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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

24
Abr21

Candidata em Berlim, teuto-brasileira quer pressão sobre Bolsonaro

Talis Andrade

Juliana Wimmer

Filha de brasileira e alemão, Juliana Wimmer é candidata a deputada pelo Partido Verde. Ela vê o populismo de direita como ameaça real à democracia alemã, e a atual gestão no Planalto, como risco ao mundo inteiro

por Clarissa Neher /DW

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Apesar da aparente pouca idade, a teuto-brasileira Juliana Wimmer, de 31 anos, tem uma longa trajetória de engajamento político, que neste ano pode culminar com a consolidação do início de uma carreira na política alemã. A jovem jurista é uma das candidatas do Partido Verde para o Bundestag (Parlamento alemão).

Formada em Direito, mestre em Políticas Públicas e com experiências de trabalho no Ministério alemão da Justiça e no Centro Europeu para Direitos Constitucionais e Humanos (ECCHR), Wimmer começou a cogitar a candidatura há cerca de um ano, após conversas com colegas da legenda. A ideia foi também impulsionada pelo crescimento da sigla populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD).

"Nunca pensei que um partido destes pudesse entrar em qualquer parlamento aqui na Alemanha. Agora vimos que eles chegaram para ficar, por isso, é importante nos levantarmos e dizermos que temos uma visão da política diferente desta legenda que não é democrata", conta Wimmer à DW Brasil. Ela lembra o episódio ocorrido em 18 de novembro, quando deputados da AfD liberaram a entrada no Bundestag de ativistas de extrema direita e influencers conspiracionistas que invadiram gabinetes na tentativa de intimidar parlamentares e um ministro.

Wimmer é desde 2018 assessora da deputada do Partido Verde Katja Keul e estava trabalhando no dia do incidente. "Recebi um e-mail do partido alertando para ficarmos nos escritórios e fecharmos a porta. Isso me deixou chocada e mostrou que realmente esse partido no Parlamento é um perigo para todos. Isso me motivou como alemã, mas também como estrangeira, a deixar claro que esse não é um Bundestag que desejo e também a participar mais ativamente deste Parlamento", ressalta.

O passo rumo ao Parlamento não foi algo completamente inesperado na carreira da jurista. A política sempre esteve presente na vida de Wimmer. Filha de uma brasileira e de um alemão que se conheceram no Brasil no fim da década de 1980, Wimmer nasceu em Berlim em 1989. Nas conversas em família, tanto a política alemã quanto a brasileira eram temas constantes.

"Na escola aqui, tínhamos uma aula de política e, quando terminei o colégio, sentia falta destas aulas. Também queria participar ativamente de um partido e da campanha eleitoral de 2009", conta.

A escolha do partido

Com a decisão tomada, faltava então escolher a legenda. Para isso, Wimmer fez uma pesquisa sobre as plataformas de cada um dos partidos alemães. "O Partido Verde foi o que mais me convenceu pelos seus valores baseados na ecologia, pacifismo e feminismo". Com 19 anos na época, decidiu entrar para a juventude verde.

Juliana Wimmer

Wimmer nasceu em Berlim

Em 2015, com 28 anos, ela passou a integrar grupos de trabalho da legenda que tratam de política externa e questões locais do distrito eleitoral onde mora em Berlim. A história de vida de Wimmer foi fundamental para o foco em temas internacionais.

"As duas nacionalidades são muito importantes para mim. Essas duas perspectivas e culturas foram uma das razões que me levaram a trabalhar com política externa", destaca.

Neste ano, veio o grande passo na carreira política: em 21 de março, Wimmer participou da seleção interna do Partido Verde para a escolha dos nomes que entrariam na lista de candidaturas da legenda em Berlim para as eleições de 26 de setembro.

A jurista concorreu com outros 25 candidatos e conquistou a oitava posição. As chances da teuto-brasileira de entrar no Parlamento dependem da quantidade de votos que a legenda obtiver. Na Alemanha, cada eleitor tem direito a dois votos: o direto no candidato do distrito eleitoral e o na legenda. Metade das 598 cadeiras do Bundestag são ocupadas por candidatos eleitos diretamente e a outra metade pelas listas distritais, sendo distribuídas conforme a proporção de votos das siglas.

Caso conquiste uma cadeira no Bundestag, a política internacional deve ser uma das plataformas de seu mandato. Wimmer defende uma atuação alemã no exterior voltada para a paz, desarmamento, e para prevenção de conflitos, com uma visão feminista e envolvendo a sociedade civil.

Ela pretende também contribuir para uma maior diversidade no Parlamento. "As raízes migratórias fazem parte da minha identidade. Há muitos alemães que também tem uma outra nacionalidade e esse grupo ainda é pouco representando no Bundestag. No meu mandato, também pretendo lutar por todas as crianças de migrantes que vieram para a Alemanha", acrescenta.

Governo Bolsonaro

Ao comentar a política brasileira, Wimmer lamenta os inúmeros retrocessos ambientais e de direitos humanos que vêm ocorrendo desde o início do governo de Jair Bolsonaro. "Antes da pandemia, ainda havia grupos que estavam sendo beneficiados com o governo, como a elite ou quem votou nele, mas agora todo mundo está sofrendo", afirma, acrescentado que o descaso do presidente com a crise do coronavírus é "irresponsável".

"Essa política não é sustentável e se tornou um perigo, não só para o Brasil, mas pro mundo inteiro quando vemos essas mutações", comenta.

Para a jurista, o governo da chanceler federal alemã, Angela Merkel, apesar de ser crítico de Bolsonaro, poderia fazer muito mais para pressionar o presidente brasileiro. "O poder econômico da Alemanha e da União Europeia é muito forte, mas ele não está sendo usado suficientemente para mostrar que o Brasil agora não é um parceiro confiável no comercio mundial". Como exemplo de pressão que poderia ser feita, ela cita a aprovação de leis que aumentem a transparência e os padrões exigidos em relação a produtos importados do Brasil.

Além disso, ela considera importante iniciativas que apoiem a sociedade civil e mostrem que o país europeu está ciente do que o ocorre no Brasil, como a carta de deputados alemães enviada ao Congresso brasileiro com um pedido para não flexibilizar leis de proteção ambiental.

Atualmente com chances reais de comandar o novo governo alemão, como mostram pesquisas recentes de intenção de voto, o Partido Verde poderia no futuro aumentar a pressão sob Bolsonaro. No entanto, segundo Wimmer, uma mudança neste aspecto dependerá muito da coalizão que formará o novo governo. Caso seja feita uma aliança com os social-democratas, a tendência é o fortalecimento das conexões com a sociedade civil, o endurecimento das críticas e o uso do poder econômico.

"Se só for possível uma coalizão com a CDU, será bem difícil mudar o caminho que estamos agora, pois os conservadores têm em mente os interesses econômicos e são muito influenciados pelo lobby da economia alemã, e isso é o que impede o atual governo alemão de se posicionar mais fortemente contra a política de Bolsonaro", avalia.

06
Fev20

A nova teologia do Ecoceno. Entrevista com Leonardo Boff

Talis Andrade

De um Brasil em crise, escravizado, humilhado, pisoteado, chega uma mensagem de esperança

De um Brasil em crise, escravizado, “campo de batalha na guerra fria entre Estados Unidos e China”, de um continente explorado “para satisfazer as superpotências”, humilhado, pisoteado, chega uma mensagem de esperança. De renovação. Que toca os temas do ambiente “rumo a um novo Ecoceno” e da igualdade social. Que fala do papel da mulher, do novo rosto da Igreja – a do Papa Francisco. Uma mensagem livre, “como o Espírito Santo”.

A reportagem é de Annachiara Sacchi, publicada no caderno La Lettura, do jornal Corriere della Sera, 26-01-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Leonardo Boff, expoente de destaque da teologia da libertação, incômodo quando era sacerdote e também depois (abandonou a batina em 1992; em 1985, havia sido advertido pela Congregação para a Doutrina da Fé), ativista dos direitos humanos, professor universitário, está confiante: “De toda grande crise, vem a possibilidade de uma mudança, podem nascer novas forças. E o Brasil é maior do que essa crise”.

Eis a entrevita (Em espanhol aqui)

Professor Boff, então o senhor está otimista ou não?

Na realidade, estou preocupado. A situação no Brasil é trágica: o ultraliberalismo de Jair Bolsonaro, a extrema direita política que faz apologia da violência e dos regimes ditatoriais, que exalta os torturadores como heróis nacionais... Nunca vivemos nada semelhante.

Qual a explicação?

Por trás disso, está o projeto de recolonizar a América Latina e obrigá-la a ser somente exportadora de commodities (carne, alimentos, minerais...). E, nessa perversa estratégia, o Brasil é central.

Por quê?

Porque é um país riquíssimo, uma reserva de bens naturais que faltam no mundo. Como disse várias vezes o prêmio Nobel Joseph Stiglitz, nos próximos anos toda a economia dependerá da ecologia. E o Brasil terá um papel primordial nesse jogo.

É difícil viver no Brasil hoje?

Muito. O ministro da Economia, Paulo Guedes, é um dos “Chicago Boys”, formados na Universidade de Chicago, que trabalharam no Chile de Pinochet. O ultraliberalismo de direita está fazendo uma política dos ricos para os ricos, está privatizando tudo. Guedes está trazendo a política de Pinochet ao Brasil. E você sabe por que ninguém protesta, por que as pessoas não saem às ruas como está acontecendo agora no Chile?

Não.

Porque o governo anunciou que reprimirá qualquer protesto com o exército! Aqui todos têm medo, mesmo que a discordância cresça. Mas dentro das paredes de casa. Assistimos a uma triste forma de inércia popular.

Na América Latina, presidentes como Evo Morales e Lula encerraram a sua era. Agora, novas forças orientam a opinião pública. Acabou o impulso reformista?

Tivemos governos que fizeram muito pelos pobres. No Brasil, 36 milhões de pessoas foram incluídas no welfare. Mas, no ano passado, um milhão de famílias passou da pobreza para a miséria. O governo está desmontando as políticas sociais de Lula. Estamos lidando com uma elite reacionária e escravista que nunca aceitou que um operário – no caso do Brasil, Lula, ou um indígena no caso da BolíviaEvo Morales – chegasse à presidência do país. Essa elite fez de tudo, com os meios mais brutais. Mas essa onda violenta está sendo oposta por um movimento de grupos progressistas, de afro-latino-americanos, de indígenas. São os brotos de uma realidade que veremos. Essa é a esperança que alimentamos.

O senhor vê algum novo líder político?

Infelizmente não, estamos em um momento de vazio, faltam figuras carismáticas, principalmente no Brasil. Talvez também por culpa de Lula, que não soube formar uma classe dirigente.

O seu novo livro, “Soffia dove vuole” [Sopra onde quer] (no prelo, pela editora Emi), fala do Espírito Santo. Por quê?

Os tempos inquietantes que estamos vivendo, exigem uma séria reflexão sobre o Spiritus Creator.

Que ficou à margem da teologia.

Isso não é verdade. Existem estudos grandiosos sobre o Espírito, desde o de Yves Congar até o de Jürgen Moltmann, em diálogo com o novo paradigma cosmológico. Mas o que podemos dizer é isto: o Espírito Santo esteve quase sempre à margem da hierarquia eclesiástica. E com razão.

Como assim?

A hierarquia está orientada para “áreas” como o poder, a ordem, os dogmas, o direito canônico, em uma constante condição de autorreferência. São todos aspectos que servem para manter o status quo e que têm a sua razão de existir, eu não nego isso. Do mesmo modo, porém, eles não podem ser predominantes. O Espírito é mais carisma do que poder, mais movimento do que estabilidade, mais inovação do que permanência. Ele segue uma lógica diferente da hierarquia da Igreja. Por isso, quase todos os pregadores do Espírito Santo foram marginalizados ou perseguidos. Os fatos confirmam isso. O meu livro, julgado em 1985 pela Congregação para a Doutrina da Fé (cujo prefeito era Joseph Ratzinger), intitulava “Igreja: carisma e poder”. Em Roma, porém, leram-no como “Igreja: carisma ou poder”. Por causa dessa confusão, me condenaram.

Ao invés disso, o que o senhor queria dizer?

Eu queria criar um equilíbrio entre carisma e poder. Mas esse equilíbrio deve começar pelo carisma. Se se começa pelo poder, corre-se o risco de que isso sufoque o carisma. Em vez disso, se se começa do carisma, impede-se que o poder seja exercido de forma autoritária, limites são-lhe impostos, e ele é obrigado a se colocar a serviço da comunidade.

Qual é o papel do Espírito Santo hoje?

Estamos em um momento histórico, o Antropoceno, em que as bases que sustentam a vida e a Terra foram profundamente atacadas. Ou mudamos ou morremos. O Espírito é Spiritus CreatorSpiritus Vivificans. Só o Espírito pode restaurar o equilíbrio destruído pela voracidade do homem. Só com o Espírito é possível superar o Antropoceno e chegar ao Ecoceno, a uma sociedade sustentável, vital, aberta à convivência de todos com todos.

Por que, na sua elaboração teológica, o senhor insiste em enfatizar o papel da ciência?

Não é possível fazer uma teologia atualizada sem um diálogo profundo com a nova visão do mundo proveniente das ciências da vida, da Terra, do cosmos. Essa leitura já tem um século, mas não é hegemônica. São poucos os teólogos que aceitaram esse desafio.

Por quê?

Porque obriga a estudar ciências diferentes: a física quântica, a nova biologia, a astrofísica, a teoria do caos e da complexidade. Depois de tal caminho, digo isto por experiência, é mais fácil fazer teologia, porque. com esses dados, Deus aparece imediatamente como a energia misteriosa e amorosa que sustenta o todo e que leva em frente todo o processo cosmogênico. A categoria teológica do Espírito Santo é mais adequada para essa nova forma de teologia.

O que a consciência ecológica tem a ver com o Espírito Santo?

O principal objetivo do meu livro é afirmar que o diálogo com a ecologia e com a nova cosmologia nos obriga a mudar o paradigma. O paradigma da filosofia e da teologia ocidentais é de raiz grega, essencialista, baseado em natureza, substância, essência e outros termos semelhantes que pertencem à área da permanência, da estabilidade. Em vez disso, quando se fala de Espírito, tudo é dinamismo, inovação. É preciso mudar a forma de pensar Deus, a história, a Igreja. Deus é dinamismo de três pessoas divinas em comunicação entre si e com a criação.

Teologia da ecologia, então?

Eu tentei fazer uma teologia com um novo horizonte de compreensão. O mesmo que o Papa Francisco indica na encíclica Laudato si’: tudo é relação; nada existe fora da relação. Poeticamente, Francisco escreve: “O sol e a lua, o cedro e a florzinha, a águia e o pardal: o espetáculo das suas incontáveis diversidades e desigualdades significa que nenhuma criatura se basta a si mesma. Elas só existem na dependência umas das outras, para se completarem mutuamente no serviço umas das outras”. A tese da ecologia é precisamente esta: tudo está conectado para formar a grande comunidade de vida, o todo da natureza e do universo. E esse modo de pensar corresponde à natureza do Espírito Santo.

O senhor acha que a Igreja Católica está pronta para aceitar essas suas reflexões?

Em cada país, a situação é diferente. Mas em toda parte faltam profetas. Com Wojtyla e Ratzinger, assistimos ao retorno à grande disciplina, vimos uma Igreja fechada em si mesma, preocupada com a ortodoxia, atenta a combater inimigos como a modernidade, as novas liberdades. E, acima de tudo, distante do povo, com uma teologia pobre e uma liturgia alheia à sensibilidade moderna.

Enquanto agora...?

Com o Papa Francisco, emerge outro tipo de Igreja, aberta como um hospital de campanha, em que a centralidade não é tanto a ortodoxia, mas sim a pastoral do encontro, da ternura, da convivência. Para o Papa Francisco, as doutrinas são importantes, mas, acima de tudo, importa entender que Cristo veio para nos ensinar a viver os bens do reino como o amor incondicional, a misericórdia, a solidariedade, a compaixão por quem sofre, pelos últimos.

Mensagem recebida?

Nem sempre. Muitos católicos tradicionalistas não se deram conta de que estamos diante de outro tipo de papa, menos doutor e mais pastor no meio do seu povo. Um papa que carrega menos os símbolos pagãos dos imperadores romanos e mais a simplicidade de um pároco de aldeia, simples, humilde, amigo de todos. Um homem que vem de longe e, por isso, livre. Se não fosse assim, por que o nome de Francisco? Seria uma contradição pensar em São Francisco de Assis em um palácio pontifício. Mas temos outro Francisco de Roma que vive e come junto com os outros, e não sozinho.

O crescimento de protestos públicos na Igreja contra o Papa Francisco lhe preocupa?

Não me preocupa, porque não o preocupa. Como eu sei disso? Ele dorme às 21h30, dorme até as 5h30 como uma pedra, bebe o seu mate e leva em frente, franciscanamente, a sua missão, com uma irradiação mundial em sentido religioso, ético e político. Nós nos conhecemos desde 1972. Troquei com ele algumas cartas sobre temas de ecologia e sobre o Sínodo para a Amazônia de outubro passado.

A propósito, o que o senhor espera da exortação apostólica pós-sinodal de Francisco, prevista para breve?

Algo de bom. Acima de tudo, sobre a defesa do rosto indígena da Igreja e sobre as mulheres. Nas minhas cartas, eu pedi a ele que fizesse um gesto profético sem pedir nada a ninguém, como João XXIII fez quando convocou o Concílio Vaticano II.

Que gesto?

Ordenar as mulheres.

Ele lhe respondeu?

Agradeceu-me pela carta.

O senhor dedica seu livro às mulheres.

Eu digo que a primeira Pessoa divina a entrar neste mundo, ou a irromper no processo da evolução, não foi o Filho, como diz a Igreja. Foi o Espírito Santo. Isso está muito claro no texto de Lucas: “O Espírito virá sobre ti... E te cobrirá com a sua sombra”. Eu fiz uma pesquisa de meses na patrologia: não há nenhum rastro da centralidade do Espírito. Nem sequer nos grandes teólogos. De acordo com uma leitura predominantemente masculina, prevalece o Filho. Mas o Filho veio depois da aceitação (“fiat”) de Maria, portanto, depois do Espírito. Digo mais: o Espírito assumiu Maria, divinizou-a. No projeto do Altíssimo, homem e mulher são igualmente divinizados. Fazem parte de Deus.

Hoje, a teologia da libertação é ecoteologia, teologia feminista, teologia afro. Mas os pobres continuam sendo muitos e oprimidos. A teologia da libertação ainda tem um longo caminho pela frente?

A existência dos pobres, dos oprimidos sempre me faz pensar em Jesus, em São Francisco e em tantos outros que tiveram misericórdia deles.

Acusaram-no de ser pró-marxista.

Marx nunca foi pai ou padrinho da teologia de Libertação, como insinuavam os ditadores latino-americanos. Mas hoje, mais do que nunca, a teologia da libertação é urgente. O exército dos pobres aumentou assustadoramente. Se a teologia, seja ela qual for, não levar a sério a situação atual, dificilmente se livrará da crítica de cinismo e de irrelevância histórica. É preciso ler os sinais do tempo. O Espírito nos convida a tomar uma posição.

12
Set19

“Viramos motivo de chacota”, diz brasileira sobre a imagem do Brasil na França

Talis Andrade

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Por Paloma Varón/ RFI

A reportagem da RFI ouviu vários brasileiros que moram na França para saber como está a imagem do Brasil no exterior desde a chegada de Jair Bolsonaro ao poder. Todos apontam um desgaste na visão que os franceses têm do país nos últimos meses.

Ana* é brasileira e mora na França há mais de três décadas. Neste mês de setembro, ao voltar de férias do Brasil, para onde vai quase todos os anos, se surpreendeu com o número de pessoas que vieram procurá-la, na sua empresa, para comentar as declarações recentes do presidente Jair Bolsonaro. “Antes, as pessoas queriam ver fotos, perguntavam sobre o que fiz nas férias, agora, todos vêm falar de política”, conta ela.

“Pessoas que eu mal conheço vieram me perguntar se era isso mesmo, se o presidente do Brasil tinha dito aquilo mesmo – eles se referiam às frases sobre Brigitte Macron, entre outras – ou se tinha sido um erro de tradução”, diz ela, concluindo: “O Brasil virou o assunto da pausa para o cafezinho”.

A empresa (francesa) em que Ana trabalha tem 200.000 funcionários e está presente em cem países, entre eles o Brasil. Ana encara com naturalidade o fato de ser procurada por colegas de trabalho para “esclarecer a situação”, já que o assunto saiu das páginas de política internacional dos jornais e programas especializados e ganhou a mídia de massa, principalmente a televisão.

“Eu passei a semana dizendo que é isso mesmo, é horrível, mas que nós, brasileiras, reagimos a isso e até entregamos um abaixo-assinado no Palácio do Eliseu em solidariedade a Brigitte Macron”.

Vivendo na França há 30 anos, o professor de Literatura Brasileira na Sorbonne (Paris IV), Leonardo Tonus, define como “lamentável” a imagem que o Brasil atual passa para o exterior. Ele explica que o país sempre teve uma representação forte. “Hoje a imagem continua sendo forte, todo mundo conhece o Brasil. Mas a ambiguidade viria pelo fato de o Brasil gozar agora de uma imagem de um país violento, racista, genocida e ecocida”.

Segundo Tonus, ainda é cedo para medir o impacto dessa mudança. “Acho que este impacto vai ser melhor percebido no próximo ano, se houver, por exemplo, boicotes a produtos brasileiros, ações da população que colocam em questão a imagem do Brasil. No meu caso, como professor, se houver uma diminuição no interesse cultural pelo país, do interesse de estudantes que queiram estudar o português para ir para o Brasil, como era antigamente”.

“O que eu posso dizer é a partir da minha experiência. No meu dia a dia, em Paris, a primeira coisa que as pessoas me perguntam é: como e por que o Brasil está atravessando esta crise atual. As pessoas não conseguem entender. Estes comentários se desdobram muitas vezes em comentários de pêsames pelo estado em que se encontra o país atualmente. E o fato de amigos e conhecidos franceses, que tinham por hábito ir ao Brasil com frequência, se recusarem a voltar para o Brasil enquanto não houver uma mudança no projeto governamental”, conta Tonus.

O professor de Literatura Brasileira da Sorbonne, Leonardo Tonus.RFI/Paloma Varon

 

Diplomacia e soft power

“Amazônia, meio ambiente, populações ameríndias, mulher, minorias, negros, homossexuais... a lista de razões para não voltarem ao Brasil é longa. É isso que ajuda a deteriorar esta imagem que levou 30 anos para se construir na França e fora do país”, explica Tonus.

De acordo com Tonus, a representação de um país nunca é estática e ela pode variar no decorrer do tempo. “Ela pode ir mudando graças a uma política estratégica implantada pelo país, o que foi o caso do Brasil desde os anos 90, por meio de duas coisas, principalmente: diplomacia cultural e soft power”.

Para ele, a visão de um país no estrangeiro é fruto de diversos fatores. “Políticas públicas, sociais e ambientais, o turismo, questões econômicas, exportação, eventos internacionais, culturais, esportivos e políticos, relações culturais e acadêmicas que se estabelecem entre os países, compromissos políticos e estratégicos, na questão do desenvolvimento social, redução da pobreza, das desigualdades, combate ao racismo, ao feminicídio, à homofobia, engajamento em instituições bilaterais. São estes elementos que vão contribuir para a construção da imagem de um país”.

“Ao mesmo tempo”, lamenta Tonus, “são eles também que têm participado do processo de destruição da imagem do Brasil desde o golpe de 2016, já com o governo Temer, mas ele se acentua e se torna explícito no governo Bolsonaro. Se a gente pensar nas catastróficas políticas sociais implantadas no Brasil, na crise ambiental que atravessa o Brasil por conta, justamente, da política ambiental implementada pelo atual presidente. Até o turismo tem sofrido. Sem falar, é claro, das políticas cultural e de pesquisa acadêmica, inexistentes no atual governo. São ações que vêm destruir o que se construiu ao longo de tantos anos. O impacto exterior é muito grande”.

Tonus relembra a história da reconstrução da visão do Brasil na França no período da redemocratização. “No momento da transição democrática, houve uma vontade de se criar um projeto de cooperação bilateral entre o Brasil e a França tendo como elemento de alavanca a cultura, o Projeto França-Brasil, que foi assinado pelo François Mitterrand ainda com o Tancredo Neves, embora tenha sido o Sarney que o recebeu no Brasil em 1985”.

O então presidente francês foi o primeiro chefe de Estado a visitar o país assim que ele saiu da ditadura.

“Isso fez com que houvesse uma série de eventos culturais, exposições, diversos shows, a criação de uma cátedra de História Brasileira na Sorbonne. Uma série de medidas que aproximaram os dois países não só pelo aspecto econômico, mas sobretudo pelo cultural. Colóquio de imagens recíprocas entre o Brasil e a França. Um projeto a longo prazo para remodelar a imagem de um país que deixa a ditadura e se torna um país democrático”, continua.

“Isso vai num crescendo que chega ao Ano do Brasil na França (2005), ao Ano da França no Brasil (2009), e à presença de autores brasileiros nas feiras de livros aqui na França...”, relembra Tonus, ele mesmo curador do Salão do Livro de Paris, em 2015, que homenageou o Brasil, e contou com a presença de 48 autores brasileiros.

“Tudo o que foi feito, principalmente a partir dos anos 90 era para reduzir a imagem exótica, redutora, que limitava o Brasil ao país do futebol, das praias, do Carnaval ou então da violência, para mostrar um país que tinha então um poder de crescimento econômico, um poder de combate à pobreza. Isso até 2016”, cita.

Tonus acha que os franceses sempre souberam fazer esta divisão entre o povo e os governantes. “Eles sempre tiveram um carinho pela população brasileira. E um governo que não representa esta população. Mas é claro que vai haver um momento em que vai haver uma escolha da população francesa em relação a isso. Apoiar atualmente economicamente o Brasil é apoiar o governo, então eu acho que isso, infelizmente, vai gerar uma posição mais crítica ainda e eu acredito em possíveis boicotes a produtos brasileiros, inclusive de produtos culturais, o que para mim seria uma perda lastimável”, conclui.

De país promissor a motivo de chacota

Patrícia Enderlé mora há 15 anos na França e acha que “a imagem do Brasil mudou bastante”. “No início, quando cheguei aqui, muitas pessoas ainda me faziam perguntas simples como: no Brasil tem telefone celular? Muitas pessoas tinham uma ideia de um país bonito, com pessoas gentis, mas bem precário. Logo em seguida, a França conhecia a crise europeia e o Brasil estava em plena ascensão, era um país promissor e emergente. Sou engenheira e quando cheguei tive a oportunidade de começar a trabalhar para uma escola de línguas que pedia uma pessoa que falasse português especificamente do Brasil para formar expatriados que iriam em missão, a trabalho por meses ou anos”.

“Muitas pessoas que tinham chegado na França antes de mim voltavam a viver no Brasil nessa época porque as condições de trabalho eram favoráveis. Apesar da corrupção existente, Fernando Henrique e Lula construíram um mercado brasileiro muito favorável. Desde o impeachment e da campanha do Bolsonaro 2016 já começaram os burburinhos. Afinal o Trump foi eleito quando parte não acreditava que ele seria. E o Bolsonaro começava a ser conhecido aqui como o novo Trump. Ele foi eleito, e como é superpolêmico, desde então vejo sim, uma mudança”, afirma.

“No meu trabalho e com as minhas relações, isso não me afeta. Mas acho que pode sim haver hostilidades entre franceses e brasileiros que vivem aqui”, avalia Patrícia.

Patrícia Enderlé mora há 15 anos na França. Arquivo pessoal

 

A professora Jeaninne Santos, no entanto, conta ter sentido mudanças na vida dela e dos brasileiros expatriados ao seu redor. Para ela, que chegou à França há quatro anos, a eleição e os primeiros meses do mandato de Bolsonaro afetam não só a imagem do país na França como a vida dos brasileiros que vivem aqui. “Com esta eleição, os brasileiros se tornaram na visão internacional um povo ignorante. Multicultural, mas que flerta com centenas de preconceitos ou simplesmente motivo de chacota”.

“O comentário sobre a esposa do presidente francês mostra, além de desrespeito, uma grande imaturidade que não coincidem com o cargo de um presidente de uma nação. Isso afetou a mim e muitos conhecidos, viramos motivo de piadas, silêncios desagradáveis entre colegas ou passamos por momentos embaraçosos quando os franceses nos assinalam a falta de respeito do presidente brasileiro, e eles veem com esse novo governo como o povo brasileiro é ignorante”, fala.

Na França há 25 anos e trabalhando em uma grande multinacional, Flávia* teve experiência semelhante à de Patrícia. “Nesse meio tempo acompanhei duas mudanças no olhar dos franceses em relação a nós: primeiro a imagem era simpática, mas bastante ‘exótica’, caricatural: samba, praia, futebol, Carnaval. Com a chegada do Lula ao poder a imagem foi mudando de forma bastante positiva, e as perguntas eram sérias, do tipo ‘Como posso fazer pra trabalhar lá?’. Não era mais aquela coisa folclórica, quase condescendente”, relata.

“E desde a eleição do Bolsonaro, sabendo que desde que cheguei trabalho na mesma empresa, me conhecem bem e gostam de mim e do meu trabalho, o que acontece mais são umas curtidas com a minha cara, do tipo ‘Viu a última do seu presidente?’. De vez em quando me perguntam como uma eleição dessas foi possível. Pouco a pouco, estamos voltando a ter uma imagem folclórica, mas no sentido de termos botado um fascista no poder”, finaliza Flávia*.

Ana* e Flávia* preferiram não dar os seus nomes verdadeiros, para não se exporem nem as empresas nas quais trabalham.

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12
Fev19

Sínodo para a Amazônia: trazer de volta os novos caminhos da irmã Dorothy 14 anos depois

Talis Andrade

Dorothy está viva na memória daqueles que continuam a lutar na defesa da Amazônia. Aqueles que a mataram nunca pensaram que ela se tornaria um símbolo de novos caminhos, um legado que está sendo posto em prática através do processo sinodal

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O assassinato da irmã Dorothy Stang, que completa 14 anos em 12 de fevereiro, foi um exemplo claro de que a busca de novos caminhos sempre foi, é e será arriscada. As novidades incomodam quem pretende conservar o sistema estabelecido, que sempre os beneficiou.

Existem muitos personagens que ao longo da história sofreram isso. O mesmo Jesus de Nazaré queria estabelecer uma nova maneira de se relacionar com Deus, o que provocou uma aliança do poder político e religioso para lhe dar a morte de um criminoso.

Com a irmã Dorothy aconteceu algo parecido, porque nos quase quarenta anos que ela desenvolveu sua missão no Brasil, ela conviveu com as pessoas, especialmente as mais pobres, e descobriu que o futuro da Amazônia e seu povo precisava de um novo caminho, que na época soava como ciência ficção, o desenvolvimento sustentável, que começou como algo local, mas que aos poucos foi alcançando reconhecimento nacional e internacional.

Podemos dizer que, com o Papa Francisco, a situação é semelhante, porque nos seus quase seis anos de pontificado ele não se cansou de tomar iniciativas surpreendentes. Agora ele quer buscar novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral, e com isso está mexendo com muita gente.

Encontrar novos caminhos para a Igreja faz com que aqueles que vivem apenas preocupados com o que se passa dentro da sacristia, se oponham a uma Igreja em saída, de portas abertas, hospital de campanha, uma igreja ministerial, sinodal, que não apenas dita o que tem que ser feito, mas também quer ouvir e aprender com todos. Os novos caminhos para a ecologia integral despertam as reticencias das grandes empresas e dos governos que as apoiam. Todos fazem parte do mesmo lado, aqueles que sempre viram a Casa Comum desde o desejo predatório daqueles que colocam o lucro pessoal acima do bem coletivo.

Todos eles reagem, como se viu nos últimos dias, não só contra o Papa Francisco, mas também contra aqueles que o apoiam e se sentem parte da abertura desses novos caminhos. Não tenho dúvidas de que, se ela estivesse viva, Dorothy Stang faria parte de tantos homens e mulheres que nos últimos meses têm insistido em chegar em cada canto da Amazônia para escutar, para aprender um pouco mais com a vida dos povos amazônicos especialmente com os povos indígenas. Aqueles que a perseguiram e assassinaram são os mesmos que continuam a perseguir aqueles que desejaram continuar seu legado.

Como cristãos, não podemos esquecer que nossa fé é baseada em alguém que sentiu a necessidade de tornar o Reino de Deus uma realidade. Para isso, é necessário enfrentar os poderes deste mundo, aqueles que participam da economia que mata, que consideram descartável uma grande parte da humanidade. Foi isso que matou a irmã Dorothy, mas que também faz aumentar a cada dia o número dos inimigos do Papa Francisco, que desde dentro eles chamam de herege e desde fora o chamam de comunista.

Dorothy está viva na memória daqueles que continuam a lutar na defesa da Amazônia. Aqueles que a mataram nunca pensaram que ela se tornaria um símbolo de novos caminhos, um legado que está sendo posto em prática através do processo sinodal. O Sínodo desperta cada vez mais interesse, tanto naqueles que o veem como um sinal de esperança, como naqueles que o consideram uma ameaça aos seus planos malignos.

Em um mundo que está passando por uma crise que põe em risco o futuro do próprio planeta, é sempre bom ter aqueles que se defendem com a mesma arma que Dorothy Stang carregou no momento em que foi vilmente assassinada, a Palavra de Deus. Ela é sempre luz no caminho e está nos fortalecendo diante de ataques daqueles que acreditam que são donos e pretendem controlar além de onde deveriam chegar.

 

 



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