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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

20
Jun22

Assassinato do Bruno representa a expansão da fronteira do banditismo capitalista em territórios indígenas

Talis Andrade

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“A perda do Bruno hoje seria exatamente a perda de um grande embaixador de relação com os povos indígenas do Brasil” - Antenor Vaz, Conselho de Proteção dos Povos Indígenas Isolados

“Agora que os espíritos do Bruno estão passeando na floresta e espalhados na gente, nossa força é muito maior” - Beatriz Matos, antropóloga, esposa de Bruno

 

por Jeferson Miola

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Ainda estamos muito longe de conseguir apreender e compreender a dimensão e as consequências do assassinato do indigenista Bruno Pereira, ocorrido de modo bárbaro junto com o jornalista inglês Dom Philips na terra indígena do Vale do Javari.

Para o sertanista Antenor Vaz, do Conselho de Proteção dos Povos Indígenas Isolados, o assassinato do Bruno representa “a perda de um grande embaixador de relação com os povos indígenas do Brasil”.

É como se tivesse sido rompido o último e frágil elo de contato respeitoso entre o Brasil e os povos originários, os primeiros ocupantes do território brasileiro. O que poderá significar, portanto, uma catástrofe étnica e humanitária de proporções horripilantes.

Quanto mais detalhes e informações surgem sobre a vida do Bruno, dedicada amorosamente aos povos originários do Brasil, mais somos assomados por uma estranha nostalgia de não termos conhecido a fundo essa figura grandiosa e essencial para o presente e para o futuro do país.

Durante a gestão do ministro bolsonarista da Justiça Sérgio Moro, em outubro de 2019 Bruno foi demitido da Coordenação de Indígenas Isolados e de Recente Contato da FUNAI. Ele era um empecilho à política etnocida, ecocida e genocida do governo militar que o ex-chefe da gangue da Lava Jato endossava.

Em entrevista à Folha de São Paulo em 22 de abril passado, publicada somente agora a pedido do próprio Bruno, pois na ocasião ele temia, corretamente, o agravamento da perseguição na Funai, Bruno reconheceu que a política “vanguardista” do Estado brasileiro na proteção dos índios isolados sempre “foi muito copiada, [mas] hoje está nas mãos de pessoas com interesses, que a gente sabe que não é proteger os isolados. O interesse é de abrir os territórios”.

Bruno destacou que “[…] Ituna [PA], Jacareúba-Katawixi [AM] e Piripkura [MT] são de interesses fundiários e minerários monstruosos. São terras relativamente grandes e que valem milhões e milhões de reais”.

Ele denunciou que estas áreas “estão no arco do desmatamento e no interesse de gente que manda no país hoje. De gente que manda na Funai. Esses caras do agronegócio retrógrado”.

Na entrevista, Bruno não hesitou em afirmar por quem o presidente da Funai, o delegado da Polícia Federal Marcelo Xavier, é bancado: “Não tem ninguém de graça. O que segura ele são deputados e senadores. O que estiver ao alcance dele, do presidente da Funai, ele vai fazer”, afirmou.

Bruno tinha consciência de que os indígenas “precisam de proteção do território e agentes especializados sabendo lidar quando eles andam fora do território ou precisam de um contato para sobreviver”. E arrematou: “tirar terra do índio é matar o índio. É o que estão tentando fazer. Vira uma eterna fuga [dos índios isolados], uma diáspora em busca de sua terra. É a história do Brasil”.

No governo militar do Bolsonaro, a expansão de atividades econômicas criminosas em territórios indígenas avançou vertiginosamente.

E não se tratam de atividades legais e sustentáveis, mas de estruturas capitalistas erguidas em bases criminosas, como garimpo, desmatamento, agropecuária ilícita e predatória, mineração, narcotráfico etc. Tudo em conexão com interesses de grupos privados nacionais sediados no Rio, em São Paulo e em Brasília; e de grupos privados estrangeiros, sediados principalmente nas metrópoles europeias.

Por baixo, estima-se que mais da metade do ouro exportado pelo Brasil por um punhado de empresas com escritórios em São Paulo é suspeita; tem origem ilegal. Uma enorme quantidade deste ouro pirateado é extraído ilegalmente dos territórios indígenas.

O assassinato do Bruno não pode ser considerado como uma ação isolada de “lobos solitários”, sem mandantes, como apressadamente conclui a PF bolsonarizada.

O assassinato do Bruno e do Dom é o modus operandi de organizações criminosas apoiadas – seja por ação, seja por tolerância, ou por omissão – pelo próprio Estado. Tratam-se de organizações criminosas que eliminaram um obstáculo central à política ecocida, etnocida e genocida do governo militar.

O assassinato do Bruno, em síntese, representa a eliminação de uma importante barreira à expansão do banditismo capitalista em territórios indígenas.

A Amazônia não “é uma terra sem lei”, como a Folha de São Paulo advogou em editorial [16/6]. A Amazônia tem lei, sim, e a lei da Amazônia está estabelecida no “Capítulo VIII – Dos Índios” da Constituição brasileira.

Sem lei é o governo militar criminoso, que promove uma verdadeira guerra de ocupação para a realização do mais brutal processo de saqueio e pilhagem do Brasil, jamais visto em toda a história.

Uma guerra na qual o Exército ocupante do nosso território, no entanto, não é nenhuma força estrangeira, mas as próprias Forças Armadas brasileiras que, partidarizadas por suas cúpulas conspirativas, foram convertidas em milícias fardadas.

Esta guerra, que criou uma oportunidade formidável para os grandes capitais criminosos – nacionais e estrangeiros –, é vetor para um processo radical de espoliação e recolonização do Brasil.

O herói Bruno Pereira, antropólogo e indigenista, foi uma vítima mortal desta guerra.www.brasil247.com - { imgCaption }}

 

10
Out21

Encontro com o futuro

Talis Andrade

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por Gustavo Krause

O futuro bateu nas nossas portas: o corpo desfigurado da natureza assustadoramente escassa. A COP26 é a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (197 países), a ser realizada entre 1 e 12 de novembro. A prioridade é encontrar o caminho para o mercado de carbono global.

Apesar da gestão predadora, o Brasil tem a oportunidade de assumir a liderança na construção de uma economia verde.

Reunião sobre avaliação de peças da propaganda eleitoral em campanha majoritária para televisão. Era um dos presentes, faz mais de uma década. Perguntei ao expositor: “foi feita alguma peça sobre a questão ambiental?”. A resposta foi curta e “suave”: “meio ambiente não dá voto!”.

Botei a viola no saco. Devia ter aprendido com a experiência que a centralidade global do tema seguia periférica para os governos. Importante, mas não “urgente” para o pragmatismo eleitoral. O assunto parecia distante; era coisa dos “verdes”, do “bicho-grilo” em defesa da ararinha-azul; afinal, a longo prazo, estaremos todos mortos.

Meia verdade, o prazo não seria tão longo: o futuro que não fala e não vota, bateu nas nossas portas. A visita é a natureza assustadoramente escassa. O que parecia abundante e inesgotável, água, ar, terra, florestas, não foi levado em conta pelo crescimento econômico a qualquer preço. Mais do que um passivo, era uma fatura a ser paga com a vida.

Ocioso descrever os malefícios de cada patrimônio natural destruído, porque, no conjunto, representam a verdadeira ameaça: o aquecimento global e a emergência climática que desafia o nosso futuro comum.

Em entrevista ao Valor Econômico, e ex-ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira (2010/2016) foi certeira: “Se à época do Acordo de Paris o que existia era o negacionismo climático, que nós vencemos, na COP26, é preciso superar o fatalismo climático, a sensação de que não temos saída”.

A COP26, a ser realizada entre 1 e 12 de novembro, em Glasgow, sob a experiência trágica de um fenômeno mundial, revelará aos governos e à sociedade global que uma pandemia climática mata, por atacado, ricos e pobres, sob a forma fulminante do ecocídio.

É provável que o senso de urgência tenha sido uma lição aprendida; que cooperação e solidariedade internacionais transformem palavras, promessas, cifras em ações concretas de financiamento para uma economia de baixo carbono.

Outra lição: acima de eventuais governos, o nível de responsabilidade das nações esteja atenta às gestões temerárias, consolidando compromissos globais e políticas públicas com os padrões de uma civilização sustentável.

É possível um encontro com o futuro? Com a palavra Francisco, o papa da ecologia: “[a humanidade] está sendo convocada para oferecer, urgentemente, respostas eficazes para a crise ecológica sem precedentes, para a crise de valores em que vivemos e que permitirá dar uma esperança concreta às próximas gerações”.

No Brasil, apesar dos predadores, nossos bosques, ainda, têm mais flores.

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10
Out21

Desmatamento e modelo agrícola aumentam risco de 'tempestade de poeira'

Talis Andrade

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Nuvem de poeira no interior de São Paulo

por João Fellet /BBC

A tempestade de poeira que engoliu cidades do interior de São Paulo, no domingo 26/09/2021, tem relação direta com a existência de grandes porções de solo seco e sem cobertura vegetal na região hoje, segundo especialistas entrevistados pela BBC News Brasil.

O fenômeno impactou várias cidade do nordeste paulista, como Franca, Ribeirão Preto e Barretos. A região tem forte presença do agronegócio e um dos menores índices de cobertura florestal original do país.

Também houve registros do fenômeno no Triângulo Mineiro, região vizinha da área atingida em São Paulo.

Coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Humberto Barbosa diz que a tempestade foi causada por uma combinação entre ventos fortes, seca intensa e solos desprotegidos.

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A tempestade de poeira se formou no fim do período seco. Nesta época, diz ele, muitos agricultores deixam os solos nus para plantar no início das chuvas.

Como a região vive uma seca extraordinária e enfrenta altas temperaturas, a camada superficial do solo se ressecou e ficou vulnerável à ventania.

"A ventania gerou uma erosão eólica, que removeu não só a poeira como também o material de queimadas recentes", diz Barbosa.

Ele diz que imagens de satélite de alta resolução feitas na véspera da tempestade mostram grande quantidade de terra nua nos arredores de Franca.

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Imagem de satélite dos arredores de Franca, uma das cidades impactadas pela tempestade de poeira

 

O principal produto agrícola da região afetada é a cana-de-açúcar.

"A impressão digital está lá: é muito clara a relação (da tempestade de poeira) com a degradação do solo", afirma.

Já a principal entidade que representa os produtores de cana-de-açúcar diz que a nuvem de poeira se formou por causa da seca excepcional e de incêndios acidentais em canaviais (leia mais abaixo).

 

Pouca vegetação nativa

Segundo o Relatório de Qualidade Ambiental 2020 - análise feita anualmente pela Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do governo de São Paulo -, resta pouca vegetação nativa na região impactada pela tempestade de poeira.

O relatório agrupa todos os municípios paulistas em 22 Unidades Hidrográficas de Gerenciamento de Recursos Hídricos.

Na unidade que engloba Ribeirão Preto, resta 13,29% de vegetação nativa; na de Franca, 10,83%; e, na Barretos, só 5,52%, o menor índice do Estado.

Em todo o Estado de São Paulo, sobra 17,5% da vegetação original. Isso faz com que o Estado, o 12º maior do país, tenha a segunda maior área agrícola entre todas as unidades da federação, só atrás de Mato Grosso.

As matas remanescentes em São Paulo se concentram nas serras do Mar e da Mantiqueira, onde o relevo acidentado dificulta a atividade agrícola.

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Mapa mostra que remanescentes de vegetação nativa no Estado de São Paulo se concentram no litoral

 

Renovação de canaviais

Gerd Sparovek , professor titular da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP) e presidente da Fundação Florestal do Estado de São Paulo, diz à BBC News Brasil que a nuvem de poeira se deve à rara coincidência dos seguintes fatores: a ocorrência de ventos muito fortes num período em que há grandes extensões de solo seco e sem cobertura vegetal.

"Os canaviais, principal cultivo agrícola da região, vêm de dois anos consecutivos de um verão pouco chuvoso e que, neste ano, também foram afetados pelas geadas", afirma Sparovek.

Com isso, muitos canaviais se tornaram improdutivos e foram derrubados para dar lugar a uma nova plantação, diz ele

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"Na renovação dos canaviais, quase sempre, durante algum tempo, o solo fica sem cobertura e desagregado pelo preparo com gradagem (quebra de torrões para uniformizar a superfície)", afirma.

Sparovek diz que as mudanças climáticas influenciaram o fenômeno. "O que levou os canaviais a ficarem improdutivos foram as estiagens atípicas no verão e geadas atípicas no inverno", afirma.

"A frente fria e o vento também foram extremos. As mudanças climáticas, segundo o último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), já alteraram os extremos climáticos em todo o planeta", completa.

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Raízes ajudam a manter o solo coeso; quando removidas, erosão é facilitada

 

Revolvimento intenso do solo

Segundo Humberto Barbosa, da Ufal, imagens de satélite mostram que, na área afetada pelo fenômeno, o solo de muitas propriedades foi revirado por máquinas agrícolas para prepará-lo para o plantio.

Essa prática, aliada ao uso intenso de fertilizantes e pesticidas na região, reduz a quantidade de matéria orgânica no solo, segundo o pesquisador.

A matéria orgânica cobre o solo e ajuda a mantê-lo coeso. Sem essa proteção, ele fica mais sujeito a se esfarelar com o vento ou a ser carregado pelas chuvas.

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Terras agrícolas com solo seco nos arredores de Barretos, uma das cidades afetadas pela nuvem de poeira

 

Por isso, diz ele, muitos agricultores mundo afora têm abandonado técnicas que revolvam o solo e priorizado práticas menos invasivas.

Barbosa afirma que o procedimento de revolver o solo "sempre foi utilizado, mas as condições climáticas já não são as mesmas do passado".

Como a região vem enfrentando secas cada vez mais intensas, afirma ele, a movimentação do solo amplia o risco de erosão e de tempestades de areia.

O fenômeno pode causar problemas de saúde na população afetada, motivar acidentes de trânsito e contaminar rios.

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Plantação de tomate feita sobre a palha da safra anterior

 

A solução, diz ele, é investir em técnicas que mantenham a matéria orgânica no solo e evitem a erosão.

Um desses métodos é o chamado plantio direto na palha, no qual a semeadura é feita sobre restos da lavoura anterior. Assim, a terra não fica exposta.

Porém, dados do último Censo Agropecuário, de 2017, mostram que a técnica ainda é pouco empregada da região.

Em Ribeirão Preto, dos 29.675 hectares usados pela agricultura, só há plantio direto na palha em 253 hectares - 0,8% do total. Em Franca, o índice é de 5%.

Por outro lado, em regiões do país que cultivam grãos, como milho e soja, a maioria dos agricultores já adota a técnica, diz Gerd Sparovek, da Esalq-USP.

Segundo ele, há algumas dificuldades à adoção do plantio direto na cana, como o risco de pragas.

Mas Sparovek diz que há outras tecnologias que permitiriam manter o solo da região coberto, como a rotação de culturas.

"Reduzir as áreas sem cobertura é desejável e necessário não só pela erosão eólica como também pela erosão hídrica, principal problema de erosão e degradação do solo da agricultura tropical", afirma.

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Agricultor trabalha em sistema agroflorestal, onde não há prática de revolver o solo

 

Outra ação que deve ser estimulada, segundo ele, é o reflorestamento de áreas mais sensíveis à erosão - medida já determinada pelo Código Florestal, mas que ainda carece de implementação.

Porém, segundo a Única, principal associação que representa o setor de cana-de-açúcar no Brasil, os produtores já adotam práticas adequadas de conservação do solo.

Diretor técnico da entidade, Antonio de Padua Rodrigues diz que a poeira não veio de canaviais em processo de renovação, mas sim de plantações de cana que não se desenvolveram por causa da forte seca.

Outra possível fonte da poeira, segundo ele, foram áreas atingidas por incêndios acidentais onde a cana já havia sido colhida.

Ele diz que os produtores de cana mantêm o solo coberto com palha após a colheita, ainda que antes do plantio revolvam o solo e não façam o plantio direto na palha. Ele afirma, porém, que neste ano muitas áreas pegaram fogo, deixando o solo exposto.

"O setor tem os melhores especialistas, os melhores consultores em solo. Foi uma coisa acima do normal por ter sido um ano muito seco: a cana não cresceu, muita área pegou fogo, e aí você não tem a palha e tem a cinza", afirma.

 

Dust Bowl

Práticas agrícolas inadequadas são apontadas como uma das causas para o Dust Bowl, uma série de tempestades de areia que atingiram o sul dos Estados Unidos nos anos 1930.

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Tempestade de poeira ocorrida em Oklahoma (EUA) nos anos 1930

 

Na virada do século 19 para o 20, boa parte da região havia sido desmatada para o avanço da agricultura. Até que uma forte seca deixou os solos vulneráveis a ventanias.

Em poucos anos, milhões de hectares de terras antes consideradas férteis se tornaram inaptas para a agricultura.

O desastre estimulou o governo dos EUA a criar uma agência para educar agricultores sobre como conservar os solos, existente até hoje.

Segundo Gerd Sparovek, nas décadas de 1960 e 1970, houve um grande esforço para alterar o preparo do solo na região, o que fez com que a erosão eólica fosse controlada.

Hoje o fenômeno deixou de ser comum na região, embora ainda ocorra em zonas áridas dos EUA, como no deserto do Arizona.

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09
Set21

7 de setembro acabou ou recém começou?

Talis Andrade

 

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por Jeferson Miola

 

Na assembléia geral de bandidos de 17 de março de 2016 presidida pelo bandido Eduardo Cunha, como um jornalista português se referiu à sessão do impeachment fraudulento da Dilma, Bolsonaro dedicou seu voto ao facínora e torturador Brilhante Ustra, “o terror de Dilma Rousseff”. Em outra circunstância, ele também definiu critérios para mulheres que “merecem” ser estupradas.

Bolsonaro também criticou a ditadura por não ter assassinado mais de 30 mil opositores e disse que o governo militar que hoje preside não veio para construir algo, “mas viemos para desconstruir muita coisa”.

Ele, enfim, já disse e diz tanta coisa aberrante, incivilizada e dantesca que fomos nos acostumando a não levá-lo a sério. Acostumamo-nos a tratá-lo como um fanfarrão; como um ser abjeto, irresponsável e inconsequente. Como uma figura folclórica e bizarra.

Há quem o considere, além de sociopata, uma pessoa mentalmente incapaz, que deveria estar interditada e ser afastada da presidência da República.

No governo, porém, Bolsonaro tem sido coerente com sua visão de mundo criminosa e anti-civilizatória. Ele materializa esta cosmovisão por meio de políticas racistas, genocidas, ecocidas, totalitárias e destrutivas, como temos visto e padecido.

É preciso, por isso, abrir os olhos, desentupir os ouvidos e levar a sério o que Bolsonaro diz e faz. Como, por exemplo, quando ele disse que “nunca uma outra oportunidade para o povo brasileiro foi tão importante ou será tão importante quanto esse próximo 7 de setembro”.

Nos atos antidemocráticos e inconstitucionais que promoveu no 7 de setembro em Brasília e em São Paulo financiados com dinheiro público e de empresários e latifundiários bandidos, Bolsonaro mostrou sua absoluta incompatibilidade com a democracia e com o Estado de Direito e deu o assobio para a matilha fascista avançar na guerra contra o pouco que ainda resta de democracia no Brasil.

No dia seguinte aos ataques terroristas dele à democracia, e com 24 horas de atraso, o presidente do STF foi tíbio, o presidente da Câmara subiu no muro, o presidente do Senado se aferrou ao seu barroquismo retórico e o procurador-geral elogiou a “festa cívica” [sic].

Enquanto os próceres da República refestelavam-se com esta verborragia vazia, hipócrita e historicamente covarde, nesta 4ª feira [8/9] uma horda fascista ameaçava invadir os prédios do Supremo e do Congresso com possantes caminhões dos “agro” que não são nada pop.

Ao mesmo tempo, fora da capital federal, outra horda fascista atua aos moldes chilenos, ou seja, promove um locaute de empresários de transporte que já atinge, no dia de hoje [8/9], 14 estados da federação.

O governo, ao invés de se preocupar com as consequências do desabastecimento e da crise que a sabotagem dos empresários pode provocar, estimula o movimento e não intervém para normalizar a situação, como todo governo responsável faria.

Não se observa, por exemplo, nenhuma ação da PRF ou alguma reação oficial para tentar regularizar o transporte e o abastecimento que já prejudica a população. Na realidade, o governo fica inerte porque quer ver o circo pegar fogo.

Neste 7 de setembro Bolsonaro esgarçou a tampa da cloaca e liberou ainda mais energia fascista do esgoto.

Bolsonaro fez do 7 de setembro um ensaio geral para o “Capitólio de Brasília” de 2022; um capítulo da espiral de violência política que marca este período que vai até a eleição de outubro de 2022 e que marcará os próximos – e, espera-se, nem tão longos – anos pela frente.

Ao que parece, o pesadelo do 7 de setembro ainda não acabou; recém começou.

Bolsonaro e os militares criam um simulacro de crise institucional para fabricar um caos funcional aos atentados terroristas contra a democracia e a Constituição para escalarem um empreendimento ditatorial de recorte fascista-militar no país [aqui].

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03
Mar21

Contra-senso e destruição: A contribuição brasileira

Talis Andrade

 

Por Liszt Vieira 

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O Sono da Razão Produz Monstros (Goya)

 

O economista sueco Gunnar Myrdal, vencedor do Prêmio Nobel, foi indicado pela ONU para coordenar uma grande pesquisa sobre racismo nos EUA nos anos 40 do século passado. O resultado foi o livro “An American Dilemma: The Negro Problem and Modern Democracy”, publicado em 1944 com quase 1.500 páginas.

Entre os inúmeros levantamentos, estudos e análises, chamou a atenção de alguns observadores na época a afirmação de que os maiores racistas, os que mais discriminavam os negros no sul do EUA não eram os brancos ricos, mas sim os brancos pobres. A razão disso é que eles necessitavam da inferioridade dos negros para sua autoestima. Se os negros passassem a ter os mesmos direitos, os brancos pobres não se sentiriam mais superiores a ninguém, e isso os desesperava.

Ressalvadas as diferenças no espaço e no tempo, e respeitadas as devidas proporções, vimos algo parecido no Brasil durante o governo Lula que, com políticas sociais progressistas, diminuiu a desigualdade. A classe média viu os ricos ganharem dinheiro e se afastarem, enquanto os pobres aumentaram sua renda e se aproximaram. Esse sentimento de frustração está na raiz do preconceito da classe média contra Lula e o PT. No fundo, é a recusa da proposta de reduzir a desigualdade social. Para esses segmentos, o ideal é que os pobres continuem pobres para que eles permaneçam tranquilos, sentindo-se superiores.

É verdade que também a elite econômica recusa a redistribuição de renda para reduzir a desigualdade e apoia qualquer idiota que não se atreva a mudar o status quo. No atual governo Bolsonaro, essa situação foi agravada com a radical política neoliberal que se apropria do orçamento público, destinando a maior parte ao mercado financeiro e transferindo, assim, renda dos pobres para os ricos. As verbas para saúde, educação, pesquisa científica, cultura, meio ambiente são vistas como despesas improdutivas e não como investimento.

O fato de a popularidade de Bolsonaro continuar na faixa de 25 a 30% de apoio se explica por diversas razões. Uma delas é que o discurso do candidato e agora presidente se dirige não à razão, mas às emoções, ao preconceito arraigado, ao sentimento de frustração que se autoalimenta com ódio e repulsa aos que são considerados seres inferiores: mulheres, negros, gays, índios e, em estágios mais avançados de preconceito, intelectuais, judeus, imigrantes, estrangeiros etc.

Essas pessoas rejeitam o discurso baseado em fatos da realidade e só aceitam aquilo que querem ouvir. Esse é o segredo do sucesso da indústria de fake news gerenciada pela empresa Cambridge Analytica que manipulou as eleições do Brexit no Reino Unido em junho de 2016, de Trump nos EUA em novembro de 2016 e de Bolsonaro no Brasil em novembro de 2018. Por outro lado, é forçoso reconhecer que a razão crítica do iluminismo nem sempre levou à emancipação dos dogmas, e frequentemente foi incapaz de impedir a exploração e a submissão.

O avanço da extrema direita em várias partes do mundo mostrou o enfraquecimento da civilização iluminista baseada na razão e na ciência, muitas vezes impotentes para conter a avalanche de falsas notícias explorando o machismo, racismo, homofobia, misoginia, rejeição dos direitos humanos e a superstição pré-moderna que apoia teorias conspiratórias e rejeita a ciência, espalhando informações absurdas como terra plana e coronavirus criado em laboratório, por exemplo.

A derrota de Trump nos EUA foi um golpe forte nessa política de “pós verdade” baseada em fake news que, entretanto, ainda vigora no Brasil. Se é verdade que a negação da pandemia e a sabotagem da vacina foram políticas oficiais de governo ano passado, observamos que a necropolítica oficial do governo Bolsonaro se desmoralizou ainda mais este ano com o agravamento do número de casos e óbitos por Covid. O Brasil é o segundo país do mundo em número de mortes e candidato a ser campeão mundial com a reversão da tendência de aumento de óbitos nos EUA com o atual governo Biden.

O que não se enfraqueceu foi a política em curso de destruição ambiental no Brasil e no mundo. No caso brasileiro, a devastação ambiental foi agravada pelo ethos fascista de um governo que tenta sem cessar destruir os princípios e as instituições democráticas. O objetivo é “passar a boiada”, destruir os recursos naturais visando a lucro.

Já em 2010 o cientista brasileiro Carlos Nobre alertava que a cada hora 9 mil pessoas se somam à população mundial - que passou de 1,5 bilhão em 1.900 para mais de 7 bilhões hoje. Em cada hora, 4 milhões de toneladas de CO2 são emitidas, 1.500 hectares de florestas são derrubados no mundo, aumentando o efeito estufa, e 3 espécies entram em extinção. ( Planeta Sustentável - 28/05/2010).

No Brasil, segundo os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), tivemos na Amazônia em 2020 a maior alta de queimadas dos últimos treze anos, desde 2007 (Veja, 1/7/2020). Entre janeiro e agosto de 2020, quase 3,5 milhões de hectares do bioma amazônico queimaram e o desmatamento da Amazônia registrou aumento significativo em mais de 10% em relação ao ano anterior, configurando a taxa de desmatamento mais alta dos últimos 12 anos. No Pantanal, os incêndios devoraram 29% da sua cobertura, afetando seriamente a vida silvestre. No sul do país, tivemos números inéditos de área queimada nos Pampas.

As mudanças climáticas e a perda da biodiversidade já desencadearam um processo de destruição de recursos naturais que ameaça as condições de vida humana no planeta. Segundo Paul Crutzen - Prêmio Nobel de Química 1995 - já entramos em uma nova época geológica - o Antropoceno - em que o homem começa a destruir suas condições de existência no planeta. “A influência da humanidade no planeta Terra nos últimos séculos tornou-se tão significativa a ponto de constituir-se numa nova época geológica” (Paul Crutzen).

Em 2002, o historiador John McNeill alertou que a humanidade vem se aproximando perigosamente das “fronteiras planetárias”, ou seja, os limites físicos além dos quais pode haver colapso total da capacidade de o planeta suportar as atividades humanas. (Something New Under the Sun, McNeill, 2002). Os eventos climáticos extremos não cessam de confirmar sua advertência: secas, inundações, desertificação, falta d’água, temperaturas excessivas, desastres naturais, refugiados ambientais.

A situação é tão grave que já se fala na possibilidade de colapso da atual civilização. Afinal, a Terra conheceu 5 extinções em massa antes da que começamos agora a presenciar. A mais notória foi há 250 milhões de anos: começou quando o carbono aqueceu o planeta em 5ºC, acelerou quando esse aquecimento liberou metano, outro gás de efeito estufa, e quase destruiu toda a vida na Terra. Com exceção da extinção dos dinossauros, todas as extinções envolveram mudanças climáticas causadas por gases de efeito estufa (A Terra Inabitável, Uma História do Futuro, David Wallace-Wells).

Hoje, lançamos carbono na atmosfera a um ritmo 100 vezes mais rápido do que em qualquer época anterior ao início da industrialização. Metade do carbono lançado à atmosfera devido à queima de combustíveis fósseis foi emitido apenas nas últimas três décadas. Mantendo o atual padrão de emissões, chegaremos a mais de 4º C de aquecimento até o ano 2100. Isso significa que muitas regiões do mundo ficariam inabitáveis devido ao calor direto, à desertificação e às inundações. Pelas projeções das Nações Unidas, teremos 200 milhões de refugiados do clima até 2050. Outras estimativas são ainda mais pessimistas: 1 bilhão de pobres vulneráveis sem condições de sobrevivência (A Terra Inabitável, David Wallace-Wells).

O célebre cientista e divulgador naturalista britânico David Attenborough alertou que a humanidade enfrentará uma sexta extinção em massa neste século, se não abordar a mudança climática e a superexploração dos recursos do planeta. Em seu novo livro, A Life on Our Planet, Attenborough prevê um futuro de inundações, secas e acidez do oceano, caso a Terra não seja salva a tempo.

A civilização do combustível fóssil ameaça a sobrevivência humana no planeta. Produz calor letal, fome pela redução e encarecimento da produção agrícola, destruição das florestas por incêndios, esgotamento da água potável, morte dos oceanos, tufões, inundações, ar irrespirável, pragas, colapso econômico, conflitos climáticos, guerras, crise de refugiados.

Um Relatório da Convenção das Nações Unidas sobre a Diversidade Biológica (CBD), publicado em 16/9/2020, informou que a taxa da perda de biodiversidade não tem precedentes na história e as pressões estão se intensificando. O risco é o surgimento de novas doenças desconhecidas. À medida em que a natureza é degradada, surgem novas oportunidades para a disseminação de doenças devastadoras, como a Covid-19, alertou o Relatório. O documento denuncia ainda o gasto de cerca de US$ 500 milhões em subsídios governamentais concedidos nos últimos 10 anos para a produção de combustíveis fósseis, fertilizantes e pesticidas que contribuem para o declínio da biodiversidade. E destaca também o lançamento de 260 mil toneladas de resíduos plásticos nos oceanos.

O homem é o único animal que destrói seu habitat, o que coloca em questão sua racionalidade enquanto homo sapiens. Entre os fatores que causaram o colapso de civilizações, o primeiro deles é a destruição ambiental – o ecocídio, nos lembra escritor Jared Diamond, autor do famoso livro Colapso - Como as Sociedades Escolhem o Fracasso ou o Sucesso. Existe hoje uma a crescente campanha global para criminalizar o ecocídio e responsabilizar governos e corporações por negligência ambiental com o objetivo de salvaguardar nosso planeta (Carta Maior, 28/2/2021).

Os fatores para um possível declínio da humanidade estão visíveis: as mudanças climáticas, a degradação ambiental, as desigualdades econômicas e governos autoritários, cegos à razão e à ciência, e exterminadores dos direitos. O atual Governo brasileiro preenche todos esses requisitos, cumprindo promessa de Bolsonaro: “Vim para destruir, não para construir”. Trata-se de importante contribuição ao “capitalismo tardio” e seu perverso modelo neoliberal que não apenas exploram a maioria da população mundial, mas também ameaçam a sobrevivência humana na Terra.

19
Jul20

Coringa comemora com Bolsonaro a entrega da Petrobrás aos gringos!

Talis Andrade

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por Emanuel Cancella

- - -

Cheguei para ajudar outro palhaço, o Bozonaro.

Ele tem tudo a ver com o que digo, por exemplo: “Eu mudei juro que vou fazer tudo pior dessa vez” (5).

O Bozo é tão porreta que, quando deputado, falava em fuzilar 30 mil brasileiros, e com sua política de combate a Covid-19 Já matou mais de 70 mil (13).

Ele deputado falava em fuzilar FHC porque vendeu a Vale do Rio Doce e as reservas petrolíferas brasileiras e agora, como presidente, faz pior (6):

-  Bozonaro  vendeu a BR Distribuidora para os EUA do tio Sam e ainda demitindo 600 petroleiros e centenas de contratados e os que ficaram tiveram redução de 30% nos salários (7).

- Bozo quer entregar o pré-sal para Tio Sam ou seus aliados. Bozo já fez o mega leilão do pré-sal,  mas ele considerou um fracasso porque a Petrobrás ficou com a maior parte. Então, para que isso não aconteça mais, Bozo está mudando a lei dos leilões da ANP e, da próxima vez, vamos seguir  a orientação do primeiro diretor geral da ANP, David Zylbersztajn, genro de FHC: “O Petróleo é Vosso!”   (8,9,10)

- Bozonaro vai vender metade das refinarias da Petrobrás. Imagine, em 12 meses, o Brasil pagou, aos EUA, R$ 25 BI em importação de gasolina e diesel. Já pensou quanto vamos pagar quando vendermos a metade das refinarias da Petrobrás? (11,12).

Mas o que Bozo está fazendo com os petroleiros é show. Esses palhaços precisam ser torturados, já que desenvolveram tecnologia inédita no mundo, que permitiu a descoberta do pré-sal e recebeu o terceiro prêmio da OTC, o equivalente ao “Oscar” da indústria do petróleo, em Houston, nos EUA.  E agora esses ousados ganharam o 4º “Oscar” (15,16).O presidente se torna o vilão do momento em animação sarcástica do Manhattan Connection

A política implementada pelo Bozo, no fundo de pensão Petros, é satânica. Então esses mesmos petroleiros, que foram premiados nos EUA pela descoberta do pré-sal, muitos deles estão em tratamento psíquico e 10 se suicidaram (14)!

Isto principalmente porque Petroleiros, ativos e aposentados, estão pagando no mínimo com 13% de seus salários, e por 18 anos, por rombo na Petros,  mesmo sem esses petroleiros nunca terem sido gestores do Fundo. E as direções, da Petrobrás e da Petros, ainda querem transformar esse pagamento em vitalício.

Ma isso só está sendo possível porque Bozo colocou, para presidir a Petrobrás, os carrascos de Mariana e Brumadinho: Roberto Castello Branco, que foi diretor da Vale por 15 anos, hoje é presidente da Petrobrás. E Cristiane Marsillac, que trabalhou na Vale, de 2006 a 2009, foi nomeada presidente da Transpetro (1,2). 

E eles conseguiram esses cargos de Bolsonaro, na Petrobrás, mesmo sendo oriundos da Vale e sendo suspeitos de crime de responsabilidade no maior acidente ambiental do Brasil, quiçá do mundo, que foram os de Mariana e Brumadinho, com 272 mortos (3,4).

Segundo Coringa: “Ainda estou sorrindo não porque sou forte, mas porque sou louco” (5). Consulte as anotações 

 

19
Jul20

Militares linha-dura, intervenção e genocídio

Talis Andrade

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por Jeferson Miola

- - -

No mérito, está correta a crítica/denúncia do ministro do STF Gilmar Mendes que provocou a reação irada dos militares.

Em que pese, todavia, a pertinência da associação de militares com genocídio, realidade corroborada pela gestão desastrosa da pandemia por um general da ativa, é incabível a um ministro da Suprema Corte imiscuir-se em disputas políticas ou atuar na arena política – como, aliás, Gilmar fez na dinâmica do golpe para derrubar a presidente Dilma; como, aliás, ele faz ainda hoje; e como, aliás, ele decerto continuará fazendo, enquanto não for encilhado com os freios do recato e do comedimento da Lei e do Código de Ética da Magistratura.

O confronto entre Gilmar e militares expôs a anomalia e o descalabro do sistema. A dominância, na política, não é do povo ou do parlamento, mas de atores sem voto – STF e Forças Armadas [FFAA].

O Congresso é causa e efeito desta anomalia. Se, por um lado, funciona como eficiente despachante da agenda bolsonarista ultraliberal, que é aprovada com rapidez por uma maioria folgada dos representantes da oligarquia; por outro lado, o Congresso é omisso e conivente com a escalada militarista, com o aparelhamento militar do Estado e com a continuidade do governo fascista.

O Exército está associado ao genocídio, é verdade; mas também ao etnocídio e ecocídio praticados pelo governo. Os militares são, também, co-autores da morte da democracia, provocada pela asfixia contínua do pouco que ainda resta do Estado de Direito. Eles são responsáveis, como Bolsonaro, pela barbárie e pela devastação do país.

As Forças Armadas reagiram a Gilmar Mendes não como instituição profissional do Estado, mas reclamando como um Poder constituído [poder militar].

Com Bolsonaro em “modo focinheira” desde a prisão do capataz e gerente financeiro do esquema miliciano do clã, os militares se viram obrigados a se desentocarem do poder oculto de onde comandam o governo para reagirem abertamente, e no “modo Junta Militar”.

A nota oficial, inadequada e inoportuna, não por acaso foi assinada pelo ministro da Defesa junto com os comandantes das 3 Forças. A Constituição não dá guarida para ativismo político dos comandos militares, menos ainda para ataques deles a integrantes da Suprema Corte.

O ministro da Defesa – que melhor se desempenharia sendo um civil, não um general – é responsável pela direção superior das FFAA. É dele, portanto, a única voz, no Executivo, constitucionalmente autorizada a manifestar o sentimento político das 3 Forças.

O incômodo dos comandantes com a crítica/denúncia de Gilmar Mendes é explicável. A associação a crime de genocídio os preocupa, pois poderão ser criminalizados em organismos penais internacionais como o TPI e a CIDH.

Além disso, o surgimento, na Itália, de questionamentos para apurar se a negligência e a imperícia de governantes na pandemia podem ter causado milhares de mortes evitáveis, deve reforçar um paradigma de responsabilização de governos criminosos e irresponsáveis, como é o brasileiro.

Os comandantes também se ofenderam porque não aceitam questionamentos à colonização indevida do poder civil por agentes militares. Eles se julgam aptos [sic] para ocuparem cargos civis, a despeito da incompetência do ponto de vista técnico, gerencial, metodológico, político.

Neste governo, os militares [contingente de mais de 400 mil funcionários públicos pagos para exercerem funções estritas nos quartéis, e não na esfera civil] infestaram a máquina estatal e aparelharam o Estado. Mais de 6 mil membros da “família militar” estão lotados em ministérios, estatais, empresas públicas; afora familiares, amigos, correligionários e áreas de influência. Eles se beneficiam com cargos, renda turbinada, gratificações, privilégios, statusde poder etc.

É compreensível, portanto, o apego deles ao status “conquistado”; isso os mobiliza subjetivamente e politicamente a ambicionarem permanecer muito tempo no poder.

O golpe de 31 de março de 1964 significou uma mudança paradigmática na doutrina das FFAA. Antes de 1964, os militares promoviam intervenções breves e pontuais e, à continuação, devolviam o poder aos civis.

Durante a ditadura, porém, ganhou força a perspectiva que concebe as FFAA como uma força política e um poder apto a exercer a liderança política na condução dos destinos do país. Este pensamento redundou no longo ciclo ditatorial de 21 anos, de 1964 a 1985.

Os generais que mandam no Planalto, como Augusto Heleno e outros, têm como ancestrais políticos e ideológicos os integrantes da chamada “linha-dura” da ditadura, aquela ala que não aceitava a transição lenta e controlada proposta por Geisel para encerrar paulatinamente o regime.

Eles queriam a continuidade da ditadura e da repressão e o aprofundamento do terror de Estado, ao mesmo tempo em que jogavam o país no precipício com endividamento externo brutal, inflação galopante, crescimento pífio, pobreza alarmante e corrupção idem.

A perspectiva intervencionista das FFAA na política e na estrutura de poder, que foi alimentada durante décadas pelos militares ressentidos dos porões da ditadura que nunca desistiram de politizar e ideologizar as tropas nos últimos 35 anos, é a bússola que orienta o projeto de poder de longo prazo acalentado por eles.

O afastamento dos militares [tanto da ativa como da reserva] da máquina civil de governo, assim como o retorno deles aos quartéis para ocuparem-se exclusivamente das suas obrigações profissionais, é uma urgência candente. E é, também, um imperativo ético, se se quiser deter o infame genocídio, etnocídio e ecocídio que está em marcha acelerada.

Às FFAA, que possuem o monopólio de emprego exclusivo das armas para a defesa do território, não é dada a prerrogativa de exercer o poder de Estado ou de atuar na cena política como se fossem partidos políticos ou um Poder próprio, independente e autônomo.

 

15
Jul20

O governo Bolsonaro acabou, porra!

Talis Andrade

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Pandemia indicou caminho para o futuro e mostrou como o capitão é despreparado perante os desafios atuais. Será que teremos um presidente se arrastando até o fim do mandato?

 

 por Thomas Milz/ Deutsche Welle 

- - -

A pandemia do novo coronavírus mostrou para onde o mundo vai. É preciso uma administração ágil e moderna, que aja conforme as necessidades do momento – e não com base em crenças folclóricas e ideologias bizarras. Não há tempo para terraplanismo em tempos de coronavírus! Na área econômica, as empresas vão ter que se posicionar de forma sustentável – tanto social e economicamente como, e esse talvez seja o ponto mais importante, ambientalmente. Não é hora de destruir florestas, portanto.

O governo Bolsonaro foi pego desprevenido pelo vírus. O plano de colocar a economia em trilhos neoliberais acabou. Em vez disso, o governo provavelmente promoverá um programa assistencialista, o Renda Básica, de tamanho maior que o Bolsa Família petista. Fica difícil, também, seguir com os planos de privatizações, tendo em vista que instituições estatais, como o SUS e a Caixa, tiveram um papel fundamental para evitar danos maiores durante a pandemia.

Ficou claro também que colocar militares em pastas como a Saúde ou para fiscalizar as florestas não resolve nada. No lugar dos quadros técnicos prometidos, os militares deslocados para áreas alheias penam para mostrar resultados, enquanto milhares morrem e florestas se vão em chamas. (Não vamos pensar que os militares foram postos em lugares errados propositalmente, ok!)

A tempestade perfeita das pilhas de mortos pela covid-19, da economia em queda livre e do desastre ambiental cada vez mais evidente urge a um plano maior para o país. Mas não haverá tal plano com o atual governo, que não possui nem plano nem visão para o Brasil. Isso fica ainda mais claro quando se olha para a pasta da Educação. Não ter ideia do que fazer nessa área deixa evidente a total falta de visão.

Em vez de moldar o futuro, Bolsonaro está ocupado, desde que assumiu, um ano e meio atrás, com limpar a bagunça dos filhos e do próprio passado mal resolvido. Além das bravatas, ele não tem nada a oferecer.

Os problemas em encontrar quadros adequados para áreas como educação e saúde se explicam também pela falta de base social do atual governo. Grupos de WhatsApp podem até ganhar eleições, mas na hora de recrutar especialistas com uma noção do que fazer, as redes sociais não oferecem ninguém. Na hora de nomear ministros, perfis falsos não entregam nada.

Acontece que uma parte significativa do apoio digital pró-Bolsonaro já se evaporou, nas últimas semanas, de forma instantânea perante as investigações promovidas pela Justiça e principalmente pelo STF. Os 300 do Brasil, que estava mais para 30, agora são zero. Quanto mais Bolsonaro se entregar ao Centrão para se blindar de um impeachment, mais apoio da sua base mais radical deverá perder.

O presidente será um lame duck (pato manco) já na primeira metade do primeiro mandato. Enquanto Bolsonaro é bicado por uma ema, nos jardins presidenciais, seu vice, Hamilton Mourão, tenta tranquilizar investidores e empresários. Teremos, provavelmente, um vice cada vez mais presente e um presidente cada vez mais recuado. Talvez Bolsonaro não caia, mas se arraste até o final do mandato. O governo dele talvez não tenha morrido, mas, de fato, já acabou.

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Enquanto governos social-democratas e o regime autoritário chinês se mostraram capazes de domar o vírus, os líderes da direita raivosa se mostraram perdidos. Comprei recentemente uma camiseta com um desenho de Donald Trump e Bolsonaro, com o presidente brasileiro camuflado de Rambo e a frase "Make Brazil great again" estampada embaixo. Para me lembrar desse tempo esquisito.

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29
Mai20

Tem matado os indígenas (e também camponeses e quilombolas) à bala

Talis Andrade

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V - O Nojo

EL PAÍS
 
- - -
O vírus mata cada vez mais nas aldeias indígenas e vai se espalhando pela floresta amazônica. Quando os invasores europeus chegaram, os vírus e as bactérias que trouxeram com eles exterminaram 95% da população indígena entre os séculos 16 e 17. Há chance de que o novo coronavírus produza um genocídio dessa dimensão caso não exista um movimento global para impedi-lo.
 
Bolsonaro já demonstrou que apreciaria se os indígenas desaparecessem ou se tornassem outra coisa. “Humanos como nós”, nas suas palavras. Humanos vendedores e arrendadores de terra, humanos mineradores, humanos plantadores de soja e de cascos de boi, humanos amantes de hidrelétricas, de ferrovias e de rodovias. Humanos que se descolam da natureza e a convertem em mercadoria.
 

São os povos indígenas que colocam literalmente seus corpos diante da destruição da Amazônia e de outros biomas. Mas parte dos apoiadores de Bolsonaro, que hoje também lideram campanhas de “abertura do comércio” nas cidades amazônicas, tem matado os indígenas (e também camponeses e quilombolas) à bala. O vírus pode completar o extermínio de uma forma muito mais rápida e numa escala muito maior. Basta fazer exatamente o que Bolsonaro está fazendo: nada para protegê-los e tudo para estimular a ruptura das regras sanitárias da Organização Mundial da Saúde; nada para protegê-los e tudo para estimular a invasão de suas terras por garimpeiros e grileiros. O que está em curso é exatamente isso: um genocídio.

E também ecocídio, porque na Amazônia esses entes não andam separados. Como sabemos, os destruidores da floresta não fazem home office. O desmatamento avança aceleradamente, aproveitando a oportunidade da pandemia. Os alertas cresceram 64% em abril, depois de já terem batido recordes no início do ano. Bolsonaro demitiu os chefes de fiscalização do Ibama que estavam tentando impedir o massacre da floresta. Está militarizando tanto a saúde, ao colocar militares em postos importantes do ministério, quanto a proteção do meio ambiente, ao subordinar o Ibama e o ICMBio ao Exército nas ações de fiscalização. Em toda a região, camponeses, ribeirinhos e indígenas denunciam que os caminhões cheios de árvores recém derrubadas não param de atravessar as estradas vindos da floresta. Eles gritam. Mas quem os escuta?

Bolsonaro está transformando (também) a Amazônia num gigantesco cemitério. Ele é tão perverso que usa a pandemia para matar a floresta e tudo o que é vivo. O presidente do Brasil pode se tornar o primeiro vilão da história que, sem poder nuclear, tem grande poder de destruição. Sem floresta amazônica não há como controlar o superaquecimento global. Sem controlar o superaquecimento global o futuro será hostil para a espécie humana. Se a Amazônia chegar ao ponto de não retorno, do qual se aproxima velozmente, seu território poderá se tornar um disseminador de vírus nos próximos anos. 

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22
Fev20

Los otros genocidios

Talis Andrade
 

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Por Jesús González Pazos

El Salto

Recientemente se conmemoró el 75 aniversario de la liberación del campo de exterminio de Auschwitz. A la par de ello, se recordaba y rechazaba, una vez más, el intento de genocidio del pueblo judío a manos del nazismo. La parte negativa es que, una vez más, quedaron ocultos otros genocidios que el régimen nazi pretendió […]

Recientemente se conmemoró el 75 aniversario de la liberación del campo de exterminio de Auschwitz. A la par de ello, se recordaba y rechazaba, una vez más, el intento de genocidio del pueblo judío a manos del nazismo. La parte negativa es que, una vez más, quedaron ocultos otros genocidios que el régimen nazi pretendió durante esos años, como es el caso del pueblo gitano, la comunidad homosexual o los grupos políticos de izquierda.

Posiblemente, el hecho de que estos últimos nunca fueron un lobby político y económico potente está en la base de la explicación de ese olvido continuo a favor del pueblo judío. Pero esa es otra historia.

Lo que ahora nos preguntamos es si dentro de 75 años, quienes entonces caminen por el planeta, tendrán que conmemorar, u olvidarán también, el genocidio de los pueblos indígenas de la Amazonía brasileña. Hay que recordar que son también pueblos sin fuerza política ni económica y, quizás por eso, posiblemente también condenados a la invisibilidad. Sin embargo, la Amazonía se está convirtiendo, con la indiferencia del mundo, en el territorio de un nuevo genocidio. El campo de concentración ahora se llama espacio amazónico y tiene las dimensiones de la inmensa selva que hace de Brasil el quinto país más grande del mundo. El primero en cuanto a la biodiversidad que contiene, que algunos la ven solo como riqueza material. Pero también, el estado que hoy es ya la primera economía de América Latina y la sexta del mundo. Todo ello, ambición económica y potencial biodiversidad hacen que el gobernante ultraderechista Jair Bolsonaro pretenda constituir la selva amazónica como una mezcla de enorme mina a cielo abierto, grandes hidroeléctricas e inmensos campos para la agroindustria (soja, palma…) y ganadería extensiva. Traducido por lo tanto en campo de negocios, luego, campo de exterminio para sus habitantes que no comulgan con esa visión desarrollista.

Los pueblos indígenas son prescindibles en la economía de mercado. Ocupan demasiado espacio, generalmente muy rico en biodiversidad (no solo variedades vegetales y animales, sino también recursos mineros, agua, hidrocarburos, forestales y un largo etc.) y, por lo tanto, obstruyen el desarrollo de un país como Brasil.

Y a esa visión única economicista de la ultraderecha y derecha brasileña se le suma el racismo exacerbado que gran parte de las mismas tienen en su ADN político y social. El presidente Jair Bolsonaro nunca lo ha ocultado y ha llegado a poner públicamente en duda el carácter de seres humanos de los pueblos indígenas. Pero su racismo no solo lo muestra mediante frases inaceptables o insultos sino, lo que es peor aún, lo lleva a la práctica atacando directamente los derechos de estos pueblos en sus territorios reconocidos por la misma legislación brasileña.

Entre las últimas medidas que pretende aprobar y desarrollar está el hecho de permitir la minería y la extracción petrolera, así como los cultivos agroindustriales en las llamadas reservas indígenas que no son sino los territorios de estos pueblos, lo que ha empezado con la quema y tala descontrolada del bosque en este pasado verano. Es fácil imaginar el nivel de devastación de la selva amazónica que esto supondrá y que ya avanza mediante la destrucción de la masa forestal, el agotamiento de la tierra, la apertura descontrolada de carreteras, la contaminación (petróleo, mercurio y otros metales pesados) de aguas y tierras, la desaparición de especies animales y vegetales. El grado de destrucción sería tal que en pocos años podríamos hablar no solo de genocidio, sino también de ecocidio, es decir, de la destrucción ambiental del territorio amazónico.

Para completar este panorama de ataques desenfrenados contra la naturaleza y los pueblos que en ella habitan, otra de las últimas medidas del gobierno brasileño tiene que ver con los pueblos indígenas aislados o de reciente contacto. En la enorme extensión que es la Amazonía aún hoy viven pueblos no contactados o en aislamiento voluntario. En el caso de Brasil, la Fundación Nacional del Indio (Funai) que es el organismo oficial que define las políticas hacia los pueblos indígenas, tiene un departamento específico para estos pueblos aislados.

Pues bien, Bolsonaro acaba de proponer a un evangelizador de indígenas como responsable coordinador de dicho departamento. Como han denunciado múltiples organizaciones y cualquiera puede entender, es aplicar el famoso dicho popular de poner al zorro al frente del gallinero. Ricardo Lopes Dias ha trabajado durante muchos años con la fundamentalista Misión de Nuevas Tribus, organización evangélica estadounidense tristemente famosa en toda América Latina. Continuamente denunciada por servir a los intereses de la política exterior norteamericana y con graves actuaciones e irrespeto hacia los derechos de los pueblos indígenas, lo que ha conllevado incluso su expulsión de algunos países (Venezuela) o acusaciones internacionales de llevar adelante auténticas ”cacerías humanas” (Bolivia y Paraguay) ocasionando muertes y, desde luego, lo que se puede calificar como auténticos etnocidios (destrucción de la cultura de un pueblo).

Y así, para desgracia de la Amazonía, de Brasil y del mundo reunimos un trío de muerte (genocidio, etnocidio y ecocidio) altamente concentrado en el llamado “pulmón verde del planeta”. Pero mientras todo esto no dañe la economía de mercado las élites políticas y económicas seguirán mirando para otro lado, tal y como hace 75 años hicieron las de la Alemania nazi. Como señalábamos anteriormente el desarrollo económico sigue primando en las políticas neoliberales y, aunque los discursos políticos tratan de convencernos de que hay preocupación por los derechos humanos o por la crisis climática, la realidad nos muestra la falsedad de los mismos. Brasil, junto a otros grandes países, responsables directos de la contaminación y la consiguiente destrucción ambiental que ya sufrimos, dijo que no acudiría a la última COP25, celebrada en Madrid, y no pasó nada. Incluso a los que acudieron, pese a su retórica, les costó enormemente alcanzar algunos pequeños acuerdos que no enfrentan la emergencia que ya es la crisis climática. Por eso, por hipocresía, asistimos al genocidio de los pueblos indígenas de Brasil que como el intento que fue del pueblo gitano en la Alemania nazi, quedará olvidado, invisibilizado. El ecocidio de la Amazonía, quizás si tendrá alguna declaración grandilocuente más, pero para entonces también para la naturaleza será tarde.

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