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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

30
Dez23

Pausas de calcificação

Talis Andrade
 
por Gustavo Krause
 

Não adianta resistir ao lugar comum: a semana de transição anual se impõe com a sensação de que o relógio/calendário para. De fato, “A vida necessita de pausas”, título do poema de Drummond, poeta apaixonado, para quem a pausa era “Dítono da vertente ...de toda minha loucura de amar/ Cada vez se torna mais difícil o pausar...na vida acelerada de minha saudade”.

Para nós, pessoas comuns, pausa é uma parada nas tarefas da sociedade do cansaço; um “fazer nada” ou um “ócio criativo” à Domenico de Masi; um intervalo para reflexão interior e, serenamente, encarar as dobras do tempo.

Desta forma, pouparei o leitor de uma espécie de contabilidade existencial que agrupa exaustivamente os fatos ocorridos em colunas de créditos e débitos; de valores e desvalores. A partir de uma escolha arbitrária e, confessadamente, limitada, me ocuparei de três registros.

O Primeiro trata do assustador 08/1 marcado, para sempre, pela violenta afronta à democracia com palavras envenenadas e gestos de efetiva agressão à Lei, às Instituições e aos símbolos nacionais. Prevaleceu a ordem democrática.

No entanto, a explosão do ódio não foi o começo e não será o fim das ameaças à democracia no Brasil e no mundo.

Seguem expostos “fios desencapados” às faíscas da intolerância, ao ambiente da antipolítica onde predomina a expansão dos extremos, alimentados pelo fenômeno persistente e crescente da polarização.

A rigor, a polarização não é intrinsecamente má desde que se manifeste no espectro do pluralismo o que move a sociedade democrática, respeitadas as divergências na busca da construção de consensos sociais.

E quando a polarização soa as trombetas do conflito e propõe o extermínio do outro divergente? Aí transmite a grave patologia da “calcificação” do tecido social, estrangulando o centro político e colocando em risco a estabilidade democrática.

Deve-se esta expressão – calcificação – aos autores do livro Biografia do Abismo: Como a polarização divide famílias, desafia empresas e compromete o Brasil (dezembro/2023), de autoria do cientista político Felipe Nunes e o jornalista Thomas Traumann.

A obra nasce histórica, não somente pela consistência do diagnóstico, fundamentado em dados de pesquisas, mas também, porque, propõe o remédio para “doença da democracia, mais democracia” numa sociedade de cidadãos. Devo acrescentar outro atributo de todo bom livro: inquieta o leitor, logo não é aconselhável para quem pretende desfrutar a leveza da pausa.

O segundo registro refere-se ao paroxismo da estupidez humana: a guerra no Oriente Médio e a continuidade de idêntico filme de terror que é a guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Em fevereiro completa dois anos.

No limite da minha ignorância diante da tragédia, faço apenas um comentário para revalorizar a democracia. Democracia e Paz caminham juntas e são valores convergentes. A História ensina: em todos os confrontos bélicos, uma das partes, ou as duas eram e são governadas por autocratas, ditadores, tiranos. Jamais ocorreu guerra entre estados democráticos. A Paz é o espaço da democracia.

Como terceiro registro, a realização da COP28 merece uma atenção especial.

No berço da civilização dos combustíveis fósseis, os Emirados Árabes, duas centenas de países concordaram, passados trinta e um anos da Eco-92 e oito do Acordo de Paris com o começo do fim da era do Petróleo.

A ministra Marina Silva fez um comentário certeiro e realista: “O mundo resolveu ouvir a ciência. Só que uma coisa é estabelecer este tipo de consenso e outra coisa é a gente viabilizar o consenso. O balanço geral da COP28 é que ainda estamos insuficientes”.

Na mesma linha, Al Gore, ex-vice-presidente do EUA menciona que o reconhecimento da crise climática “como uma crise dos combustíveis fósseis é um marco importante”.

Convém ressaltar que a humanidade se defronta com um desafio bem maior do que operar a complexa transição energética que é mudar radicalmente um padrão civilizatório com todas as implicações que uma transformação desta ordem envolve.

Nada menos do que 2.456 lobistas defendiam os interesses econômicos dos produtores de petróleo que evitaram, na declaração final da COP, expressão equivalente a eliminação gradual (phase out, em inglês), substituída pelo compromisso de fazer “uma transição dos combustíveis fósseis nos sistemas energéticos, de forma justa, ordenada e equitativa, de modo a atingir emissões líquidas zero até 2050, de acordo com a ciência”.

Com razão, dirão os críticos dos acordos internacionais que há uma distância nem sempre percorrida entre falar, escrever e fazer, especialmente no cumprimento de obrigações financeiras. O remédio é manter a mobilização o trabalho contínuo e articulado com a COP29 no Azerbaijão e a COP30 no Pará.

Para o Brasil, soluções econômicas baseadas na natureza são uma oportunidade estratégica para o nosso protagonismo ambiental e desenvolvimento sustentável como nação benfeitora e beneficiária do patrimônio natural.

PS. Ao leitor(a), desejo, agora e sempre, Saúde e Paz. Pausa: até o primeiro domingo de fevereiro.

13
Jul23

Quem são os 'lunaristas', eleitores de Bolsonaro que agora aprovam Lula

Talis Andrade

 

Lula abraçado a boneco Zé Gotinha

Pesquisa mostra que 8% dos entrevistados que alegaram terem votado em Bolsonaro aprovam governo Lula

 

  • por Leandro Prazeres e Felipe Souza
  • BBC News
 

Seis meses após o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), institutos de pesquisa de opinião pública passaram a detectar um fenômeno inesperado.

Em meio a um cenário político ainda polarizado, uma parcela de eleitores que afirmam ter votado em Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições de 2022 veem com bons olhos o governo de Lula, principal adversário político do ex-presidente.

Os achados vão, aparentemente, na contramão do que as pesquisas de intenção de voto apontavam na reta final da acirrada campanha eleitoral do ano passado, quando o percentual de eleitores de Lula e Bolsonaro oscilou pouco.

Isso indicava preferência e rejeições fortes dos grupos em relação a Lula e Bolsonaro. Quem apoiava Lula rejeitava Bolsonaro e vice-versa.

E dados exclusivos obtidos pela BBC News Brasil ajudam a entender quem são estes "lunaristas" — os bolsonaristas que agora aprovam Lula.

 

O que dizem as pesquisas?

 

Pesquisa de avaliação de governo conduzida pelo Ipec mostrou que 37% de todos os entrevistados aprovam o governo Lula classificando-o como ótimo ou bom.

Outros 28% dos entrevistados desaprovam o governo, classificando-o como ruim ou péssimo. Do restante, 32% avaliam o governo como regular e 3% não souberam ou não responderam.

Foram ouvidas 2 mil pessoas entre 1º e 5 de junho em 127 municípios e a pesquisa tem uma margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

O detalhamento desses dados feito pelo instituto deu um passo além e mostrou que eleitores de Bolsonaro passaram a aprovar o governo Lula.

O Ipec perguntou aos entrevistados em quem eles votaram no segundo turno das eleições.

A pesquisa mostra que 8% dos entrevistados que afirmaram terem votado em Bolsonaro aprovam o governo do seu principal adversário político ao classificarem-no como ótimo ou bom.

Considerando a margem de erro, esse valor pode estar entre 6% e 10%.

A pesquisa também perguntou se os entrevistados aprovavam a forma como Lula vem administrando o país.

Nesse item, 19% dos que dizem ter votado em Bolsonaro no segundo turno disseram que aprovam a forma como o petista está conduzindo o governo.

 

Quem são os 'lunaristas'?

 

Dados dessa pesquisa obtidos pela BBC News Brasil revelam quem são os eleitores de Bolsonaro que classificam o governo Lula como ótimo ou bom.

O perfil majoritário dos "lunaristas" é o seguinte:

  • Mulheres (55%);
  • Têm entre 25 e 34 anos (29%) e 45 e 59 anos (30%);
  • Pretos ou pardos (52%);
  • Católicos (53%);
  • Estudaram até o ensino médio (42%);
  • Estão no Sudeste (32%);
  • E vivem em cidades do interior (65%).

Por serem um recorte dos dados totais, a análise do universo dos "lunaristas" têm uma margem de erro maior do que a margem do levantamento completo (2% no total, para mais ou para menos, e 8% entre os eleitores de Bolsonaro que aprovam Lula, por exemplo).

Isso ocorre porque a margem de erro é calculada considerando a quantidade de entrevistas feitas para o levantamento e do número de pessoas que se encaixam neste perfil específico, que é substancialmente menor do que o total da amostra.

"Conforme a gente vai recortando a pesquisa para analisar segmentos, a margem de erro vai aumentando porque tem menos pessoas no conjunto de análise", explica Márcia Cavallari, do Ipec.

Mesmo considerando que o perfil dos "lunaristas" seja mais um indicativo de quem são estes eleitores do que uma fatia populacional precisa, o detalhamento do Ipec do grupo é em grande parte semelhante ao perfil geral da amostra de entrevistados da pesquisa — os institutos selecionam o perfil dos entrevistados de modo a refletir o melhor possível a estratificação da população do país.

Na pesquisa do Ipec, as mulheres são 52% dos entrevistados, e 41% têm ensino médio. São taxas bem semelhantes às dos eleitores de Bolsonaro que agora apoiam Lula, de 55% e 42% respectivamente.

Mas os "lunaristas" destoam da amostra total em dois aspectos: em relação a onde vivem — 32% estão no Sudeste, enquanto 43% dos entrevistados vivem na região — e às duas faixas etárias identificadas — 22% e 25% dos entrevistados da pesquisa têm entre 25 e 34 anos e 45 e 59 anos respectivamente, versus 29% e 30% entre os "lunaristas".

A Quaest, que divulgou uma pesquisa de avaliação de governo em junho, também detectou a aprovação do governo Lula por parte do eleitorado bolsonarista.

O levantamento apontou que 22% dos entrevistados que afirmam ter votado em Bolsonaro no segundo turno aprovam o governo Lula.

A pesquisa foi feita com 2.029 pessoas entre 15 e 18 de junho em 120 municípios e tem uma margem de erro de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos.

 

Por que bolsonaristas aprovam Lula?

 

Para a presidente do Ipec, Márcia Cavallari, a aprovação de Lula entre eleitores de Bolsonaro afeta uma parte do eleitorado bolsonarista menos ideológica.

"A decisão do voto não é puramente ideológica. Então, à medida que o governo avança, mesmo quem não votou no Lula e votou no Bolsonaro vai fazendo uma avaliação do governo e pode ir mudando sua posição", disse Cavallari à BBC News Brasil.

A presidente do Ipec atribui essa aprovação de Lula entre eleitores de Bolsonaro à sensação de melhora na economia.

"Isso acontece por conta de uma percepção de que diminuiu a inflação e o custo de vida. Há uma percepção de que os indicadores econômicos estão melhores, de que ele (Lula) estaria cumprindo o que falou na campanha e de que ele está tomando ações de combate à fome e à pobreza", afirma Cavallari.

"O eleitor está dizendo: 'Eu não votei nele, mas estou vendo o que está acontecendo'. O eleitor vai se reposicionando."

O diretor da Quaest, Felipe Nunes, também avalia que a percepção de melhora no cenário político pode ter influenciado parte do eleitor que votou em Bolsonaro e que, agora, aprova a gestão de Lula.

Ele explica que o eleitorado de Bolsonaro é composto por uma base ideológica e outra pragmática.

A ideológica apoia o ex-presidente com base nas ideias defendidas por ele —Bolsonaro ficou conhecido por se posicionar contra a expansão de direitos femininos e LGBTQIA+ e a descriminalização das drogas e por se associar fortemente a segmentos considerados mais conservadores da sociedade como o eleitorado evangélico, aponta Nunes.

Ele diz, no entanto, que o eleitorado "pragmático" de Bolsonaro é aquele que percebeu uma melhora no ambiente econômico no final do ano passado, quando o governo criou benefícios sociais às vésperas do período eleitoral.

Segundo Nunes, é essa parcela do eleitorado bolsonarista que aprova agora o governo Lula.

"Esse eleitorado que vota não pela ideologia, mas por pragmatismo, é o que está se movendo neste momento. Ele é minoritário, mas existe", diz Nunes à BBC News Brasil.

Nunes cita como exemplos desse pragmatismo as respostas dos entrevistados que disseram ter votado em Bolsonaro a perguntas sobre a economia do país.

"No caso dos alimentos, metade da população diz que o preço parou de subir, o que é muito importante. Em relação aos combustíveis, parte desse eleitorado afirma que o preço caiu", afirma Nunes.

"Quando você junta a queda no preço dos combustíveis de um lado e a percepção de que os alimentos pararam de subir, de outro, você tem um efeito econômico observado diretamente."

O IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15), conhecido como uma prévia da inflação oficial, desacelerou em junho pelo quarto mês seguido, para 0,04%, segundo divulgou o IBGE. Foi a menor variação mensal desde setembro de 2022, quando houve deflação de 0,37%.

Esther Solano, professora de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo (USP), diz que essa compreensão de que o eleitorado bolsonarista não é homogêneo é chave para entender o surgimento dos "lunaristas".

“Nós temos, de um lado, o eleitorado mais ideológico, mais radicalizado, e fiel ao presidente. Depois, nós também temos um eleitorado mais moderado que votou de fato no Bolsonaro, mas que não adotou um discurso antipetista tão raivoso, tão violento e agressivo", diz Solano.

"Nesse eleitorado mais moderado, uma boa parte já votou no Lula em gestões passadas e tem uma lembrança positiva desses governos”.

Para a professora da USP, esta não é uma base cativa do ex-presidente.

Questionada se esse apoio pode se refletir nas eleições municipais de 2024, Esther Solano segue a mesma linha de Márcia Cavallari e Felipe Nunes ao afirmar que o PT deve se fortalecer, mas que a corrente bolsonarista também deve continuar forte.

“O campo petista entra com mais força por estar no poder, e a centro-direita tradicional continua com um grande problema porque não está se reestruturando e se reinventando", afirma Solano.

"Mesmo agora com a inelegibilidade de Bolsonaro, o ecossistema bolsonarista é muito importante. Digitalmente, eles ainda são protagonistas. Ele ainda tem uma força simbólica muito grande.” Leia mais 

 

Mauro Cid em silêncio: 4 perguntas que CPI deve fazer 

Leia reportagem de Vinícius Lemos in BBC News

20
Jun22

Mortes de Bruno e Dom repercutem no mundo

Talis Andrade

Image

 
 


Confirmados os bárbaros assassinatos do ambientalista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, o Brasil volta a ser destaque negativo na mídia internacional. O “capetão” Jair Bolsonaro, que já era tratado como um pária planetário, agora é visto como o responsável indireto pelas mortes na Amazônia. A imprensa mundial não vacila em responsabilizar o governo brasileiro pelo aumento da violência na região – ao contrário de parte da mídia nativa, sempre tão dócil com o fascista. 

Nesta sexta-feira (17), a tragédia teve novamente ampla cobertura, como reportagens e artigos analíticos, em inúmeros veículos – como o Financial Times, New York Time, El País e Clarín –, além das agências de notícias, como a Reuters. O prestigiado diário inglês The Guardian homenageou o seu colaborador, com foto de primeira página para Dom Phillips e um editorial incisivo cobrando do governo brasileiro uma explicação para a comunidade internacional sobre as mortes. 

Editorial do The Guardian

“No entanto, o presidente Jair Bolsonaro, ao dizer que algo ‘perverso’ aconteceu, também culpou insensivelmente os dois homens. Em contraste, os brasileiros demonstraram imensa simpatia por eles e suas famílias, entendendo que seu trabalho beneficiava os indígenas, os brasileiros como um todo e o mundo em geral. Simplesmente não era do interesse de um Estado capturado por interesses extrativistas e que despreza o Estado de Direito, criando uma cultura de impunidade para aqueles que exploram a floresta amazônica e tornando seus protetores muito mais vulneráveis”. 

Já o jornal estadunidense New York Times alertou que “os desaparecimentos são um capítulo particularmente sombrio na recente história sangrenta da Amazônia. O Sr. Phillips dedicou grande parte de sua carreira a contar histórias do conflito que devastou a floresta tropical, enquanto o Sr. Pereira passou anos tentando proteger as tribos indígenas e o meio ambiente em meio a esse conflito... Agora parece que o trabalho se tornou mortal para eles, sinalizando até onde as pessoas irão explorar ilegalmente a floresta tropical”. 

O Washington Post replicou despacho da Associated Press confirmando os bárbaros assassinatos. “Autoridades brasileiras dizem que pescador confessou ter matado um jornalista britânico e um especialista indígena na remota região amazônica do Brasil e levou a polícia a um local onde restos humanos foram recuperados”. E a agência Reuters listou as reverências aos mortos. “Grupos indígenas, ambientalistas, repórteres e familiares e amigos prestaram homenagem ao jornalista britânico Dom Phillips e ao especialista em tribos isoladas brasileiras Bruno Pereira”. 

Milhões de menções na internet

Além da repercussão na mídia tradicional, a tragédia também ocupou a internet nos últimos dias. Segundo levantamento da consultoria Quaest, o tema foi um dos principais destaques nas redes sociais. Felipe Nunes, diretor da empresa, tuitou que “o assassinato de Dom Phillips e Bruno Pereira não é um assunto apenas nacional. Desde o dia 5/6 já são mais de 18 milhões de menções nas redes em mais de 100 países. No Brasil, o assunto movimentou mais de 7 milhões de menções, nos EUA foram 1M e na Inglaterra quase 500k”. 

Com essa amplíssima repercussão, a imagem do Brasil fica ainda mais desgastada no mundo. Como aponta Jamil Chade, correspondente da Folha, diplomatas temem um “abalo sem precedentes” da reputação externa do país e preveem que acordos comerciais e de investimentos podem até ser congelados. “Para experientes diplomatas ouvidos pela coluna, a confirmação das mortes de Bruno Pereira e de Dom Phillips aprofunda um mal-estar e pode ‘sepultar’ qualquer tentativa de inserção do governo de Jair Bolsonaro no exterior”. 

Desgaste da imagem e impactos comerciais

“Dentro do Itamaraty, a ordem nos últimos dias foi a de passar a informação para agências internacionais e governos estrangeiros de que o Planalto estava comprometido na busca pelos dois homens. Mas, sem credibilidade por anos de um discurso negacionista, a palavra do Brasil está sendo recebida com desdém e desconfiança. Segundo ex-embaixadores, o caso pode ter impacto maior que o de Chico Mendes ou de Dorothy Stang... Hoje, dizem eles, a Amazônia está no centro do debate internacional e nunca, no período de democracia, o governo brasileiro foi tão criticado no exterior como agora”. 

“O caso também pode ter impactos econômicos e comerciais. No último ano, o maior fundo soberano do mundo – na Noruega – reduziu investimentos no Brasil sob a alegação de que o país vivia uma crise tanto no que se refere aos direitos humanos como em questões ambientais. Cenários feitos por diplomatas apontam que essa tendência, agora, pode aumentar. Não há confiança na palavra do Brasil de que age para defender a Amazônia, indígenas ou ativistas. Acordos comerciais já com sérias dificuldades para serem aprovados agora seriam congelados”.

Mortes de Bruno e Dom repercutem no mundo

 
 
17
Jun22

O fedor de Bolsonaro espalha-se pelo mundo

Talis Andrade

Putrefato - Renato Aroeira - Brasil 247

 

por Fernando Brito

- - -

O ódio e a maldade que dominam a mente de Jair Bolsonaro provocam nele um déficit de percepção típico de governantes autoritários: sua deformação mental é tanto que sequer é capaz de lidar com a ideia de redução de danos políticos.

Nesta tragédia humana do assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, ele repete o comportamento que teve na pandemia da Covid.

Em uma e em outra, não foi ele quem causou, diretamente, os fatos. Nem trouxe o vírus para o Brasil, nem ordenou a um bando de ilegais que executassem, com requintes sádicos, a dupla, mas seu ódio às pessoas é tão grande que toma os fatos negativos como algo que deve ser desprezado e minimizado, inclusive nas reações administrativas do governo brasileiro.

Não há muita diferença na essência de suas manifestações, embora, é claro, as situações sejam muito diferentes.

Do “é só uma gripezinha” e o “não sou coveiro” para o “aventura muito perigosa”, “os dois sabiam dos riscos” ou o “esse inglês era muito malvisto”, de fato, revela-se a mesma incapacidade de ter empatia, perceber a comoção e o sofrimento e, sobretudo, de reconhecer que são necessárias ações de Estado, cuja iniciativa depende dele.

Bolsonaro trata os fatos como “inimigos” a serem combatidos, não como problemas a serem resolvidos. Apela a generalizações como o “todo mundo morre um dia”, no primeiro caso, e “60 mil pessoas desaparecem, porque só se preocupar com estes dois”.

Sua limitada cognição e seu ódio figadal não lhe permite sequer fingir que está dando importância ao caso. Ao contrário, faz questão de evidenciar isso, como na espera, por um dia inteiro, da fingir “sentimentos” às famílias .

Com a cumplicidade de maus militares, arrasta ao lodo a ideia de sobernaia que temos todos o dever de defender para o nosso país sobre a Amazônia, e que não pode ser entendida jamais como destruição, como observa a excelente Maria Cristina Fernandes, no Valor:

“É sabido que Bolsonaro seguiu à risca o brado miliar “selva!”, com o desmonte da Funai e do Ibama, a redução de multas ambientais, os decretos de liberação de posse e porte de armas e a paralisação da demarcação das terras indígenas. A reação à morte de Bruno e Dom, porém, fez mais. Fez pouco caso do conceito de soberania nacional que, um dia, guiou a instituição militar à qual o ex-capitão serviu”.

Felipe Nunes, diretor da Quaest Pesquisas, colocou no Twitter o mapa acima, com a distribuição, até ontem, das menções ao caso Bruno/Dom, com suas mais de 18 milhões de menções nas redes sociais do mundo inteiro, no qual a intensidade do azul representa a relevância que teve em cada país.

Deixo ao leitor e à leitora a difícil missão de imaginar quantas delas são positivas ou negativas.

Nunca antes na história deste país alguém causou tantos danos à imagem do Brasil e, com eles, prejuízos para a economia e para os cidadãos deste país.

O cérebro de Jair Bolsonaro é um esgoto de ideias e tudo o que vem dele emana uma podridão insuportável.Image

 

 

 

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