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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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09
Jun21

Passar pano para o genocídio negro: não em meu nome

Talis Andrade

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por Bianca Santana /Ecoa

“Grávida morre após ser baleada durante troca de tiros em comunidade no RJ”. A manchete do UOL foi a gota que faltava para eu encerrar minha contribuição com a publicação Ecoa UOL. Há semanas não tenho conseguido manter ritmo de escrita semanal, já havia anunciado para minha editora a possibilidade de interromper a coluna, mas avaliamos que dava para esperar um pouco antes de decidir. Com a cobertura perversa da execução de uma mulher negra grávida em uma favela do Rio de Janeiro, mais um alvo do genocídio negro, fica evidente que a exaustão de repetir semanalmente a mesma coisa, em palavras diferentes, na tentativa de contribuir com o debate público sobre o genocídio tem sido pouco efetiva. Nem o próprio veículo se constrange em noticiar uma mentira como mais um fato isolado.

Há um mês, logo depois da chacina de Jacarezinho, a home noticiava: “Ação da polícia deixa 25 mortos no RJ; usuários do metrô são feridos: operação mira suspeitos que estariam expulsando moradores de casa na comunidade de Jacarezinho”. Indignada, escrevi a outro editor perguntando se estavam mesmo justificando os 25 assassinatos praticados pela polícia. Sempre bom lembrar que o Brasil não tem pena de morte. E que suspeitos devem ser investigados e julgados antes da possibilidade de condenação (que não inclui a morte). Não há nada, nada, que justifique a ação ilegal de um funcionário do Estado brasileiro de assassinar qualquer pessoa. A linha fina foi revista. Ao menos isso. Mas ficou também evidente que as horas gastas para conversar com toda a redação do UOL, em dois horários diferentes, sobre como é essencial contextualizar execuções de pessoas negras e não noticiá-las como fato isolado — cumprindo o papel de relações públicas da polícia — haviam sido improdutivas. Não se trata de desconhecimento. Mas de escolha. Cumplicidade. Coautoria.

É evidente que mantenho relações com uma série de outras instituições racistas, que contribuem com o genocídio negro. Infelizmente. Mas esta relação, tenho condições, e obrigação, de romper. Hoje sinto vergonha por ser jornalista.

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