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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

04
Ago22

Com fome, menino liga para polícia e pede comida. Ouça o áudio

Talis Andrade

www.brasil247.com - Miguel (com microfone), Célia Arquimino Barros (mãe) e outra irmã deleMiguel (com microfone), Célia Arquimino Barros (mãe) e outra irmã dele (Foto: Reprodução (Globo))

 

Um menino chamado Miguel, de 11 anos, telefonou para a PM e pediu ajuda porque não tinha comida em casa, em Santa Luzia (MG). "Minha mãe só tem farinha e fubá pra comer", disse. A fome uma exlusividade da população civil. 116 milhões de brasileiros sofrem insuficiência alimentar. A fome um caso de polícia

 

Este o Brasil real de Bolsonaro, o Brasil da inflação, do desemprego. O Brasil dos sem terra, dos sem teto, dos sem nada. O Brasil exportador de alimentos no mapa da fome. O Brasil do menino chamado Miguel, de apenas 11 anos. Que telefonou para a Polícia Militar (PM), pelo 190, e pediu ajuda porque não tinha comida em casa, na noite desta terça (2), no município de Santa Luzia, Região Metropolitana de Belo Horizonte (MG). 

"Senhor policial, é por causa que aqui em casa não tem nada pra gente comer e eu tô com fome. Minha mãe só tem farinha e fubá pra comer", disse.

A mãe de Miguel, Célia Arquimino Barros, de 46 anos, vive com seis filhos no bairro São Cosme. "Eu vivo de auxílio emergencial, e o pai manda R$ 250, mas não é todo mês que manda", disse ela à TV Globo

Mais de 60 milhões de brasileiros enfrentaram algum tipo de insegurança alimentar de 2019 a 2021, segundo um relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) divulgado no mês passado.

O menino fez certo. A fome no Brasil é um caso de polícia. Dos gorilas comendo. Dos cavalões comendo. O Brasil do cartão corporativo do Bolsonaro sob sigilo de cem anos. O Brasil do orçamento paralelo de Ciro Nogueira. Do orçamento secreto de Arthur Lira. Da ministra da Agricultura que quis solucionar o problema da fome, oferecendo alimentos fora da validade. Do ministro da Economia recomendo aos que comem que ofereçam os restos de comida aos sem nada, aos pobres. Que 40% da população civil pena na pobreza, para o governo pagar salários acima do teto, pagar para generais salários de marechais, salários que ficarão como herança para as filhas que não se casarão no civil, para permanecer solteiras até a virada deste século se as democracias intermitentes, as democracias interrompidas pelos golpes militares permitirem. 

“Grande humanista”, diz Reinaldo Azevedo sobre Guedes sugerir sobras de comida a mendigos

 

por Davi Nogueira

Em publicação nas redes, o jornalista Reinaldo Azevedo comentou a mais nova declaração absurda do ministro da Economia, Paulo Guedes.

Durante anúncio de projeto de flexibilização da regra que trata da validade de alimentos no Brasil, Guedes sugeriu que sobras de alimentos de famílias de classe média e restaurantes sejam doadas a pessoas vulneráveis.

Comparando com a quantidade de comida consumida por uma pessoa da classe média na Europa, que ele diz serem “pratos relativamente pequenos”, o ministro afirmou que no Brasil exageramos e deixamos “uma sobra enorme”.

Reinaldo respondeu à fala do ministro e lembrou que o Brasil tem ”110 milhões vivendo em insegurança alimentar”.

Ele disse, em tom irônico, que Guedes e a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que teve a ideia de distribuir alimentos vencidos aos pobres, são “grandes humanistas”.

O Brasil é o 3° maior produtor de alimentos do mundo e o maior exportador. Mas há 110 milhões vivendo em insegurança alimentar. Tereza Cristina teve uma ideia: alimentos vencidos pra pobres. Guedes teve outra: distribuir sobras de restaurantes pra mendigos. Grandes humanistas!

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29
Mai19

Cortes do governo Bolsonaro prejudicam agricultura familiar, apontam especialistas na FAO

Talis Andrade

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Entidades que defendem a agricultura familiar no Brasil estão preocupadas com os cortes no orçamento do Ministério da Agricultura e afirmam que a produção familiar já começou a sentir os efeitos das políticas públicas do governo Bolsonaro que priorizam a produção agrícola em larga escala.

Rafael Belincanta, correspondente da RFI Roma

Durante o lançamento da Década da Agricultura Familiar das Nações Unidas nesta quarta-feira (29) na FAO em Roma, o secretário da Confederação das Organizações de Produtores Familiares do Mercosul (Coprofam) Alberto Broch, falou sobre como os cortes de quase 40% no orçamento do Ministério da Agricultura começam a impactar a agricultura familiar no Brasil.

“É muito grande o impacto. Nós, infelizmente, esperamos que esses impactos possam ser amenizados pela ação dos governos estaduais, dos governos municipais e pela própria ação dos movimentos, da representação da agricultura familiar no Brasil, como a Contag e outras organizações, que possam lutar e ao mesmo tempo rever essas formas formas de fazer política do governo federal. Embora nós já tenhamos aberto mesas de diálogo com o próprio Ministério da Agricultura, deverão ser lançadas no Plano Safra políticas para a agricultura familiar porque nós prezamos muito pela continuidade do Pronaf e outras políticas que nos custaram muito suor e sangue para as suas conquistas”, diz.

Broch afirmou ainda que é preciso uma rearticulação para defender os interesses dos pequenos produtores e a própria conceituação da agricultura familiar.

“O Brasil é um país continente, um país muito desigual, dentro dele existem várias agriculturas. É enganadora a ideia de que a agricultura é uma só com tanta desigualdade, por exemplo, no acesso à terra. Portanto, é importante que nós continuemos com uma caracterização muito forte, com políticas específicas para a agricultura familiar, que existe um outro jeito de fazer agricultura se comparado ao grande negócio, às grandes empresas rurais. Isso nos custou muito e graças à experiência brasileira nós fomos como que um laboratório de políticas públicas e de conceituação da agricultura familiar para vários países e com experiências levadas adiante pelas próprias Nações Unidas.”

 

Falta de água na região do semi-árido

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Os cortes no orçamento do Ministério da Agricultura atingem também o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) que foi incorporado à pasta pelo governo federal, assim como a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Alexandre Henrique Bezerra Pires da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), organização civil que compartilhou na FAO as experiências na construção de cisternas para mitigar a falta d’água no semi-árido brasileiro, também teme que os projetos em andamento sejam prejudicados.

“Cinco meses e o governo não procurou a ASA para nenhum tipo de diálogo, nós manifestamos o nosso interesse em fazer esse tipo de diálogo, nossa preocupação é que o programa tenha uma redução significativa de recursos, ou que o modelo de implementação do programa que atualmente é numa parceria com a sociedade civil, no caso a ASA, ou com os governos estaduais, comprometa efetivamente a execução do programa. Hoje temos uma demanda de 350 mil tecnologias de água de famílias que esperam a água para o consumo humano e cerca de 800 mil tecnologias de água para a produção de alimentos”, afirma.

Alexandre reiterou a transformação que ocorreu nas comunidades a partir do momento em que elas passaram a ser autônomas para o próprio abastecimento de água a partir das cisternas.

“O semi-árido brasileiro era o lugar que sempre esteve nos piores índices de desenvolvimento humano do nosso país. Algo que sempre nos trouxe muita vergonha, porque nós éramos as pessoas pobres, com fome, analfabetas, pessoas sem conhecimento. O que aconteceu no Brasil nos últimos anos transformou essa realidade. As pessoas passaram a ter a auto-estima de ser do semi-árido, de ser camponeses, de ser agricultor familiar, de ser do Nordeste.”

 

De volta ao “Mapa da Fome”

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Porém, Alexandre revelou um quadro que poderá levar o Brasil de volta ao Mapa da Fome em junho próximo, quando a ONU irá divulgar o novo relatório sobre a fome no mundo.

“O que está acontecendo desde 2015 é a desconstrução de um conjunto de políticas públicas que ajudaram as pessoas a saírem desse lugar e o que vemos hoje é um aumento das pessoas em extrema pobreza, das pessoas em situação de fome, espalhadas pelas grandes cidades e já chegando na zona rural. O nosso principal desafio é lutar para que o semi-árido não volte a figurar como a região com os piores índices e isso significa a luta pela manutenção do orçamento público destinado à essa região”.

Com o lançamento da Década da Agricultura Familiar, as Nações Unidas colocam a defesa e o desenvolvimento da Agricultura Familiar em todas as suas dimensões como prioridade pelos próximos dez anos. De acordo com a FAO, a agricultura familiar é o maior gerador de empregos no mundo, além de ser responsável por cerca de 80% da produção mundial de alimentos, sobretudo nos países em desenvolvimento. Paradoxalmente, é no meio rural – lugar agrícola por excelência – que está a maior parte das pessoas que passam fome no mundo.

A agricultura familiar é responsável pela produção dos mais diversos sistemas de cultivo e preservação de alimentos tradicionais, contribuindo seja para uma dieta balanceada assim como para a proteção da biodiversidade agrária. Além disso, ao gastar parte da renda sobretudo em mercados locais, os agricultores familiares fazem girar as economias locais e regionais gerando assim empregos ligados, direta ou indiretamente, à agricultura.

Os pequenos agricultores detêm ainda um potencial único para reforçar a sustentabilidade da agricultura e dos sistemas alimentares. Portanto, é fundamental que os governos adotem políticas públicas e ambientais que protejam a atividade agrícola familiar, explica Guilherme Brady, responsável do Setor de Agricultura Familiar da FAO.

“O mandato que as Nações Unidas deram para a FAO e para o FIDA é justamente de ajudar no fortalecimento de políticas públicas, investimentos e na troca de conhecimentos sobre agricultura familiar. Se busca também incentivar os governos a assumirem seus próprios compromissos em nível nacional, tanto que uma das nossas principais metas para a metade da década, ou seja, até 2024, é ter 100 países apresentando à FAO e ao FIDA seus projetos nacionais para a agricultura familiar.”

21
Fev19

Fome Zero, Programa de Lula, seguirá como meta da ONU para erradicar fome no mundo

Talis Andrade

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Após mais de sete anos na direção geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), José Graziano da Silva prepara-se para concluir o segundo e último mandato em junho próximo.

Graziano recebeu no início deste mês uma homenagem da União Africana pela contribuição para erradicar a fome também no continente africano.

 

Rafael Belincanta, especial de Addis Abeba para a RFI Brasil

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O reconhecimento coincidiu com a divulgação da notícia de que a fome na África voltou a aumentar. Apesar disso, Graziano afirmou ainda ser possível erradicar a fome no continente e no mundo caso a comunidade internacional empreenda esforços “como nunca antes visto” e que um desafio adicional está sob a mesa: lidar com a epidemia de obesidade e sobrepeso que afeta todos os quadrantes do planeta.

Nesta entrevista exclusiva concedida em Addis Abeba após a entrega do prêmio, Graziano fez um balanço do seu mandato e falou sobre o trabalho para regulamentar e alertar a população sobre alimentos não saudáveis, da globalização da obesidade, do sucesso do Fome Zero no mundo e das políticas de segurança alimentar do novo governo.

Hoje no mundo o número de pessoas obesas é quase igual ao de desnutridas. Como enfrentar esse novo cenário?

A busca por uma dieta saudável faz com que a FAO e a Organização Mundial da Saúde (OMS) se juntem para combater a epidemia de obesidade que já tem elementos claramente caracterizados como o consumo de alimentos com alto teor de açúcar, sal e gorduras saturadas. Nossa busca conjunta por dietas saudáveis abriu uma fronteira para nos associarmos à Organização Mundial do Comércio (OMC) e é aqui que entra a novidade. A OMC não tem nada a ver com saúde, tem a ver com regras para produtos importados e quer que essas regras sejam definidas por bases científicas. A OMC quer assegurar que os produtos importados não façam mal à saúde, que sejam inócuos. Nesse ponto, a FAO junto com a OMS aplica o Codex Alimentarius para fixar normas e standards que facilitem o comércio e impeçam que um país utilize normas ou restrições a importações de produtos para se beneficiar de um processo competitivo desleal. Essa é a nossa função e agora também queremos garantir que o produto seja saudável.

O Brasil é um dos países com mais obesos no mundo. Como diminuir o consumo de alimentos não saudáveis?

Inicialmente, é necessário que os países definam as suas normas e standards de dietas saudáveis. Já estamos conseguindo um progresso bastante importante na definição de quantidades máximas de açúcar nas bebidas gasosas, vários países já adotaram esse limites, inclusive o Brasil. Se discute se o limite que o Brasil adotou é ideal ou não, mas essa é uma outra discussão porque o Brasil já venceu a primeira etapa dessa discussão que é o direito do Estado intervir em dizer o que é saudável ou não. Isso até então era um atributo individual ou da família, a mãe que decide se a comida é ideal ou não para a criança. Hoje estamos entrando neste espaço que era privativo da família porque isso tem um custo cada vez maior nos orçamentos de saúde dos países: a obesidade custa 2,5 trilhões de dólares ao ano. Esse é o custo aproximado das consequências dos conflitos armados, é o equivalente das consequências do uso do tabaco. Aliás, as restrições ao uso do tabaco estão tendo um notável progresso e os limites na ingestão de açúcares deve ir pelo mesmo caminho, é preciso impor restrições cada vez maiores ao açúcar. Primeiro, aumentar as taxas para quem consome. Estamos começando a ver vários países aplicarem isso com resultados muito auspiciosos. O México foi um deles, aumentou a taxa sobre a quantidade de açúcar nas bebidas açucaradas e o consumo diminuiu drasticamente. Em outros países não se consegue essa eficiência simplesmente pela taxa porque são países com alto poder aquisitivo, o que acaba não afetando muito o consumo. Mas esse é um dos caminhos.

Como alertar o consumidor sobre os alimentos mais perigosos à saúde?

O caminho mais promissor que encontramos até agora é conseguir colocar uma etiqueta no produto que alerte o consumidor. Essa etiqueta hoje tem duas formas: uma delas é o famoso sinal verde, amarelo e vermelho. Contudo, esse sistema tem algumas falhas. Um produto como o mel provavelmente seria etiquetado como vermelho, mas é um produto saudável se consumido em determinada escala. Portanto, nós preferimos uma etiqueta na forma de tarjas pretas ou símbolos que alertem o consumidor para os elevados níveis de açúcar, sal e gorduras saturadas. Pensamos que a restrição da propaganda desses produtos, sobretudo para crianças, na televisão e na internet possa ser muito eficaz. Essa restrição funcionou com a propaganda de armas de brinquedo e cigarros e agora queremos fazer o mesmo com propagandas de produtos como salgadinhos e outros alimentos artificiais que definitivamente não são saudáveis.

 

Em junho termina o seu segundo mandato à frente da FAO, que balanço faz destes quase 7 anos e meio?

Quando entrei na FAO eu tinha um desafio muito grande porque substituía um africano após 18 anos. Jacques Diouf foi considerado um diretor que fez grandes mudanças e atualizou a organização, criou os nossos escritórios descentralizados. Por outro lado, eu tinha que corresponder a essa expectativa de uma organização que tinha perdido o elã, a força, que estava ausente dos grandes temas internacionais. E não só trazê-la de volta aos temas internacionais, mas dar-lhe mais agilidade, torná-la mais eficiente na gestão dos recursos. A FAO como todo o sistema Nações Unidas ainda gasta muito, poderia ser muito mais eficiente na forma do seu gasto e este é um desafio para todos nós. Além disso, havia o desafio de substituir um africano mas manter a África como prioridade porque não há dúvida que no mandato da FAO nos setores agrícolas incluindo florestas, pesca, água e solo, o continente africano é um dos que mais necessita de ajuda técnica. Então, eu tinha esse duplo desafio de organizar a instituição e manter a África como prioridade. Acredito que fizemos progressos e a FAO hoje está presente nos grandes temas, esse tema da alimentação saudável é um tema de vanguarda, mas ao mesmo tempo conseguimos manter uma presença contínua na África.

 

Como foi receber o prêmio da União Africana?

Eu fiquei muito emocionado com essa homenagem da União Africana. Eu acho que foi um reconhecimento à FAO acima de tudo. Eu entendo que a premiação que foi entregue a mim foi um reconhecimento ao trabalho da FAO feito na região, um reconhecimento que para a FAO é um muito importante, atesta a nossa presença nos países africanos. Eu sempre repito o que disse na primeira entrevista após a minha eleição: que eu gostaria de ter na FAO uma organização do conhecimento com os pés no chão. Não da grande ciência, mas daquela ciência e conhecimento que podem ajudar os agricultores a resolverem seus problemas e isso é um bom exemplo de que está funcionando.

 

O Fome Zero é a maior herança do seu mandato?

Trouxemos do Brasil uma série de exemplos que foram utilizados no Fome Zero, que foi o programa de maior sucesso até hoje implementado para erradicar a fome. Não há um outro exemplo na era moderna de um país com mais de 200 milhões de habitantes que tenha conseguido erradicar a fome em menos de uma década, como foi o caso do Brasil entre 2003 e 2010. O que fizemos foi transplantar programas do tipo merenda escolar com compras de agricultura familiar, assim como o programa de cisternas que na região do Sahel, por exemplo, que é muito significativo. É impressionante o reconhecimento que existe do fato de termos transplantado uma série de tecnologias, algumas inclusive desenvolvidas pela Embrapa, como as ‘barraginhas’, onde um leito seco do rio é coberto com um plástico especial e quando vem a chuva aquela água fica retida ali, preservada, em vez evaporar ou ser drenada. Todo um conjunto de tecnologias muito simples que foram aplicadas em diferentes países da África com muito sucesso. Tudo isso explica esse reconhecimento pela União Africana, um reconhecimento também do apoio que tivemos do Instituto Lula, o próprio Lula esteve aqui em Addis Abeba em 2013. Eu me emocionei muito ao lembrar dele sentado na primeira fila com vários chefes de Estado quando lançamos o Fome Zero para a África que, no ano seguinte, se refletiu na Declaração de Malabo para a erradicação da fome na África até 2025.

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Erradicar a fome é a segunda meta de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas para 2030. O programa Fome Zero segue com o término do seu mandato?

Esse programa segue porque é um programa conjunto da FAO com a União Africana e seu parceiros. O Banco Africano de Desenvolvimento tem sido um dos grandes apoiadores da nossa iniciativa, um dos grandes financiadores desses programas. Além disso, contamos com outras organizações regionais como o Centro Internacional para a Pesquisa Agrícola em Áreas de Seca (ICARDA), que realiza toda a parte de novos métodos de irrigação em associação com a FAO. Também conseguimos mobilizar uma grande quantidade de organizações da sociedade civil e, assim como fez a ASA (Associação do Semi-Árido) com o programa 1 milhão de cisternas no nordeste brasileiro, nós estamos conseguindo fazer o mesmo para construir cisternas na região do Sahel.

 

Imaginava que programas locais brasileiros poderiam se tornar globais?

Essas coisas não acontecem por acaso, acontecem porque por trás disso há muito trabalho, muita persistência. Eu acho que tanto por parte dos nossos parceiros como por parte da FAO, acreditar que erradicar a fome é possível norteou todo esse trabalho de persistência. A cisterna não é uma invenção da FAO nem da ASA, a cisterna é uma invenção milenar dos árabes. O que fizemos foi adaptar isso às condições simples do semi-árido para que uma família que mora numa tapera pudesse construir uma cisterna e captar a água da chuva a partir de um telhado com um encanamento muito simples. Recentemente, eu inaugurei uma cisterna escolar no Níger e outra no Panamá, situações bem distintas. No Panamá era numa comunidade insular indígena que tinha um problema de dar água salobra para as crianças, o que estava comprometendo o funcionamento dos rins das crianças. Construímos uma cisterna com um pequena bomba elétrica movida a energia solar para que as crianças tivessem água em bebedouros. Depois de alguns meses eu fui inaugurar outra cisterna na região central do Níger, que é uma região quase desértica, é a mesma tecnologia aplicada lá no semi-árido, os dois lugares têm sol abundante. Nesse caso, além de levar a água, também mantê-la em um certo nível de refrigeração. São inovações que vamos introduzindo com o tempo, mas a ideia é muito simples: coletar água que está sendo desperdiçada e torná-la disponível.

 

Como avalia as políticas de segurança alimentar do novo governo brasileiro?

Eu acho que o Brasil está num momento de uma redefinição de suas prioridades políticas a partir de um processo bastante complicado de rever suas políticas anteriores. Eu acho que temos esperar um pouco antes de começar a falar de retrocesso, de recessão. Eu tenho uma grande esperança que a sociedade brasileira, que é uma sociedade muito desenvolvida, muito organizada, saiba encontrar seus próprios caminhos. Eu acho que o novo governo tem uma plataforma diferente dos governos anteriores e nem por isso ele é melhor ou pior, ou é legítimo ou ilegítimo, eu acho que vale a pena esperar para ver que resultados vamos alcançar com isso. Acho que é cedo para julgar, mas devo reconhecer que alguns indícios não são auspiciosos no momento.

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