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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

14
Jan22

Um adeus: Thiago de Mello

Talis Andrade

www.brasil247.com - Thiago de Mello

 

Por Eric Nepomuceno /Jornalistas pela Democracia

Na manhã desta sexta-feira, 14 de janeiro, sou massacrado pela notícia de que um dos maiores e mais generosos corações que conheci na vida, o do poeta Thiago de Mello, parou de bater. 

Amarga coincidência: também num 14 de janeiro, o de 2014, que caiu numa terça-feira, foi-se embora meu irmão Juan Gelman, o argentino que permanece como um dos maiores poetas do idioma castelhano dos últimos pelo menos 80 anos.

A última notícia que tive de Thiago de Mello foi através de um amigo que era parente próximo dele. Contou que sua memória, que sempre considerei infinita, estava indo embora rapidamente. E que isso acontecia justamente quando Thiago estava trabalhando num livro de memórias.

Pois agora essa memória se foi de vez.

Conheci Thiago de Mello em Buenos Aires, por onde ele passou rapidamente depois do golpe sangrento que liquidou Salvador Allende e a democracia no Chile, onde ele vivia exilado pela ditadura instalada em 1964 aqui no Brasil. Quem me levou para conhecer Thiago foi, sempre ele, o irmão mais velho que a vida me deu, Eduardo Galeano.

Lembro de um homem angustiado, indignado, mas cheio de fé na vida. Falamos do Brasil distante e de seus tempos chilenos, de sua amizade muito próxima com Pablo Neruda e Violeta Parra. De como foi ter traduzido Neruda para o português do Brasil e ter sido por Neruda traduzido para o castelhano. Falamos da sua dor por ter visto sua pátria adotiva ser destroçada. 

Pouco depois ele foi para Lisboa, onde tornei a encontrá-lo em 1976, quando foi a minha vez de me refugiar de outro golpe sangrento, o do general Jorge Videla, que mergulhou a Argentina no breu.

 A partir desse reencontro nos aproximamos para sempre. Mesmo quando passávamos um longo tempo sem nos ver, quando nos encontrávamos era sempre como se tivéssemos estado juntos domingo passado. Assim foi em Cuba, no México, em Manaus, no Rio, onde fosse.

Thiago de Mello foi figura crucial para a minha e muitas outras gerações, e não só no Brasil. Aliás, tenho a sensação de que ele foi e é muito mais incensado lá fora, na América Hispânica, do que aqui.

Tenho, sim, oceanos e cordilheiras de cálidas lembranças desse bom, generoso e solidário amigo.

Uma, porém, tem especial espaço na minha memória.

Foi em Lisboa, em meados de 1978. Tivemos uma longa e dolorosa conversa no modesto apartamento em que Thiago vivia.

Ele me contou, pedindo segredo, que ia voltar para o Brasil. Ainda não havia lei de anistia, e Thiago era odiado – com razão – pela ditadura.

Eu disse a ele que era uma loucura. Ele respondeu dizendo que naquela loucura havia dignidade e o direito de voltar ao seu país.

E então fez uma pergunta direta: “Vou chegar e vão me prender. Levo comigo minha caderneta de telefones e endereços. O seu nome está nela. Quer que eu borre?”.

Respondi que de jeito nenhum. Eu estava fora, não podia voltar, não podiam fazer nada comigo. 

“Pense no seu pai, na sua família”, advertiu Thiago. Mantive minha resposta. Da mesma forma que mantive com ele minha amizade, e da mesma forma que agora, com sua partida, mergulho numa saudade amazônica.

Adeus, poeta.Morre Thiago de Mello, poeta que lutou pela Amazônia, aos 95 anos -  14/01/2022 - Ilustrada - Folha

 

10
Jan22

Cadê o machão muito macho?

Talis Andrade

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Por Eric Nepomuceno /Jornalistas pela Democracia 

O médico e contra-almirante da reserva da Marinha Antônio Barra Torres tem ao menos uma tremenda mancha em seu currículo que só o tempo mostrará se pode ou não ser apagada: foi muito próximo de Jair Messias. Mas dia desses mostrou que tem ao menos uma tremenda lucidez e um robusto punhado de hombridade.  

A maneira com que ele desafiou o Genocida a provar mais uma de suas boçalidades – insinuar que poderia haver interesses escusos por trás da decisão da Anvisa de aprovar a óbvia vacinação contra Covid em crianças entre cinco e onze anos – chamou a atenção de todo brasileiro com um mínimo de lucidez.

Muita gente – eu inclusive – ficou na espreita, aguardando a dimensão do estrondo da resposta do machão instalado na poltrona presidencial, que com certeza não deixaria semelhante desafio passar em branco.

Afinal, macho que é macho não leva desaforo para casa. E Jair Messias, dia sim e o outro também, vive exaltando a própria macheza.   

Pois bem: o que se ouviu durante dois dias foi um estrondoso silêncio. E, na segunda-feira dia 10, surgiu um fiapo de miado numa entrevista gravada ainda no sábado para uma emissora irremediavelmente bolsonarista. Tudo que o Genocida disse foi que a questão da vacina para crianças não deve servir para afastar as pessoas.

Barra Torres, aliás, aproveitou para, além de sacudir Jair Messias, esfregar nele uma humilhação. Recordou que, como contra-almirante, ocupa um generalato na Marinha.  

Cadê a humilhação? Ora, no Exército, Jair Messias jamais passou de tenente. E só virou capitão por ter, depois de encarar cadeia por atos de indisciplina, ido para a reserva.

Não é a primeira nem a décima vez que o Genocida deixa claro que, além de ser irremediavelmente vil e totalmente desequilibrado sem volta, é medroso. Ele se borra todo quando tem que enfrentar alguém grande.  

Foi assim quando aceitou assinar uma carta escrita pelo marqueteiro do golpista Michel Temer depois de ter ofendido o Supremo Tribunal Federal e ter tentado um golpe no dia 7 de setembro em São Paulo.

Claro que sobravam indícios de que a chance do golpe dar certo era a mesma da Cate Blanchett ou a Julia Roberts implorarem para jantar comigo. Mas Jair Messias, apesar de toda sua estupidez, sabe perfeitamente como atiçar aquele pequeno núcleo de seguidores mais bovinos e, por isso mesmo, absoluta e irremediavelmente fiéis. Daí ter virado machão e depois ter, de novo, se borrado todo.

Aliás, é justamente esse rebanho que ficará decepcionado com a covardia do macho muito macho diante da bordoada que levou de Barra Torres. E por isso que podemos esperar que Jair Messias parta para o ataque contra outros alvos.  

Já ensaiou o primeiro, contra o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal. Meio pífio, é verdade. Mas, como dizem os ibéricos, “algo es algo”.  

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04
Jan22

E da outra obstrução, ninguém diz nada?

Talis Andrade

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Por Eric Nepomuceno /Jornalistas pela Democracia

No primeiro dia útil de 2022 o inútil Jair Messias acordou internado num hospital de luxo em São Paulo. Desta vez, como a situação parece mais séria, nada de hospital militar.

Aliás, me apresso para corrigir a tremenda injustiça que acabo de cometer: Jair Messias é de insuperável utilidade. Mas apenas para destroçar o país, atentar contra as instituições e proteger cúmplices, filhos e outros quetais que giram à sua volta.

Pois bem, voltando ao assunto: até o final da tarde não havia notícias concretas sobre seu estado de saúde. Sabia-se apenas que se trata de uma obstrução intestinal. E que tais obstruções podem, como tudo aliás nesta vida, ser menos ou mais grave. 

Enquanto seu médico preferido, o doutor Antônio Luiz Macedo, vinha do Caribe onde passava férias supostamente em avião da FAB – portanto, voando às custas do erário – corriam rumores de diversos tipos. 

Já o doutor em questão disse que o avião não era da FAB coisa nenhuma: tinha sido enviado pelo hospital paulistano. 

Leio que o jornal Folha de S.Paulo levantou orçamento em duas empresas de voos fretados. Resultado: um mínimo de 340 mil e um máximo de 680 mil reais. 

Resta saber se o hospital vai pagar do próprio bolso, digo, do próprio cofre, ou se o voo será pago pelo bolso de cada um de nós. Do senhor doutor, nem pensar. Do de Jair Messias, menos ainda. 

Voltando aos rumores, eles indicavam que seu quadro poderia ser bem mais grave do que aparece no boletim do hospital, ou apenas preocupante. Resumindo: de concreto, ninguém sabia nada ao certo, a não ser, claro, os médicos que atendem o obstruído.  

Como não poderia deixar de ser, os bolsonaristas, os sabujos do governo e o mais desequilibrado do quarteto de filhotes, Carluxo, o vereador do Rio que mora em Brasília, logo associaram a obstrução intestinal à famosa facada de 2018.

Mas sabe-se que há anos Jair Messias padece de doenças abdominais, especialmente nos intestinos. Nisso, ninguém fala. 

Pois há uma reportagem redonda aqui no 247, de autoria de Joaquim de Carvalho, rigorosa e imperdível, revelando essa questão.

Mestre soberano na arte de manipular, Jair Messias, a senhora primeira-dama, filhotes e cúmplices sempre trataram de esconder este fato.

Bem: a exemplo de milhões e milhões de brasileiros minimamente lúcidos, espero com todas as minhas forças que Jair Messias se recupere o mais rápido possível, e que essa recuperação seja sólida. 

Só assim ele poderá ser defenestrado nas urnas de outubro, perder a impunidade e ser levado para os tribunais onde responderá por um robusto rosário de crimes.

O que me espanta, em meio ao caos em que o Brasil naufraga e diante das cenas dantescas protagonizadas por Jair Messias nos últimos dias no belíssimo litoral de Santa Catarina, é que ninguém fale de outra obstrução padecida pelo senhor presidente, menos grave para ele, mas mortal para todo o país.

Estou me referindo à sua cada vez mais bestial e evidente e concreta obstrução cerebral. Do cérebro de Jair Messias só sai maldade, crueldade e desejo incontrolável de destruição.

Pensando bem, uma obstrução até pode ser resultado do efeito colateral da outra.

Como o conteúdo de seu cérebro dá, a cada dia, mais e mais claros e sólidos indícios de ser exatamente o mesmo de seu intestino, essa é uma hipótese bastante consistente.

De tudo isso, ao menos uma certeza é clara de toda claridade: caso ocorra – e reitero meu mais forte desejo de que ocorra, e o mais rápido e firme possível –, a recuperação de Jair Messias será infinitas vezes mais fácil e menos dolorosa que a recuperação do país que ele destroça cada vez mais dia a dia, hora a hora, com persistência insuperável.

E isso sim, dói na alma.Image

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06
Mai21

O doido cada vez mais doido

Talis Andrade

 

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por Eric Nepomuceno

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Dizem que Einstein disse o seguinte: “Há limites para tudo, exceto para duas coisas: o Universo e a estupidez humana. E devo esclarecer que, quanto ao Universo, tenho cá minhas dúvidas”.

Nesta quarta-feira, cinco de maio, Jair Messias comprovou, uma vez mais, que no que se refere à estupidez, Einstein estava certo.  

Também comprovou que quando um psicopata se sente acuado reage com mais aberrações ainda, fora de qualquer controle. E que como todo bom mentiroso compulsivo, mente desbragadamente.

Entre as pérolas do dia, assegurou que seu governo é o que mais assegurou total liberdade de imprensa. Esqueceu, com certeza, os seguidíssimos ataques que faz contra os meios de comunicação. Que deu ordens estritas para cortar publicidade oficial, exceto nos seguidores exaltados. Que afirmou que não compraria produtos e comércios que anunciam nos grandes meios de comunicação. E que soltou a Polícia Federal contra quem chama o Genocida de Genocida, o Psicopata de Psicopata, o Mentiroso de Mentiroso.

Estava especialmente descontrolado, a ponto chamar de canalha quem se opõe ao uso da cloroquina. Chamou o Gabinete do Ódio de Gabinete da Liberdade. Aproveitou para, de novo, atacar a China – justo a China, maior parceira comercial do Brasil e de quem dependemos essencialmente para obter vacinas. E descarregou sua ira, de novo, contra o Supremo Tribunal Federal. As obsessões de um obsessivo totalmente desequilibrado saltaram, e com fúria, para a luz do sol.

Chegou ao desatino olímpico de elogiar aquilo que chamou de política externa de seu governo, mencionando, meio de esguelho mas mencionando, o ex ministro de Aberrações Exteriores, Ernesto Araújo.

O auge dos disparates, porém, foi quando Jair Messias ameaçou, uma vez mais porém agora com fúria especial, agir contra as medidas adotadas por prefeitos e governadores para tentar conter o avanço da covid-19.

Advertiu que está a ponto de baixar um decreto que assegure o direito de ir e vir, e também de frequentar cultos religiosos. Como, não disse. Mas deixou claro, iracundo, que tal decreto não será contestado por nenhum tribunal – menção clara ao STF.  

Reiterou que é capitão, esquecendo que foi escorraçado do Exército quando era tenente, e que só por ter passado automaticamente para a reserva foi promovido.

A insistência com que Jair Messias recorda sua condição de ex-militar é patética e não faz mais deixar à flora sua frustração. Ter espalhado militares por todo seu governo tem o efeito imediato de conspurcar a imagem da caserna por fazer parte de todos os absurdos que levaram ao genocídio. Mas é também a tentativa de passar a imagem de que conta com um apoio que nada indica existir.

Há uma razão clara e palpável para que o desequilibrado tenha destrambelhado de novo e num grau insólito: a CPI do Genocídio.

Muito mais que alimentar a seita de seguidores radicais e fanatizados, trata-se da tentativa de desviar o foco das atenções do que interessa. Manobra esperta do Genocida, mas inútil.

O que surpreende é a impunidade com que ele continha desfilando aberrações e ameaças absurdas.

Seria e é apenas patético e bizarro, mas também é preocupante.

Os depoimentos de Mandetta e Teich na CPI não fizeram mais que ressaltar o absurdo que foi o general da ativa Eduardo Pazuello, em íntima cumplicidade com Jair Messias e, portanto, co-responsável pela tragédia que o país enfrenta nas mãos do pior e mais absurdo governo da história.

E a cada três frases, deixaram clara a irresponsabilidade sem fim do responsável pela maior parte de mais de 410 mil mortes. O Genocida.

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04
Mai21

Uma injustiça contra Paulo Guedes

Talis Andrade

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Ele mesmo se transformou de filho de funcionária pública, que estudou em escola pública, que cursou universidade pública, no monstro que quer a qualquer e todo custo destroçar as instituições públicas 

 

Por Eric Nepomuceno /Brasil-247

Paulo Guedes, o ex-funcionário de Augusto Pinochet que tem no currículo brasileiro um e apenas um destaque – sua bem sucedida atuação como especulador no mercado financeiro – disse que os que o acusam por ter dito que qualquer filho de porteiro com zero no vestibular entra em universidade estão querendo “criar um monstro” às custas do Estado.

Uma injustiça, disse ele. 

E concordo plenamente, apesar de ter dado prova inconteste de sua ignorância radical: há, sim, nota mínima para ser aprovado em vestibular.

Mas quem quer que seja que tenha o projeto de transformá-lo em um monstro está, na verdade, sendo um usurpador no melhor estilo de Temer. 

Contei num texto, repito aqui.

Em novembro de 2002, poucas semanas depois da eleição de Lula, eu estava em São Paulo. 

E resolvi almoçar numa cantina italiana do bairro de Higienópolis, onde costumava me encontrar com meu pai quando ia do Rio para visitá-lo. 

Escolhi uma mesa de canto. 

E, ao lado da minha, uma meia dúzia de engravatados comentava a eleição de Lula.

Pareciam advogados, agentes do mercado financeiro, enfim, gente de dinheiro. 

Os paletós estavam pendurados no respaldar da cadeira, as gravatas afrouxadas, dando sinais de um certo relaxamento.

Falavam alto, impossível não pescar uma frase aqui, outra acolá. Até que começaram a falar de Lula, e resolvi prestar atenção.

As menções iam de “pau-de-arara analfabeto” a “operariozinho de merda”, até que um – que achava natural comer enquanto bebia uísque com água – soltou a pérola: “Não serve nem para porteiro do meu prédio”.

Pois Paulo Guedes poderia perfeitamente estar naquela mesa, e certamente aplaudiria. 

Ninguém pode querer transformar semelhante besta em “monstro”: ele mesmo se transformou de filho de funcionária pública, que estudou em escola pública, que cursou universidade pública, no monstro que quer a qualquer e todo custo destroçar as instituições públicas. 

E, se tudo der certo, destroçar o próprio Estado.

Afinal, quem que não possa pagar um plano de saúde milionário acha que pode ter o direito de querer viver muito? Ter direito de, se ficar doente aos 88 anos e não tiver plano caríssimo de saúde, ser atendido às custas do Estado? Absurdo.

Em qualquer governo decente essa abjeção ambulante só passaria pela Esplanada dos Ministérios para tirar fotos e ponto final.

No pior governo da história da República ele se juntou a todas as nulidades indecentes e cúmplices: virou ministro.

Guedes é legítimo representante não apenas dos especuladores do mercado financeiro: também representa, e com brilho, gente como os cavalheiros daquela mesa de cantina em Higienópolis.

Continua, embora com intensidade muitíssimo menor, a contar com o apoio a classe asquerosa e daninha dos agentes dessa sacrossanta entidade invisível mas infinitamente poderosa, o tal de “mercado”.

Que não se tente transformar uma pilha de excremento moral em monstro. Ele é apenas cúmplice do Genocida. Isso e nada mais.

bolsonaro paulo guedes os moicanos de pinochet dit

 

24
Mar21

Kássio Nunes Marques, vergonha nacional

Talis Andrade

 

por Eric Nepomuceno

 

Nenhuma surpresa, nenhuma decepção: em sua estreia num caso de real importância, Kássio Nunes Marques, indicado por Jair Messias para ocupar uma das vagas do Supremo Tribunal Federal, mostrou uma mediocridade estrondosa, aliada a uma tentativa de manipulação do óbvio. Fez exatamente o que qualquer pessoa com um mínimo de lucidez esperava, ou seja, atendeu com abjeto servilismo a vontade de seu nomeador.

Que semelhante nulidade tenha tido sua indicação aprovada pelo Senado apenas confirma que o atual Congresso é o pior em décadas.  

Se a primeira consequência do voto de Nunes Marques foi a satisfação de Jair Messias, a segunda foi uma vergonhosa, humilhante resposta de Gilmar Mendes.  

Dele, aliás, pode-se pensar o que quiser, mas a contundente, quase perversa sova que ele aplicou no monumento à mediocridade foi iluminada e iluminadora.

Não recordo, ao menos em tempos recentes, semelhante humilhação, semelhante vergonha pública na corte suprema de justiça. Mendes, aliás, aproveitou seu momento de indignação para acabar com o pó da raça que sobrou da funesta dupla Moro-Dallagnol.  

Claro que cabe a pergunta inevitável: só agora ele percebeu o que estava mais que visível e palpável desde sempre? Seja como for, trata de desfazer o absurdo do qual foi cúmplice.

Voltando a Nunes Marques, tivesse ele um mínimo de dignidade, de respeito por si mesmo, depois de ter sido triturado por Gilmar Mendes trataria de sair de fininho do lugar em que foi depositado por seu mentor e chefe. Mas se foi indicado por Jair Messias, é evidente que mantém distância oceânica de qualquer vestígio de dignidade e, a menos a julgar pela sua intervenção, de conhecimento jurídico. Ou carece desse último ponto, ou é outro manipulador barato.  

Além de Gilmar Mendes, a patética figurinha ainda levou nova lavada, mais suave, é verdade, e indireta, já que seu nome não foi mencionado, de Ricardo Lewandovski.

E então Nunes Marques pediu para falar. Falou, falou e não disse absolutamente nada. Vestiu a carapuça da vergonha nacional. Mais que intimidado, parecia apavorado.

A última pá de cal no caso veio pela ministra Carmem Lúcia. Ao mudar seu voto de 2019, ela mandou Moro, Dallagnol e toda a caterva da República de Curitiba para o beleléu. E devolveu a Lula o que foi negado a ele ao longo de anos: justiça.

03
Fev21

E agora, o que falta para liquidar a farsa?

Talis Andrade

Charge: Lula lidera as intenções de voto para as eleições de 2018 - Jota A  - Portal O Dia

 

Por Eric Nepomuceno /Jornalistas pela Democracia

Pois é: já não se trata de trabalho jornalístico, como o que o pessoal do The Intercept Brasil fez e divulgou associando-se a veículos tradicionais do grande oligopólio de comunicações e também à edição local do El País, de longe o que de melhor existe na nossa imprensa.  

Não se trata mais de vazamentos: agora, cumprindo uma determinação expressa de Ricardo Lewandowski, que integra a corte suprema de justiça, tanto a defesa de Lula como todos nós temos a cesso a 50 páginas de diálogos entre Deltan Dallagnol, que encabeçava a tropa de procuradores da famigerada Lava Jato, e o juiz Sérgio Moro.

Essas 50 páginas não chegam a 5% do total de registros de conversas entre os dois. São, porém, mais do que eloquentes – são estridentes – provas de que tudo foi manipulado, e não só em relação a Lula: outros réus e investigados passaram pelo mesmo processo criminoso da dupla.

Sérgio Moro, incensado pelos grandes meios que há muito deixaram de ser, se é que alguma vez foram, de informação, atuando como meios de deformação, agiu sem pudor algum.  

O juizeco provinciano elevado a santo no altar dos farsantes esbanja desonestidade, manipula desavergonhadamente todo o processo, e conta com a fiel cumplicidade de Dallagnol.  

Essa dupla de facínoras formou o eixo ao redor do qual circularam todos os demais manipuladores, tanto os dos meios de comunicação como os poltrões instalados nas instâncias superiores da Justiça, que a tudo assistiram inertes. E enquanto a política era demonizada, as portas eram escancaradas para que um psicopata chegasse à presidência da República e instaurasse primeiro o caos, e depois, o genocídio.

A partir da divulgação dos diálogos que compõem o comportamento putrefato principalmente de Sérgio Moro, está aberto o espaço para duas perguntas que terão necessariamente de ser respondidas o quanto antes.

A primeira: até quando vão manter essa farsa abjeta e deixar dois imundos morais como Dallagnol e Moro perambulando livremente por aí? Quanto mais será preciso esperar para anular a farsa inteira, cujo único e exclusivo objetivo era manter Lula longe das urnas?

A segunda: será que algum dia os grandes meios de comunicação terão a decência mínima, ínfima, de reconhecer sua responsabilidade na farsa que culminou com a destruição do país? No genocídio levado a cabo com eficiência pelo psicopata que ajudaram a instalar no poder?

Por rigorosa prescrição médica não vejo a Globo. Mas confesso minha enorme tentação em desobedecer quem cuida desta minha pobre saúde e acompanhar o Jornal Nacional por esses dias.  

Será que o bonitão e a bonitinha irão dedicar meia hora contando o que dois canalhas chamados Moro e Dallagnol tramaram, como agiram, e quais foram as consequências? 

 

30
Jan21

A maior façanha de Jair Messias (por enquanto)

Talis Andrade

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por Eric Nepomuceno

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Aprendi, ainda menino, que é essencial reconhecer características e até mesmo eventuais qualidades tanto em adversários como em inimigos. Esse reconhecimento é essencial na hora de planejar o combate.

Acontece que quando se trata de enfrentar alguém irremediavelmente desequilibrado, um primata sociopata, garimpar qualidades é tarefa quase que impossível. Características, tudo bem. Mas qualidade, e ainda mais eventuais façanhas...

Eis porém que, de repente, ao repassar a semana pela memória, percebo que está sendo cometida uma injustiça enorme com Jair Messias.

Despenca, e isso a cada hora, uma avalanche de críticas contundentes contra ele e o general da ativa do Exército, Eduardo Pazuello, seu cúmplice no maior genocídio jamais cometido em nosso país e um dos maiores do mundo ao longo de pelo menos o último século. 

Aqui e acolá Pazuello tem o devido reconhecimento: energúmeno prepotente e nulidade irremediável para o posto que ocupa, o de ministro da Saúde, cumpre à perfeição a missão recebida. 

Espalhou militares tanto da ativa como da reserva por cargos antes ocupados por médicos e pesquisadores, sem se esquecer das forças paralelas, ou seja, a Polícia Militar, num esforço concentrado para cumprir estritamente a orientação de Jair Messias: deixar milhares de brasileiros morrerem à míngua.

Cá entre nós, não chega a ser propriamente uma façanha. Afinal, regra medular nos militares – ainda mais os que, como Pazuello, continuam ativos – é justamente obedecer sem pestanejar as ordens recebidas. 

É verdade que o tribunal de Nühremberg ignorou o tal argumento de “Eu estava apenas cumprindo ordens”, mas como as chances de um julgamento similar no Brasil são remotas, lá vai o general da ativa emporcalhando o uniforme e, pior, o próprio Exército.

Jair Messias, por sua vez, foi muito, muito mais longe.

Conduziu o Brasil a um posto inédito, conforme revelado num meticuloso estudo que examinou a ação dos governos de 98 países ao redor do planeta na prevenção e combate à pandemia. 

A façanha: fomos contemplados com a classificação de piores do mundo nesse quesito. Nenhum, absolutamente nem um único mandatário foi capaz de ser tão criminosamente irresponsável. 

Ao cumprir com rigor marcial seus instintos de psicopata sem volta nem remédio, estabeleceu de maneira surpreendente um rosário de iniciativas, todas exitosas, destinadas a apressar, para mais de 200 mil pessoas, o destino que, conforme o próprio Jair Messias fez questão de recordar, é inevitável – a morte. 

Até mesmo seu ídolo e guia, o catapultado Donald Trump, que bem que tentou imitar o discípulo mas foi contido a tempo, advertiu sobre os riscos de os Estados Unidos caírem na vala em que Jair Messias nos jogou.

Ser considerado no relatório elaborado por entidades estrangeiras de investigação e pesquisa como sendo o pior governo do mundo na hora de tentar conter e combater a pandemia não é coisa pouca. 

Já não são apenas brasileiros a condenar o genocídio levado a cabo pelo Ogro que habita o palácio presidencial: a façanha conta, agora, com reconhecimento internacional.

Se – e quando – Jair Messias for levado diante de um tribunal, aqui ou seja onde for, esse veredito será levado – e bem levado – em conta.

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16
Jan21

Uma cidade assassinada

Talis Andrade

por Eric Nepomuceno

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A coluna “Painel” do jornal Folha de S.Paulo do sábado 16 de janeiro traz uma revelação assustadora: quando visitou Manaus no início da semana, o general da ativa Eduardo Pazuello, aboletado na cadeira de ministro da Saúde, levou junto uma força tarefa.

Ele já havia sido avisado, dias antes da viagem, de que o estoque de oxigênio da cidade estava a ponto de entrar em colapso.

Em vez, porém, de levar uma força tarefa especializada em logística para providenciar o envio emergencial de oxigênio, Pazuello se fez acompanhar por um bando de médicos cuja missão era visitar as unidades de saúde de Manaus e impor o uso de “tratamento preventivo”, ou seja, cloroquina, um vermífugo, um líquido destinado a combater piolhos. Um bando de cúmplices do militar e do presidente.

Esta decisão talvez contenha a prova mais contundente não só na inépcia e da imbecilidade do general Pazuello, mas de sua criminosa irresponsabilidade. Já não se trata de discutir a estupidez de divulgar remédios que não só são ineficazes como, no caso da cloroquina, podem ter efeitos colaterais perigosos: se trata de discutir como encontrar meios urgentes para afastar o general e todos os militares que ele espalhou em postos chaves do ministério crucial para minar os efeitos da pandemia, e que se mostra de uma incapacidade assassina. 

Louva-se muito o alto senso de hierarquia e responsabilidade dos militares. Então, vamos ao óbvio: há, acima do general Pazuello, uma estrutura de comando hierarquicamente superior. E ao não impedir que um general da ativa continue sendo cúmplice de um presidente genocida, toda essa escala de superiores entra na mesma cumplicidade.  

Essa é outra das tantas faces da inércia generalizada diante dos crimes de responsabilidade cometidos por Jair Messias. E todas essas faces indicam cumplicidade com os responsáveis pela tragédia que se abate sobre o Brasil, a começar pelo presidente.

Cumplicidade com o desastre que vemos em Manaus, a cidade assassinada pela desídia presidencial, por certo, mas também de todo o governo, o pior, o mais patético da história da República.

Sobram oceanos de advertências de médicos, pesquisadores, cientistas, analistas, sobre o altíssimo risco de que o desastre vivido por Manaus se espalhe país afora.

Nada, porém, é capaz de mover Jair Messias e a fardada aberração aboletada no Ministério da Saúde.

Para fechar o quadro de bizarrices que o país enfrenta, tem ainda a história do tal avião da Azul fretado pelo governo para ir até a Índia buscar duas milhões de doses de vacina. 

Foi a maneira de confirmar uma vez mais a altíssima capacidade logística de Pazuello e o brilho do nosso ministro de Aberrações Exteriores: combinaram tudo direitinho para cumprir as ordens do Aprendiz de Genocida. Fretaram o avião, pagaram os custos da adaptação para que a missão primordial fosse cumprida. 

Só esqueceram de combinar com o governo da Índia, encabeçado por um direitista que pode ser tudo, menos um imbecil como seu par brasileiro.

Quando chegará a hora H do dia D que essa cambada irá parar num tribunal para responder pelos seus crimes?

Essa é a resposta mais devida a todos e a cada um de nós.

21
Dez20

O elogio da morte

Talis Andrade

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por Eric Nepomuceno

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(vídeos) Não é comum – eu, pelo menos, não recordo nenhum antecedente – que um presidente da República participe da formatura de uma turma de policiais militares. 

Mas como nada, absolutamente nada, no governo de Jair Messias é comum, lá estava ele, todo pimpão, na manhã da sexta-feira dia 18, na formatura de uma nova turma da PM do Rio de Janeiro.

Aliás, todo pimpão e completamente descontrolado, à beira de um ataque agudo de histeria.

Claro que ninguém, em sã consciência, poderia esperar do Aprendiz de Genocida palavras sensatas e equilibradas, recomendando aos novos policiais militares regras básicas de respeito às leis e aos direitos dos cidadãos enquanto estiverem patrulhando as ruas. 

Mas duvido que alguém esperasse o grau de agressividade e estupidez, mesmo levando em conta que se trata do sujeito mais agressivo e estúpido que ocupou a presidência da República.

Com seus habituais erros de concordância e pronúncia ele falou durante pouco mais de dez minutos. 

Elogiou calorosamente os novos policiais militares, elogiou a corporação. 

E dedicou quase todo seu tempo para criticar com fúria incontida os meios de comunicação. 

Recordou, com todas as letras, que a imprensa estará sempre contra a Polícia Militar. 

E recomendou: “Pensem dessa forma para poderem agir”. 

Ou seja, quando estiverem nas ruas, não se esqueçam que a imprensa é inimiga, pois “jamais estará do lado da verdade, da honra e da lei”.

O Ogro que habita o Palácio da Alvorada tem carradas de razão para andar aborrecido com a imprensa. 

Afinal, e tirando os meios que ele soube acarrear para o seu lado, aumenta cada vez mais o cerco ao seu filho mais velho, Flávio, e ao mais alucinado, Carlos, na história misteriosa do crescimento do patrimônio da família a partir do desvio de salários de funcionários fantasma.

Aliás, Jair Messias sabe que se revirarem esse assunto com precisão cirúrgica não só ele próprio, mas também a atual esposa e ao menos uma ex, podem aparecer no radar das denúncias. 

Uma coisa, porém, é andar aborrecido com jornalistas, e outra incitar novos policiais militares a encarar a imprensa como inimigo a ser contido ou, em último caso – ele não disse, mas ficou implícito –, “neutralizado”.

O quadro da sua explosão de fúria da sexta-feira, aliás, fica ainda mais sombrio quando se observa alguns números da atuação justamente da polícia militar ao longo do país, mas com destaque para São Paulo e Rio.

Por exemplo: a cada dia que passa, pelo menos dois brasileiros menores de 19 anos – ou seja, crianças e adolescentes – são mortos pela polícia. 

Ou diretamente, como aconteceu há pouco no Rio com dois adolescentes parados por dois policiais militares, ou pelas chamadas “balas perdidas” disparadas a esmo em operações nas comunidades e favelas.

Entre 2017 e 2019, foram pelo menos 2.215. E, como de costume, 69% delas eram negras. E as mortes violentas de crianças e adolescentes crescem e crescem: foram 5% do total em 2017, 16% em 2019. Três vezes mais.

O estado em que a Polícia Militar mais mata crianças e adolescentes no Brasil é o Rio. Entre 2017 e o primeiro semestre de 2020 foram 700. Quase 40% do total registrado no país, um volume que praticamente dobrou em dois anos.

Nem a pandemia sossegou a mão de quem dispara: entre janeiro e junho foram 99 crianças e adolescentes. 

Esses são os números que o Aprendiz de Genocida não quer que sejam conhecidos. 

Aliás, estão em reportagem reveladora e contundente assinada por Thaiza Paulure na Folha de S.Paulo, jornal amaldiçoado por ele.

Essa a imprensa fulminada por Jair Messias num ataque de fúria.

Essa a atuação de parte importante dos integrantes da Polícia Militar elogiada por Jair Messias num ataque de amor.

É a crônica de uma morte elogiada.

 

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