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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

20
Set19

Vai sobrar para Moro

Talis Andrade

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A Lava Jato é um partido político. Para entender leia o verdadeiro ensaio de Ana Paula Lemes de Souza: As motivações políticas da Lava Jato:

Não importa que exista política na Lava Jato, o que interessa é quando a Lava Jato se torna propriamente a política, só que disfarçada de direito; quando existe tal discursividade norteante, bailando e maculando cada ato da operação e seus atores.

Para Reinaldo Azevedo a direita no Brasil possui vários graus, e o chefe da extrema direita é Sergio Moro, que ganhou a disputa para Bolsonaro, Doria e Witzel, todos os quatro candidatos a presidente nas eleições de 2023. 

Hoje Helena Chagas elenca as causas da queda de Moro, que faz estremecer os Três Poderes: 

Vai sobrar para Moro

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por Helena Chagas

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O efeito pode não ser imediato, e nada acontecer nos próximos dias, mas a avaliação de políticos experientes é de que a corda vai arrebentar nas mãos do Ministro da Justiça, Sergio Moro. Muitos consideram inexplicável a operação de busca e apreensão da Polícia Federal na casa e nos gabinetes do líder do Governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho, poucos dias depois de uma aparente pacificação entre Moro e o presidente Jair Bolsonaro, que teria resolvido dar mais uma chance e não substituir o diretor geral da PF, Maurício Valeixo.

Não se trata, na visão desses interlocutores, de discutir o mérito das acusações contra Bezerra neste momento, mas sim da oportunidade de uma operação desse tipo, autorizada pelo ministro Luiz Barroso, do STF, contra a opinião da PGR – que, ao fim e ao cabo, é a titular da ação penal. Ela veio sete anos depois de cometidos os supostos delitos, e revirou o gabinete da liderança do Governo no Senado, ainda que Bezerra, à época das acusações, não fosse líder governista e nem sequer senador.

Cheira a vingança da Lava Jato, com a colaboração do mais lavajatista dos ministros do Supremo – que, internamente, anda às turras com a chamada ala garantista da Corte. E parece que é.

O que ninguém consegue entender é o papel do ministro da Justiça no episódio. Se Moro havia acabado de se acertar com Bolsonaro e garantir a permanência do diretor da PF, por que encurralar o presidente da República atirando no principal articulador político do governo nas importantes votações da próxima semana? É bom lembrar: dia 24 tem votação da Previdência no plenário do Senado. E, dia 25, sabatina de Augusto Aras, o novo PGR. Em data não definida ainda, a indicação de Eduardo Bolsonaro como embaixador nos EUA.

Bolsonaro vai ficar sem articulador para essa agenda toda? Dificilmente. E vai querer submetê-la a um Senado irritadíssimo com a PF, a Lava Jato e etc? No momento em que tomou conhecimento da operação, boa parte dos senadores reagiu e forçou seu presidente, Davi Alcolumbre, a emitir uma dura nota de protesto. Afinal, pensam eles, se até o líder do Governo foi alvo, quem está livre?

Bolsonaro está entre a cruz da perda de controle total da agenda legislativa, o que pode jogar seu governo escada abaixo, e a caldeirinha da Lava Jato, que tenta mostrar que ainda está viva e operante, sendo Moro seu principal símbolo. Uma escolha difícil, que já se anunciava há meses, quando o ministro da Justiça começou a se enfraquecer pela interferência do presidente nos órgãos de investigação e controle.

Abertas as apostas, dez entre dez jogadores acham que vai sobrar para Moro.

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05
Set19

Glenn Greenwald e o vexame do "Roda Morta"

Talis Andrade

 

 

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Por Altamiro Borges


O vexame da entrevista com Glenn Greenwald no Roda Viva da TV Cultura nesta segunda-feira (2) continua repercutindo. Não é para menos que o programa há muito tempo é chamado ironicamente de “Roda Morta”. E não adianta mudar de direção ou de bancada. O viés direitista e provocador sempre dá o tom. No futuro, o vídeo talvez seja motivo de estudo nas escolas de comunicação como exemplo de como não fazer jornalismo. 
 
Alguns analistas ainda tentam entender como a bancada do Roda Morta não explorou o conteúdo dos graves vazamentos da Operação Lava-Jato. Num típico tribunal de exceção ou sessão de tortura, os entrevistadores apenas tentaram incriminar o fundador do site The Intercept, um jornalista de renome internacional, que já recebeu vários prêmios – inclusive o Pulitzer – e desafiou a CIA e NSA e outros instrumentos do império. 

Não houve perguntas sobre os crimes de abuso de autoridade da Lava-Jato. O nome do juizeco Sergio Moro, que ganhou de presente uma ministério no laranjal de Jair Bolsonaro, quase não foi citado de forma crítica. As palestras milionárias do pastor do powerpoint Deltan Dallagnol também foram poupadas. Ninguém tratou dos comentários mórbidos dos procuradores sobre a esposa, irmão e netinho de Lula. O conteúdo bombástico da Vaza-Jato simplesmente não estava na preocupação dos “jornalistas”, não estava na pauta. 

Ao invés de discutir o essencial, que seria bem mais útil para os cada vez mais minguados telespectadores da TV Cultura, os entrevistadores partiram raivosos contra o jornalista Glenn Greenwald – o que é pouco comum em uma corporação. Parecia o juizeco Sergio Moro naqueles showzinhos da República de Curitiba. Queriam saber do hacker, se houve pagamento no vazamento, se o editor do Intercept cometeu crime. Vergonhoso! 

O editor do jornal o Globo, Gabriel Mascarenhas, chegou a insinuar que Glenn Greenwald era cúmplice da corrupção. “Você defende a anulação sumária de todos os processos e condenações da Lava Jato?”, provocou o jagunço da famiglia Marinho. Já a âncora do programa, Daniela Lima, que presta serviços na Folha, afirmou que os vazamentos poderiam resultar na soltura de “Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima” e outros notórios bandidos. Patético. 

Quais, então, as razões para a bancada do Roda Morta se portar desta forma tão antiprofissional, cometendo esse baita vexame? Há várias hipóteses. Cito apenas três. Há quem afirme que os jornalistas tentaram agradar o atual dono da TV Cultura, o fascistoide João Doria, governador de São Paulo – que hoje comanda com mão de ferro a emissora pública.

Outros acham que eles tentaram agradar os patrões, os donos dos seus veículos, que sempre endeusaram os “justiceiros” da Lava-Jato por motivação política – derrubar Dilma Rousseff e viabilizar a prisão política de Lula, o que acabou resultando na ascensão do fascismo e na vitória de Jair Bolsonaro nas eleições do ano passado. 

Os mais pessimistas garantem que o jornalismo, enquanto ofício ético a serviço da humanidade, está morrendo! Como apontou Luis Nassif, a entrevista no Roda Viva “foi uma demonstração de que o jornalismo praticante perdeu noção dos princípios e papéis básicos do jornalismo. Mostra que há uma ignorância ampla sobre fundamentos básicos de jornalismo, praticados em qualquer país civilizado. Lembra em muito os jornalistas do sistema nos tempos da ditadura”.
01
Set19

Morrer antes da morte

Talis Andrade

No interior das instituições prisionais, deparei-me com alguns espaços cujas dinâmicas de funcionamento destoam dos pavilhões onde se aglomera o grosso da massa encarcerada. Espaços por vezes sepultados atrás de chapas de aço e de outros pavilhões, em que a sensação é a de que tudo é possível. Confira o sexto e último artigo do dossiê “Estado de choque”

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por Fábio Mallart

Soldados que invadem favelas com o rosto coberto por máscaras, as quais refletem imagens de caveiras. Blindados chamados de “Caveirão”, que, enquanto transitam pelos mesmos territórios, alternam a chuva de balas, por meio de buracos adaptados para o cano das armas, com mensagens anunciando que vieram buscar almas. Ossos de um filho desaparecido deixados na porta da residência de sua mãe por milicianos, como prova de quem manda na região. Sepultado como indigente, somente depois de um ano sua mãe conseguiria identificar o túmulo onde fora enterrado, no exato dia em que o jovem faria aniversário. Veículos metralhados com dezenas de tiros – podem ser 80, 111 –, fuzilados por pertencerem a certos corpos, por transitarem por determinados territórios. Execuções perpetradas pelas forças policiais, envolvendo simulacros de armas de fogo, indivíduos desarmados ou pessoas mortas por “engano”, que podem ser trucidadas por carregarem um canguru para transportar bebês e um guarda-chuva, “confundidos”, respectivamente, com um colete à prova de balas e um fuzil.1

 Autoridades governamentais que reivindicam e legitimam a política do abate: Wilson Witzel (PSL), atual governador do Rio de Janeiro, e a narrativa de que a polícia deve “mirar na cabecinha e… fogo!”;2 João Doria (PSDB), governador de São Paulo, e a afirmação de que, caso haja enfrentamento, a polícia tem de atirar para matar;3 Jair Bolsonaro (PSL) e a defesa de que o policial, “se matar dez, quinze ou vinte, com dez ou trinta tiros cada um, ele tem que ser condecorado, e não processado”.4

Esses fragmentos, os quais poderiam ser estendidos e conectados a outros tantos – corpos que desaparecem no interior dos presídios, helicópteros que sobrevoam favelas e atiram a esmo –, são pedaços minúsculos, abomináveis e brutais de nossas políticas de extermínio, que, como bem sabemos, são direcionadas às populações e aos territórios negros, pobres e periféricos. Vale dizer que foram pinçados dos artigos anteriores que compõem o dossiê “Estado de choque”, o qual se encerra nas linhas a seguir. Fosse para estabelecer um traço que conecta tais textos, que os corta ao meio e que, em certo sentido, nos deixa em choque, diria que esses escritos, de tamanho reduzido e potência amplificada, lançam luz sobre o fato de que o terror e a matança estatais figuram como políticas de gestão de determinadas populações e espaços urbanos. Populações expostas à precariedade ou, para mobilizar as palavras de Judith Butler, à “distribuição diferencial da condição precária”, submetidas distintivamente à pobreza, à fome, às remoções, às violências do Estado, aos danos e – o ponto que gostaria de ressaltar – à morte.5 Vidas que são consideradas como tendo menos valor, passíveis de luto parcial e esporádico, que seguem, para nos lembrarmos do artigo de Adriana Vianna, sem nome e sem rosto, anônimas, capturadas por categorias como “traficante”, “suspeito” e “envolvido”, termos que, juntamente com “confronto” ou “auto de resistência”, fazem parte do processo de apagamento dessas vidas e mortes.6

Evidentemente, as políticas de extermínio, direcionadas às favelas e às periferias pobres das cidades, há muito fazem parte de nossa história, afinal não se deve esquecer dos massacres da escravidão e dos povos indígenas, os quais ressoam até os dias de hoje, como que compondo um filme macabro, transmitido e repetido à exaustão. Porém, como observa Vera Telles no primeiro artigo do dossiê, aceitar a fórmula do “sempre foi assim”, como se estivéssemos diante de algo que apenas se intensificou desde a virada punitiva e conservadora que ganhou força depois do golpe de 2016, nos impede de descortinar os contornos tenebrosos dos tempos que correm, nos quais a matança se torna referência normativa do Estado, um “Estado policial que ganha forma por entre os protocolos de uma suposta normalidade democrática”.7
 
Se a linha do extermínio é uma constante em nossa história, é importante salientar que ela se desdobra em diferentes técnicas de produção da morte. É desse modo que Fábio Araújo, na edição de maio de 2019, nos apresenta uma dessas técnicas que compõe a vasta maquinaria de fabricação de cadáveres, a saber, o desaparecimento forçado de pessoas, largamente utilizado durante o período da ditadura militar, e ainda atuante. Na lógica do “fazer sumir”, como nos mostra o autor, corpos podem ser incinerados, oferecidos a leões ou porcos, emparedados. Muitos deles evaporam depois de abordagens policiais e nunca mais aparecem. Se alguns casos se tornaram emblemáticos, como o do pedreiro Amarildo, desaparecido na favela da Rocinha após a abordagem de policiais da UPP, outros seguem invisíveis; quando muito, convertem-se em registros de ocorrência de desaparecimentos.8 Em outra chave, Carolina Grillo e Rafael Godoi oferecem pistas valiosas acerca de mais uma dinâmica de produção da morte, as então chamadas ocorrências de resistência seguida de morte, casos em que as forças policiais, em supostos confrontos, matam pessoas alegando resistência à prisão e legítima defesa. Dentro de um amplo espectro de ocorrências, tais autores dedicam especial atenção aos eventos em que foram apreendidos simulacros de arma de fogo junto aos mortos – por exemplo, armas de brinquedo, sem desconsiderar as situações em que nem sequer havia armas. O ponto não é a capacidade de um objeto enganar as forças policiais, e sim as situações em que esses artefatos são mobilizados e produzem efeitos, até porque o simulacro é um agenciamento que transcende os objetos, compondo-se “de um corpo, sobretudo, negro e de um território, sobretudo, pobre”. Ademais, esses simulacros de arma de fogo se enredam com outros – simulacros de bandido e de justiça –, produzindo “a legitimação institucional dos homicídios cometidos por policiais”.9
 
Em São Paulo, somente para termos uma ideia da velocidade com que se executa, tomando como base apenas as ocorrências envolvendo policiais em serviço ou de folga, dados publicizados pela Ouvidoria das Polícias demonstram que o número de cadáveres em supostos confrontos com a Polícia Militar, em março deste ano, atingiu a marca de 76 corpos, aumento de 46% em relação aos números de março do ano anterior, quando 52 “suspeitos” foram executados. Se a comparação é por trimestre, também se constata uma aceleração no volume de mortos. Enquanto nos primeiros três meses de 2018 193 pessoas foram mortas, em 2019 o número pulou para a casa dos 203, crescimento de 5,18%.10 No caso do Rio de Janeiro, a situação é ainda mais dramática. Sob a gestão Witzel, o defensor da política do abate, entre janeiro e maio de 2019, em “confrontos” com forças policiais, nada menos do que 731 indivíduos tombaram ao chão, aproximadamente cinco cadáveres por dia, aumento de 12% em relação aos dados de 2018 referentes ao mesmo período.11
 

Ressalta-se que essas políticas de extermínio operam em estreita correlação com as políticas de encarceramento, e isso de diferentes perspectivas. Primeiramente, porque o perfil da população carcerária é o mesmo executado pelas ruas da cidade. Em segundo lugar – e aqui me refiro ao cruzamento entre encarceramento e letalidade apenas em solo paulista –, nota-se a existência de casos nos quais as execuções perpetradas por policiais encapuzados que atuam nas periferias – outra dinâmica de morte – se baseiam em indícios de passagem pelo sistema prisional, tais como antecedentes criminais e tatuagens feitas no interior das prisões. Em termos práticos, como mostrado em outro trabalho, a simples passagem pela cadeia opera como critério de produção de morte.12 Por fim, se a detenção produz vidas potencialmente matáveis do lado de fora dos muros, não se deve olvidar que no interior das muralhas o cárcere também aniquila. Levando em consideração apenas o ano de 2017, 532 pessoas faleceram dentro do sistema carcerário paulista, e 484 desses casos foram classificados pela Secretaria de Administração Penitenciária como “mortes naturais”.13 Ora, em prisões superlotadas, com racionamento de água, repletas de insetos e roedores, torturas de toda ordem, alimentação e atendimentos médicos precários, ineficácia e indiferença dos atores do sistema de justiça, uma pergunta, que prescinde de respostas, se impõe: em condições mortíferas, o que significa “morte natural”?

Longe de esmiuçar essas diferentes técnicas de matar, gostaria de posicionar outra peça no tabuleiro em que se joga a gestão da vida e da morte. Entre 2012 e 2016, como agente da Pastoral Carcerária, transitei por diversas unidades prisionais da capital e do interior de São Paulo, além de visitar, por dois anos, os três Hospitais de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (HCTPs) do estado, conhecidos como manicômios judiciários.14 Ao longo desse período, deparei-me com alguns espaços, no interior dessas instituições, cujas dinâmicas de funcionamento destoam dos pavilhões onde se aglomera o grosso da massa encarcerada, o que não significa, logicamente, que estes não estejam interligados.

Locais como a “clínica” do HCTP I de Franco da Rocha, uma estrutura de concreto com poucas celas, leitos e consultórios médicos, escondida atrás de um dos pavilhões do manicômio, na qual, para utilizar as palavras de um de meus interlocutores, “a gente urina e caga num saco, e toma remédio”. Espaços como o “castigo do castigo”, situado no interior da Penitenciária Masculina de Lucélia, que emerge como um corredor camuflado atrás de uma chapa de aço, espécie de anexo do “castigo”, setor onde os detentos cumprem sanções disciplinares. Na prática, um “buraco” fétido, calorento, composto por um grude no chão, onde dentro de uma das cerca de seis celas – sem água, sem visitas e sem banho de sol – subsistia um homem solitário, que não conseguia falar. Lugares como o “seguro” do Centro de Detenção Provisória Feminino de Franco da Rocha, que, em meados de 2014, possuía uma das paredes de seu corredor, com aproximadamente oito celas, forrada de fezes dos pombos. Ao fundo dele, apartadas por uma grade, mais celas. Em uma delas, uma espécie de “seguro do seguro”, sobrevivia uma mulher trancada, pelada e medicada.15

Nesses espaços, que por vezes restam sepultados atrás de chapas de aço e de outros pavilhões, demonstrando que o segredo é uma das armas do exercício do poder político, a sensação, quando se consegue acessá-los, é a de que tudo é possível. São neles, os quais conjugam o mínimo de condições de existir e o máximo de destruição, que se concentram os olhos vitrificados, paralisados e brilhantes; os corpos estáticos e travados; as cicatrizes e feridas ainda frescas, resultantes das automutilações; o adensamento dos restos de lixo e do cheiro; os internos e as internas pelados e excessivamente medicados; as imagens que remetem às antigas masmorras; as cenas que nos fazem virar o rosto; os sujeitos que calam; os corpos que babam. Vale dizer que eles não existem apenas em uma ou outra prisão, em um dos hospitais de custódia, mas são engrenagens constitutivas das instituições de controle, incluindo, por exemplo, unidades de internação da Fundação Casa. São como que intervalos internos, espaços intersticiais que possibilitam a operação do conjunto. Por um lado, acentuam a dor, o frio ou o calor, o cheiro, os psicofármacos, a angústia, o terror. Por outro, e de modo complementar, reduzem a luz, o ar, a água, no limite, a fala dos que agonizam em suas dependências, espelhando um processo de aniquilação da aniquilação, e isso ao infinito, afinal sempre é possível se deparar com outra porta ou outra passagem, as quais desembocam em um “buraco” ainda mais invivível do que o anterior.16

Quando se submetem homens e mulheres a tamanha degradação, em que o frio ou o calor excessivos, a ausência de água potável, a falta de luminosidade, a redução da circulação de ar, entre outras tantas crueldades, parecem conformar existências insuportáveis, o que se ergue na frente de nossos olhos é uma zona de sombra entre a vida e a morte. Em vez de uma linha que separa zonas distintas, conformando um limite fixo (morto ou vivo), um pêndulo que oscila livremente (morto-vivo). Portanto, outra economia de destruição, distinta das execuções sumárias. Aqui, o que ganha destaque não são os corpos crivados de balas, os tiros na nuca, os rastros de sangue, mas a produção lenta e progressiva de um estado de decomposição – em síntese, uma política do definhamento, cuja imagem que a ilustra é a baba que escorre pela boca. Mais do que a morte súbita ou, para recordarmos os desaparecimentos forçados, “fazer sumir”, trata-se de “fazer babar”. Em certa medida, nem a produção da morte nem a manutenção da vida, mas a fabricação do morto-vivo, que, por mais que se cruze com o extermínio, parece sugerir um processo ainda mais atroz, em que os próprios vivos se convertem numa zona de indistinção, evidenciando que a morte pode ter início antes mesmo da morte corporal; que é possível morrer antes da morte.

 

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Fábio Mallart é doutorando em Sociologia pela USP (bolsista Fapesp/Capes), autor de Cadeias dominadas: a Fundação Casa, suas dinâmicas e as trajetórias de jovens internos (Terceiro Nome/Fapesp, 2014) e coorganizador de BR 111: a rota das prisões brasileiras (Veneta/Le Monde Diplomatique Brasil, 2017).

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1 Carolina Moura, “PM confunde guarda-chuva com fuzil e mata garçom no Rio, afirmam testemunhas”, El País (Ponte), 19 set. 2018.

2 Roberta Pennafort, “‘A polícia vai mirar na cabecinha e… fogo’, diz novo governador do Rio”, O Estado de S. Paulo, 1º nov. 2018.

3 Arthur Rodrigues, “A partir de janeiro, polícia vai atirar para matar, afirma João Doria”, Folha de S.Paulo, 2 out. 2018.

4 Jussara Soares, “Bolsonaro diz que policial que mata ‘10, 15 ou 20’ deve ser condecorado”, O Globo, 28 ago. 2018.

5 Judith Butler, Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2018.

6 Adriana Vianna, “Políticas da morte e seus fantasmas”, Le Monde Diplomatique Brasil, mar. 2019. No que se refere ao valor da vida e, consequentemente, ao seu não valor, destaca-se o artigo de Roberto Efrem Filho, publicado na edição de abril de 2019. Nele, ao analisar a greve de fome de membros de movimentos sociais ligados à Via Campesina em frente ao Superior Tribunal Federal (STF), incluindo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o autor nos mostra como a resposta do Estado foi a indiferença, aceitando que tais mortes poderiam acontecer.

7 Vera Telles, “A violência como forma de governo”, Le Monde Diplomatique Brasil, fev. 2019.

8 Fábio Araújo, “Fazer sumir: o desaparecimento como tecnologia de poder”, Le Monde Diplomatique Brasil, maio 2019.

9 Carolina Grillo e Rafael Godoi, “Simulacros: a hiper-realidade do extermínio”, Le Monde Diplomatique Brasil, jun. 2019.

10 Dados disponíveis em: <https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2019/04/02/numero-de-mortes-em-confrontos-com-policiais-militares-cresce-46percent-em-marco-mostra-estudo-da-ouvidoria.ghtml>.

11 Igor Melo, “Com Witzel, RJ tem recorde de mortos em confrontos com a polícia”, UOL Rio de Janeiro, 18 jun. 2019.

12 Fábio Mallart e Rafael Godoi, “Vidas matáveis”. In: BR 111: a rota das prisões brasileiras, Veneta/Le Monde Diplomatique Brasil, São Paulo, 2017.

13 Caio Spechoto, “Aumenta número de presos mortos nas cadeias de São Paulo”, Terra, 6 ago. 2018.

14 Em linhas gerais, trata-se de espaços institucionais, ligados à Secretaria de Administração Penitenciária, nos quais se encontram homens e mulheres em cumprimento de medida de segurança, aplicada aos sujeitos que foram considerados inimputáveis ou semi-imputáveis, ou seja, que no momento em que praticaram um ato previsto pela legislação criminal não se encontravam em condições de entender a ilicitude desse ato, lembrando que, para constatar a inimputabilidade, realiza-se uma perícia psiquiátrica.

15 Os “seguros” são espaços institucionais mantidos fora dos pavilhões – estes, por sua vez, conhecidos como “convívio”. Ao mesmo tempo, essa categoria se refere aos presos e presas que cometeram atos considerados inaceitáveis por seus companheiros de detenção, como estupro, caguetagem e desrespeito às visitas.

16 Essas questões, trabalhadas aqui de maneira um tanto rápida, constituem parte importante de minha tese de doutorado, intitulada Findas linhas: circulações e confinamentos pelos subterrâneos de São Paulo, que será defendida em agosto de 2019 no Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP).

30
Ago19

Brasil vive um clima de pré-nazismo enquanto a oposição emudece

Talis Andrade

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O silêncio dos que deveriam defender a democracia pode acabar deixando o caminho aberto aos autoritários Moro, Witzel, Doria, que se sentem ainda mais fortes diante de tais silêncios

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O Brasil está vivendo, segundo analistas nacionais e internacionais, um clima político de pré-nazismo, enquanto a oposição progressista e democrática brasileira parece muda. Somente nos últimos 30 dias, de acordo com reportagem do jornal O Globo, o presidente Jair Bolsonaro proferiu 58 insultos dirigidos a 55 alvos diferentes da sociedade, dos políticos e partidos, das instituições, da imprensa e da cultura.

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E à oposição ensimesmada, que pensa que o melhor é deixar que o presidente extremista se desgaste por si mesmo, ele acaba de lhes responder que “quem manda no Brasil” é ele e, mais do que se desfazer, cresce cada dia mais e nem os militares parecem capazes de parar seus desacatos às instituições.

Há quem acredite que o Brasil vive um clima de pré-fascismo, mas os historiadores dos movimentos autoritários preferem analisá-lo à luz do nazismo de Hitler. Lembram que o fascismo se apresentou no começo como um movimento para modernizar uma Itália empobrecida e fechada ao mundo. De modo que uma figura como Marinetti, autor do movimento futurista, acabou se transformando em um fervoroso seguidor de Mussolini que terminou por arrastar seu país à guerra.

nazismo foi outra coisa. Foi um movimento de purga para tornar a Alemanha uma raça pura. Assim sobraram todos os diferentes, estrangeiros e indesejados, começando pelos judeus e os portadores de defeitos físicos que prejudicavam a raça. De modo que o nazismo se associa ao lúgubre vocábulo “deportação”, que evoca os trens do horror de homens, mulheres e crianças amontoados como animais a caminho dos campos de extermínio.

Talvez a lúgubre recordação de minha visita em junho de 1979 ao campo de concentração de Auschwitz com o papa João Paulo II tenha me feito ler com terror a palavra “deportação” usada em um decreto do ministro da Justiça de Bolsonaro, o ex-juiz Sérgio Moro, em que ele defenda que sejam “deportados” do Brasil os estrangeiros considerados perigosos.

 

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Bolsonaro, em seus poucos meses de Governo, já deixou claro que em sua política de extrema direita, autoritária e com contornos nazistas, cabem somente os que se submetem às suas ordens. Todos os outros atrapalham. Para ele, por exemplo, todos os tachados de esquerda seriam os novos judeus que deveriam ser exterminados, começando por retirá-los dos postos que ocupam na administração pública. Seu guru intelectual, Olavo de Carvalho, chegou a dizer que durante a ditadura 30.000 comunistas deveriam ter sido mortos e o presidente não teve uma palavra de repulsa. Ele mesmo já disse durante a campanha eleitoral que com ele as pessoas de esquerda deveriam se exilar ou acabariam na cadeia.

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Inimigo dos defensores dos direitos humanos, dos quais o governador do Rio, Witzel, no mais puro espírito bolsonarista, chegou a afirmar que são os culpados pelas mortes violentas nas favelas, Bolsonaro mal suporta os diferentes como os indígenas, os homossexuais, os pacíficos que ousam lhe criticar. Odeia todos aqueles que não pensam como ele e, ao estilo dos melhores ditadores, é inimigo declarado da imprensa e da informação livre.

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Sem dúvida, o Presidente tem o direito de dizer que foi escolhido nas urnas com 53% dos votos, que significaram 57 milhões de eleitores. Nesse sentido o problema não é seu. Os que votaram nele sabiam o que pensava, ainda que talvez considerassem seus desatinos de campanha como inócuos e puramente eleitoreiros. O problema, agora que se sabe a que ele veio, e que se permite insultar impunemente gregos e troianos começando pelas instituições bases da democracia, mais do que seu, é da oposição.

Essa oposição, que está muda e parece impotente e distraída, demonstra esquecer a lição da história. Em todos os movimentos autoritários do passado moderno, os grandes sacerdotes da violência começaram sendo vistos como algo inócuo. Como simples fanfarrões que ficariam somente nas palavras. Não foi assim e diante da indiferença, quando não da cumplicidade da oposição, acabaram criando holocaustos e milhões de mortos, de uma e outra vertente ideológica.

Somente os valores democráticos, a liberdade de expressão, o respeito às minorias e aos diferentes, principalmente dos mais frágeis, sempre salvaram o mundo das novas barbáries. De modo que o silêncio dos que deveriam defender a democracia pode acabar deixando o caminho aberto aos autoritários, que se sentem ainda mais fortes diante de tais silêncios.

Nunca existiram democracias sólidas, capazes de fazer frente aos arroubos autoritários, sem uma oposição igualmente séria e forte, que detenha na raiz as tentações autoritárias. Há países nos quais assim que se cria um governo oficial, imediatamente a oposição cria um governo fictício paralelo, com os mesmos ministros, encarregados de vigiar e controlar que os novos governantes sejam fieis ao que prometeram em suas campanhas e, principalmente, que não se desviem dos valores democráticos. Sem oposição, até os melhores governos acabarão prevaricando. E o grande erro das oposições, como vimos outras vezes também no Brasil, foi esperar que um presidente que começa a prevaricar e se corromper se enfraqueça sozinho. Ocorrerá o contrário. Crescerá em seu autoritarismo e quando a oposição adormecida perceber, estará derrotada e encurralada.

Nunca em muitos anos a imagem do Brasil no mundo esteve tão deteriorada e causando tantas preocupações como com essa presidência de extrema direita que parece um vendaval que está levando pelos ares as melhores essências de um povo que sempre foi amado e respeitado fora de suas fronteiras. Hoje no exterior não existe somente apreensão sobre o destino desse continente brasileiro, há também um medo real de que possa entrar em um túnel antidemocrático e de caça às bruxas que pode condicionar gravemente seu futuro. E já se fala de possíveis sanções ao Brasil por parte da Europa, em relação ao anunciado ataque ao santuário da Amazônia.

O Brasil foi forjado e misturado com o sangue de meio mundo que o fizeram mais rico e livre. Querer ressuscitar das tumbas as essências de morte do nazismo e fascismo, com a vã tentativa da busca da essência e pureza da brasilidade é uma tarefa inútil. Seria a busca de uma pureza que jamais poderá existir em um país tão rico em sua multiplicidade étnica, cultural e religiosa. Seria, além de uma quimera, um crime.

Urge que a oposição democrática e progressista brasileira desperte para colocar um freio nessa loucura que estamos vivendo e que os psicanalistas confirmam que está criando tantas vítimas de depressão ao sentirem-se esmagadas por um clima de medo e de quebra de valores que a nova força política realiza impunemente. Que a oposição se enrole em suas pequenezas partidárias e lute para ver quem vai liderar a oposição em um momento tão grave, além de mesquinho e perigoso é pueril e provinciano.

Há momentos na história de um país em que se os que deveriam defender os princípios da liberdade e da igualdade cruzam os braços diante da chegada da tirania, incapazes até de denunciá-la, amanhã pode ser tarde demais. E então de nada servirá chorar diante dos túmulos dos inocentes.

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26
Ago19

Morismo prova que pode ser pior e mais reacionário do que bolsonarismo

Talis Andrade

Morismo nas ruas: supostos defensores da lei não têm pejo nenhum em atacar as instituições 

(Foto: Leonardo Augusto/Estadão)

 

A extrema-direita voltou às ruas neste domingo. Desta feita, sem o apoio de parte dos grupos que dão suporte a Jair Bolsonaro nas redes sociais, embora seja legítimo apostar que praticamente a totalidade dos que se manifestaram tenha votado no agora presidente, merecendo, pois, a qualificação de "bolsonarista". A pauta? Contra alguns ministros do STF e os presidentes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, respectivamente; contra o texto que muda a lei que pune abuso de autoridade; em defesa da Lava Jato e de Sergio Moro e em apoio, pasmem!, ao nome de Deltan Dallagnol para a Procuradoria Geral da República.

Vários grupos convocaram as manifestações, bastante acanhadas (leia post), mas os que mais se destacam são o Vem Pra Rua — sempre mais à direita, depois da aproximação com o Partido Novo — e o Nas Ruas, cuja principal integrante é a deputada Carla Zambelli (PSL-SP). Vocês já devem ter percebido que o condomínio do bolsonarismo-morismo rachou. Ainda que os manifestantes deste domingo professem as duas crenças, a verdade é que os sacerdotes das duas religiões já não se entendem.

Conforme antevi há tempos, as duas concepções de Estado policial acabariam se chocando. Bolsonaro não é um gênio, mas não é besta. E percebeu que o aparato que Sergio Moro começou a montar desde o início da Lava Jato, unindo num único aparelho, a operação em si, Polícia Federal, MPF, Receita e Coaf, ameaçava o seu próprio governo e o fazia refém de um subordinado.

Aqui, caros leitores, algo importante precisa ser dito: ainda que esse estado paralelo que Moro e a Lava Jato tentaram montar não interesse a Bolsonaro, cumpre dizer que nem tudo o que é ruim para o presidente é bom para o Brasil, os brasileiros e a democracia. Um Estado policial não interessa a ninguém que defende valores compatíveis com a civilização democrática.

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A transferência do antigo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), rebatizado de Unidade de Inteligência Financeira (UIF) para o Banco Central está correta. A determinação de apurar uma lista de investigados, definida previamente pela Receita, ao arrepio de indícios de irregularidades, está correta. A proibição da quebra de sigilos bancários sem autorização judicial está correta. E pouco me importa se isso é bom ou ruim para Bolsonaro e um de seus filhos — no caso, Flávio Bolsonaro. Não são eles que decidem as minhas escolhas. Eles passam. A institucionalidade fica.

Sim, Bolsonaro também resolveu se meter na Superintendência da PF no Rio e nas chefias da Receita da Barra da Tijuca e do Porto de Itaguaí, principal porta de entrada de armas ilegais no país. Ninguém sabe por quê. Mas isso nada tem a ver com o eventual diálogo do presidente com os demais Poderes.

Sim, é certo que a totalidade dos manifestantes integra a base popular de apoio ao governo — em São Paulo, os palanqueiros fizeram questão de deixar isso claro, hostilizando, por exemplo, jornalistas independentes, mas não é menos verdade que o bolsonarismo de raiz, o mais sectário, o mais ideológico e, como posso dizer?, o mais preparado para perceber os riscos que corre o presidente evitou dar suporte à manifestação.

Ou por outra: ainda que fosse elevadíssima a concentração de bolsonarismo nos protestos, a manifestação acanhada deste domingo foi, antes de mais nada, moro-lava-jatista. A fala de Rogério Chequer, fundador do Vem Pra Rua e candidato do Novo ao governo de São Paulo, não deixa dúvida:

Existem alguns políticos que a gente torce para que mudem o Brasil que estão caindo nesta roubada. Bolsonaro não pode continuar se aproximando de (Davi) Alcolumbre (presidente do Senado, do DEM-AP) e do (Dias) Toffoli (presidente do STF). As atitudes recentes indicam um descolamento [de Bolsonaro em relação ao combate à corrupção]. Há ingerências na Receita Federal, na Polícia Federal, no Coaf. Estamos vivendo o momento de maior ameaça ao combate à corrupção. Maior até do que em outros governos."

Sabem o que isso quer dizer? A agenda moro-lava-jatista, que estava em bem poucas ruas neste domingo, consegue ser ainda mais reacionária, atrasada e perigosa do que a do próprio bolsonarismo-raiz, que, por seu turno, decidiu investir no ramo do humor. Os profissionais da área que se cuidem.

 
19
Ago19

Bolsonaro, Doria e Witzel: brucutus no poder

Talis Andrade

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Por Fernando Brito

O Globo publica hoje uma “coletânea” dos desaforos, agressões e xingamentos presidenciais. É obra alentada, mas não importa o grau da baixaria, nada mais surpreende no ex-capitão, exceto o fato de temo-lo na Presidência da República.

Grosseiro, primário, preconceituoso, simplista, incompetente, autoritário, nepotista, desumano, insensível, sabujo, seriam necessárias páginas para listar defeitos e deformações da figura presidencial. O fato é que estas “qualidades” sempre foram as dele e, portanto, seu poder não se construiu sozinho.

Discute-se muito como pode Jair Bolsonaro arrebanhar tamanho núcleo de fanáticos e , a partir dele, desfechar seu bem-sucedido assalto ao poder.

Fala-se, com razão, nas decepções com o petismo, nos anos de crise econômica, nas manipulações judiciais abjetas conduzidas contra Lula.

Sim, isso explica a existência dos “minions”, dos fanáticos incondicionais, da seita bruta e burra disposta a tudo pelo “Mito”.

Mas isto é pouco e penso que, com a sensibilidade aguda dos artistas, o chargista Renato Aroeira nos dá resposta mais completa no desenho que publica hoje e que reproduzo acima.

O fenômeno Bolsonaro, em muito, se explica quando se percebem seus companheiros de troglodismo estúpido na política, como Wilson Witzel e João Doria.

Representam, cada um a seu modo – ou à sua falta de modos – os três grupos que exponenciaram sua vileza e passaram a conduzira a vida brasileira.

Bolsonaro é uma fusão do militarismo tosco, do policialismo, dos recalques e rancores de parte de uma classe média baixa, que precisa atribuir a alguém a sua incapacidade de ascensão e escolhe o inimigos os que lhe dita o ‘senso comum”: os pobres, os negros, os nordestinos, os políticos, os governantes, todos eles reunidos sob os anátemas de “bandidos”, indolentes ou corruptos. Quando não os enquadram assim, vão todos para uma categoria vaga de anticristãos: os comunistas, os gays, os drogados…

É gente que trata como heresia qualquer dissensão sobre as suas verdades absolutas e prontas, que ejetam em frases conclusivas com as quais se protegem de qualquer indagação ou tentativa de argumentação: raciocinar é o mesmo que conceder à dúvidas e dúvida um pecado a ser permanentemente exorcizado.

Doria é o retrato da pobreza cultural que se grassa entre a elite rica no Brasil. Onde o cardigã substitui a inteligência, o ganhar dinheiro preenche qualquer necessidade de saber, onde Miami tomou o lugar dos museus de Paris mas, ao contrário das oligarquias que prevaleceram nos dois primeiros terços do século passado, não há mais qualquer simpatia pela construção de uma cultura brasileira através da literatura, das ciências sociais, das artes. Basta-lhes a construção de “celebridades”.

Como estofo, basta-lhe o brilho dos salões e tudo rescende a transitoriedade: seus negócios são rápidos, engordado por “tacadas”, aplicações, investimentos que, ao contrário dos dos velhos capitães de indústria, não guardam mais relação entre dono e propriedade: são executivos, já não vivem de produzir nem mesmo como donos.

Por último, Witzel encarna o troglodismo estatal: o dos juízes, dos procuradores, o das “autoridades” que transformaram – e ainda estão transformando – o Estado brasileiro numa máquina de repressão e de repressão, onde as razões absolutas de “combate ao crime” justifica e coleta apoio às maiores brutalidades contra os pobres.

São os ferozes condutores das matilhas policiais e usam da ferocidade para esconder a ignorância, a incapacidade de serem, como deveriam, ser condutores da civilização, do progresso, da felicidade social. Uma dezena de negros mortos numa viela passa a ser mais importante, como ato de governo, que mil crianças em boas escolas, que mil pacientes bem atendidos na rede pública, que mil famílias terem uma casa digna, pois a missão essencial do estado e o sorvedouro de seus recursos é, e deve ser, a miragem da segurança pública, como se a selva pudesse ser um lugar seguro.

Os três se apresentam como candidatos a 2022, para que o Brasil continue “avançando” para a pré-história.

Na nossa capacidade de reunir humanidade e lucidez é que reside a chance de terem sido um acidente e não uma fatalidade.

 

17
Ago19

FROTA CONFIRMA PSDB E DIZ QUE BOLSONARO TEM 'MILÍCIA'

Talis Andrade

Deputado disse que seus amigos de academia protegiam Bolsonaro, que tinha medo de CUT e MST

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por Guiherme Amado

"Estou aliviado de não ter mais o peso Bolsonaro em minhas costas. Isso não é ser Judas, como a milícia dele tenta pintar", disse o deputado federal Alexandre Frota em conversa com a coluna, emendando: "Ele fala que tem de fazer cocô dia sim, dia não, para preservar a natureza. Melhoraria nossas vidas ele não fazer cagada todos os dias".

Depois de passar três dias com sua família, indo ao cinema e levando seu filho ao futebol, Frota se lembrou do "sacrifício" que fez para Bolsonaro desde 2013. E disse que Bolsonaro se amedrontava com movimentos de esquerda.

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PSDB troca Aécio por Frota

 

Em vídeo, Frota rebate Bolsonaro: 'Hipocrisia'

"Muitas vezes ele ficava assustado, com medo da CUT, do PT, do MST, e eu trazia amigos de minha academia para fazer a segurança dele. Eu o buscava no aeroporto, disponibilizava carro blindado. Levei-o a rádios e televisões, levei-o para restaurantes populares. Em Curitiba eu o carreguei nos ombros do aeroporto ao trio elétrico. Saí na porrada com o PT por causa dele, participei de todas as manifestações. Dobrei várias pessoas que não queriam votar nele. Eu acreditei", disse o deputado. [Transcrevi trechos]

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08
Ago19

QUANDO VOCÊ PENSA QUE A JUSTIÇA CHEGOU AO FIM DO POÇO, VEM MAIS LAMA!

Talis Andrade

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por Emanuel Cancella

---

Lebbos autoriza transferência de Lula para São Paulo, como pediu PF do Paraná (5).

 

A sociedade aguardava da justiça a decisão de como propôs o Conselho da OAB para um julgamento justo, afastar Moro e Dallagnol para serem julgado sem uso da maquina pública em defesa própria.

 

E muitos brasileiros queriam saber onde ficariam presos Moro e Dallgnol.  Muitos apostavam que os cabeças da vaza jato, Moro e Dallagnol iriam para as celas extras construídas por Moro, chefe da lava Jato.

 

Mas não eles, Moro e Dallagnol,  ainda tem folego, mesmo desmoralizados diante da nação.

 

A transferência de Lula para São Paulo é um insulto para opinião pública do Brasil e do mundo. Todos aguardavam depois de 500 dias de prisão politica do ex presidente, sua liberdade.

 

João Dória governador de São Paulo, aquele que quando prefeito paulista jogava agua fria em mendigo e tomava o cobertor quem sabe para matar o povo de rua de frio, comentou a transferência de Lula:

 

“Terá a oportunidade de fazer algo que jamais fez na vida: trabalhar!" Lula trabalhou duro e levou nossa economia ao 6º passando a Inglaterra (3). Lula não só trabalhou como em seu governo de forma inédita atingimos o pleno emprego no país (4).

 

Outro que comentou a transferência de Lula foi o juiz Marcelo Bretas, chefe da lava Jato no Rio, Bretas é aquele juiz que ficou desmoralizado quando a sociedade descobriu que ele recebia 2 auxílios moradias um dele, e outro da esposa também juíza, morando ambos em baixo do mesmo teto e o casal  residindo na mesma comarca que labutam. Disse Bretas sobre a decisão de transferência de Lula: “Silencioso e eficaz” (1).

 

Dr Bretas, na verdade silencioso para a sociedade era seu imoral auxilio moradia que veio a público, que, aliás o ex-presidente Lula quando presidente proibia, mas o ministro, do STF legislando em causa própria e familiar, Luiz Fux liberou o que ficou conhecido como a farra do auxilio moradia!

 

Vamos construir o Lula Livre nas ruas, pois nos palácios da justiça habita tudo, corrupção, nepotismo, desrespeito a CF, como a prisão de Lula em segunda instancia. A liberdade concedida pelo STF para o governo Bolsonaro vender a Petrobrás, sem licitação e sem passar pelo Congresso Nacional. Mesmo que vendam como querem fazer com a Cessão Onerosa do pré-sal e fizeram com a NTS (dutos do sudeste) vendida a preço de um fusquinha aquilo que equivaleria a uma frota de BMW.  Justiça no Brasil só com o povo nas ruas!

 

Fonte:

1https://revistaforum.com.br/politica/lula-livre/marcelo-bretas-apos-decisao-que-transfere-lula-para-tremembe-silencioso-e-eficaz/

2https://www.brasil247.com/brasil/doria-insulta-lula-e-diz-que-agora-ele-podera-trabalhar

3https://istoe.com.br/184334_BRASIL+ULTRAPASSA+REINO+UNIDO+E+SE+TORNA+6+ECONOMIA+DO+MUNDO/

4https://www.istoedinheiro.com.br/noticias/negocios/20110105/pais-pleno-emprego/3872

5https://jornalggn.com.br/justica/lebbos-autoriza-transferencia-de-lula-para-sao-paulo/

 

23
Jun19

MARCHA PARA JESUS EM SÃO PAULO CAPITAL COM MAIS DE CEM MIL MORADORES DE RUA

Talis Andrade

O JAZIGO

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por Fernando Brito

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Não surpreendem a ninguém os números publicados pela Folha, com base em levantamento da prefeitura paulistana, que reveram ter quase dobrado a população de rua no centro de São Paulo.

Mais de 100 mil, ou muito mais, porque os próprios recenseadores admitem que não há como chegar a cada vão de viaduto.

O número de indivíduos abordados não representa a quantidade de pessoas que vive de fato nas ruas. (…) há, por exemplo, moradores da periferia que passam dias e noites vivendo nas calçadas da região central em busca de doações, mas em parte do mês retornam a suas casas, pessoas que estão de passagem pela cidade, entre outras situações”.

Não é diferente no Rio e nem deve ser na maioria das grandes cidades brasileiras.

Qualquer um que passe pelas calçadas da Zona Sul carioca percebe que explodiu o número de pessoas deitadas sobre caixas de papelão e cobertas com trapos.

Mães com crianças, implorando aos passantes que lhes comprem um pacote de balas, homens pedindo que se lhes ajude a comprar uma refeição.

Não é novidade, não mesmo, mas era uma imensa e feia ferida deste país que vinha cicatrizando lentamente, como sempre é com as grandes chagas.

De alguma forma, timidamente, a sociedade, através do Estado – e, mesmo eu não sendo seu fã, admito, das ONGs – dava-lhes o remédio do trabalho e da consciência de que, sim, imundos, maltrapilhos, miseráveis, e, ainda que, como escreveu Drummond, estejam “vagabundos que o mundo repeliu, mas zombam e vivem”,  continuam sendo seres humanos.

Desde o inverno da selvageria, já não são. São, oficialmente, va-ga-bun-dos, suspeitos da droga e do furto, quando não apenas incômodos a nos pedir um cigarro ou uma moeda.

Para prová-lo, dizem que só querem dinheiro, comida, sexo e bebida. Tudo o que nós, os “normais”, afinal, queremos, é o seu pecado.

Inclinam-se em ângulos as soleiras, para impedir que se sentem junto as vitrines do comércio, espetam-se com pedras ou tapam-se com blocos as pontes, para que não se deitem. Nem isso, o descanso precário e duro do cimento, podem ter.

Inútil, eles estão por aí, e por aí mais numerosos estarão a cada dia em que continuarem a dizer que este país precisa empobrecer para crescer, precisa viver pior para poder, num imaginário dia distante, viver melhor, precisa ser selvagem para ser seguro.

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Assim como não os matarão, não matarão o sentimento que nos civiliza, o da solidariedade e o de sermos capazes de sofrer com o sofrimento alheio, como sofreu o adolescente que tirou o agasalho que usava num junho como este, há mais de 40 anos, para dar a um homem velho que tiritava de frio tendo apenas um muro frio proteger-lhe as costas. Perdeu a única vaidade de roupa que já teve, mas ganhou o que lhe aqueceria o peito por toda a vida.

Olhem a foto da Folha, que reproduzo.  São como corpos jazidos de uma guerra, de uma chacina.

Para muitos, com o defeito de estarem vivos, pois mortos atrapalhariam menos o  sossego público.

Mas não estão.

Um dia, deixaremos de ser maus e brutos, e meu país dará, de novo, a mão para que seus filhos se levantem.

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02
Mar19

Lula chega ao velório do neto cercado pela polícias federal, civil e militar de SP

Talis Andrade

 

 

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou, neste sábado (2), sob custódia da polícia, ao cemitério La Colina, em São Bernardo do Campo, para o velório de seu neto Arthur, que faleceu aos sete anos em decorrência de meningite.

Lula chegou ao cemitério às 11h00 em um comboio de veículos pretos, escoltado por agentes da Polícia Federal, para a cerimônia de despedida do menino.

Lula ficou menos de uma hora e meia no local, por determinação da juíza Carolina Lebbos, e proibido de discursar, e falar com a imprensa. Também proibidas fotografias de Lula junto do caixão do neto. Notadamente de Lula chorando, para evitar, como recomendou o deputado federal e policial Eduardo Bolsonaro: "o larápio em voga posando de coitado".

A mando do governador Doria,

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a Polícia Militar improvisou a colocação de grades para manter o povo distante de Lula.

A presença de mais de uma centena de pessoas no local, porém, foi discreta em relação a mobilizações anteriores - a pedido de aliados do próprio petista, que se comprometeu a manter detalhes de seu roteiro sob sigilo. Parecia que havia mais policiais fardados e à paisana do que civis. 

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Lula saiu do cemitério por volta das 13h - e seria levado de volta para a PF em Curitiba.

Caciques petistas ou próximos do ex-presidente estiveram no velório ou na cremação, como Fernando Haddad, Dilma Rousseff, Gleisi Hoffmann, além do líder do PSOL Guilherme Boulos.

O garoto Arthur visitou o avô por duas vezes

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na sede da PF em 2018. 

 

Familiares e amigos se despediram do menino em um caixão branco aberto. À frente, foram colocados brinquedos, bola de futebol e um par de chuteiras.

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Faltava o ipad que os policiais de Sérgio Moro deram sumiço. A sala estava repleta de coroas de flores, enviadas por políticos e sindicatos, notadamente da Europa.

 

Lula não respondeu às provocações do filho de Jair Bolsonaro, nem de sua líder na Câmara dos Deputados. 

 

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Narra a jornalista Joana Oliveira no El País, Espanha:

 Por volta das 11h, Lula chegou ao Cemitério Jardim das Colinas, em São Bernardo do Campo, seu berço político na Grande São Paulo, escoltado pela Polícia Federal. Parentes, amigos e lideranças políticas acompanharam a cerimônia em meio a um esquema de segurança reforçado e com a presença de um grupo pequeno de apoiadores. Arthur era filho de Sandro, herdeiro do líder petista, e de Marlene, e foi cremado por volta do meio dia. O ex-presidente deixou o local por volta das 13h e retornou ao Paraná.

Não houve incidentes em uma jornada com alta carga emocional em que o ex-presidente esteve apenas durante poucos momentos exposto ao público e às câmeras da imprensa. Logo após a entrada do petista no cemitério, seguranças fecharam os portões do local e muitos não conseguiram entrar para acompanhar o velório. “Lula, estamos juntos”, gritavam os apoiadores. Antes do presidente, por volta das 9h30, chegou a ex-presidenta Dilma Rousseff, que foi se reunir com os familiares do ex-presidente em uma sala reservada. "Lula chorou de fato ao se despedir e agradecer a todos. Perante seu neto, ele tomou um compromisso de que vai comprovar a inocência dele e nós esperamos que isso ocorra o quanto antes", contou o ex-senador Suplicy aos jornalistas no final da cerimônia fúnebre.

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