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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

16
Set22

“Bolsonaro é um pesadelo”, diz correspondente do Le Monde que lança livro na França

Talis Andrade
O jornalista Bruno Meyerfeld, correspondente do jornal Le Monde no Brasil.
O jornalista Bruno Meyerfeld, correspondente do jornal Le Monde no Brasil. © RFI

 

O correspondente do jornal francês Le Monde no Brasil, Bruno Meyerfeld, lança nesta segunda-feira (12), em Paris, o livro “Cauchemar brésilien” (Pesadelo brasileiro, em tradução livre) pela Editora Grasset. Baseada em reportagens pelo país, entrevistas e pesquisas sobre a história política do Brasil, a obra expõe a visão do jornalista sobre a personalidade e a trajetória do presidente brasileiro Jair Bolsonaro e as ações de seu governo.  

“O Bolsonaro é uma figura diversa e muito complicada. Foi difícil atribuir um título só para esse personagem. Ele é um produto do interior do Brasil, do Rio de Janeiro, onde foi deputado durante muitos anos, e um produto da política de Brasília”, diz Meyerfeld sobre o processo que o levou a escolher o título da obra.

“Alguns dizem que ele é um doente, um louco, outros dizem que ele é um grande estrategista, que conseguiu criar uma configuração perfeita para chegar ao poder. Ao mesmo tempo, outros dizem que é um ditador, um fascista. Mas os que gostam dele dizem que ele é um democrata e que o STF o impede de governar”.  

Finalmente o título do livro foi definido em uma conversa de bar no Rio, quando uma prima do jornalista expressou seu sentimento de que sob Bolsonaro os brasileiros vivem um verdadeiro pesadelo.

“Pesadelo é interessante porque é apavorante, parece surreal, mas fala muito sobre você e seu inconsciente. Acho isso uma característica muito forte do Bolsonaro e tão louco que pareça o bolsonarismo hoje, e especificamente o presidente, ele fala muito sobre a história do Brasil, a sociedade brasileira e suas raízes. Para mim, de certa forma, ele é um pesadelo”, diz o jornalista franco-brasileiro.

Sob o ponto de vista francês, a política do governo Bolsonaro para o meio ambiente é um dos pontos que justifica qualificar sua gestão de pesadelo. “Para os franceses, esse processo de destruição incrível que acontece na Amazônia é apavorante”, afirma.  Mas, segundo Meyerfeld, para os brasileiros, as maiores críticas podem vir da gestão da Covid-19 e da crise econômica, agravada pela inflação alta, a taxa de desemprego e a fome que atinge 33 milhões de cidadãos.

No entanto, para o correspondente do Le Monde, que chegou ao Brasil em 2019, quando Bolsonaro assumiu o governo, o mais grave diz respeito à crise relacionada à democracia do país. “Os ataques do Bolsonaro, dos bolsonaristas e de seu governo contra as instituições e contra as urnas eleitorais e o sistema de votação brasileiro, que era um motivo de orgulho dos brasileiros até hoje, vão ter consequências no longo prazo”, avalia. 

O grande número de armas em circulação no Brasil, estimado em 1 milhão, também são motivo de preocupação. “Essas armas vão ficar e poderão ter um impacto bastante grande nas relações sociais e no clima de violência que existe no Brasil”.

No texto, o autor alerta que o Brasil se transformou em uma espécie de “laboratório sobre os riscos do extremismo” e Bolsonaro é uma demonstração concreta do que o populismo de extrema direita é capaz de fazer, como a propagação da desconfiança na democracia e a utilização das redes sociais em um país que se encontra, segundo Bruno, em uma “bolha”. “Nessa bolha você pode fazer e falar o que quiser, exprimir qualquer tipo de opinião e está tudo bem. Tudo é muito extremo no Brasil porque às vezes você não tem o autocontrole, uma parte da sociedade brasileira se sente legítima para falar o que quiser”, afirma.

Bruno Meyerfeld refuta qualquer atribuição de Bolsonaro como “Trump Tropical”, em referência ao ex-presidente americano Donald Trump, ou de comparações com outros políticos populistas, como o húngaro Viktor Orban e a francesa Marine Le Pen, líder da extrema direita no país. “Isso é ignorar as especificidades do Brasil e do Bolsonaro. Ele é produto de uma história do Brasil moderno, da ditadura militar, da época da construção de Brasília também dos anos 1950 e 60, e de 30 anos de democracia. Ele tem características próprias”, garante.

 

França virou obstáculo

 

No livro de 361 páginas, Meyerfeld busca fornecer pistas de reflexão para os franceses que, na sua opinião, estão com uma certa dificuldade em acompanhar as mudanças que ocorreram no Brasil desde a ascensão de Jair Bolsonaro ao poder.  

“Estou percebendo uma forma de incompreensão muito forte. O Brasil de alguns anos atrás era visto como um símbolo de desenvolvimento, progresso de uma democracia mais alegre e progressista, com um líder operário que conseguiu tirar milhões de pessoas da pobreza e de diminuir a taxa de desmatamento em 80%, era algo forte. Era uma democracia nova que estava dando certo. Hoje, com o Bolsonaro, que é visto aqui como o extremo do extremismo, um símbolo de desespero e retrocesso, as pessoas não entenderam muito bem a transição”, avalia.  

Durante o processo da produção do livro, Bruno Meyerfeld tentou várias vezes entrevistar o presidente, mas sem sucesso. Segundo ele, Bolsonaro não tem uma relação difícil apenas com a imprensa brasileira, mas também com os jornalistas estrangeiros e particularmente franceses. O obstáculo é reflexo também de uma crise diplomática entre os dois países depois dos embates de Jair Bolsonaro com o francês Emmanuel Macron, um recorrente crítico das políticas ambientais em vigor no Brasil. “Há pessoas inclusive do primeiro escalão do governo [brasileiro] que têm bastante respeito, até são francófilas, mas tem uma certa dificuldade em demonstrar afinidade por causa dessa briga do presidente com Emmanuel Macron”, explica.

“Fui a Brasília várias vezes, falei com vários assessores e entendi muito rapidamente que Bolsonaro não iria dar uma entrevista a um jornalista francês”. O pior, segundo Bruno Meyerfeld, é que o presidente conseguiu expandir sua visão hostil sobre a França para diferentes regiões. “Muitos setores favoráveis ao presidente Bolsonaro têm uma antipatia e até uma certa raiva contra a França. Isso dificulta muito mais o meu trabalho”, explica.

O livro “Cauchemar Brésilien” é lançado às vésperas do 1° turno da eleição presidencial no Brasil, ocasião para os franceses entenderem melhor o clima político instaurado no país e que pode se tornar imprevisível. “Lula é favorito e tem grandes chances de ganhar, mas o Bolsonaro tem uma dinâmica muito forte e ninguém pode menosprezar as chances do atual presidente se reeleger. Oito meses atrás ele tinha perdido cerca de metade dos eleitores dele. Atualmente, a perda é entre 20% e 25% . Hoje ninguém ganha com 70% no segundo turno e a sociedade vai continuar bastante dividida no futuro, com certeza”, opina.

O jornalista Bruno Meyerfeld lançou o livro Cauchemar brésilien, nesta quarta-feira, 7 de setembro.
O jornalista Bruno Meyerfeld lançou o livro Cauchemar brésilien, em 7 de setembro. © RFI


03
Nov20

Americanos vão às urnas em clima de tensão e disputa acirrada entre Trump e Biden

Talis Andrade

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Um grande número de lojas no centro de Washington protegeu suas vitrines com tábuas de madeira devido ao temor das manifestações que poderiam surgir durante ou depois do dia das eleições, na terça-feira. AP - Jacquelyn Martin
 
 

 

Não é Venezuela.

Não é Cuba. 

Essas eleições nos Estados Unidos já vão entrar para a história como uma das mais acirradas e tensas, com temor de violência durante e após a votação. Em Miami, assim como em muitas outras cidades do pais como Nova York, Washington, Los Angeles, comerciantes colocaram tapumes de madeira na frente das lojas para proteger as fachadas e vitrines.

Esse clima reflete a intensa disputa entre Donald Trump e Joe Biden que fizeram comícios até o último minuto para convencer eleitores a votar. O presidente republicano, que segundo sondagens estaria em desvantagem nessa corrida eleitoral, percorreu quatro estados no último dia de campanha, escreveu Elcio Ramalho para RFI - Ráfio França Internacional. Confira aqui

Leia mais na RFI: Diversas manifestações estão previstas em frente à Casa Branca, em Washington, a partir desta terça-feira (3), dia das eleições presidenciais americanas. Diante da ameaça de violentos protestos, lojistas e escritórios da capital, de Nova York e de Los Angeles decidiram instalar tapumes para proteger as vitrines. 

Em Nova York, o prédio da famosa rede Macy's foi totalmente protegido. "É melhor ser prudente", explicou a marca, em um comunicado divulgado pela rede de televisão CNN. As lojas abrirão normalmente nesta terça-feira.

O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, também anunciou que a cidade se preparava para inúmeras manifestações e "confrontos". Segundo ele, "nenhuma violência será tolerada." 

De acordo com historiador Jean-Christian Vinel, pesquisador da universidade Paris-Diderot, que dirigiu a revista científica "Conservadorismo em movimento", existem vários riscos de conflitos. "Há temores de que partidários de Donald Trump venham intimidar os eleitores e até mesmo penetrem nos locais de votação, ainda que isso seja ilegal", diz.

Segundo ele, hoje, nos Estados Unidos, há "ansiedade e desconfiança em relação ao pleito", o que é um sinal de que a democracia no país "não vai bem". Ele cita como exemplo o episódio ocorrido há dois dias em que um ônibus de campanha do democrata Joe Biden foi bloqueado na estrada por eleitores de Trump - o caso ainda está sendo investigado.

Supremacistas brancos: o "motores" da violência 

Os supremacistas brancos vêm sendo considerados como a principal ameaça de eventuais confrontos, de acordo com o FBI. "Podemos imaginar que eles sejam os motores dessa violência no início, mas o fato do resultado da eleição não ser divulgado imediatamente pode aumentar as tensões de forma geral", analisa. 

O especialista lembra que muitos americanos votam por correspondência e que vários desses boletins podem chegar para ser contabilizados até nove dias depois das eleições, o que contribuirá para reavivar as tensões. 

"Donald Trump incita seu eleitorado a desconfiar de tudo: dos cientistas, democratas ou mídia", diz. "É difícil prever o que vai acontecer nos próximos dias, mas é certo que Trump não busca apaziguar os ânimos e reconciliar a população. Pelo contrário, ele alimentou as tensões e está perdendo, segundo as pesquisas. É do seu interesse 'jogar' com a crise", reitera. 

O pesquisador francês lembra que o presidente perdeu a eleição de 2016 no voto popular, mas conquistou a vitória dos grandes eleitores em três estados: Wisconsin, Michigan e Pensilvânia. É nesses estados, diz Vinel, que o risco de tumultos é maior, ligado à contagem de votos.

Washington se prepara para confrontos

Em Washington, os cidadãos se preparam para eventuais tensões. "Tudo leva a crer que haverá confrontos na noite das eleições, independentemente do vencedor", disse o chefe de polícia Peter Newsham, citado pelo jornal The Washington Post.

"Outros conflitos são esperados durante a posse em janeiro", disse. O contingente de policiais nas ruas será reforçado na capital, nesta terça-feira, e a circulação de algumas estradas será interrompida.

Segundo o Washington Post, os lojistas não receberam nenhuma recomendação oficial. "Até agora, não houve nenhuma ameaça que justificassse essa proteção. Mas temos que ser vigilantes e entendemos a postura de alguns lojistas que fizeram essa escolha",  disse o secretário encarregado do Desenvolvimento Econômico, John Falcicchio.

Há vários dias, as tensões crescem no país. Em um relatório publicado na quarta-feira, a ONG Crisis Group diz temer "violências inéditas" na história dos Estados Unidos. "As eleições presidenciais de 2020 representam riscos inéditos na história recente do país", ressalta a organização, que diz temer a reação do presidente americano, Donald Trump, em caso de derrota.

"As múltiplas facetas de seu discurso sugerem problemas potenciais em caso de eleições contestadas ou com resultados muito apertados", sublinha a ONG.

 

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