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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

22
Set22

ÀS VÉSPERAS DA ELEIÇÃO, ASSEMBLEIA DE DEUS USA CARTILHA DE ÓDIO PARA DOUTRINAR FIÉIS CONTRA LULA, FEMINISTAS E LGBTS

Talis Andrade

Humor Político on Twitter: "O cosmonoteísmo por Marcio Vaccari  #Comportamento #Religião #cartoon #charge #HumorPolítico #Violência  https://t.co/JrzmHrbWJl" / Twitter

 

Material didático associa o feminismo à zoofilia e incesto e o diabo à esquerda. Defende o machismo, o racismo e o apedrejamento da mulher que Jesus perdoou. E esquece a fome de 33 milhões de brasileiros, as 500 mil crianças prostitutas, a fila da morte nos corredores dos hospitais 

 

A ASSEMBLEIA DE DEUS DE SANTA CATARINA está usando desde julho – período pré-eleitoral – uma cartilha anti-esquerda para doutrinação de fiéis. O material, enviado ao Intercept, menciona nominalmente Luiz Inácio Lula da Silva como defensor da chamada “ideologia de gênero”, termo que conservadores usam para atacar os movimentos LGBTQI+ e feminista, e espalha pânico moral ao associar o feminismo à pedofilia, zoofilia e outras “perversidades”.

“O feminismo representa uma das maiores armadilhas do mundo contemporâneo, levando a sociedade a um nível de depravação e perdição inimaginável. Como toda ideologia mundana, tomou proporções inimagináveis, financiando coisas sórdidas como: pedofilia, zoofilia, sexo desregrado, homossexualidade e diversas outras perversidades. O feminismo é uma aberração nascida no mais profundo inferno, produzindo divisão, briga, promiscuidade, homossexualidade e todo tipo de sordidez”.

Parece um fórum de internet dedicado à misoginia, mas trata-se de uma transcrição literal da cartilha para jovens e adultos “Revista EBD – O cristão e os desafios do nosso tempo: entendendo as ideologias, póliticas [sic] e pensamentos da atualidade”, versão do professor. Essas frases saíram mais precisamente da “Lição 12 — Feminismo e a distorção de papéis”.

 

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‘Pedofilia’, ‘depravação moral’ e destruição do casamento': cartilha deturpa conceitos do feminismo.

 

Esse material – uma legítima cartilha do ódio e intolerância – foi distribuído nos templos da Assembleia de Deus de Blumenau e por toda a próspera região do Vale do Itajaí de Santa Catarina para ser usado na escola bíblica dominical ao longo do trimestre de julho a setembro. Não por acaso, o teor do conteúdo coincide em muitos pontos com o discurso de Jair Bolsonaro, do PL.

Além das feministas, a obra também ataca toda a esquerda, as correntes cristãs vistas como liberais, os evangélicos que não querem misturar igreja com política, o estado democrático de direito, todo o arcabouço legal que garante direitos aos cidadãos não-heteronormativos, o sistema de ensino público e privado e muito mais. Nem a lei do divórcio de 1977, que assegura o direito dos casais a se separarem, escapa da raiva santa exposta no livro.

Ao longo de 124 páginas divididas em 13 lições, é descrito um cenário de medo e horror para o cristão moderno e sua família. Ele passa por toda a realidade paralela erigida em cima de teorias da conspiração e quimeras da extrema direita: globalismo, ideologia de gênero, fim da família tradicional, perseguição aos cristãos, marxismo cultural, ditadura estatal na forma de viver e criar os filhos, “abortismo”, Paulo Freire e por aí vai.

De maneira explícita, o ex-presidente Lula é lembrado nominalmente na obra como um incentivador do que é chamado de ideologia de gênero. Em um quadro amarelo no capítulo dedicado ao tema, a cartilha lembra que ocorreu em seu governo a implementação do Programa Nacional de Desenvolvimento Humano, que estabeleceu direitos básicos hoje desfrutados pela a população LGBTQI+, como união civil, adoção de crianças e reconhecimento do nome social em documentos oficiais, além de políticas afirmativas. Para os autores da cartilha, algo imperdoável.

 

Trecho da cartilha que menciona nominalmente o ex-presidente e candidato Lula.

 

“Durante o governo do presidente Luís [sic] Inácio Lula da Silva o movimento LGBT e os ideólogos de gênero conquistaram garantias significativas”, lamentam. Eles escrevem que, se as definições de homem e mulher não são mais absolutas, cada um se torna o que bem entender. Assim, “isso é apenas o começo da catástrofe, pois quando a relativização domina, já não tem critérios para nada, e normalizar a pedofilia e o incesto é questão de tempo”, profetiza o texto. E nada de cair “na conversa de que os cristãos estão se intrometendo na vida dos outros que desejam ser diferentes”. Afinal, “eles não querem apenas um direito para ser quem desejam, querem implantar uma ditadura que afeta a nós e nossos filhos”.

 

O que é dito e ensinado na escola dominical é entendido como 100% verdade pelo povo fiel.
Eleições 2018 - Lúcifer Contra o Diabo na Terra do Sol ? -  caminhandojornal.com
 
 

A cartilha não tem um autor claro, mas traz um prefácio escrito pelo pastor Lediel dos Santos, vice-presidente da Assembleia de Deus em Blumenau. “É impossível não enxergar que estamos em uma grande e intensa batalha”, diz o texto de abertura. “Mais do que nunca precisamos nos posicionar também no campo ideológico e político se queremos de fato edificar. Se o povo de Deus não buscar governar de acordo com os princípios bíblicos, alguém irá nos desgovernar. Esta é a hora de combater o bom combate!”.

Santos é um dos donos da editora Kaleo, que publicou a cartilha raivosa. O outro sócio, Alexandre de Almeida, também é pastor da Assembleia de Deus em Blumenau, segundo dados da Receita Federal. Fundada em 2019, a editora surgiu “com a intenção de difundir conteúdos de qualidade de escritores que ainda não são grandemente conhecidos no mercado publicitário mas cujo pensamentos e ideias merecem ser compartilhados”, diz seu site.

O material, aliás, é oferecido na plataforma para uso em escolas dominicais de todo o Brasil. Cada exemplar custa R$ 13,90 mais a taxa de envio.

Cartilha é utilizada na escola bíblica dominical, uma das instituições mais tradicionais da Assembleia de Deus e de igrejas cristãs no geral.

 

Apocalipse cristão

 

A cartilha começa delineando o “apocalipse cristão contemporâneo”. Duas lições inteiras justificam com trechos da bíblia a promiscuidade entre política e religião. Com essas bases lançadas, os capítulos seguintes partem para cima da esquerda e tudo que consideram ser sua obra, sempre a serviço do demônio.

Além do capítulo sobre feminismo, “Educação – um desafio para a igreja brasileira”, “Marxismo cultural e seus impactos”, “Grupos minoritários”, “Ideologia de gênero”, “Machismo: masculinidade deformada” e, por fim, “Sexualidade distorcida em uma cultura erotizada” completam o extenso material. Cada capítulo ou lição equivale a um domingo de aula na escola dominical.

O argumento principal que permeia todo material é o de que não há hipótese de um evangélico ser de esquerda. “Um cristão genuíno é por definição um conservador”, afirma o texto na terceira lição, chamada “Sendo um conservador em um mundo corrompido”. No capítulo “O que o cristão precisa saber sobre direita e esquerda”, o material reafirma que a esquerda só serve para dividir a miséria. Mais adiante, na mesma seção, reforça que “algumas ideologias, como as de esquerda, são fundamentalmente contra o cristianismo”.

 

Cartilha diz que a esquerda quer 'controlar todos os aspectos da vida social. Sobrou até para Paulo Freire, criticado por ser um 'libertador'.

 

O pedagogo Paulo Freire é lembrado com destaque na lição sobre os desafios da educação e merece um intertítulo próprio, “O desserviço da pedagogia de Paulo Freire”.

Já na lição sobre o marxismo cultural, o texto questiona: “Quantas meninas não querem se casar mesmo tendo mais de 25 anos?”. A culpa seria do fim da moral e do incentivo à promiscuidade dos esquerdistas que dominam a indústria cultural, principalmente o jornalismo da grande mídia. E arremata: “a bíblia e o marxismo são incompatíveis.”

 

Trecho da cartilha sobre ‘marxismo cultural’ usa o Brasil Paralelo como referência teórica.

 

Como apoio aos professores, a editora oferece ainda vídeos no YouTube em que explica os principais pontos das aulas. Ali, o tom é menos explícito que na cartilha, mas a intenção segue clara. Na lição 6, por exemplo, “O que um cristão precisa saber sobre esquerda e direita”, publicado em 5 de agosto no canal da Kaleo, um “professor” não identificado repassa o que é mais importante: “é impossível você ser de esquerda e ser cristão”.

O Intercept tentou falar com Lediel dos Santos e Alexandre de Almeida, donos da editora, e pediu um posicionamento para a Assembleia de Deus de Blumenau sobre o material e a campanha política implícita. Não houve resposta.

 

Ataque sensível

 

Boquirroto e Capiroto! | Humor Político – Rir pra não chorar

 

A escola bíblica dominical é uma das instituições mais tradicionais da Assembleia de Deus e de igrejas cristãs no geral. É a interface da vida real com o que é ensinado e refletido dentro do templo. Nela, boa parte dos fiéis estuda a bíblia em grupo e busca uma bússola moral e exemplos práticos para guiar seu cotidiano de acordo com os ensinamentos da igreja.

“Estão atacando por um lado que é muito sensível na comunidade”, afirmou o advogado Artur Antunes. Criado dentro da Assembleia de Deus de Santa Catarina, o advogado indignou-se ao tomar conhecimento do material didático para doutrinação político-eleitoral e procurou o Intercept para denunciar o caso.

“O que é dito e ensinado na escola dominical é entendido como 100% verdade pelo povo fiel que frequenta a instituição. E não é pouca gente, boa parte dos fiéis que vai ao culto aos domingos fica para a escola dominical depois”, explicou. “O objetivo disso, junto com o que é dito durante os cultos, é consolidar a imagem de Bolsonaro junto aos fiéis como o único candidato possível para os cristãos. Ao mesmo tempo, associa o Lula a todas essas fake news e a assuntos que preocupam muito os religiosos”.

 

Eleições 2022The Intercept. Leia Nossa Cobertura Completa Eleições 2022

 

Na escola da igreja, as turmas são divididas entre crianças e jovens de até 14 anos, que recebem aulas e materiais didáticos diferentes, e jovens e adultos a partir dos 15 anos de idade —submetidos à cartilha do horror deste trimestre. Os professores geralmente são voluntários da própria comunidade religiosa, o que aumenta o grau de confiança nas informações que são passadas nessas reuniões.

Na opinião de Antunes, o efeito eleitoral disso é poderoso. “Coloca-se quase como se o fiel tivesse que escolher entre votar em um candidato de esquerda e a própria religião, sua participação naquela comunidade. É uma coação mesmo. A conotação disso é óbvia quando pensamos na eleição presidencial, mas espraia-se por todas as candidaturas, que passam a ser consideradas com essa lupa hedionda”.

 

22
Mai22

Lançamento da campanha de Lula em Paris recebe apoio da esquerda francesa

Talis Andrade

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Lançamento da pré-campanha de Lula (PT) em Paris conta com representantes dos partidos políticos da esquerda francesa. © Paloma Varón/ RFI

 

O núcleo do Partido dos Trabalhadores (PT) em Paris organizou na manhã deste sábado (7) o lançamento da pré-candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência do Brasil. Representantes de partidos da esquerda francesa estiveram presentes para mostrar o seu apoio ao ex-presidente, que tenta um terceiro mandato depois de 12 anos longe do cargo. 

O lançamento em Paris ocorreu algumas horas antes do evento oficial realizado no Expo Center Norte, em São Paulo, para apresentar a chapa formada por Lula e Geraldo Alckmin (PSB), candidatos à presidência e à vice-presidência.

Segundo a pesquisa Ipespe (Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas) divulgada na sexta-feira (6), o ex-presidente Lula conta com 44% das intenções de voto na corrida pelo Palácio do Planalto. O atual presidente, Jair Bolsonaro (PL), que tenta a reeleição, tem 31%. O primeiro turno da eleição vai acontecer no dia 2 de outubro. 

Para a senadora Laurence Cohen, do Partido Comunista Francês (PCF), presidente do grupo de Amizade França-Brasil do Senado francês, é importante mostrar que Lula tem apoio das forças progressistas francesas e europeias: “Eu acabo de voltar de uma viagem à Amazônia e eu pude constatar mais uma vez os danos da política de Bolsonaro, com violações aos direitos humanos e ao meio ambiente. Então, é absolutamente importante que Lula possa ganhar esta eleição”, disse. 

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A senadora também defende a presença de observadores internacionais nas eleições brasileiras “para evitar que Bolsonaro dê um golpe contra a democracia”. “Lula já demonstrou, com Dilma Rousseff, que pode ter uma verdadeira política social, tirando milhões de brasileiros da pobreza. Ele tem uma outra concepção de relações humanas e também das relações com a Europa. Por todas essas razões, me parece importante estar aqui para apoiar a sua candidatura no Brasil”, concluiu Cohen à RFI

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Christian Rodríguez, coordenador de Relações Internacionais do partido A França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, e candidato a deputado pela América Latina e Caribe à Assembleia Nacional francesa pela Nova União Popular, Ecológica e Social (Nupes, um grupo lançado oficialmente também neste sábado e formado pelos partidos da esquerda francesa para as eleições legislativas de junho, na França), disse que hoje é um dia histórico: “A Justiça venceu, apesar de todas as perseguições a Lula, apesar de tudo o que ele sofreu, a prisão, a humilhação, as mentiras contra ele, Lula saiu vitorioso de tudo isso e eu acho que isso vai contar a seu favor para que ele volte a ser presidente”.

 

"Lula representa uma grande esperança" 

 

“Estou aqui para trazer o apoio de Jean-Luc Mélenchon e das forças progressistas e políticas e sociais da França, para os quais Lula representa uma grande esperança. Lula não é só do Brasil, ele é do mundo. O Brasil é uma potência e queremos que seja progressista. É preciso eliminar Bolsonaro, não é possível que o fascismo continue nesse país”, acrescentou Rodríguez.

Anne Joubert, da direção do partido ecológico Génération.s, disse que o seu partido apoia os “camaradas brasileiros” no lançamento da pré-campanha de Lula “porque é preciso colocar um fim à política de Bolsonaro, que é escandalosa, com destruição econômica e social do Brasil, desrespeito aos direitos humanos, ao meio ambiente e aos povos indígenas”. 

O coordenador do núcleo do PT em Paris, Esdras Ribeiro, ressalta que Lula e o PT têm um grande apoio na capital francesa. “Nossos amigos e parceiros aqui estiveram com a gente na luta contra o impeachment da Dilma, a prisão do Lula, e a gente não poderia passar esta data sem fazer esta manifestação. Para a gente, é um momento de carinho, de compaixão com o povo brasileiro. Muitas vezes nós, brasileiros e franco-brasileiros, estamos aqui em situação mais confortável, mas acho importantes falarmos da fome e das dificuldades que o povo brasileiro vem atravessando”, salientou, agradecendo o apoio dos partidos políticos da esquerda francesa. 

Representantes de movimentos estudantis de brasileiros na França, do Partido Operário Independente (POI) francês e de outros movimentos sociais também marcaram presença.  

No Brasil, além as lideranças do PT e do PSB, a cerimônia contou com a presença dos partidos que já declararam apoio formal à chapa: PCdoB, Solidariedade, PSOL, PV e Rede. Centrais sindicais, movimentos sociais e militância dos partidos também participaram.

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10
Abr22

Reinaldo Azevedo: FNDE é hoje símbolo do assalto aos cofres públicos

Talis Andrade

 

 

 
 
 
 

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Reinaldo Azevedo
FNDE vira esgoto moral do governo Bolsonaro-Centrão; MEC está em demolição. 3 senadores retiraram assinatura de CPI do FNDE. 2 deles são Oriovisto Guimaraes (PR) e Styvenson Valentim (RN), do Podemos. O morista Álvaro Dias, chefão da sigla, é contra. Família de Oriovisto tem negócios c/ o MEC. Mas retirou “por convicção". Claro! Ambos usaram o mesmo argumento frouxo: em ano eleitoral, haveria politização da CPI. Pode usar o FNDE em eleição. Ñ pode é investigar safadeza. LIXO!
 
O 3° q fugiu após pressão é Weverton (PDT-MA). Disse apenas q fez o certo. O certo, no caso, seria ñ apurar. Há coisas na esquerda q só o PDT faz por vc

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O senador morista Oriovisto Guimaraes (PR), do Podemos, retirou sua assinatura do requerimento da CPI do FNDE depois de pressão do governo. Diz ser melhor apostar na “isenção” da PF de Bolsonaro. Claro! O morismo é só um bolsonarismo nanico c/ complexo de superioridade (i)moral.
Finalmente, chegamos ao estado da arte da gestão pública: "Rouba e não faz". O MEC convertia almas da tradicional família brasileira", combatia a "ideologia de gênero", numa "escola sem partido". Mas os partidos estão lá, no comando do caixa: PP e PL

20
Mar22

Com direito a discurso de ódio, Câmara de Curitiba nega homenagem a Marielle Franco

Talis Andrade

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Homenagem a vereadora carioca assassinada a tiros teve 17 votos contra e só 11 a favor; oito vereadores de Curitiba se abstiveram

 

20
Mar22

Marielle Franco e Arthur do Val

Talis Andrade

 

 

Dois fatos densos de reminiscência e que se articulam de modo a nos trazer à situação em que hoje atravessamos no Brasil

 

Por RONALDO TADEU DE SOUZA /A Terra É Redonda

 

“grande parte do que fez a grandeza dessa obra [Em Busca do Tempo Perdido] permanecerá oculta ou inexplorada até que essa classe [a burguesia aristocratizada] na luta final, revele seus traços fisionômicos mais fortes.” (Walter Benjamin, A Imagem de Proust).

“Justiça por Assata” (Ato 19/03 Goiânia informações: instagram: ayah_akili e pensar.africanamente).

 

Muito já se disse sobre a memória na formação de nossas existências. São inúmeros os teóricos sociais, filósofos, críticos da cultura e psicanalistas que afirmam ser a lembrança de uma vida de então o aspecto fundamental não só de indivíduos, mas da sociedade ao qual estão inseridos. Seja no soerguimento da identidade de cada um, seja nas disposições de organização das relações sociais, seja nos modos em que lidamos com eventos políticos significativos – o passado é parte constitutiva do ser em sentido amplo.

Não foi sem razão que Marx disse no início de O 18 Brumário de Luís Bonaparte que o espírito do passado e as tradições de outros tempos influenciam as ações do presente – mesmo que do ponto de vista da linguagem. E que Benjamin nas Teses sobre o Conceito de História, ter reivindicado que fossemos ao pretérito como um salto de tigre naquele mesmo. Tanto Marx como Benjamin estavam a escrever seus respectivos textos para aqueles e aquelas em condições de serem explorados, oprimidos pelas classes dominantes, humilhados no cotidiano por circunstâncias impostas pelo capital e suas figuras representativas e sacrificados cruelmente pela violência estatal.

Um e outro pretenderam chamar a atenção da importância para os subalternos de toda ordem da força da recordação; não da recordação que se faz patíbulo e extirpa o impulso da transformação ao prender, astutamente por vezes, as paixões políticas no passado e sim daquela que vislumbra a fusão com o contingente (essa foi a mensagem de Frantz Fanon no fim do Peles Negras Máscaras Brancas) e transfigura-se em subjetividade insubmissa, radical, revolucionária por assim dizer, e torna o futuro presente. Faz do horizonte de expectativas princípio dialético-objetivo. Ainda assim, por vezes se esquece daquilo que ocorreu no decurso da vivência.

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É por isso que devemos ter em nossas mentes dois fatos que ocorreram nos últimos dias, mas que são densos de reminiscência, e que se articulam, de modo a nos trazer à situação em que hoje atravessamos no Brasil. Essa semana completaram-se quatro anos do assassinato a mando de Marielle Franco, e dias atrás presenciamos um dos acontecimentos mais terríveis da vida pública brasileira – a ida à Ucrânia de Arthur do Val, e os áudios vazados com suas declarações sobre as mulheres ucranianas em meio ao sofrimento humano de uma guerra. (Guerra essa que é promovida por aqueles que de maneira geral personagens como esse cidadão é porta voz, as classes dominantes das potências mundiais – as burguesias e elites imperialistas, Vladimir Putin e a Rússia inclusive, que já disse para quem tem ouvidos para ouvir, escutar e atentar que a região da Ucrânia foi uma equivocada invenção do Lênin e dos bolcheviques após 1917.)

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É preciso lembrar que Marielle Franco, mulher negra, lésbica, de esquerda, militante socialista do PSOL (partido ao qual era filiada e atuava em defesa dos pobres, negros e negras que passam todo tipo de violência policial no dia-a-dia), foi exterminada covardemente pelas forças policiais-políticas que de uma maneira ou de outra hoje governam o país, com um programa econômico-político que visa a devastação literal daqueles considerados descartáveis para a ordem do capital atualmente (e Arthur do Val é irrefutavelmente um dos mais importantes políticos e representantes desse bloco no poder). Marielle sem dúvida seria uma das vozes a gritar pelos seus e pelas suas. Mas isso não foi possível a ela.

Em 2018 o Brasil já estava completa e moralmente conquistado (faltava apenas a consolidação material do poder estatal, pois não nos esqueçamos, a presidência de Michel Temer iniciou em 2016 com o golpe institucional, e que 9 de 10 que não sejam de esquerda qualificam com a dicção da legitimidade política de Impeachment) pela direita de todos os matizes. Hoje ninguém quer se associar ao bolsonarismo, ao Arthur do Val e com alguma timidez cínica acreditam no MBL (nossos liberais, ou liberais mesmo). No arco da contrarrevolução brasileira de 2014-2021, nosso 18 Brumário para lembrar o ensaio de Bruno Cava, rememoremos que liberal-conservative, conservadores, liberais, tradicionalistas, neoliberais e sociais-liberais, obviamente em nenhum momento se posicionarem contrários ao que vinha ocorrendo, está inserida a morte tramada de Marielle.

As descrições do assassinato planejado racionalmente estão disponíveis para quem quiser averiguar, não as farei aqui (já o fiz nos três anos da morte de Marielle no site A Terra é Redonda); basta dizer que Ronnie Lessa e Élcio Queiroz a espreitaram por mais de três meses antes do dia do crime. E é esse arco, em fase de estabilização agora, uma vez que estamos às vésperas da eleição – eleição que por vezes, nem sempre e não consegue de fato, tem a função de (re)estabelecer o equilíbrio instável com a competição pelo voto (Schumpeter) –, que impossibilita as investigações e a revelação de quem efetivamente exigiu o extermínio na vereadora negra e carioca. Ora, de posse do poder de Estado e sem nenhuma das veleidades democráticas (Marx) bem pensantes da esquerda legalista, era e é natural que o grupo de direita que o detém fez, faz e fará de tudo para ocultar os responsáveis: dos 9 tiros disparados pelos sicários a soldo contra Marielle Franco.

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Arthur do Val – que se diga era até bem pouco tempo aliado de Sérgio Moro – foi uma das figuras mais representativas do que alguns chamam de a nova direita brasileira. De certo modo, entendidas as coisas com ponderação aqui, ele é um dos “responsáveis”, responsável indireto e com um grau significativo de distanciamento desse indireto, pelo que ocorreu no dia 14 de março de 2014 no Rio de Janeiro. É preciso lembrar que naquele contexto a cidade do Rio estava ocupada pelas forças militares sob o comando de Braga Neto; a Lava Jato estava com o prestígio absolutamente incólume dado os vínculos com a mídia empresarial; as ideias de mercado organizam o debate sobre o futuro do país; a esquerda era sem trégua alguma qualificada de corrupta (que bela é a vingança da história); e os personagens da direita eram recebidos em todos os salões sociais e do poder como os jeovás da pátria: era na verdade o Katechon da vez. Arthur do Val era um deles.Charge do Zé Dassilva: Mamãe, Falhei! | NSC Total

Hoje a classe média, seja a conservadora, a de profissões liberais, a intelectualizada, a progressista, tem comportamentos de aversão à figura de do Val – mas no arco em questão se felicitavam e regozijavam de quando ele ia a manifestações de movimentos e grupos de esquerda os mais variados, que na maioria das vezes compunha-se de pessoas a lutar por uma vida minimamente mais digna, e fazia questões aos presentes, questões e perguntas para tentar humilhar os já humilhados, para tentar desprezar os já desprezados, às mais absurdas, como: “você sabe o que é mais-valia?”, “o que você acha do Che-Guevara?”, “você sabe o que é déficit fiscal?” etc. (Sim caro Arthur do Val! Todos e todas sabem o que é “mais-valia”, sabem quem “foi Che”, e “entendem” das implicações do não-déficit fiscal.).

Entretanto, eis que o (ex)aliado de Moro, e que é preciso e necessário divulgar, ainda falava e fala pelas forças de direita, pelos agentes de mercado, o capital e/ou a burguesia na boa teoria socialista clássica, (ele foi um contundente defensor das reformas previdenciárias contra funcionários públicos em São Paulo), e pelos conservadores do momento parte em uma viagem para a Ucrânia, junto com Renan dos Santos (e seu rosto menino de baladeiro das boas casas noturnas de São Paulo). Lá, no país com sua população, a maioria de trabalhadores e setores médios sofrendo a realidade de uma guerra não planejado por eles, muito pelo contrário, ele “revela” a que tipo de grupo e setor político e social estamos a enfrentar. Misoginia será pouco para qualificarmos as palavras de Arthur do Val (que diga-se alguns setores fingem que não é com eles de que se trata, é vergonhoso como meios de comunicação e outros setores do espectro político trataram o caso, se fosse alguém de esquerda que no Brasil se quer pode cometer o menor deslize, mesmo que de avaliação sincera e de tomada de posição as exigências seriam bem outras).

O chefe do MBL (Movimento Brasil Livre), que tramou junto aos seus – a saber, o próprio Sérgio Moro, Aécio Neves, o Vem pra Rua, Kim Kataguiri, Brasil Paralelo, o Instituto Mises, o Instituto Millenium, Eduardo Cunha, Pondé e outros colunistas de livre pensamento e democratas (são tantos), os economistas das muitas XP’s espalhadas pelas Farias Limas a fora (André Esteves do BTG à frente), Olavo de Carvalho, PSDB, DEM, Jair Bolsonaro e o espírito-Ustra – a deposição de Dilma Rousseff, um golpe palaciano lapidado como quem lápida cuidadosamente uma pedra de diamante para a Vivara (e que agora, claro, exercita a diversidade racial), com a idêntica alma-santa que o fez mentir e criar Fake News sobre Marielle Franco, mas à época a santa aliança deu de ombros, foi à Ucrânia demonstrar de fato o que pretende como político brasileiro.

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Quer, não nos esqueçamos disso, o esmagamento prático e simbólico de todos os subalternos: mulheres, negros, trabalhadores, LGBTQI+ e indígenas. Lembrar que há 1500 dias Marielle nos deixou pelas mãos e mentes de figuras-tipo como Arthur do Val e seus consortes, novamente entendidas as coisas ponderadamente, ou seja, cultivarmos a memória como irrupção do passado no presente-futuro, pode nos levar não só a redimir a vereadora negra de esquerda, como a de todas e todos que caíram e caem na luta de classes-raça árdua, às do cotidiano e às da emancipação radical.

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16
Jan22

Ana Júlia contra o fascismo e a liga da justiça de Moro e Francischini

Talis Andrade

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Aos 21 anos de idade, estudante de Filosofia (UFPR) e Direito (PUCPR), a suplente de vereador de Curitiba (PR), Ana Júlia Pires Ribeiro (PT), coloca seu nome como pré-candidata a deputada estadual para a eleição de 2 de outubro de 2022 no Paraná.

Ela ficou famosa quando apareceu no plenário da Assembleia Legislativa em 2016, ao defender alunos que estavam ocupando escolas em todo o Estado em nome de mudanças no ensino médio.

Na disputa por uma cadeira na Câmara Municipal de Curitiba em novembro de 2020, ela obteve 4.538 votos, ficando à frente de 18 candidatos eleitos. A capital Curitiba conta com 38 vereadores.

Jornalistas, professores e estudantes avaliaram o desempenho de Ana Júlio nas urnas, na disputa por vaga no Poder Legislativo municipal, como "muito bom", "brilhante".  Uma campanha "muito vitoriosa".

Segundo Ana Júlia, "uma campanha muito à esquerda e muito marcada com as pautas da esquerda, que foi muito atacada pela extrema direita; foi uma das campanhas que mais sofreu ataques da direita fascista em Curitiba, inclusive judicialmente também. Tive mais processos que a campanha majoritária".

No quesito "dar-o-que-falar", sua campanha protagonizou polêmica, com projeções de imagens provocativas, que desafiaram o discurso de ódio do delegado Francischini (PSL). Na semana final da campanha, renovou a dose, com projeções de posições políticas, entre outros lugares, na sede da Havan. 

Na última eleição municipal, o PT curitibano elegeu Carol Dartora (8.874 votos), Professora Josete (5.856) e Renato Freitas (5.097). Faltou então poucos votos para conquistar uma quarta cadeira - e Ana Júlia é a primeira suplente do partido.

Confira o vídeo a seguir:

Pode ser uma imagem de 1 pessoa, em pé, céu e oceano

Escreveu Ana Júlia no Twitter: "O Enem foi marcado pela crise no INEP, menor número de inscritos em 16 anos, interferência do governo para mudar questões, denúncias por fraude e censura... Quantos estudantes perderam a oportunidade de acessar a educação superior de qualidade por culpa do Bolsonaro? #Enem2021" 

Para Ana Júlia, "Curitiba é uma das capitais mais desiguais do Brasil. Precisamos de políticas de reparação histórica. É urgente políticas de ações afirmativas para a população negra e indígena em Curitiba #AprovaJáCotasRaciais" 

E denuncia: "Bolsonaro segue criando medidas de RETROCESSO no país! Cada dia que passa fica mais difícil a realidade de estudantes brasileiros que precisam do auxílio de políticas públicas pra terem acesso ao ensino superior de qualidade.

A proposta de Bolsonaro é um absurdo! Quem estudou a vida toda em escola pública e teve uma realidade com muito menos direitos terá que disputar as bolsas com pessoas que sempre tiveram inúmeras facilidades, privilégios de classe. A medida acaba com a verdadeira proposta do programa!

Bolsonaro assinou medida provisória que libera o acesso de estudantes de escolas particulares ao Programa Universidade para Todos (Prouni), alterando o caráter inclusivo do projeto.

O programa, criado por Fernando Haddad (PT), quando ministro da Educação do governo Lula que fundou 18 universidades, em 2005, concede bolsas de estudo integrais e parciais em faculdades a alunos que concluíram o ensino médio na rede pública ou com bolsa de estudo integral em colégios privados.

Mesmo que a medida preveja que o candidato precise comprovar renda familiar bruta mensal de até 3 salários mínimos, sabemos que muitas famílias ricas sonegam impostos e isso dificulta ainda mais o caminho de quem realmente precisa da bolsa".Pode ser uma imagem de texto que diz "HÁ 5 ANOS OCUPÁVAMOS AS ESCOLAS CONTRA O AUTORITARISMO DA REFORMA DO ENSINO MÉDIO E PELA DEFESA DA ESCOLA DEMOCRÁTICA @NAJULIA.RIBEIRO"

Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas

Pode ser uma imagem de texto que diz "HÁ TAMBÉM EXATOS 5 ANOS, FALE NA TRIBUNA DA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO PARANÁ SOBRE AS OCUPAÇÕES, ONDE DISCUTÍAMOS UMA ESCOLA DESCENTRALIZADA, MENOS HIERÁRQUICA, COM MAIS AUTONOMIA E QUE TRABALHASSE COM A COMPLETA EMANCIPAÇÃO DOS ESTUDANTES @NAJULIA.RIBEIRO"

Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas e ao ar livre

Pode ser uma imagem de texto que diz "A GERAÇÃO DOS ANOS 2000 JÁ MOSTROU A QUE VEIO. PROVOU QUE SABE E QUER FAZER POLÍTICA. DEFENDEMOS NOSSAS ESCOLAS E A EDUCAÇÃO PÚBLICA, A DEMOCRACIA E A SOBERANIA NACIONAL. A LUTA NÃO ACABOU E NÃO ACABARÁ TÃO CEDO. PERMANECEREMOS E CONTINUAREMOS FIRMES @NAJULIA.RIBEIRO"

Pode ser uma imagem de texto que diz "OCUPADO"

Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas, pessoas em pé, riscas e texto que diz "PADO"

 

14
Jan22

Cobras e lagartos

Talis Andrade

 

Por Elenira Vilela

Devemos ocupar os espaços com os pontos centrais do programa da esquerda e debatê-los com a população em todos os lugares

O debate no campo da esquerda tem sido praticamente monopolizado por alguns temas e eu pouco me manifestei sobre eles. Tenho sido cobrada por muitos e muitas militantes e dirigentes, então entendo que no papel que ocupo devo alguns esclarecimentos.

A primeira questão é: por que não escrevi mil textos e (quase) não entrei nas tretas sobre esses temas? Ou porque acho que eles são secundários e já tem muita gente se posicionando ou porque penso que mesmo sendo importante o que supostamente combate determinada posição penso que acaba por fortalecê-la pelo método de enfrentamento.

Então, não se sinta enganada(o), mas primeiro eu vou falar do que considero deveria estar tendo todo o peso nos nossos debates e depois vou falar pontualmente de cada caso desse. Não, não pule a leitura direto pra lá! O que é importante é importante e quantidade gera qualidade, se a gente só fala de um assunto a gente transforma ele em importante mesmo que a gente sempre comece falando que não é o centro ou qualquer outra tergiversação. Então dedique alguns instantes à leitura disso, antes de chegar lá nas polêmicas do momento.

 

O programa da esquerda

Considero que toda a militância de esquerda deve dar importância a debater insistentemente o programa que deve ser defendido por todas as candidaturas de esquerda. Não, não acho que devemos esperar Lula, a Fundação Perseu Abramo, a direção do partido ou quer que seja abrir essa pauta, esperar sermos convidados a uma reunião e aí darmos nossa opinião. Penso que devemos ocupar os debates com os pontos centrais do programa e debatê-los com a população em todos os lugares.

Temos que fazer a quantidade de manifestações públicas tornar central o nosso programa: seja na fala de militantes, dirigentes, parlamentares, grupos políticos sobre o fato de que o governo e as representações parlamentares em todos os seus aspectos, desde a escolha das(os) candidatas(os) e mesmo da formação de candidaturas coletivas, passando pelos debates e eventos organizados (sejam presenciais ou virtuais), os posicionamentos públicos em entrevistas ou materiais divulgados e nos debates com comunidades em seus territórios, bases sindicais, segmentos sociais organizados (especialmente os que tem tido maior capacidade de mobilização: movimentos feministas, movimentos negros, movimentos periféricos, movimentos sindicais das diversas categorias: especialmente educação, serviço público, entregadores antifascistas, saúde, petroleiros e transporte, entre outros; movimentos das torcidas organizadas de futebol antifascistas e de esquerda, ocupações e movimentos por moradia, movimentos de pessoas com deficiência, movimentos de pessoas em situação de rua, movimentos de solidariedade a pessoas pela fome e contra a violência, entre outros), tudo que se fala tem que abordar o nosso programa.

E qual é o nosso programa? Um programa de governo de reversão profunda das políticas neoliberais e avanços democráticos e populares como:

(1) a revogação do teto de gastos dos direitos (EC 95); das reformas trabalhistas e previdenciária; da lei das terceirizações das atividades fim e avanço no sentido do novo Estatuto do Mundo do Trabalho proposto pelas centrais Sindicais; da autonomia do Banco Central; do enfraquecimento da legislação de preservação ambiental da liberação de agrotóxicos, da facilitação da mineração, do desmatamento, da grilagem, de criação e manutenção de unidades de conservação e de demarcação e proteção de terras indígenas e quilombolas e de proteção de povos e atividades tradicionais;

(2) de reversão e anulação, interrupção de privatizações em qualquer âmbito com a revogação do Plano de Parcerias e Investimentos (lei 13.334/2016); (3) da revogação da Reforma do Ensino Médio e das mudanças no ENEM, no PROUNI, no FIES; (4) forte reversão das prioridades orçamentárias, retomando investimento em educação, saúde, moradia, assistência social, cultura e todas as áreas que tem a ver com direitos sociais e trabalhistas, com a soberania nacional e política econômica voltada ao povo e não à facilitação do aumento das taxas de acumulação do grande capital financeiro, latifundiário, mineiro, de igrejas fundamentalistas, da indústria armamentista e das grandes empresas de mídia burguesa;

(5) alteração substancial da política econômica, com reversão da tendência de alta das taxas de juros básicos, da mudança substancial das política cambial (que exige a revogação da política cambial recém sancionada por Bolsonaro no apagar das luzes que entrega ao BC autônomo e ocupado pelos agentes do mercado), da retomada do investimento na economia, especialmente na infraestrutura, gerando empregos direta e indiretamente e investindo na reindustrialização e no desenvolvimento, incluindo volumes altos de investimento na ciência, tecnologia e inovação, incluindo busca ativa pelo retorno dos cérebros que evadiram do país desde o golpe viabilizado pela cobrança de impostos sobre dividendos e grandes fortunas e heranças, incluído a auditoria da dívida pública;

(6) retomada da política externa altiva e ativa com prioridade para as relações sul sul, fortalecimento dos BRICS e CELAC e defesa da paz e autonomia dos povos, com uma profunda reconstrução dos instrumentos de defesa da soberania nacional, incluindo revogação de legislações que facilitaram enormemente a compra de terras por pessoas e empresas estrangeiras, retomada dos instrumentos de defesa do espaço aéreo;

(7) defesa de um governo radicalmente (no sentido fundante dessa palavra de que busca enfrentar os problemas a partir de suas raízes históricas e estruturais) antirracista, feminista, anticapacitista, antiLGBTfóbico, contra a toda a forma de opressão e discriminação e promotor da igualdade material por meio de políticas de equidade com a defesa de indígenas e quilombolas. Um governo que retome e amplie as medidas na busca por Memória, Verdade, Justiça e reparação, em relação aos crimes de Estado nas ditaduras e ao longo da colonização e escravidão;

(8) alteração na regulação do funcionamento das forças armadas e forças internas de segurança, mantendo-as longe da política, com a mudança da formação para uma que respeite os direitos humanos, que extermine a ideologia do inimigo interno e não permita que o povo ou qualquer segmento dele seja tratado como inimigo, fim da xenofobia, do elitismo e do anticomunismo nessas forças e promoção de segurança pública por meio de inteligência, enfrentamento aos crimes financeiros que sustentam o crime organizado e desmilitarização e unificação (ou pelo menos articulação) das polícias e fim da guerra às drogas como política de extermínio da população negra para uma política de saúde pública em relação ao consumo e de legalização e controle sobre a venda;

(9) regulamentação constitucional dos meios de comunicação privada e recriação de todos os órgãos extintos ou que sofreram intervenção como a EBC, a rádio MEC, a Cinemateca, o Arquivo Nacional, a Voz do Brasil e a Rede Brasil para a retomada de seu papel soberano, de democratização da comunicação e preservação da história nacional, além da retomada da prioridade ao fomento e regulamentação da comunicação popular, como de rádios e jornais comunitários, veículos de mídia independente como portais e canais populares e de organizações da classe trabalhadora e dos movimentos populares;

(10) enfrentamento com urgência da fome (retomando e ampliando o Bolsa Família e a política de estoques reguladores de alimentos) e dos efeitos da pandemia e do golpe, aí incluindo atendimentos especiais de saúde especialmente aos sequelados pela COVID, pela fome e por transtornos emocionais decorrentes da desestruturação social, do desemprego e dos longos períodos de isolamento (aí incluídas as sequelas da violência doméstica) e assistência social (retomada da construção e fortalecimento cada vez maior do SUAS) e busca ativa e investimento para recuperar a evasão e as fragilidades na formação da educação formal durante a pandemia por falta de condições de trabalho às profissionais da educação e de acesso a estudantes de todo o país por falta de condições de acessar aulas e materiais do ensino não presencial;

(11) Prioridade absoluta às crianças brasileiras reconhecidas como sujeitos de direitos e à maternidade na sua contribuição social, com investimentos pujantes em todas as políticas públicas que devem beneficiá-las e protegê-las, além de promover seu desenvolvimento pleno e a reparação das sequelas que os ataques à infância promovidos desde o golpe deixaram. O mesmo com a população idosa do país; defesa radical da laicidade do Estado, com enfrentamento à credonormatividade, com o fim dos privilégios a determinadas denominações religiosas que tem sido aparelhadas como verdadeiros mercadores da fé enriquecendo uns poucos e promovendo ideologias antipopulares, assim como a defesa radical da tolerância religiosa punindo qualquer manifestação de intolerância e discriminação religiosa especialmente contra religiões dos povos originários e de matriz afro, mas também contra a islamofobia e qualquer outra forma de opressão por meio da imposição de valores religiosos de determinados grupos ao conjunto da população;

(12) mudança da política de tarifação pública, especialmente da energia elétrica e da Petrobrás, de maneira a desvincular dos preços internacionais, retomar a cadeia de produção e distribuição até o consumidor final de maneira a garantir o manejo deste setor tão estratégico e permitindo enfrentar uma das maiores causas da inflação galopante que vem indexando a economia nacional. Reestruturação do Estado com reorganização das careiras, reposição salarial, reabertura de concursos e ampliação de efetivo, fim das intervenções em universidades federais e nas atividades técnicas dos setores. Realização do Censo ampliado e melhorado.

 

Teoria e prática

Bom, vou parar por aqui porque quem sou eu pra escrever o programa completo, não é mesmo?. Mas alguns dirão: impossível! Esse é praticamente o programa da revolução e não temos força social pra bancar isso.

Bom, primeiro não é há nada de revolucionário nessa lista. Ninguém está sendo expropriado de seus meios de produção, nenhuma tomada do Estado pela classe trabalhadora por armas, nenhum planejamento completo da economia e da vida social, nada de fim da propriedade privada, nem mesmo dos meios de produção, nadinha. Bem longe disso. Absolutamente tudo é nos marcos da social democracia capitalista com menores níveis de exploração e opressão.

Segundo, é verdade que não temos correlação de forças para aprovar vários pontos desse programa nem mesmo no âmbito do PT e maiores dificuldades para aprova-lo na sociedade. Mas qual é nossa obrigação? Tensionar de maneira responsável mas contundente a que o programa seja o mais avançado possível e deixar claro que o movimento social organizado e a classe trabalhadora vai lutar por ele, o que for para o programa de governo e vencer, ótimo! Se ganharmos, o que for implementado como política de governo: melhor ainda! O que ficar fora será objeto da disputa social, das lutas de rua, da pressão nas conferências e nos diversos mecanismos de participação política e de greve e paralisações. A guerra contra a burguesia não terminou, não terminará se elegermos Lula e mesmo que metade do Congresso Nacional seja do PT, do PSOL e demais partidos de esquerda e centro-esquerda…

A gente sabe disso na teoria desde sempre. E na prática também, basta olhar para todos os exemplos na história do Brasil, da América Latina e do mundo. Como conta a anedota do filme Democracia em vertigem quando algum político encontra um mega empresário da indústria de construção civil e pergunta “Ué, você por aqui?” ao que o empresário responde “Nós estamos sempre por aqui, vocês é que vem e vão”. A burguesia já está pressionando o futuro governo Lula e temos que fazer o mesmo.

Mas assim vamos acabar prejudicando a candidatura? Bom, temos que tomar todos os cuidados pra que isso não aconteça, mas isso não impõe uma aceitação calada de qualquer atitude do Lula, da DN ou da coordenação nacional da campanha que virá a se formar. Por isso escrevi o texto sobre a importância dos setoriais, por exemplo.[1] É preciso estabelecer uma ligação mais profunda com os diversos setores sociais, como defendem o Mano Brown ou o Galo e essa ligação também vai ter resultados eleitorais e resultados na defesa da continuidade e realizações do futuro governo. Então ela é essencial, pro antes, pro durante e pro pós eleições, tanto pra que Lula possa concorrer, para que ganhe e com uma base parlamentar grande, que tome posse, que governe e que faça o governo que queremos e defendemos.

Além dessa relação com a ampliação da base social de militantes e simpatizantes atuantes, outro aspecto é enfatizar cada vez mais que dirigentes, lideranças, pessoas públicas e candidatos nossos fizerem propostas condizentes, próximas ou de afirmação desse programa precisamos amplificar, nas redes, nos debates, nos meios de comunicação a que tivermos acesso, nos debates partidários, setoriais e na nossa atuação de base. Quando alguém fala algo que discordamos muito costumamos dar um super destaque, criticar muito, fazer textões em resposta. Quando fala algo que a gente concorda tratamos como “não faz mais que a obrigação”. O efeito disso é que é muito mais fácil saber o que somos contra do que o que somos a favor, mesmo entre os nossos. Só que isso é contraproducente no debate com a base: precisamos dedicar mais tempo a valorizar o que concordamos para aproximar as pessoas e depois fazer o debate sobre o que discordamos já com perspectivas de luta que seja alterado e incorporado ou avance naquele sentido.

Mas para isso é preciso colocar a racionalidade antes do fígado. Eu não estou dizendo que não podemos criticar a postura de um dirigente, quem me conhece sabe que eu faço isso e muito. Mas eu não faço só isso. E não faço principalmente isso, especialmente em contextos amplos externos, mas nem internamente. E se fiz (e eu sei que fiz) estava errada. Se você vir posicionamentos do Lula pela revogação da Reforma Trabalhista, de um (a) dirigente pela descriminalização e legalização do aborto ou de um(a) governador (a) pela desmilitarização da polícia, divulgue bastante, debata com a base o porquê de ser fundamental e então porque é fundamental (re) eleger aquela pessoa ou alguém que ela apoie.

Além de toda essa mobilização em torno do programa e da construção de candidaturas condizentes com ele (sim, é óbvio que isso vai chegar no Alckmin, mas lê só mais um pouquinho), temos que pensar e organizar a nossa atuação nesse ano eleitoral. Primeiro essa atuação não pode girar somente em torno de atividades eleitorais, nem mesmo pra você que acha que tudo gira em torno de eleição. Como eu disse anteriormente o processo será muito difícil e a mudança na correlação de força na sociedade não acontece apenas, nem mesmo principalmente, com votos.

É preciso manter todo mundo militando e mobilizado, fazendo luta, pressionando, barrando as maldades do projeto do golpe que o governo está aprovando e isso significa que ainda vai ter mobilização Fora Bolsonaro e precisam ser cada vez maiores, que devemos fazer greves, mobilizações específicas contra a boiada passando, luta por manter serviços e criar ou fortalecer organizações de base (territoriais, temáticas ou por categorias ou locais de trabalho) que servirão de ponto de apoio para criação de comitês em todos os cantos do país para eleger Lula e deputadas(os) federais, senadoras (es), governadoras (es) e deputadas (os) estaduais.

Sobre isso a terceira tarefa: faça campanha para deputada(o) federal tanto quanto faça pra Lula. E sem essa de campanha pra legenda, porque infelizmente brasileiro, em sua maioria, não é politizado o suficiente pra votar em partido, é preciso não deixar a pessoa votar naquele que o filho ou a vizinha dizem que é gente boa da região e convencer as pessoas a votar em uma pessoa específica e se por algum motivo a pessoa rejeitar sua primeira opção, tenha mais duas do partido no bolso. Mas nunca ofereça três ou quatro ao mesmo tempo, isso não passa firmeza, parece que pra você tanto faz e voltamos ao indicado pela vizinha que é da região.

E agora o que você queria:

 

O debate conjuntural

Sobre a federação: sou a favor se for com o PCdoB porque eles precisam disso pra sobreviver e alguns pontos específicos tem que ficar muito acordados e assinados. Sobre demais partidos, aí incluídos o PSOL e o PSB, não acredito que as necessidades por criar a federação superem as questões envolvidas nas demandas por cenários estaduais, então não acho que seja algo com o que se preocupar verdadeiramente. As chances, por exemplo, de fechar com o PSB são quase nulas, visto que é praticamente impossível fechar acordos suficientes nas eleições estaduais de São Paulo e de Pernambuco, o que já é suficiente para que a federação não saia.

Eu sou contra mesmo que fosse possível, por vários motivos. Mas se tenho 98% de certeza que não vai chover, não levo guarda chuva. Principalmente quando vi que tem um monte de amigos carregando um. Concordo com a maioria das pessoas que escreveu em contrário a essa construção de federação com o PSB, com o Julian Rodrigues.[2]

Sobre Alckmin: não vou entrar no debate de quem é o autor, mas sim do porque avalio que prosperou, dois motivos: (a) uma parte da direção nacional do PT e dos mais próximos da campanha Lula avaliam que tirar Alckmin da disputa de São Paulo contribuem e muito para eleger Haddad; (b) a burguesia vê como forma de encaminhar o plano C deles para as eleições, conforme André Esteves, a saber: colocar a canga no provável governo Lula. Apesar de achar que muitos esforços devam ser envidados para eleger Haddad governador, afinal ter o governo do maior estado da federação em PIB e em população tem peso enorme na correlação de forças na superestrutura e é determinante para muita coisa, inclusive pra ampliar significativamente a bancada de esquerda na Câmara, eu tenho muitas dúvidas que isso seria suficiente ou mesmo necessário, afinal a força da máquina tucana seguirá na mão de tucanos, mas a volatilidade dos votos está grande e pode fazer virar o vento em São Paulo.

Não acho esse argumento suficiente para aceitar o segundo motivo pelo qual essa história ganhou as manchetes; a burguesia quer colocar a canga no governo. E ela vai fazer isso de qualquer forma: tentando manter o BC autônomo da vontade do povo e a seu serviço como está, pressionando por reformas como fez quando exigiu uma Carta ao povo brasileiro e depois logo no primeiro ano de governo Lula uma primeira reforma da previdência que retirou muitos direitos.

E mesmo sabendo que essa pressão vai rolar sempre, quanto mais longe do centro do governo estiver melhor, então não é aceitável alguém com o perfil do Alckmin na chapa. A presença dele mobiliza menos voto a favor do que vai retirar, por dois motivos: (a) quando alianças são feito a primeira soma é de ônus e não de bônus e pouquíssimo da base de apoiadores do Alckmin virá com ele; (b) vai desmobilizar não necessariamente votos, mas militância. Esse ano a eleição será uma guerra e precisaremos de toda a militância com sangue nos olhos e muito tesão para rebater o mar de mentiras que serão veiculadas pelo Telegram e assemelhados, para estar na rua consolidando a base e o programa, além da base parlamentar e o que se ganha lá se perde aqui muito mais, em um lugar que não podemos nos enfraquecer.

Nesse caso, confesso que acho que a discussão está andando com argumentos fracos de lado a lado e acho que a forma como vai se encaminhando tem significado, mesmo que a aliança não se consolide, muito mais como uma execução do plano de canga no nosso possível futuro governo, porque aceitamos a versão de que o jantar do grupo Prerrogativas foi armado pra esse encontro, o que é simplesmente falso, ou que o encontro dos dois era o fato mais importante do jantar, quando a arrecadação – que não foi pra homenagear Lula, mas para a campanha contra a fome e o evento é anual – e a fala da Coalizão Negra naquele espaço e para aquela plateia de homens brancos ricos ou com prestígio e porque divulgamos ridículas teorias conspiratórias de que Dilma não foi convidada, o que novamente é falso.

Lula pode conversar com Alckmin? Pode, principalmente quando é o França ou outra pessoa que demanda. Ele vai conversar com a direita, com golpistas, com gente da burguesia? Vai. Eles que o estão procurando, porque eles não podem ignorá-lo mais e isso é ótima notícia. Problema seria se Lula desse prioridade ou pior ainda exclusividade a esse tipo de agenda. Mas não, ele tem feito agenda com catadores, movimento negro, sindicalistas do serviço público e centrais sindicais, petroleiros, juventude, agricultores familiares e nessas agendas ele faz algo que poucos dirigentes e lideranças mesmo de esquerda fazem: ele escuta, presta atenção, não fica ali de corpo presente, olhando pro celular e preocupado que chegue logo sua vez de falar e poder sair.

Essa postura é fundamental e todo mundo precisa adotá-la. Aqui em Santa Catarina o pré-candidato ao governo só se reúne com dirigentes partidários de siglas de esquerda e centro (e mesmo de centro direita), quase todos homens brancos e velhos que provaram eleitoralmente que representam muito pouco da sociedade. E isso é problema e infelizmente eu sei bem que não é um problema exclusivo de uma pessoa ou de um PT estadual.

Sobre Quáquá, Cantalice, identitarismo e ataques à Dilma e relativização do golpe. Bom Washington Luiz, que é o nome do Quáquá infelizmente é uma perda pessoal pra mim. Nos conhecemos há quase 30 anos, fizemos movimento estudantil juntos e já fomos muito próximos. Eu reconheço o importante trabalho que ele fez na prefeitura de Maricá, com projetos emblemáticos e que são exemplo a ser seguido. Mas no debate interno e no debate da pauta das opressões vem mudando e pra pior há anos. Ele cortou relações comigo quando um dia fez uma postagem dizendo que a “deputada fulana devia rodar bolsinha ao invés de perder seu tempo criticando-o na tribuna”, ou algo do tipo.

Não posso recuperar o texto literalmente porque na ocasião me bloqueou em todas as redes depois que eu debati que não podemos ser misóginos e machistas nem quando criticamos pessoas da direita. A conversa evoluiu e ele me contou que a pessoa criticada em questão era um homem que inclusive respondia acusações de bater na própria mulher. Aí eu realizei que no conceito dele ao chamar o sujeito no feminino isso já era um xingamento, ou seja o xingamento era ser mulher, pra ele ser mulher é depreciativo. Ser mulher e profissional do sexo é outra forma de xingar adequadamente um homem e que bate em mulher. Ele não o xingou de agressor de mulher, o xingou de mulher. Obviamente que eu fiquei deveras irritada e fui bastante incisiva do quanto ele estava sendo machista ao agira daquela forma e ele acabou por me chamar de pseudofeminista e usar os mesmos argumentos que insiste em usar hoje: estar certo falar assim porque ele é da favela, ele estava sendo sincero e o movimento feminista não entendeu, é histérico e só atrapalha a verdadeira luta do povo.

Ser da favela não o autoriza a ser machista, porque se o povo da favela reproduz o machismo e a misoginia estruturais, também são suas maiores vítimas, já que na favela o que mais tem é mulher e mulher preta. As que mais sofrem estupros são as mulheres pretas, elas também são 60% da classe trabalhadora brasileira, elas também ganham 30% em média do que um homem branco ganha, então ser da favela e defender a favela exige ser feminista e antirracista e ensinar os manos a deixarem de ser misóginos e machistas e não se afirmar apoiando o machismo que eles reproduzam. Já falar a língua do povo não exige e Lula veio aprendendo isso ao longo do tempo e hoje ele segue falando a língua do povo reproduzindo cada dia menos machismo e racismo.

Esse argumento do sincerão é o mesmo do Bolsonaro, eu falo no microfone o que os outros falam nos cantos. Bom, isso não é uma qualidade, é um defeito. É um avanço quando alguém não muda seu próprio pensamento, mas reconhece que ele é inadequado a ponto de se regular para não expressá-lo publicamente. Óbvio que o ideal era que a pessoa não pensasse assim e isso é expurgar o preconceito e a opressão entranhadas. Por isso em certo momento houve uma campanha que perguntava: onde você guarda o seu racismo? Mas ao encontrar você deveria expurga-lo e não afirma-lo. E o mesmo vale para machismo e LGBTfobia. Por isso também a gente diz que as LGBT não vão voltar para o armário, mas seu preconceito e sua discriminação devem voltar, ou ir pro lixo, que é o objetivo final.

Por último, as mulheres estão fazendo uma tempestade em um copo d’água ou não entenderam o que ele disse e a crítica não é machista, é apenas uma constatação política. Não é quem bate que diz o quanto dói e onde dói, é quem apanha. Dia desses, o Luís Felipe Miguel escreveu “agora inventaram o identitarismo ostentação” (novamente não consigo recuperar as palavras textualmente, porque também fui bloqueada por ele em todas as redes porque estava tentando explicar a ele como ele escolhe criticar os movimentos contra as opressões muito mais do que os opressores) e nessa mesma linha vai o que li do Cantalice e sua pseudocríticas ao que eles chama conceitualmente errado de identitarismo. Como esse texto está virando um livro, eu coloco aqui pra você ler em outro momento o texto que fiz sobre isso.[3] Lá afirmo que o único identitarismo no caso é o dos homens privilegiados tentando defender seu direito que eles consideram sagrado de falar sobre tudo, mesmo do que não entendem, mesmo do que não sentem, mesmo do que não sabem. E explico também como é razoável agir quando alguém te conta que você está sendo machista, racista, lgbtfóbico e tals, spoiler: não é tentando dizer que continua certo e que os  movimentos são histéricos ou não entenderam.

Por último, afirmo que ele usou de outra tática do Bolsonaro nesse caso: falar coisas sabidamente polêmicas pra chamar a atenção. E conseguiu. Não acho que não deveria receber a resposta e insisto que ele precisa receber uma resposta formal da instância partidária a qual compõe e que representa (vice presidente do PT nunca dá entrevista pra manifestar posição pessoal). Mas não vou ficar falando dele por muito tempo, é dar o que ele quer e precisa.

Eu tenho muito prazer em falar do Quáquá pra falar da Mumbuca, do Vermelinho e do Hospital Ernesto Che Guevara, mas tentando crescer sobre alguém como Dilma Ivana Roussef? Não. Irrelevante é quem recebeu 54 milhões de votos ou quem recebeu 74 mil? Qual o critério? Não meço a relevância de ninguém assim. Muito menos de alguém como Dilma Roussef, a quem eu e Quáquá e quase ninguém faz nem sombra. E como bem disse o Ponciano… ela foi à praia e sorriu, porque nem gargalhar precisa.

Foi golpe. O golpe está em curso. Bolsonaro não é uma mudança de rumo do projeto do golpe, mas uma aceleração e aprofundamento desse projeto. Qualquer um que relativiza esse dado da realidade e tenta culpabilizar uma só pessoa por esse fenômeno da ordem sócio-metabólica do estágio atual do capitalismo é cego e incapaz de fazer análise (se for um cientista social a coisa deu muito errado) ou canalha e trabalha pra fortalecer o golpe e a classe que o promoveu e implementa.

Nota


[1] disponível em https://www.manifestopetista.org.br/2021/11/30/a-organizacao-setorial-do-pt-a-democracia-interna-e-a-capilaridade-da-militancia-petista/

[2] disponível em https://revistaforum.com.br/rede/federacao-partidaria-o-pt-deve-embarcar-nessa-onda-por-julian-rodrigues/#

[3] https://aterraeredonda.com.br/o-silencio-e-a-etica-ou-a-etica-do-silencio/?doing_wp_cron=1641780231.1889729499816894531250

28
Dez21

A MAIOR HONRA DE UM CRAQUE

Talis Andrade

Carlos Caszely, o goleador que ajudou a derrotar Pinochet | Esportes | EL  PAÍS Brasil

 

por Urariano Mota

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Na volta da democracia ao Chile, que estava ameaçado pelo terror fascista neste 2021, retomo um texto escrito muito antes, que o ZonaCurva republicou.

 

Um gol inesquecível contra Pinochet

Entre as imagens que nos vêm a partir do 11 de setembro de 1973, do dia em que houve o golpe militar contra Salvador Allende, entre tantas imagens vivas, uma poderia ser, com razão, do presidente Allende resistindo de capacete em último recurso, com alguns fiéis militantes às portas do palácio La Moneda. Essa imagem fala de um socialista democrata, que pela força das urnas julgava ter o poder, que é destruído ao fim, derrotado com a eloquência maior de bombas e crimes.

Outra imagem poderia ser também a que correu mundo, dos livros sendo queimados por soldados do Exército nas ruas do Chile. Em um país de grandes poetas e tradição humanista, essa foto escapou do paradoxo, porque ela se fez coerente com o assassinato do poeta Pablo Neruda pela ditadura. E depois, essa imagem dos livros no fogo é tão simples e pornográfica, ao mesmo tempo de tamanho didatismo sobre a ideologia fascista no seu carbono Pinochet, que um comentário passaria pelo já visto, ao lembrar e repetir ações de Hitler a Franco, todos ótimos queimadores de escritores, livros e inteligência.

Então falo rápido sobre uma imagem e personagem que marcam também. Não são muito divulgados no Brasil um gesto, a pessoa e o valor de Carlos Caszely. Ele foi um craque do futebol chileno. A wikipédia informa que Carlos Caszely é o jogador mais popular e querido da história do Colo-Colo e do Chile. Até hoje é chamado de El Chino, El Rey del Metro Cuadrado, ou de El Gerente. Mas o seu maior feito é este: astro da seleção de futebol do Chile, em cerimônia oficial dentro do palácio, no vigor de mortes e fuzilamentos de opositores, Carlos Caszely se negou a apertar a mão do ditador Augusto Pinochet.

Ou como ele próprio fala desse momento raro e belo, anos depois: “Eu ouvi passos. Foi pavoroso. De repente as portas se abriram. Apareceu uma figura vestindo uma capa, de óculos escuros e quepe. Tinha uma cara amarga, suja, dura. Ele foi cumprimentar cada um dos jogadores qualificados para a Copa. Quando ele se aproximou, eu botei minhas mãos atrás das costas. Ele estendeu sua mão, mas recusei a apertar. Como ser humano aquela era minha obrigação. Tinha todo um povo sofrendo nas minhas costas”. Mas que coisa.

As razões do gesto, desse heroísmo, são anteriores. Não foi um impulso louco. Antes, o jogador havia sido ligado ao ex-presidente Salvador Allende. Ele próprio, o jogador, socialista como o presidente morto. Depois do golpe, Caszely se transferiu para o futebol espanhol. E o que faz a canalha do regime no Chile? Perto da Copa de 1974, os militares sequestram, prendem e torturam a mãe do jogador. Supõe-se que isso era uma tentativa de calar Caszely e obrigá-lo a jogar pela seleção chilena. Entre os perseguidos da ditadura, ele era o principal jogador do futebol chileno, estrela do Colo-Colo e da seleção. Caszely achou o ato de tortura na mãe tão estúpido, que declarou recentemente:

“Ainda hoje não está claro por que fizeram aquilo. Eles a prenderam e torturaram selvagemente, e até hoje não sabemos de que ela era acusada. Recordo um país triste, calado, silencioso, sem risos. Uma nação que entrava nas trevas. Eu sabia o que viria de cima. Eu tinha medo. Não por mim, mas por meus amigos e por minha família. Eu sabia que estavam em perigo por minhas ideias”.

Então sua mãe é presa, torturada e solta, sem qualquer acusação. E pouco depois o jogador se encontra cara a cara com o ditador, na despedida para a Copa de 1974 na Alemanha. Este é o momento em que Caszely põe as mãos para as costas, enquanto Pinochet se aproximava a cumprimentar um a um. Caszely foi o único a rejeitar o ditador.

Enquanto escrevo, ao lembrar esse ato, sinto um cheiro de perfume, daqueles inesquecíveis, cujo cheiro e composição química vêm apenas da lembrança que cerca um gesto. Naquele maldito e mágico ano de 1973, quando o mundo conhecido vinha abaixo, no momento exato em que grandes eram as esperanças, houve esse gesto de Caszely tão pouco ou nada divulgado. Soube faz pouco tempo. Mas que coragem, podíamos dizer. E aqui, se espaço houvesse, deveríamos discutir o quanto estão errados os que julgam ser a coragem um atributo de valentões, de homens que zombam do perigo. Não é. A coragem é a fidelidade ao sentimento de honra, dever ou amor. Por isso dizemos: que afeto e grandeza em ser fiel ao mais íntimo sentimos naqueles braços para trás de Caszely, enquanto avançava contra ele o ditador. Com certeza, o jogador tremia, mas não podia ainda assim ceder à mão de Pinochet no cumprimento.

Não sei, mas esse me parece o maior gol de placa da história.

 

     

 
29
Out21

Mourão: mundo joga pedra no Jair

Talis Andrade

 

por Fernando Brito

O vice-presidente Hamilton Mourão, para explicar a ausência de Jair Bolsonaro na COP-26, conferência mundial do clima, porque lá “todo mundo vai jogar pedra nele”.

Apesar de Mourão sugerir que isso é obra “da esquerda” – “a maioria das pessoas que tem realmente uma consciência ambiental maior é de esquerda, então, há crítica política embutida nisso aí” – as pedradas, deveria saber Mourão, não vem só da esquerda e as maiores pedras partiram de governo de centro-direita na Alemanha e na França. Muito menos Joe Biden pode ser chamado de esquerdista, ainda que nossos bolsonaristas pensem assim.

A questão é o prejuízo que a falta de credibilidade – para dizer o mínimo dos mínimos – do governo brasileiro está bloqueando as possibilidades que nosso país tem, pela extensão e natureza de seu território, de aproveitar a crescente preocupação global com o clima para alavancar o desenvolvimento sustentável do Brasil.

O comércio de créditos de carbono promete, finalmente, deslanchar nos próximos anos e pagar, em dinheiro vivo, iniciativas preservacionistas por aqui, incrivelmente mais baratas e significativas que as que países desenvolvidos possam desenvolver. Estima-se que pudessem nos gerar até US$ 40 bilhões em 25 anos. Há oportunidades abundantes em preservação de mananciais, matas ciliares, reservas legais, sem impacto nas atividades econômicas e, até, com impactos positivos sobre a proteção do solo agrícola.

Estamos, porém, andando para trás: aumentamos, em 2020, em 9,5% nossas emissões de gases estufa, a maior elevação desde 2006. ao mesmo tempo que a retração econômica causada pela pandemia fazia as emissões mundiais baixarem 6,7%.

Temos tudo para ser o país em que o mundo não taca pedras, mas aplica recursos para a conservação que, em tempos nos quais a sustentabilidade – além de uma necessidade – também virou valor de mercado.

Mas isso nada adianta se passamos a ser a “Geni ambiental”, o país das queimadas, dos madeireiros e garimpeiros ilegais mas protegidos pelo presidente, da madeira contrabandeada sob a proteção do próprio Ministério do Meio Ambiente e da expansão da eletricidade em usinas térmicas poluentes.

Também nisso, maldito Jair!

 

03
Out21

"Fora Bolsonaro": imprensa europeia destaca atos a favor do impeachment do presidente brasileiro

Talis Andrade

 

O jornal francês Le Monde destaca que os protestos ocorreram em 84 cidades brasileiras, convocados por movimentos e partidos de esquerda, além de centrais sindicais. O diário ressalta que a principal reclamação é a gestão da epidemia de Covid-19, que deixou quase 600 mil mortos no Brasil. No entanto, os participantes dos atos também criticam o aumento nos preços dos alimentos, do gás e da gasolina, bem como a alta taxa de desemprego: mais de 14 milhões de pessoas estão sem trabalho no país. 

Le Monde também trata sobre a dificuldade do movimento de obter resultados concretos. "Mais de uma centena de petições que pedem o impeachment aguardam na Câmara dos Deputados, mas seu presidente, Arthur Lira, um aliado do governo, não dá sequência aos procedimentos. O Supremo Tribunal, por sinal, ordenou a abertura de várias investigações contra Jair Bolsonaro e seus familiares, especialmente pela disseminação de falsas informações", publica. 

O site da revista francesa Courrier Internacional lembra que esse é o sexto ato organizado contra o presidente desde maio, quando a oposição resolveu retornar às ruas depois de um ano de crise sanitária. A matéria lembra, no entanto, que essa foi a primeira vez que os organizadores contaram com o apoio da centro-direita e da direita, "com o objetivo de estender a frente de batalha para resistir os ataques de Bolsonaro contra as instituições democráticas e as urnas eletrônicas". 

 

"Uma figura odiosa"

Thom Philipps, o correspondente do jornal britânico The Guardian no Rio de Janeiro, acompanhou o ato na capital fluminense e conversou com os manifestantes, para quem Bolsonaro "é uma figura odiosa". A matéria lembra que pesquisas recentes mostram que 58% da população rejeita o presidente brasileiro.  

No entanto, com um apoio inveterado de 20% de sua base e o aval do centrão, um impeachment neste momento parece algo improvável para o jornal britânico. Para The Guardian, a única chance de tirar o Bolsonaro do cargo é através das próximas eleições, sobre as quais "sondagens mostram que ele perderia para qualquer adversário". 

Para o jornal português Público, a mobilização "Fora Bolsonaro" reforça a candidatura de Lula para as eleições de 2022, "que tem 45% das intenções de voto", ressalta a matéria. O diário dá destaque às manifestações "Fora Bolsonaro" organizadas por brasileiros que vivem em Portugal - as maiores ocorreram em Lisboa, Porto e Braga. 

 

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