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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

12
Jun21

Bolsonaristas atacam manifestante que protestava contra Bolsonaro durante sua visita no Espírito Santo (vídeo)

Talis Andrade

Sabia do risco de levar até porrada', diz jovem ofendida por bolsonaristas  no ES - ÉpocaImage

"Sinto que morri também", diz manifestante agredida por bolsonaristas em Vitória 

 

 A jovem Maria Clara Gama, de 27 anos, mestranda em Direito na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), foi verbalmente agredida na sexta-feira (11) por bolsonaristas no aeroporto de Vitória, no Espírito Santo. Ela protestava contra a chegada de Jair Bolsonaro à cidade e permaneceu em pé e em silêncio com um cartaz lembrando dos quase 500 mil mortos pela Covid-19 no país.Ao menos 44 outdoors foram espalhados em pontos estratégicos por onde possivelmente Bolsonaro passará no Espírito Santo - Reprodução / Movimento Impeachment Já

Marcus Rocha informa que em sua primeira visita ao Espírito Santo desde a sua posse, em 2019, o presidente Jair Bolsonaro foi recepcionado por 44 outdoors na capital Vitória e no interior do estado com mensagens como "fora, Bolsonaro".

As manifestações de protesto foram colocadas em pontos estratégicos. Por onde passou o cortejo presidencial.Visita de Bolsonaro ao Espírito Santo terá protesto em outdoors

Robson Maia
Chegada de Bolsonaro a Vitória/ES foi marcada por tumultos. Jovem com placa em referência aos quase 500 mil mortos pela pandemia foi hostilizada (com palavras de baixo calão e teve a placa rasgada por apoiadores do presidente), além de ataques à imprensa.

Ao jornal O Globo, a mestranda Maria Clara declarou: "Não escrevi ‘genocida’, nem falei as palavras de ordem comuns, nem ‘Fora Bolsonaro’. Só queria registrar que ele estava vindo criar aglomeração, para fazer campanha política antecipada aqui no Espírito Santo, não para trabalhar. E queria lembrar a situação que a gente está vivendo. Mas não fiz nenhuma crítica explícita".O Presidente Jair Bolsonaro cumprimenta apoiadores no aeroporto de Vitória

Maria Clara, no entanto, não conseguiu fazer contato visual com Bolsonaro. Ela ficou cara a cara com os raivosos apoiadores do governo. Um deles chegou a rasgar o cartaz que a manifestante segurava. A jovem contou não ter sido agredida fisicamente. "Não sofri nenhum ferimento, não fui agredida fisicamente. Mas já fui sabendo que isso poderia acontecer. Já sabia que eles iam chegar perto, ficar gritando perto de mim. Não falei nada, fiquei só com o meu cartaz".

O protesto silencioso, contou Maria Clara, foi uma maneira de reagir à sua sensação de impotência. "Estou respeitando o distanciamento social desde o início da pandemia, fazendo tudo o que posso. Vejo essas coisas acontecendo e parece que não é realidade. E eu não posso fazer nada. Sinto que morri também, não estou mais viva. Meu corpo está vivo, mas minha alma morreu junto com as pessoas. Todo mundo fala que um dia isso vai acabar, que vamos voltar à vida normal. Mas a gente nunca vai deixar de ser alguém que viu essa barbárie, essa indiferença com a vida. Nunca vamos voltar ao estado de antes. Vamos viver o resto das nossas vidas marcados por isso". 

27
Ago20

Mais de 4.000 pessoas com covid-19 morreram à espera por um leito de UTI em seis Estados brasileiros

Talis Andrade

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Dados levantados pelo EL PAÍS mostram como a pressão no SUS alijou pacientes no Rio, Minas, Espírito Santo, Rio Grande do Norte, Bahia e Maranhão durante a crise sanitária

por Beatriz Jucá

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Ao menos 4.132 pessoas morreram antes de conseguir chegar a um leito de terapia intensiva para o tratamento de covid-19 durante a pandemia do novo coronavírus em seis Estados brasileiros: Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia e Maranhão. O número, levantado pelo EL PAÍS com dados das secretarias estaduais da saúde, tenta dar pistas sobre o tamanho da pressão sofrida pelo SUS desde fevereiro, quando começou a crise sanitária no Brasil. O jornal procurou as 27 unidades da federação para saber quantas solicitações por uma UTI com perfil de covid-19 foram canceladas por morte do paciente em suas centrais de regulação ― setor que recebe todos os pedidos das unidades de saúde da rede estadual e os distribui conforme vários critérios, incluindo a gravidade do paciente. Essas mais de 4.000 mortes à espera por um leito retratam a situação em menos de um terço do país, já que apenas seis Estados informaram este dado, que pode incluir tanto os casos de desassistência por conta do colapso do sistema de saúde, quanto situações em que pacientes já chegaram tão graves que não houve tempo para colocá-los na terapia intensiva.

Em um país de proporções continentais como o Brasil, a epidemia se desenha em diferentes velocidades ao longo dos últimos seis meses. Os impactos observados até agora são muito distintos entre os Estados, historicamente marcados pela desigualdade que permeia o sistema de saúde. Nos primeiros meses da crise ―especialmente em abril e maio―, Amazonas, Ceará e Rio de Janeiro protagonizaram histórias duras da pandemia, com hospitais superlotados. Registraram longas filas de espera por um leito de UTI, onde são tratados os pacientes com a manifestação mais grave da covid-19. Em alguns locais, unidades de pronto atendimento chegaram a funcionar praticamente como hospitais, improvisaram leitos de estabilização para pacientes que precisavam ser entubados e instalaram até contêineres frigoríficos para armazenar corpos. Simplesmente não havia leitos de UTI suficientes para atender à demanda, embora gestores locais afirmassem que trabalhavam para expandir o sistema de saúde. Desde então, taxas de ocupação hospitalares têm caído, seja por sinais de arrefecimento de casos graves que demandam internação ou pelas vagas de UTI criadas durante a crise. (Continua)

14
Jun20

Gilmar Mendes diz que incentivar invasão de hospitais é crime

Talis Andrade

Brasilien Oberstes Wahltribunal in Brasilia - Gilmar Mendes (Getty Images/I. Estrela)

 

Fala de ministro do STF ocorre depois de Bolsonaro pedir que apoiadores filmassem interior de unidades de saúde. Filho do presidente reage e chama Gilmar de "doente mental”. PGR pede que invasões sejam investigadas

por Deutsche Welle

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF) afirmou neste domingo (14/06) que estimular a invasão de hospitais em meio à pandemia é um crime e pediu que o Ministério Público tome medidas contra quem defender essa prática.

A declaração do ministro ocorre dois dias após o presidente Jair Bolsonaro pedir para que seus apoiadores "arranjassem uma maneira de entrar" em hospitais públicos e filmassem as alas para verificar se os leitos estão livres ou ocupados. A fala de Bolsonaro, transmitida em uma live na quinta-feira, provocou repúdio entre médicos e autoridades estaduais e municipais.

Em mensagem no Twitter, Gilmar afirmou que "invadir hospitais é crime – estimular também”. "É vergonhoso - para não dizer ridículo - que agentes públicos se prestem a alimentar teorias da conspiração, colocando em risco a saúde pública”, escreveu o ministro, que pediu ainda que o Ministério Público tome providências.

Gilmar Mendes
@gilmarmendes

Invadir hospitais é crime - estimular também. O Ministério Público (a PGR e os MPs Estaduais) devem atuar imediatamente. É vergonhoso - para não dizer ridículo - que agentes públicos se prestem a alimentar teorias da conspiração, colocando em risco a saúde pública.

Nos últimos meses, Bolsonaro tem travado um embate com autoridades estaduais e municipais sobre a forma de gerir a pandemia de coronavírus. O presidente vem contestado, sem provas, os números de mortes e de casos. Na live de quinta-feira, ele afirmou, sem provas, de que o governo vem recebendo informações de que o número de mortes vem sendo inflado para "prejudicar o governo federal"

Nas redes sociais, contas ligadas à família do presidente também têm alimentado teorias conspiratórias de que os hospitais do país estão vazios, o que mostraria que a situação não seria tão grave.

Na última sexta-feira, após a fala de Bolsonaro, o Hospital Ronaldo Gazolla, no Rio de Janeiro, registrou um tumulto quando parentes de um paciente recém-falecido tentaram invadir uma ala do prédio para verificar a ocupação. Um médico relatou ao jornal O Globo que os envolvidos no tumulto citaram o pedido do presidente. No sábado, um grupo de deputados estaduais do Espírito Santo fez uma visita surpresa a um hospital no munícipio de Serra.

No início de junho, o hospital de campanha do Anhembi, em São Paulo, também havia sido alvo de uma ação semelhante por parte de cinco deputados estaduais. Na ocasião, os deputados fizeram lives em suas redes sociais, questionando se havia  leitos ociosos no local. A atitude foi condenada pela prefeitura, que afirmou que os parlamentares estavam "tentando enganar a opinião pública”.

Após os episódios, o procurador-geral da República, Augusto Aras, pediu uma investigação sobre invasão a hospitais e agressões a profissionais de saúde nas últimas semanas. Pelo pedido de Aras, os procedimentos vão depender do Ministério Público em cada Estado.

"Indubitavelmente, condutas dessa natureza colocam em risco a integridade física dos valorosos profissionais que se dedicam, de forma obstinada, a reverter uma crise sanitária sem precedentes na história do país", afirmou Aras, em ofício ao Ministério Público de São Paulo.

Ainda neste domingo, após a reação de Gilmar Mendes, o vereador Carlos Bolsonaro, um dos filhos do presidente e que é suspeito de coordenar o chamado "Gabinete do Ódio” - uma rede de propagação de ataques e fake news -, atacou o ministro. Sem citar Gilmar nominalmente, ele afirmou: "Só um bandido ou um doente mental para minimamente crer que o Presidente incentivou invasão a hospitais”.

Em mensagem no Twitter, Carlos ainda disse tudo que o presidente só teria estimulados os cidadãos a cumprir "seu direito de fiscalizar os gastos públicos”.

Carlos Bolsonaro
@CarlosBolsonaro

Só um bandido ou um doente mental para minimamente crer que o Presidente incentivou invasão a hospitais ao invés de entender que o citado foi para que cidadãos cumpram seu direito de fiscalizar os gastos públicos!

Também neste domingo, o líder da Oposição na Câmara dos Deputados, Alessandro Molon (PSB-RJ), informou que pretende apresentar uma notícia-crime na PGR (Procuradoria-Geral da República) contra o presidente Bolsonaro por causa da fala sobre os hospitais.

 

14
Jun20

Os profissionais de saúde no front da pandemia temem as hordas invasivas de Bolsonaro

Talis Andrade

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II - Relato da invasão a hospitais estimulada por Bolsonaro 

Os profissionais de saúde temem que a prática de invadir hospitais para filmar os locais se torne comum, após as declarações de Bolsonaro. Nesta sexta-feira, segundo relatos do jornal O Globo, houve uma invasão no hospital Ronaldo Gazolla, em Acari, no Rio de Janeiro.

"Essa fala dele faz com que muitas pessoas deixem de acreditar nos profissionais de saúde. Quando o mandatário do país, que teoricamente teria as melhores informações, pede para as pessoas invadirem os hospitais, gera desconfiança em muitos. Muitos podem acabar acreditando nessa bobagem que ele fala", afirma o médico intensivista José Albani de Carvalho, que atua em UTIs de quatro hospitais públicos de São Paulo.

Albani frisa que há grandes riscos de contaminação para as pessoas que entram em hospitais sem os devidos equipamentos de proteção. "Para uma pessoa entrar na UTI ou em enfermarias para pacientes com a covid, é preciso saber que todos os pacientes estão infectados. Os profissionais de saúde têm contato com esses pacientes estão devidamente paramentados com óculos, proteção facial, máscaras específicas e roupas adequadas", ressalta.

"Uma pessoa que entra sem a devida proteção pode ser infectada e sair disseminando ainda mais o vírus", acrescenta o especialista. Ele classifica a declaração de Bolsonaro como uma "tremenda imbecilidade".

Carla também cita os riscos sanitários ao invadir uma área destinada a pacientes com a covid-19 sem os devidos aparatos. "Os deputados, por exemplo, queriam entrar sem proteção. Foi necessário muita discussão até que eles usassem algo. O hospital é o local em que as pessoas estão em estado grave e a disseminação do vírus é muito grande, por isso muitos profissionais da saúde estão sendo infectados", diz.

Ela admite que está com medo de que o hospital de campanha seja alvo de nova invasão nos próximos dias. "Com o incentivo do presidente, essa situação pode se repetir. É assustador pensar nisso. É como se todos os dias houvesse o risco de vivermos aquela situação de novo. Não queria ter passado por um momento tão constrangedor como aquele. Nos sentimos desrespeitados. Foi totalmente desagradável. Ficamos sem saber o que fazer", declara.

"Os profissionais de saúde estão lá para cuidar dos pacientes. As questões políticas não devem ser tratadas dentro do hospital", diz Carla.

 

06
Fev20

A nova teologia do Ecoceno. Entrevista com Leonardo Boff

Talis Andrade

De um Brasil em crise, escravizado, humilhado, pisoteado, chega uma mensagem de esperança

De um Brasil em crise, escravizado, “campo de batalha na guerra fria entre Estados Unidos e China”, de um continente explorado “para satisfazer as superpotências”, humilhado, pisoteado, chega uma mensagem de esperança. De renovação. Que toca os temas do ambiente “rumo a um novo Ecoceno” e da igualdade social. Que fala do papel da mulher, do novo rosto da Igreja – a do Papa Francisco. Uma mensagem livre, “como o Espírito Santo”.

A reportagem é de Annachiara Sacchi, publicada no caderno La Lettura, do jornal Corriere della Sera, 26-01-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Leonardo Boff, expoente de destaque da teologia da libertação, incômodo quando era sacerdote e também depois (abandonou a batina em 1992; em 1985, havia sido advertido pela Congregação para a Doutrina da Fé), ativista dos direitos humanos, professor universitário, está confiante: “De toda grande crise, vem a possibilidade de uma mudança, podem nascer novas forças. E o Brasil é maior do que essa crise”.

Eis a entrevita (Em espanhol aqui)

Professor Boff, então o senhor está otimista ou não?

Na realidade, estou preocupado. A situação no Brasil é trágica: o ultraliberalismo de Jair Bolsonaro, a extrema direita política que faz apologia da violência e dos regimes ditatoriais, que exalta os torturadores como heróis nacionais... Nunca vivemos nada semelhante.

Qual a explicação?

Por trás disso, está o projeto de recolonizar a América Latina e obrigá-la a ser somente exportadora de commodities (carne, alimentos, minerais...). E, nessa perversa estratégia, o Brasil é central.

Por quê?

Porque é um país riquíssimo, uma reserva de bens naturais que faltam no mundo. Como disse várias vezes o prêmio Nobel Joseph Stiglitz, nos próximos anos toda a economia dependerá da ecologia. E o Brasil terá um papel primordial nesse jogo.

É difícil viver no Brasil hoje?

Muito. O ministro da Economia, Paulo Guedes, é um dos “Chicago Boys”, formados na Universidade de Chicago, que trabalharam no Chile de Pinochet. O ultraliberalismo de direita está fazendo uma política dos ricos para os ricos, está privatizando tudo. Guedes está trazendo a política de Pinochet ao Brasil. E você sabe por que ninguém protesta, por que as pessoas não saem às ruas como está acontecendo agora no Chile?

Não.

Porque o governo anunciou que reprimirá qualquer protesto com o exército! Aqui todos têm medo, mesmo que a discordância cresça. Mas dentro das paredes de casa. Assistimos a uma triste forma de inércia popular.

Na América Latina, presidentes como Evo Morales e Lula encerraram a sua era. Agora, novas forças orientam a opinião pública. Acabou o impulso reformista?

Tivemos governos que fizeram muito pelos pobres. No Brasil, 36 milhões de pessoas foram incluídas no welfare. Mas, no ano passado, um milhão de famílias passou da pobreza para a miséria. O governo está desmontando as políticas sociais de Lula. Estamos lidando com uma elite reacionária e escravista que nunca aceitou que um operário – no caso do Brasil, Lula, ou um indígena no caso da BolíviaEvo Morales – chegasse à presidência do país. Essa elite fez de tudo, com os meios mais brutais. Mas essa onda violenta está sendo oposta por um movimento de grupos progressistas, de afro-latino-americanos, de indígenas. São os brotos de uma realidade que veremos. Essa é a esperança que alimentamos.

O senhor vê algum novo líder político?

Infelizmente não, estamos em um momento de vazio, faltam figuras carismáticas, principalmente no Brasil. Talvez também por culpa de Lula, que não soube formar uma classe dirigente.

O seu novo livro, “Soffia dove vuole” [Sopra onde quer] (no prelo, pela editora Emi), fala do Espírito Santo. Por quê?

Os tempos inquietantes que estamos vivendo, exigem uma séria reflexão sobre o Spiritus Creator.

Que ficou à margem da teologia.

Isso não é verdade. Existem estudos grandiosos sobre o Espírito, desde o de Yves Congar até o de Jürgen Moltmann, em diálogo com o novo paradigma cosmológico. Mas o que podemos dizer é isto: o Espírito Santo esteve quase sempre à margem da hierarquia eclesiástica. E com razão.

Como assim?

A hierarquia está orientada para “áreas” como o poder, a ordem, os dogmas, o direito canônico, em uma constante condição de autorreferência. São todos aspectos que servem para manter o status quo e que têm a sua razão de existir, eu não nego isso. Do mesmo modo, porém, eles não podem ser predominantes. O Espírito é mais carisma do que poder, mais movimento do que estabilidade, mais inovação do que permanência. Ele segue uma lógica diferente da hierarquia da Igreja. Por isso, quase todos os pregadores do Espírito Santo foram marginalizados ou perseguidos. Os fatos confirmam isso. O meu livro, julgado em 1985 pela Congregação para a Doutrina da Fé (cujo prefeito era Joseph Ratzinger), intitulava “Igreja: carisma e poder”. Em Roma, porém, leram-no como “Igreja: carisma ou poder”. Por causa dessa confusão, me condenaram.

Ao invés disso, o que o senhor queria dizer?

Eu queria criar um equilíbrio entre carisma e poder. Mas esse equilíbrio deve começar pelo carisma. Se se começa pelo poder, corre-se o risco de que isso sufoque o carisma. Em vez disso, se se começa do carisma, impede-se que o poder seja exercido de forma autoritária, limites são-lhe impostos, e ele é obrigado a se colocar a serviço da comunidade.

Qual é o papel do Espírito Santo hoje?

Estamos em um momento histórico, o Antropoceno, em que as bases que sustentam a vida e a Terra foram profundamente atacadas. Ou mudamos ou morremos. O Espírito é Spiritus CreatorSpiritus Vivificans. Só o Espírito pode restaurar o equilíbrio destruído pela voracidade do homem. Só com o Espírito é possível superar o Antropoceno e chegar ao Ecoceno, a uma sociedade sustentável, vital, aberta à convivência de todos com todos.

Por que, na sua elaboração teológica, o senhor insiste em enfatizar o papel da ciência?

Não é possível fazer uma teologia atualizada sem um diálogo profundo com a nova visão do mundo proveniente das ciências da vida, da Terra, do cosmos. Essa leitura já tem um século, mas não é hegemônica. São poucos os teólogos que aceitaram esse desafio.

Por quê?

Porque obriga a estudar ciências diferentes: a física quântica, a nova biologia, a astrofísica, a teoria do caos e da complexidade. Depois de tal caminho, digo isto por experiência, é mais fácil fazer teologia, porque. com esses dados, Deus aparece imediatamente como a energia misteriosa e amorosa que sustenta o todo e que leva em frente todo o processo cosmogênico. A categoria teológica do Espírito Santo é mais adequada para essa nova forma de teologia.

O que a consciência ecológica tem a ver com o Espírito Santo?

O principal objetivo do meu livro é afirmar que o diálogo com a ecologia e com a nova cosmologia nos obriga a mudar o paradigma. O paradigma da filosofia e da teologia ocidentais é de raiz grega, essencialista, baseado em natureza, substância, essência e outros termos semelhantes que pertencem à área da permanência, da estabilidade. Em vez disso, quando se fala de Espírito, tudo é dinamismo, inovação. É preciso mudar a forma de pensar Deus, a história, a Igreja. Deus é dinamismo de três pessoas divinas em comunicação entre si e com a criação.

Teologia da ecologia, então?

Eu tentei fazer uma teologia com um novo horizonte de compreensão. O mesmo que o Papa Francisco indica na encíclica Laudato si’: tudo é relação; nada existe fora da relação. Poeticamente, Francisco escreve: “O sol e a lua, o cedro e a florzinha, a águia e o pardal: o espetáculo das suas incontáveis diversidades e desigualdades significa que nenhuma criatura se basta a si mesma. Elas só existem na dependência umas das outras, para se completarem mutuamente no serviço umas das outras”. A tese da ecologia é precisamente esta: tudo está conectado para formar a grande comunidade de vida, o todo da natureza e do universo. E esse modo de pensar corresponde à natureza do Espírito Santo.

O senhor acha que a Igreja Católica está pronta para aceitar essas suas reflexões?

Em cada país, a situação é diferente. Mas em toda parte faltam profetas. Com Wojtyla e Ratzinger, assistimos ao retorno à grande disciplina, vimos uma Igreja fechada em si mesma, preocupada com a ortodoxia, atenta a combater inimigos como a modernidade, as novas liberdades. E, acima de tudo, distante do povo, com uma teologia pobre e uma liturgia alheia à sensibilidade moderna.

Enquanto agora...?

Com o Papa Francisco, emerge outro tipo de Igreja, aberta como um hospital de campanha, em que a centralidade não é tanto a ortodoxia, mas sim a pastoral do encontro, da ternura, da convivência. Para o Papa Francisco, as doutrinas são importantes, mas, acima de tudo, importa entender que Cristo veio para nos ensinar a viver os bens do reino como o amor incondicional, a misericórdia, a solidariedade, a compaixão por quem sofre, pelos últimos.

Mensagem recebida?

Nem sempre. Muitos católicos tradicionalistas não se deram conta de que estamos diante de outro tipo de papa, menos doutor e mais pastor no meio do seu povo. Um papa que carrega menos os símbolos pagãos dos imperadores romanos e mais a simplicidade de um pároco de aldeia, simples, humilde, amigo de todos. Um homem que vem de longe e, por isso, livre. Se não fosse assim, por que o nome de Francisco? Seria uma contradição pensar em São Francisco de Assis em um palácio pontifício. Mas temos outro Francisco de Roma que vive e come junto com os outros, e não sozinho.

O crescimento de protestos públicos na Igreja contra o Papa Francisco lhe preocupa?

Não me preocupa, porque não o preocupa. Como eu sei disso? Ele dorme às 21h30, dorme até as 5h30 como uma pedra, bebe o seu mate e leva em frente, franciscanamente, a sua missão, com uma irradiação mundial em sentido religioso, ético e político. Nós nos conhecemos desde 1972. Troquei com ele algumas cartas sobre temas de ecologia e sobre o Sínodo para a Amazônia de outubro passado.

A propósito, o que o senhor espera da exortação apostólica pós-sinodal de Francisco, prevista para breve?

Algo de bom. Acima de tudo, sobre a defesa do rosto indígena da Igreja e sobre as mulheres. Nas minhas cartas, eu pedi a ele que fizesse um gesto profético sem pedir nada a ninguém, como João XXIII fez quando convocou o Concílio Vaticano II.

Que gesto?

Ordenar as mulheres.

Ele lhe respondeu?

Agradeceu-me pela carta.

O senhor dedica seu livro às mulheres.

Eu digo que a primeira Pessoa divina a entrar neste mundo, ou a irromper no processo da evolução, não foi o Filho, como diz a Igreja. Foi o Espírito Santo. Isso está muito claro no texto de Lucas: “O Espírito virá sobre ti... E te cobrirá com a sua sombra”. Eu fiz uma pesquisa de meses na patrologia: não há nenhum rastro da centralidade do Espírito. Nem sequer nos grandes teólogos. De acordo com uma leitura predominantemente masculina, prevalece o Filho. Mas o Filho veio depois da aceitação (“fiat”) de Maria, portanto, depois do Espírito. Digo mais: o Espírito assumiu Maria, divinizou-a. No projeto do Altíssimo, homem e mulher são igualmente divinizados. Fazem parte de Deus.

Hoje, a teologia da libertação é ecoteologia, teologia feminista, teologia afro. Mas os pobres continuam sendo muitos e oprimidos. A teologia da libertação ainda tem um longo caminho pela frente?

A existência dos pobres, dos oprimidos sempre me faz pensar em Jesus, em São Francisco e em tantos outros que tiveram misericórdia deles.

Acusaram-no de ser pró-marxista.

Marx nunca foi pai ou padrinho da teologia de Libertação, como insinuavam os ditadores latino-americanos. Mas hoje, mais do que nunca, a teologia da libertação é urgente. O exército dos pobres aumentou assustadoramente. Se a teologia, seja ela qual for, não levar a sério a situação atual, dificilmente se livrará da crítica de cinismo e de irrelevância histórica. É preciso ler os sinais do tempo. O Espírito nos convida a tomar uma posição.

13
Set19

Deputado do ES usa tribuna da Assembleia para encomendar crime

Talis Andrade

Capitão Assumção (PSL) ofereceu R$ 10 mil para quem matar o suspeito de assassinar jovem de Cariacica na manhã desta quarta-feira. Juristas apontam incitação ao crime e responsabilização do deputado

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O deputado estadual Capitão Assumção (PSL) ofereceu R$ 10 mil a quem matar o criminoso que, nesta quarta-feira (11), assassinou a telemarketing Maiara de Oliveira Freitas, 26 anos, em frente à filha de 4 anos, em Cariacica. O parlamentar, que é capitão aposentado da Polícia Militar, deu a declaração no plenário da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, no mesmo dia do crime.

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Especialistas dizem que o discurso pode ser considerado crime e extrapola a imunidade parlamentar, além de ferir o estado democrático de direito.

"[Quero dar] R$ 10 mil do meu bolso para quem mandar matar esse vagabundo. Isso, não merece estar vivo não. Eu tiro do meu bolso para quem matar esse vagabundo aí", afirmou Assumção no plenário da Casa.

"Não vale dar onde ele está localizado. Tem que entregar o cara morto, aí eu pago. Porque vagabundo, vagabundo, que tira a vida de inocente vai lá usar o sistema para ser beneficiado?" 

O assassinato a que o parlamentar se referiu foi o de Maiara de Oliveira Freitas (26) e aconteceu nesta quarta-feira (11). Ela foi morta a tiros, na frente da filha, por dois homens encapuzados que invadiram sua residência e fugiram em seguida. A suspeita é que o crime tenha sido praticado por vingança

Em entrevista ao UOL, o parlamentar diz ter mandado “um recado ao Estado para que ele haja mais rápido do que a ação criminal" e que não teme ser punido. Assumção defendeu, ainda, a realização de uma consulta popular sobre a implantação da pena de morte no Brasil. "Esse assunto não pode ficar na mão dos deputados e senadores. A população brasileira tem que participar e dizer se é ou não a favor", afirmou. 

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Espírito Santo condenou a fala do deputado como um “grave retrocesso”. Já a Mesa Diretora da Assembleia Legislativa não se proncicou sobreo assunto. 

O deputado da tropa de choque de Bolsonaro desconsidera a Força Nacional de Segurança, que se encontra em Cariacica – escolhida como base do projeto piloto “Em Frente Brasil”, devido aos altos índices de criminalidade.

Recompensa de Capitão Assumção para morte de criminoso gera repúdio

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Século Diário - As declarações do deputado estadual Capitão Assumção (PSL) na sessão dessa quarta-feira (11) da Assembleia Legislativa, em que ofereceu recompensa de R$ 10 mil para quem matasse o assassino de uma jovem em Cariacica, motivaram notas de repúdio de oito entidades da sociedade civil organizada e do diretório do Psol no município. O assunto alcançou repercussão nacional, sendo veiculado, na tarde desta quinta-feira (12), no Jornal Hoje, da Rede Globo, e outros veículos como jornal O Globo, Folha de S.Paulo, G1 e UOL.

“Quero ver quem vai correr atrás para matar esse vagabundo. R$ 10 mil daqui do meu bolso para mandar matar esse vagabundo! Eu tiro do meu bolso pra quem matar esse vagabundo! Não vale localizar o cara, tem que trazer o cara morto, aí eu pago", disse Capitão Assumção em Plenário. A recompensa seria para localizar e matar o assassino da operadora de telemarketing Maiara de Oliveira Freitas, de 26 anos, morta na frente do pai e da filha de quatro anos, na manhã dessa quarta-feira (11), no bairro Antônio Ferreira Borges, em Cariacica. Capitão Assumção reafirmou, nesta quinta, todas as declarações.

"O pronunciamento do deputado foi um ato criminoso e um atentado contra o Estado de Direito, contra os marcos civilizatórios e contra o respeito devido ao povo capixaba", ressaltam as entidades Vicariato para Ação Social, Política e Ecumênica da Arquidiocese de Vitoria; Fórum Capixaba de Lutas Sociais; Fórum Igreja e Sociedade; Ação Diaconal Ecumênica; Movimento Fé e Política do Espírito Santo; Fórum Capixaba pelas Liberdades Democráticas; e Movimento Nacional de Direitos Humanos.

O documento, assinado também pela deputada estadual Iriny Lopes e pelo deputado federal Helder Salomão, ambos do PT, pede por providências legais, "em nome da Democracia, da defesa da Constituição Brasileira e da Cidadania", e afirma: "o autor do homicídio deve ser processado, na forma da lei. Não se pode admitir Justiça com as próprias mãos. É inaceitável o trecho da fala do deputado quando diz: 'Não vale dar onde ele tá localizado, não. Tem que entregar o cara morto. Aí eu pago".

Já o Psol de Cariacica, em nota emitida também nesta quinta, ressalta que a pena de morte é vedada pela Constituição Federal. “O devido processo legal é um direito de todas as pessoas que são acusadas do cometimento de crimes. Ao incitar a morte de uma pessoa, o deputado deixa de cumprir o seu juramento de defender o mandamento constitucional. A livre manifestação de pensamento, nem mesmo aos parlamentares, pode ferir um dos fundamentos da República, que é o respeito à dignidade da pessoa humana, como se verifica nesta ocasião”.

E continua: “Além disso, sabemos que, ao dar esse tipo de declaração, o deputado contribui para o fomento de opiniões semelhantes que legitimam a prática de mais violência. O que precisamos, principalmente dos agentes públicos, são propostas de resolução para o grave problema de insegurança que vivemos em nosso país e em especial aqui em Cariacica. Queremos saber quais são as medidas efetivas que as instituições estão pensando para garantir a segurança da nossa população. Não precisamos de mais bravatas ou ações midiáticas, e sim da construção de políticas sérias para evitar que crimes como esse que tirou brutalmente a vida de Maira de Oliveira Freitas ocorram em nossas comunidades".

O partido conclui afirmando que "seguirá discutindo as saídas necessárias para construirmos um lugar melhor para vivermos com garantia da vida e dos demais direitos previstos a nossa população”.

O militante de Direitos Humanos, Gilmar Ferreira, em nome do Centro de Defesa de Direitos Humanos da Serra (CDDH/Serra), reafirma solidariedade à família da jovem assassinada, exigindo que as autoridades de Segurança Pública atuem com rigor investigativo e legalidade, com o uso de recursos de inteligência, tecnológicos e científicos, para a obtenção da verdade e a responsabilização dos culpados pelo crime. Para Gilmar, é estarrecedor assistir do aumento vertiginoso de feminicídio no Estado e a ausência de ação do Estado.

Ele aponta que a fala de Capitão Assumção, no entanto, “somente estimula ao justiçamento, justiça com as próprias mãos". Também "dissemina o ódio e faz apologia a mais violência". Segundo Gilmar, as declarações, vindas de uma autoridade mandatária, devem ser avaliadas e as providências cabíveis adotadas pelos órgãos competentes”.

Em nota à imprensa, a diretora de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil seccional Espírito Santo (OAB-ES), Flávia Brandão, considerou um grave retrocesso a posição do deputado Capitão Assumção. A história da civilização mostra que não é com violência que se combate violência. De um representante do Poder Legislativo espera-se mais responsabilidade e não o incentivo à barbárie. Esse deputado deve, primeiramente, respeitar as leis e a Justiça, além de trabalhar para aprimorar os mecanismos de segurança pública existentes”, criticou.

Já o Ministério Público do Espírito Santo (MPES) ainda não se manifestou, limitando-se a dizer que está acompanhando o caso.

O Regimento Interno da Assembleia, em seu artigo 294, capítulo II (Decoro Parlamentar), diz que "o uso de expressões em discursos ou em proposições, ou a prática de ato que afete a dignidade alheia, desde que configurados crimes contra a honra ou contenham incitação à prática de crimes, consideram-se atentatórios contra o decoro parlamentar". Além disso, "constitui ato atentatório contra o decoro parlamentar a prática de contravenção penal e de ato imoral, seja por palavras, gestos, escritos ou ação".

As investigações podem resultar em advertência; censura; suspensão do exercício do mandato (não excedente de trinta dias); e perda do mandato". Para isso, no entanto, a Corregedoria da Assembleia precisa ser acionada.

 

26
Dez18

Gerson Camata assassinado por ex-assessor

Talis Andrade

 

 

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Gerson Camata 

por Danieleh Coutinho

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Morreu, na tarde desta quarta-feira, 26, o ex-governador do Espírito Santo, Gerson Camata. O politico foi vítima da violência na Praia do Canto, em Vitória, e levou um tiro que o atingiu no pescoço. O crime aconteceu na rua Joaquim Lyrio.

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Marcos Venicio, o assassino

A Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp) confirmou e disse que Camata foi vítima de disparos de arma de fogo efetuados por Marcos Venicio Moreira Andrade, de 66 anos, ex-assessor do político, que chegou a fugir, mas já está preso e prestando esclarecimentos no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

Informações dão conta de que Marcos Venicio Moreira Andrade, 66, encontrou o senador aposentado em uma padaria próximo de onde ele caiu morto, e disse “você não vai pagar o que me deve?”, quando Camata respondeu “Resolva com meu advogado”. Foi então que o antigo funcionário sacou a arma e atirou contra o ex-governador. Camata atravessou a rua e caiu em frente a um bar.

Há cerca de 12 anos, o ex-assessor acusou Gerson Camata, quando ainda estava no mandato de senador, de receber mesadas de empreiteiras, emitir recibos falsos para prestação de contas de campanhas ao Tribunal Regional Eleitoral, além de exigir 30% do salário que Marcos ganhava como assessor do parlamentar no Senado, para pagamento de contas pessoais do senador.

De acordo com o secretário de Segurança, Coronel Nylton Rodrigues, o assassino confessou o crime e contou que na tarde desta quarta, ao tentar tirar satisfação com o ex-governador devido a um processo na Justiça, se exaltou e atirou contra Camata. Marcus Vinicius disse que ele está com mais de R$ 64 mil bloqueados pela Justiça por causa dessa ação.A pistola usada pelo assassino já foi apreendida pela Justiça. Marcus Venicio matou o ex-governador e saiu caminhando a pé pela Praia do Canto, mesmo bairro onde o crime aconteceu.

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Ensaguentado e com a mão na altura do ombro, o ex-governador Gerson Camata falou para uma testemunha antes de morrer: “Esse cara me matou. Ele me matou”. Ele se referia ao seu ex-assessor Marcos Venicio Moreira Andrade, que foi preso após o crime e confessou. Leia mais 

10
Dez17

[Baixaria do senador Malta ao justificar a separação da atual esposa Lauriete do primeiro marido]

Talis Andrade

por Joaquim de Carvalho, DCM

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Lauriete e Magno Malta em Jerusalem 

 


O senador Magno Malta se apresenta como defensor da família e, assim, tem conseguido sucessivos mandatos desde 1994. Ex-pastor evangélico, foi deputado estadual, deputado federal e é senador. Mas há um capítulo de sua biografia que pastores evangélicos veem como escandaloso e atentatório aos valores que ele diz defender, os da família. É o casamento dele com a cantora gospel Lauriete, do Espírito Santo.


Ela era casada quando foi para Brasília, eleita deputada federal com o apoio do marido, o pastor evangélico Reginaldo Almeida.


Logo depois de assumir o mandato na Câmara, Lauriete se separou, mas nunca disse o motivo. Para quem conhece os dois, a razão do divórcio, em 2012, seria o relacionamento com Magno Malta.


O então presidente da Assembléia Legislativa do Espírito Santo, Theodorico Ferraço, chegou a dizer publicamente, após uma reunião: “O homem (Magno Malta) não é fácil, não. Em Brasília, todo mundo já sabe. De mãozinhas dadas e tudo mais”.


Magno já era divorciado e casou com Lauriete em cerimônia para poucos convidados. Logo depois, passou a exibir a tatuagem com o nome Lauriete no braço e, nas poucas vezes em que falou sobre o romance, se disse apaixonado.


Celso Russomanno, que é seu amigo, entrevistou o casal num programa de televisão e disse que viu a transformação de Magno Malta quando ele começou a namorar Lauriete.
“Os olhos deles brilhavam”, afirmou, enquanto Magno e Lauriete se acariciavam, com as mãos entrelaçadas.


Um jornalista que é amigo de Magno Malta, Jackson Rangel, publicou uma nota na Folha de Vitória que dá idéia de como esse caso desceu aos padrões mais baixos do que pode se entender por comportamento civilizado: Antes mesmo de assumir o namoro com Lauriete, Magno teria dito a respeito do marido dela, ex-deputado estadual e vereador, para justificar a separação e diminuir a pressão dos evangélicos:
“Ele é um canalha, vagabundo e nojento. Foi flagrado na cama com outro homem. E a empregada gravou tudo. Ela nunca desconfiou disso, mas agora está tudo muito claro. Eu estava ajudando ele acertar seus problemas no Tribunal de Contas da União, mas larguei tudo” [Malta ao citar o Tribunal de Contas insinua que o então marido de Laurinete era corrupto. Uma acusação que sobra para Malta. Como explicar a ajuda a um político desonesto?...].


Magno desmentiu a frase no dia seguinte, mas antes o jornalista seu amigo já tinha retirado a nota do ar. A declaração, no entanto, ficou na rede tempo suficiente para que fosse compartilhada, e a versão ainda hoje seja repetida em sites evangélicos.


O que aconteceu com Magno Malta e Lauriete pode acontecer com qualquer pessoa —o casamento anterior se desgastar, terminar e surgir um novo amor. Não é desejável, mas acontece.


O que chama a atenção nesse episódio é que, até alguns meses antes do namoro com Magno Malta, Lauriete parecia ter um casamento perfeito. Já durava 20 anos, ela e o marido Reginaldo tinham uma filha e eram bem sucedidos.


Lauriete fazia declarações públicas de amor ao marido, como em um vídeo gravado por ocasião do lançamento de um disco da cantora:
”Um beijo grande para o meu esposo Reginaldo, que incansavelmente tem estado do meu lado. Em tudo. Em todos os momentos. E eu louvo a Deus por sua vida, Reginaldo. Deus te abençoe. Eu te amo muito”.

 

[MALTRATOU A ENTEADA,

UMA CRIANÇA]


Magno Malta, presidente de um CPI no congresso que apura maus-tratos a crianças e adolescentes, é um político que costuma alardear rígidos padrões morais [Que explicação Laurinete deu para a filha, o pai acusado de ser homossexual por Malta?]
E para chamar a atenção para suas bandeiras conservadoras, ele já protagonizou cenas de impacto. Em 2000, levou para depor no Congresso Nacional um homem mascarado.
O depoimento não era em si uma grande bomba — ele acusava um delegado de plantar provas para acusá-lo de tráfico de um quilo de cocaína—, mas a foto de Magno Malta ao lado do mascarado apareceu na primeira página de todos os grandes jornais e ajudou a avançar sua carreira político e se eleger senador.


No processo de cassação de Dilma Rousseff, Magno Malta foi irônico e cantou:
“Eu quero mostrar que eu sou cristão, vou mostrar que sou cristão e à presidente Dilma vou dedicar uma canção de uma grande compositora brasileira, intérprete da música sertaneja, chamada Roberta Miranda: “Vá com Deus, vá com Deus”.


Deus não sai da boca de Magno Malta.
Em nome dele, aprovou a convocação coercitiva do curador da exposição Queermuseu e do ator de uma performance no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM).
Para evangélicos como ele, o casamento com Lauriete não é propriamente digno de quem parece dizer a todos que está na Terra com a missão de ensinar os outros a viverem. 

 

[Lauriete e o primeiro marido eram proprietários da gravadora Praise Records, uma parceria de treze anos, sediada em Vitória. Desfeito o casamento, Lauriete fundou a editora Efrata Music.

 

A Praise Records nasceu em 1999, em Vila Velha, após Lauriete ter gravado 13 discos por diversas gravadoras. Ao decidir lançar o seu décimo quarto trabalho de forma independente, a cantora e seu ex-marido fundaram um selo próprio, cujo primeiro trabalho foi o álbum Palavras. A gravadora também lançou artistas como Shirley Kaiser e Amanda Ferrari] Os trechos entre colchetes são da autoria deste correspondente.

 

 

 

15
Nov17

O estuprador de Thalia solto e o de Thayná preso

Talis Andrade

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 O estuprador José Meireles da Silva continua solto na cidade de Igarapé do Meio, sem que as autoridades e a imprensa do Maranhão apresentem qualquer explicação para tanto descaso e irresponsabilidade. Quando se sabe que todo tarado sexual sempre volta a atacar.

 

José Meireles estuprou a própria filha Thalia Mendes Meireles, que morreu na Quinta-Feira Santa deste ano, aos 15 anos, em Monção.

 

Thalia estudava na escola Horas Alegres em Santa Inês, e era violentada desde os doze anos, e deixou carta historiando os abusos sexuais. 

 

Inteligente, estudiosa, Thalia escrevia um romance.  Leia no arquivo deste Correpondente as poesias de Thalia.  

 

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Para um criminoso ser preso no Brasil, que tem uma tradição de incesto, que não é crime, e uma cultura de estupro, se faz necessária a movimentação da família, dos moradores do bairro, e dos colegas de escola da vítima. 

 

Foi o que aconteceu no caso da estudante Thayná Andressa de Jesus Prado, de 12 anos, que estava desaparecida desde o dia 17 de outubro, quando foi vista pela última vez no bairro Universal, em Viana, na Grande Vitória.


Thayná morava no bairro Ipanema, vizinho ao bairro Universal. Desde o dia que a menina desapareceu, a mãe dela, Clemilda Aparecida de Jesus, começou uma busca incansável.

 

Ademir Lúcio Ferreira, que teve a prisão decretada por sequestrar a menina Thayná, também é acusado de um outro caso, de sequestro seguido de estupro. 


O crime aconteceu três dias antes do sequestro de Thayná.

 

O delegado Lorenzo Pazolini, da DPCA, disse que a menina de 11 anos também foi abordada no bairro Universal, em Viana. A adolescente havia saído de casa para ir ao supermercado a pedido da mãe.
Ademir estava no mesmo Gol prata em que foi visto abordando Thayná. O acusado ofereceu uma carona para ela até o supermercado, mas assim que a menina entrou, desviou o caminho.


Segundo as investigações, ele levou a adolescente para um depósito de material de construção, onde estuprou a adolescente dentro do carro. Ela foi abandonada no meio da rua depois do crime e precisou ser hospitalizada.

 

A menina ainda estava internada até o final da última semana, segundo o delegado, que não soube informar o estado de saúde dela atualmente. 

07
Nov17

Samarco não paga multas nem é punida por tragédia

Talis Andrade

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2 ANOS DE DESASTRE

Em 2015, lama da empresa matou 19 pessoas, destruiu comunidades e contaminou o rio Doce; nenhum dos indiciados está preso, e pagamentos se arrastam

 

por Luciene Câmara e Pedro Rocha Franco

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O rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, na região Central de Minas, é considerada a maior tragédia ambiental do mundo envolvendo deslocamento de rejeitos da mineração. Quase 40 milhões de metros cúbicos de lama soterraram comunidades, mataram 19 pessoas e deixaram um rastro de destruição por 663,2 km de cursos d’água, até o litoral do Espírito Santo. Dois anos depois de todo esse estrago, ninguém está preso, não há qualquer punição criminal aos envolvidos, e seis dos 22 denunciados podem ficar impunes. Na esfera administrativa, somente duas das mais de 60 multas aplicadas por órgãos estaduais e federais foram pagas – uma delas parcialmente – pela Samarco, pertencente à Vale e à BHP Billiton. A empresa está ainda inadimplente com a União em três infrações que já foram executadas e das quais já se esgotaram as chances de defesa.

 

Só o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) emitiu 24 autos de infração, que somam cerca de R$ 350 milhões. Em agosto deste ano, a presidente do órgão, Suely Araújo, julgou os últimos recursos das três primeiras multas, no valor de R$ 50 milhões cada, e determinou, em caráter definitivo, o pagamento – nesses casos, uma forma de punição pela destruição de Bento Rodrigues, pela poluição do Rio Doce e pela morte de animais.

 

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Região de Mariana foi devastada pela lama da Samarco após barragem se romper, em 2015

 

 

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Rompimento da barragem de Fundão liberou 39,2 milhões de m³ de lama

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