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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

06
Fev21

"É hora de enfrentamento dos dois vírus. A vacina para o vírus de Curitiba é a apuração de todos os fatos"

Talis Andrade

 

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247 - "Esse grupo da República de Curitiba inoculou uma espécie de vírus na Democracia brasileira ao desestruturar a confiança no sistema de Justiça", afirmou o jurista Antonio Carlos de Almeida, o Kakay, em artigo publicado neste sábado no jornal O Estado de S. Paulo, ao tratar sobre os novos diálogos entre o ex-juiz Sergio Moro e procuradores da Lava Jato de Curitiva, evidenciando o conluio para condenar e prender réus como o ex-presidente Lula.

"Numa ânsia desmedida de poder, como estratégia, fragilizaram as bases de um Judiciário democrático. É hora de enfrentamento dos dois vírus. A vacina para o vírus de Curitiba é a apuração de todos os fatos dentro do mais amplo respeito aos ditames constitucionais. Dando a eles pleno direito de defesa e garantindo o devido processo legal. Mas sem negacionismo. Resgatando a dignidade do Poder Judiciário. O Judiciário deve isso ao povo brasileiro, acrescentou o jurista.

Para Kakay, "estamos presenciando é o esfacelamento, político e moral, de um grupo de procuradores que, coordenado ilegalmente por um juiz, teve e tem forte atuação política na história recente do País".

"Os evidentes abusos cometidos por eles mudaram os rumos da política no Brasil. Reunidos como um partido político, tiveram forte e decisiva atuação nas últimas eleições. Não sou petista, nunca advoguei para o Lula, mas hoje, com as mensagens vindas a lume após decisão do grande Ministro Lewandowski, ninguém mais tem o direito de duvidar de que houve clara e vergonhosa, quiçá criminosa, instrumentalização do Poder Judiciário e do Ministério Público, por parte desse grupo que hoje está desnudado na sua hipocrisia", frisou.

 
24
Jan21

Impeachment de Bolsonaro ganhou mais exposição agora do que em dois anos

Talis Andrade

 

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por Janio de Freitas

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Temores e dúvidas sobre permanência do presidente esvaneceram em grande escala após tragédia em Manaus

Na Folha

O impeachment não apenas como solução, mas sobretudo como necessidade, avançou mais e ganhou mais exposição nos últimos dias do que nos dois anos de Bolsonaro até a tragédia pandêmica em Manaus.

Temores e dúvidas esvaneceram em grande escala, pulverizados pela visão imaginada das mortes por asfixia à falta de oxigênio hospitalar, causada por incúria e suspeita indiferença do governo Bolsonaro. E, por horror ou por cautelas tardias, nem foram ainda relatadas, como devido, essas mortes em hospitais, casas, em fila para socorro.

Bolsonaro combate o avanço do impeachment, de início, com gigantesca atividade de corrupção política. É o velho compra-e-vende de deputados, agora para eleger o futuro presidente da Câmara, em fevereiro.

Nessa operação encontram-se, ao lado de velhos embolsadores antes desprezados pelos militares, generais como Luiz Eduardo Ramos, na função de coordenador político e intermediário com os congressistas.

Eleger um tipo como Arthur Lira é, para Bolsonaro, a melhor garantia de bloqueio ao impeachment na Câmara, o primeiro estágio. É a permanência comprada com dinheiro público de cargos ou verbas. Além da sempre patriótica caixinha empresarial.

Há, no entanto, destituições que só a custo muito alto, em variados males e mais ainda em vidas, poderiam aguardar o possível impeachment. Um desses é gritante. Seja qual for ainda a permanência do general Eduardo Pazuello como ministro da Saúde, por isso haverá muito mais vidas brasileiras em risco. Senão perdidas.

A responsabilidade desse general pela tragédia em Manaus é inequívoca. Seu reconhecimento de que foi prevenido do então próximo esgotamento do oxigênio diz muito, mas não tudo. Além de advertências sobre o problema durante sua estada na cidade, dias antes do colapso hospitalar, a Força Nacional do SUS convocada pelo próprio general informou-o até da data de eclosão da tragédia —o oxigênio a zero.

Levantamento do repórter Vinicius Sassine, na Folha, permite constatar que relatórios e pedidos de providências, quase diários, informaram Pazuello desde ao menos uma semana antes do colapso total.

A fornecedora, White Martins, fez também sua advertência: a necessidade crescia além da capacidade de fornecimento imediato. Apesar disso, o secretário de Atenção Especializada em Saúde (!) do ministério, Luiz Otavio Franco Duarte, claro que um coronel, quis culpar e autuar a fornecedora. Era como se Pazuello e Bolsonaro de nada soubessem. Nenhuma providência em tempo de evitar as mortes terríveis e o desespero inapagável dos médicos, enfermeiros, atendentes.

Os casos de Covid-19 continuam crescentes no Amazonas, agora também no interior, onde não há sequer um leito de UTI. Pior, está previsto o agravamento da crise já nas próximas semanas e ao longo de fevereiro. Mas a precaução adotada por Pazuello é a nomeação de novo superintendente das ações do Ministério da Saúde no estado, Ricardo Loureiro. Coronel, naturalmente. Da infantaria, ordinário marche.

Não é menos comprometedor de Bolsonaro e do general Pazuello a recomendação, no site do ministério, de tratamento da Covid-19 com cloroquina. E seu uso em “tratamento precoce”, portanto, em “tratamento” do que ainda não é doença. Retirar o aplicativo no mesmo dia em que foi notícia de jornais é, claro, o reconhecimento da impropriedade do tratamento recomendado. Os efeitos dessa vigarice criminosa, porém, circulam por aí na companhia dos vírus inatacados.

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A saída do general Eduardo Pazuello é uma necessidade da vida. E é muito pouco pelo que ele deve em vidas.

A permanência de Pazuello será um desafio a mais de Bolsonaro ao Estado de Direito, às representações institucionais da Constituição e ao que reste de dignidade no país. Mas será também útil contribuição à onda que se forma.

poderosa entrevista do ex-ministro Carlos Ayres Britto à Folha, sendo ele uma das perdas do Supremo muito lastimadas, continua revertendo reservas ao impeachment e liberando vozes e escritos. É o lado ainda vivo do país, nestes tempos de duas epidemias letais.

 

27
Jul20

Militares fazem o que sabem de melhor: esconder os mortos

Talis Andrade

 

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Na década de 1970 a ditadura também manipulou e escondeu por anos os números de uma epidemia. Milhares morreram e centenas de crianças pobres foram enterradas em valas comuns sem identificação

por Jornalistas Livres

Imagine uma epidemia que se alastra rapidamente e mata entre 10% e 20% dos infectados. Imagine que essa epidemia mata principalmente crianças e em especial as da periferia, com menor acesso ao saneamento básico e à saúde. Agora, imagine que por três anos os meios de comunicação sejam censurados nas reportagens sobre a epidemia, que os médicos sejam proibidos de dar entrevistas e que o Ministério da Saúde, controlado por militares, não divulgue os números corretos sobre a doença e as mortes. Isso já aconteceu no Brasil, e não faz tanto tempo assim.

Entre 1971 e 1974, pelo menos 60 mil pessoas de sete estados brasileiros (40 mil só em São Paulo, o epicentro da epidemia) foram infectadas pela bactéria causadora da meningite. Até hoje é impossível precisar quantos morreram. Mas para impedir o que achavam ser uma histeria dos médicos, os militares decidiram esconder esses fatos, e os mortos, da população. Centenas, talvez milhares de crianças, aliás, foram enterradas na mesma vala comum clandestina do cemitério de Perus, na capital paulista, onde eram jogados os corpos de dissidentes políticos torturados e mortos pelo Doi Codi.

Um ótimo vídeo curto sobre a epidemia de meningite e a maquiagem de dados da ditadura militar está disponível no canal Meteoro.doc. Ontem, o canal publicou um novo vídeo, tratando especificamente da atual maquiagem de dados e da disputa de narrativas entre o novo governo militar, que teoricamente ainda não é uma ditadura, e os meios de comunicação para se informar ou desinformar a população.

O tratamento governamental da epidemia de meningite dos anos 1970 só vai mudar em 1974, com um novo general no poder e a aquisição pelo governo de 80 milhões de doses da vacina. Sim, já havia vacina para a meningite e o governo sabia que se tivesse feito uma campanha de vacinação anos antes, teria poupado milhares de vidas. Mas pra que admitir um genocídio se podia dizer que havia um “milagre econômico”? É como disse a ex-secretária da Cultura, Regina SemArte: é muito peso carregar essa fileira de mortos.

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Telegrama da Polícia Federal ordenando a censura nos dados sobre a epidemia de meningite. Fonte: Twitter do historiador Lucas Pedretti @lpedret. Como os telegramas não tinham pontuação, usavam a sigla VG para vírgula e PT para ponto final

 

Assim, em julho de 1974, com a admissão oficial de que havia uma epidemia, o jornalista Clovis Rossi, então trabalhando no jornal O Estado de São Paulo, preparou uma grande reportagem de capa, intitulada Epidemia de Silêncio, na qual dizia: “Desde que, há dois anos aproximadamente, começaram a aumentar em ritmo alarmante os casos de meningite em São Paulo, as autoridades cuidaram de ocultar fatos, negar informações, reduzir os números referentes à doença a proporções incompatíveis com a realidade — ou seja, levando, deliberadamente, a desinformação à população e abrindo caminho para que boatos ocupassem rapidamente o lugar que deveria ser preenchido per fatos. Fatos que as autoridades tinham a obrigação, por todos os títulos de esclarecer ampla e totalmente”. Leia a matéria completa aqui.

Mas, claro, militares não gostam que digam quais são suas obrigações e publiquem que estão desinformando a população. Assim, a matéria de Rossi foi censurada e em seu lugar o Estadão publicou um trecho do poema Os Lusíadas, de Luís de Camões.

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Por causa da Lei da Anistia, de 1979, os militares jamais foram responsabilizados criminalmente pelas mortes na pandemia e nem pelas torturas, mortes, desaparecimentos e ocultação de cadáveres de dissidentes políticos. Mas talvez a história não se repita com a pandemia de coronavírus. Ontem, o Supremo Tribunal Federal, atendendo a uma ação dos partidos Psol, PCdoB e Rede Sustentabilidade, determinou a divulgação diária das informações sobre os dados de Covid-19 até às 19h30, pelo Ministério da Saúde. E também ontem, o Tribunal Penal Internacional de Haia, na Holanda, decidiu analisar a denúncia do PDT de genocídio promovido pelo Governo Bolsonaro. Esse é um caso raro, já que normalmente o TPI só julga ex-governantes acusados de crimes contra a humanidade.

18
Jul20

Tráfico de ouro no território Yanomami

Talis Andrade

 

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II - Beatriz Jucá entrevista Dário Kopenawa

Pergunta. Nos últimos meses, você tem ficado muito em evidência ao fazer denúncias e tentar fazer valer os direitos do povo Yanomami. O que te fez abraçar essa luta e intensificá-la neste momento?

Resposta. Em 1970, chegaram invasores na terra Yanomami, que mataram muita gente. Aquele projeto perimetral Norte da ditadura militar trouxe a primeira epidemia, que se chama sarampo. Matou meus bisavôs, minhas bisavós. Depois, na década de 1980, 40.000 garimpeiros invadiram novamente e mataram 22% dos yanomami pelo garimpo ilegal, pela epidemia, por assassinato. Muitos parentes meus morreram. Foi a época em que nasci e cresci. Então eu estudei pra falar uma língua que não é minha e pra poder me defender e defender meu povo. Meu pai lutou sozinho muito tempo, andou o mundo inteiro reclamando que o Governo brasileiro não atendia nossos direitos. Lutou tanto que conseguiu demarcar a terra, tirar garimpeiros. Eu tenho muito orgulho. Estou substituindo porque meu pai já lutou muito e está cansado. Eu tô lutando porque meu povo morre há muitos anos por causa de problema de garimpo ilegal e epidemia.

 

P. Como a covid-19 tem impactado o povo yanomami? O que as aldeias estão fazendo para se proteger?

R. Neste momento, os yanomami estão em isolamento social nas aldeias. Alguns foram pro mato se esconder. Mas isso é natural pra nós. Nossa cultura funciona assim. Quando outras doenças chegam, nossos parentes fogem pro mato. Estão esperando passar esse coronavírus no ar. Não podem visitar parentes nem sair do seu território. Não podem se aproximar muito dos profissionais de saúde que trabalham na nossa comunidade. Isso a gente está monitorando pela Associação Yanomami [Dário é vice-presidente da instituição desde 2004]. Continua o avanço nessa doença nas aldeias. Cinco parentes morreram por conta desse coronavírus, outros foram vitimados e há casos suspeitos. Temos levado isso para as denúncias, porque a covid-19 está nas nossas aldeias. A gente está monitorando também os avanços do garimpo ilegal, que está levando o coronavírus para as nossas comunidades. A gente está muito preocupado e muito triste. Onde tem garimpo tem sintomas de coronavírus.

 

P. O sistema de saúde indígena está preparado para atender os Yanomami durante a pandemia?

R. sistema de saúde público está precário. Eu nunca vi aqui saúde de qualidade, sem morrer as pessoas. Pro território Yanomami temos o mesmo modelo de saúde das outras terras indígenas. No Brasil, temos 34 distritos sanitários para cuidar dos indígenas. Nós lutamos para melhorar. Sonhamos com isso, mas até agora a gente não conseguiu melhorar o sistema específico Yanomami. Isso não aconteceu. Nossos postos de saúde não têm estrutura boa nem equipamentos suficientes. É pouco o que chega lá. E nas comunidades mais isoladas no mato, longe dos pelotões onde o Exército fica, as estruturas são muito ruins. Isso é uma preocupação muito grande. Os Yanomami sempre reclamam disso, do problema da assistência na nossa comunidade que está piorando. Sempre tivemos o problema da malária, da gripe, da diarreia. Agora, pior com essa doença que se chama coronavírus que chegou. Com essas estruturas ruins, como vai ser o combate a isso daí? Estamos muito preocupados. Os profissionais estão lá, mas não têm estrutura suficiente pra eles trabalharem. Os medicamentos não chegam o suficiente. Não tem isso. Os profissionais estão sempre pedindo remédios extra porque tem muita malária e muita gripe. Com o coronavírus, a gente está com medo disso piorar. Na terra Yanomami não tem hospitais. Quando o Yanomami está passando mal, se tiver um acidente grave ou uma doença como uma pneumonia grave ou picada de cobra, precisa ir pra Boa Vista. Aí tem que ser removido de avião.

 

P. Com esse sistema de saúde frágil e o receio de que o garimpo aumente a contaminação do coronavírus entre seu povo, você conseguiu uma reunião com o vice-presidente Mourão. O que você levou pra ele?

R. A gente conseguiu uma audiência. Estamos falando repetidamente, denunciando o garimpo ilegal há muito tempo. Várias lideranças yanomami se reuniram e decidiram que não querem mais a presença dos garimpeiros ilegais na terra. Isso a gente decidiu. E depois a gente organizou a campanha “Fora Garimpo, Fora Covid!” pra mostrar ao Governo e ao mundo inteiro, para eles reconhecerem os problemas que enfrentamos há anos no nosso território. Isso teve uma repercussão muito grande. Significa que não tem resultado de ação do Governo brasileiro para nos proteger. O Governo Federal tem um papel muito importante para proteger os povos indígenas. Levamos a denúncia a vários órgãos públicos, mas acabou. Com quem mais podemos falar agora? Quem vai nos ouvir?

Conseguimos, através da nossa parlamentar indígena Joenia Wapichana, a audiência com o vice-presidente. O general Mourão recebeu essa denúncia. Eu fui como porta-voz do povo yanomami, e ele recebeu me com o respeito de uma autoridade. Abriu a porta pra ouvir a voz do povo yanomami. Primeiro ponto que eu falei foi sobre o garimpo ilegal, que está aumentando no nosso território durante a pandemia. Precisamos retirar o mais rápido possível os garimpeiros. Estamos denunciando há muito tempo. As lideranças sempre estão correndo risco, ameaçadas de morte. Nossos rios estão todos contaminados. Não temos como tomar água limpa. Fui contar o que está acontecendo. Falei também dos nossos parentes que foram assassinados por garimpeiros ilegais, num local onde eles moram. Não queremos mais isso se repetindo. Em 1993, tivemos o Massacre de Haximu [em que 16 indígenas yanomami foram mortos por garimpeiros]. Não queremos mais repetir, mas voltou a acontecer [no início de junho, dois indígenas foram assassinados em um ataque por garimpeiros]. E o terceiro ponto foi sobre o coronavírus, que chegou nas nossas aldeias, matou cinco yanomami. Essa doença foi trazida pelos garimpeiros. Não queremos essa doença que mata as pessoas. O Governo tem que reconhecer o que está acontecendo.

 

P. O Governo se comprometeu em fazer algo para solucionar esse problema?

R. O vice-presidente Mourão diz que reconhece que tem problemas e prometeu que vai fazer algo para retirar os garimpeiros. Garantiu que vai fortalecer e melhorar a estrutura de proteção e vigilância que é feita pela Funai. Ele prometeu que ia resolver esse problema. Mas ele falou: “Olha, eu sou cidadão brasileiro, tenho essa responsabilidade. Se eu não resolver, vocês têm o direito de me cobrar”. Ele não falou como acontecerá, mas prometeu que faria algo. Eu entreguei pra ele nossos mapas com a indicação dos garimpos.

 

P. Quantos garimpeiros ilegais vocês estimam que existam hoje no território?

R. A gente monitora essa matemática pelas balsas. Denunciamos mais de 20.000 garimpeiros, contando que uma balsa tem cerca de 10 pessoas trabalhando. Eles chegam de balsa e de avião. E temos visto um aumento do avanço deles pelo nosso território, o tempo todo entrando e saindo com aviões, helicópteros, tudo. O vice-presidente respondeu que não tem mais de 20.000 garimpeiros. Falou que, pelo que conhece, tem 3.500 garimpeiros ilegais.

 

P. Nos últimos dias, a Polícia Federal prendeu um suspeito de operar vôos para o garimpo ilegal no território yanomami, e ele já havia sido condenado por genocídio. O que você acha que esse episódio, com uma pessoa que supostamente pratica o mesmo crime há tantos anos, mostra sobre o problema histórico do garimpo ilegal para os yanomami?

R. Para nós, parece que no Brasil não existe a lei brasileira. A terra é da União, e é proibido entrar qualquer pessoa no território que está homologado [como Terra Indígena]. Então isso é uma dúvida. Nós temos legislação, Justiça, tudo. E as pessoas entram ilegalmente para extrair ouro. Então esta é a pergunta que eu faço para a sociedade brasileira e pros órgãos públicos. O nosso território está sendo estragado, sofrendo danos ambientais. A lei brasileira fala que não pode degradar nem destruir o território demarcado e reservado. Que quem está no garimpo ilegal deveria ser preso. Onde está essa Justiça? O cara depois sai livremente andando e bancando logística pro garimpo ilegal. Pra nós, yanomami, a Justiça não está sendo cumprida. Se não retirar os garimpeiros e impedir que eles voltem, o crime continua acontecendo. A gente está falando com as autoridades, entregando papéis, demonstrando o que está acontecendo, e as pessoas continuam ali atrás do ouro. Os nossos parentes estão morrendo por isso. Então, onde está o nosso direito yanomami? A nossa parte, nós fazemos. Agora as autoridades e a Justiça têm que agir ou o garimpo ilegal não vai acabar.

 

P. No meio de uma pandemia grave como esta e com esse problema histórico do garimpo ilegal no território yanomami, quais as ações que seriam necessárias pelo Governo? O que é mais urgente neste momento?

R. Atender à nossa campanha “Fora covid e fora garimpo”. Primeiro, retirar todos os garimpeiros ilegais da Terra Indígena Yanomami. Tem que fazer isso pra eliminar o que está espalhando coronavírus nas nossas aldeias pra diminuir a epidemia. O povo Yanomami precisa urgentemente disso. (...) Vocês, brancos, precisam reconhecer o direito do povo da floresta. É isso que vocês têm que aprender e entender. Eu não tô negociando o território nem o ouro da terra, eu tô lutando por direito. Tô lutando pela paz ao povo da floresta. Chega de genocídio. Agora estamos lutando contra o genocídio do coronavírus, mas houve outros. Eu não tenho medo de lutar porque meus antepassados já morreram pela mesma coisa que eu tô enfrentando agora. Que o mundo inteiro saiba pelo que eu estou lutando. Que fique claro pros brancos: eu tô lutando porque venho dos meus antepassados. Eu respeito o povo da floresta e respeito o povo da cidade, mas a gente precisa ter os nossos direitos garantidos.

05
Abr20

Autor americano aponta potencial da covid-19 para reduzir desigualdade no mundo

Talis Andrade

 

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por Daniel Buarque/ BBC 

Apesar do duro impacto humano e econômico da pandemia de coronavírus em todo o mundo, a perspectiva histórica aponta que o Covid-19 tem o potencial de afetar positivamente o que é apontado como um dos maiores problemas do mundo atual: a desigualdade social.
Isso porque, ao longo da história, grandes epidemias tiveram efeito "nivelador" da economia, defende o historiador Walter Scheidel, professor da Universidade Stanford, nos Estados Unidos. O princípio visto ao longo da história é simples, ele explica em entrevista à BBC News Brasil: quando muita gente morre, há uma redução de mão de obra, então trabalhadores podem vender sua força de trabalho por salários mais altos, e as pessoas ricas passam a ter uma renda menor.

Assim, a desigualdade diminuiria.

O modelo é apresentado por Scheidel no livro The Great Leveller: Violence and the History of Inequality from the Stone Age to the Twenty-First Century, obra que traça a história da desigualdade social no mundo e analisa as rupturas levaram a sua diminuição. O livro seria lançado neste mês no Brasil pela editora Zahar, mas teve a publicação em português, com o título "Violência e a história da desigualdade", adiada por conta da pandemia.

A pesquisa de Scheidel diz que apenas essas grandes disrupções, a que ele se refere como "quatro cavaleiros do apocalipse" conseguiram reduzir a desigualdade econômica ao longo da história: grandes epidemias, falências do Estado, revoluções comunistas e esforços em massa para a guerra.

Segundo o historiador, entretanto, este tipo de impacto relacionado a epidemias se adapta melhor ao que acontecia em sociedades agrárias até o século 20. Desde então, com a urbanização e o desenvolvimento da medicina, crises globais como a atual acabam influenciando a desigualdade de outra forma.

"Crises muito sérias podem afetar preferências políticas e escolhas políticas. Então, se este evento for severo o suficiente, ele pode alterar as preferências do eleitorado de forma que se mova para uma defesa de um estado de bem-estar social mais forte, impostos mais altos para pagar pelos déficits causados por pacotes de estímulo, mais assistência médica, maior proteção aos trabalhadores", avalia.

É um modelo mais próximo do que se viu historicamente após esforços em massa de guerra, como na primeira metade do século 20. "Isso poderia no fim ter o efeito de preparar a sociedade para mudanças que a tornem mais inclusiva e progressista", disse. (Continua)

 

29
Fev20

O “golpe” do capitão e duas esquerdas possíveis

Talis Andrade

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por Antonio Martins

Nenhum vento ajuda quem não sabe a que porto quer chegar, escreveu Sêneca, dramaturgo e filósofo estoico, há dois mil anos. A semana do Carnaval, que vai chegando ao fim, foi marcada por dois fatos de enorme profundidade e repercussão – e por um factoide banal e recorrente. O coronavírus espalhou-se pelo mundo, com grandes eclosões na Coreia do Sul, Irã e Itália, e um rastro de novos casos em dezenas de países – inclusive o Brasil, onde já há 300 suspeitas de contaminação. Em sua garupa, um tremor está sacudindo os mercados financeiros do planeta. As bolsas de valores registram quedas expressivas e seguidas (com grande impacto na de São Paulo). Cresce o risco de uma crise prolongada, capaz de se espraiar pelas cadeias produtivas e atingir os bancos. Os dois acontecimentos expõem, cada um a seu modo, a desordem global provocada pelo capitalismo em sua etapa financeirizada – e em especial os descaminhos do Brasil, em meio ao caos. Abre-se, portanto, enorme espaço para iniciativas, pedagogia e mobilização política. Mas a ficha não caiu. Bastou um tuíte patife, de um presidente parvo, e a oposição se desviou daquilo que importa e lhe daria força, para se perder, mais uma vez, na agenda do adversário. Há tempo para corrigir o rumo – mas haverá sagacidade e ânimo?

* * *

Os vírus não têm, é claro, significação política – mas as epidemias provocadas por eles, sim. A atual torna claro o desastre de uma globalização sem instituições democráticas e sem políticas públicas. Diante de uma possível pandemia, faltam coordenação internacional, órgãos responsáveis, recursos, notou o New York Times no início da semana. A Organização Mundial da Saúde, agência do ONU dedicada ao tema, tenta virar-se com o risível orçamento anual de 2,2 bilhões de dólares – 545 vezes menos que o aumento de riqueza dos quinhentos maiores bilionários do planeta em 2019. A ausência de ação internacional será sentida na falta de medidas para conter a propagação do vírus pelo mundo, e nas consequências possivelmente trágicas, em países populosos e empobrecidos. Pense em Bangladesh, na Indonésia ou no Haiti.

Mas o coronavírus deixa a descoberto, em especial, as políticas neoliberais de desmonte dos serviços públicos e os governos que aderem a elas. O Brasil, onde Temer e Bolsonaro congelaram o gasto social e mantêm o SUS sob constante ameaça, é um caso clássico. As características particulares da doença exigem sistemas de saúde sólidos e equipados, e Estados capazes de investir com presteza e coordenar políticas. A letalidade é moderada (em torno de 2%); mas a facilidade do contágio é notável; e a necessidade de hospitalização, intensa. O exemplo chinês revela que, nas localidades atingidas, entre 25% e 70% da população pode ser contaminada, quando não há medidas rigorosas de controle. Cerca de 15% dos atingidos necessitam internação; e 5%, cuidados intensivos. Basta fazer as contas, considerando a população de sua cidade, para constatar a gravidade da ameaça.

Enfrentá-la exige, em particular, três componentes: uma rede hospitalar robusta; medidas de prevenção e isolamento; capacidade de adotar vastas ações emergenciais, como o suspensão das aulas e espetáculos e, muitas vezes, a paralisação de quase todas as atividades produtivas. Reveja a China, onde o coronavírus parece agora regredir. Lá, uma região com 89 milhões de habitantes foi isolada, dois hospitais com mil leitos erguidos em dez dias, toda a população convidada a permanecer em suas casas. Repare também no hotel Costa Adeje, nas Ilhas Canárias (Espanha), onde a identificação de um único caso levou as autoridades a manter em quarentena estrita 723 hóspedes, autorizados a sair de seus quartos, usando máscaras, apenas para breves refeições.

Nada no Brasil sugere um esforço semelhante. As autoridades tentam sustentar, com auxílio da mídia, um discurso de falsa tranquilidade – que bloqueia a conscientização e mobilização necessárias. Faltam máscaras e imunoglobina e arrasta-se o processo para adquiri-las no exterior. Os hospitais carecem de aparelhos de ventilação, um equipamento crucial contra a doença. O ministro da Saúde faz declarações estapafúrdias, dizendo esperar que o vírus “tenha comportamento” como na China – sem fazer referência alguma às medidas lá adotadas e aqui ausentes.

De um governo que se empenha em devastar os serviços públicos e que nega a própria Ciência, que se poderá esperar? A mobilização terá de surgir de fora. Mas ela permite, em contrapartida, evidenciar a necessidade de novos rumos. O Brasil constituiu, ao longo de décadas, vasta experiência e conhecimento em Saúde Pública. Ele está expresso, em especial, em centenas de pesquisadores extremamente qualificados, politizados, defensores do SUS, hoje distantes dos órgãos de governo. Não seria difícil mobilizá-los, construir com eles um conjunto claro de respostas à nova emergência, apresentá-las à população, cotejá-las com a paralisia oficial. Combinar denúncia com proposição de alto nível. Informar e mobilizar – inclusive nas ruas.

Abriria o elenco de propostas, certamente, a revogação da Emenda Constitucional 95, que congelou o gasto social por vinte anos. Foi uma decisão central do governo instalado após o golpe de 2016. O ambiente político da época tornou difícil questioná-la. Agora, abre-se uma brecha inédita: a Saúde da população está em risco; todos os esforços para protegê-la são necessários; não é possível aceitar que recursos públicos existentes sejam desviados para a especulação financeira. Em torno de pontos

As crises sempre geram oportunidade. Mas aproveitá-las exige enxergar e agir.

* * *

À medida em que a semana evoluía, ergueu-se uma segunda crise global, agora estampada com todas as letras nas manchetes da mídia internacional relevante. Os mercados financeiros estão em pânico. As perdas nas principais bolsas de valores aproximam-se dos 15% e já se comparam às dos dias críticos de 2008. Mais: a própria economia será duramente atingida, com risco de falências e demissões em massa. Não está afastada a hipótese de um contágio dos bancos, o que multiplicaria a potência dos desastres. O Brasil, onde a reprimarização da economia vem de longe – mas acentuou-se nos últimos anos – está especialmente fragilizado. Também aqui, vai se abrir um enorme terreno de disputa política.

O coronavírus serviu apenas de estopim. Ele interrompeu parcialmente as cadeias produtivas de certas indústrias – a automobilística, que usa componentes produzidos em diversos países, é o caso típico. Também pode afetar gravemente serviços como aviação e turismo e, nas localidades fortemente atingidas, a atividade comercial. Mas o que se viu nos últimos dias tem raízes muito mais profundas e revela como o capitalismo financeirizado é tão devastador quanto frágil.

A revista Economist explica. As quedas das bolsas de valores foram provocadas, e devem se propagar, principalmente devido a movimentos especulativos. Enormes fundos globais, que fazem aplicações visando o lucro financeiro sem investimento real, ficaram em situação de desequilíbrio, após sofrer com desvalorização das primeiras ações afetadas. Isso os obrigou a se desfazer de parte dos papéis; mas o porte destas vendas gerou novas ondas de instabilidade, numa reação em cadeia que ainda não foi interrompida.

Começou, então, uma corrida por ativos seguros, em que os grandes fundos tendem a tirar dinheiro de aplicações consideradas de risco. É o caso dos papéis que expressam empréstimos corporativos. Parte das empresas – mesmo as que têm condições de captar recursos nos mercados financeiros globais – passa a ter dificuldades de rolar suas dívidas, podendo tornar-se inadimplentes. Se o processo não é interrompido, os próprios bancos entram na linha de contágio. E a situação se agrava porque houve, nos últimos anos, novo movimento de desregulamentação financeira. Passados os efeitos mais dramáticos da crise de 2008, foram sendo removidos os limites então impostos operações temerárias, que geram grandes lucros e grandes riscos.

Assim como a crise sanitária, o vendaval financeiro e econômico abre imensa janela – tanto para denunciar as políticas em curso quanto para propor sua reversão em massa. O Brasil sofrerá forte impacto, porque em crises globais as vendas e os preços das commodities agrícolas e minerais são os mais expostos (veja, no gráfico abaixo, a imagem da reprimarização de nossas exportações). Mas o debate central será sobre o que fazer. A receita neoliberal costumeira é dupla: obrigar a maioria a apertar os cintos; salvar os ricos.

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Nada obriga a seguir este script vulgar. O caso norte-americano é o mais eloquente. Bernie Sanders cresceu nas últimas semanas, e tende a avançar ainda mais, ao expor aos eleitores um projeto oposto. Implica ampliar radicalmente os serviços públicos (em particular, a Saúde gratuita…); defender e alargar os direitos sociais; estabelecer a política de Emprego Digno Garantido; tributar os ricos e as corporações; combater fortemente a desigualdade e, em especial, a especulação financeira.

Seu exemplo demonstra: há imenso espaço para uma esquerda disposta a dialogar com as necessidades concretas da população e, ao mesmo tempo, propor mudanças profundas, de sentido pós-capitalista. A crise, com sua enorme potência para colocar em xeque o que parece normal, multiplicará esta condição. Alguém se dispõe a aproveitá-la?

* * *

Nos últimos dias, ficou clara a tática velhaca de Bolsonaro em relação às manifestações de ultra-direita marcadas para 15 de março. Mais uma vez, são duas caras. Por um lado, ele republicou – mas não assume… – a exortação ao golpe, claramente sugerida pelos organizadores (“Os generais aguardam a ordem do povo”). Por outro, dedica o próprio tempo a chorumelas contra suposta perseguição que diz sofrer por parte da mídia, o Congresso, os governadores, a esquerda – em suas palavras, “os poderosos”. O objetivo é óbvio: alimentar a manifestação, gerando se possível três semanas de polêmica incessante sobre ela. E, em especial, convertê-la no fato mais importante do período, livrando o governo de responder pelas crises que realmente importam e se possível reduzindo-as a fatos secundários.

A suposta “polêmica” com o Congresso, que foi acalentada por uma fala do ministro da Segurança Institucional, general Augusto Heleno, tem como foco as emendas parlamentares impositivas. O Executivo estaria contrariado por ter de empregar parte do Orçamento em despesas que os deputados e senadores criam e o Palácio do Planalto é obrigado a pagar (embora possa protelar). A falsidade da disputa pode ser atestada por dois fatos simples. As emendas impositivas foram instituídas em 2015 com o voto do então deputado Jair Bolsonaro, e ampliadas em 2019 graças ao apoio do PSL, seu partido de então. Além disso, nenhum presidente liberou mais emendas parlamentares do que Jair Bolsonaro. Foram R$ 5,7 bilhões, em 2019 – 3,04 bi apenas na votação da contrarreforma da Previdência. A liberação é uma espécie de antecipação. Se não ocorre, os valores, embora “impositivos”, podem ficar disponíveis apenas ao final do ano ou cair no buraco negro dos “restos a pagar”. O Executivo mantém, portanto, poder de barganha. E nenhum presidente agradou mais os deputados e senadores que este mesmo, agora fingidamente contrariado…

A encenação de uma disputa falsa com o Congresso é uma patifaria calculada, que, além de desviar a atenção das crises, traz duas vantagens adicionais ao presidente. Primeiro, ele inventa para si um “adversário” fictício altamente impopular – e obtém nova chance de manter a máscara de “anti-establishment”, essencial para sua imagem. Segundo, coloca em sinuca a esquerda, seu inimigo real. Para contrapor-se a Bolsonaro, ela será vista pelas maiorias como aliada dos personagens mais associados à corrupção e que mais têm se empenhando em retirar direitos do povo e prestar favores ao grande poder econômico. Vale lembrar que agora, quando timidamente criticam o capitão, Rodrigo Maia e César Alcolumbre, os presidentes da Câmara e do Senado, o acusam de… tumultuar a tramitação das contrarreformas Administrativa e Tributária. Estas mesmas, que devastam ainda mais os serviços públicos e os direitos sociais…

* * *

Três jornadas de lutas poderão se contrapor, nas próximas semanas, ao ato convocado pela ultra-direita para 15/3. Em 8 de março, haverá o Dia Internacional da Mulher. Seis dias depois, a homenagem a Marielle Franco, no segundo aniversário de seu assassinato. Em 18/3, atos em defesa da Educação e dos Serviços Públicos. Qual será o caráter destas manifestações? Que se fará antes e depois delas? Duas hipóteses opostas parecem hoje possíveis.

A primeira é construída em torno do viés reativo e burocratizado que a esquerda institucional assumiu desde a crise do projeto lulista, no governo Dilma – e em particular após o golpe de 2016. Os partidos, e os movimentos que orbitam em torno deles, mantêm o controle. Repete-se a narrativa segundo a qual tudo, inclusive 2013, não passou de uma conspiração das elites. Fala-se para os convertidos. Morde-se a isca infantil lançada por Bolsonaro. Nos atos – marcados pela presença ensurdecedora dos caminhões de som e a estética igualmente autoritária e rivalista dos enormes balões – a tônica será apenas a defesa contra mais um golpe. Os participantes sairão como chegaram, comentando as falas dos oradores centrais e despreparados para o que virá a seguir.

Na segunda hipótese, aflora outra tradição, que também compõe o repertório da esquerda. Retoma-se o gigantesco #elenão, as ondas feministas, as paradas LGBT+, os atos autoconvocados em repúdio ao assassinato de Marielle Franco, as chegadas dos sem-terra, dos sem-teto e dos indígenas ao centro das metrópoles, as marchas em defesa da Educação de maio de 2019. Os partidos estão presentes, mas o protagonismo é compartilhado com a multidão. Emerge a imensidão criativa de cartazes, de corpos pintados, de cantos e danças.

Acima de tudo, assume-se uma pauta que provoca, ao invés de (ou mesmo para) se defender. As marchas referem-se a uma democracia concreta – que implica o direito da sociedade ào Comum – a saúde, a educação, o trabalho, uma vida digna, uma nova relação com a natureza. Defende-se o Congresso contra as investidas autoritárias, mas fala-se também em reinventar a política com novas formas de participação e ação direta. Enfrenta-se o bolsonarismo de fato. Inverte-se a dinâmica atual, forçando-o a responder. Cria-se uma situação em que cada participante encara os atos não como um espetáculo onde se assiste ao discurso de personalidades ilustres – mas como um momento onde se compartilham ideias, para tomar em seguida novas iniciativas. Inclusive, porque a luta contra o fascismo será prolongada e precisará de milhões de ativistas permanentemente capazes de falar, escutar o outro, criar.

A batalha em defesa da democracia e de um país respirável parece cada vez mais imbricada com o que a esquerda brasileira quer ser, no século XXI. Uma repetição improvável? Uma recriação possível? Como disse Bertolt Brecht, há quase um século: “não espere outras respostas, além das suas”…

 

04
Fev20

No Brasil, dengue preocupa mais que coronavírus

Talis Andrade

 

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A dengue atinge especialmente o Brasil, com 1.544.987 casos em 2019, em comparação com os 265.934 casos em 2018: um aumento de 488%. Também ocorreu o maior número de mortes: 782, de acordo com dados de 2019 do Ministério da Saúde brasileiro

A dengue representa um grande desafio para a América Latina. O vírus é transmitido por mosquitos, por isso as medidas sanitárias mais urgentes são as campanhas de conscientização entre a população dos diferentes países, para que todos os lugares onde esses insetos se reproduzem sejam eliminados, especialmente aqueles dentro e próximos das casas.

A Opas enfatiza que a dengue é "um problema de saneamento doméstico e comunitário" e que a maneira mais eficaz de combatê-la é se livrar de todo tipo de objeto e recipiente "que possa acumular água, como tambores, pneus usados, latas, garrafas e vasos".

A dengue afeta bebês, crianças pequenas e adultos. Os sintomas mais frequentes são febre alta (40 ºC), dor de cabeça muito intensa, dor atrás dos olhos, nas articulações e nos músculos. Se esses sintomas ocorrerem – bem como dores abdominais fortes, vômito persistente, respiração rápida, hemorragia das mucosas, vômito e fadiga –, é necessário consultar um médico com urgência.

A dengue grave (também chamada de hemorrágica) é fatal, pois pode levar à acumulação de líquidos, hemorragias graves e falência de órgãos. Embora não exista um tratamento específico para essa doença, o diagnóstico precoce, cuidados médicos e aconselhamento adequado ao paciente podem salvar vidas. [Transcrevi trechos. Leia mais sobre dengue e coronavírus no DW aqui]

 

28
Jan20

Como é transmitido o coronavírus?

Talis Andrade

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O novo coronavírus, batizado provisoriamente de 2019-nCoV pela Organização Mundial da Saúde (OMS), ainda está sendo estudado. O primeiro alerta para a doença foi emitido pela OMS em 31 de dezembro de 2019, após autoridades chinesas notificarem casos de uma misteriosa pneumonia na cidade de Wuhan.

A China afirma que uma vacina está em desenvolvimento e que uma cepa do vírus já foi isolada com sucesso.

Os coronavírus foram descobertos na década de 1960, e o nome deriva de seu formato, semelhante a uma coroa. São vírus de RNA extremamente adaptáveis e geneticamente diversos. Eles podem se espalhar facilmente e infectar espécies diferentes.

Enquanto alguns coronavírus provocam resfriado comum, outros podem evoluir para doenças mais graves, causando dificuldade de respirar, pneumonia e até morte.

Em 2002 e 2003, por exemplo, o agressivo coronavírus SARS-CoV levou a uma epidemia em 30 países. No mundo, mais de 8 mil pessoas foram infectadas e cerca de mil morreram. Em 2012, o Coronavírus da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS-CoV) foi descoberto na Península Arábica.

Como o vírus é transmitido?ImageImage

Já foi confirmado que o novo coronavírus pode ser transmitido entre humanos, mas ainda não está claro como. Embora muitos outros coronavírus sejam transmitidos por tosse e espirros, até o momento não se sabe se esta também é a forma de transmissão do novo vírus.

O que se sabe é que ele pode se espalhar antes mesmo de aparecerem os primeiros sintomas e que o tempo de incubação varia de 1 a 14 dias. Segundo o ministro da Comissão Nacional de Saúde da China, Ma Xiaowei, a capacidade de transmissão está se fortalecendo e, por isso, o número de infecções pode continuar aumentando. 

As primeiras infecções foram detectadas na cidade chinesa de Wuhan e remontam a um mercado de animais selvagens e peixes, que foi fechado. O vírus pode ter sido transmitido através do contato direto entre humanos e animais, ou simplesmente através do ar.

Os vírus que podem se espalhar entre humanos e animais causam as chamadas doenças zoonóticas. Eles podem ser transmitidos quando humanos consomem carne ou produtos de origem animal, por exemplo, se não forem suficientemente aquecidos ou se forem preparados em ambiente insalubre.

Quais são os sintomas?

Os sintomas são, em muitos casos, parecidos com os de uma gripe, como febre, cansaço e dificuldade para respirar. O vírus também pode causar pneumonia. 

A doença é mais comum em idosos. Segundo o Comitê Nacional de Saúde da China, homens com mais de 50 anos e com algum problema de saúde anterior representam boa parte das vítimas.Image

 

26
Jan20

Coronavírus é contagioso antes dos sintomas aparecerem, diz ministro chinês

Talis Andrade

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O ministro da Comissão Nacional de Saúde da China, Ma Xiaowei, revelou neste domingo que coronavírus pode ser transmitido mesmo da manifestação dos primeiros sintomas e que o período de incubação pode variar de 1 a 14 dias.

— De acordo com informações clínicas recentes, a capacidade de propagação do vírus parece estar ficando um pouco mais forte — disse Ma em uma entrevista coletiva lotada, no segundo dia do feriado do Ano Novo Lunar, acrescentando que o conhecimento científico sobre o vírus ainda é limitado.

Gao Fu, chefe do Centro chinês de Controle e Prevenção de Doenças, afirmou que o novo coronavírus “não é tão potente” quanto o vírus da Sars. A Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars) foi um coronavírus que se originou na China e matou quase 800 pessoas em todo o mundo em 2002 e 2003.

— Aparentemente, até agora, esta doença não é (…) tão potente quanto a Sars — disse.

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25
Jan20

Coronavírus: governo chinês admite pela primeira vez que situação é grave

Talis Andrade

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Casos do novo tipo de coronavírus identificado em dezembro na cidade de Wuhan, na China, já foram confirmados em mais oito países — Cingapura, Coreia do Sul, Estados Unidos, Japão, Nepal, Tailândia, Taiwan e Vietnã.

Apesar disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decidiu não declarar este surto uma situação de emergência global, após uma reunião que se estendeu por dois dias.

O número oficial de mortos causado pelo surto de coronavírus na China aumentou neste sábado (25) de 26 para 41, e o governo chinês admitiu que a epidemia "está se acelerando" e coloca o país em uma "situação grave". A afirmação é do presidente Xi Jinping, que pediu unidade para enfrentar a epidemia.

 

Em uma reunião do comitê permanente do Bureau Político do Partido Comunista, a instância de sete membros que administra o país, o presidente afirmou que a China pode "vencer a batalha" contra o novo coronavírus.

"Dada a grave situação de uma epidemia que se acelera, é necessário fortalecer a liderança centralizada e unificada do Comitê Central do Partido", afirmou.

Desde o início da crise, 56 milhões de chineses foram isolados em áreas das quais não podem sair até novo aviso.

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