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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

11
Abr19

FATIAMENTO DA PETROBRAS. A entrega da TAG e a influência invasiva dos filhos de Bolsonaro na presidência do Brasil

Talis Andrade

 

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O jornal Le Monde publica nesta terça-feira (9) uma longa reportagem sobre a família do presidente Jair Bolsonaro e a crescente influência de seus três filhos mais velhos no governo. Eles são invasivos e o mais explosivo deles, sem dúvida, é o vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro, 36 anos, o 02 ou "pitbull", explica o jornal, de acordo com a descrição do próprio presidente brasileiro.

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"Carlos tem todas as senhas dos perfis do chefe de Estado brasileiro nas redes sociais (Twitter, Facebook e Instagram)", relata o vespertino Le Monde, após Bolsonaro ter confirmado essa regalia na entrevista que concedeu ontem à rádio Jovem Pan.

Respeitando a ordem de preferência e também de importância para o sucesso político aos olhos do pai, Le Monde traz na sequência o perfil do deputado federal Eduardo Bolsonaro, 34 anos, o 03 ou "Ivanka", como foi apelidado pela imprensa em referência à filha de Donald Trump, "que anda pela Casa Branca sem que se saiba exatamente qual é sua função real".

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"Eduardo ignora as exigências protocolares e faz o papel de ministro das Relações Exteriores", cita Le Monde. O senador Flávio, 37 anos, o 01, completa o clã Bolsonaro na política. "Mas anda discreto, depois do escândalo de desvio de fundos na campanha envolvendo seu assessor e motorista, Fabrício Queiroz."

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"Traço em comum: todos abominam os direitos humanos"

O traço em comum entre 01, 02, 03 e o pai é que todos abominam os direitos humanos, preferem o "homem honesto", uma fórmula utilizada por grupos de extrema direita na América do Sul, menciona a correspondente do Le Monde em São Paulo, Claire Gatinois. Além disso, os quatro adoram armas de fogo e defendem a meritocracia favorável aos bem-nascidos no Brasil, em detrimento dos pobres.

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Ao lado do pai, os três filhos do presidente animaram nos três primeiros meses de governo a política de "reality show" da cúpula do poder, com tuítes bombásticos, fugindo do enfrentamento com jornalistas profissionais.

Enquanto o Le Monde dá destaque aos homens fortes da extrema direita atualmente no poder, no Brasil, os jornais Le Figaro e Les Echos relatam que a Petrobras escolheu a companhia francesa Engie no processo de venda de 90% do capital da Transportadora Associada de Gás, a TAG. A empresa francesa de energia adquiriu a metade dos gasodutos brasileiros, cerca de 4.500 km, por US$ 8,6 bilhões. Nos próximos anos, a Engie pretende obter um quinto de seus lucros no Brasil, comemora a imprensa francesa.

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05
Abr19

Dallagnol confessa que agiu contra os interesses e as leis do Estado

Talis Andrade

A quem serve o coordenador da Lava Jato no MPF: ao Brasil ou aos EUA?

 

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por Umberto Martins

In 247

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É reveladora, e também deveria ser considerada preocupante, a informação divulgada pelo procurador Deltan Dallagnol, coordenador da Lava Jato no Ministério Público Federal, durante evento realizado pelo jornal O Estado de São Paulo na segunda (1º/4). Tentando explicar o inexplicável acordo pelo qual seria criada uma fundação associada à Força Tarefa da Lava Jato em Curitiba para administrar uma fortuna de R$ 2,5 bilhões provenientes da Petrobras, ele sugeriu que a iniciativa foi uma exigência dos EUA.

"O que existiu foi uma autorização condicionada à política oficial norte-americana", revelou. "Os EUA frisaram que o dinheiro não poderia ficar com a União Federal porque a União Federal é controladora da Petrobras". Mas será que Dallagnol ainda não se deu conta de que é um funcionário público pago pelo Estado brasileiro? E muito bem pago, por sinal.

 

Privilégios e mordomias

Além de um salário de cerca de R$ 33 mil, ele embolsa uma verba extraordinária de R$ 6.659 todo santo mês, incluindo auxílio moradia, muito embora seja proprietário de imóveis em Curitiba, inclusive oriundos do programa Minha Casa, Minha Vida. Parafraseando o jornalista Boris Casoy. poderíamos chamar isto de "pouca vergonha". Trata-se de um cidadão privilegiado, um espertalhão que goza de mordomias condenáveis enquanto posa de guardião da moral nacional.

Como funcionário público brasileiro não poderia incorrer em ilegalidades para criar uma fundação cujo objetivo é a administração de R$ 2,5 bilhões, sendo que na realidade pelo menos metade deste dinheiro seria usado para fins políticos e particulares pelos integrantes da força tarefa, personalidades cuja vocação reacionária e direitista é pública e notória. Todavia, Dallagnol confessa que agiu contra os interesses e as leis do Estado que paga seus salários e mordomias porque os EUA assim queriam e determinaram: "frisaram que o dinheiro não poderia ficar com a União Federal" e ele teria batido continência. Que poderes tem os EUA, uma potência estrangeira, para determinar quem pode e quem não pode manipular dinheiro que, tendo origem numa estatal, devem ser considerados públicos?

 

Golpes e guerra híbrida

A negociação dos recursos em questão continua envolta na obscuridade, assim como o conjunto das relações perigosas estabelecidas entre os heróis da Lava Jato e Washington, que reclamam investigações mais sérias e aprofundadas. A operação organizada e conduzida pela chamada República de Curitiba foi peça fundamental da engrenagem golpista que culminou na deposição de Dilma Rousseff, na condenação e prisão política de Lula e na eleição de Jair Bolsonaro.

A empreitada não teria sucesso sem o concurso da rede global de espionagem montada pelo poderoso império. Foi o que municiou a Lava Jato, com informações colhidas ilegalmente espionando a presidenta Dilma, ministros e assessores do seu governo e grandes empresas brasileiras, entre elas a Petrobras e a Odebrecht. A visita do ex-juiz Sergio Moro, hoje um funcionário de Bolsonaro, à sede da CIA em Washington é emblemática neste sentido.

As informações colhidas pelos espiões norte-americanos também têm sido largamente utilizadas contra políticos de esquerda e líderes latino-americanos que o imperialismo enxerga com hostilidade e trata como inimigos.

Não há exagero nas análises que veem nos acontecimentos políticos que sacodem o continente ao longo dos últimos anos a estratégia de uma guerra híbrida movida pelos EUA para recuperar o domínio da região, cujo pano de fundo é o duelo geopolítico com a China e a Rússia. Isto hoje parece mais claro com o acirramento da luta de classes na Venezuela, onde Pequim e Moscou respaldam o governo de Maduro enquanto os EUA apostam suas fichas num golpe de Estado liderado pelo deputado Juan Guaidó.

 

As lições da história

É à luz deste contexto histórico mais amplo que se desenrola e deve ser analisada a novela da Lava Jato, cujos resultados objetivos favoreceram sobremaneira os interesses e a estratégia imperialista dos EUA. Entre esses favores destacam-se a destruição das grandes empreiteiras brasileiras, sérias concorrentes dos monopólios estadunidenses abatidas na operação, a multa bilionária extorquida da Petrobras, a abertura do pré-sal e a deposição de um governo considerado hostil, acompanhada da prisão de Lula e eleição de um direitista fanático fã número 1 de Donald Trump ao mais alto cargo da República brasileira.

O maior de todos os prêmios colhidos pela Casa Branca foi a mudança radical da política externa brasileira, que começou com Temer mas adquiriu uma qualidade superior com a dupla Bolsonaro/Araújo. Uma política infame que deixa o Brasil inteiramente a reboque dos desígnios imperialistas dos EUA num momento de franco declínio da sua hegemonia em todo o mundo e decomposição da ordem capitalista institucionalizada nos acordos de Bretton Woods (1944).

Não se sabe se é apenas o espírito de vira-lata, descoberto por Nelson Rodrigues, que explica o comportamento temerário da República de Curitiba, exaltada e glorificada pela mídia hegemônica, mas que – embora blindada - acabou flagrada com as mãos na botija quando já estava se apropriando sorrateiramente dos R$ 2,5 bilhões extorquidos pelos EUA da nossa Petrobras.

A verdade é que não há saldo positivo da Lava Jato. Para a economia foi um desastre que subtraiu em torno de 2,5% do PIB, agravando a recessão iniciada em 2015, segundo estudo feito à época pelo Grupo de Economia & Soluções Ambientais da Fundação Getúlio Vargas, além de extraordinários benefícios ao capital estrangeiro. Milhões de empregos foram destruídos, de forma que o número atual de desempregados e subocupados chega a quase 30 milhões.

A história ensina que a política imperialista dos EUA, inaugurada no século 19, sempre contrariou os interesses dos povos e das nações na América Latina e igualmente no Oriente Médio, na Ásia, África e Europa. No Brasil, atuaram e atuam ostensivamente, aliados às forças sociais mais obscurantistas e reacionários para combater as organizações progressistas e sabotar o desenvolvimento nacional. Foram as "forças subterrâneas" denunciadas por Getúlio Vargas, levado ao suicídio em 1954, enviaram uma frota para garantir o golpe militar de 1964, que depôs João Goulart, e deixaram fortes impressões digitais no golpe de Estado de 2016, travestido de impeachment.

É no mínimo curiosa a declaração do subprocurador geral dos EUA, Kenneth A. Blanco, sobre a condenação do ex-presidente Lula, à qual se referiu (num discurso pronunciado em julho de 2017) como o principal exemplo dos "resultados extraordinários" alcançados graças à colaboração do Departamento de Justiça do seu país com os promotores da Lava Jato. Seria uma danosa ingenuidade acreditar que a intervenção dos imperialistas em assuntos domésticos do Brasil é guiada pelo nobre objetivo de combater a corrupção, aperfeiçoar a democracia e favorecer o desenvolvimento nacional, como sugerem os próceres da República de Curitiba.

As ligações perigosas da Lava Jato com o imperialismo demandam uma investigação mais rigorosa e profunda. Não se deve naturalizá-las em em nome do combate à corrupção. Quanto ao procurador Dallagnol, autor de um famoso e bizarro Power Point sobre Lula, ele precisa esclarecer se é um privilegiado funcionário do Estado brasileiro, a cujas leis e normas deve obediência, ou se segue ordens superiores provenientes dos EUA.

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03
Abr19

O desmonte do programa nuclear brasileiro

Talis Andrade

O ENTREGUISMO DA LAVA JATO

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por Thiago Flamé 

 

Alvo de dez inquéritos, Michel Temer já esperava ser preso. Segundo informações divulgadas na imprensa, porém, foi uma surpresa a ordem de prisão ter partido do juiz Marcelo Brettas, por conta dos contratos que envolvem a usina Angra 3 e não pela questão dos portos ou pela delação de Joesley da JBS.

A estatal Eletronuclear, subsidiária da Eletrobrás, é alvo da Lava Jato desde o início da operação. Na sua primeira derrota importante no STF, ainda em 2015, a operação foi desmembrada, e a parte relativa à Eletronuclear saiu de Curitiba e foi para o Rio de Janeiro, ficando nas mãos de juiz Marcelo Brettas. Na época ainda não se tinha uma dimensão que essa operação surgida nos laboratórios do Departamento de Estado dos EUA estendia seus tentáculos muito além de Curitiba, e que Brettas seria um dos maiores cruzados da operação.

Tendo como alvo principal a Petrobras, a Lava Jato na sua cruzada pró EUA também bombardeou a programa nuclear brasileiro. A obra da usina Angra 3, paralisada desde a década de oitenta, foi retomada como parte do PAC ao final do segundo governo Lula. A reativação das obras em Angra faziam parte da retomada do programa nuclear, a cargo da Eletronuclear, que tomou impulso com os acordos assinados com a França em 2008 para a construção de um submarino nuclear, projeto acalentado pela marinha e pelas forças armadas desde a década de setenta. Os contratos envolvendo o submarino nuclear com a França, o maior na história das forças armadas brasileiras em valores não podia deixar de incomodar os EUA.

A Lava Jato tem três operações em curso que investigam as obras de Angra 3. A Operação Radiotavidade, Irmandade e Pripyat. Os maiores contratos para a construção da usina, os mesmos da década de oitenta que foram reativados pelo governo Lula sem novas licitações, envolvem multinacionais europeias, alemãs, suecas, holandesas, mas principalmente francesas, com as empreiteiras brasileiras envolvidas nos escândalos da Petrobras, Odebrecht e Camargo Correia e Andrade Gutierrez.

A operação que levou o ex-presidente Michel Temer à prisão na última quinta feira, que se encerrou com a sua liberação na noite de ontem, é um desdobramento dessas três operações. O esquema de corrupção era um sistema de repasse de verbas através de empresas laranjas que levavam o dinheiro da propina para o MDB, via Argeplan, a empresa do coronel Lima, e para a diretoria da Eletronuclear, entre outras formas, através da empresa Aratec, ligada ao Almirante Othon, presidente da Eletronuclear desde 2005.

Se Michel Temer e Moreira Franco são os políticos ilustres presos pela Lava Jato, o coronel Lima é o operador que liga os caciques do MDB às obras de Angra 3, o almirante Othon é a peça que liga as prisões desta quinta feira ao conjunto do programa nuclear, uma disputa geopolítica que remonta aos anos setenta. Apesar do MPF pedir a prisão do almirante, o juiz Brettas negou o pedido. O início das obras em Angra, contou com o apoio inicial dos EUA, que pouco tempo depois reviu a posição de fornecer material radioativo ao Brasil, que se voltou à Alemanha para seguir o projeto nuclear, sob protesto dos EUA. A mesma Alemanha boicotou o acordo de transferência tecnológica com o Brasil, o que levou no final do governo Geisel a Marinha lançar o chamado programa nuclear paralelo, um programa secreto à época. Othon não é qualquer pessoa. Foi um dos líderes desse programa nuclear paralelo, sigiloso, que levou o Brasil a dominar a tecnologia de enriquecimento de urânio, apesar da resistência dos EUA.

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A Lava Jato também investiga o programa do submarino nuclear e o consórcio entre a estatal francesa DCNS com a Odebracht, que passaria por esquemas parecidos com os de Angra 3, envolvendo também o almirante Othon. Essa linha de investigação surge das delações da Odebrecht e de Antonio Palloci. Outra operação em curso, a Operação Submarino, deflagrada agora em fevereiro de 2019, com mandados de busca e apreensão no Centro Tecnológico da Marinha, investiga contratos firmados com a holandesa Bilfinger Maschinembau GMBA & CO (MAB).

As prisões deflagradas pela Lava Jato na última quinta tem um duplo objetivo. No plano imediato é uma demonstração de força da operação que vinha acumulando derrotas no STF e tendo o pacote de segurança de Moro secundarizado por Rodrigo Maia. Essa disputa entre a Lava Jato e Maia como representante da casta política, marca o embate diante de dois métodos distintos para seguir com um mesmo objetivo do golpismo em derrotar o movimento de massas: uma que utiliza os métodos da Lava Jato para disciplinar o Congresso e garantir os votos à reforma da previdência (com Moro e os procuradores de Curitiba); e outra que quer garantir esses votos com os velhos métodos do "toma lá dá cá" da velha casta política. Ao mesmo tempo é um prosseguimento dos objetivos mais estratégicos da Lava Jato, que é golpear todas as tentativas do Brasil sob o lulismo em barganhar maiores margens, ainda que pequenas, de autonomia. O programa nuclear e as relações de troca de tecnologia com a França, na alça de mira da Lava Jato, eram peças importantes destas tentativas.

 

30
Mar19

Como o Império preparou a Lava Jato e copiou a Justiça brasileira

Talis Andrade


Já havia elementos suficientes mostrando a preparação da Lava Jato pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. O encontro da AJUFE despertou pesquisadores, que localizaram um telegrama, no Wikileaks, que descreve com previsão como começou a Lava Jato

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Por Luis Nassif 

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O próximo evento da AJUFE (Associação dos Juízes Federais), financiado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, é uma continuação do Projeto Pontes, que transformou definitivamente a Justiça e o Ministério Público Federal em instrumentos de disputas geopolíticas.

 

Já havia elementos suficientes mostrando a preparação da Lava Jato pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. O encontro da AJUFE despertou pesquisadores, que localizaram um telegrama, no Wikileaks, que descreve com previsão como começou a Lava Jato.

 

De 4 a 9 de outubro de 2009, foi montado seminário similar no Rio de Janeiro, com o título “Crimes financeiros”, bancado pelo DoJ, com a participação de juízes e procuradores de cada um dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal, mais de 50 policiais federais e mais de 30 procuradores, juizes e policiais estaduais. Participaram também membros do México, Costa Rica, Panamá, Argentina, Uruguai e Paraguai.Foi um seminário de uma semana, sob o álibi genérico de combate ao terrorismo.

 

Foi o primeiro evento do Projeto Pontes, cuja missão era consolidar o treinamento das polícias para a aplicação da lei bilateral. Cuidou-se de concentrar em trabalhos práticos, evitando os temas teóricos – que, aliás, poderiam enveredar por aspectos legais da cooperação.

 

Segundo a nota do Wikileaks, em geral as autoridades brasileiras preferiam termos mais genéricos, como “crimes transnacionais”, evitando qualquer referência ao terrorismo. Naquele ano, a conduta mudou. No telegrama da Wikileaks, anota-se o fato de que, ao contrário das reuniões com o Ministério das Relações Exteriores e da Justiça, onde se evitava o termo terrorismo, o público da conferência estava claramente interessado no tema.

 

Terrorismo, aliás, a palavra-chave para a cooperação internacional e, especialmente, para a parceria entre juízes e procuradores brasileiros com as áreas de segurança do governo americano – leia-se DHS e CIA.

 

O treinamento foi amplo e prático, incluindo a preparação de testemunhas. Nas conclusões do seminário estava a necessidade de, no futuro, as investigações se basearem em forças tarefas, como maneira mais efetiva “de combater o terrorismo no Brasil”.

 

Segundo as avaliações do telegrama, o seminário demonstrou claramente que os juízes federais, promotores e outros profissionais da lei estavam menos preocupados com o campo minado político e “genuinamente interessados em aprender como melhor envolver o processo judicial na luta contra o terrorismo”.

 

Os dois conferencistas mencionados no telegrama foram o Ministro da Justiça Gilson Diap e o juiz paranaense Sérgio Moro. Dipp participou por desinformação; Moro por estar plenamente integrado ao Departamento de Justiça, por conta da parceria no caso Banestado. Nos debates, o tema principal versou sobre as sugestões dos brasileiros sobre como trabalhar melhor com os EUA.

 

Entre as diversas solicitações, pedia-se treinamento especial sobre a coleta de provas, interrogatórios e entrevistas, habilidades em tribunais e o modelo de força tarefa proativa, com a colaboração entre procuradores e as forças de segurança. Saía-se do campo estritamente penal, para o campo geopolítico.

 

Pediram conselhos, também, para mudar o código penal. Os americanos defenderam mudanças recentes no código, como a exigência do exame direto das testemunhas pela promotoria e pela defesa, não pelo juiz, e o uso de depoimentos ao vivo, em vez de declarações escritas. No entanto, dizia o telegrama, os brasileiros confessaram não saber como utilizar as novas ferramentas, mostrando-se ansiosos para aprender.

 

Os especialistas americanos notaram que o fato da lavagem de dinheiro já estar na alçada dos tribunais federais tornava mais eficaz o combate à corrupção de alto nível. “Consequentemente”, diz o telegrama, “há uma necessidade contínua de fornecer treinamento prático a juízes federais e estaduais brasileiros, promotores e agentes da lei com relação ao financiamento ilícito de condutas criminosas”.

 

Sugeriu-se a preparação de um projeto piloto. Os locais ideais, dizia o telegrama seriam São Paulo, Campo Grande e Curitiba. Apresentou-se o desenho do piloto: “Forças-tarefa podem ser formadas e uma investigação real usada como base para o treinamento, que evoluiria sequencialmente da investigação até a apresentação e a conclusão do caso no tribunal”, diz o telegrama, corroborando a palestra de Kenneth Blanco, do DoJ, no Atlantic Council. ”Isso daria aos brasileiros uma experiência real de trabalho em uma força-tarefa proativa de financiamento ilícito de longo prazo e permitiria o acesso a especialistas dos EUA para orientação e apoio contínuos”.

 

A conclusão final do encontro é que o Projeto Pontes deveria continuar a reunir as forças de segurança americanas e brasileiras em diferentes locais, “para construir nossos relacionamentos e trocar boas práticas”. E concluía que, “para os esforços de combate ao terrorismo, esperamos usar a abertura que esta conferência proporcionou para direcionar o treinamento de forças-tarefa de financiamento ilícito em um grande centro urbano”.

 

A consequência foi a destruição de parte relevante da economia brasileira, desmonte do sistema político e das instituições democráticas, permitindo à Lava Jato se tornar sócia do poder, através de seu aliado Jair Bolsonaro. E jamais apareceu um terrorista de verdade para justificar a parceria. O então Ministro da Justiça Alexandre Moraes precisou inventar terroristas de Internet.

 

É inacreditável que um evento tão ostensivo como este tenha passado despercebido do governo Lula, na época, cego pelo sucesso que marcou seu último ano de governo. [Veja documentos sobre a rede de espionagem e agentes que atuaram na entrega da Petrobas no GGN]

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30
Mar19

Governo americano vai bancar seminário para a Associação dos Juízes Federais

Talis Andrade
29
Mar19

BOLSONARO, QUE DISSE QUE FUZILARIA FHC PELA ENTREGA DAS NOSSAS RESERVAS PETROLÍFERAS, AGORA FAZ O MESMO!

Talis Andrade
por EMANUEL CANCELLA 
 
 
Bolsonaro questionado sobre a declaração de que fuzilaria o então presidente Fernando Henrique Cardoso, Bolsonaro riu e Jô Soares o repreendeu dizendo que “Isto é uma barbaridade”.
 
“Barbaridade é privatizar a Vale do Rio Doce, por exemplo, como ele [FHC] fez; barbaridade é privatizar as telecomunicações, é entregar as nossas reservas petrolíferas para o capital externo”, retrucou Bolsonaro (1).
 
E agora Paulo Guedes, ministro de Bolsonaro, defende a privatização de todas as estatais(2). E Bolsonaro não fala em fuzilá-lo, nem ao menos desautorizá-lo.
 
E o governo Bolsonaro tenta aprovar urgência para votar Cessão Onerosa do pré-sal (3,4,5). Para quem não sabe, a Cessão Onerosa é uma área do pré-sal que teria, no mínimo, 5 BI de barris de petróleo.  Mas já se sabe que possui,  mais de 15 BI de barris de petróleo.
 
A presidente Dilma passou essa área, sem licitação,  direto para a Petrobrás, com base na lei de Partilha (12.351/10) de Lula.
 
É que a Cessão onerosa tem a finalidade de financiar as operações no pré-sal, para que ninguém diga que a Petrobrás não tem dinheiro para financiar os projetos.
 
Se o governo Bolsonaro vai vender a Cessão Onerosa é porque está abrindo mão do pré-sal!
 
Depois da derrubada da presidenta Dilma, que não tenhamos dúvida foi principalmente para entregar nosso petróleo e a Petrobrás, o golpista Michel Temer colocou, para presidir a Empresa, o tucano Pedro Lalau Parente.
 
E a Lava Jato, que diz investigar corrupção na Petrobrás, ficou calada, mesmo Lalau sendo réu, desde 2001, quando deu um rombo de R$ 5 BI na Petrobrás (6).
 
Assim Pedro Lalau e a Lava Jato, com a anuência de Temer, destruíram a indústria naval (7). Navios e plataformas agora são construídos no estrangeiro gerando emprego e renda aos gringos. Para isso primeiro tiveram que substituir Dilma,  pois ela jamais concordaria com esse entreguismo.

Pedro Lalau Parente também tirou da Petrobrás e entregou aos gringos os setores mais estratégicos, lucrativos e empregatícios tais como Petroquímica, gás, fertilizantes e biocombustíveis (8).

 

Com base em suspeita de superfaturamento da Lava Jato, a Petrobrás cancelou a construção das refinarias do Ceará e Maranhão, que além da autossuficiência no refino do petróleo, daria ao país um excedente para exportação, gerando divisas ao Brasil (9).

 

Não seria mais sensato afastar os maus gestores e manter a obra, preservando assim  os investimentos e empregos?

 

Só para o cidadão comum ter ideia da importância do refino: depois dessas “medidas” do governo Temer, em apenas quatro meses, os EUA lucram R$ 7 bi em vendas de diesel para o Brasil (10).

 

Pasmem! E a Petrobrás de Bolsonaro ainda vai vender refinarias (11). Será que é só burrice ou aí tem maracutaia?

 

Quando o petróleo era um sonho, os brasileiros, nas décadas de 40 e 50, foram às ruas na campanha O Petróleo é Nosso! Agora que o petróleo é uma realidade, vamos permitir sua entrega aos gringos?

 

Fonte:

1https://www.esmaelmorais.com.br/2018/12/bolsonaro-defendeu-fuzilamento-para-quem-privatiza-estatais-assista/

2https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/2018/08/24/economista-do-psl-paulo-guedes-defende-a-privatizacao-de-todas-as-estatais.ghtml

3https://www12.senado.leg.br/noticias/audios/2018/11/governo-tenta-aprovar-urgencia-para-votar-cessao-onerosa-do-pre-sal

4http://www.energyway.com.br/2016/12/19/sobre-a-cessao-onerosa/

5https://fgvenergia.fgv.br/noticias/pre-sal-qualquer-empresa-estrangeira-podera-explorar-areas-de-cessao-onerosa

6https://www.redebrasilatual.com.br/blogs/helena/2016/06/presidentes-da-petrobras-e-do-bndes-sao-reus-em-acao-por-rombo-bilionario-9872.html

7https://www.ocafezinho.com/2017/04/03/lava-jato-destruiu-industria-naval-brasileira/

8http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2016-09/petrobras-deixara-setores-de-biocombustiveis-petroquimica-e-fertilizantes

9https://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/ADMINISTRACAO-PUBLICA/484441-PETROBRAS-CANCELOU-REFINARIAS-PORQUE-DENUNCIAS-DA-LAVA-JATO-DIFICULTARAM-CREDITO.html

10https://www.fup.org.br/ultimas-noticias/item/22709-em-apenas-quatro-meses-eua-lucram-r-7-bi-em-vendas-de-diesel-para-o-brasil

11https://fgvenergia.fgv.br/noticias/petrobras-vai-vender-60-de-quatro-refinarias

12https://outraspalavras.net/outrasmidias/o-jogo-pesado-contra-a-petrobras/

 

 
27
Mar19

Brasil, o governo dos macacos

Talis Andrade

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por Ricardo Melo

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O ambiente está configurado. Desde primeiro de janeiro, o Brasil está entregue a um governo de macacos, sem nenhuma intenção de ofender a espécie. O país está entregue a uma equipe de limítrofes que não completaram a transição para o homo sapiens. Quer resolver tudo na porrada, na vulgaridade, na base da bala e do insulto. E se alimentar do sangue dos adversários.

O governo Bolsonaro já acabou, e só os cegos, surdos e mudos podem pensar o contrário. É um processo de destruição do Brasil confessado pelo próprio tenente-capitão que chegou ao Planalto na base da trapaça. Como Bolsonaro disse no Chile, sua tarefa não é construir. É destruir o que já foi feito.

Leia-se nisso os pequenos avanços proporcionados por governos progressistas. O Bolsa Família, que tirou milhões de famílias da miséria. O Minha Casa, Minha Vida, hoje desidratado, embora tenha oferecido a oportunidade de uma habitação digna a brasileiros sem-teto e empregos na construção civil. O Pro Uni. A política de cotas. Os incentivos à indústria nacional. E por aí vai. O que se oferece é a entrega do país ao capital estrangeiro sem nada receber em troca.

Para quem acredita em democracia e soberania nacional, o governo Bolsonaro já acabou. A quadrilha que tomou conta do Planalto com base em milícias, fake news e com o apoio da “elite” financeira-judiciária-militar-parlamentar e midiática é sinônimo de ruína. A fatia verde oliva sonha em transformar o país numa grande Port-au-Prince.

O tempo agora não é de conquistar a governabilidade de Bolsonaro. Mas sim de interromper o quanto antes esta aberração que fulmina o país. Por isso é preciso escapar das armadilhas montadas pelo Palácio do Planalto e sua máquina de twitters.

Na falta de um programa afirmativo de construção do Brasil, a famiglia Bolsonaro investe em querelas ideológicas. Escola sem Partido, ataque às minorias, negação das lutas identitárias, armas para todos. Todas questões de grande importância, mas que desviam o foco do que é principal.

A última das esparrelas é a orientação oficial sobre comemoração do golpe de 1964. É óbvio que é uma provocação. Deve ser combatida sem complacência. Agem certo os juristas, o Ministério Público e a AGU ao condenar tamanha bofetada na cara do povo brasileiro. Trata-se de travar sem tréguas a luta ideológica contra um governo reacionário, obscurantista e de tendências totalitárias.

Mas isso é parte do combate –e, atrevo-me a dizer, não a mais importante. A batalha que interessa é a da luta pela sobrevivência do povo, que está em jogo não em discursos em quartéis, mas no presente do desemprego e no futuro da aposentadoria.

Em vez de gastar esforços em “manifestações” sobre o 31 de março, trata-se de concentrar forças em mobilizações gigantescas contra a reforma da previdência, contra a liquidação da aposentadoria, na luta por empregos, na organização de um primeiro de maio digno desse nome, numa greve geral ainda maior do que a de 27 de abril.

Nas ruas. Esse é o caminho para abreviar a manutenção da famiglia Bolsonaro no poder.

 

20
Mar19

"Bolsonaro exibia com orgulho o crachá de Trump dos trópicos", relata Le Figaro

Talis Andrade

 

Imprensa francesa destaca apoio incondicional e concessões de Bolsonaro a Trump

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Por RFI 

 

A imprensa francesa analisa nesta quarta-feira (20) a visita oficial de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos. O jornal conservador Le Figaro, que publica uma grande matéria sobre o tema, diz que o presidente brasileiro cultiva "sem complexo" – o que também pode ser interpretado como sem espírito crítico – as semelhanças com seu modelo da Casa Branca.

O texto é assinado pelo correspondente do diário em Washington, Philippe Gélie, que cobriu o encontro de Bolsonaro com Donald Trump. Segundo ele, não é todo dia que Trump tem direito a uma demonstração pública de cumplicidade tão grande, vinda de um dirigente estrangeiro. "Bolsonaro exibia com orgulho o crachá de Trump dos trópicos", relata. Afinados, os dois dirigentes afirmaram compartilhar a mesma ideologia.

O novo presidente brasileiro, tal como um espelho lisonjeador, se alinhou de maneira incondicional com as posições domésticas, regionais e internacionais de Trump, comemorou um conselheiro da Casa Branca ouvido pelo jornalista francês após a entrevista coletiva dos dois líderes. Bolsonaro é um pró-americano sem complexos, aplaudiu o colaborador de Trump. O brasileiro critica a Venezeuela, Cuba e o papel da China, que endivida os países da região. Ele derruba vários tabus e quer ser o melhor aliado dos Estados Unidos na América Latina, diz o conselheiro que não foi identificado pelo jornal.

Um conselheiro de segurança, também entrevistado pelo Le Figaro, diz que a visita marca realmente um recomeço nas relações bilaterais entre os dois países. Brasil e Estados Unidos nunca concretizaram o potencial que representa a aproximação entre as duas maiores economias do continente. Agora, temos um verdadeiro aliado, salienta o funcionário.

Mas a imprensa americana foi cética e ironizou o encontro: "O aprendiz recebido pelo mestre", destacou a Bloomberg. "A cúpula da extrema direita", disse o Washigton Post, informou Le Figaro. O diário francês aponta que os holofotes da Casa Branca devem apagar a péssima impressão deixada por Bolsonaro em Davos, onde seu discurso brilhou, principalmente, por suas banalidades.

Concessões

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O Le Monde também enviou seu correspondente, Gilles Paris, para cobrir o encontro entre Trump e Bolsonaro em Washington. O jornal vespertino faz a mesma constatação: os dois líderes exibiram suas convergências.

Desde que chegou ao poder, o brasileiro demonstra um pró-americanismo ferrenho, que diverge com a diplomacia usual de seu país. Le Monde também diz que Bolsonaro não economizou elogios ao americano, ressaltando que a admiraçao dele pelos Estados Unidos ficou ainda mais forte com a eleição de Trump. Ele também disse acreditar piamente na reeleição de Trump em 2020.

Os dois jornais franceses informam os resultados positivos do encontro e os anúncios sobre o Brasil na OTAN e na OCDE, destacando as concessões que Bolsonaro se dispôs a fazer para manter essa relação privilegiada com Trump. Os respectivos correspondentes destacam ainda a visita inesperada do presidente brasileiro à CIA, apesar do papel controverso que a agência de inteligência americana teve na América Latina.

Antes de Bolsonaro, a última dirigente brasileira a visitar os Estados Unidos foi Dilma Rousseff, que tinha adiado a viagem duas vezes depois da descoberta de que tinha sido espionada pela agência nacional de segurança NSA, lembra Le Monde. A visita à CIA é um dos gestos de submissão mais explícitos, criticou o ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim, nas páginas do Le Figaro.

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19
Mar19

Antes o entregador de pizza que o entregador de país

Talis Andrade

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por Fernando Brito

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Existem muitas diferenças entre os brasileiros que saíram daqui para tentar a vida como entregador de pizza nos Estados Unidos e aquele que os chama de “mal-intencionados” e referenda a ideia de que eles, os imigrantes ilegais, são “uma vergonha” para o Brasil.

As moças e rapazes que se atiraram a esta aventura premido pela falta de perspectivas aqui, ao menos, foram pessoalmente corajosos e expuseram-se a riscos e limitações para viver e tentar a sorte de uma vida melhor.

Descreram da mudança em seu país mas, afinal, quando nossa própria elite repete até cansar nossos ouvidos que “o Brasil não tem jeito”, que é que lhes pode ser severo? O que puseram em jogo era seu: suas próprias vidas.

Mas um presidente da República que vai para os EUA oferecer a entrega de seu país, incapaz de falar uma frase sequer sobre os problemas – salvo o delírio de dizer que nos está tirando do “comunismo” – e necessidades do país e que põe em risco, por sabujismo, nossas relações comerciais (anteontem com a China e ontem com a França) não está colocando em jogo o que é seu, mas o que é do Brasil.

Oferece à malta que o segue promessas de que a vida aqui será como lá, se aderirmos cegamente a seus padrões, embora a eles estejamos aderidos há um século ou mais e continuemos a ser o quintal dos fundos, tomado pelo matagal e pelo lixo.

Pretende que os cidadãos brasileiros possam ter como própósito, como diz seu filho, “pegar uns dólares dos americanos”.

Se fosse para entregar pizzas e não o Brasil não seria tão vergonhoso. Leia mais 

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19
Mar19

“É inaceitável para os militares essa subserviência aos Estados Unidos”

Talis Andrade

Demitido por Ernesto Araújo de um instituto do Itamaraty, o diplomata Paulo Roberto de Almeida diz que chanceler de Bolsonaro é tutelado

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Narra Afonso Benites: O diplomata e doutor em ciências sociais Paulo Roberto de Almeida se envolveu em mais uma das dezenas de polêmicas do Governo Jair Bolsonaro (PSL). Após publicar um artigo em seu blog pessoal com críticas à política externa brasileira, ele foi exonerado pelo ministro Ernesto Araújo do cargo de presidente do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI), um dos braços do Ministério das Relações Exteriores brasileiro. Sem o cargo que ocupava desde 2016, Almeida deverá trabalhar em receber. Ou seja, ocupará o fictício “departamento de escadas e corredores” do Itamaraty.

Um dos mais antigos diplomatas em atividade no país, está desde 1977 no Governo, e autor de 14 livros, Almeida critica na entrevista a seguir a ausência de diretrizes de Araújo – a quem atribuiu ideias paranoicas –, ressalta que o ministro tem sido tutelado desde que assumiu a função e que, politicamente, a visita de Jair Bolsonaro a Donald Trump, nesta semana, será a glória para o presidente brasileiro.

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Benite entrevistou Paulo Roberto de Almeida para o principal jornal da Espanha, El País:
 
 

P. Já ouvi diferentes relatos sobre a condução da política externa desse Governo. Dizem que ela é conduzida pelo Eduardo Bolsonaro ou pelo Filipe Martins. Ou ainda que os militares tutelam o ministro Araújo por meio do vice-presidente. Concorda com alguma dessas versões ou teria uma quarta corrente?

R. No plano puramente ideológico, ou principista, todos os três personagens, o chanceler e os dois primeiros, demonstram adesão às ideias estapafúrdias de Olavo de Carvalho sobre as relações internacionais, que são manifestamente inadequadas, e prejudiciais, a uma condução racional da diplomacia brasileira. No plano prático, o chanceler teve sua escolha apoiada e decidida pelos dois olavistas brasileiros, daí sua total dependência em termos de sua legitimação no governo atual. Em consequência do desconforto do núcleo militar com tais posturas inadequadas – como a ideia inaceitável para os militares de uma base americana no Brasil, ou a subserviência às posições do presidente americano – estabeleceu-se uma espécie de cordão sanitário em torno do chanceler e do próprio Itamaraty, inclusive porque o chanceler subverteu a hierarquia de comando no ministério, algo que os militares consideram como inaceitável. Seria, como eles dizem, ter coronéis mandando em generais. Eles também estão conscientes de que o Itamaraty foi submetido a uma reforma orgânica imposta sem qualquer consulta à casa, o que também causou desconforto geral. No conjunto, existe um comitê de tutela informal exercido pelos militares sobre a política externa.

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P. Há uma submissão aos Estados Unidos?

R. É algo alucinante pensar que o chanceler não acate nossa Constituição, e isso os militares fizeram o favor de lembrar, e tome atitudes voluntaristas e de apoio à postura americana que não se coadunam com uma política externa sensata e razoável que o Brasil sempre teve. Depois, as ideias bizarras expressas pelo chanceler são algo inédita em diplomacia. Assista a aula magna que ele deu no Instituto Rio Branco. É uma coisa constrangedora. Não faz nem o sentido lexical, de frases completas. [Lei mais. Transcrevi trechos]

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