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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

17
Jun20

Chega ao fim o casamento do Chanceler

Talis Andrade

 

Ernesto-Araujo chanceler.jpg

 

 

Este governo Bolsonaro, tão pródigo em metáforas em torno de casamentos, acaba de ver esticar a corda de um enlace não metafórico, que já se rompeu: o casamento do Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e Maria Eduarda Seixas Corrêa.

 
Tudo leva a crer que a primeira-dama do Itamaraty, chamada Duda pelos próximos, se cansou do cotidiano terraplanista, sujeito a tantas esquisitices. Afinal, ela é filha de um dos mais respeitados diplomatas do país, o embaixador Luiz Felipe Seixas Corrêa, que ingressou na Casa de Rio Branco, obtendo o primeiro lugar no concurso, e é considerado uma das grandes cabeças da instituição.
O casal na cerimônia de entrega da Ordem do Rio Branco – Jornal o Expresso/Google
 
 
Ex-professor de Relações Internacionais e de História Diplomática do Brasil no Instituto Rio Branco, Seixas Corrêa era reticente sobre a política  externa empreendida pelo genro, preferindo se abster de comentar, quando provocado pelos colegas. Ele foi Chefe de Missão no México, na Espanha, na Argentina, na Delegação do Brasil em Genebra (ONU e OMC), na Alemanha, na Santa Sé e no Consulado Geral em Nova York, além de Conselheiro Internacional do Presidente da República José Sarney e, por duas vezes, Vice-Chanceler.
 
Ah, Seixas Corrêa também foi presidente do Órgão Intergovernamental da OMS, e certamente jamais iria propor ou endossar que o Brasil cogitasse romper relações com aquela Organização.
 
Se Bolsonaro, em vez do genro, tivesse mirado no sogro, teria pelo menos um ministério respeitável para chamar de seu.
 
Maria Eduarda Seixas Corrêa também é diplomata, e trabalha como chefe da Divisão de Treinamento e Aperfeiçoamento, setor administrativo responsável pelo aprimoramento de funcionários do Itamaraty.
 
Provavelmente por todos esses vínculos com a Casa, o rompimento do primeiro-casal da nossa carrière virou notícia no Boletim do Ministério distribuído hoje aos diplomatas.
 
 
17
Jun20

Com Ernesto Araújo, a pátria amada se rende ao temor servil

Talis Andrade

bolsonaro ernesto parafuso solto.jpg

 

 

O vídeo da reunião ministerial revela que, em seus delírios, o chanceler se vê servindo a mesa em que as grandes potências desenham os contornos da ordem internacional pós-pandemia

por PAULO ESTEVES MONICA HERZ/ El País
 
 

O Brasil vê diminuir a sua capacidade de influenciar a política internacional. Pior, perde o respeito da comunidade internacional. É claro que a política doméstica e a infame resposta à covid-19 afastam os demais países. Mas o dano se torna irremediável com o soberanismo, uma orientação para a política externa que paradoxalmente combina soberania e servilismo.

Países médios, como o Brasil, optam por uma estratégia de alinhamento automático com uma grande potência para diminuir custos ou receber incentivos. Com Bolsonaro, o alinhamento aos Estados Unidos não produziu nenhum desses resultados e ainda ameaça a balança comercial brasileira. Por que, então, Bolsonaro abraçou o bordão “America first”? Por duas razões: de um lado, há uma identidade de propósitos e modos de operação entre Bolsonaro e Trump; de outro, o alinhamento sem bônus é o resultado automático da política externa soberanista, como tentaremos demonstrar. Ambos extraem legitimidade da produção de antagonismos. Instigam a fragmentação social e promovem a luta entre esses fragmentos. O inimigo é móvel e mantém sua base de apoio coesa e mobilizada (Venezuela, os marxistas culturais, ou o vírus chinês). Além de operarem de forma semelhante, têm pelo menos um projeto comum: esvaziar a esfera pública e destruir o Estado.

No caso brasileiro, esse projeto se manifesta em vários setores, inclusive na política externa soberanista. Soberanismo não é uma doutrina, mas um punhado de enunciados justapostos. Essa colcha de retalhos combina as palavras liberdade, soberania e democracia, às quais o chanceler atribui significados inesperados que, embora não façam sentido, têm como efeito mobilizar os ressentidos em defesa de um modelo inexistente de família tradicional. Parafraseando o chanceler, a nação é uma “família estendida”. Como soberanas, família e nação devem ser protegidas da interferência externa. Liberdade, no vocabulário do bolsonarismo, significa a ausência de limites para o exercício da vontade do soberano, seja o chefe da família ou o chefe supremo da nação. Em uma palavra, o chefe faz o que quiser com sua família e o presidente com sua nação (e ponto final). Não por acaso, após 18 meses de Governo, a única iniciativa de política externa, para além de desmanches institucionais, foi a cooperação com os governos da Hungria, Polônia e Estados Unidos para a proteção da família.

O problema é que o soberanismo rejeita o sistema internacional baseado em normas que, segundo seus advogados, limitariam a ação soberana. Seguindo os Estados Unidos (que acabam de se retirar da OMS) e Israel, o Brasil abandona o apoio a iniciativas junto às instituições multilaterais. Essas instituições são, contudo, fundamentais para moderar a preponderância das grandes potências e para responder a importantes questões como... pandemias. Além do abandono do quadro normativo há aqui a afirmação de uma concepção darwinista da gramática do poder: relações de poder assimétricas condicionariam o alinhamento automático, nesse caso, com os EUA. O “soberanismo” tem como consequência paradoxal o servilismo. Para garantir que Bolsonaro possa incendiar a pátria amada, Ernesto Araújo curva-se com temor servil à potência. O vídeo da reunião ministerial revela que, em seus delírios, o chanceler se vê servindo a mesa em que as grandes potências desenham os contornos da ordem internacional pós-pandemia.

Dessa forma, abandonamos qualquer proposta de construção de uma política externa autônoma e publicamente informada. Mais grave, a política externa do bolsonarismo é incapaz de articular a inserção internacional do Brasil à resolução dos enormes problemas sociais e econômicos do país. Abandona-se, também, a posição de liderança na América Latina, deixando, como no caso da Argentina, que opções políticas contingentes tenham impacto sobre a confiança construída por décadas.

Diante das transformações impostas pela pandemia, precisamos de uma política externa capaz de influenciar atores, regras e o fluxo de recursos materiais no sistema internacional. Uma política externa que expresse a complexidade de interesses da sociedade brasileira e não apenas os interesses de uma fração de sua elite. Essas tarefas exigem três movimentos: o fim da instrumentalização da política externa para a produção de antagonismos sociais, a revisão da política de alinhamento automático e a construção de alternativas que articulem a política externa aos reais problemas sociais e econômicos do país.

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