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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

04
Abr21

Guedes ameaça desembarcar do governo e fala em Rogério Marinho para substituí-lo

Talis Andrade

Rogério Marinho e Paulo Guedes

 

247 - O ministro da Economia, Paulo Guedes, tem dito a interlocutores que poderá desembarcar do governo Jair Bolsonaro e sugerido o nome do ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, para chefiar a pasta.

De acordo com a coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, Guedes estaria insatisfeito com relação entre o governo e o centrão no tocante ao Orçamento deste ano, que pode ultrapassar o limite do teto de gastos. 

Marinho, porém, diverge de Guedes em relação ao teto de gastos e defende a ampliação dos investimentos públicos como forma de superar a crise resultante da pandemia e gerar empregos. 

18
Jan21

EMPREGO Solução e Seleção por Karina Lima

Talis Andrade
A imagem pode conter: texto que diz "O SEU CURRÍCULO nos sites de emprego ESTÁ ATUALIZADO? KARINA LIMA SOLUÇÃO SELEÇÃO Ψ"
 
O ano começou, e é muito importante atualizar o seu currículo nos sites de emprego.
Geralmente, há algo para alterar. Pode ser o contato, a morada, um curso novo, a conclusão de um projeto... Mesmo que não tenha de facto nada, acrescente uma frase ou mude uma palavra nas atividades.
 
👉🏼 Sabia que alguns recrutadores quando estão a procurar candidatos, buscam por currículos atualizados recentemente?
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25
Nov20

5 - Economia, Trabalho e Renda

Talis Andrade

Image

Programa de Governo Boulos e Erundina 2020

O desmonte das políticas de proteção social foi levado ao extremo pelos governos Bolsonaro e Dória.

A crise gerada pela pandemia de Covid-19 atingiu em cheio a população já em meio à precarização do trabalho, com altos níveis de informalidade e desemprego.

A construção de um projeto de economia que atenda aos desejos do povo se faz urgente.

O retorno das atividades econômicas em meio à pandemia tem demonstrado o estado de desestruturação da economia paulistana, com a imensa maioria dos pequenos negócios sem acesso ao crédito e muitos sem condições financeiras de retomar suas operações.Image

Boa parte dos pequenos negócios não irá sobreviver no longo prazo sem o apoio de políticas que permitam sua recuperação e se não houver uma mudança efetiva do cenário econômico.

A retomada da vida cotidiana pós-pandemia será marcada por uma profunda crise econômica que afetará sobretudo as populações mais vulneráveis, com ampliação dos trabalhadores por conta própria e de diversas formas de subocupação e desalento.

Nesse cenário, será fundamental a atuação direta do poder público municipal na reconstrução das atividades econômicas, na geração de empregos e na criação de renda.

A cidade pode ser considerada o ponto de partida para a reconstrução de uma economia com base local, que recupere não só a esperança na melhoria das condições de vida, como também os laços de solidariedade entre seus moradores.Image

A construção de alternativas econômicas calcadas em uma sociabilidade mais cooperativa e com maior ocupação do espaço público deve estar à serviço do fortalecimento das atividades desenvolvidas por trabalhadoras e trabalhadores de São Paulo.

Ao mesmo tempo, cabe também ao poder público atuar de forma imediata e instituir frentes de trabalho por meio da ampliação do gasto público que seja promotor de emprego e renda e associando as reformas urbanas necessárias às políticas de geração de renda.

Mais do que isso, é necessário reconstruir a economia de São Paulo atendendo prioritariamente e de forma emergencial aquela população que tem sido recorrentemente excluída, buscando assim construir uma economia voltada à sua própria gente.Imagem de uma grande placa vermelha em um estacionamento cheio de carros com desenho branco de um bolo do lado esquerdo e uma lápide no lado direito com os seguintes dizeres: " Com Boulos você comemora. Com covas você chora.".

Diretrizes

Desenvolver o potencial de São Paulo de ser um laboratório de soluções tecnológicas para políticas urbanas por meio da realização de encomendas tecnológicas pela Prefeitura, envolvendo as instituições de pesquisa e empresas localizadas na cidade.Image

Propostas

PARA O PROGRAMA SÃO PAULO SOLIDÁRIA

• Construir o Programa de Renda Solidária, reestruturando e ampliando o programa existente para garantir que nenhuma família vulnerável em São Paulo fique sem uma renda mínima; Implantar o Sistema Municipal de Trabalho, que atue de forma integrada ao conjunto de políticas públicas sob controle social e pensadas como serviço público;Image

• Implementar as Frentes de Trabalho com contratação de mão-de-obra direta ou por meio de cooperativas visando:

• Serviços de limpeza urbana;

• Serviços de zeladoria a partir das subprefeituras;

• Produção agrícola orgânica para merenda escolar e outras políticas públicas de segurança alimentar;

• Confecção de uniformes escolares e outros uniformes de serviço público, como equipamentos de proteção individual (EPIs para hospitais) e Guarda Civil Metropolitana.

• Criar o Programa Emergencial para o Trabalhador por Conta Própria contemplando:

• Criação do Centro de Oportunidades da Trabalhadora e do Trabalhador, espaço físico (descentralizado nas subprefeituras) e virtual (acessível via site da secretaria) de atendimento ao trabalhador e que concentre as iniciativas para formalização dos trabalhadores informais, pontos de acesso ao Banco do Povo para microcrédito, inclusão nos programas de qualificação profissional e nas centrais de cadastramento para as vagas de emprego e programas de apoio ao trabalhador por conta própria;

• Organização dos equipamentos municipais e espaços públicos para utilização como locais que abriguem as feiras de bens e serviços produzidos pelos trabalhadores, contemplando também sua utilização para atividades culturais e fortalecendo os espaços de convivência nas diversas regiões da cidade. Ampliar a regularização das feiras existentes com o cadastramento e apoio à regularização dos trabalhadores feirantes e ambulantes, ampliando também a atenção às feiras temáticas;

• Ampliação dos programas de compras da prefeitura voltadas às cooperativas e à produção dos pequenos negócios nas periferias;

• Fornecimento de internet gratuita aos microempreendedores da periferia.

• Reestruturar e ampliar os programas Bolsa Trabalho, para os jovens, e o Programa Operação Trabalho, assim como restituir a focalização dos programas de emprego destinados a jovens, mulheres e a população negra;

• Criar uma plataforma municipal para trabalhadores por aplicativo, com garantia de direitos básicos aos trabalhadores;

• Garantir uma ampla renegociação e isenção temporária dos impostos e taxas municipais de microempresas e pequenos comerciantes atingidos pela pandemia.

PARA UMA SÃO PAULO JUSTA

• Planejar a implementação de uma reforma tributária, baseada na proporcionalidade e na progressividade da cobrança de impostos, que objetive garantir equidade na taxação, reduzir as desigualdades sociais, promover a distribuição de renda e assegurar o cumprimento da função social da propriedade. Elevação da alíquota de ISS para instituições financeiras e aumento do valor da tarifa do IPTU para mansões;

• Cobrar e recuperar a dívida ativa para constituir recurso financeiro para programas sociais. A dívida ativa em São Paulo estava em R$130 bilhões ao final de 2019. A CPI da Dívida Ativa mostrou que o estoque em 2017 era de R$100 bilhões, sendo que destes os 100 maiores devedores chegaram a dever R$34 bilhões para a prefeitura. De 2013 a 2016 a prefeitura conseguiu recuperar apenas R$5 bilhões da dívida ativa, ou seja, uma média de 1,7% da dívida ativa recuperada ao ano. Ampliando a capacidade da prefeitura de recuperação desta dívida, podemos ampliar políticas de geração de renda e emprego. Se dobrarmos a meta e recuperarmos cerca de 3% da dívida ativa atual, recuperamos R$ 3,9 bilhões para os cofres públicos em 2021;

• Descentralizar decisões orçamentárias e constituir fóruns locais para coordenação dos investimentos públicos com a geração de empregos nas próprias localidades.

• Regulamentar os serviços privados de aplicativo de entrega de maneira a garantir condições mínimas de assistência aos prestadores de serviços. (Continua. Leia mais)Image

 

27
Mar20

Espanha proibirá demissão de trabalhadores durante crise

Talis Andrade

 

O governo da Espanha proibirá as demissões de trabalhadores durante a crise provocada pela propagação do novo coronavírus, numa tentativa de conter as consequências sociais da pandemia no país.

"Não se pode aproveitar a Covid-19 para demitir", disse, em entrevista coletiva, a titular da pasta do Trabalho, Yolanda Díaz, logo após a conclusão de reunião do Conselho de Ministros.

Segundo a integrante do governo, a proibição estabelece a impossibilidade de realizar demissões por "força maior", lembrando que já foi aprovado um mecanismo especial para facilitar as suspensões temporárias de emprego. "Não é necessário demitir ninguém no nosso país. Não iremos deixar ninguém para trás", garantiu Díaz.

Até o momento, a Espanha registrou pedidos de regulação temporária de emprego em mais de 210 mil empresas, o que afetou cerca de 1 milhão de trabalhadores. A ministra garantiu que todas as solicitações apresentadas até o momento serão revisadas e que, caso seja encontrada alguma irregularidade, a aceitação pode ser revogada.

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21
Mar20

Pesquisador de Princeton sugere plano urgente para proteger trabalhadores mais pobres: 'Governo dá sinais de despreparo'

Talis Andrade

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Ligia Guimarães
Da BBC News

Nos últimos dias, as redes sociais do pesquisador Marcelo Medeiros, professor visitante na Universidade de Princeton, nos EUA, se transformaram em um centro virtual de debates de ideias sobre como proteger os mais pobres no Brasil contra o coronavírus.

Em um momento em que a recessão recente aumentou ainda mais o batalhão de desempregados que passaram a viver de bicos e na informalidade no país, cerca de metade dos trabalhadores do setor informal vive no Brasil com menos de um salário mínimo por mês, segundo Medeiros.

"Essa população agora vai ser incrivelmente vulnerável. As pessoas não vão ter dinheiro para ficar em casa, não vão ter dinheiro para se tratar, vão ter que ir para a rua para trabalhar. É gravíssimo", diz.

Nesta sexta-feira (20/3), o Ministério da Economia revisou a projeção oficial para o crescimento do PIB em 2020, de 2,1% para 0,02%, citando a crise gerada pela pandemia.
Além dos efeitos econômicos, a proteção aos mais pobres ajudará também a garantir estabilidade política em tempos duros.

"Sob a pressão da economia e da recessão, a tendência é que a gente tenha um pico de instabilidade política sem precedentes. E a capacidade do governo para administrar essa instabilidade política é muito baixa", diz.

A resposta social do governo até agora, tanto contra o aumento da pobreza quanto contra um colapso da economia, tem sido muito aquém do necessário, segundo Medeiros. Mesmo no anúncio da medida que prevê um auxílio mensal de R$ 200 a profissionais autônomos durante a crise do coronavírus, pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, não está claro como o governo pretende fazer com que o dinheiro chegue a estes trabalhadores, tarefa que é bem desafiadora, na visão de Medeiros.

"O governo não está dando sinais consistentes, não está se movendo na velocidade necessária até agora. Paulo Guedes mudou de opinião radicalmente em menos de uma semana. O governo está dando sinais claros de instabilidade e despreparo: muda de opiniões rapidamente e claramente não tem um plano", diz.

Para contribuir com o debate público em tempos de crise, Medeiros traçou um cronograma que, se tirado do papel, protegeria a renda de toda metade mais pobre da população brasileira, que ganha menos de R$ 1.000 por mês por pessoa. Segundo ele, as medidas, que ampliariam a assistência social por meio infraestrutura social que o Brasil já tem, poderiam ser colocadas em prática rapidamente, nos próximos 30 dias.

"Timing é fundamental na execução dessas medidas", alerta Medeiros.

Incluem, por exemplo, aumentar imediatamente o valor do Bolsa Família, passar a transferir a renda também para famílias que não recebem o benefício, mas já estão no Cadastro Único do governo, e até abrir mão temporariamente de contribuições previdenciárias feitas por empregados e empregadores, retirar tributos de alimentos ou subsidiar parte da conta de luz.

Como proteger imediatamente o terço mais pobre da população?

Para Medeiros, embora o ministro da Economia Paulo Guedes tenha anunciado um auxílio mensal de R$ 200 a profissionais autônomos durante a crise do coronavírus, ainda não está claro como tais ações serão operacionalizadas. Tal tarefa pode exigir muito tempo para ser realizada sem um método eficiente, explica Medeiros, o que pode atrasar o socorro e deixar a população mais pobre sem assistência justamente no período em que suas atividades são paralisadas e eles começarem a perder renda rapidamente.

"É muito difícil chegar apenas nos trabalhadores autônomos. Não dá para saber ainda qual a proposta do governo porque não foi apresentado um plano. Pelo que eu entendi ele vai querer chegar nos trabalhadores autônomos, mas é muito difícil, porque não existe um cadastro deles. Trabalhadores autônomos, por exemplo, não estão cadastrados em lugar nenhum".

Na opinião de Medeiros, o melhor neste momento é priorizar imediatamente o que pode ser feito para proteger o terço mais pobre da população, incluindo pessoas que estejam ou não no mercado de trabalho, por canais já existentes e que viabilizariam transferências rápidas: como o Cadastro Único do Bolsa Família, que reúne 77 milhões de pessoas que ganham até meio salário mínimo mensal, ou R$ 522,5. Destas, 41 milhões de pessoas (que equivalem a 13,5 milhões de famílias, segundo o ministério da Cidadania), recebem o Bolsa Família. "Os outros 35 milhões são, fundamentalmente, pessoas de baixa renda".

O primeiro passo de um plano de várias etapas, diz Medeiros, seria dar um complemento de dinheiro para o Bolsa Família, além de criar um benefício temporário para todas essas famílias que estão no Cadastro Único.

"Qual o valor? Acho que depende de quanto dinheiro tem no Orçamento, do quanto se tem mais segurança. Porque é melhor um valor mais baixo por mais tempo do que um valor mais alto por pouco tempo. E isso porque eu acredito que essa crise vai ser mais longa do que uns poucos meses", prevê.

O governo anunciou recentemente que distribuirá vouchers (cupons) por três meses para pessoas pessoas inscritas no Cadastro Único para programas sociais do governo federal, mas não reforçará a renda dos beneficiários do Bolsa Família, que recebem benefício médio de R$ 189,21 mensais. Na medida anunciada por Guedes contra o coronavírus, só poderão retirar os vouchers quem não estiver recebendo nenhum benefício social, como o Bolsa Família ou o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Ambulante caminha na area de praia no Rio de Janeiro, com duas mulheres pegando sol ao fundoDireito de imagemREUTERS/SERGIO MORAES
Image caption Praia do Leblon, no Rio, no último dia 18; pesquisador destaca dificuldade de fazer assistência chegar em trabalhadores informais e autônomos

 

Como proteger os trabalhadores na informalidade?

"Nessa faixa dos trabalhadores informais temos um problema, que foi o aumento da informalidade no Brasil nos últimos anos", diz o sociólogo. "Qual a dificuldade? Porque essas pessoas não estão cadastradas e registradas de maneira que seja fácil encontrá-las".

Medeiros lista uma série de sugestões de medidas que podem atingir mais trabalhadores sem carteira assinada de maneira mais rápida e eficiente, como exige o momento atual.

Uma das medidas seria suspender as cobranças de contribuições de R$ 50 para os microempreendedores individuais (MEI), categoria que, além de profissionais liberais, já alcançaria parte das categorias de trabalhadores informais que estão no programa: vendedores, ambulantes, artesãos, por exemplo, e prestadores de serviço, como encanadores, jardineiros, manicures e mototaxistas.

O plano de Medeiros prevê, também, a suspensão temporária das exigências de contribuição previdenciária para empregados e empregadores das micro e pequenas empresas.

Desonerar temporariamente os pequenos empregadores ajudaria a proteger empregos, diz.

"Porque a massa dos empregos brasileiros está concentrada nas pequenas e micro empresas. Vão ser as microempresas que vão ser afetadas mais rapidamente e ao protegê-las minimamente, você protege a massa do emprego no Brasil."

Em foto tirada do alto, mulher de máscara aparece atravessando faixa de pedestresDireito de imagem REUTERS/RAHEL PATRASSO
Image caption Diante de surto de coronavírus, pesquisador sugere que governo suspenda parcela das contribuições previdenciárias dos empregados e empregadores das pequenas e microempresas

 

Como transferir renda para quem está fora do mercado de trabalho?

O pesquisador sugere algumas medidas, não relacionadas ao mercado de trabalho como, por exemplo, subsidiar a conta de luz.

"O governo subsidiaria a conta de luz da pessoa, não toda, os primeiros cinquenta reais, por exemplo. Seria uma maneira de aumentar a renda das famílias".

Outra alternativa seria remover tributos temporariamente de alimentos ou bens de consumo, por exemplo, que são arrecadados pelos Estados. Nesse caso, a União usaria recursos do Tesouro para compensar as perdas estaduais e municipais.

Nessa linha, outros subsídios e concessões que poderiam ser adotados para que o governo evite tirar renda dos mais pobres durante a crise, teriam potencial para atingir, pelo menos, os dois terços mais pobres da população do Brasil, estima Medeiros.

Tantos gastos exigiriam um aumento das despesas e da dívida pública, estima Medeiros, que seriam resolvidas depois de a emergência ser atendida. Um caminho, por exemplo, seria discutir medidas como a tributação de lucros e dividendos, ou mudanças pontuais nas deduções do Imposto de Renda, que aumentariam a arrecadação do governo quando o pior da crise passar.

"Como em qualquer emergência, você vai, pega um empréstimo, depois você paga. Se você precisa pagar o corpo de bombeiros, é preferível pegar o empréstimo ou deixar a casa queimar?", exemplifica.

Mais desigual?

Medeiros, que dedicou grande parte da carreira a pesquisar como o comportamento dos mais ricos afeta a concentração de renda no Brasil, diz que, a depender de quanto dure uma eventual recessão causada pelo coronavírus, é bem provável que a retração econômica neste ciclo atinja também os mais ricos. "Por exemplo: a bolsa está colapsando, as empresas vão colapsar. Existe um risco de que os mais ricos acabem também pagando muito caro por isso tudo. Não dá para dizer ainda o que vai acontecer. O que dá para dizer com muita segurança é que uma recessão é, sempre, muito pesada sobre os mais pobres".

O pesquisador pondera que historicamente, toda as medidas de recuperação no Brasil após recessões econômicas foram medidas de recuperação pró-rico, ou seja, que priorizaram o socorro às faixas mais altas de renda da população. "Por exemplo: abre crédito, alivia dívida das empresas. Toda recuperação de uma grande recessão no Brasil resultou em aumento de desigualdade porque os mecanismos de recuperação geralmente são pró-ricos. Você alivia dívidas, faz coisas que beneficiam os mais ricos.

Por que é importante proteger a população mais pobre da crise do coronavírus?

Além dos efeitos econômicos, a proteção aos mais pobres ajudaria também a garantir estabilidade política em tempos duros, segundo Medeiros.

"Quando começar a surgir muita notícia de gente perdendo o emprego, ou gente morrendo, ficando muito doente, procurando dez horas para encontrar hospital, claro que isso gera um desgaste na população. Assim como havia o desgaste da Dilma, também vai haver o desgaste do Bolsonaro", prevê.

"Não só pelo tempo, que acontece, ou pela inabilidade dele para resolver as coisas, mas pela pressão gigante que vai entrar agora e porque a economia vai desempenhar mal. Grande parte do apoio ao Bolsonaro é uma aposta na economia. E é uma aposta que vem sendo perdida." (Transcrevi trechos)

18
Mar20

Boulos apresenta cinco medidas para enfrentar a crise do coronavírus

Talis Andrade
Guilherme Boulos
@GuilhermeBoulos
 
5 medidas para enfrentar a crise do Coronavírus: 1. Revogar o Teto de Gastos. 2. Suspender os despejos durante a pandemia. 3. Plano de garantia de emprego dos trabalhadores formais. 4. Benefício emergencial para os informais. 5. Anistia de contas de água, luz e gás na crise.
18
Mar20

Paraguai fecha Ponte da Amizade por irresponsabilidade do Brasil

Talis Andrade

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As demissões foram proibidos temporariamente na Itália. No país europeu mais atingido pelo Covid-19, o governo lançou um pacote de ajudas de 25 mil milhões de euros e reforço o investimento no serviço de saúde. Para além disso, e durante dois meses, as demissões por motivos econômicos foram proibidos. Do pacote de fundos aprovados fazem parte mais 1.65 mil milhões de euros para o Fundo Nacional de Emergência e os 340 milhões para a criação de novas camas para cuidados intensivos e serviços de pneumologia e doenças infeciosas. Os trabalhadores da saúde receberão 150 milhões pelo trabalho extraordinário que estão a realizar e financia-se a contratação de mais 20 mil profissionais neste setor.

Espanha bloqueia e nacionaliza assistência médica privada, com mortes por coronavírus e novos casos disparando.

A França assume os créditos e suspende o pagamento de aluguéis, impostos e contas de eletricidade, gás e água. Emmanuel Macron anunciou hoje à noite medidas de choque sem precedentes, típicas da época da guerra, para mitigar o impacto da epidemia de Covid-19 na economia nacional e na vida dos cidadãos. Todas as reformas pendentes, como a controversa pensão, estão paralisadas

Governo dos EUA dará ajuda financeira de emergência aos cidadãos. A Casa Branca se prepara para enviar pagamentos diretos aos americanos como parte do pacote de estímulo. A Casa Branca disse que está se preparando para enviar os pagamentos aos americanos dentro de duas semanas, como parte de um vasto pacote de estímulo para reforçar a confiança na maior economia do mundo, já que os esforços para conter a doença ameaçam uma recessão global. Trechos de texto de Carlos Eduardo Silveira

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20
Nov19

Abismo social separa negros e brancos no Brasil desde o parto

Talis Andrade

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

No país da ascensão da ultradireita, cujos políticos contestam dados que escancaram a desigualdade racial, os dados retratam a maior taxa de analfabetismo, os menores salários e a maioria das mortes violentas entre pretos e pardos

 

Manifestantes protestam contra a morte de jovens negros por PMs em 2015.
Manifestantes protestam contra a morte de jovens negros por PMs em 2015.TOMAZ SILVA (AGÊNCIA BRASIL)
 
10
Nov19

O Brasil com e sem Lula

Talis Andrade

Lula-Livre-e-Presidente.jpg

 

por Emir Sader

Discutia-se muito na velha esquerda sobre “o papel do indivíduo na história”. 

Horas em que o Brasil passa de estar sem o Lula, contido na sua cela, sem poder falar, se movimentar, sem ser abraçado, sem abraçar, sem aparecer de corpo inteiro, dão a dimensão do problema, na dependência de quem seja esse indivíduo.

Voltou a primavera,  voltou o sorriso, voltou a felicidade, voltou a esperança, acabou o pesadelo – distintas são as formas de expressar os sentimentos de milhões de pessoas. Mas todas remetem à ausência e à presença do Lula. Ao Lula preso e ao Lula livre.

Pode-se ler o Brasil sem o Lula e o Brasil com o Lula. Um país sem alma e um país com alma. Um país sem liderança da oposição e um país com a maior e inquestionável liderança. Um país sem rumo e um país que sabe para onde quer voltar a caminhar. Um país sem futuro e um país que se projeta para o futuro.

O tanto que a presença do Lula muda no Brasil está refletido na reação de tanta gente, muitos que agora se projetam no Lula como a referência para a sua esperança, como a indiscutida liderança que parece que estavam esperando. Muito do que nem sabíamos que nos faltava, as pessoas sentem que estava faltando.

Um líder catalisa tanta coisa, ainda mais em sociedades tão fragmentadas como a nossa. Lula aciona a memória das pessoas, a biografia de cada um quando ele governava o Brasil, de como ele mudou a vida de cada um. Lula promove a esperança, a ideia de que a realidade não precisa ser esta que  tem sido, de que um Brasil diferente existiu e volta a se tornar possível.

Lula retoma os seus discursos das Caravanas: recordar o que era o Brasil antes dos governos do PT, o que foi mudado no país e na vida de todos, como os retrocessos mudaram para pior a vida de todos e como o país pode voltar a ser menos injusto, as pessoas podem voltar a sorrir, a ser felizes, o país pode voltar a ser respeitado no mundo, os brasileiros podem voltar a ter orgulho do seu pa[is. A pauta que o Lula retoma é a pauta histórica do PT: empregos, escolas, salários, crédito publico, governo cuidando das pessoas. A prioridade das políticas sociais, do modelo de crescimento econômico com distribuição de renda, em contraposição aos governos de ajuste fiscal e de financeirizacao, a contraposição entre o governo atual e os governos do PT. 

A luta democrática precisa de uma liderança clara? Lula é essa liderança. A oposição precisa unificar e se fortalecer? Lula é quem pode fazer isso. A oposição precisa de um programa? Lula é quem propõe e encarna essa proposta. O Brasil precisa retomar a esperança? Lula infunde essa esperança no país. O povo precisa combatividade? As palavras e as ações do Lula promovem essa combatividade. O país precisa de um futuro possível? Lula pode encarnar esse futuro.

Há algo de indescritível no ar, da diferença entre o Brasil com o Lula preso e o Brasil com o Lula livre. Do Brasil sem o Lula e do Brasil com o Lula. Todos se redefinem em função do Lula, do que o Lula diz e faz. De onde o Lula está. E de para onde ele vai. De com quem ele fala e de com quem ele anda. Parece que o centro politico do pais se desloca de Brasilia para onde o Lula estiver. O governo, que ja’ definhava, passa a viver assediado por quem representa a única liderança política nacional com apoio popular e perspectiva de voltar a presidir o país.

 

Os campos ficam mais definidos: governo da direita e da ultra direita versus alternativa de esquerda, liderada pelo Lula. A diferença é que agora a esquerda retomou a iniciativa, com Lula. Todos respondem a ele, para elogiá-lo ou para ofendê-lo. O Brasil com Lula mostra como ele é indispensável, é o centro da história do Brasil.

O lulismo se torna a grande ideologia da democracia no Brasil, do resgate do país, aquela em que todos se reconhecem, mais além dos partidos. A nova visão com que a esquerda pode voltar a se tornar hegemônica no Brasil, isolando o centro e derrotando a direita.

Com Lula o Brasil pode voltar a se tornar um país respeitado no mundo. Pode voltar a exibir um regime democrático política e socialmente, menos injusto, exemplo de luta contra a fome, de política externa soberana, de solidariedade com todos que lutam pelas boas causas no mundo.

Quem saiu da prisão nao foi só uma pessoa, foram as ideias que queriam prender, foram as propostas que podem reaglutinar a maioria dos brasileiros e fazer do Brasil com Lula de novo um sonho com que poderemos sonhar e viver. 

 

23
Ago19

O que um juiz aprende ao trabalhar como faxineiro por um dia

Talis Andrade

 

O juiz do trabalho Pedro Ivo Arruda trabalhando como faxineiro durante seu dia de campo
O juiz do Trabalho Pedro Ivo Arruda é um dos 23 magistrados que participaram do projeto

 

Em alguns dos processos que chegam ao Tribunal do Trabalho do Rio do Janeiro, há "situações relatadas pelos trabalhadores que a gente fica na dúvida se são verdade ou não", diz a juíza do trabalho Adriana Leandro, de 50 anos. Na primeira sexta-feira de agosto, a juíza pôde ver por conta própria que algumas delas são mesmo reais.

Ela foi telefonista de uma agência bancária por um dia, sem que colegas e superiores diretos soubessem de sua verdadeira profissão. E viu uma colega passar as 6 horas de expediente sem tomar um gole d'água. "Não porque houvesse alguém impedindo, mas porque ela tinha tanto medo de perder o emprego, e se se levantasse não haveria ninguém pra fazer o atendimento, que ela simplesmente não tinha coragem de ir beber água", conta Adriana.

A magistrada foi uma das 23 participantes deste ano de um projeto da Escola Judicial do TRT-RJ que visa a melhorar a empatia dos juízes e desembargadores. Para isso, eles passam um dia na pele de outros trabalhadores. Os magistrados fazem aulas teóricas, um dia de treinamento e depois trabalham por um dia como faxineiros, garis, telefonistas, cobradores, ajudantes gerais.

 

 

"A empatia é essencial para todos, mas para nós especialmente, diariamente. A gente tem que se colocar no lugar do outro. Se colocar na pele tanto do trabalhador, quando do empregador, para entender as dificuldades que eles enfrentam", diz o juiz Thiago Mafra da Silva, também do TRT do Rio de Janeiro, que trabalhou um dia como gari para a Comlurb, a empresa de limpeza da cidade.

"O juiz que perdeu a capacidade de olhar com empatia para o outro, perdeu a capacidade de ser juiz", diz Marcelo Augusto Souto de Oliveira, diretor da Escola Judicial e um dos responsáveis pela implementação da ideia.

 
O juiz do trabalho aposentado Jorge Pinto Lopes durante o dia de campo em que trabalhou como ajudante geralDireito de imagem LETÍCIA MORI/BBC
O juiz aposentado Jorge Pinto Lopes trabalhou como ajudante de serviços gerais durante um dia

 

Na última sexta-feira de julho, Thiago estava entre a meia dúzia de trabalhadores que faziam a limpeza da praia do Leme. Morador do Botafogo, ele não teve a experiência de acordar todos os dias às 4h20 da manhã para ir ao trabalho, como seu colega naquele dia Alexander Santos Pereira, de 44 anos, gari há dez anos. Também nunca soube o que é viver com o salário de R$ 1,5 mil que Alexander recebe.

Mas sentiu por um dia como é passar cinco horas trabalhando sob o sol quente retirando da areia copos plásticos, restos de comida e bitucas de cigarro. Sem o chapéu e sem protetor solar, Thiago sofreu insolação. "Foi bem pesado, cheguei a vomitar por causa da insolação", conta.

Mesmo assim, Thiago achou a experiência importante e positiva. "É um exercício importante, porque a nossa carga de processos é muito grande. Se não tomarmos cuidado, corre o risco de virar automático, de virar só mais um processo. Sendo que para as partes não é isso, às vezes é uma das coisas mais importantes da vida delas", diz.

Resistência

Implantado pela Escola Judicial em 2017, o projeto quase acabou pouco depois de começar. Muitos juizes e desembargadores não reagiram bem à ideia de passar um dia em trabalhos com menor remuneração e, na visão deles, de menor prestígio, conta o diretor da Escola Judicial Marcelo Augusto.

"Teve magistrado dizendo: 'mas eu fiz concurso público para isso'?"

Marcelo Augusto já apresentou o projeto para 24 diretores de escolas e foi muito questionado: "E o que o juiz ganha com isso?"

"Eu não garanto que o juiz vai produzir estatísticas melhores. Não dá grife, aderir ao projeto. Não é um bom capítulo do meu currículo. Mas eu garanto que ele será uma melhor pessoa. E, como acredito que pessoas melhores são juízes melhores, acho que o projeto é essencial", defende ele que, além de implementar o projeto, também participou nas três edições.

Logo no início, um colunista no Rio de Janeiro deu uma nota sobre a iniciativa com o título que pode ser considerado jocoso "sandálias da humildade", o que gerou mais repercussão negativa por parte dos magistrados. Além disso, o nome oficial,"Vivendo o Trabalho Subalterno", também não foi bem recebido na imprensa. "Ficaram dizendo: 'que nome horrível, que humilhante, não é subalterno', diz Marcelo.

Alexander Santos Pereira e Sérgio Jesus Teixeira, que são garis de verdade, fazendo a limpeza do LemeDireito de imagem LETÍCIA MORI/BBC
Os garis Alexander Santos Pereira e Sérgio Jesus Teixeira são parte da equipe que faz a limpeza do Leme, no Rio

 

Mas ele defende a escolha. "Poderíamos chamar de trabalho subordinado, mas, em termos legais, toda pessoa contratada por CLT é subordinada. Mas nem toda profissão passa pelo processo de invisibilidade social, onde o outro é tratado sem respeito e, muitas vezes, simplesmente não é visto", diz. "Também não é trabalho manual, temos juízes trabalhando como telefonistas e cobradores de ônibus, cargos que também muitas vezes passam por esse processo."

Apesar da resistência de muitos juízes, o projeto foi implementado, já que a escola tem autonomia. No primeiro ano, de 20 vagas disponíveis, só 12 foram preenchidas. Em 2019 foram 24 participantes, alguns até de outros Estados. Do projeto, resultaram um livro e um documentário – e hoje uma experiência parecida está sendo feita no TRT-4.

Invisibilidade

O tema da invisibilidade pública já vinha sendo tratado na Escola Judicial há tempos, desde que foi introduzido pelo juiz auxiliar da escola e professor de direito Roberto Fragale Filho. A ideia veio de um livro do sociólogo da USP Fernando Braga, que trabalhou como gari na USP durante cinco anos e escreveu sobre a enorme distância que é criada pelas diferenças entre as classes sociais.

Em seu trabalho, Braga explica como o não enxergar o outro como uma pessoa por causa do uniforme é um processo que pode ser em parte inconsciente, e relata sua propria experiência como gari. Uniformizado, frequentemente não era reconhecido pelos colegas da USP com quem convivia.

 

 

Fragale convidou Braga para participar da formação dos juízes no tribunal, mas a Escola considerou que as falas sozinhas não estavam surtindo o efeito necessário – e decidiu aprofundar a experiência, levando os juízes para mais perto da realidade que quem trabalha em cargos com menor remuneração.

A principal preocupação, diz Marcelo Augusto, diretor da Escola, era respeitar as pessoas que fazem os trabalhos de verdade e evitar que o projeto não se tornasse um "espetáculo", uma representação superficial de uma categoria profissional, uma espécie de "turismo".

Para isso, diz ele, os juízes têm aulas teóricas, passam por um treinamento junto com todos os outros trabalhadores e, no fim do dia, podem revelar que estão ali para experimentar a realidade do trabalhador. Depois disso, passam mais dois dias relatando e discutindo a experiência. No total, são 50 horas de curso.

"Quem adere ao projeto já está em um processo prévio de questionamento", diz Marcelo. "Então, não é uma Disneylândia, porque o projeto não goza dos maiores elogios entre a magistratura. Acho até que é um projeto que não é para todos os juízes. Porque não é a maioria que quer trabalhar a empatia."

"Esse é um problema de quem tem poder. Quem tem poder raramente está pronto e aberto para ser questionado. Para ser chamado a abrir mão de parcela desse poder, ou de exercê-lo como se ele não tivesse o poder", diz Marcelo. "Abrir mão de poder, mesmo por um dia, é uma dificuldade humana. Porque o poder é inebriante."

No início, em 2017, diversas emissoras e programas de TV queriam acompanhar com câmeras e microfones escondidos, mas a Escola não autorizou.

A juiza Adriana Leandro trabalhou como telefonista por um diaDireito de imagem ARQUIVO PESSOAL
A juiza Adriana Leandro trabalhou como telefonista por um dia

 

"Se eu quero trabalhar empatia com meus juizes, o colocar-se no lugar do outro, essa coisa de perceber-se um privilegiado, eu não posso oferecer para ele um prêmio como resultado da adesão. Uma divulgação, uma capa de revista, um nome na imprensa. Aí, eu perdi o projeto", diz Marcelo Augusto.

"Eu quero trabalhar o contrário, eu quero que ele perca o seu lugar confortável. Se eu filmo o cara com um microfone escondido, uma câmara escondida, aí vai fazer fila aqui na porta de juiz querendo aparecer no próximo Fantástico."

A BBC News Brasil teve permissão para acompanhar parte do dia de campo dos juízes, mas de longe e sem interferir no trabalho – que os juízes depois relataram em detalhes.

Juíza na faxina

Para alguns dos juízes, a experiência é nova muito antes de chegar à parte do trabalho em si. Para a juíza gaúcha Patrícia Lampert, foi a primeira vez que ela andou de trem no Rio de Janeiro. Ela foi para a Fiocruz trabalhar como faxineira.

"Em poucos minutos, já estava fazendo tudo errado. Eu fazia muita força, fazia muito esforço, abaixava errado. Muito desajeitada" conta.

Mas as colegas ensinaram tudo: como usar a enceradeira, qual sapato evitar para fazer a lavação, a maneira correta de fazer a limpeza para não ficar com dor. "É um desemprego muito grande, e mesmo assim me explicaram, senti uma solidariedade muito grande, não uma competição."

 

As colegas comentaram muito que os funcionários deveriam aproveitar o último dia de aula antes da volta dos alunos, quando os banheiros que estavam sendo limpos ainda estavam em boas condições.

"Porque as pessoas não respeitam, eles chegam a jogar coco nas paredes. É uma sensação de total desconsideração com o outro. E os faxineiros, ao mesmo que ficam indignados, dizem 'é assim mesmo'", conta.

"Então, não é uma desvalorização só pelo valor do salário, é essa sensação do trabalho ser invisível, de parecer que o banheiro se limpa sozinho. Eles dizem, 'a gente bota placa, bota o carrinho, e eles pisam assim mesmo'."

'Miopia social'

Patrícia trabalhou em companhia com outra juíza na Fiocruz – ambas brancas, de mesmo tom de pele e cabelo preto. "Não somos parecidas, mas lá nós éramos. Nos perguntaram se éramos irmãs", conta.

Negros têm cargos de rendimento mais baixo do que brancos no Brasil – ganham R$ 1,2 mil a menos na média, segundo dados de 2018 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

"A gente sabe que existe desigualdade, mas quando a gente vê assim... Eu ainda não absorvi a experiência toda. É como se [no dia a dia] você andasse um pouco com miopia."

Marcelo Augusto reconhece que apenas um dia de trabalho é uma vivência bastante limitada. Depois disso, os juízes vão voltar para seus apartamentos na Zona Sul, seus bons salários, sua segurança no emprego, seus privilégios.

"Um juiz que passa um dia limpando a praia nunca será um gari de praia. O projeto não tem a intenção de transformar a vida inteira da pessoa por um dia. A intenção é submeter uma experiência que eu chamaria até de rala, mas que é capaz de afetá-lo", diz.

Ele diz que não é "um guru de auto-ajuda" que promete transformar a vida as pessoas.

"Estou entregando uma ferramenta, que pode afetá-la. Não é uma conversão religiosa, é uma experiência pedagógica, que serve para fora do Judiciário, é uma ferramenta de gestão de pessoas muito útil para cargos de poder e autoridade. Tudo vai depender do que for feito depois com ela."

Sob o Sol

Thiago trabalhou na Comlurb – um dia limpando a praia e outro no administrativo. Assim como os outros juízes que participaram do projeto, ele conta que uma parte muito interessante da experiência foi ouvir as histórias e situações de outros trabalhadores.

Thiago saiu já uniformizado do seu prédio no Botafogo, bairro da classe média na Zona Sul do Rio de Janeiro. O porteiro, ao perguntar sobre o uniforme e ouvir sobre o projeto, começou a contar a sua própria experiência.

"Ele tem o segundo grau completo, mas ficou desempregado e foi ser auxiliar de serviços gerais na Outback. Diz que, pela qualificação que tinha, se sentia meio constrangido na profissão e quase entrou em depressão, porque a forma de tratamento das pessoas com ele era muito rude. Ele disse, por exemplo, que os garçons se sentiam superiores e tratavam mal os auxiliares", conta Thiago.

Ele próprio não teve outras experiências do tipo. "Claro que é um trabalho desgastante, sob o sol, difícil. Mas por ser concursado, as condições são até melhores do que em outros lugares. E os colegas demonstravam muito orgulho do trabalho e a consciência da importância que esse trabalho tem."

Na praia, sob o sol alto, uma senhora disse: "Nossa, mas você é tão branquinho para ficar no sol, não te deram o chapeu de proteção? Eles têm que te dar!".

"No início, achei gentil a preocupação dela, mas depois fiquei pensando: será que ela se preocuparia se eu não fosse branco? Será que ela acha que existe um perfil para fazer esse tipo de trabalho?", questiona Thiago.

Os juizes Thiago Mafra e Mônica CardosoDireito de imagem ARQUIVO PESSOAL
Os juizes Thiago Mafra e Mônica Cardoso trabalharam de garis para a Comlurb, empresa que faz a limpeza do RJ

 

Sérgio Jesus Teixeira, que é gari de verdade há nove anos e também trabalha no Leme, diz que em geral as pessoas tratam bem, mas alguns episódios incomodam. "Ver a falta de consciência das pessoas jogando lixo na rua, praia... Dá uma tristeza", diz Sérgio. "E quando, na praia, as pessoas falam com tom mal educado e dando ordens do que e de como ele deve recolher."

São situações corriqueiras na vida do trabalhador, mas que muitas vezes os juízes – que tomam decisões que os afetam diretamente – só veem de longe em audiências. "É uma realidade muito distante para quem passa o dia no tribunal", afirma a juíza Adriana Leandro, que trabalhou como telefonista.

Medo de perder o emprego

"Às vezes a gente está tão endurecido, por mais que lide todo dia com muitos processos, sentir um pouquinho do que o empregado sente, é importante para sensibilizar", diz.

Ela conta que a marcou muito o pavor que as colegas telefonistas – uma em especial – tinham de perder o emprego. "Ela tem outro emprego, mas o marido está desempregado, então ela ficava na angústia, um desespero fora do comum."

"Ela ficou doente e não vai ao médico, porque se ele disser que ela tem que operar, como vai fazer?", diz ela, ressaltando que a colega parecia ser uma ótima profissional, muito dedicada. "Mas é uma insegurança tão grande que isso não é suficiente para tranquilizá-la."

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