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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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27
Jan22

Frei Damião: por que o Nordeste precisa de santos?

Talis Andrade

Frei Damião

Legenda: Frei Damião de Bozanno, nascido Pio Gionotti, em 5 de maio de 1898, na aldeia de Bozzano, município de Massarosa, na Toscana italiana, chegou ao Brasil em 1931
Foto: Divulgação/Machado Bitencourt
 

 

por 

Na semana que passou, se deu o lançamento do documentário dirigido por Deby Brennand, “Frei Damião: o santo do Nordeste”. O título da película dá a entender que o frade capuchinho teria sido o único homem considerado santo a ter sua trajetória de vida associada à região Nordeste. No entanto, o espaço que hoje é nomeado de Nordeste foi palco de inúmeros eventos capitaneados por homens considerados santos, beatos ou beatas, ainda quando vivos, pela população, sendo eles de origem popular ou não. 

Podemos dizer que o Nordeste é terra de santos, a ponto de os chamados movimentos messiânicos ser um tema fundamental na elaboração do imaginário em torno dessa região. Movimentos como o da Pedra Bonita que, em 1838, levou à morte cerca de 200 pessoas no sertão pernambucano, foi retomado por escritores como José Lins do Rego e Ariano Suassuna e associado ao sertão nordestino e ao que seria sua religiosidade mística e rústica.

Os acontecimentos de Canudos, no sertão da Bahia, uma guerra que se estendeu entre 1896 e 1897, colocando em confronto os seguidores do beato Antônio Conselheiro e o Exército brasileiro, imortalizado pelo livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, que forneceu muitas imagens para a elaboração do imaginário em torno do Nordeste. 

Mas o primeiro santo popular do Nordeste foi o Padre Cícero Romão, da vila e depois cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará, que em 1889 teria sido protagonista, junto com a beata Maria de Araújo, do milagre da hóstia, em que, na eucaristia, a hóstia se transformava em sangue. 

Outros fenômenos messiânicos aconteceram nesse espaço, como o movimento de Pau da Colher, ocorrido no município de Casa Nova, na Bahia, entre 1934 e 1938, em torno do beato José Senhorinho, ligado ao beato paraibano Severino Tavares que, por sua vez, estava ligado ao beato José Lourenço, do Caldeirão, no município do Crato, Ceará. 

 

Ambos movimentos foram duramente reprimidos por forças policiais, levando a matança da maior parte de seus adeptos (o Calderão entre 1936 e 1937 e Pau da Colher no ano seguinte).

 

Muito já se estudou esses fenômenos de religiosidade popular, essas maneiras populares de entender e praticar o catolicismo, muitas vezes para desagrado das próprias autoridades católicas, que colaboravam, quando não demandavam, a repressão aos movimentos. O caso Padre Cícero é emblemático, pois, mesmo sendo um membro da Igreja, foi excomungado e dela apartado. 

A pergunta que sempre se fez é por que o Nordeste é um espaço propício para o desenvolvimento desses fenômenos? 

A miséria da maior parte da população, vítima de carências de todos os matizes, desde carências materiais até carências afetivas e espirituais, o que leva a busca de qualquer amparo, de qualquer ajuda, de qualquer palavra de conforto ou de esperança. Vivendo uma vida terrena muito precária e cheia de sofrimentos, as promessas e profecias messiânicas de finais dos tempos e de salvação após a morte ganhavam logo muitos adeptos. O desespero, a desesperança na vida terrena faziam com que muitos depositassem sua fé nesses profetas populares e suas mensagens de salvação. O analfabetismo da maior parte das pessoas a afastava de uma Igreja oficial que ainda pregava suas cerimônias em latim e participava dos banquetes do poderosos, levando vidas muito distanciadas daquela do Cristo, muitos claramente “vivendo em pecado”, distantes da vida da população. 

 

Os beatos e santos populares se destacavam por falar uma linguagem que todos entendiam, por partilharem visões escatológicas, apocalípticas, muitas vezes atravessadas por elementos religiosos vindos das crenças africanas e indígenas de onde descendia a maior parte dos pobres.

 

Frei Damião de Bozanno, nascido Pio Gionotti, em 5 de maio de 1898, na aldeia de Bozzano, município de Massarosa, na Toscana italiana, chegou ao Brasil em 1931, indo residir no Recife, no Convento Senhora da Penha, da Ordem dos Capuchinhos, à qual pertencia. Sua formação religiosa começou aos 12 anos de idade (1910), numa Igreja Católica, ainda vivendo a reação ultramontana, ou seja, a militância das instituições católicas contra as mudanças trazidas pela modernidade burguesa (a Reforma, o Iluminismo, a Revolução Francesa, o liberalismo, o laicismo, a ciência moderna, o racionalismo, o socialismo, o comunismo, o anarquismo, o espiritismo). Foi ordenado sacerdote um ano após a ascensão do fascismo na Itália, em 1923, que contou com entusiástico apoio e militância da cúpula da Igreja Católica. Foi nesse período que se doutorou em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma (1925).

O catolicismo tal como entendido e praticado por Frei Damião deve muito a sua formação ultramontana e feita numa Igreja comprometida com o fascismo. O fato de ser filho de camponeses levou a que tivesse muita habilidade em lidar com as populações rurais e interioranas do Nordeste. Percorria o interior dos estados nordestinos através do que chamava de santas missões, realizando caminhadas e romarias, utilizando como símbolos uma cruz e um terço. 

Suas pregações eram feitas em praça pública, sobre um tablado, com microfone e autofalantes, que potencializavam sua voz rouca e diminuta, carregada por um sotaque italiano. Nelas ameaçava a todos com o inferno caso se afastassem da Igreja e aderissem a novas seitas (outras religiões), o demônio era presença contante em suas verdadeiras admoestações contra os pecados, condenava aqueles que viviam amancebados, oferecendo-se para casar a todos que viviam nessa condição, batizava os meninos que não podiam morrer pagãos, interpretava que fenômenos como as secas e os sofrimentos eram fruto de castigos divinos devido aos pecados. 

Essa versão profundamente conservadora da doutrina católica calava fundo numa população praticamente abandonada, não só pelos poderes públicos, mas pela própria Igreja oficial. Suas missões rendiam uma boa arrecadação de esmolas e emolumentos para sua Ordem, a ponto de, mesmo muito doente e sentindo muitas dores por causa de seu grave desvio na coluna, com uma voz quase inaudível, continuar sendo levado pelo Frei Fernando, para muitos lugares.

 

 

Se ele era um santo na visão de muitos populares, sua visão tradicional da missão da Igreja, seu completo distanciamento de um catolicismo renovado pelo Concílio Vaticano II, sua atuação muito em desacordo com a Teologia da Libertação, numa região em que se destacavam grandes nomes do catolicismo progressista como D. Helder Câmara, D. José Maria Pires, D. Aloísio Lorscheider, fez com que, desde os anos sessenta, Frei Damião fosse muito bem recepcionado e bajulado pelas elites políticas tradicionais da região, que via na promoção de suas visitas e na circulação em sua companhia uma forma de agradar os eleitores. 

Ainda em vida, em 1975, foi agraciado com uma medalha cunhada a ouro, na cidade de Sousa (PB), onde ele mesmo celebrou a missa da inauguração de seu busto, esculpido pelo artista plástico pernambucano Abelardo da Hora, no ano seguinte. Em 2004, a cidade de Guarabira (PB), inaugurou o Memorial Frei Damião. Tendo falecido em 1997, no Recife, recebeu os títulos de cidadão pernambucano e recifense.

Mas o episódio onde ficou mais explícito o uso político feito de sua popularidade e, ao mesmo tempo, de seu posicionamento conservador e retrógrado no interior da Igreja Católica, se deu no segundo turno da campanha presidencial de 1989. Um Frei Damião com 87 anos, com um fio de voz, atrapalhado pela saliva que lhe saia permanentemente pelo canto da boca, dada a torção de seu pescoço, comparece ao programa eleitoral do candidato Fernando Collor de Mello, para contrabalançar o apoio que o seu oponente de esquerda, Luís Inácio Lula da Silva, vinha recebendo dos setores progressistas da Igreja Católica, notadamente das Comunidades Eclesiais de Base. 

Foi uma das últimas aparições públicas do “santo do Nordeste”, colocando a sua voz a serviço do candidato que, como ele, fazia um discurso moralizante e moralista contra a corrupção. Sua fala contra o perigo do comunismo e rotulando o Caçador de Marajás do candidato das famílias, dos verdadeiros cristãos, foi decisiva para a vitória daquele que se mostraria um engodo. Fica para imaginarmos, por que ele levou essas informações para seu túmulo santificado, de um venerando da Igreja, em processo de beatificação, situado na capela de N. Sra. das Graças, no Convento São Félix, no Recife, que tratativas foram feitas com a Ordem dos Capuchinhos para que aquela entrevista fosse feita.

17
Jul21

A paixão dos homens pela masculinidade tacanha de Bolsonaro

Talis Andrade

Image

 

por Isabela Venturoza

- - -

 

Bolsonaro participou sábado (26), em Chapecó, Santa Catarina, de mais uma de suas “motociatas”. A última edição havia acontecido no dia 12 de junho, em São Paulo, e reuniu milhares de homens em apoio ao presidente. Tal evento foi definido pela escrita cirúrgica de Durval Muniz Albuquerque Jr. como “um verdadeiro desfile de adictos da testosterona”.

Para o historiador, como também foi sinalizado em outros meios de comunicação, grande parte dos presentes na “motociata de Jesus” eram homens, em sua maioria brancos, conduzindo motocicletas de marcas e modelos nada semelhantes àquelas que os entregadores de aplicativo utilizam, e que pareciam muito à vontade ao seguir o capitão, materializando uma grande manada fascista.Bolsonaro vincula Cristo a passeio de moto em SP - Blog da CidadaniaEditorial | Por que o Fora Bolsonaro? | Opinião

Que me perdoem os cientistas políticos pelo uso indiscriminado do termo “fascista”, mas não consigo pensar em uma palavra melhor ao observar milhares de homens se sentindo representados por um governo autoritário como o de Bolsonaro. 

Essa adesão fervorosa de alguns à figura de um homem intelectualmente limitado, cujas ações destrutivas e o temperamento descontrolado fazem manchete semana a semana, me impressiona ao mesmo tempo que agrava a dificuldade que encontro para dormir quando deito a cabeça no travesseiro à noite.

O fato é: Bolsonaro e o que ele representa ao desfilar pelo mundo gritando com jornalistas, minando relações diplomáticas, numa cruzada em defesa da cloroquina em detrimento da ciência, entre tantas outras trapalhadas cujos efeitos serão sentidos fortemente nos próximos anos, dizem muito.

Dizem muito porque foram eleitos por uma parcela significativa da população e porque mesmo hoje, com uma economia em frangalhos e 500 mil mortes na conta, seguem encontrando defensores apaixonados. Por que o presidente e o que ele representa provocam tanta paixão no imaginário de alguns?

Para refletir sobre essas questões, é preciso olhar para a história e perceber que por mais que ainda convivamos com inúmeras desigualdades sociais, é inegável que muita coisa mudou nas últimas décadas. Muito se alterou no mundo e no Brasil especificamente. O “lugar das mulheres” foi em certo sentido desestabilizado. Não estamos mais esperando em casa, reduzidas ao papel de mães e esposas. Somos parte importante do mercado de trabalho e nossos interesses e atividades ultrapassam em muito a figura de um companheiro e o espaço doméstico.

No Brasil, inclusive, uma mulher foi eleita presidenta. E é sintomático que ela tenha sido destituída para ser sucedida mais tarde por um sujeito como Jair Bolsonaro. Em outras esferas, políticas de caráter afirmativo e uma real discussão sobre as desigualdades raciais e de classe no Brasil se refletiram em transformações na composição dos estudantes de ensino superior e no poder de consumo de brasileiras e brasileiros. Passamos a andar de avião.

Contudo, tais mudanças – ver pretos, pobres, mulheres e homossexuais em espaços antes negados a eles – incomodou a alguns. Principalmente aqueles a quem antes eram reservados os lugares de excelência na sociedade. Mas não só. Além dos privilegiados, também aqueles que sonhavam em ganhar entrada VIP nessa festa se sentiram atacados pela ideia de que toda brasileira e brasileiro têm direitos e devem ter acesso a oportunidades.

Homens brancos de classe média se tornaram os principais ressentidos com a “bagunça” que havia se tornado o Brasil e Bolsonaro caiu como uma luva ao prometer restituir a norma: não apenas “Deus acima de tudo, Deus acima de todos”, mas pisar no pescoço e esmagar qualquer fração de discurso a favor da equidade. 

O avanço dos conservadorismos, das bancadas da “bala, boi e bíblia”, não veio junto à exaltação dos direitos das mulheres ou de uma defesa de sua participação irrestrita na sociedade. A mensagem transmitida por essa política contemporânea vem reafirmar as fantasias de poder e de identidade de homens brancos, nas quais eles falam mais alto, eles ocupam o espaço público e eles tomam as decisões.

Mulheres cuidam de coisas menores ou figuram como Carla Zambelli ao lado de Bolsonaro como aquela única garota que fica com os meninos no recreio e olha com certo desdém para as outras meninas.

A cruzada dessa masculinidade de Bolsonaro, atenuada em outros homens que fazem parte de seu círculo ou que com ele se relacionam para receber uma fatia do bolo, objetiva trazer de volta algo que nunca existiu plenamente, mas que sempre alimentou as fantasias dos homens e, por consequência, as assimetrias entre eles e as mulheres. 

 

Não é a primeira vez que um
homem se sente ameaçado
por um mundo mudando à
sua volta e não é a primeira
vez que ele recorre a alguma
mitologia perdida de um
poder patriarcal anterior
ou de um supermacho
infalível para restituir a
“ordem” desse mundo.

 

A literatura no campo das masculinidades, tanto em termos de livros de autoajuda quanto de uma bibliografia científica, registra ao longo da história o que alguns vão chamar de “crise da masculinidade”. Ela inclusive fala de respostas que vão variar em termos de resgatar um “masculino mítico” e sua força baseada na homossociabilidade entre homens fazendo “coisas de homens” ou mesmo de um movimento organizado pelos direitos dos homens.

De qualquer forma, estamos falando de uma masculinidade que não aceita ter suas bases alteradas. E sua base muitas vezes é o poder inconteste, principalmente por subalternos. 

Nesse sentido, a expressiva presença de homens nas motociatas de Bolsonaro e sua adesão a uma narrativa que muitas vezes nega a vida de quem não lhe é espelho, na verdade, não surpreende. Ela é uma resposta desesperada e ao mesmo tempo zombeteira aos nossos avanços.

A fantasia deles se erige sobre motos potentes e barulhentas, mas nós estamos aqui há muito tempo, à pé. Nunca foi fácil. O mundo segue girando e continuará mudando.

Claudio Mor on Twitter: "MORtoon - Genociata #mor #charge #governobolsonaro  #jairbolsonaro #bolsonaro #motociata #motoqueiros #pandemia #coronavirus  #covid_19 #forabolsonaro #foragenocida… https://t.co/XMOtxvnw2C"

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