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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

26
Mai20

Brasil um país de reféns, e o sequestrador está matando

Talis Andrade

 

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II - O Nojo

EL PAÍS
 
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Comecei a sentir náusea diante de qualquer alusão a Bolsonaro. Não o enjoo de quando como um alimento que me faz mal. Mas o enjoo do asco. Sou possuída pelo nojo. Há mulheres que têm essa reação diante do estuprador, quando por alguma razão são obrigadas a vê-lo novamente. Outras pessoas manifestam reação semelhante no convívio com o sequestrador. Outras na presença do torturador. Bolsonaro é tudo isso. Ele tem nos violentado, sequestrado nossa sanidade, nos ameaçado com sua irresponsabilidade deliberada e também nos torturado todos os dias, usando para isso a máquina do Estado.
 

Somos um país de reféns, e o sequestrador está matando. Ele mata quando boicota as ações de combate à covid-19. Ele mata quando dissemina mentiras sobre remédios sem comprovação científica de eficácia. Ele mata quando contradiz a ciência. Ele mata quando diz que a covid-19 é um “resfriadinho”. Ele mata quando afirma que “o vírus não é tudo isso”. Ele mata quando forja a falsa oposição entre se proteger da doença e “salvar” a economia. E ele pode estar matando literalmente quando vai às ruas estimular outras pessoas a ir para as ruas, quando espirra e aperta mãos com seus dedos lambuzados de ranho, quando manipula celulares alheios, quando faz selfies com seus seguidores, quando pega crianças no colo. Ele mata e tenta dar um golpe quando faz tudo isso em manifestações golpistas contra a democracia, contra o Congresso e contra o Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro mata quando, diante de milhares de brasileiros mortos por covid-19, ele zomba, tripudia e debocha: “E daí?”. Como diz Emicida, “eleja um assassino e espere um genocídio”.

Está acontecendo agora. Neste momento. É grande a possibilidade de que, no futuro, Bolsonaro seja julgado pelo Tribunal Penal Internacional e seja condenado por crimes contra a humanidade, como aconteceu com outros perversos antes dele. Pelo menos duas denúncias já alcançaram a corte. Mas, quando isso acontecer, será muito tarde. Poderemos estar todos mortos.

O que vamos fazer agora, já? Ou vamos deixar “o homem mau” nos matar a todos? O que, afinal, vamos dizer às crianças que esperam ser protegidas por nós?

Tenho nojo de Bolsonaro. Cada palavra que contorce sua face ao sair da boca é uma palavra violenta. O homem cospe cadáveres. Seus três filhos mais velhos são suas cópias, numeradas, como ele mesmo diz (zeroum, zerodois, zerotrês...), comprovadamente estúpidos como o pai e também perversos, pelo menos um deles claramente rondando a psicopatia. Precisei escrever um livro para compreender como foi possível eleger o pior humano para a presidência do Brasil. E não paro de seguir tentando compreender. Mas, para além de compreender, é preciso impedir. Nossa emergência é barrar Bolsonaro, porque a cada segundo a pilha de cadáveres aumenta. Não são números “os inumeráveis”, são pessoas que alguém amou. (Continua)

 
 
25
Mai20

Covid-19: “Brasil pode alcançar estatísticas estratosféricas dos EUA”, diz infectologista

Talis Andrade

O Brasil, o país latino-americano mais atingido pela pandemia do coronavírus, ultrapassou 2brasil imenso cemitério.jpg

O Brasil, o país latino-americano mais atingido pela pandemia do coronavírus, ultrapassou 20.000 mortes, segundo o Ministério da Saúde do Brasil. AFP - MICHAEL DANTAS

 

 

Com baixo isolamento social e autoridades divergindo sobre condução de políticas públicas, o Brasil já tem mais de 20.000 mortos. O presidente Bolsonaro foi até um grupo de manifestantes, sem máscara, nesse domingo (24).

Segundo no mundo em casos confirmados de coronavírus, com quase 370 mil pessoas contaminadas, o Brasil caminha para chegar perto ou mesmo ultrapassar os números assustadores dos Estados Unidos, que hoje têm quase cem mil mortos. O país já tem quase 23 mil mortos e o isolamento social, mesmo com antecipação de feriados e fechamento total em algumas cidades, tem ficado abaixo do esperado.  E as autoridades reconhecem que os dados são subnotificados.

“É bem plausível que o Brasil alcance as estatísticas estratosféricas dos Estados Unidos. As pessoas aqui não aderiram ao isolamento social”, avalia o infectologista Dalcy Albuquerque, da Sociedade Brasileira de Doenças Tropicais. Ele lembra que mesmo em locais onde os casos estão em alta, como São Paulo, a adesão tem ficado na casa dos 50%. O especialista também afirmou que o país tem hoje vários pontos de concentração da doença, no Norte, Nordeste e no Sudeste, e que em outras regiões o vírus está chegando.

Uma divergência de condutas entre as esferas de governo deixou a população confusa e, a maioria acaba seguindo pelo mais fácil, não ficando em casa. Além disso vários hospitais de campanha que iriam ajudar o sistema de saúde não ficaram prontos como planejado e houve dificuldade em garantir respiradores e infraestrutura nesses locais. Alguns estados, ainda por cima, estão com grave crise financeira. A soma disso tudo pode levar o Brasil a se tornar o epicentro mundial da doença em algum momento, passando mesmo os Estados Unidos”, projetou o infectologista.

Enquanto o Brasil registrava quase 16 mil novos casos de coronavírus de sábado (23) para domingo (24), o presidente Jair Bolsonaro voltou a se juntar a manifestantes que foram para a Praça dos Três Poderes declarar apoio ao governo federal. Sem máscara, ferindo o que determina o governo local de Brasília, o presidente estava separado por uma grade, mas se aproximou por várias vezes das pessoas e chegou a tirar foto com uma menina e depois a pegar no colo outras duas crianças.

Crise política

A atitude do presidente não mostra apenas uma divergência na condução da crise sanitária com relação a outros países e à Organização Mundial da Saúde (OMS), mas ilustra a crise política por que passa o país neste momento.

Bolsonaro participou em várias ocasiões de manifestações que pediam o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF), onde tramitam processos de interesse do governo, do próprio presidente e dos filhos dele. A instabilidade do Executivo ficou evidente com a demissão de dois ministros populares – Henrique Mandetta, da Saúde, e Sérgio Moro, da Justiça. Depois veio a saída de Nelson Teich da Saúde por discordar do presidente quanto à indicação da hidroxicloroquina no tratamento da COVID.

O capítulo mais recente dessa instabilidade do Executivo foi a divulgação do vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril, que está no centro da briga entre o presidente e o ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro. Em duas horas de conversa com toda a equipe de governo, a pandemia de coronavírus esteve longe de ser prioridade entre as autoridades presentes. Ao contrário, quase passou batido. Um presidente raivoso, que não poupou palavrões para atacar adversários e cobrar postura de apoio de seus ministros, e que reclamou da falta de informações de órgãos de inteligência. Cresce agora a expectativa em torno do procurador geral da república, Augusto Aras, que terá de dizer se viu a tentativa do presidente em interferir politicamente na Polícia Federal.

“ O vídeo não mostra o presidente interferindo numa investigação específica da Polícia Federal. Mostra a intenção dele em fazer alterações porque está insatisfeito e menciona ali eventuais investigações contra a família e amigos. Não é uma prova definitiva de um ato ilícito do presidente. Mas a gente está no início da investigação. Outros elementos de prova serão colhidos. Depois a avaliação será feita no contexto de todas as provas”, afirmou o criminalista e professor de Direito Thiago Botino, da Fundação Getúlio Vargas.

Vídeo reforça embate político

O cientista Político Ricardo Ismael, da PUC-Rio, diz que, além da parte criminal, a liberação do vídeo pelo ministro Celso de Melo, do STF, que impediu a divulgação apenas de trechos que citam dois países, vem num cenário de crise do Executivo, reforçando o embate político.

“Aspectos que tiveram ampla repercussão na mídia e na opinião pública, como o Ministro da Educação atacando o STF, o ministro do Meio Ambiente dizendo que era para aproveitar a pandemia e liberar licenças na área ambiental, o próprio presidente falando em armar a população. Então foram vários pontos que consolidam a imagem negativa que ele tem hoje numa parte da população, que não votou nele ou que se distanciou dele nesse início de governo. Mas por ter muitas frases de efeito do Bolsonaro, o vídeo agrada a uma parte muito fiel do presidente que repercutem frases dele nas redes sociais e nos protestos”, analisa Ismael.

E nesse inquérito, o ministro Celso de Mello, relator do caso, encaminhou ao Procurador Geral da República um pedido de partidos de oposição para que seja aprofundado o caso com perícia no celular de várias autoridades, inclusive no de Bolsonaro e do filho dele, Carlos. Depois da manifestação do Ministério Público, Celso de Mello tomará uma decisão sobre o celular.

O general Augusto Heleno, ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional, divulgou uma nota em que fala de ‘impactos imprevisíveis’ caso a apreensão do aparelho do presidente venha a acontecer. A Ordem dos Advogados do Brasil rechaçou e disse que o ministro militar precisa sair de 64, numa referência à ditatura, e focar em resolver os problemas de 2020, ou seja, democraticamente.

 

25
Mai20

Tudo parece bom, exceto seguir os passos da ciência e da medicina

Talis Andrade

 

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II - A receita medieval contra o coronavírus que mistura Jesus, cloroquina, sementes milagrosas, jejuns e orações

por Juan Arias
El País
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Escrevi em outra coluna que o coronavírus se cura com a ciência, não com a religião. Milagres religiosos não devem entrar na esfera do Estado. É verdade que a fé, como dizem os Evangelhos, “pode mover montanhas”, mas não tem porque ser a fé religiosa. Existe uma força dentro de nós que, como a ciência moderna está descobrindo cada vez mais, pode nos curar de certas doenças. Mas os agnósticos e ateus também têm essa fé. Está dentro do ser humano.

Se confundir religião com o Estado era uma característica medieval, a descoberta de que existe uma força dentro da pessoa humana que é capaz de curar pertence à modernidade em que práticas laicas de meditação e autoconhecimento são cada vez mais aconselhadas. Às vezes somos nós mesmos que somos capazes de superar os limites da natureza sem a necessidade de um Deus fora de nós que, por seu capricho, cura alguns e deixa outros morrerem.

Uma coisa é o respeito que devemos ter por todas as experiências religiosas que o homem criou ao longo da história para exorcizar seus medos diante do mistério e outra é querer impor certas receitas milagrosas àqueles que não possuem essa fé. Eu tive uma experiência curiosa quando criança. Minha mãe era uma mulher com a fé simples do carvoeiro para quem Deus era familiar e bom, que nos ajudava nos momentos difíceis da adversidade. Isso a ajudou a suportar com grande integridade e serenidade a morte de minha irmã que, com 41 anos deixou cinco filhos pequenos. Eu podia não respeitar sua fé?

Ao contrário, meu pai, professor rural como ela, era agnóstico, mas com uma grande sensibilidade social, o que fazia que além de professor se transformasse em advogado e conselheiro daqueles camponeses analfabetos quando se encontravam com algum problema burocrático para resolver. Eram tempos de guerra e de fome e minha mãe lutava para poder dar um pedaço de pão com toucinho a mim e aos meus dois irmãos. Esses camponeses ficavam muito agradecidos e às vezes nos traziam meia dúzia de ovos ou uma galinha, um tesouro. Meu pai havia nos proibido de receber esses presentes porque dizia: “Eles tiram isso da boca para nos dar”. Às vezes minha mãe aceitava às escondidas alguns desses presentes. Meu pai a censurava com carinho: “Mas que cristã você é, Josefa!”.

Anos mais tarde, meus estudos de História das Religiões me ensinaram a distinguir entre a fé religiosa e a fé laica. Hoje a Igreja mais aberta e moderna começa inclusive a examinar com maior atenção os milagres que exige para canonizar alguém. Conheci um médico importante na Itália que havia trabalhado como consultor do Vaticano no exame dos milagres atribuídos aos santos. Ele havia tido uma crise de consciência. Disse-me que, como médico, via a grande maioria do que a Igreja chamava de milagres de Deus como algo que é possível realizar com a fé laica que nasce da nossa força como resultado de um forte desejo interno. Ele me contou que muitas das curas ocorridas, por exemplo, nas visitas aos santuários marianos, eram mais o resultado da força da fé pessoal sem necessidade da intervenção divina, que de outro modo seria racista ao curar alguns e deixar outros morrerem. Aquele médico me disse que nunca havia visto em tais lugares de culto ressuscitar um morto nem crescer um braço ou uma perna a um mutilado. As outras curas, disse, podiam ser o resultado da força pessoal de cada um. Quando os Evangelhos dizem que “quem tem fé é capaz de mover montanhas”, não têm porque se referir à fé religiosa. Basta a fé em nós mesmos, em nossa força interior, muitas vezes adormecida e que é capaz de realizar transformações consideradas como milagres religiosos.

Tudo isso para dizer que quando os seguidores de Bolsonaro cantam misturando Jesus com a cloroquina, que mais do que um medicamento a estão transformando em um talismã religioso, ou em uma estratégia político-comercial, cometem um sacrilégio. Enquanto os pastores que oferecem sementes milagrosas ou os prefeitos que impõem semanas de jejuns e orações contra o perigo do coronavírus nos recuam para a Idade Média.

Aos fariseus que para tentar Jesus lhe perguntaram se deviam pagar tributo a César, respondeu: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Isso nos lembra hoje que devemos saber distinguir entre a fé religiosa e a fé laica. Entre a religião, a ciência e a medicina. Todo o resto é superstição, atraso cultural, política rasteira e crime contra a modernidade.

 

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24
Mai20

A receita medieval contra o coronavírus que mistura Jesus, cloroquina, sementes milagrosas, jejuns e orações

Talis Andrade

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Tudo parece bom, exceto seguir os passos da ciência e da medicina. O resultado é que o Brasil já é o terceiro país do mundo com mais pessoas contaminadas pelo coronavírus

por Juan Arias

O Brasil parece ser um daqueles países dos quais se conta nos romances que ficaram isolados na Idade Média sem saber que estamos no século XXI. Só assim se explica que, ao contrário do resto do mundo, tenta combater a pandemia de coronavírus com uma receita que mistura invocações a Jesus, cloroquina, sementes de feijão, orações e jejuns coletivos. Tudo parece bom, exceto seguir os passos da ciência e da medicina. O resultado de tudo isso é que já é o terceiro país do mundo com mais pessoas contaminadas pelo vírus e o sexto com mais mortes pela covid-19.

Os fanáticos sequazes do presidente Jair Bolsonaro, que continua acreditando que é apenas mais uma gripe e que morrer todos devemos morrer, cantam entusiasmados: “Cloroquina, lá do SUS, eu sei que tu me curas, em nome de Jesus”. Por sua vez, o pastor evangélico Valdemiro Santiago, líder da Igreja Mundial do Poder de Deus, vendia a 1.000 reais sementes de feijão abençoadas que, segundo ele, curam milagrosamente do coronavírus. Na cidade de Ladário, no Mato Grosso do Sul, o prefeito evangélico ordenou pelo menos 21 dias de jejum e orações contra a epidemia. Tudo menos seguir os conselhos da ciência.

Na esfera íntima as pessoas têm todo o direito de se apegar a qualquer coisa para se defender da angústia, exorcizar o medo e tentar salvar suas vidas. Não na esfera política e social em um país laico como o Brasil, onde não é possível desempoeirar as ideias medievais quando a Igreja ditava as leis para toda a sociedade e, ao mesmo tempo, combatia a ciência e a medicina. (Continua)

22
Mai20

Todos os homens do presidente

Talis Andrade

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Você já prestou atenção nas influências do presidente? Uma pessoa é a média de todas as suas influências

22
Mai20

O caso Fox News, com F de fake

Talis Andrade

 

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II - Cloroquina ou tubaína?

por Mateus Pereira e Valdei Araujo
 
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A transformação da Fox News em uma máquina de propaganda conservadora, capaz de pautar inclusive o Partido Republicano, tem sido exaustivamente estudada nos Estados Unidos. David Brock, em livro publicado em 2012, já havia descrito com detalhes essa transformação, que na época ele chamou de efeito Fox. Brock estava à frente, na época, da Media Matters for America, instituição cujo objetivo é monitorar as notícias falsas promovidas pela imprensaconservadora. No dia 19, o site trazia uma matéria que constava que o programa predileto de Trump, o Fox & Friends, havia recebido 49 pessoas para discutir o coronavírus nos últimos quatro dias, e apenas um era especialista médico.

Em seu livro, Brock narra a participação de um dos grandes gerentes da Fox
em Washington, Bill Sammon, em seminário organizado em um cruzeiro seis estrelas
da Luxury Liner. Cada casal teria pago entre 50 e 150 mil reais, em valores de hoje,
para participar do evento com influenciadores da direita estadunidense, muitos deles
jornalistas. Em sua fala, o funcionário da Fox revelava como no contexto da eleição
de Barack Obama ele havia conscientemente distorcido um episódio da campanha
para promover a narrativa de que Obama seria um simpatizante do socialismo. Para
uma audiência conservadora, o jornalista admitia que a manipulação dos fatos era
uma atividade regular de seu trabalho na Fox News.

O que torna a questão ainda mais grave é o fato de que não se tratava de um
episódio isolado, mas uma ação coordenada por Roger Ailes, presidente e chefe do
canal Fox desde 1996. Ailes, falecido em 2017, foi uma personalidade do mundo da
comunicação que desde a polêmica eleição de Nixon, em 1968, trabalhou para
diversos presidentes e candidatos do partido republicano. Já nos anos 70 Ailes tinha
como estratégia a criação de falsas notícias ou de formatos de TV que simulavam
programas noticiosos como estratégia de marketing político.

Na última semana da eleição de 2008, Roger Ailes produziu um roteiro a
partir da leitura de uma autobiografia de Obama publicada em 1995. Usando informações que já eram de conhecimento público, mas que descontextualizadas e
vendidas como furos jornalísticos, funcionavam como propaganda negativa para
atingir a campanha do candidato democrata. Que esse tipo de procedimento seja
feito por publicitários contratados por partidos é algo “normal”, que isso seja
produzido pelo chefe de jornalismo de um canal de TV especializado em jornalismo
indicava uma transformação substantiva nas fronteiras entre a produção da notícia e
a guerra política.

Quando questionada acerca da parcialidade de sua programação, a Fox
afirma que manteria separado o jornalismo dos programas de opinião e comentário.
Naturalmente essa separação não existe quando o próprio diretor geral do canal
coordena uma ação política direta a ser operada por sua equipe de jornalismo.

A vitória de Obama em 2008 foi recebida como um verdadeiro apocalipse por figuras
como Ailes, que a partir de então vão trabalhar para inviabilizar a agenda do
presidente democrata. Entre 2009 e 2011, a quantidade de notícias falsas cuja origem poderia ser atribuída à Fox News passou de 33% para 54%.

Mesmo alguns republicanos moderados começaram a perceber, antes da
eleição de Trump, que o excesso de polarização que a Fox News produzia nos
eleitores dificultava a negociação no Congresso com os democratas, e se
perguntavam, então, se a Fox News trabalhava para o partido ou se era o partido
que trabalhava para ela. De algum modo, o autor não poderia antecipar a ascensão
de Trump, mas certamente essa autonomização da máquina de propaganda foi
fundamental para quebrar o establishment do partido republicano.

No Brasil, o mesmo poderia ser dito com relação ao PSDB e a direita tradicional com a eleição
de Bolsonaro. (Continua)

 

21
Mai20

A interiorização do coronavírus

Talis Andrade

 

Um levantamento divulgado nesta quinta-feira (21) pelo Ministério da Saúde apontou que mais da metade dos municípios brasileiros registraram casos da doença.

Em 24 horas foram acrescentados 1.179 mortes. No mundo, só Estados Unidos (2.612), França (1.417), China (1.290) e Reino Unido (1.172) tiveram mais de mil mortes somadas em um único dia.

De acordo com a Universidade Johns Hopkins, que compila dados mundiais sobre a epidemia de covid-19, o mundo registrou mais de 5 milhões de casos de contágio por coronavírus nesta quinta-feira (21/05).

Apenas cinco países (EUA, Rússia, Brasil, Reino Unido e Espanha) são responsáveis por mais da metade desses casos.

Com 1.551.853 de casos até a manhã desta quinta-feira, os EUA estão em 1° lugar no ranking de infecções relatadas, seguidos por Rússia (308.705), Brasil (291.579), Reino Unido (249.619) e Espanha (231.555).

Considerando um período de 24 horas, foram contabilizados pela instituição americana 23.604 novos casos e outras 1.369 mortes nos EUA.

Dados divulgados pelo Ministério da Saúde na quarta-feira apontam que o Brasil identificou 888 mortes por covid-19 em 24 horas, elevando o total para 18.859. O país registrou ainda 19.951 novos casos de coronavírus nesta quarta-feira.

A Universidade Johns Hopkins contabilizou ainda 328.227 mortos em todo o planeta. Mais de 1,8 milhão de doentes foram considerados curados.

Leia a matéria completa

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21
Mai20

Cloroquina ou tubaína?

Talis Andrade

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A força oculta por trás da campanha de Bolsonaro e Trump a favor da cloroquina, ou como o sucesso da Fox News e da Jovem Pan nos ajuda a entender o poder dos defensores do medicamento

por Mateus Pereira e Valdei Araujo
 
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Quarta-feira, 19, morreram mais de mil pessoas em decorrência da
covid-19. Uma verdadeira catástrofe! Indiferente, ou mesmo para ocultar aos fatos,
Bolsonaro atualizou a disputa entre coxinhas e mortadelas para cloroquinas e
tubaínas. A que ponto chegamos! Como entender o que está por trás dessa nova
agitação presidencial?  

“Você não é obrigado a tomar cloroquina”. E, em seguida, lançou a seguinte piada:
“Quem é de esquerda deveria tomar tubaína e não cloroquina”. Nos últimos dias, os
bolsonaristas têm divulgado diversos vídeos sobre o sucesso do uso da
hidroxicloroquina em um hospital na cidade de Floriano, no Piauí. A ministra
Damares, por exemplo, foi à cidade, no último dia 14, para ver de perto “o milagre
da cloroquina”.

Acreditamos que compreender a fórmula de “sucesso” da Fox News e da
Jovem Pan News pode nos ajudar a entender o chão de realidade no qual está
assentado esse suposto “milagre”, principalmente se considerarmos as últimas
declarações de Trump de que está fazendo uso do medicamento de forma
preventiva contra a Covid-19, bem como o movimento de Bolsonaro para mudar o
protocolo de uso da cloroquina.

Tudo isso tem como uma das consequências o aumento da pressão sobre os
médicos da rede pública para prescrever o remédio. Ao mesmo tempo, ocorre em
um momento em que mais pesquisas demonstram a ineficácia e os riscos da
cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19.

Mas, infelizmente, vivemos em um país em que, já faz algum tempo, as
“convicções” valem mais que as provas… Algumas mudanças no interior das mídias
nos ajudam a entender a questão: parte delas, das mídias conservadoras, vivem de
uma cortina de fumaça, do argumento de que tudo tem dois lados, de que basta
apresentar os dois lados para que não haja viés. Mas, ora, os lados podem ser
muito mais que dois e, além disso, nem todo lado tem razão.

É como um estúdio de TV discutir o uso da cloroquina e colocar de um lado
uma autoridade pública de saúde e, de outro, uma subcelebridade do Youtube. Não
é um cenário, digamos assim, que contribui para a formação de opinião, mas
apenas para que cada lado da polarização política reforce suas crenças e desejos.
É este tipo de lógica, cada vez mais hegemônica, que explica o fato, que tem
ficado cada vez mais claro, das autoridades de saúde estarem perdendo o debate
relativo ao uso da cloroquina, apesar de estarem com a razão. (Continua)
 
 
20
Mai20

Gestão da pandemia de Covid-19 no Brasil é criticada pela imprensa internacional

Talis Andrade

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O Brasil ultrapassou a barra simbólica de mil mortos por dia vítimas da Covid-19 e se tornou o novo epicentro da doença. A gestão da pandemia no país preocupa a comunidade internacional e é destaque em jornais pelo mundo afora.

"O Brasil não para de registrar tristes recordes na progressão da pandemia", relata a emissora France Info em seu site, que traz nesta quarta-feira (20) o último balanço da evolução da doença no país. “Mas os dados divulgados até agora seriam subestimados, já que não há testes suficientes no país e o número real de doentes poderia ser 15 vezes maior”, alertam os jornalistas franceses.

O jornal Le Parisien é mais categórico e diz que se esse ritmo de contaminação continuar, “o Brasil poderá registrar uma aceleração da pandemia”.

Fora da França, o jornal britânico The Guardian fala dos hospitais saturados no Rio de Janeiro e São Paulo e lembra que o Brasil já ultrapassou o Grã-Bretanha e se tornou o terceiro país com o maior número de infecções confirmadas. Já o canal de televisão norte-americano CNN critica a posição do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que “continua descartando a ameaça do vírus, dizendo que quarentena e bloqueios podem ter um impacto pior na economia brasileira”.

Pressão de Bolsonaro para uso da cloroquina

A imprensa internacional também se interessa pela estratégia de tratamentos sugerida por Bolsonaro. “O líder populista apontou a cloroquina como uma droga potencial contra o novo coronavírus – como seu colega americano, Trump”, relata o canal de televisão CNN. O francês Le Parisien completa, explicando que “o presidente é um fervente partidário [do uso dessa molécula], mesmo se sua eficácia não foi provada por nenhum estudo cientifico irrefutável e que a cloroquina pode provocar vários efeitos colaterais, entre eles problemas cardíacos”.

O que chama a atenção da imprensa internacional é que Brasília pretende generalizar o uso da molécula, inclusive em pacientes que desenvolveram uma forma menos severa da doença. “A maioria dos grandes países atingidos pela pandemia, como Estados Unidos e França, autorizaram o uso da hidroxicloroquina, um derivado da cloroquina, apenas como parte de testes clínicos ou em hospitais, para casos graves, após uma decisão coletiva dos médicos”, alerta a revista francesa Le Point em um artigo intitulado “Cloroquina generalizada sob a pressão de Bolsonaro”.

Mesmo tom no Courrier International, que relata a piada feita pelo chefe de Estado sobre o tratamento, no mesmo dia em que o país alcançava a barra simbólica de mil mortos vítimas da Covid-19. "Quem é de direita toma cloroquina, quem é esquerda, Tubaína", ironizou Bolsonaro.

Além da questão de um potencial tratamento, o jornal suíço Le Temps traz uma longa reportagem feita por sua correspondente em São Paulo, que aponta falhas no início da luta contra o vírus no Brasil. “Somente dois meses e meio após a confirmação do primeiro caso, em 26 de fevereiro, São Paulo, o estado mais atingido, anunciou uma política de testes em massa”. Ela ressalta que no restante do país a situação também é difícil, em razão da falta de coordenação dos esforços em uma nação de contrastes e dimensões continentais.

“O Brasil é o único país com mais de 100 milhões de habitantes dotado de uma rede de serviço público de saúde disponível para toda a população", elogia a correspondente. "Mas esse famoso SUS, do qual dependem 75% dos brasileiros, é cronicamente subfinanciada e já era subdimensionado bem antes da pandemia. As vezes há leitos, mas não há pessoal qualificado”, pondera a jornalista do Le Temps.

Valsa de ministros

O jornal suíço, como váriou outros veículos internacionais, acompanhou a valsa de ministros da Saúde nos últimos dias. Le Temps explica que a pasta está disponível após a saída de Nelson Teich e Luiz Henrique Mandetta, que se recusaram a seguir a estratégia de uso indiscriminado da cloroquina, como tenta impor Bolsonaro. “O próximo titular da pasta deverá se dobrar à essa exigência”, comenta a correspondente do Le Temps .

O italiano Corriere Della Serra também fala da dança das cadeiras de ministros e diz em título que “o Brasil vive um caos político”.

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19
Mai20

"Tem alguma coisa de podre no reino do Brasil", diz editorial do Le Monde sobre governo Bolsonaro

Talis Andrade

 

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"Tem alguma coisa de podre no reino do Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro pode afirmar que a Covid-19 é uma 'gripezinha', um produto da imaginação histérica dos meios de comunicação", diz o editorial do jornal Le Monde, em sua edição impressa desta terça-feira (19).

Fazendo referência à famosa frase “há algo de podre no reino da Dinamarca”, escrita por Shakespeare em 1600 na tragédia "Hamlet", o jornal francês condena com veemência o presidente brasileiro. O diário publica que Bolsonaro participa de manifestações sem tomar a menor precaução com o distanciamento social, exorta prefeitos e governadores a abandonar as restrições contra o coronavírus e finge que a epidemia está acabando no país.    

"Ora, em 72 horas, o Brasil ultrapassou 254 mil diagnósticos e se tornou o 3º país com mais casos de Covid-19 no mundo, superando o Reino Unido, que tem cerca de 250 mil infectados, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da Rússia", relata Le Monde.

"Tem algo de podre no Brasil quando o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araujo, diz que o coronavírus é resultado de um complô comunista (...) quando o ministro da Saúde Nelson Teich pede demissão no dia em que o país atinge 240 mil casos da Covid-19", escreve Le Monde.

Para muita gente, o Brasil atravessa uma crise que lembra as horas mais sombrias da ditadura militar, destaca o editorial. Mas existe uma diferença importante, afirma:  "Enquanto no passado os generais reivindicavam a defesa de uma democracia atacada, o Brasil de Bolsonaro habita um mundo paralelo, um teatro do absurdo onde os fatos e a realidade não existem mais. Nesse universo sob tensão, alimentado por calúnias, incoerências e provocações mortíferas, a opinião se polariza a partir de ideias simplistas, mas falsas."

Risco de novo regime autoritário

"O negacionismo alimentado pelo poder (...) e a aposta política inacreditável de Bolsonaro, que pensa que os efeitos devastadores da crise na saúde serão atribuídos a seus opositores, mostra que esse obscuro ex-deputado de extrema direita não tinha nada de um homem de Estado", enfatiza o jornal.

Com o apoio de 25% do eleitorado, Bolsonaro sabe que sua margem de manobra é estreita. "Depois de praticar o negacionismo histórico em prol da ditadura, de negar a existência de incêndios na Amazônia e da gravidade da epidemia de Covid-19, Bolsonaro agora tenta levar o país para um novo regime autoritário", adverte Le Monde.

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Além do editorial e de uma reportagem interna de página inteira, a charge de capa do Le Monde, assinada pelo desenhista Plantu, também mostra o descalabro no Brasil. Enquanto uma família francesa faz um passeio em uma floresta recém-aberta, com todos de máscara, Plantu mostra um pequeno indígena brasileiro sem defesas orgânicas em meio a tocos de árvores da Amazônia destruída.

 

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