estado opresor es un macho violador
El estado opresor es un macho violador

El violador eras tú
El violador eres tú

Duerme tranquila, niña inocente
Sin preocuparte del bandolero
Que por tus sueños, dulce y sonriente
Vela tu amante carabinero

El violador eres tú
El violador eres tú
El violador eres tú
El violador eres tú

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E a culpa não era minha / o violador é você
O patriarcado é um juiz
Quem nos julga nascer
E nosso castigo
É a violência que você não vê

O patriarcado é um juiz
Quem nos julga nascer
E nosso castigo
É a violência que você vê

É femicídio
Impunidade para o meu assassino
É o desaparecimento
É o estupro

E não foi minha culpa, nem onde eu estava, nem como eu me vesti
E não foi minha culpa, nem onde eu estava, nem como eu me vesti
E não foi minha culpa, nem onde eu estava, nem como eu me vesti
E não foi minha culpa, nem onde eu estava, nem como eu me vesti

O estuprador era você
O estuprador é você

Eles são os pacos
Juízes
O estado
O presidente

O estado opressivo é um estuprador
O estado opressivo é um estuprador

O estuprador era você
O estuprador é você

Durma, menina inocente
Sem se preocupar com o bandido
Que para os seus sonhos, doce e sorridente
Assista seu amante carabinero

O estuprador é você
O estuprador é você
O estuprador é você
O estuprador é você

(A música feminista contra a violência percorre o mundo. Leia reportagem aqui)

Bella Ciao: a história da canção da Resistência contra o fascismo

Uma manhã, eu acordei
Bela, tchau! Bela, tchau! Bela, tchau, tchau, tchau!
Uma manhã, eu acordei
E encontrei um invasor
Oh, partigiano (membro da Resistência), leve-me embora
Bela, tchau! Bela, tchau! Bela, tchau! Bela, tchau, tchau, tchau!
Oh, membro da Resistência, leve-me embora
Porque sinto que vou morrer
E se eu morrer como partigiano,
Bela, tchau! Bela, tchau! Bela, tchau, tchau, tchau!
E se eu morrer como partigiano,
Você deve me enterrar
E me enterre no alto das montanhas
Bela, tchau! Bela, tchau! Bela, tchau, tchau, tchau!
E me enterre no alto das montanhas
Sob a sombra de uma bela flor
E todas as pessoas que passarem
Bela, tchau! Bela, tchau! Bela, tchau, tchau, tchau!
E todas as pessoas que passarem
Te dirão: Que bela flor!
E essa será a flor da Resistência
Daquele que morreu pela liberdade
E essa será a flor da Resistência
Daquele que morreu pela liberdade

 

31
Out20

"Todos os dias, os dominantes ignoram direitos e rasgam a constituição" (vídeos)

Talis Andrade

benett mec escola estudante.jpg

 

 

Que sejamos mais baderneiros

 
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Sempre que realizamos algum protesto de expressão popular sobre qualquer reivindicação que seja (saúde, educação, direitos trabalhistas, etc) a primeira crítica que escutamos da mídia conservadora ou quando lemos alguns comentários nas redes sociais é de que tudo não passa de obra de um bando de baderneiros.

No entanto, todas as nossas manifestações dos últimos anos são reivindicações de princípios e direitos já garantidos na constituição brasileira. A baderna da juventude que ocupa escolas e universidades, muito além de lutar por uma educação pública de qualidade (Art. 6º da Constituição), também promove a autonomia e a participação social e politica dos jovens, previstos tanto no Estatuto da Criança e do Adolescente quanto no Estatuto da Juventude.

A baderna, promovida pelos grupos feministas, é a luta pela equidade de gênero e pela dignidade humana da mulher, da mesma maneira que a baderna realizada pelos movimentos negros é a luta antirracista e pela igualdade. Outro exemplo é a baderna dos sem terra e dos sem teto, que apenas lutam pela realização da função social da terra rural e da terra urbana. Até porque, segundo a própria constituição, a propriedade privada deve cumprir a sua função social porque senão ela servirá apenas como mais um instrumento de acumulação de riquezas e de promoção da desigualdade.

 

As ditas badernas giram em torno do que já está garantido no papel, mas que precisa se concretizar na vida cotidiana das minorias!

Todos os dias, os dominantes ignoram direitos e rasgam a constituição. Em casos como o de Rafael Braga, preso por estar com pinho sol e 0.6g de maconha - o que não deixaria nenhum filhinho de papai de pele clara na delegacia por mais de duas horas - é um clássico exemplo de que a lei não é aplicada para todos da mesma maneira.

O episódio dos 18 jovens do Centro Cultural de São Paulo (CCSP) que estão sendo processados por estarem indo a um protesto do “Fora Temer” - que se por ironia fosse uma manifestação pró-impeachment de Dilma Rousseff nem sequer teriam sido abordados - é também um exemplo de desrespeito ao direito de livre manifestação.

Os detentores do poder, que se escondem debaixo de togas, de mandatos e de empresas, tentam inverter os papéis da sociedade. Eles não se enxergam como responsáveis por perpetuar as desigualdades e ainda se consideram vítimas das ações afirmativas; entendem como regalias os direitos que são concedidos pelo Estado aos trabalhadores mais vulneráveis. Por isso que todas as vezes que questionamos e tomamos as ruas pela luta por direitos, o sistema contra-ataca nos intitulando de baderneiros. Esquecem que os causadores do verdadeiro caos são eles mesmos, que persistem na manutenção de seus próprios privilégios.

Essa classe raivosa atropela direitos dos trabalhadores, dos negros, das mulheres e LGBTIS. Cinicamente conseguem transformar a luta por direitos em arma de criminalização e repressão aos movimentos sociais. Eles passam por cima do crivo popular em seus projetos de lei, medidas provisórias e propostas de emendas constitucionais - e de tempos em tempos golpeiam a democracia.

Particularmente considero o adjetivo “baderneiro” muito mais como um elogio. Pois, se estamos exigindo o compromisso com a constituição e reivindicando direitos das minorias ainda não consolidados, significa dizer que estamos exercendo a cidadania, que apenas se inicia nas urnas.

Mais do que nunca é preciso ser mais baderneiro e ir às ruas, porque denunciar as injustiças dos ordeiros e paladinos da moralidade não cabe dentro de um vídeo de 15 segundos feito para a televisão.

Gostem ou não, a cidadania é construída nas ruas por quem mais gera riquezas para o país: o povo. É da cidadania plena que eles mais têm medo, porque sabem que é através dela que podemos vencê-los. Enquanto a nossa baderna girar em torno da luta pela justiça social, pela verdadeira democracia e pela fraternidade entre as pessoas, estaremos no caminho certo.

Que sejamos todos cidadãos, que sejamos mais baderneiros.

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27
Set19

Violência no Brasil é fruto do aparato repressivo herdado da ditadura, diz filósofo Edson Teles

Talis Andrade
Violência no Brasil é fruto do aparato repressivo herdado da ditadura, diz filósofo Edson Teles
 
O filósofo e professor Edson Teles RFI
 

A biografia do filósofo e professor universitário, Edson Teles, especialista em autoritarismo político, reúne vivência e teoria. Ele foi o preso político mais jovem da história do Brasil e o combate à ditadura militar brasileira norteia sua vida. Nessa entrevista a RFI, ele fala sobre os riscos à democracia brasileira e diz que o aparato repressivo, que na ditadura visava os militantes políticos, permanece e “na democracia passou a agir contra as pessoas negras, pobres e periféricas das grandes cidades”.

O professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) é diretor do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense, que, entre outros projetos, tenta identificar desaparecidos políticos da ditadura de 1964 entre as ossadas encontradas na Vala Clandestina de Perus. Ele também coordena o Núcleo de Filosofia política da Unifesp. Militante da Comissão de Familiares de mortos e desaparecidos políticos, o filósofo tem vários livros publicados, entre eles “O que resta da ditadura, a exceção brasileira” (2010, Boitempo), que co-organizou com Vladimir Safatle.

Edson Teles foi preso aos 4 anos de idade, em 1972, juntamente com a irmã de 5 anos, e os pais, Cesar e Amélia Almeida Teles, ex-militantes do PCdoB. Na cadeia, viu os pais torturados. A família Teles foi até hoje a única que venceu um processo contra o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o militar a quem Jair Bolsonaro dedicou seu voto no impeachment de Dilma Rousseff. Em 2008, Ustra foi condenado e declarado publicamente pelo Justiça como “torturador”.

Este processo e a condenação do Brasil na OEA (Organização dos Estados Americanos) por não apurar os crimes da ditatura, foram os dois eventos que levaram à mobilização em torno da criação da Comissão Nacional da Verdade. Edson Teles faz uma relação entre as conclusões da Comissão e o impeachment de Dilma: “Dentro desse processo da transição e depois na Comissão da Verdade, se produziu um ressentimento na extrema direita. Ali começa a se articular um discurso contra a democracia brasileira. Foi a primeira vez, durante a Comissão da Verdade que as pessoas foram às ruas pedir a intervenção militar. Então há uma produção negativa, uma reação à CNV que vai alimentar o processo do impeachment.”

Transição ambígua

Para Edson Teles, a transição da ditadura para a democracia no Brasil foi ambígua. Em alguns aspectos ela promoveu uma ruptura, mas em outros foi marcada pela continuidade, principalmente na política de segurança pública. “Durante a construção do estado de direito o Brasil, o país não se desfez de seu aparato repressivo. Ele optou por uma saída que foi chamada na época de reforma das instituições e humanização do procedimento. Isto é, pegar a polícia repressiva, modernizá-la, dar curso de direitos humanos, (pensando que) isso diminuiria o lugar repressivo dela.”

O aparato repressivo, que na ditadura visava os militantes políticos, na democracia passou a agir contra “as pessoas negras, pobres e periféricas das grandes cidades”. Resultado, “nós chegamos a um quadro hoje no Brasil em que temos 65 mil homicídios por ano. Desses, mais de 65% são negros”, denuncia Teles. O professor forjou um conceito forte para falar dessas mortes que ele chama de “vidas descartáveis!”

‘São vidas descartáveis porque no processo de construção de democracia houve uma desqualificação deste ser humano em favor da qualificação e da politização de uma outra categoria que tinha acesso à cidadania. E dentro de uma tradição da história brasileira, podemos chamar de uma matriz racista, de um racismo estruturado e de uma sociedade patriarcalista.”

Ainda existe democracia no Brasil?

Na França, onde parte da opinião pública está muito preocupada com os riscos a democracia brasileira, Edson Teles fez várias palestras sobre o tema. Ele diz que no Brasil, dependendo da pessoa, há quem diga que “antes mesmo do Bolsonaro já não existia mais democracia porque já havia um processo de desmonte”.

O professor universitário ressalta, no entanto, que algumas instituições, como o Judiciário e o Legislativo, ainda funcionam com uma certa autonomia. “Mas em termos das relações políticas e sociais eu diria que a democracia já está em uma situação limite para deixar de existir”, alerta.

Perspectivas: Explosão de coletivos

Apesar da situação limite, o filósofo elogia a capacidade de resistência de coletivos negros e feministas que surgiram no Brasil nos últimos anos. “Eu acho que a grande novidade no Brasil não é o governo Bolsonaro. Ele é um pouco do mesmo, do velho patriarcalismo e racismo brasileiro com suas ditaduras históricas. A grande novidade é o surgimento de uma nova forma de ação política, mas autônoma menos dependente dos lugares tradicionais. Eu me refiro, por exemplo, a explosão de coletivos negros, coletivos feministas, LGBT, feministas negros, criação de espaços culturais, cultura de resistência, narrativas sobre formas de resistência da sociedade brasileira. Diria até que a articulação do centro, da direita e da estrema direita em torno da candidatura do Bolsonaro é uma reação a essa grande movimentação que tem acontecido no Brasil”.

Esses coletivos sabem que são alvo do novo governo, segundo Teles. O filósofo ressalta que, ao contrário do que muitos pensam, “Bolsonaro não é estúpido nem burro, e sim muito estratégico”. Por exemplo, em relação ao acesso às universidades que foi uma das grandes conquistas nos governos de esquerda, Teles salienta que o presidente “não está atacando as cotas, ele está destruindo a universidade. (...) e quem vai ser o maior prejudicado? Vão ser as pessoas negras cujas famílias não têm como sustentar. E vai ocorrer um embranquecimento das universidades.”

Para o professor universitário, o atual governo não está numa situação instável, e sim “numa situação fortalecida, muito consolidada enquanto proposta de desmonte do que a gente criou na democracia.”

 
 
23
Nov18

O Brasil das "fraquejadas"

Talis Andrade

O abismo vivido pelo Brasil foi escavado por silenciamentos. Em particular pelo silenciamento das vozes de mulheres, no caso de Marielle Franco literalmente. A melhor maneira de enfrentar a opressão que se infiltra desde o cotidiano, nos pequenos atos e nas pequenas desistências, dia após dia um pouco mais, é falar. Junt@s. Mulheres e homens que amam as mulheres: “ninguém solta a mão de ninguém”. Não sabemos quando acabará. Mas o fim do que só começou – ou continuou – depende do tamanho da resistência. E da capacidade de voltar a dar significado às palavras pelo debate e pelo confronto das ideias. O Brasil não pode mais tolerar silenciamentos. Como enfrentar a opressão? Recusando-se a silenciar. Escreve Eliane Brum. Leia mais aqui:

 

O ataque dos machos brancos

A tensão de gênero, raça e classe marcou a eleição de 2018

 

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Entenda o Brasil da escola sem partido. Do pensamento único. Do inimigo terrorista que é uma mistura de sem terra, de sem teto, filiado aos partidos esquerdistas.  

 

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27
Out18

BOLSONARO FAZ ASSÉDIO VULGAR A REPÓRTER DURANTE ENTREVISTA

Talis Andrade

 

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Jair Bolsonaro assediou com vulgaridade a jornalista Danúbia de Souza, da RIC-Record em Blumenau, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, durante uma entrevista.

 

A entrevista aconteceu em Blumenau em 2015, e ao ser questionado sobre a odiosa declaração de que preferia que seu filho morresse em um acidente a ter um filho gay, Bolsonaro respondeu: “São aqueles momentos que você extrapola, explode. Eu tenho certeza que nenhum filho meu jamais será gay porque eu os educo muito bem”. E avançou? “Você é solteira?”.

 

Constrangida, a repórter fez sinal com a cabeça que sim, e ainda teve de ouvir um assédio do deputado que ela considerou repulsivo. “Vou te apresentar meu filho depois, OK? Você vai conhecer meu filho. É da família Bolsonaro. Esse não nega fogo não!”, completou.

 

O vídeo foi apresentado na noite desta quarta-feira (24/10), na Semana do Curso de Jornalismo da UFSC, num debate sobre Mulheres no Jornalismo (“Jornalistas, sim, mulheres também!”), com quatro profissionais da área, e causou profunda indignação na plateia de alunos.

 

Danúbia, que é muito querida e popular na cidade, contou ainda que ao encerrar a entrevista e desligar as câmeras, o líder fascista ainda ofereceu o número do celular e disse que passaria a noite em Blumenau. Veja o vídeo aqui 

 

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26
Out18

Bolsonaro ameaça jornalista: ‘Tinha que ter apanhado mais pra aprender a ficar calada’

Talis Andrade

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O Supremo Tribunal Federal (STF) tenta há 23 dias intimar o deputado federal reeleito Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidenciável Jair Bolsonaro, do mesmo partido. Um oficial de Justiça tem ido diariamente ao gabinete do parlamentar em Brasília, mas não consegue localizá-lo. A informação é da Coluna do Estadão.

 

Em abril, a Procuradoria-Geral da República denunciou o congressista por ameaçar uma jornalista com quem teria tido um relacionamento. Ele enviou várias mensagens pelo Telegram à moça dizendo que ela “se arrependeria de ter nascido” e ele iria “acabar com a vida dela”. O relator no STF é Roberto Barroso.

 

Naquele mês, em que a PGR denunciou o deputado, ele divulgou vídeo de 8 minutos desqualificando a jornalista, acusou-a de ser mitomaníaca e de inventar histórias envolvendo outras pessoas.

 

De acordo com o STF, a chefe de gabinete de Eduardo Bolsonaro afirmou que ele atenderia o oficial de justiça após 22 de outubro, o que não aconteceu. Ele foi reeleito com a maior votação de um deputado federal na história, mas entrou no foco ao dizer que “basta um soldado e um cabo para fechar o STF”.

 

Na denúncia aberta contra o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL), nesta sexta-feira, 13, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, detalha a acusação da jornalista Patrícia de Oliveira Souza Lélis de que ele disse, através do aplicativo Telegram que iria acabar com a vida dela e que ela iria se arrepender de ter nascido.

 

BOLSONARO: “Sua otária! Quem você pensa que é? Tá se achando demais. Se você falar mais alguma coisa eu acabo com sua vida”
PATRICIA: “Isso é uma ameaça???”


BOLSONARO: “Entenda como quiser. Depois reclama que apanhou. Você merece mesmo. Abusada. Tinha que ter apanhado mais pra aprender a ficar calada. Mais uma palavra e eu acabo com você. Acabo mais ainda com a sua vida”
PATRICIA: “Eu estou gravando”


BOLSONARO: “Foda-se. Ninguém vai acreditar em você. Nunca acreditaram. Somos fortes

 

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01
Out18

Au Brésil, les femmes dans la rue pour dire « jamais » au candidat d’extrême droite

Talis Andrade

En tête des intentions de vote du premier tour de la présidentielle, le candidat de 63 ans a multiplié les saillies misogynes, homophobes et racistes.

LE MONDE |Par Claire Gatinois (Sao Paulo, correspondante)

 
Le rassemblement contre Jair Bolsonaro, à Sao Paulo, le 29 septembre.

Les unes sont employées domestiques, de gauche et adoratrices du Parti des travailleurs (PT) et de son leader emprisonné, Luiz Inacio Lula da Silva. Les autres bourgeoises, architectes ou avocates, votent au centre droit.

Au-delà de divergences d’opinions politiques, de classes sociales, d’âge, de modes de vie et de couleur de peau, des dizaines, voire des centaines de milliers de femmes se sont rassemblées, samedi 29 septembre, à Sao Paulo, Rio de Janeiro, Brasilia, Belo Horizonte, Recife, Salvador et Porto Alegre, ainsi que dans une soixantaine de villes au Brésil pour dire #EleNao (Pas lui). Un hashtag lancé sur les réseaux sociaux par le mouvement Mulheres Unidas contro Jair Bolsonaro (les femmes unies contre Bolsonaro), opposé au candidat d’extrême droite ; ce dernier est en tête des sondages pour l’élection présidentielle avec 27 % à 28 % d’intentions de votes.


Voir l'image sur Twitter
gatinois@gatinois4
 
 

Les femmes de tout âge, de toute couleur de peau contre Bolsonaro à Sao Paulo. #EleNao #Brasil #Elections2018

 

Réputé pour sa misogynie, son homophobie et ses éloges répétés de la dictature militaire (1964-1985), le militaire quittait le même jour l’hôpital Einstein de Sao Paulo où il avait été accueilli dans un état grave suite à une attaque au couteau, le 6 septembre, lors d’un meeting de campagne. « Enfin à la maison, près de ma famille. Il n’y a pas de meilleure sensation ! Merci à tous pour les marques d’affection que j’ai pu recevoir lors de mon retour et partout au Brésil ! Je vous embrasse ! », a écrit sur Twitter le candidat, visiblement insensible à ces marques d’hostilité et aux cris « EleNao » proférés dans le vol le ramenant à Rio de Janeiro où il possède une résidence.

A Sao Paulo, où Bolsonaro est très apprécié, des femmes habillées de mauve ou de tee-shirt #EleNao ou #EleNunca, mais aussi des hommes se sont rassemblés sur la place do largo da Batata. Parmi la foule, Zenilda da Silvera, 51 ans, employée domestique. « Je suis venue pour lui montrer qu’on est plus forte. Que toutes ces minorités qu’il déteste ne se laisseront pas faire ! Toute ma vie j’ai lutté. Nous les domestiques nous avons obtenu des droits grâce à Lula et au PT, on ne va pas laisser un homme nous ramener dix ans en arrière », explique-t-elle.

Le rassemblement contre le candidat à la présidentielle, Jair Bolsonarosous, s’est fait sous le hashtag #EleNao (Pas Lui), à Sao Paulo, le 29 septembre.

 Au Brésil, le naufrage d’une nation

En 2015, sous le gouvernement PT de Dilma Rousseff, a été promulguée la loi obligeant à déclarer les employés domestiques afin de leur permettre, notamment, d’avoir droit à une retraite. Un texte que Jair Bolsonaro, alors député, avait rejeté. Selon lui, cette loi contribue à augmenter le chômage. « Plus de droits, ce sont moins d’emplois », a-t-il coutume d’expliquer.

Le coup d’Etat militaire, une « révolution »

Maria Domitila, architecte de 28 ans, elle, a été ulcérée par les propos du candidat sur la dictature militaire. Le membre du Parti social libéral (PSL) qui qualifie le coup d’Etat de 1964 de « révolution » avait affirmé il a quelques années que la grande erreur de la junte fut « de torturer et non de tuer ».

En 2016, lors du vote de l’« impeachment » (destitution) de Dilma Rousseff, le député avait aussi donné sa voix « au nom du colonel Ustra », l’un des tortionnaires du régime. « Mon père a été prisonnier politique ! », signale Maria Domitila, les yeux embués.

A priori apolitique, la mobilisation comptait pourtant de nombreuses banderoles appelant ici à voter Fernando Haddad, le candidat du PT, remplaçant de l’ex-président Lula, empêché de se représenter du fait de sa condamnation pour corruption, ou là pour Ciro Gomes, le candidat du Parti démocratique travailliste (PDT), de centre gauche. Le nom de Marina Silva, seule femme candidate, représentante du Parti écologiste (Rede) et ancienne ministre de Lula, était aussi scandé par un petit groupe de manifestants quand d’autres vantaient les qualités de Guilherme Boulos, le candidat du Parti socialisme et liberté (Psol, gauche)

Mais samedi les opposants à Jair Bolsonaro n’étaient pas tous de gauche. Brandissant une pancarte « les femmes en marche pour la démocratie, l’égalité et la liberté, Bolsonaro, non », Estela Duca, 59 ans, avocate, précise n’être « ni d’extrême droite, ni d’extrême gauche ». La quinquagénaire élégante a prévu de voter pour Geraldo Alckmin le candidat de centre droit du Parti de la social-démocratie brésilienne (PSDB).

Et elle honnit, autant que les autres manifestantes, Jair Bolsonaro. « Mon fils, je l’ai élevé seule et ce n’est pas un délinquant ! », lâche-t-elle. Une référence aux propos du général Hamilton Mourao, son candidat à la vice-présidence qui a déclaré, il y a quelques jours, que les enfants élevés sans père par des mères et des grands-mères avaient toutes les chances de devenir des « éléments déséquilibrés », prompts à faire grossir les rangs des narcotrafiquants.

Le rassemblement contre Jair Bolsonaro, à Sao Paulo, le 29 septembre.

« Vous ne méritez pas d’être violée »

« Bolsonaro est le genre de personnage classique de ces pays qui ont vécu leur propre version du Far West : un homme blanc qui se sent supérieur parce qu’il est blanc et hétérosexuel », écrit la journaliste et écrivaine Eliane Brum, dans un article publié sur le site El Pais au Brésil titré « Les femmes contre l’oppression ».

Certaines apprécient le personnage, défenseur auto revendiqué de la « famille »et des « valeurs ». Un homme qui cite Dieu à chacune de ses interventions. Et aux manifestations #EleNao ont répondu des mobilisations « Mulheres com Bolsonaro » (les femmes avec Bolsonaro) ou « EleSim » (lui, oui).

 Au Brésil, la haine de Lula dope l’extrême droite

Mais beaucoup de femmes ont du mal à accepter le discours phallocrate du candidat. Jair Bolsonaro trouve normal qu’une femme soit moins bien payée qu’un homme du fait de ses congés maternité. Nombre de Brésiliennes s’étranglent aussi de la vulgarité du militaire qui, en 2014, avait lancé à l’encontre de sa consœur députée Maria do Rosario (PT) : « vous ne méritez pas d’être violée. Vous êtes trop laide. » Et d’ajouter, en la voyant choquée : « pleure, allez pleure. »

Une participante avec le hashtag « #NotHim »(PasLui) lors du rassemblement à Sao Paulo contre Jair Bolsonaro, le 29 septembre.

Donné perdant au second tour

Samedi, la goujaterie de Jair Bolsonaro n’était pourtant pas, et de loin, le seul grief mentionné par la foule. Aux pancartes « Non aux armes » en référence à la volonté du candidat de libérer le port d’armes, s’ajoutaient une multitude de messages contre « le fascisme », et en faveur de la démocratie et des droits LGBT.

« Je suis venu pour défendre ma propre survie ! », explique ainsi Gustavo Reis, 22 ans, étudiant en physique chimie. En tant que Noir et homosexuel, le grand gaillard se sent la cible privilégiée du candidat d’extrême droite. Lors d’un entretien à la revue PlayBoy en 2011, le militaire aurait affirmé qu’il préférerait que « son fils meure dans un accident de voiture, plutôt que de le voir avec un moustachu. Pour moi il serait mort. »

 Lire aussi :   Au Brésil, la logique du « sang pour sang »

Arborant un tee-shirt mauve où est inscrit « je soutiens les femmes », Oswald Dias, 76 ans, accompagné de son épouse, est, lui, venu par « civisme ». Le vieil homme a connu la dictature et s’affole du comportement du capitaine de l’armée. « Le risque est grand de replonger », soupire-t-il. A l’instar de beaucoup d’électeurs, Oswald reste abasourdi par les propos du candidat du PSL, tenus le 28 septembre, lors d’un entretien pour la chaîne de télévision Band. « A ce que je vois dans la rue, je ne peux accepter un résultat qui n’atteste pas de mon élection », a affirmé, Jair Bolsonaro depuis sa chambre d’hôpital, visiblement incapable d’imaginer un échec.

En tête dans les sondages, Jair Bolsonaro est donné perdant en cas de second tour face à la plupart de ses adversaires. Notamment face à Fernando Haddad, (PT) qui le talonne dans les sondages (22 %). A en croire les analystes, la défaite du capitaine de réserve serait alors en grande partie liée à l’électorat féminin. Selon un sondage Ibope, publié le 26 septembre, 44 % des électeurs ne voteraient « en aucun cas » pour Jair Bolsonaro. Chez les femmes, le taux de rejet atteint 51 %.

27
Set18

Ex-mulher de Bolsonaro disse ao Itamaraty que ele a ameaçou de morte

Talis Andrade

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Uma denúncia retornou nesta terça-feira para constranger o deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ)O jornal Folha de S.Paulo revelou o conteúdo de um telegrama em que Ana Cristina Valle, ex-mulher do candidato à Presidência, diz ao Itamaraty que foi ameaçada de morte por Bolsonaro — à época, eles disputavam a guarda do filho Renan. Hoje apoiadora da campanha do ex-marido, Ana Cristina atribuía sua saída do Brasil com o filho a essa ameaça, segundo o telegrama.

Em um dos trechos do telegrama reproduzidos pelo jornal, o embaixador Carlos Henrique Cardim diz que “a senhora Ana Cristina Siqueira Valle disse ter deixado o Brasil há dois anos [em 2009] ‘por ter sido ameaçada de morte’ pelo pai do menor [Bolsonaro]. Aduziu ela que tal acusação poderia motivar pedido de asilo político neste país [Noruega]”. Quem ouviu a denúncia de Ana Cristina foi o vice-cônsul na embaixada brasileira em Oslo, segundo o embaixador.

 

A reportagem da Folha traz declarações de Ana Cristina minimizando a questão. Atualmente, ela é candidata a deputada federal no Rio de Janeiro pelo Podemos sob o nome Cristina Bolsonaro. Ela visitou o capitão reformado do Exército no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde ele se recupera do atentado sofrido no último dia 6, e os apoiadores do candidato fizeram circular uma foto dos dois ao lado de sua atual mulher.

 

Em entrevista ao jornal Correio Braziliense, Ana Cristina negou ter sido ameaçada em 2011. "Nunca fui ameaçada de morte por ele. Eu não fui contatada pela embaixada na época. O governo da Noruega que ligou para o meu marido, que hoje mora comigo aqui no Brasil”, disse, destacando que mantém uma boa relação com Bolsonaro hoje. “Toda separação é meio difícil. Existem mágoas, um pouco de brigas, e na minha não foi diferente. Mas hoje em dia estamos muito bem", disse ao jornal brasiliense.

Rubens Valente
 
@rubensvalente
 
 

Trecho do telegrama da Embaixada do Brasil na Noruega que informa que a ex-mulher de Bolsonaro relatou ter sido ameaçada de morte por volta de 2009:

Questionado sobre os conteúdos da reportagem da Folha de S.Paulo e do telegrama, o Itamaraty informou por meio de nota que “Em razão do direito constitucional à privacidade, reafirmado na Lei de Acesso à Informação, o Ministério das Relações Exteriores não se pronuncia sobre questões específicas envolvendo brasileiros no exterior”.

#EleNão e campanha de Alckmin

Ainda que possa ser amortecida pelo entendimento atual entre Bolsonaro e sua ex-mulher, a revelação  não contribui para melhorar a imagem do candidato do PSL, muito rejeitado pelo eleitorado feminino. A última pesquisa Ibope mostra rejeição de 54% das mulheres, enquanto 37% dos homens responderam que não votariam de jeito nenhum no candidato do PSL. A campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) em especial destacou nesta corrida eleitoral os ataques de Bolsonaro a mulheres, como a deputada Maria do Rosário (PT-RS), que ele chamou de “vagabunda” em 2003. Ele também disse que a petista não "merecia" ser estuprada "por ser feia" e é réu no Supremo Tribunal Federal por incitação ao estupro.

 

A reportagem da Folha também aparece dias antes da mobilização de mulheres contra Bolsonaro convocada para o sábado 29 em várias cidades do país. Nesta terça, a campanha de Alckmin na TV exibiu a vice na chapa, senadora Ana Amélia(PP), para fazer novas críticas a Bolsonaro. O programa divulgou ainda a hashtag do movimento: #elenão.

27
Set18

Brasileiros que conviveram com ex-esposa de Bolsonaro na Noruega confirmam que ela relatava ameaça

Talis Andrade

Registro diplomático informa que ela afirmou ao vice-cônsul naquele país que havia sido ameaçada de morte pelo ex-marido e que por isso havia fugido do Brasil

 

Costumava repetir que a "minha cabeça vale R$ 50 mil" 

 

 

Folhapress - Cinco brasileiros que vivem na Noruega e conviveram com Ana Cristina Valle, ex-mulher de Jair Bolsonaro (PSL), confirmaram à reportagem o relato que consta em documento oficial do Itamaraty, redigido em 2011. O registro diplomático informa que ela afirmou ao vice-cônsul naquele país que havia sido ameaçada de morte pelo ex-marido e que por isso havia fugido do Brasil.

 

O caso foi revelado pela Folha de S. Paulo, nesta terça (25). Logo após a publicação da reportagem, Ana Cristina divulgou vídeo nas redes sociais no qual negava ter falado sobre o assunto com a embaixada brasileira, rechaçava ter sido alvo de qualquer ameaça e defendia Jair Bolsonaro, atacando a imprensa.

 

Dos cinco brasileiros que aceitaram falar com a reportagem, quatro disseram que só o fariam sob anonimato, com medo de represália. Uma decidiu se identificar. Simone Afonso ainda reside na Noruega e conta que conheceu Ana Cristina em 2009, quando ela deixou o Brasil. "Ela tentou asilo político aqui, o que foi negado pelo departamento de imigração local. Dizia que estava sendo ameaçada pelo ex-marido, o Jair Bolsonaro, que ele havia tirado a guarda do filho dela", contou.

 

"Todo mundo aqui em Oslo sabe que o discurso dela era: estou aqui por medo do meu ex-marido", continuou. "E se você quiser, a gente pode fazer uma lista de pessoas daqui que sabem dessa história."

 

As outras quatro testemunhas relatam o caso da mesma forma. Segundo elas, Ana Valle, como ela é conhecida por lá, chegou à Noruega muito fragilizada e se aproximou de um grupo de brasileiros.

 

Segundo os relatos dos brasileiros, ela costumava repetir que a "minha cabeça vale R$ 50 mil". Como não tinha fluência na língua local e falava com dificuldade o inglês, Ana dependia das pessoas que acabara de conhecer.

 

Simone Afonso contou que Ana chegou a morar na casa de um brasileiro em Oslo. Fernando Xavier, disse ela, teria alugado um quarto para a ex-mulher de Bolsonaro até que ela pudesse se estabelecer no país.

 

Em suas redes sociais, Xavier compartilhou a reportagem da Folha de S. Paulo desta terça (25). "Olha as verdades surgindo do teatro de vampiros!!!! (sic) Chegou ameaçada e ficou anos sem ver o filho!!!", escreveu. "Eu sou testemunha e muitas outras pessoas da sociedade de Oslo!!!"

 

Uma das pessoas ouvidas pela reportagem disse que, em maio deste ano, Ana Cristina esteve no país afirmando que iria disputar uma vaga de deputada federal pelo Podemos.

 

Quando ainda morava no exterior, a ex-mulher de Bolsonaro contou aos brasileiros detalhes da disputa judicial que travou com o ex-marido pela guarda do filho do casal, Renan.

 

Uma das pessoas com as quais a reportagem conversou disse ter enviado para Ana Cristina, no Brasil, a certidão de nascimento com a qual ela conseguiu tirar o filho do país sem a autorização de Bolsonaro -foi isso o que levou o deputado a mobilizar o Itamaraty.

 

A ex-mulher do presidenciável usou um documento antigo, anterior ao reconhecimento da paternidade. Nele, apenas seu nome constava como responsável pelo menino. Essa mesma pessoa diz que presenciou a ligação do vice-cônsul que consta no telegrama reservado arquivado no Itamaraty.

 

Reações


O vídeo em que Ana Cristina Valle nega a ameaça de morte relatada ao Itamaraty e revelada pela Folha de S. Paulo está sendo compartilhado entre os brasileiros que conviveram com ela na Noruega. De acordo com os relatos, ninguém entende o apoio repentino ao ex-marido, de quem ela dizia que tinha medo.

 

Muitos deles foram até as redes sociais dela para questioná-la. Dizem que quem conviveu com ela sabe do que chamam de história verdadeira. "Por que, de repente, ela está apoiando a candidatura?", pergunta Simone Afonso. "Ninguém que é ameaçado de morte quer depois carregar o sobrenome dessa pessoa."

 

Ana Cristina foi procurada para comentar os relatos, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem. No vídeo publicado na terça para rebater a reportagem, ela disse que estava indignada. "Venho aqui muito indignada desmentir a suja Folha de S.Paulo, que publica que o Jair me ameaçou de morte. Nunca."

 

ana cristina bolsonaro.jpg

 

 

"Pai do meu filho, meu ex-marido. Ele é muito querido, por mim e por todos. Ele não tem essa índole", ela disse. "Espero que vocês acreditem que essa mídia suja só quer denegrir a imagem dele, porque ele está em primeiro lugar nas pesquisas e assim vai ficar."

 

 

 

 

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