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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

15
Fev22

Bolsonaro enviou 41 militares para escola nos EUA que treinou assassinos de presidente haitiano

Talis Andrade

intervenção no Rio ensaio para ditadura .jpg

 

Para pesquisadora, envio de oficiais para ex-Escola das Américas pode ter relação com discurso golpista do presidente

 

por Igor Carvalho /Brasil de Fato
 

Desde 2000, o Brasil enviou 82 militares para treinamentos no Instituto de Cooperação em Segurança do Hemisfério Ocidental (Whinsec), a antiga Escola das Américas, com sede em Fort Benning, na Georgia, EUA. Desse total, 50% (41) no governo de Jair Bolsonaro (sem partido), sendo 21% (17) apenas nos nove primeiros meses de 2021.

A Whinsec é um instituto ligado ao Departamento de Defesa dos EUA. Na escola, foram treinados sete ex-militares da Colômbia acusados de assassinar, em 7 de julho deste ano, o presidente do Haiti, Jovenel Moïse. A informação foi confirmada pelo governo estadunidense.

“Até agora, identificamos sete indivíduos que eram ex-militares do Exército colombiano que receberam algum tipo de instrução e treinamento fornecido e financiado pelos EUA”, informou John Kirby, porta-voz do Departamento de Defesa dos EUA, no dia 23 de julho.

Levantamento feito pelo Brasil de Fato, usando dados fornecidos pelo Exército, Marinha e Aeronáutica, via Lei de Acesso à Informação, mostram que o governo brasileiro tem enviado, preferencialmente, oficiais de patente baixa. São 52 segundo sargentos, 9 primeiro sargentos, 6 tenente-coronéis, 6 majores, 4 coronéis e 1 sub tenente.

Entre os governos, Bolsonaro, com 41, lidera. Seguido por Dilma Rousseff (PT), que enviou 21 militares para treinamento na Whisec, Michel Temer (MDB), 12, e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 8. Entre as forças, O Exército enviou 79 membros, a Aeronáutica, 3, e a Marinha não enviou oficiais.

A cientista política Luciana Wietchikoski considera que o aumento no número de militares enviados à Whisec em 2021, pode encontrar justificativa nos anseios de Bolsonaro por um golpe no Brasil, discurso ensaiado algumas vezes durante o ano.

“Até pelo histórico dessa organização, que sempre está envolvida com questões políticas da América Latina. Mas dentro de outro contexto, não específico a esse momento, mas de uma formação mais ampla, que não vai ter uma consequência só no golpe, mas nos próximos anos no Brasil”, explica Wietchikoski, que é pesquisadora do Grupo de Pesquisas em Estudos Estratégicos e Política Internacional Contemporânea (GEPPIC), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

“São militares formados nessas organizações e que trazem uma doutrina muito próxima da ideologia que o Bolsonaro reproduz. Isso fica ao longo do tempo, não é uma questão temporária conjuntural, mas sim que a gente tem uma consequência para o para o futuro do Brasil a médio e longo prazo”, finaliza a pesquisadora.

O alinhamento de Bolsonaro com a política americana também é destacado por Wietchikoski, que vê benefícios para os americanos, nesse intercâmbio.

“Os EUA estão intensificando a sua presença na região em termos de defesa, principalmente em relação à questão de uma contenção da China, ou seja, de conter a expansão chinesa na região, que é colocada pelos Estados Unidos como a principal ameaça na América Latina.”


O ex-presidente Lula foi o governante que menos enviou militares para serem treinados no Whisec / Arte: Brasil de Fato

HistóricoEscola das Américas no Panamá: formou os golpistas e torturadores da ditadura de 1964 no BrasilEscola das Américas no Panamá: formou os golpistas e torturadores da ditadura de 1964 no Brasil

 

Fundado em 1946, com a denominação Centro de Adestramento Latinoamericano – Divisão Terra, o instituto foi mais conhecido pelo nome que recebeu em 1963, Escola das Américas. Somente em 2001, foi batizado como Whisec.

No princípio, o instituto tinha o objetivo de produzir um alinhamento político e ideológico das Forças Armadas dos países da América Latina com os EUA, para que fosse possível uma ampla influência estadunidense na região.

Após a Revolução Cubana, em 1959, o instituto se voltou para o treinamento de militares para combater a ascensão comunista nas Américas. Foi quando surgiu a Escola das Américas, que recebeu oficiais de diversos países, que depois atuaram em golpes militares.

Mais de 300 militares brasileiros passaram pela Escola das Américas, entre 1954 e 1996, de acordo com a Comissão Nacional da Verdade. No instituto, os oficiais recebiam aulas práticas e teóricas sobre tortura, técnicas de interrogatório, comunismo, guerrilha urbana e rural, além de manuseio de armamento.

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05
Set21

O fardo de todos os democratas: intensificar a frente de batalha contra o lawfare praticado pela mídia

Talis Andrade

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A batalha contra o lawfare deve ser intensificada para combater a narrativa mentirosa de que Lula é culpado, ainda que absolvido em 17 processos judiciais. O objetivo de promover sua morte política, portanto, continua sendo buscado”

 

    • por LARISSA LIZ ODRESKI RAMIN /Brasil 247.
       
       

      Está em curso uma guerra contra o Brasil. Uma guerra não militar, por isso chamada de guerra não convencional, guerra irregular, assimétrica ou híbrida. Embora não faça uso de armas e equipamentos militares, é uma guerra, e como tal, provoca danos de dimensões equivalentes ou ainda maiores do que a guerra convencional. A guerra híbrida compreende várias estratégias de combate, sendo uma delas a guerra jurídica ou o chamado lawfare.

      Num contexto internacional em que golpes de Estado militares passam a ser inaceitáveis, tornando a guerra híbrida uma opção viável, a disputa política pode ser transferida para o plano judicial que desfruta, aprioristicamente, de legitimidade indiscutível. Por isso, ao treinamento de militares latino-americanos na antiga Escola das Américas soma-se o treinamento de operadores jurídicos em escolas judiciais e programas de capacitação jurídica, com objetivos de perseguir governos que resistem às ofensivas neoliberais estadunidenses, de forma aparentemente democrática, pois utilizando-se perversamente da legitimidade do direito, dos órgãos jurisdicionais e de seus operadores. Nesse sentido, ganharam protagonismo as International Law Enforcement Academies – ILEAs (Academias Internacionais de Aplicação da Lei), que foram estabelecidas em 1995 pelo então Presidente Bill Clinton para, oficialmente, combaterem a criminalidade internacional. 

      Não por acaso, as ILEAs são controladas politicamente, recebem financiamento de agências dos EUA como a USAid e operam mediante instruções do Department of Justice. Isso explica o porquê, na América Latina como um todo, substituem-se sistemas penais mais inquisitivos por sistemas penais acusatórios similares ao modelo estadunidense, atribuindo maior empoderamento aos órgãos do Ministério Público.

      O termo lawfare é uma contração das palavras em inglês law, que significa Direito, e warfare, que significa guerra. Portanto, lawfare significa literalmente guerra jurídica. Compreender o lawfare, todavia, exige um exercício intelectual de grande envergadura, por se tratar de um conceito ainda em construção e em disputa. Apesar das expressões lawfare e guerra jurídica estarem amplamente consolidadas, a ressalva que deve ser feita é de que ambas realçam o plano judicial do fenômeno quando, na verdade, essa guerra é conduzida com a mesma intensidade no âmbito midiático. Sem a articulação com a mídia, seguramente a batalha no terreno jurídico não alcançaria o mesmo resultado, razão pela qual entendemos que a expressão que melhor descreve a estratégia seria “guerra jurídico-midiática”. Isso quer dizer que o lawfare não é simplesmente uma ofensiva levada a cabo pelas vias judiciais, mas uma ofensiva levada a cabo pelas vias judiciais apoiada fortemente por uma mídia comprometida com os objetivos políticos, econômicos e geopolíticos perseguidos. Eugénio Zaffaroni deixa clara a importância da dimensão midiática ao constatar que a mídia hegemônica não apenas está a serviço do poder econômico transnacional, como faz diretamente parte dele, em uma complexa rede de interesses intimamente compartilhados.

      Como resultado da articulação entre operadores do sistema de justiça e a mídia, fabricam-se consensos que acabam por aniquilar da vida pública os supostos ‘inimigos políticos’, por meio da construção do fenômeno que tem sido chamado de “pós-verdade”: parece mais fácil aceitar uma mentira, desde que repetida ad nauseam pelos meios de comunicação de massa, do que fazer o esforço de entender uma verdade complexa ignorada por eles. Na prática, isso constitui um juízo paralelo e uma penalidade antecipada.

      Andrew Korybko, um dos principais estudiosos da guerra híbrida, fala no “caos sistêmico” ou “caos estruturado” como estratégia semiótica de atribuir um significante a elementos psiquicamente difusos em uma sociedade, como ressentimento, medo, insegurança, insatisfação. Tais elementos podem produzir efeitos catastróficos e imprevisíveis, que atuam na geração do caos e na consequente intensificação da polarização, atmosfera cara ao extremismo de direita. Nesse sentido Wilson Roberto Vieira Ferreira, do Portal Cinegnose, constata que a matéria-prima da guerra híbrida é uma nova estratégia de comunicação política, que ele chama de “bomba semiótica”. Tratar-se-ia de uma estratégia híbrida de ação política através das mídias, que opera com vetores simultâneos semióticos, cognitivos, psicológicos e fenomenológicos, fazendo com que a narrativa midiática coincida com a experiência pessoal dos alvos visados, moldando a opinião pública à base do choque de notícias que fazem uso de ferramentas linguísticas e semióticas inéditas, e criando um “pseudoambiente” para a opinião pública, crucial para a percepção de que o País está imerso no caos se para exortar a radicalização e polarização política.

      Conforme explicaram Celso Antônio Bandeira de Mello, Weida Zancaner e Marco Aurélio de Carvalho no artigo “O fardo que a Folha precisa carregar”, publicado na Folha e criticando um Editorial do próprio Jornal, a ideia de que, apesar da absolvição em 17 processos o ex-Presidente Lula ainda deve explicações à sociedade, não corresponde à verdade dos autos, além de gravemente inverter o princípio constitucional da presunção de inocência. E acrescentam: “Tais processos começaram pelo fim. O juiz atirou as flechas e depois pintou os alvos”, ou seja, a parcialidade e a incompetência de Sérgio Moro devidamente constatadas pelo STF não deixam dúvidas de que o ponto de partida foi a condenação do réu, seguindo-se a busca desesperada por provas, e na falta destas, a condenação pela “convicção”.

      Apesar da absolvição e da inequívoca inocência de Lula, a grande mídia insiste em atuar como instância julgadora, acima até mesmo do órgão de cúpula do Poder Judiciário Brasileiro. Mesmo após promover antecipadamente a condenação do ex-Presidente, sem provas e de forma absolutamente autoritária e desleal, insiste no discurso de que Lula continua sendo culpado. E é aqui que devemos insistir: a batalha contra o lawfare deve ser intensificada para combater a narrativa mentirosa de que Lula é culpado, ainda que absolvido em 17 processos judiciais. O objetivo de promover sua morte política, portanto, continua sendo buscado. 

      Last but not least: Joe Biden pode até ter recentemente afirmado que a decisão sobre o Afeganistão não é apenas sobre o Afeganistão, mas é sobre o fim de uma era de grandes operações militares. A era das intervenções militares parece estar em seus últimos suspiros, mas a era das intervenções pura e simplesmente, essa sobrevive. E é por isso que o fardo de todos os democratas deve ser a intensificação da frente de batalha contra o lawfare, sem, todavia, menosprezar o seu aspecto midiático.

      deusa da justiça _fred com a camisa lula livre.j

       

       
       
       
       

 

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