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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

28
Fev20

Deputada Carla Zambelli sobre ato de 15 de março contra o Congresso

Talis Andrade

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A deputada Carla Zambelli (PSL-SP) disse ao Congresso em Foco que estará nas manifestações contra o Congresso Nacional convocadas para o próximo dia 15. Ela compartilhou em suas redes sociais imagens de convocação para o ato e com crítica ao governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que classificou o movimento como antidemocrático. “O Congresso ficará contra o povo?”, questionou a deputada. Que povo? As milícias? Os policiais amotinados? A deputada Zambelli devia ser cassada por tramar o fechamento do Congresso e do STF, Superior Tribunal Federal. As manifestações golpistas são palacianas, e o primeiro "foda-se" foi do general da reserva Augusto Heleno. 

> “Dia do foda-se” e greve da PM tensionam debate político pós-Carnaval

 

Segundo ela, não há motivo para os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), reagirem negativamente contra Bolsonaro por causa da manifestação. “Se Maia e Alcolumbre forem inteligentes, não. Pois o Executivo não teve responsabilidade sobre esta convocação”, declarou. Inteligentes?  

A oposição articula reunião para discutir o assunto com a presença de Maia e Davi Alcolumbre. A revelação sobre o compartilhamento do vídeo contra o Congresso foi feita pela colunista Vera Magalhães, do jornal O Estado de S. Paulo.

Bolsonaro confirmou que postou o vídeo, depois negou, como sempre faz quando enfrenta reações. 

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15
Fev20

Petardos: As revistas e a morte do miliciano

Talis Andrade

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por Altamiro Borges

Capa da 'Veja', uma das revistonas que ajudou a chocar o ovo da serpente fascista no país: "O que ele sabia? Fotos do miliciano Adriano da Nóbrega mostram que os tiros contra o ex-capitão do Bope foram dados à curta distância, fortalecendo a suspeita de 'queima de arquivo'”. 

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Capa da revista IstoÉ, também apelidada de QuantoÉ nos meios jornalísticos: "Queima de arquivo. A execução do miliciano Adriano da Nóbrega, cujas ligações com a família Bolsonaro se tornaram evidentes, abre um novo capítulo nas investigações". 

 

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Capa da 'CartaCapital', a única revista semanal que nunca compactuou com a onda fascistizante no país: "Morto não fala. Abatido em circunstâncias estranhas, o ex-PM Adriano da Nóbrega era uma prova de que o Brasil tem um presidente miliciano". 

*** 

A revista Época relata que João Doria, o ambicioso tucano que sonha com a presidência, decidiu vender o seu jatinho particular por temer o desgaste eleitoral. "O governador de SP havia comprado a aeronave com financiamento do BNDES e se tornou alvo de críticas de Bolsonaro pela operação". 

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Segundo a matéria, a aeronave Legacy 650 de prefixo PR-JDJ - referência às iniciais de João Doria Jr. - foi vendida por cerca de US$ 10 milhões. "Ela é equipada com Wi-fi, cobertura global para ligações e tela de alta definição... Com motores potentes, o jato atinge até 987 km/h". 

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Ainda de acordo com a Época, o jatinho de João Doria "foi adquirido a juros subsidiados... Em agosto do ano passado, BNDES divulgou lista de 134 contratos para financiamento de jatos da Embraer, num total de R$ 1,921 bilhão. No caso de Doria, o empréstimo foi de R$ 44 milhões". 

*** 

Sem alarde, a Época até admite que o "Luciano Huck também foi beneficiado com o programa... O subsídio do BNDES custou R$ 693 milhões em valores corrigidos. Após a divulgação, o presidente Jair Bolsonaro acusou Doria de 'mamar' na era PT e o chamou de 'amigão do Lula e da Dilma'". 

*** 

O "marreco de Maringá" segue omisso sobre a morte de Adriano da Nóbrega, o miliciano ligado ao clã Bolsonaro. Até Elio Gaspari, da Folha, ironiza a desculpa do ministro para ter excluído o bandido da lista de criminosos mais procurados do país. "Conta outra, doutor”, debocha. 

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Quem também critica o ex-juiz Sergio Moro é o jornalista Juan Arias, do diário espanhol El País. “Como explicar o silêncio do ministro da Justiça até agora sobre a morte do importante miliciano, quando em outras ocasiões parabenizou a polícia por suas ações contra a violência”? 

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Nota na Folha revela que a operação que resultou na morte de Adriano Nóbrega teve conhecimento prévio do Ministério da Justiça. “Dias antes da ação, uma das secretarias da pasta de Sergio Moro sondou a possibilidade de apoio de um helicóptero e alguns efetivos". Haja coincidências! 

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O site UOL informa que os deputados Filipe Barros (PSL-PR) e Coronel Tadeu (PSL-SP) surgem como administradores de grupos de WhatsApp onde são compartilhadas fake news e ataques contra integrantes do Congresso e do STF. Eles são da tropa de choque do "capetão". Eles serão punidos, Moro? 

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Paulo Guedes, o parasita do capital financeiro bajulado pela mídia rentista, é tão fascista e escroto quanto Bolsonaro. O próprio Estadão registra: "Guedes critica dólar baixo: 'Empregada doméstica indo pra Disneylândia. Peraí'". O sujeito é a típica expressão da cloaca burguesa! 

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Milhões de desempregados. Milhões nas filas do INSS. Milhões sem o Bolsa Família... E bilhões para os banqueiros. Itaú Unibanco informa que seu lucro líquido somou R$ 28,4 bilhões em 2019, alta de 10,2% em relação a 2018. O Brasil é o inferno do povão e o paraíso dos banqueiros! 

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Os ricaços - que bancaram o golpe contra Dilma, que levou ao poder a quadrilha de Michel Temer e resultou na vitória eleitoral do "capetão" fascista - realmente não têm do que reclamar. Além dos banqueiros, os diretores das corporações empresariais estão ganhando muita grana. 

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Pesquisa da KPMG com 223 megaempresas no Brasil aponta que seus diretores ganharam em média R$ 2,8 milhões em 2019. Já a remuneração anual dos conselheiros de empresas subiu de R$ 426 mil em 2018 para R$ 541 mil em 2019. Essa cloaca ama Bolsonaro, como atestam várias pesquisas.

 

24
Jan20

Moro ameaça mas não vai deixar o governo

Talis Andrade

por Fernando Brito

Diz a máxima política que não se nomeia aquele que não se pode demitir.

Jair Bolsonaro, em busca de legitimação, o fez, nomeando Sérgio Moro ministro da Justiça, para sinalizar um suposto combate à corrupção e um conflito de morte – que o elegera – com Lula e o PT.

Está, agora, às voltas com a complicada resolução desta equação que começou, entendam-me os que aprenderam limites da função matemática no 2° grau, para o que valia desde que houvesse a submissão ao projeto político bolsonarista.

Está mais que claro que Moro constrói um projeto, no governo Bolsonaro, um projeto de candidatura.

Não será exagero dizer que o “morismo” está mais fora do governo – e nem tanto fora do poder – do que dentro.

Moro tem mais de um partido – o Podemos e o Novo-, o resto de outro, o PSL, e retalhos de vários outros.

E acha tem a Globo, o que é uma temeridade.

Não sabe se terá a artilharia de alto calibre, mas não tem a tropa. A fardada e nem a do “homem macho”, que pertencem ao ex-capitão.

Este é o temor de Moro: quase três anos sem aquilo que lhe deu o que tem hoje: o poder.

Está aí o exemplo de Joaquim Barbosa – lembram de “o menino pobre que mudou o Brasil”?

Se pagar para ver o desafio em que Moro o coloca, demitir-se no caso e perder os poderes que hoje tem, afundará no pântano onde estão Doria e Huck.

Pode ser talvez o primeiro entre eles, o que não é nada.

Já Bolsonaro terá tempo de construir um novo “xerifão”, posto para o qual se insinua, expressamente, seu amigo Alberto Fraga.

Por tudo isso, é improvável que Moro se aventure a um lance “heróico” de abandonar o Ministério da Justiça, como sugere Bela Megale, em O Globo.

Moro é um rato e ratos apenas roem.

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06
Jan20

Letalidade policial, massacres e criminalização da pobreza

Talis Andrade

Polícia mata cada vez mais nas periferias; mortes batem recorde em presídios do Norte; caso Marielle segue sem solução

Igor Carvalho
 
Manifestantes denunciam ação policial resultou na morte de nove jovens frequentadores do baile funk em Paraisópolis, em São Paulo (SP) - Créditos: Igor Carvalho
Manifestantes denunciam ação policial resultou na morte de nove jovens frequentadores do baile funk em Paraisópolis, em São Paulo (SP) / Igor Carvalho
 

Com a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência e de Sergio Moro ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, o discurso da truculência e da violência ganharam eco em todo o país. O reflexo da filosofia pregada pela família que passou a habitar o Palácio do Planalto pode ser visto nas polícias do país. Durante o ano de 2019, foram diversos os casos de letalidade policial e abordagens violentas que chocaram a população. 

São Paulo e Rio de Janeiro puxam a fila de casos emblemáticos de letalidade policial. Não é à toa. Os governadores João Doria (PSDB) e Wilson Witzel (PSC), mesmo tendo desfeito durante o ano a aliança que haviam formado com Bolsonaro para se eleger, mantiveram o discurso de uso da força para controle social.

massacre de Paraisópolis, em São Paulo, encerrou um ano de críticas à atuação policial no estado. O desaparecimento de Lucas Eduardo Martins, de 14 anos, é a radiografia que revela o comportamento adotado pela corporação paulista. 

No Rio de Janeiro, Witzel chegou a afirmar que a polícia “deveria mirar na cabecinha e… fogo”. As instruções parecem surtir efeito na PM carioca, que em dez meses matou mais do que em qualquer ano inteiro desde o início dos registros, em 1998.

A violência nos presídios do norte do país também seguiu como anunciada. Somados, os massacres nas penitenciárias de Manaus, no Amazonas, e Altamira, no Pará, chegam a 112 execuções. As brigas entre facções pelo controle das unidades prisionais escancaram a ausência do Estado e a falência da política de encarceramento em massa. 

No início do ano, um massacre em uma escola da Suzano, na região metropolitana de São Paulo, deu uma ideia de como pode comportar-se uma sociedade armada. No Congresso Nacional, o governo tentou garantir o porte e posse de armas para os cidadãos, mas foi derrotado. 

Esta retrospectiva vai tratar dos acontecimentos mais marcantes da área de segurança pública neste primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro.

Marielle Franco

Quando o assassinato da ex-vereadora Marielle Franco completava um ano, no dia 12 de março deste ano, a Polícia Civil e o Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) interromperam o silêncio e a inércia de 12 meses e prenderam o policial reforma Ronnie Lessa, de 48 anos, e o ex-policial militar Élcio Queiroz, de 46 anos, pela execução da parlamentar e seu motorista, Anderson Gomes. 

A detenção dos dois suspeitos de assassinarem Marielle desencadeou os próximos passos da investigação. A pressão para que o nome do mandante fosse revelado surtiu efeito e a Polícia Federal indicou o ex-deputado estadual Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, como principal suspeito de ordenar o crime político. 

Brasil de Fato revelou que a família de Brazão recebeu passaportes diplomáticos do Itamaraty, órgão subordinado ao Ministério das Relações Exteriores, já no governo de Jair Bolsonaro. 

Meses depois, em novembro, o depoimento do porteiro do condomínio de Ronnie Lessa, onde também vive Jair Bolsonaro, dominou a mídia brasileira e internacional ao associar o nome do presidente ao assassinato da ex-vereadora. 

De acordo com o porteiro, Élcio Vieira de Queiroz, acusado de dirigir o carro que perseguiu e encurralou as vítimas, foi autorizado a entrar no condomínio na tarde do assassinato depois de dizer ao porteiro que iria visitar a casa de Bolsonaro, no número 58.

Massacre de Suzano

O município de Suzano, na região metropolitana de São Paulo, acordou no dia 13 de março surpreendido pela notícia de tiros disparados no interior da Escola Estadual Raul Brasil. Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, de 25, entraram atirando nas salas de aula e corredores da unidade. 

Os dois ex-alunos do colégio assassinaram sete pessoas, dois estudantes e duas funcionárias da escola. Minutos antes de invadirem o colégio, já haviam assassinado o proprietário de uma loja de carros na região. Após o massacre, Taucci matou Castro e se suicidou. 

Tiros contra músico negro

O músico Evaldo dos Santos Rosa morreu após militares dispararem mais de 80 vezes contra o seu carro, em Guadalupe, na zona norte do Rio de Janeiro, no dia 7 de abril. O catador Luciano Macedo, que passava pelo local, também foi atingido e faleceu. 

Os agentes do Exército afirmaram que Macedo portava uma arma e assaltava um carro na região. Para o Ministério Público, a versão dos oficiais é “fantasiosa”. Nenhuma arma foi apreendida na operação. 

Chacinas em presídios 

O Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus, no Amazonas, foi palco da primeira grande chacina do ano nos presídios brasileiros. Ao todo, 55 presos morreram na unidade, que é privatizada. A disputa entre membros da mesma facção pelo controle do grupo culminou nas execuções. 

Em julho, no Centro de Recuperação Regional de Altamira, no Pará, 57 presos morreram no confronto entre duas facções pelo controle da unidade. Do total, 16 homens foram decapitados. O massacre é o maior ocorrido em um mesmo presídio desde o episódio do Carandiru, quando 111 pessoas morreram. 

Posse de arma

Promessa de campanha de Jair Bolsonaro, o decreto que amplia a posse e porte de arma foi barrado pelo Senado em 19 de junho deste ano, por meio de um projeto legislativo.

Com o placar de 47 votos a 28, os senadores impuseram uma dura derrota ao governo, ao não permitir que diversas categorias, como jornalistas, caminhoneiros, advogados, entre outros, pudessem carregar armamento letal. O texto seguiu para a Câmara, onde é objeto de negociações entre governo e oposição e deve ser votado em 2020. 

Criminalização da pobreza

Acusados de extorsão e formação de grupo para prática criminosa, quatro integrantes de movimentos de moradia de São Paulo, foram presos no dia 29 de junho. Sidney Ferreira da Silva, Edinalva Silva Ferreira, Angélica dos Santos Lima e Jacine Ferreira da Silva, conhecida como Preta Ferreira. A prisão de Preta motivou uma campanha por sua liberdade que ganhou as redes sociais e as ruas. 

Preta Ferreira e Sidney Ferreira da Silva passaram 109 dias presos e foram soltos em 10 de outubro. “Eu estou livre, sou inocente. Deus é justo. Agora, vamos trabalhar para provar minha inocência e as dos demais.”

 



Ágatha Vitória Sales Félix, de oito anos foi baleada por um tiro de fuzil, no Complexo Alemão 

Ágatha

O caso mais emblemático da política de segurança pública adotada pelo governador Wilson Witzel (PSC) é o assassinato da menina Agatha Vitória Sales Félix, de oito anos. 

A criança foi baleada pelas costas, no Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro, quando estava dentro de uma Kombi que fazia o transporte de moradores da comunidade. O caso ganhou grande repercussão nacional. 

Caso Ricoy

Um jovem negro, desnudo, sendo chicoteado com fios elétricos por seguranças do Ricoy Supermercado é uma das cenas mais impressionantes de 2019. O caso foi revelado em setembro, mas não há, ainda, precisão sobre a data do episódio. A vítima era acusada de ter furtado uma embalagem de manteiga. 

Semanas depois, o Brasil de Fato revelou outro caso de tortura dentro de outra unidade do Ricoy Supermercado, também na zona sul de São Paulo. Dessa vez, seguranças do comércio torturam psicologicamente uma criança e repetem as sessões de chicotamento de outro homem. 

No dia 12 de dezembro, o juiz Carlos Alberto Côrrea de Almeida Oliveira, da 25ª Vara Criminal de São Paulo, inocentou os seguranças do crime de tortura e condenou os réus por lesão corporal. 

::Ricoy, Extra e Habib’s: A violência da segurança privada no Brasil::

 



Protesto em frente ao supermercado Ricoy, em setembro (Foto: Igor Carvalho)

Caso Lucas

Quinze dias separaram o desaparecimento de Lucas Eduardo Martins dos Santos, de 14 anos, em Santo André, na região do ABC Paulista, da confirmação de sua morte. 

No dia 13 de novembro, ele saiu para comprar refrigerante em uma quitanda próxima de sua casa e teria sido abordado, de acordo com testemunhas, por policiais militares do 41º Batalhão da Polícia Militar.

Um exame de DNA, cujo resultado foi revelado no dia 28 de novembro, confirmou que um corpo encontrado em um lago do Parque do Pedroso, também no município paulista, era o de Lucas. Dois PMs foram afastados da corporação, suspeitos de atuarem no assassinato do adolescente. 

Paraisópolis

No dia 1 de dezembro, uma tragédia. Após ação policial, nove adolescentes e jovens, que se apinhavam pelas ruas de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, durante o Baile da DZ7, morreram após uma operação da PM.

Policiais utilizaram bombas de gás lacrimogêneo e agrediram os frequentadores da festa de funk. O laudo pericial indicou morte por “asfixia mecânica”. Assim, os agentes devem ser indiciados por crime culposo, quando não há intenção de matar. 

Pacote "anticrime"

No dia 4 de dezembro, o governo conseguiu aprovar, finalmente, o pacote "anticrime" apresentado ao Congresso Nacional por Sergio Moro, ministro da Justiça ainda no começo do ano, em 4 de fevereiro. 

Apesar da aprovação, o texto final significa uma derrota parcial para o Palácio do Planalto. Pontos considerados cardeais para o ex-juiz, como o excludente de ilicitude e a prisão em segunda instância, foram excluídos do pacote aprovado. 

Edição: Rodrigo Chagas

30
Dez19

Aplausos, medo e boca fechada: o enterro de um jovem baleado em baile funk

Talis Andrade

Cauã Alves de Almeida, 16 anos, foi atingido no rosto na manhã de Natal durante ação da PM para reprimir baile em SP

enterro-caua-diadema-baile-alba.jpgFamiliares homenagearam Cauã com aplausos em seu sepultamento | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo


Três salvas de palmas ecoaram ao meio-dia deste domingo (29/12) no Cemitério Vale da Paz, na divisa de Diadema, cidade na Grande São Paulo, com a zona sul da cidade de São Paulo. As homenagens para Cauã Alves de Almeida, 16 anos, aconteceram quatro dias após ele ser baleado na manhã de Natal (25/12) em ação da PM no Baile da Alba, feito em rua e favela de mesmo nome no Jabaquara, bairro na zona sul da capital paulista.

Cauã morreu no hospital dois dias depois de ser atingido. Ele não resistiu aos ferimentos do disparo que o acertou no rosto. Na mesma ação, a polícia prendeu Kaio Rickson Ramos Alves, 18 anos, e baleou Kauan Ferreira dos Santos, 19, que seguia internado pelos ferimentos, segundo amigos que estavam no cemitério.

A versão da polícia é de que o jovem estava em um carro roubado e os suspeitos atiraram contra a tropa, o que é contestado por familiares e testemunhas da ação. Os PMs ainda apontam que frequentadores do baile os agrediram jogando garrafas neles e nas viaturas.

O silêncio predominou entre as pessoas que velaram e enterraram o jovem. Amigos e familiares preferiram adotar a política da boca fechada, pois temem represálias por parte da polícia. Boa parte das cerca de 100 pessoas presentes no local vestia camiseta com o rosto de Cauã.

Alguns dos parentes permaneceram na área de velório, distante cerca de 400 metros de onde o rapaz foi enterrado. Não queriam ter a última lembrança do jovem com ele sendo enterrado. O carro da funerária encabeçou o cortejo na subida íngreme até o local do sepultamento em que placas ficam alinhadas.

A única pessoa que falou com a reportagem foi a mãe do adolescente, Jaciara Alves. Ela preferiu não acompanhar o sepultamento de Cauã. Rapidamente, a mãe pediu respeito e que ninguém fosse filmado por temer qualquer tipo de perseguição.

“Levaram meu filho novo, cheio de sonhos. Nem tinha vivido direito”, desabafou a mãe, que não sentiu ser aquele o momento para falar mais sobre o filho. Disse ainda estar impactada. Jaciara apenas revelou que Cauã queria ser MC, um sonho recorrente em jovens de periferia desde a ascensão do movimento funk.

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Viaturas atravessadas na Rua Alba enquanto moradores protestam contra ação policial 


Justamente em um evento do funk Cauã se tornou a nona vítima em menos de um mês de ações policiais em bailes feitos na cidade de São Paulo. Na madrugada do dia 1º de dezembro, nove pessoas entre 14 e 23 anos morreram no massacre de Paraisópolis em decorrência de ação policial no baile da DZ7, feito dentro da favela, localizada na zona sul de São Paulo.

Na oportunidade, a versão da SSP (Secretaria da Segurança Pública), comandada pelo general João Camilo Pires de Campos neste governo de João Doria, e da PM, comandada pelo coronel Marcelo Vieira Salles, é de que dois suspeitos em uma moto furaram bloqueio da tropa e fugiram entrando no baile. Os homens teriam atirado nos PMs, que revidaram e o tumulto aconteceu, com as pessoas também jogando garrafas nos PMs, ainda que documentos oficiais não apontam para esta versão. As nove pessoas morreram pisoteadas.

A Ponte questionou a SSP sobre o que motivou a ação no Baile da Alba, qual a versão oficial dada pelos PMs envolvidos e se os policiais seguem em serviço de rua. Segundo a SSP, tanto a Polícia Civil quanto a Corregedoria da Polícia Militar investigam o caso. “O corpo do jovem foi encaminhado ao IML (Instituto Médico Legal) Sul para a realização dos exames periciais que serão anexados ao inquérito policial após concluídos”, garantiu a pasta. Já a PM explicou que “no momento da ação policial na Rua Alba, não estava ocorrendo baile funk” e afirmou que abriu investigação para apurar a ocorrência.

 

14
Dez19

Lucas, 14, está morto. Ele sumiu após abordagem da PM de Doria, diz família

Talis Andrade

Os PMs da abordagem Rodrigo Matos Viana e Lucas Lima Bispo dos Santos pertencem à 2a Companhia do 41° BPM/M, com sede no Jardim Santo André

 

por Paulo Eduardo Dias

Ponte

 

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“Nossa vida parou. Daqui para frente nossa família não vai ser mais a mesma”. É assim que a dona de casa Dalva Santos, 48 anos, define os 30 dias do desaparecimento e morte de seu sobrinho Lucas Eduardo Martins dos Santos, 14. Parentes do menino e vizinhos da Favela do Amor, em Santo André, na Grande São Paulo, onde Lucas vivia, acreditam que a Polícia Militar é a responsável pelo crime.

Lucas sumiu no dia 13 de novembro após uma abordagem policial, segundo familiares. O corpo dele foi encontrado no dia 15 de novembro em um lago no Parque Natural Municipal Pedroso, em Santo André, mas os exames que confirmariam que se tratava de Lucas só ficaram prontos no dia 28.

Dalva, junto de sua irmã Cícera Santos, 43, e da vizinha Joyce, 19, estiveram entre a manhã e início da tarde desta sexta-feira (13/12) num ato silencioso no Vão Livre do MASP (Museu de Arte de São Paulo), na Avenida Paulista. O ato simbólico foi organizado pela ONG Rio de Paz e exibiu uma faixa com a frase “Quem matou Lucas? Um mês sem respostas”.

Pessoas que passavam pela avenida no instante do protesto paravam para olhar as mulheres que vestiam uma camiseta branca com o rosto do menino. Uma senhora chegou a prestar solidariedade e afirmou que reconheceu as mulheres após ter acompanhado todo o caso pela TV. “A polícia deve ter cometido algum engano. Achado que ele era outra pessoa”, disse a autônoma Ana Maria Rodrigues, 50.

A morte de Lucas ainda segue em investigação. O Inquérito Policial Militar que investiga o caso tem 40 dias para ser concluído, no entanto, pode ser prorrogado por mais 20 dias. Os PMs suspeitos da abordagem Rodrigo Matos Viana e Lucas Lima Bispo dos Santos foram afastados das ruas. Eles trabalham internamente, mas continuam a receber salário. A dupla pertence à 2a Companhia do 41° BPM/M, com sede no Jardim Santo André.

A Ouvidoria das Polícias de SP informou que segue apurando as informações.

Paralelo à morte de Lucas, a família Santos ainda sofre com a prisão da mãe do menino. Maria Marques Martins dos Santos foi presa dias após o sumiço do filho, enquanto prestava depoimento no Setor de Homicídios e Desaparecidos de Santo André. Havia um mandado de prisão de 2017 por tráfico de drogas, crime que ela nega ter cometido.

Presa na capital, ela ainda não recebeu visita das irmãs. Um ato está sendo preparado para o próximo domingo (15/12), na Favela do Amor, na Vila Luzita, em Santo André, local em que morava com os filhos, para que possam ser arrecadados produtos de higiene para a mulher, que cumpre pena de cinco anos num presídio feminino, na zona norte da capital.

“Minha mãe [avó de Lucas] chora todos os dias. Ela fala, minha filha vai morrer na cadeia. Solta minha filha, põe uma tornozeleira nela. Ela não vai fugir”, explica Dalva. A tia de Lucas ainda conta que a mãe está a base de medicamentos e toma calmante todos os dias para dormir.

Além da dor pela morte do menino, a prisão de Maria Marques e a angústia em saber quem foram os responsáveis pelo crime, a família ainda tem que lidar com o medo.

Isabel Daniela dos Santos, 34, uma das tias de Lucas, e que esteve em todas as manifestações cobrando desde o paradeiro do menino até justiça após seu sepultamento, teve que deixar a Favela do Amor com seus filhos e marido. Vizinhos contaram que viram carros com vidros escuros rondando a casa e pessoas estranhas da comunidade no portão, o que motivou a saída.

“Natal para nós não vai ter. O divertimento será só para os pequenos, que não entendem nada e esperam os presentes. A gente está revoltada com o caso do Lucas e da Maria. Eu nem sei mais que pensar”, diz Cícera.

Segundo a coordenadora da ONG Rio de Paz em São Paulo Fernanda Vallim Martos, é imprescindível a entrada do Ministério Público na apuração. “É um caso emblemático de desaparecimento forçado. Gravíssimo. O Ministério Público precisa entrar nesse caso. O sumiço de um adolescente, com suposta participação da polícia, deveria ser tomado por inadmissível pela sociedade. Nós aguardamos a solução. Estamos esperando uma reunião no Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana). É inadmissível que 51 anos depois do AI-5 esse tipo de prática de desaparecimento forçado e esculacho na periferia continue vigente no Brasil”.

Procurada, a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo) informou que os laudos periciais foram concluídos e encaminhados para análise da autoridade policial. “As investigações seguem pelo Setor de Homicídios e Proteção à Pessoa de Santo André e por IPM da Polícia Militar, sob sigilo judicial, após determinação da Comarca do município”, diz nota.

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Desaparecimento e morte


Lucas Eduardo Martins dos Santos sumiu nas primeiras horas da madrugada do dia 13 de novembro, uma quarta-feira, ao sair de sua casa para comprar um refrigerante Dolly e um pacote de bolachas, após quebrar o seu cofrinho onde juntava moedas. Segundo seus familiares, o adolescente sumiu no trajeto da volta da quitanda para casa, quando foi abordado por policiais militares.

O corpo de Lucas foi encontrado na manhã do dia 15/11 boiando num lago do Parque Natural Municipal do Pedroso, também em Santo André. No entanto, por conta de divergências no reconhecimento, Lucas só teve o corpo liberado em 28/11, quando o laudo do DNA foi concluído. De acordo com o atestado de óbito, o jovem morreu vítima de afogamento, o que é refutado pela família que, através de fotos tiradas do corpo ainda no parque, alegam que o menino foi espancado e lançado ainda vivo no lago. O jovem foi sepultado no dia 30 de novembro no Cemitério Nossa Senhora do Carmo, na Vila Curuçá, na mesma cidade.

 

Homenagem no muro

 

O grafiteiro Rodrigo Smul decidiu homenagear Lucas e desenhou o rosto dele no muro externo da Escola Estadual Antônio Adib Chammas, que fica próxima da favela. A arte foi feita nesta sexta-feira, quando o sumiço de Lucas completa um mês.

Muralista Rodrigo Smul em ação 

 

O local escolhido é especial porque foi atrás dessa escola, numa área de mata, que um morador em situação de rua achou e pegou uma blusa do menino. Essa foi a pista inicial na busca por Lucas. O homem chegou a relatar que viu policiais no local, que mandaram ele sair. Foi no local que a família também encontrou o boné de Lucas.

 

 

13
Dez19

Governo Doria busca responsabilizar vítimas por mortes em Paraisópolis

Talis Andrade

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Assassinados pela Polícia Militar de Doria: Gustavo Xavier, 14 anos; Denys Quirino da Silva, 16; Marcos Paulo dos Santos, 16; Dennys dos Santos Franca, 16; Luara Victoria de Oliveira, 18; Gabriel de Moraes, 20;Eduardo Silva, 21; Bruno Gabriel dos Santos, 22; Mateus dos Santos Costa, 23.

 

por Maria Teresa Cruz

Ponte

O presidente do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), Dimitri Sales, afirma que tem sido seletiva a divulgação dos laudos que apontam as causas das mortes das 9 vítimas do massacre de Paraisópolis, no dia 1º/12, na tentativa isentar a Polícia Militar de qualquer responsabilidade.

Nesta sexta-feira (13/12), uma reportagem da Folha de S.Paulo afirma que teve acesso aos laudos e que eles indicam que nos corpos foram identificados traumas condizentes com pisoteamentos, como “contusões e escoriações”. A informação legitima a versão dada desde o princípio pela PM. Até o momento, 37 PMs estão afastado das ruas.

“A gente não teve acesso aos laudos e soubemos que não foram liberados todos os laudos. O que me parece é que há um vazamento seletivo na tentativa de comprometer a opinião pública tirando a responsabilidade de quem praticou atos ilegais e com abuso de autoridade, para recair sobre as vítimas a responsabilidade pela sua morte”, pondera Dimitri Sales.

O estudante universitário Danylo Amílcar, 19 anos, irmão de Denys Henrique Quirino da Silva, 16, uma das vítimas do massacre, afirma que a reportagem tende ao engano “O que aconteceu em Paraisópolis foi a morte de nove pessoas em decorrência de uma ação truculenta da polícia. As pessoas morreram porque foram cercadas pela polícia e espancadas. Vídeos mostram isso. Ela [a reportagem] não ajuda em nada na investigação, mas não achamos que vai atrapalhar as investigações”, afirmou.

Nem mesmo a Corregedoria da PM, que está apurando a eventual responsabilidade dos policiais no episódio, recebeu todos os laudos. O corregedor, coronel Marcelino Fernandes, orientou a reportagem a falar com a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública de SP) sobre o caso e se limitou a dizer que o órgão segue empenhado em apurar os fatos. “É preciso apurar por que nove pessoas morreram. A questão é essa. O Estado tem que apresentar para a sociedade o que aconteceu e quem são os responsáveis. Ponto final”, afirmou ao telefone.

Um outro trecho da reportagem da Folha de S.Paulo traz resultados de exame toxicológico e destaca que todas as vítimas tinham usado algum tipo de droga. “Na lista de elementos detectados, estão álcool, cocaína, lança-perfume (loló), anfetamina e crack. A maioria das vítimas ingeriu álcool e lança-perfume, duas delas apenas o lança –produto muito comum nesse tipo de bailes de periferia. Uma das vítimas tinha, porém, quatro tipo de substâncias diferentes pelo corpo: álcool, lança-perfume, cocaína e crack”, diz reportagem.

Danylo Amílcar afirma que essas informações tentam criminalizar as vítimas. “Nenhuma das 9 pessoas morreram por conta de uso de drogas, morreram pela violência policial. O vazamento de informações, da maneira como ocorreu, produz enganos, e favorece o discurso dos que querem criminalizar as vítimas”, diz irmão de uma das vítima.

Para Dimitri Sales, esse tipo de informação pode inverter a lógica na cabeça da opinião pública. “Isso é um absurdo e continuamos firmes no dever de apurar rigorosamente as responsabilidade diretas e indiretas de quem quer que seja. O que não pode é culpabilizar ou responsabilizar as vítimas por sua trágica partida”, pondera o advogado e presidente do Condepe.

Na semana passada, reportagem da Ponte trazia algumas análises preliminares, de acordo com os atestados de óbito, que apontavam que o uso de gás pode ter contribuído para as mortes. Pelo menos duas vítimas morreram asfixiadas.

A Ponte procurou a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública de SP) para comentar as declarações do presidente do Condepe e também para saber sobre os laudos. Em nota, a pasta confirma que os laudos foram recebidos pelo DHPP e anexados ao inquérito. “De acordo com a autoridade policial responsável pelo caso, as primeiras análises mostram quem as vítimas têm traumas compatíveis com os de pisoteamento. Até o momento, cerca de 40 oitivas já foram anexadas ao inquérito e a equipe analisa imagens, áudios e demais informações da investigação”, diz nota. Por fim, reforça que a Corregedoria da PM também apura todas as circunstâncias relativas à ocorrência em um IPM (Inquérito Policial Militar).

A AJD - Juizes para a Democracia reitera o repúdio à política de segurança pública que está sendo implementada no Estado de São Paulo, exigindo que sejam responsabilizados todos os envolvidos nas mortes ocorridas em Paraisópolis, ao tempo que se solidariza com a dor das famílias de Gustavo Xavier, 14 anos; Denys Quirino da Silva, 16; Marcos Paulo dos Santos, 16; Dennys dos Santos Franca, 16; Luara Victoria de Oliveira, 18; Gabriel de Moraes, 20;Eduardo Silva, 21; Bruno Gabriel dos Santos, 22; Mateus dos Santos Costa, 23.

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11
Dez19

Ouvidoria da polícia aponta 15 mortes em oito pancadões em São Paulo

Talis Andrade

 

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A ouvidoria da polícia de São Paulo apontou 15 mortes em oito bailes funk –conhecidos como “pancadões”– no estado de São Paulo, entre 2018 e este ano. Os casos pontuados estão sendo apurados para identificar e punir policiais militares envolvidos.

O caso mais recente  aconteceu na madrugada do dia 1º deste mês, quando nove jovens morreram e 12 ficaram feridos em Paraisópolis, zona sul, após tumulto causado por policiais que encurralaram as pessoas do baile em duas vielas.

Em novembro do ano passado, três pessoas morreram pisoteadas em Guarulhos após uma ação policial provocar correria. Pouco depois, no fim de dezembro, o jovem de 15 anos Rodrigo Marques Almeida foi morto com um tiro na cabeça em Peruíbe (135 km de SP) após uma intervenção policial.

A Juízes Para a Democracia - AJD reitera o repúdio à política de segurança pública que está sendo implementada no Estado de São Paulo, exigindo que sejam responsabilizados todos os envolvidos nas mortes ocorridas em Paraisópolis, ao tempo que se solidariza com a dor das famílias de Gustavo Xavier, 14 anos; Denys Quirino da Silva, 16; Marcos Paulo dos Santos, 16; Dennys dos Santos Franca, 16; Luara Victoria de Oliveira, 18; Gabriel de Moraes, 20;Eduardo Silva, 21; Bruno Gabriel dos Santos, 22; Mateus dos Santos Costa, 23.

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08
Dez19

Paraisópolis: o que a versão oficial esconde

Talis Andrade

Sobreviventes e testemunhas relatam: foi uma emboscada. Ao gritos de “vai morrer”, PM encurralou jovens em viela. Agrediu-os com truculência. Impediu socorro de feridos — e obrigou própria população a empilhar os corpos

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Por José Cícero da Silva, na Pública

Pouco mais de 48h após passar pelo episódio de violência que mais o marcou na vida, *Caique, 19 anos, travou ao reviver o que aconteceu na madrugada do último domingo no baile da DZ7, há poucos metros de sua casa em Paraisópolis, zona sul de São Paulo. Pedindo desculpas pela dificuldade de falar sobre o que presenciou do alto de uma laje, entre às 23h do sábado e às 9h do domingo, ele repetia “parecia que eles [a PM] tinham tramado essa emboscada, porque foi uma emboscada!”.

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Policiais de Doria encurralaram e agrediram os jovens em duas vielas: na Três Corações e na do Louro, que são paralelas, mas não se interligam

 

De seu posto de observação, ele conseguia ver as duas pontas da viela por onde as pessoas tentavam fugir quando a PM invadiu o baile. “Tinha viatura vindo dos dois lados. Não tinha como correr para lugar nenhum. O único lugar que tinha era essa viela. Mas ninguém imaginava que eles [os PMs] iam subir pela viela a pé. Quando eles alcançaram as pessoas, começaram a puxar elas para bater, aí começou a gritaria ‘me socorre, me socorre’. Depois de um tempo, saiu um menino da viela e caiu, parecia que estava bem espancado, as pessoas que estavam próximas foram tentar socorrer, mas a polícia chegou, cercou esse moleque e falou que ninguém ia tocar nele. Quando aconteceu isso eu pensei ‘ele já era’, a polícia não deixou ninguém tocar no moleque. Falavam ‘pode sair daqui filhos da puta’ e o cacete rolava. Nunca vi uma repressão como essa aqui no Paraisópolis”, conta nervosamente o jovem.

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Viela Três Corações

 

*Darcy, funcionária de um comércio de alimentos também se “sente abalada emocionalmente” diante do que presenciou enquanto trabalhava em um estabelecimento que fica aberto até o baile terminar, quando já é dia. As cenas da madrugada de domingo passado a fizeram recordar da morte do irmão em uma chacina há quatro anos em Parelheiros, um momento doloroso demais. Foi por causa disso que ela se mudou para Paraisópolis. Não sabia que no novo bairro iria presenciar mais um episódio de violência que ficaria gravado em sua mente: ela viu dois garotos carregando um menino, que acabaram deixando no chão, ao ver dois policiais se aproximando com cassetetes em punho. “Eles estava tentando socorrer o mano que ficou lá no chão, estava muito pálido, a boca já estava ficando roxa e a barriga funda… ah, ele já estava morto. E o policial ficou mó cota (bastante tempo) colocando a mão nele para sentir a pulsação. Mó cota, e não fez nada. Depois outro policial chamou ele e ele foi, daí já era, o mano já estava morto”, relata, emocionada.

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Viela do Louro

*Ananias também trabalha perto da saída da viela principal para onde as pessoas foram obrigadas a correr. É o mesmo local onde policiais foram gravados em flagrante agredindo e ameaçando pessoas de morte. “Vai morrer, vai morrer todo mundo”, berrava o PM, até ser interrompido por um disparo. Mas isso ele não viu porque acabou acolhendo muitos que estavam entre a multidão desesperada pelas bombas e agressões dentro do seu comércio. Quando não cabia mais ninguém, ele baixou a porta. “Aqui dentro tinha umas 50 pessoas. Entraram não porque eu quis, foi que invadiram mesmo. Correndo desesperados. Depois fechei a porta e apaguei a luz. Ficamos escutando só os barulhos: bomba, pancadas, gente chorando, gente pedindo socorro”.

Mesmo com a porta baixada e dezenas de pessoas rezando baixinho e chorando, o comerciante Ananias conseguiu espiar parte do que se passava do lado de fora através de uma fresta. “Eu vi uma mulher apanhando, ela caiu aqui na frente, foi um tombo feio, com a rosto no chão, acho que ela desmaiou. Eles estavam batendo para machucar”.

“Não teve perseguição, juro para você, de coração”

Segundo a versão dos fatos apresentada pela Secretaria de Segurança Pública, “policiais do 16º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (BPM/M) realizavam a Operação Pancadão na região, quando dois homens em uma motocicleta atiraram contra os agentes.” A moto teria fugido em direção ao baile funk, ainda efetuando disparos, o que teria ocasionado um tumulto que terminou com a morte de nove garotos com idades entre 14 e 23 anos.

Não foi isso, porém, que viram os moradores e frequentadores do baile que estavam no local na madrugada fatídica. *Harley estava na rua quando a polícia chegou ao baile. Ele tinha feito uma viagem de 1 hora e 40 minutos com o amigo *Gustavo do extremo do Jardim Ângela até o baile da DZ7, que fica a cerca de 20km de distância. “É mentira (o que disseram os policiais). Na hora que a polícia chegou o baile estava normal. Eles que vieram atirando. Eles fizeram de propósito”.

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CRUELDADE, COVARDIA. Polícia atira contra os jovens amontoados no beco sem saída

 

*Teresa, que estava trabalhando na noite do baile, também diz que a versão policial destoa totalmente do que ela presenciou. “Não teve perseguição. Juro para você. Essa rua estava lotada, tinha muita gente, e não dava para deixar uma moto em fuga passar. A rua estava um formigueiro“. Acendendo um cigarro atrás do outro, e repetindo que não quer mais trabalhar lá, ela fala de sua indignação ao ver como os policiais trataram um jovem que passava mal, sem conseguir respirar. Eles agiam com “deboche e não deixaram ninguém socorrer o garoto”, conta. Ela também disse que viu os policiais jogando garrafas nas pessoas, e uma menina passando com a mão cortada. “A mulher socorreu a menina que cortou a mão. Teve uma que eles abriu a cabeça, ficou cheia de sangue, foi uma moradora que ajudou ela. Cabia a mão dentro da cabeça dela. Juro para vocês. Horrível, horrível. Deus é mais! A pessoa começa a tremer, o coração a acelerar de tanta maldade”, conta.

Mas a cena que mais a marcou foi quando “um policial bateu com a cabeça de um rapaz na quina da parede de um bar. O homem gritando pelo amor de Deus, pedindo desculpas. “Desculpa um carai”, gritou o policial. Só a pessoa vendo para acreditar o que eles fizeram. Só você vendo para acreditar. Depois, eles [os PMs] mandaram nós jogarmos [o corpo]. “Joga lá, deixa ele jogado lá, que já vai vir a emergência”, disse o PM. Só que não veio a emergência, eles colocaram um por cima do outro e levou pro [Hospital] Campo Limpo”, conta.

Ela esfrega uma mão na outra, tentando conter o nervosismo ao lembrar do que aconteceu. “Já falei para minha patroa, não vou mais trabalhar à noite porque estou com medo. Foi muito triste. Quando eu vi o menino morrer, eu nem dormi com dó dele. Eles não deixaram [a gente] socorrer ninguém. Eles estava mandando pegar as pessoas que estavam machucadas e desmaiadas e levar lá perto de onde os corpos estavam (na viela)”.

Teresa conta que antes deste dia o clima já estava tenso e que já vinha tendo pesadelo com as dispersões no baile — sempre feitas pelos policiais. Ela também estava ali na noite de 19 de outubro passado quando foram registradas em vídeo as cenas que circulam na internet mostrando um policial na saída de uma viela, agredindo com uma muleta os jovens que saíam com as mãos para cima. No momento que viu o policial com o objeto na mão, ela achou que era uma “barrona de ferro”. “O que é aquilo que ele estava na mão? Era uma muleta? Onde ele arrumou aquilo?”, questiona. “Juro para você, vi uma menina desmaiada. As pessoas passaram chorando, mas acho que ela não faleceu”.

“Tanto ódio”

Harley também se fechou em um bar com dezenas de pessoas, quando a situação se agravou. Duas horas depois, quando o dono decidiu abrir a porta, ele ficou assustado com o que viu. “Mano, muita gente chorando, se abraçando, eu não vi corpo, mas vi sangue, e diversas pessoas machucadas. Você não tem a dimensão daquilo.” Com o dia claro, conseguiu voltar com Gustavo para casa.

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Nos becos da morte, a polícia espancou com cassetetes de ferro

 

Caíque, que permanecia na laje, conta que, mesmo depois da dispersão, muita gente ainda não sabia das mortes porque não teve resgate por ambulância — o Samu foi dispensado por um soldado do Corpo de Bombeiros, dizendo que a PM já havia socorrido os feridos. Por isso, muitos voltaram para o baile.

“A gente não sabia que tinha gente morta”, conta Ananias que passou mais de uma hora trancado dentro do seu bar. “Umas 5h30 eu abri a porta e não tinha mais nada. Eu fiquei sabendo umas 7h porque chegou a polícia e me perguntou se eu tinha visto alguma coisa. Eu disse que não porque realmente eu estava com a porta fechada“. Não comentou com os policiais o espancamento que tinha visto pela fresta.

Há seis anos ele trabalha na rua do baile todos os fins de semana. Diz ter presenciado centenas de dispersões, mas sempre com a polícia fechando uma das saídas para pressionar as pessoas a saírem pelo outro lado. “Esta foi a única vez que eles fecharam todos os acessos da rua e das vielas e deu nisso”.

Teresa também diz que nunca viram os policiais agirem “com tanto ódio”. “Toda vez eles pedem para fechar os estabelecimentos, como se a culpa do baile estar acontecendo fosse nossa. ‘Ah, vocês não dão informação de nada, vocês passam pano, vocês são piores que eles. Tem tudo que morrer’. É assim que eles reclamam e ameaçam, mas nunca agiram com tanto ódio. Dessa vez, eles vieram para fazer o que queriam. Foi uma chacina, uma chacina de verdade. Eu fiquei muito triste pelo pessoal e pelo menino que eles não socorreram!”

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A cruz marca o local da chacina no paraíso polis

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