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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

12
Out20

'Padre Lancellotti é mensageiro de Deus', diz Papa Francisco (vídeo)

Talis Andrade

 

A Igreja é chamada a ir até as encruzilhadas de hoje, isto é, às periferias geográficas e existenciais da humanidade (...). Trata-se de não se acomodar nas formas cômodas e usuais de evangelização e de testemunho da caridade, mas de abrir a todos as portas do nosso coração e das nossas comunidades, porque o Evangelho não é reservado a poucos eleitos". Deus prepara para todos seu banquete: "justos e pecadores, bons e maus, inteligentes e incultos."

“O Evangelho não é reservado a poucos eleitos. Também aqueles que estão à margem”, os “rejeitados e desprezados pela sociedade, são considerados por Deus dignos do seu amor. Para todos Ele prepara seu banquete: justos e pecadores, bons e maus, inteligentes e incultos.”
A parábola do banquete nupcial descrita no Evangelho de São Mateus, proposto para este XXVIII Domingo do Tempo Comum, inspirou a reflexão do Papa no Angelus, quando recordou, que “não basta aceitar o convite para seguir o Senhor, é preciso estar disponível para um caminho de conversão, que muda o coração. A veste da misericórdia, que Deus nos oferece incessantemente, é um dom gratuito do seu amor, é graça. E requer ser acolhido com estupor e alegria.”

Dirigindo-se aos presentes na Praça São Pedro em um domingo chuvoso, Francisco começou explicando que com a parábola, “Jesus traça o projeto que Deus concebeu para a humanidade. O rei que "preparou a festa de casamento do seu filho" é a imagem do Pai que organizou para toda a família humana uma maravilhosa festa de amor e comunhão ao redor de seu Filho unigênito”.
Ele manda seus servos chamarem os convidados que, por estarem ocupados com outros afazeres, recusam o convite, "não querem ir à festa", como acontece conosco muitas vezes, ao darmos preferência “aos nossos interesses e coisas materiais, em vez do Senhor que nos chama”.
Ninguém é excluído da casa de Deus

“Mas o rei da parábola não quer que a sala fique vazia, porque deseja doar os tesouros de seu reino” - explica o Papa - e diz aos seus servos para irem às encruzilhadas dos caminhos para convidar aqueles que encontrarem.

É assim que Deus se comporta: quando ele é recusado, em vez de desistir, repropõe e convida a chamar todos aqueles que estão na encruzilhada dos caminhos, sem excluir ninguém. Ninguém é excluído da casa de Deus”


Evangelho não é reservado a poucos eleitos

É para essa humanidade das encruzilhadas – enfatiza o Pontífice - que o rei da parábola envia seus servos, “na certeza de encontrar pessoas dispostas a sentarem-se à mesa. Assim, a sala de banquetes enche-se de "excluídos", aqueles que estão "fora", daqueles que nunca pareceram dignos de participar de uma festa, de um banquete de casamento. Antes pelo contrário, o rei diz aos mensageiros" para chamarem todos, "bons e maus, todos. Deus chama também os maus (..). Jesus, Deus não tem medo da nossa alma ferida de tanta maldade, porque nos ama, nos convida":

E a Igreja precisamente é chamada a ir até as encruzilhadas de hoje, isto é, às periferias geográficas e existenciais da humanidade, aqueles lugares à margem, aquelas situações em que se encontram acampados e vivem migalhas de humanidade sem esperança. Trata-se de não se acomodar nas formas cômodas e usuais de evangelização e de testemunho da caridade, mas de abrir a todos as portas do nosso coração e das nossas comunidades, porque o Evangelho não é reservado a poucos eleitos. Também aqueles que estão à margem marginalizados, mesmo aqueles que são rejeitados, aqueles desprezados pela sociedade, são considerados por Deus dignos do seu amor. Para todos Ele prepara seu banquete: justos e pecadores, bons e maus, inteligentes e incultos”

Padre Júlio Lancellotti: mensageiro de Deus que vai às encruzilhadas dos caminhos

Saindo do texto, Francisco fala de seu telefonema ao padre Júlio Lancellotti na tarde de sábado, ele que trabalha com o Povo da Rua na Arquidiocese de São Paulo:


Ontem à noite, consegui telefonar para um padre italiano idoso, missionário da juventude no Brasil, mas sempre trabalhando com os excluídos, com os pobres. E vive essa velhice em paz: "queimou" a sua vida com os pobres. Esta é a nossa Mãe Igreja, este é o mensageiro de Deus que vai às encruzilhadas dos caminhos”


A gratuidade da graça e da misericórdia

Todavia – continuou o Papa – o Senhor coloca uma condição: usar o traje de festa, uma “espécie de capa que cada convidado recebia de presente na entrada, pois "as pessoas iam como estavam vestidas, como podiam se vestir, não usavam roupas de gala.” Mas ao entrar na sala repleta e saudar os “convidados de último hora”, o rei observa que um deles está sem as vestes. Como rejeitou o presente gratuito, “se auto excluiu. Assim, não restou ao rei que jogá-lo fora. Mas, "por quê?", pergunta Francisco, que explica:


Porque não aceitava o dom. Porque o chamado de Jesus é um dom. É um presente, é uma graça. Este homem aceitou o convite, mas decidiu que não significava nada para ele: era uma pessoa autossuficiente, que não tinha o desejo de mudar ou de se deixar transformar pelo Senhor. O traje de festa - aquele manto que é um dom, um presente - simboliza a misericórdia que Deus nos dá gratuitamente. A graça. O convite de Deus que te leva à festa, é uma graça. Sem a graça tu não podes dar um passo na vida cristã. Tudo é graça. Não basta aceitar o convite para seguir o Senhor, é preciso estar disponível para um caminho de conversão, que muda o coração. A veste da misericórdia, que Deus nos oferece incessantemente, é um dom gratuito do seu amor, é precisamente a graça. E requer ser acolhido com estupor e alegria: "Obrigado Senhor por me ter dado este dom"


Sair das visões estreitas

Que Maria Santíssima – pediu o Francisco ao concluir - nos ajude a imitar os servos da parábola do Evangelho, no sair de nossos esquemas e de nossas visões estreitas, anunciando a todos que o Senhor nos convida ao seu banquete, para nos oferecer a graça que salva, para dar-nos o dom.

 

10
Nov19

Uma Igreja que conta com os pobres

Talis Andrade

Em colóquio com o cardeal Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília 

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A Igreja no Brasil trabalha desde sempre com os pobres e conta com eles. «Foram precisamente os pobres que me deram a notícia da minha nomeação cardinalícia», confidenciou sorrindo Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília e presidente da Cnbb, ao qual o Papa Francisco conferiu a púrpura no consistório do dia 19 de novembro passado. «Penso que foi um sinal» disse nesta entrevista a L’Osservatore Romano, frisando que o Brasil, com as suas desigualdades e contradições, mas também com os valores e as grandes potencialidades, é um laboratório para uma Igreja verdadeiramente em saída que se mistura com o povo e vai à procura dos distantes.

 

Como recebeu a sua nomeação a cardeal?

Com surpresa, alegria, sentido de responsabilidade e esperança. Realizava uma visita pastoral e missionária a uma das paróquias mais pobres de Brasília. Era um domingo de manhã, por volta das 7h00, e encontrava-me numa das «ocupações», lugares que os pobres escolhem para aí morar, não tendo onde residir. Foram precisamente os pobres que me deram a notícia. Penso que foi um sinal.

 

Que significa ser bispo de uma arquidiocese como Brasília?

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O Distrito Federal de Brasília tem um valor que ultrapassa os seus confins e deve ser considerado no contexto de todo o Brasil. É formado por pessoas de todas as partes do país. Fundada há pouco mais de cinquenta anos, Brasília é composta por diversas cidades unidas para formar o Distrito Federal. No seu interior vivem pessoas de culturas e religiões diferentes. A convivência, o estar juntos de modo fraterno e cordial é um valor que deve ser evidenciado no mundo de hoje, no qual há tanta dificuldade nas relações entre as culturas. Se existe uma característica de Brasília é exatamente esta convivência de pessoas provenientes de todas as partes do país: poucos dos seus habitantes – só os mais jovens – nasceram na cidade. Com efeito, somos todos imigrados, inclusive eu. Infelizmente, há também a desigualdade social. Com mais de três milhões de habitantes, há zonas muito ricas e outras paupérrimas. Na capital federal há um grande fosso entre enormes riquezas e pobreza extrema. Atualmente a maior favela do país está em Brasília e não no Rio de Janeiro: chama-se «Sol nascente».

 

O que restou da teologia da libertação na Igreja no Brasil?

Ainda há muitos valores: entre eles, uma maior atenção aos pobres, mais solidariedade, mais serviço aos últimos. Permaneceu, sobretudo, o reconhecimento de valores e de experiências, porque às vezes corremos o risco de reduzir os pobres a um problema. Pelo contrário, realizou-se um esforço para reconhecer os pobres como sujeito da ação. Procurou-se também organizar um pouco mais a comunidade. O que a pastoral social faz hoje com diversas motivações, de qualquer maneira já tinha sido feito naquela época, naqueles âmbitos onde a evangelização foi mais explícita. Certamente, seria preciso falar no plural: não houve só uma teologia da libertação. E nem toda a comunidade eclesial no Brasil nem o povo conheciam esta teologia. Entretanto, a Igreja trabalha desde sempre com os pobres e conta com eles. Não é um aspeto descoberto com a teologia da libertação. Contudo, ela desenvolveu-o com uma modalidade e um destaque particulares. Nas organizações populares ainda há contributos que provêm daquela experiência, embora nem sempre haja uma relação direta e automática com aquela teologia. Todavia, acredito que a referência ao Evangelho e a Jesus nunca pode faltar. Devemos procurar o modo de o traduzir nos nossos dias com uma teologia que tem o seu valor e o seu papel específico. Não nos devemos esquecer que precisamos dos teólogos, não tanto para a vida diária, mas para aprofundar as questões pastorais, caso contrário falta o fundamento e só resta a prática.

Nicola Gori

 

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