Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

11
Mar21

Lula denunciou o projeto genocida de Bolsonaro e anunciou a esperança de um Brasil digno, com comida na mesa e vacina para todos 

Talis Andrade

 

lula on.jpg

 

 

Em discurso histórico após anulação de seus processos na Lava jato e início do julgamento do Habeas Corpus sobre a suspeição de Moro, Lula agradeceu aos que lutaram por sua liberdade

Transcrição Brasil de Fato.

Eu estava sentado no teu lugar e eu estava com um pouco de dificuldade de entender todas as palavras que você falava, possivelmente porque estava de máscara. Acho que o Soventino é médico.

Eu acho que o seguinte: primeiro, espero que todo mundo esteja de máscara aqui, que todo mundo esteja se cuidando, espero que brevemente todos vocês tenham tomando vacina. Eu queria falar com o médico aqui, se eu posso tirar minha máscara pra falar. Eu estou há dois metros de distância, vocês todos já fizeram o teste. Vocês todos estão livres. Então, eu gostaria de tirar minha máscara para poder falar com vocês.

Bem, faz quase três anos que eu saí da sede desse sindicato para me entregar à Polícia Federal. Eu fui, obviamente, contra a minha vontade, porque sabia que estavam prendendo um inocente. Muitos dos que estavam aqui não queriam que eu fosse me entregar.

Eu tomei a decisão de me entregar porque não seria correto, um homem na minha idade, um homem com a construção da história construída junto com vocês, pudesse aparecer na capa dos jornais e na televisão como fugitivo. 

Como eu tinha clareza das inverdades contadas sobre mim. Eu então tomei a decisão de provar a minha inocência dentro da sede da Polícia Federal, perto do juiz [Sergio] Moro. 

Antes de eu ir, nós tínhamos escrito um livro. Eu fui a pessoa que dei a palavra final no título do livro, que é “A Verdade Vencerá”. Eu tinha tanta confiança e tanta consciência do que estava acontecendo no Brasil, que eu tinha certeza de que esse dia chegaria. E ele chegou.

Espero que todo mundo esteja de máscara aqui, que todo mundo esteja se cuidando, espero que brevemente todos vocês tenham tomando vacina

Queria dizer para vocês que eu nasci politicamente nesse sindicato. Em 1969, eu virei delegado de base desse sindicato, trabalhando na Villares. Em 1972, eu virei primeiro secretário, e cuidava da previdência social. Na verdade, eu cuidava dos velhinhos aqui. Em 1975, eu virei presidente. Em 1978, nós fizemos as primeiras greves desde as greves de Osasco e de Contagem, em 1968. E depois vocês já conhecem a história. Veio a criação de muitos dos movimentos que estão aqui, e eu participei de quase todos eles.

E o movimento mais importante foi a minha tomada de consciência de que, através do sindicato, eu não iria conseguir resolver os problemas do país. Eu poderia, no máximo, conseguir alguma conquista dentro da fábrica, mas era uma luta muito economicista. É aquela que você ganha uma hoje, e perde amanhã com a inflação. É aquela que você pensa que está ganhando, e daqui a pouco a empresa fecha, como fechou a Ford aqui, sem prestar contas a ninguém. 

Então, resolvi que era necessário entrar na política e construir uma consciência política no país. Eu digo sempre que eu sou, na política, um resultado da consciência política da classe trabalhadora brasileira. Na hora que ela evoluiu, eu evoluí. E eu acho que isso justifica o convite que eu fiz a vocês para estarem aqui.

O sofrimento que o povo brasileiro está passando, o sofrimento que as pessoas pobres estão passando neste país é infinitamente maior do que qualquer crime que cometeram contra mim. É maior do que cada dor que eu sentia quando estava preso na Polícia Federal

Porque todas as pessoas que foram convidadas para estarem aqui foram as pessoas que estavam aqui para ir para a Polícia Federal, e foram as pessoas que acreditavam antes, e continuaram acreditando na minha inocência, e por isso eu fiz questão de convidar vocês aqui. Falta, obviamente, um coordenador ou uma coordenadora da Vigília de Curitiba, que foi uma das coisas mais extraordinárias que aconteceram na minha vida. 

Quando resolvi marcar essa entrevista, muita gente ficou preocupada com o meu humor. “Como é que o Lula vai estar? Ele vai estar bravo? Ele vai estar xingando alguém? Ele vai falar palavras de esperança?”.

E, às vezes, eu me sentia como a história de um escravo que eu li num livro. O escravo foi condenado a tomar 100 chibatadas. Depois que o cara da chibata deu 98, chegou pra ele e falou: “eu vou parar de dar chibatada se você agradecer ao seu dono. Se você agradecer ao seu dono, eu não dou mais as duas que faltam.” E o cara falou: “como é que eu vou agradecer? Eu já estou todo arrebentado. Por que eu vou parar? Me dê as outras duas.”

Então, se tem um cidadão que tem razão de estar magoado com as chibatadas, sou eu. Não estou. As pessoas pensam que depois de dar chibatadas, joga um pouco de sal e pimenta e a pessoa vai se curar ao longo do tempo. Não importa as cicatrizes que ficam nas pessoas. 

Eu sei que fui vítima da maior mentira jurídica contada em 500 anos de história. E que a minha mulher, a Marisa, morreu por conta da pressão, e o AVC [Acidente Vascular Cerebral] se apressou.

Eu fui proibido até de visitar o meu irmão dentro de um caixão, porque tomaram uma decisão que queria que eu visse para São Paulo, que eu fosse para o quartel do 2º Exército, no Ibirapuera, e meu irmão, dentro do caixão, fosse me visitar. E ainda disseram que não podia ter nenhuma fotografia.

Então, se tem um brasileiro que tem razão de ter muitas e profundas mágoas, sou eu. Mas não tenho. Sinceramente, eu não tenho porque o sofrimento que o povo brasileiro está passando, o sofrimento que as pessoas pobres estão passando neste país é infinitamente maior do que qualquer crime que cometeram contra mim. É maior do que cada dor que eu sentia quando estava preso na Polícia Federal.

Porque não tem dor maior para um homem e mulher em qualquer país do mundo do que levantar de manhã, e não ter a certeza de um café e um pãozinho com manteiga pra tomar. Não tem dor maior para um ser humano do que ele chegar na hora do almoço, e não ter um prato de feijão com farinha para dar pro seu filho. Não tem nada pior do que o cidadão saber que ele está desempregado, e que, no final do mês, ele não vai ter o salário para sustentar a sua família.

Vocês sabem que a questão da vacina não é uma questão se tem dinheiro ou se não tem dinheiro. É uma questão se eu amo a vida ou amo a morte. É uma questão de saber qual é o papel de um presidente da República no cuidado do seu povo. Porque o presidente não é eleito para falar bobagem e fake news. Ele não é eleito para incentivar a compra de armas, como se nós tivéssemos necessitando de armas

É essa dor que a sociedade brasileira está sentindo agora que me faz dizer pra vocês: a dor que eu sinto não é nada, diante da dor que sofre milhões e milhões de pessoas.

É muito menor que a dor que sofrem quase 270 mil pessoas que viram seus entes queridos morrerem. Seus pais, seus avós, sua mãe, sua mulher, seu marido, seu filho, seu neto, e sequer puderam se despedir dessa gente na hora que nós sempre consideramos sagrada: a última visita e o último olhar na cara das pessoas que a gente ama. 

E muito mais gente está sofrendo. E por isso eu quero prestar a minha solidariedade nesta entrevista às vítimas do coronavírus. Aos familiares das vítimas do coronavírus. Ao pessoal da área da saúde, sobretudo. De toda a saúde, privada e pública.

Mas sobretudo dos heróis e das heroínas do SUS, que durante tanto tempo foram descredenciados politicamente. Foram descredenciados no exercício da sua profissão. Porque só mostravam as coisas ruins que aconteciam no SUS, e quando veio o coronavírus, se não fosse o SUS a gente teria perdido muito mais gente do que perdeu. Apesar de o governo tirar tanto dinheiro do SUS e de o governo ser um verdadeiro desgoverno no trato à saúde. 

Vocês sabem que a questão da vacina não é uma questão se tem dinheiro ou se não tem dinheiro. É uma questão se eu amo a vida ou amo a morte. É uma questão de saber qual é o papel de um presidente da República no cuidado do seu povo. Porque o presidente não é eleito para falar bobagem e fake news. Ele não é eleito para incentivar a compra de armas, como se nós tivéssemos necessitando de armas.

Quem está precisando de armas são as nossas forças armadas. Quem está precisando de arma é a nossa polícia, que muitas vezes sai pra rua pra combater a violência com um 38 velho todo enferrujado. Mas não é a sociedade brasileira.

Não são os fazendeiros que estão precisando de armas para matar sem terra ou para matar pequenos proprietários. Não são milicianos que estão precisando de armas para fazer um terrorismo na periferia deste país. Para matar meninos e meninas, sobretudo, meninos e meninas negras, que são as maiores vítimas das armas e das balas perdidas neste país. 

Nós, então, estamos vivendo um momento delicado. E eu vou querer conversar um pouco com vocês sobre isso. Mas, antes de conversar, eu queria continuar os meus agradecimentos, Wagner.

Primeiro a você, agradecendo, mais uma vez, esse sindicato por ceder esse espaço democrático para que a gente possa fazer essa conversa.

Não poderia deixar de agradecer ao presidente Alberto Fernandez, da Argentina, que teve a decência de, enquanto candidato a presidente da república do seu país, contra a extrema direita, ele teve a coragem de ir à Polícia Federal de Curitiba me visitar. E mais ainda. Eu até pedi pra ele não dar entrevista pra não ser prejudicado pela direita na Argentina. Ele me disse: “Lula, não tenho nenhum problema com o que a direita vai falar. O meu problema é o que eu vim fazer aqui. Eu vim aqui ser solidário a você, porque acredito que você está sendo vítima da maior mentira política já havida na América Latina”.

Então, ao presidente Alberto Fernandez, que foi a primeira pessoa a me ligar depois da decisão do Fachin, e ao povo argentino solidário, os meus agradecimentos. 

Meus agradecimentos ao nosso querido Papa Francisco. Não só porque ele mandou uma pessoa me visitar em Curitiba, me entregar uma carta, que a Polícia Federal não deixou entrar, porque achou que ele era um ‘embusteiro’, que ele não era representante do Papa, e ele era representante do Papa. E depois eu recebi a carta do Papa, além dos belos pronunciamentos do Papa, em vários momentos.

E o fato do Papa ter a coragem de me receber no Vaticano, e termos uma longa conversa, não sobre o meu acaso, mas sobre a a luta contra a desigualdade, que é o maior mal que hoje paira no planeta Terra, um planeta que é redondo, que não é retangular ou não é quadrado. E o Bolsonaro não sabe disso.

Portanto, é sempre importante reiterar, quem puder: o planeta é redondo. Ele tem um astronauta no governo. O ministro Pontes, da Ciência e Tecnologia, sobrevoou num foguete russo quando eu era presidente. Se ele não dormiu, ele viu que o planeta era redondo.

Então, ele poderia dizer para o presidente dele: “ô, presidente, não fala mais essa bobagem, não. Não acredita no tal do Olavo de Carvalho, sabe? Assume que o mundo é redondo”. Eu, então, sou grato, porque o Papa Francisco é, inegavelmente, o religioso mais importante que temos neste momento.

Quero agradecer às pessoas, companheiro Aloizio Mercadante, do Grupo de Puebla. Líderes da América Latina inteira, que foram solidários e confiaram na minha inocência. Quero agradecer ao Foro de São Paulo, que é uma organização da esquerda latino-americana. E quero agradecer a muitos líderes políticos. Eu não poderia deixar de citar aqui o companheiro Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, uma das pessoas mais extraordinárias que conheci.

Não poderia deixar de reconhecer aqui a solidariedade do Bernie Sanders, um companheiro senador dos Estados Unidos, quase candidato a presidente da república, e que se afastou da campanha. 

Quero reconhecer com muito carinho o comportamento da prefeita Anne Hidalgo, prefeita de Paris, que na disputa da eleição dela, teve a coragem, quando a direita escrevia artigos nos jornais que ela iria perder as eleições porque tinha me levado lá, falou: “Lula, pra mim, a solidariedade vale mais do que uma eleição. Eu trouxe você aqui pra dar um prêmio de cidadão parisiense pra você, e vou ganhar as eleições por conta desse meu gesto”. E ganhou as eleições. Por isso, eu quero agradecer à nossa querida prefeita de Paris.

Quero agradecer ao companheiro [José Luis Rodríguez] Zapatero, ao companheiro Evo Morales, à monja Coen, ao nosso querido Martinho da Vila, o nosso querido Chico Buarque, o nosso querido Noam Chomsky, um dos maiores intelectuais vivos, hoje, na humanidade.

Quero agradecer ao meu querido, velhinho… Antes de falar o nome dele, esse companheiro passou quatro anos querendo dar uma fazenda dele no interior de São Paulo para a USP fazer um campus lá. E a USP passou quatro anos sem dar respostas. Quando foi um dia, ele me procurou, através de um assessor dele, que ele tinha uma fazenda pra doar pra fazer uma universidade.

Em menos de 20 horas, o companheiro Fernando Haddad, que está aqui, aceitou o terreno, e nós pegamos o terreno. E esse companheiro, eu tive o prazer de visitar a universidade com ele, já funcionando. Não sei como ela está hoje, depois da destruição do [Michel] Temer e do Bolsonaro, mas é o meu querido companheiro Raduan Nassar. Companheiro que já está com mais de 80 anos. 

Quero agradecer o companheiro, o meu biógrafo, que nunca termina o meu livro, o companheiro Fernando Morais. Quero agradecer o Martin Schulz, que é ministro na Alemanha e representa a social democracia. O Roberto Gualtieri, do Podemos espanhol, e o ex-primeiro ministro italiano [Massimo] D’Alema. 

Quero agradecer, de coração, o pessoal da vigília. Aqui tem muita gente que foi na vigília, aqui tem muita gente que ficou muito tempo na vigília, mas aquelas pessoas enfrentaram loucuras da Polícia Federal. 

Tinha um delegado, que eu não sei se ele era saudável ou não, se ele bebia ou não, mas ele provocava a vigília. Chegou a atirar pra fazer medo à vigília.

Tinha polícia, tinha vizinhos que ofendiam gente da vigília todo dia. E esse pessoal ficou lá 580 dias. Todo santo dia de manhã, de domingo a domingo, gritando “presidente Lula”, almoçando e gritavam “presidente Lula”, às duas horas da tarde. E às sete horas da noite, gritavam “presidente Lula”. E todo santo dia. Eu acordava, almoçava e dormia com mulheres e homens do Brasil inteiro gritando o meu nome. 

Então, a cadeia não foi o sofrimento que eu pensava que fosse, porque eu não sei quantos presos na história da humanidade tiveram tanta gente. 

E aí eu tenho que agradecer ao movimento sindical. Agradecer, João Paulo, ao Movimento Sem Terra, porque o companheiro Baggio, lá no Paraná, foi um herói.

Agradecer aos companheiros do MAB [Movimentos dos Atingidos por Barragens], que trabalharam de forma extraordinária, e aos companheiros dos partidos de esquerda que estão aqui. Eu lamentavelmente não tenho o nome de todas as pessoas, mas eu tenho que agradecer.

Antes de agradecer aos meus advogados, e aos outros advogados, que não sendo meus advogados no processo, foram advogados, participaram de solidariedade, fizeram muita coisa nesse país.

Mas vocês, jornalistas, precisam ser livres. E o compromisso de vocês é escreverem o que vocês viram. É escreverem o que as pessoas falaram pra vocês, e não escrever o que o editor quer que vocês escrevam

Eu quero agradecer a uma pessoa, que eu não conheço, mas é uma pessoa chamada Claudio Wagner. Esse é o perito que está investigando todas as mensagens do hacker pra provar a veracidade da denúncia. 

O que é engraçado é que durante longos cinco anos, amplos setores da imprensa não exigiram nenhuma veracidade do Moro. Não exigiram nenhuma veracidade dos procuradores, não exigiram nenhuma veracidade da Polícia Federal para divulgar as mentiras que eles contavam ao meu respeito.

Mas agora nós estamos com perito, fazendo investigação nos documentos, que está na Polícia Federal. Portanto, não é uma coisa do PT, é da Polícia Federal, autorizado pelo ministro da Suprema Corte. E, mesmo esse perito avalizando, vocês acompanham a imprensa.

E eu acho muito engraçado porque o Moro fala “não reconheço essa veracidade”. Os procuradores falam “não reconheço”, mesmo tendo um peritagem, e a divulgação sendo autorizada pela Suprema Corte. 

No meu caso, eles nunca pediram autorização. Era até engraçado porque muitas vezes eu ia fazer o inquérito, e a maior preocupação do delegado que ia fazer o inquérito não era com a pergunta, era com o vazamento. E o vazamento era selecionado. 

Tinha jornalista específico na Folha; jornalista específico no Estadão; jornalista específico na Época, na Veja, na IstoÉ; jornalistas específicos em vários canais de televisão. E todo mundo se lembra.

Quantas e quantas matérias do principal jornal da televisão aparece um oleoduto, uma gasoduto saindo dinheiro, para falar vinte ou trinta minutos das denúncias dos procuradores, sem nenhuma prova.

Mas eles colocavam. Contra o Lula não precisava provar que o documento tinha seriedade. Era preciso destruir. Afinal de contas, um torneiro mecânico, sem dedo, já tinha feito demais nesse país. Era preciso evitar que esse cidadão pensasse em voltar a governar o país.

Porque a América Latinha nunca trabalhou em 500 anos com política de inclusão social. A inclusão social é pra 35% da sociedade. Quem pode ir a teatro é uma parte pequena da sociedade. Quem vai a cinema é uma parte pequena. Quem vai a restaurante é uma parte pequena. Quem vai aos parques bonitos, quem vai às vernissages nesse país, quem vai às exposições é só uma parte pequena. 

À maioria, fique no seu lugar. Afinal de contas, o papel do trabalhador é trabalhar. E o papel dos pobres é esperar as políticas de ajuda do governo quando ela vem.

E, por conta disso, eu digo pra vocês, anteontem foi um dia gratificante. Eu sou agradecido ao ministro Fachin porque ele cumpriu uma coisa que a gente reivindicava desde de 2016.

A decisão que ele tomou, tardiamente, cinco anos depois, foi colocada por nós desde 2016. A gente cansou de dizer: a inclusão do Lula, e inclusão da Petrobras na vida do Lula, como criminoso, era a razão pela qual a quadrilha de procuradores da Lava Jato, não o Ministério Público, a quadrilha de procuradores da força-tarefa, e o Moro, entendiam que a única forma de me pegar era me pegar pra Lava Jato, porque eu já tinha sido liberado em vários outros processos fora da Lava Jato, mas eles tinham como obsessão, porque eles queriam criar um partido político, de tentar me criminalizar.

Eu fiquei muito feliz porque, depois da divulgação de tanta mentira contra mim, ontem [terça-feira] eu acho que nós tivemos um Jornal Nacional épico. Ontem, eu acho que quem assistiu televisão não estava acreditando no que estava vendo. Pela primeira vez, a verdade prevaleceu.

Dita, não por alguém do PT, dita pelo presidente da segunda turma do STF no discurso do Gilmar Mendes; dita pelo Ricardo Lewandowski e dita até pela Carmen Lucia, que nunca tinha visto nada igual àquilo. 

E eu, como acho que tenho um pouco de experiência, fiquei feliz com a verdade, porque é pra isso que servem os meios de comunicação. Jornalista não existe pra sair pra rua pra cumprir a ordem do editor.

Vocês não sabem, mas aqui nesta sala não tem ninguém que tenha lidado com a imprensa 10% do que eu lidei. Desde 1975 eu lido com a imprensa, e com muita imprensa. E eu sempre disse que o papel da imprensa, quando o jornalista sai pra rua, ele sai com o compromisso de dizer a verdade. A verdade nua e crua.

Não tem importância que ela seja contra o PT, contra o PCdoB, contra o PSOL, contra o PMDB, contra qualquer um. A verdade nua e crua, é pra isso que nós precisamos de imprensa livre.

Não é uma imprensa que divulga aquilo que politicamente ou que ideologicamente ela quer. A ideologia da notícia, do jornal, da televisão ou da revista deve ser colocada num cantinho, no editorial, como pensamento da revista. Mas vocês, jornalistas, precisam ser livres. E o compromisso de vocês é escreverem o que vocês viram. É escreverem o que as pessoas falaram pra vocês, e não escrever o que o editor quer que vocês escrevam.

Portanto, eu fiquei feliz porque eu espero que a verdade, a verdade versada pela Globo ontem, seja o novo padrão de comportamento da Globo com a verdade.

A Globo não tem que gostar ou não gostar de presidente. Ela não tem que gostar ou não gostar de partido. Isso ela decide na hora de votar. Mas na hora de informar, tem que informar a verdade, e apenas, somente, a verdade.

E ontem eu fiquei feliz porque eu vi a verdade proferida na íntegra por dois ministros da Suprema Corte. E eu espero que continue assim. Porque antes o Gilmar [Mendes] também não aparecia. Antes, o Lewandowski também não aparecia. Apareciam os acusadores durante meia hora, e, às vezes, o Gilmar e o Lewandowski, que se votassem contra os acusadores, tinham 30 segundos.

Os meus advogados eu nem falo, porque o esforço para que meus advogados aparecessem 30 segundos era monumental, e nem sempre apareciam. Mesmo assim eu continuo dizendo que a liberdade de imprensa é uma das razões maiores pela manutenção da democracia em qualquer país do mundo, em qualquer lugar do planeta Terra.

Os governadores do Nordeste que estão brigando, sabe, e do país inteiro, para dar vacina. É uma luta titânica contra um governo incompetente, contra um ministro da Saúde incompetente e contra as pessoas que não respeitam a vida

Então, meus companheiros, eu quero agradecer aos meus advogados. É uma coisa engraçada, os meus advogados não eram criminalistas, e por isso eu fui muitas vezes provocado para contratar alguém famoso. Alguém muito importante, que fosse ex-ministro, alguém que fosse…

Eu dizia: pra defender a verdade, eu não preciso disso. Uma vez pediram pra eu conversar com uma pessoa, e essa pessoa falou assim pra mim: “eu posso até participar, mas eu preciso de R$ 3 mi. Aí eu fiquei pensando: se uma pessoa pra me defender pede R$ 3 mi, e se eu pago, tá confirmado que eu sou ladrão. Aonde é que eu vou arrumar R$ 3 mi para pagar o advogado?

E eu queria dizer ao meu querido Cristiano Zanin e à minha querida Valeska Teixeira, e ao escritório, muito obrigado! Porque só foi possível acontecer o que aconteceu segunda-feira pela coragem.

Vocês estão lembrados quando eu disse que não trocava a minha dignidade pela minha liberdade e disse que a minha canela não era canela de pombo. Eu não ia colocar, sabe, tornozeleira, e que não ia pra casa preso, porque a minha casa não era cadeia. Muita gente achou que eu estava radicalizando, e eu estava apenas dizendo o que eu sentia. Eu tinha certeza que esse dia chegaria.

Esse dia chegou com o voto do Fachin, de reconhecer que nunca teve crime cometido por mim. De reconhecer que nunca teve envolvimento meu com a Petrobras. E toda a amargura que eu passei, todo o sofrimento que eu passei, acabou.

Eu estou muito tranquilo. O processo vai continuar? Vai. Tudo bem, eu já fui absolvido de todos os processos fora de Curitiba. Mas nós vamos continuar brigando para que o Moro seja considerado suspeito. Porque ele não tem o direito de se transformar no maior mentiroso da história do Brasil, e ser considerado herói por aqueles que queriam me culpar. Deus de barro não dura muito tempo. 

Eu tenho certeza que hoje ele deve estar sofrendo muito mais do que eu sofri. Eu tenho certeza que o [procurador Deltan] Dallagnol deve estar sofrendo muito mais do que eu sofri. Porque eles sabem que eles cometeram erros, e eu sabia que eu não tinha cometido erro.

Então, meus agradecimentos aos meus advogados. E meus agradecimentos a todos os advogados do Brasil que foram solidários. Todos. Teve muita gente que foi solidária a mim, muitos documentos assinados, e eu sou, sinceramente, agradecido a todo mundo. 

Quero agradecer. Antes de agradecer, falar que uma vez eu tive um advogado muito importante. Quando saiu a notícia do tríplex, esse advogado falou assim pra mim: “ô, Lula”, um dos maiores criminalistas do Brasil, “ô, Lula, é o seguinte: você não tem que ter preocupação com esse negócio do tríplex, porque não há como isso andar. Não tem como isso prosperar. Isso não vai pra frente.”

Eles inventaram um offshore do Panamá, inventaram uma empresária do offshore, pra dizer que essa empresária tinha, e que essa offshore tinha compromisso com a OAS e com a Petrobras, e, portanto, era o que eles precisavam pra me condenar.

E o tríplex, que não ia pra frente, que eles nunca apresentaram um documento, nunca apresentaram um centavo, foi a razão para eu ser condenado a nove anos de prisão. E a pagar uma multa que vale cinquenta vezes o apartamento.

E agora quem é vítima do apartamento é Boulos, que está sendo indiciado porque ocupou o apartamento. E é engraçado que, se eu era o dono, não fui eu que processei o Boulos. Então quero saber quem foi que processou o rapaz que invadiu um apartamento que eles diziam que era meu. E eu não o processei, e alguém o processou. 

Agora, pode ficar sabendo, Boulos, que você tem toda a minha solidariedade. Se for preciso invadir por sua causa, nós invadiremos. 

Bem, quero cumprimentar a minha querida Gleisi Hoffmann, que teve um papel, não só na presidência do partido, mas na defesa do PT e na minha defesa.

Não siga nenhuma decisão imbecil do presidente da República ou do ministro da Saúde. Tome vacina. Tome vacina porque a vacina é uma das coisas que pode livrar você do covid

Vocês sabem que é muito difícil. Nunca queiram, nunca queiram sair na página dos jornais com a cara de vocês taxada por um crime qualquer. Porque vocês vão perceber que muitas pessoas que vocês achavam que eram amigas de vocês desaparecerão logo. Vocês passarão semanas ou meses sem receber um telefonema.

Pessoas que viviam atrás de você, 24 horas por dia, vão desaparecer. Eu não desejo esse mal pra ninguém, por isso, quando eu era presidente, fiz três discursos em posse de procurador geral. Paulo Okamoto, eu dizia: eu considero o Ministério Público uma instituição muito importante. Pela instituição ser muito importante, é preciso que a pessoa que esteja procurador seja muito honesta e muito séria. 

A gente não pode ficar divulgando o nome das pessoas antes de ter prova. A gente não pode tentar criminalizar as pessoas antes de provar que cometeram um crime. E foi o que aconteceu. A Lava Jato fez um pacto com o setor da mídia. E que era preciso, porque essa era a teoria do Moro, num artigo que ele escreveu em 94 em que ele dizia: “só a imprensa pode ajudar condenar as pessoas.” E aí vale qualquer coisa. 

Então, eu quero agradecer à Gleise, por todo trabalho Gleise, como companheira, como advogada e como presidenta do partido. Quero agradecer ao companheiro Fernando Haddad, que também ia me visitar como advogado, não era como companheiro do PT não, ele ia como advogado. O Rui Costa foi como advogado, meu companheiro de partido, o Emílio ia como advogado me visitar.

Eu ganhei duas amizades extraordinárias, pessoas que eu não conhecia, dois advogados de Curitiba que me visitaram durante 580 dias, todo santo dia. Um ia de manhã e o outro à tarde. Só não ia de sábado e domingo. Mas imagina o que que é duas pessoas irem me visitar todo santo dia. 

Um chegava com almoço, mandado pela Janja, e outro chegava à tarde pela janta mandada pela Janja. Sabe, às vezes a comida chegava fria, mas eu comia e não reclamava, porque sabia que o povo estava passando fome lá fora. Eu esquentava porque eu tinha um negocinho de esquentar comida. Peão de fábrica sabe como esquentar marmita. Então, eu não comi comida fria não, era toda quentinha.

Bem, uma vez, a Janja mandou pra mim uma sopa, uma sopa dentro de uma garrafa térmica. E eu acho que a sopa continuou cozinhando dentro da garrafa térmica, e ela não saia da garrafa. Os caroço cresceram, eu acho que era lentilha. Os grãos cresceram dentro da garrafa térmica e eu não consegui tirar a comida, sabe. Mas eu fui puxando, fui puxando com a colher, fui dando tapa no fundo da garrafa térmica até que a sopa já não era mais sopa, mas tava gostosa.

Eu quero agradecer os governadores Rui Costa, Wellington Dias, Camilo Santama, Fátima Bezerra e todos os governadores do Nordeste que estão brigando, sabe, e do país inteiro, para dar vacina.

É uma luta titânica contra um governo incompetente, contra um ministro da Saúde incompetente e contra as pessoas que não respeitam a vida. Então aos governadores, a minha solidariedade.

Quero agradecer a todos os companheiros das centrais sindicais, agradecer a todos os companheiros dos partidos políticos aqui presentes, quero agradecer aos movimentos sociais, a CUT, a Força Sindical, a CGTB, o MST, o MTST, os companheiros da UNE, que tiveram um papel extraordinário durante todo o período em que eu fui governo.

E quero agradecer a vocês, a imprensa brasileira, porque depois de tudo que falei aqui, vocês podem ter certeza que nem o João Roberto Marinho gosta mais da imprensa do que eu. Nem ele quer mais democracia do que eu na imprensa, e muito menos o presidente da República.

Meus agradecimentos a vocês. Porque eu sei que vocês vão continuar trabalhando para tentar melhorar o papel da imprensa na construção da democracia brasileira.

Então esse país está totalmente desordenado e desagregado porque não tem governo nenhum. Eu vou repetir: esse país não tem governo

Companheiros e companheiras, eu fiquei pensando o que eu iria falar com vocês hoje aqui. Ontem eu fiquei até quase meia noite rascunhando coisa, tirando coisa, mudando coisa e cheguei à conclusão de que eu precisava falar com vocês um pouco sobre a situação desse país. Seria um erro da minha parte não falar pra vocês que o Brasil não merece estar passando o que está passando. 

Eu tenho 75 anos de idade. Eu falo brincando que eu tenho energia de 30 e tesão de 20. Eu acho que é por isso que eu não tomei vacina ainda, porque o pessoal não sabe se é 30, se é 20 ou 75. Então, agora eu estou dizendo que é 75 e na semana que vem, se Deus quiser, eu vou tomar a minha vacina. Vou tomar a minha vacina.

Não me importa de que país, não me importa se é duas ou uma só; sabe, eu vou tomar minha vacina e quero fazer propaganda pro povo brasileiro.

Não siga nenhuma decisão imbecil do presidente da República ou do ministro da Saúde. Tome vacina. Tome vacina porque a vacina é uma das coisas que pode livrar você do covid.

Mas mesmo tomando vacina, não ache que você possa tomar vacina e já tirar a camisa, já ir pro boteco e pedir uma cerveja gelada e ficar conversando, não! Você precisa continuar fazendo o isolamento, e você precisa continuar utilizando máscara e utilizando álcool em gel. Pelo amor de Deus.

Esse vírus, essa noite, matou quase 2 mil pessoas. É que as mortes estão sendo naturalizadas, porque a gente ouve de manhã, de tarde e de noite, a gente liga um canal de televisão, lê um jornal, liga um rádio, ou seja, é falando da morte, então você vai naturalizando na cabeça das pessoas, mas eram mortes que, muitas delas, poderiam ser evitadas. Evitadas se a gente tivesse um governo que tivesse feito o elementar.

Você sabe que a arte de governar não é fácil; é a arte de saber tomar decisão. Então, o presidente da República que se respeitasse e que respeitasse o povo brasileiro, a primeira coisa que ele teria feito em março do ano passado, era criar um comitê de crise. 

Envolvendo o seu ministro da Saúde, envolvendo secretários da Saúde dos estados, envolvendo cientistas da Fiocruz, cientistas do Butantan e outros cientistas. E toda semana orientar a sociedade brasileira sobre o que fazer.

Era preciso priorizar o dinheiro e comprar as vacinas que pudesse comprar em qualquer lugar do planeta Terra. Nós tivemos momentos que teve vacina que a gente sequer aceitou. A própria Pfizer tentou oferecer vacina, e a gente não quis, a Organização Mundial da Saúde.

Porque nós tínhamos um presidente que inventou uma tal de cloroquina. Nós tínhamos um presidente que falava que quem tem medo do covid é maricas, que o covid era uma gripezinha, que o covid era coisa de covarde, que ele era ex-atleta, e que portanto ele não ia pegar. Esse não é o papel, no mundo civilizado, de um presidente da República.

Um presidente da República deveria ter esse comitê de crise, e toda semana ter uma voz oficial do comitê de crise orientando a sociedade, visitando os estados, visitando as cidades, vendo as condições dos hospitais, trabalhando pra fazer hospital de campanha onde não tivesse hospital. Tentando evitar que faltasse oxigênio como faltou em Manaus. Esse era o papel do presidente da República.

Agora, ele não sabe o que é ser presidente da República. Ele a vida inteira não foi nada. Ele não foi nem capitão. Era tenente e foi promovido porque se aposentou. E se aposentou porque queria explodir quartel, porque ele virou um dirigente sindical dos soldados, queria mais aumento de salário.

Depois que ele se aposentou, ele nunca mais fez nada na vida. Ele foi vereador e deputado durante 32 anos. Exerceu o mandato e conseguiu passar pra sociedade a ideia de que ele não era político.

Vocês imaginaram o poder da força do fanatismo? Através de fake news, o mundo elegeu o Trump. Através das fake news, o mundo elegeu o Bolsonaro.

Porque o pai de vocês ou a mãe de vocês deve um dia ter falado: “Filho, a mentira anda de avião supersônico, a verdade anda montada num casco de tartaruga”. Então, a mentira tem muito mais força, porque é mais fácil acreditar. A verdade você tem que explicar, a mentira não.

Eu fiquei sabendo esses dias que tem 50 milhões de pessoas no mundo que acreditam que a terra é plana. Ou seja, vocês percebem a loucura que está tomando conta desse país?

Muitas mortes poderiam ter sido evitadas, muitas mortes. E que o papel das igrejas é ajudar para orientar as pessoas, não é vender grão de feijão ou fazer culto cheio de gente sem máscara, dizendo que tem o remédio pra sarar.

Eu acredito que Jesus pode salvar as pessoas, mas as pessoas precisam se ajudar. Se a pessoa for ignorante, não usar máscara, não fazer o isolamento, não fizer a lavagem das mãos necessária, Deus vai dizer: “Peraí, eu tenho muita gente pra cuidar meu filho. Se cuide”. 

Então esse país está totalmente desordenado e desagregado porque não tem governo nenhum. Eu vou repetir: esse país não tem governo.

Esse país não cuida da economia, esse país não cuida do emprego, esse país não cuida do salário, esse país não cuida da saúde, esse país não cuida do meio ambiente, esse país não cuida da educação, esse país não cuida do jovem, esse país não cuida da meninada na periferia. Ou seja, do que eles cuidam?

Há quantos anos vocês, companheiros dirigentes sindicais, não ouvem a palavra investimento, desenvolvimento, geração de emprego e distribuição de renda? Faz muito tempo.

Eu não sei se a CUT já publicou o documento, se já reuniu com o movimento sindical, mas tem uma coisa que eu tava há muito tempo querendo que fosse produzida, e finalmente parece que o Dieese produziu… vocês lembram de quando Ministério Público utilizava os meios de comunicação para vender a grandeza de que esse país tinha recuperado R$ 4 bilhões pra Petrobras? 

Vocês cansaram de ouvir isso: “Ah, o Dallagnol vai lá na Globo se reunir e vai dizer que recuperou R$ 1 bilhão, R$ 2 bilhões”. Você sabe qual o prejuízo que a Lava Jato, eu tô falando da Lava Jato, que a Lava Jato poderia ter apurado a corrupção, ter prendido o dono da empresa que é ladrão, ter prendido o político que é ladrão, e manter as empresas funcionando.

O povo não tem o direito de permitir que um cidadão que causa os males que o Bolsonaro causa ao país continue governando e continue vendendo o país. Eu não sei qual é a atitude, mas alguma atitude nós vamos ter que tomar, companheiros, para que esse povo possa voltar a sonhar

Porque, afinal de contas, só pra vocês terem ideia, por conta da operação Lava Jato, o Brasil deixou de ter de investimento R$ 172 bilhões. Só por conta da Lava Jato. Segundo esse estudo do Dieese, o país perdeu 4 milhões. Eu não tô falando dos 14 milhões de desempregados, eu tô dizendo que, só por conta da Lava Jato, a destruição que ela fez na corrente geradora de emprego nesse país, gerou 4 milhões e 400 mil empregos.

Só direto na construção civil, 1 milhão e 100 mil. Agora, você pega a cadeia produtiva de óleo e gás, da indústria naval, da indústria metalúrgica, sabe, você vai ver quantos milhões de empregos…

isso nunca foi falado. Nunca nenhum instituto teve a coragem de publicar qual foi o prejuízo que teve nesse país. Esse país que, no tempo que o PT governava, chegou a ser a sexta economia do mundo.

Eu lembro que em Copenhagen, quando estava disputando as Olimpíadas, eu brincava com a França e a Inglaterra: “Se preparem, porque nós já passamos vocês, agora eu quero passar é a Alemanha”. Vai se preparando, porque o Brasil não nasceu pra ser pequeno, o Brasil nasceu para ser grande.

E é por isso que tem governante que pensa grande, porque quem pensa pequeno, é pequeno. Esse país chegou à sexta economia do mundo. Em todas as pesquisas, era o país mais admirado do mundo, era o país em que o povo tinha mais felicidade, que o povo acreditava mais no futuro.

Era um país altamente respeitado pela China, pela Rússia, pela Índia, pela Alemanha, pela França, pela Inglaterra, pelos Estados Unidos. Esse país tinha um projeto de nação. O que que o país tem hoje? 

Vocês nunca ouviram da minha boca falar em privatização. Quem é que acha que só iniciativa privada é boa?

Uma empresa pública, como o Banco do Brasil, uma empresa pública, como a Petrobras, bem dirigida, como foi no nosso governo, se transformou na quarta empresa de energia do mundo.

A Petrobras investia R$ 40 bilhões por ano. Nós não descobrimos o pré-sal para exportar petróleo cru. Descobrimos o pré-sal pra exportar derivados, para ela ter uma indústria petroquímica poderosa no Brasil.

É por isso que nós cunhamos a frase: “o pré-sal é o passaporte do futuro”. É por isso que nós colocamos 50% dos royalties pra educação, é por isso que nós pensamos em criar um fundo do povo brasileiro. Tudo isso está sendo destruído.

Venderam a nossa BR, a gente não sabe pra quem venderam. Uma empresa que arrecadou, em 2019, R$ 70 bilhões, foi vendida por R$ 3 bilhões e 900 mil.

Você já viu o Guedes falar uma palavra em crescimento econômico, em desenvolvimento e distribuição de renda? Não, é vender. Vamos vender. Agora, quando eles venderem e gastarem o dinheiro em custeio, o país vai estar mais pobre.

O PIB não vai crescer e a dívida vai continuar crescendo. Porque a única forma de você diminuir a dívida do Brasil não é parar de gastar com o que é necessário. Porque, se você tiver que investir em educação e saúde, se você tiver que investir em transporte e infraestrutura, você tem que colocar dinheiro.

O que vai fazer nossa dívida diminuir em relação ao PIB é o crescimento econômico, é o investimento público. Porque, qual é a lógica do investimento público? Se o Estado não confia na sua política e não investe, porque o empresário haveria de investir?

Eu vou contar um dado que talvez vocês não saibam, eu vou contar porque eu tô aqui dentro do sindicato.

Quando esse país tinha como presidente da República um metalúrgico em 2008, a indústria automobilística vendia 4 milhões de carros por ano nesse país. Passados 13 anos, esse país vende 2 milhões de carros. Ou seja, hoje a indústria automobilística é metade do que era em 2008. Porque não há possibilidade de investimento se não houver demanda. Para ter demanda, tem que ter emprego. 

Porque vocês acham que o PT está brigando por um salário emergencial de R$ 600? Não é porque a gente acha que o Estado tem que pagar R$ 600 a vida inteira. É porque o Estado só pode deixar de pagar quando o Estado tiver gerando emprego e as pessoas tiverem obtendo renda, às custas do seu trabalho, aí não precisa do salário emergencial.

Mas, enquanto o governo não cuida de emprego, não cuida de salário, não cuida de renda, você tem que ter um salário emergencial para que as pessoas não morram de fome. Isso não precisa ler Marx pra entender, não precisa artigo do Delfim Neto pra entender. É a lógica da casa de vocês.

Se a mulher tiver dinheiro, a mulher de vocês e a família tiver dinheiro, ela vai no supermercado, vai na feira, vai comprar um caderno novo, vai comprar um sapato, vai comprar uma camisa e tudo começa a funcionar. Se não tem, ela fica em casa prostrada, na frente de um fogão esperando: “quando é que eu vou ter dinheiro pra comprar alguma coisa?”.

Porque governar um país… um presidente da República tem que conversar com sindicalistas. Não é possível que um presidente da República não converse com a força do trabalho.

Um presidente tem que conversar com os empresários, e me parece que o Bolsonaro só conversa com o louro da Havan. Morreu o louro da Ana Braga, o Louro José, mas está lá o Louro da Havan, parece que é conversa, porque não tem reunião produtiva com os empresários.

Eu tinha um conselho com 100 pessoas. Participavam os dirigentes dos sindicatos, os grandes empresários, participava índio, participava pastor da igreja evangélica, participava padre, participava bispo, participava negro. Porque eu queria ouvir a sociedade. Nós fizemos, no meu mandato, 74 conferências nacionais pra ouvir o que a sociedade queria.

O Bolsonaro não junta ninguém. Ele junta os milicianos. Não mostra a cara nas entrevistas. Na saída do Palácio, para pra dizer: “Tô liberando armas, tô liberando mais quatro armas, mais dois fuzil, logo logo vai ter canhão pra todo mundo”. 

Esse povo não está precisando de armas, David. Esse povo está precisando de emprego, de carteira profissional, de salários, de livros, de educação. O Estado precisa estar presente na periferia desse país. O Estado tem que estar lá com educação, com cultura, com saúde, com política de assistência social. É esse o papel de um presidente da República.

Será que o Bolsonaro não leu nada do que a gente fez? Você, Haddad, não produziu nenhum livrinho pra dar pro Bolsonaro ler? Tantas cartilhas que a gente fez. O PCdoB não fez uma cartilha pra mandar pro Bolsonaro dizendo que é possível governar diferente? Ô Miguel, você pode fazer da Força Sindical e o Sérgio fazer da CUT para ele saber que é possível.

O Brasil não é dele e dos milicianos. O Brasil é de 230 milhões de pessoas. E essas pessoas querem trabalhar, querem comer, querem morar, querem ter lazer. 

Você não sabe como eu ficava feliz quando eu via um trabalhador mostrar uma picanha e falar: “Eu vou comer picanha e vou tomar uma cerveja”. É uma coisa fantástica.

Vocês não sabem a alegria de ver o pequeno produtor desse país, representado aqui pelo companheiro João Paulo dos sem terra, produzir e saber que tinha garantia de preço, saber que o produto dele não ia ficar no porão da casa dele ou estragando no sol e na chuva. 

A gente comprava esse produto e a gente distribuia se fosse necessário, mas a gente tinha que construir o estoque regulador, até para regular preço. Ô gente, como é que pode o gás de cozinhas estar R$ 105,00? Como é que pode a cebola aumentar 60% e o tomate aumentar não sei quanto? Como é que pode a luz elétrica aumentar tanto?

Como é que pode a gasolina, ô David, você é petroleiro, eu vou aproveitar dizer uma coisa na tua frente. Não é possível permitir que o preço do combustível brasileiro tenha que seguir o preço internacional se nós não somos importador de petróleo. O Brasil é exportador.

Se nós produzimos a matéria prima aqui, se nós tiramos do fundo do mar, se nós conseguimos refinar aqui… nós produzimos gasolina de avião, nós produzimos diesel e nós produzimos na qualidade que produz a União Europeia.

Porque, antes de eu chegar na Presidência, é uma coisa que vocês não sabem, porque a imprensa nunca divulgou. A nossa gasolina tinha 1500 ppm, partículas por… sei lá por quanto, por milhão, era uma coisa assim. Eu não entendo, mas eu sei que era.

Nós fizemos ser 50, padrão europeu, sabe o que é? Padrão europeu pAra quando vocês tiverem andando, sabe, eu acho errado andar nas ruas, mas de vez em quando, quando vocês andam na rua, não ficar respirando gás carbônico coma gasolina tão poluida e óleo diesel tão poluído. Então, a gente fez as nossas refinarias ser padrão mundial. E agora a gente está importando gasolina dos EUA e óleo diesel dos EUA. Não tem lógica. 

Em 1953, quando a gente estava criando a Petrobras, o jornal O Estado de São Paulo e o seu editorial escrevia artigos que o Brasil era ignorante, que o Brasil não tinha que ter petróleo, que o Brasil não precisava de petróleo, que o Brasil  tinha que comprar dos Estados Unidos.

Agora, nós voltamos a 53: o Brasil tem a matéria prima…vocês são jovens e vocês talvez não lembrem de tudo, mas quando nós descobrimos o pré-sal, sabe o que a Miriam Leitão falava? Ela falava assim: “É, descobriu o pré-sal, mas não pode explorar porque não tem tecnologia e o preço do barril vai ser muito caro”. Está lembrado, David? Fala isso com a maior desfaçatez.

Não só a gente está buscando petróleo a 6, 7 mil metros de profundidade, como o custo do barril fora da terra é apenas um dólar mais caro do que o barril da Arábia Saudita, que é quase a luz do sol. Percebe o que significa isso?

Significa investimento em pesquisa e tecnologia que nós fizemos na Petrobras. É por isso que teve o golpe contra a Dilma, porque é preciso não ter
petróleo aqui no Brasil na mão dos brasileiros. É preciso que esteja na mão dos americanos porque eles têm que ter o estoque para guerra.
 
Depois da 2ª Guerra Mundial, eles aprenderam que só ganha guerra quem tem muito estoque de combustível, porque eles sabem que a Alemanha perdeu a guerra porque não chegou em Baku, na Rússia, para ter acesso à gasolina.

Então, os países ricos todos têm grande estoque de combustível. Todos. E nós, que somos um puta dum país grande, que estamos num país que tem a mais importante tecnologia em prospecção de petróleo em águas profundas, estamos nos desfazendo disso para poder atender aos interesses do Deus mercado do petróleo.

A economia tá mal e o covid está tomando conta desse país. A cepa de Manaus parece que mata, que é 10 vezes mais contagiante que a outra cepa e mata pelo menos duas vezes mais, pelo menos é o que eu vi os cientistas falarem.

Esse país poderia estar pesquisando vacina e fazendo vacina. Quando veio a H1N1, em dois mil e não sei quanto, eu era presidente da República, a gente vacinou 80 milhões de brasileiros em três meses. Esse país tem um sistema de saúde que sabe fazer isso.

Cadê o Zé Gotinha? Cadê o nosso querido Zé Gotinha? O Bolsonaro mandou embora porque pensou que ele era petista. Não era petista. Ele foi inventado por gente muito importante da saúde sanitária desse país, não teve nada com o PT. Ele era suprapartidário, ele era humanista. E cadê o Zé Gotinha? Acabou.

Eu queria que vocês meditassem.

Esse país não tem governo, esse país não tem ministro da Saúde, esse país não tem ministro da Economia, esse país tem um fanfarrão. O presidente, por ele não saber de nada, ele fala “é tudo conta do Guedes, é tudo conta do Guedes, é tudo conta do Guedes”.

E quanto a isso, vocês sabem que o país está empobrecido. O PIB caiu, a massa salarial caiu, o comércio varejista caiu, a produção de comida das pessoas estava insustentável e o presidente não se preocupa com isso. O presidente está prepcupado sim: “preciso vender mais armas”.

É preciso que se repita muitas vezes à Marielle. É preciso. Ele tem que dar garantia aos fazendeiros dizendo: “compre fuzil, compre metralhadora, se chegar um sem terra aí, passe fogo”. 

Como o Trump dizia: se encontrar alguém falando mal de mim num restaurante, bata que eu garanto advogado. O Bolsonaro garante milicianos.

Por último, companheiros e companheiras, eu queria dizer pra vocês, que quando você chega na idade que eu cheguei e quando você obtém de Deus a generosidade que eu recebi, não há mais espaço pra guardar ódio, não há mais espaço pra perder tempo remoendo, eu diria, raiva ou ódio. Eu sou abençoado por Deus por muitas coisas.

Se a gente for olhar do ponto de vista sociológico ou filosófico – gostou Boulos, de eu falar sociológico? – se a gente fosse analisar Haddad, por conta disso, a gente não teria feito aqui, ô Nobre, a revolução da criação do novo sindicalismo em 78, porque era impossível criar qualquer coisa, e a gente criou.

A gente não teria criado a liberdade de organização partidária, e eu não teria tido o prazer de criar o partido mais importante da esquerda latino americana. E muito menos eu ser presdiente.

Vocês lembram com quem eu disputei a primeira eleição, com dr. Ulisses Guimarães, com dr. Leonel de Moura Brizola, com dr. Paulo Salim Maluf, com dr. Mario Covas, com dr. Afif, com dr. Aureliano… era só doutor.

O único cara que não era doutor era eu. E fui pro segundo turno.  E não ganhei porque a Globo me roubou. A Globo fez aquela mutreta do debate, reconhecido pelos diretores da Globo da época. 

Bem, então eu sou abençoado por Deus, então quero terminar dizendo pra vocês o seguinte: eu tô muito de bem com a vida. A Lava Jato desapareceu da minha vida. Eu não espero que as pessoas que me acusam parem de me acusar, não espero.

Eu estou satisfeito que tenha sido reconhecido aquilo que os meus advogados vêm dizendo há muito tempo: o presidente é inocente, o presidente não é dono do apartamento.

Nós derrubamos 11 ações ao longo de cinco anos. Ou seja, nós tivemos 100% de êxito na decisão do Fachin. De repente, eu tinha quatro processos e eles desapareceram. Por que o Fachin não fez isso antes? Eu estou dizendo isso há cinco anos.

Eu sei que é constrangedor para muita gente que me acusou, parar de acusar. É duro, porque quando você envereda no caminho da mentira, é difícil voltar atrás. Mas olha como eu estou muito mais sereno do que o William Bonner ontem dando a notícia. Ó como eu estou com o semblante tranquilo, de que a verdade venceu, de que a verdade vai continuar vencendo.

Por isso, companheiros e companheiras, eu quero dizer para vocês: eu quero dedicar o resto de vida que me sobre, e eu espero que seja muita, muita eu espero. A gente começa a gostar da vida quando está mais próximo do céu. Eu quero voltar a andar por esse país para conversar com esse povo.

O povo não tem o direito de permitir que um cidadão que causa os males que o Bolsonaro causa ao país continue governando e continue vendendo o país. Eu não sei qual é a atitude, mas alguma atitude nós vamos ter que tomar, companheiros, para que esse povo possa voltar a sonhar.

Esse país já sonhou, esse país já realizou. Ô, gente, a gente sonhava em fazer esse país ser grande. Nós construímos e fortalecemos o Mercosul. Nós construímos a Unasul, porque a gente queria criar um grande bloco econômico latino americano, um bloco de 400 milhões de habitantes, de um PIB razoavelmente grande, para negociar em condições de igualdade com a Europa.

Porque a Europa só quer negociar para eles venderem os produtos industriais deles e a gente vender os produtos agrícolas. Não. A gente não quer fazer do agronegócio, a gente respeita o agronegócio, eu acho que o agronegócio tem muita tecnologia, é muito importante, mas o Brasil quer ser um país industrializado. O Brasil quer ter novas indústrias, o país quer ter novas tecnologias.

A gente sonhava com isso. Nós criamos os Brics, nós criamos o banco dos Brics, nós criamos o banco do Sul. O Brasil tinha um projeto de nação, o Brasil tinha um projeto de soberania. Porque faz 500 anos que nós fomos descobertos.

Quando é que nós vamos tomar conta do nosso nariz? Quando é que eu vou acordar de manhã sem ter que pedir licença pra respirar para o governo americano? Quando é que eu vou levantar de manhã sabendo que o meu povo está tomando café, que ele vai almoçar e vai jantar, que as crianças estão na escola, que as crianças estão tendo acesso à saúde e à cultura? Quando é que nós vamos acordar? Isso é possível. Nós provamos isso.

Então, companheiros e companheiras, é pela construção desse sonho e ajudar a torná-lo realidade que eu me sinto muito jovem. Me sinto jovem para brigar muito. Então, eu queria que vocês soubessem: desistir, jamais; a palavra desistir não existe no meu dicionário.

Eu aprendi com a minha mãe: lute sempre, acredite sempre, tente sempre, porque se a gente não acreditar na gente, ninguém vai acreditar. Se você não se respeitar, ninguém vai ter respeitar. 

Às pessoas que me destratam durante todos esses anos, eu quero dizer pra vocês. Eu quero conversar com a classe política. Porque, muitas vezes, Haddad, muitas vezes, Boulos, muitas vezes, a gente se recusa a conversar com determinados políticos; é da nossa natureza.

Mas veja, eu gostaria que no Congresso Nacional só tivesse gente boa, gente de esquerda, gente progressista, mas não é assim. O povo não pensou assim. O povo elegeu quem ele quis eleger. Nós temos que conversar com quem está lá para ver se a gente conserta esse país. 

Eu preciso conversar com os empresários. Eu quero saber aonde é que está a loucura deles de não perceberem que, se eles quiserem crescer economicamente, se eles quiserem que a bolsa cresça, se eles quiserem que a economia cresça, é preciso garantir que o povo tenha emprego, que o povo tenha renda, que o povo possa viver com dignidade, senão não há crescimento.

Será que é difícil ou será que nós vamos ficar reféns do “Deus mercado”, que só quer ganhar dinheiro não importa como?

Nós já vimos a experiência da crise de 2008, com o subprime americano e, depois, com a quebra do Lemman Brothers. E quando eles quebram, quem é que coloca dinheiro para salvá-los? O Estado! O Estado que eles repudiam, o Estado que eles destroem. Quando eles quebram, quem põe dinheiro é o Estado pra salvá-los.

Nos Estados Unidos, quando quebrou o sistema habitacional pela bolha, com o subprime, eles ajudaram primeiro os bancos, para somente depois pensar nos coitados que perderam as casas. Quando é que a gente vai pensar nos debaixo primeiro?

Então, não tenham medo de mim. Eu sou radical. Eu sou radical porque eu quero ir à raiz dos problemas desse país.

Eu sou radical porque eu quero ajudar a construir um mundo justo. Um mundo mais humano. Um mundo em que trabalhar e pedir aumento de salário não seja crime. Um mundo em que a mulher não seja tripudiada por ser mulher. Um mundo em que as pessoas não sejam tripudiadas por aquilo que querem ser. Um mundo em que a gente venha a abolir definitivamente o maldito preconceito racial nesse país. Um mundo que não tenha mais bala perdida. Um mundo em que o jovem possa transitar livremente pelas ruas de qualquer lugar sem a preocupação de tomar um tiro. 

Um mundo em que as pessoas sejam felizes onde quiserem ser, que as pessoas sejam o que elas decidirem. Um mundo em que a gente tem que respeitar a religiosidade de cada um, cada um é o que quer, cada um tem a espiritualidade que quiser. Ninguém é obrigado a ser da minha religião, seja a que você quiser, a que você acredita. As pessoas podem ser LGBT, e a gente tem que respeitar o que as pessoas fazem. Esse mundo é possível, esse mundo é plenamente possível.

E é por isso que eu convido vocês para a gente lutar nesse país para garantir que todo, todo, todo brasileiro, independentemente da idade, tome vacina.

E, para isso, a gente tem que obrigar o governo a comprar a vacina, mas, ao mesmo tempo, nós temos que brigar pelo salário emergencial, e ao mesmo tempo brigar por investimento em geração de emprego, sobretudo a partir de infraestrutura.

Temos que brigar por uma política de ajuda aos microempreendedores, ao pequeno empresário brasileiro, que não se suporta e quebra. Quantos restaurantes estão fechando? Quantas farmácias estão fechando. Quantas lavanderias estão fechando. Quantos institutos de beleza estão fechando? Para que que existe governo? É para tentar encontrar solução para essa gente. 

Então, gente, eu agora quero pedir desculpas a vocês, porque como o Gilmar Mendes falou muito ontem, eu também falei muito hoje, mas vocês hão de convir que faz cinco anos que eu não falo com a imprensa.

Você sabe qual foi a última vez que dei uma entrevista pra televisão? Foi pro Roberto D’avila, na Globonews, há uns 5 ou 6 anos atrás. Uns 4 anos atrás.

Eu virei uma espécie de vírus: não encosta no Lula, não ouça o Lula. Uma vez eu fui condenado a três anos de cadeia em Manaus. Sabe qual era a minha arma? O juiz disse que eu tinha a língua felina. Então, eu quero dizer pra vocês, para defender o povo brasileiro, para defender as coisas que vão salvar esse país, vou continuar com minha língua felina.

E quero agradecer porque, se não fossem vocês, possivelmente eu não teria chegado aqui.

Muito obrigado.

venceremos lula on.jpg

 

 
10
Mar21

"Não sigam nenhuma decisão imbecil deste presidente: tomem vacina", diz Lula durante discurso em São Bernardo

Talis Andrade

 

O ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, fala durante discurso em São Bernardo do Campo, São Paulo, Brasil, em 10 de março de 2021.
O ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, fala durante discurso em São Bernardo do Campo, São Paulo, Brasil, em 10 de março de 2021.REUTERS - AMANDA PEROBELLI

Em discurso inflamado na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, em São Paulo, o ex-presidente Luiz Inacio Lula da Silva agradeceu nesta quarta-feira (10) seus correligionários, e lideranças como o papa Francisco, além de chefes de Estado da América Latina. Ele criticou duramente o presidente brasileiro Jair Bolsonaro e afirmou que não descansará até responsabilizar o ex-juiz Sérgio Moro pelas “mentiras” durante seu processo: “Deus de barro não dura muito tempo”, afirmou Lula.

Usando uma máscara vermelha com a estrela branca, símbolo do Partido dos Trabalhadores (PT), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou no palanque montado no “mesmo sindicato” em que esteve antes de se “entregar para a Policia Federal”, lembrou. "Espero que todos vocês estejam usando máscaras", disparou, dando o tom firme do discurso que se seguiria, face a seus correligionários e ao ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, candidato do PT às eleições presidenciais de 2018.

"Fui vítima da maior mentira jurídica destes 500 anos de história do Brasil", disse Lula, agora elegível após anulação da condenação feita pelo ministro do Supremo, Edson Fachin, nesta segunda-feira (8).

"A dor que eu sinto não é nada diante da dor de milhões de brasileiros que passam fome. Quase 270 mil pessoas que viram seus entes queridos morreram e sequer puderam se despedir de seus parentes amados, por causa desse desgoverno", declarou Lula, numa referência às vítimas brasileiras do coronavírus.

"Agradeço os heróis e heroínas do SUS, durante tanto tempo descredenciados politicamente. Se não fosse o SUS, teríamos perdido muito mais gente do que perdermos, por causa desse desgoverno no trato da saúde", criticou.

"Não são milicianos que precisam de armas para fazer terrorismo nas periferia matando meninos e meninas negros, a maioria das vítimas das balas neste país, precisamos é de vacinas", disse Lula.  

O ex-presidente Lula fez um agradecimento especial à prefeita de Paris. “Agradeço muito à Anne Hidalgo, que, durante a disputa da eleição dela, teve a coragem de me receber e me disse que a solidariedade vale mais do que a eleição, enquanto a direita [francesa] publicava artigos dizendo que ela ia perder [o mandato] por causa do convite que me havia feito”, disse Lula. “Ela me homenageou como cidadão de Paris e venceu as eleições”, acrescentou.

Lula agradeceu ainda personalidades como Pepe Mujica, Chico Buarque, Martinho da Vila, Raduam Nassar, “meu biógrafo Fernando de Morais, que nunca acaba de escrever essa biografia”, o alemão Martin Schulz, o Podemos espanhol, e “o pessoal da Vigília de Curitiba”: “Havia loucuras da Polícia Federal naquele lugar, um delegado que não sei se era [mentalmente] são provocava a vigília com insultos, os vizinhos ofendiam, e, durante os 580 dias, todo santo dia de manhã, eu ouvia aquelas pessoas chamando o meu nome”, disse o petista.

"A palavra desistir não existe no meu dicionário"

"Fachin cumpriu uma coisa que a gente reivindicava desde 2016, a decisão tardia que ele tomou. Cansamos de dizer que a minha inclusão e da Petrobras como criminoso é a razão da existência da “quadrilha de procuradores” e do Moro, era a única forma de pegar e me levar para a Lava-Jato", afirmou Lula. 

"Mas não troquei minha liberdade pela minha dignidade", continou. "Eu tinha certeza que esse dia chegaria. Esse dia chegou, com o voto do Fachin ao reconhecer que nunca houve crime da minha parte nem envolvimento na Petrobras. (...) A palavra desistir não existe no meu dicionário", completou.

"Continuarei brigando para que o [ex-juiz Sérgio] Moro seja continuado suspeito de se transformar no maior mentiroso da história do Brasil, e de continuar a ser idolatrado por quem quer me calar. “Deus de barro não dura muito tempo”, atacou.

Lula também fez questão de declarar apoio a seu aliado, Guilherme Boulos, do PSOL. "Boulos, você tem toda a minha solidariedade. Se a gente precisar invadir algo para te defender, faremos", disse emocionado, numa referência ao episódio em que Boulos invadiu, junto com o Movimento dos Sem-Teto, o triplex, naquela época atribuído a Lula pela Lava-Jato.

"Decisão imbecil" de Bolsonaro

“Não siga nenhuma decisão imbecil do presidente da República, tome vacina!”, disparou Lula, num ataque direto ao presidente brasileiro. "As mortes poderiam ter sido evitados, se o governo tivesse feito o elementar. Governar é a arte de saber tomar decisões", criticou.

"O mínimo seria esse presidente ter criado uma comissão de crise, e toda semana orientar a sociedade brasileira sobre o que fazer, comprar vacinas de qualquer lugar do planeta”, alertou. “Um presidente que inventou uma tal de cloroquina, que Covid era coisa de maricas, de covardes”, disparou Lula. 

"Ele não sabe o que é ser presidente da República, nunca foi nem capitão, era tenente, se aposentou e foi promovido, nunca fez nada, explodiu quartel porque queria aumento de salário", atacou. "O poder da força do fanatismo, através das fakes news, o mundo elegeu o Trump, elegeu o Bolsonaro", continuou o ex-presidente.

Lula lembrou que fazia cinco anos que não falava com a imprensa: "me transformaram numa espécie de 'vírus', não podia falar com ninguém". 

Sou radical porque quero ir à raiz dos problemas desse país, quero um mundo melhor, onde as mulheres não sejam tripudiadas por serem mulheres”, onde as pessoas não sejam tripudiadas pelo que elas queiram ser, onde mundo onde possamos acabar com o maldito preconceito racial, um mundo onde o jovem possa transitar sem medo de levar um tiro, onde se respeite a religiosidade de cada um”, disse ainda Lula, antes de abrir para as perguntas dos jornalistas presentes no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.

Capa do jornal Folha de S.Paulo 11/03/2021
 
Capa do jornal O Globo 11/03/2021
Capa do jornal Folha de Pernambuco 11/03/2021
24
Jan21

Com quantos cadáveres se faz um genocídio?

Talis Andrade

bolsonaro nada.jpg

Por Domingos Barroso da Costa e Tarso Genro

A pergunta que introduz este texto parece-nos bastante pertinente diante da realidade de que coletivamente se padece na contemporaneidade brasileira. Afinal de contas, já vamos convivendo há cerca de um ano com a pandemia do novo coronavírus e, enquanto estas reflexões são desenvolvidas, já contabilizamos mais de 210.000 brasileiros mortos, o que nos aproxima do número absurdo de 1 morto em razão da Covid-19 a cada 1.000 brasileiros, sem qualquer expectativa de rápida contenção dessas cifras. Pelo contrário, o negacionismo que funda a postura de nosso governo federal face à pandemia e o falso dilema a partir do qual procura legitimar suas omissões indicam que nosso calvário tende a se prolongar indefinidamente, a absoluta ausência de planejamento confiável para a proteção e vacinação de nossa população corroborando nossas mais sombrias expectativas[i].

Na verdade o que está se configurando é uma provocação dolosa de genocídio, já flagrada por recente pesquisa promovida pela USP. Esta provocação dolosa, a partir de uma visão perversa de imunização da população (que seria garantida pelas defesas naturais de cada organismo individual) pretenderia obstar a irradiação da doença, depois de expandi-la de forma planejada. Trata-se de uma visão sanitária análoga à purificação racial proposta pelo nazismo, que elimina planejadamente uma parte da população racialmente “impura”, para celebrar as virtudes saudáveis (e arianas) da unidade superior da nação.

Fato é que o Brasil ocupa hoje a segunda posição mundial no ranking macabro do número de mortos pela Covid-19, tendo à sua frente apenas os EUA[ii], não se podendo atribuir ao acaso a semelhança entre as (im)posturas dos governos de ambos os países e sua liderança nessa corrida pela morte[iii]. Tanto aqui, quanto lá – numa relação de servilismo histriônico do vassalo em relação ao senhor –, os chefes do Executivo federal dedicaram-se à construção de narrativas negacionistas em relação à ciência e a tudo que pudesse detê-los em seus esforços de esgotamento máximo das barreiras civilizatórias, marcadamente a favor de uma expansão bárbara dos interesses do mercado e de seus próprios. E, assim, aceleraram o quanto puderam os processos de devastação do meio ambiente, dos direitos humanos e, especialmente no caso do Brasil, de direitos trabalhistas – iniciada há mais tempo –, previdenciários, enfim do que resta do Estado de bem-estar social esboçado na Constituição de 1988.

Nesse contexto, confrontados com o obstáculo real representado pela pandemia, para contrabandear seus propósitos, ambos os (des)governos apressaram-se em constranger a população valendo-se de um falso dilema, em que a preservação da vida estaria condicionada à preservação da economia, do que se infere a óbvia inversão da relação de acessoriedade que se estabelece entre esses dois valores. Como bem lembra Joel Birman[i], com referência a Lacan[ii], tal inversão de valores remete às possibilidades que se abrem diante do seguinte imperativo, a expressar a abordagem do assaltante – com potencial de latrocida – à sua vítima: “a bolsa ou a vida!”. Ora, seja para o sujeito, seja para as sociedades, só há uma escolha possível diante de uma tal ameaça: a vida. E isso por um motivo óbvio: só pode gozar da bolsa – ainda que se perca o objeto, que é substituível por equivalentes – quem está vivo. Aliás, sem a vida humana, sequer existe a bolsa enquanto produto cultural que é – seja quando representa um saco em que se guardam coisas, seja quando reporta à bolsa de valores, templo maior do deus Mercado[iii] e do culto que lhe dedica o capitalismo financeiro.

Essa foi a lógica seguida por alguns países da Ásia e da própria Europa, cuja experiência demonstra que tanto melhor e mais rápida é a reação da economia quanto mais cedo se tomam e mais rigorosas são as medidas de isolamento social horizontal em contenção ao avanço da pandemia e preservação da vida. Trata-se, no mínimo, da escolha mais efetiva quando se tem em vista a redução dos muitos danos, inclusive econômicos, que inevitavelmente advirão como saldo da devastação promovida pela Covid-19.

Ocorre que o capitalismo em sua versão neoliberal selvagem – em que discursos demagógicos relativos aos costumes procuram camuflar uma pleonexia[iv] irrefreável – quer tudo pra si e pra já. São esses os ditames a que intransigentemente servem Estados Unidos e Brasil, de modo que a prevenção radical à propagação do novo coronavírus nos moldes acima descritos não foi a opção adotada por esses países, que, abertamente – com doses maiores ou menores de sadismo –, preferiram a bolsa – e as bolsas – às vidas que constituem sua população, com especial sacrifício daquelas postas às margens de suas economias que quotidianamente as expõem como matáveis, em dinâmica bem trabalhada por Achille Mbembe sob o nome de necropolítica[i].

Retomando Birman:

[…] o discurso político de assunção do imperativo da bolsa, no lugar do imperativo da vida, implica a recusa, pelo sujeito do reconhecimento, de algo que se impõe no registro perceptivo, isto é, no plano da realidade. Com efeito, com essa recusa, não foi reconhecido o imperativo éticofundamental da vida, que foi sacrificada em nome de cálculos políticos espúrios por parte de muitos governantes no contexto social pandêmico, de forma que o sadismo e a crueldade se impuseram efetivamente conjugados na escolha do imperativo econômico.[i]

As implicações da opção pela bolsa em detrimento da vida são muitas e graves, sendo deletérias à própria ideia de Estado. Afinal, reconhecida a vida humana como imperativo ético fundamental – tal qual faz Birman no excerto acima transcrito –, a exposição de uma população inteira à morte leva de arrasto à sepultura o próprio Estado que a promove, seja por ação, seja por omissão. Ao descumprir seu fundamento máximo – na medida em que se afirma como pressuposto dos demais –, que é assegurar a vida de seus cidadãos, o Estado colapsa e, numa alquimia sadeana, converte-se em anti-Estado. E é a isso que assistimos no Brasil: à conversão do Estado Democrático de Direito afirmado pela Constituição de 1988 em um anti-Estado sadeano, com a consequente ruína das instituições às quais caberia conter as ações e omissões governamentais que a tanto conduzissem, mas que parecem estuporadas diante do absurdo normalizado neste país cujo governo maior expõe sua população diariamente à indignidade e à morte, especialmente a parcela mais vulnerável em termos sociais e econômicos.

Ao invés de adotar as medidas de isolamento horizontal amplamente recomendadas pelas instituições competentes, o governo federal desse anti-Estado a que se reduziu o Brasil preferiu investir em uma espécie de doutrina macarthista tropical, que se dissemina a partir de uma narrativa amplamente negacionista de fortes traços paranoides, cuja trama, cerzida pela mentira, comporta desde discursos oficiais que recusam ou minimizam a pandemia, até a prescrição, pelo próprio chefe do Executivo federal e de seu ministro da saúde – um general, frise-se –, de um combo de medicamentos para o tratamento precoce da Covid-19, que, se não têm

efeitos curativos comprovados, por outro lado podem apresentar efeitos colaterais potencialmente graves e mais que atestados, especialmente no que diz respeito à cloroquina e à hidroxicloroquina.

Mas não é só. Além de prescrever medicamentos cuja ineficácia é afirmada pela própria ANVISA[i], o presidente dessa antirrepública em que se converteu o Brasil e seus sequazes proscreviam a vacinação, discurso subitamente alterado na medida em que a imunização foi convertida em importante capital político numa disputa estabelecida entre o atual chefe do Executivo federal e o governador do Estado de São Paulo, a qual tem em perspectiva a eleição presidencial de 2022.

E os desvios anticientíficos em relação às medidas adequadas ao combate eficaz à pandemia do novo coronavírus não param por aí. Também incluem o abandono dos pequenos e médios empreendedores, bem como da população pobre, a quem não foram destinados em medida suficiente os devidos auxílios e subvenções, com o que terminaram lançados à necessidade e, logo, compelidos à atividade, o que implica a continuidade da circulação das massas e, consequentemente, a rápida e descontrolada progressão da pandemia.

Trata-se de uma dinâmica perversa em que o Estado se afasta justo no momento em que deveria se afirmar, com o que abandona o cidadão à própria sorte e à sistemática do capitalismo neoliberal, de modo a promover a consumação da própria profecia. Afinal, sem o amparo do ente que deveria protegê-lo em situações extremas, assegurando seus direitos fundamentais, resta ao indivíduo tentar conciliar os termos excludentes do paradoxo e lutar pela bolsa, na tentativa de preservar a própria vida. E vale ressaltar que é o Estado que, ao abandonar o cidadão, lhe impõe a preservação da bolsa como condição de sobrevivência. Desvelam-se, então, as engrenagens desse anti-Estado que serve aos interesses de uma meta-estrutura à qual se dá o nome de Mercado, em cujo altar oferece em sacrifício seus cidadãos, que, compelidos a movimentar a economia – a defender a bolsa – para garantir a própria sobrevivência, terminam expostos à morte. Tem-se, aí, uma perversão completa e acabada da relação que legitima a existência do Estado, na medida em que o cidadão, ao invés de ter seus direitos fundamentais por ele assegurados, termina por ele instrumentalizado e posto a serviço de interesses que lhe são estranhos e inclusive contrários. Trata-se de uma espécie de Estado feitor, a serviço do Senhor Mercado.

Como muitos vêm apontando há bastante tempo, tudo indica que são muitos os crimes praticados ao longo do percurso até aqui resumidamente relatado, sejam comuns, sejam de responsabilidade. Aliás, eles antecedem a eleição. Quem não se lembra da cena em que o atual presidente, em campanha no Acre, segurava um pedestal como se fosse uma arma e açulava seus seguidores a “metralhar a petralhada”?[i] Em um contexto político no qual muitas agressões contra militantes de esquerda foram relatadas, incluindo uma agressão a relho no Rio Grande do Sul[ii], plenamente defensável a subsunção de uma tal conduta à prevista no art. 286 do Código Penal[iii]. Do mesmo modo, ainda no Título X da Parte Especial desse Código, parece-nos plausível o enquadramento, no tipo previsto no art. 287[iv], do enaltecimento apologético que o chefe do Executivo federal promove desde sempre e sem pudores em relação ao conhecido torturador Brilhante Ustra e seus atos criminosos.

Já no curso do mandato, ao propagandear tratamentos já declarados ineficazes pelas autoridades competentes em relação ao novo coronavírus e promover seguidas aglomerações, nas quais sequer utiliza máscara de proteção, bastante razoável a subsunção dos vários atos praticados pelo presidente de nossa antirrepública aos tipos previstos nos arts. 131, 132 e 268 do Código Penal[v].

No que concerne aos ditos crimes de responsabilidade, somente em razão das ações e omissões até aqui relatadas em violação ao dever de combater com eficácia a pandemia do novo coronavírus, muitas são as possibilidades de enquadramento. Para além das sabotagens narrativas às medidas de proteção à população e ao gasto com medicamentos ineficazes, temos os seguidos ataques à China, à democracia e ao Judiciário como exemplos de ações que se amoldam a condutas caracterizadoras de crimes de responsabilidade. Aliás, consideradas as muitas imposturas do chefe do Executivo federal, são vastas as possibilidades defensáveis de subsunção de suas condutas às previstas na Lei nº 1.079/50.

Fato é que, em outras circunstâncias, acusações sem justa causa[vi] foram motivo eficaz para a deposição de uma presidenta eleita, nada havendo que justifique essa absurda desigualdade de tratamento em contexto tão grave como o ora enfrentado.

Posto isso, retomamos o título deste texto para afirmar a plausibilidade de se sustentar que as ações e omissões descritas[vii] foram – e são – determinantes à morte de milhares de brasileiros, se não de todos os 210.000, ao menos de grande parte desse número absurdo, que não considera as cifras ocultas pela subnotificação, mas, mesmo assim, nos coloca em segundo lugar no infame ranking mundial de mortes pela Covid-19. E ao serem praticadas – no mínimo com assunção plena de risco evidenciada pelo contexto de pandemia – em detrimento de todo um grupo nacional, atingindo a vida de seus cidadãos, sua integridade física e mental, além de os submeterem intencionalmente a condições de existência capazes de ocasionar-lhes a destruição física total ou parcial, as condutas a que nos referimos, comissivas ou omissivas, se mostram adequáveis às previstas nas alíneas ab e c do art. 1º da Lei nº 2.889/56[i], caracterizando, portanto, o delito de genocídio, em toda sua hediondez afirmada pelo inciso I do parágrafo único do art. 1º da Lei nº 8.072/90.

O cenário é calamitoso e convoca a união de todos que se oponham ao atual estado de coisas a fim de tentar conter os incomensuráveis danos impostos à sociedade brasileira, que nos encerram nas trevas de uma demagogia vulgar. Para tanto, o impedimento e a responsabilização dos responsáveis pelo genocídio que se descortina é urgente. Motivos para a apuração de responsabilidades sobram, alguns deles tendo sido aqui expostos.

No fim das contas, a luta é no sentido de retomar o processo civilizatório e fazê-lo prevalecer sobre a barbárie; de oxigenar a vida e desarmar a morte, proteger e imunizar a população antes que outras centenas de milhares de cidadãos sejam lançadas às ruas para perecer, privados de ar e com a bolsa nas mãos.

Ferrajoli, no seu clássico “Democracia e Garantismo” – no capítulo que trata do Direito e da Dor – faz a distinção entre as figuras da “dor sofrida” e da “dor infligida”, uma natural, outra decorrente da ação humana. Aduz aquele Mestre que “todos os direitos fundamentais são configuráveis como direitos à exclusão ou à redução da dor”; e o direito à liberdade, à vida e à integridade pessoal, são direitos atinentes “a prevenir a dor infligida.”  

Retomar o processo civilizatório no nosso Brasil mortificado pelas dores  da sanha demolidora do “mito” significa retirá-lo do poder, baseados na Lei e na Ordem, para submetê-lo aos Tribunais competentes. E daí alçar o país à condição de uma democracia constitucional estável, definitivamente imunizada das tentações doentias do fascismo e da naturalização das mentiras em sequência, que destroem o destino comum fundado na tolerância e na igualdade.

pressa.jpg

 


[1] Mestre em Psicologia (PUC-Minas). Especialista em Criminologia (PUC-Minas) e Direito Público (UNIGRANRIO). Graduado em Direito (UFMG).

[1] Ex-Ministro da Justiça, da Educação e ex-Governador do Rio Grande do Sul.

[1] Como amplamente noticiado, e a evidenciar todo o cinismo que envolve o descaso do Executivo federal em relação à saúde da população brasileira, lembramos que o governo federal chegou a anunciar o início da imunização com vacinas que não foram efetivamente adquiridas da Índia. A pirotécnica operação logística propalada não tardou a se converter em pantomima. Por todas: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2021/01/16/apos-fracasso-na-importacao-de-vacina-aviao-que-iria-a-india-decola-de-viracopos-para-levar-oxigenio-ate-manaus.ghtml

[1] https://valorinveste.globo.com/mercados/internacional-e-commodities/noticia/2021/01/03/coronavirus-hoje-mundo-tem-11-milhao-de-novos-casos-em-2021-e-176-mil-mortes.ghtml

[1] Referimo-nos à administração Trump.

[1] BIRMAN, Joel. O trauma na pandemia do coronavírus. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020.

[1] LACAN, Jacques. O seminário. Livro 11, Os quatro conceitos da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar., 1988.

[1] DUFOUR, Dany-Robert. O divino mercado: a revolução cultural liberal. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2008.

[1] DUFOUR, Dany-Robert. Pléonexie. [dict.: “Vouloir posséder toujours plus] Lormont : Le Bord de léau, 2015.

[1] MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. São Paulo: n-1 edições, 2020.

[1] Op. cit. p. 44.

[1] Por todas: https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2021/01/17/diretores-da-anvisa-dizem-que-vacina-e-necessaria-porque-nao-ha-tratamento-precoce-contra-a-covid.ghtml

[1] Por todas: https://exame.com/brasil/vamos-fuzilar-a-petralhada-diz-bolsonaro-em-campanha-no-acre/

[1] Por todas: https://www.sul21.com.br/lula-pelo-rs/2018/03/mst-a-silenciosa-linha-de-frente-de-seguranca-da-caravana-de-lula/

[1]  Art. 286 – Incitar, publicamente, a prática de crime:

Pena – detenção, de três a seis meses, ou multa.

[1] Art. 287 – Fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime:

Pena – detenção, de três a seis meses, ou multa.

[1] Art. 131 – Praticar, com o fim de transmitir a outrem moléstia grave de que está contaminado, ato capaz de produzir o contágio:

Pena – reclusão, de um a quatro anos, e multa.

Art. 132 – Expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente:

Pena – detenção, de três meses a um ano, se o fato não constitui crime mais grave.

Art. 268 – Infringir determinação do poder público, destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa:

Pena – detenção, de um mês a um ano, e multa.

[1] Nesse sentido, dentre tantos outros: GOMES, Ciro. Por que o golpe acontece?. In: JINKINGS, Ivana; DORIA, Kim; CLETO, Murilo (orgs.). Por que gritamos golpe?: para entender o impeachment e a crise política no Brasil. Coord. São Paulo: Boitempo, 2016. p. 39-41.RAMOS, Beatriz Vargas; PRANDO, Camila. Algo além do rito do processo de impeachment. In: PRONER, Carol; CITTADINO, Gisele; TENENBAUM, Marcio; RAMOS FILHO, Wilson (orgs.). A resistência ao golpe de 2016. Bauru: Canal 6, 2016. p. 53-56; RAMOS, Beatriz Vargas; MOREIRA, Luiz. Ingredientes de um golpe parlamentar. PRONER, Carol; CITTADINO, Gisele; TENENBAUM, Marcio; RAMOS FILHO, Wilson (orgs.). A resistência ao golpe de 2016. Bauru: Canal 6, 2016. p. 57-60.

[1] Às quais acrescentamos as muitas omissões identificáveis como causas concorrentes para a calamidade que atinge o sistema de saúde de Manaus, em que cidadãos morrem pela falta de oxigênio que se pode atribuir ao absoluto descaso do poder público em todas suas esferas, especialmente diante das informações que dão conta da ciência prévia da União quanto aos limites do abastecimento e sua escassez crítica. Por todas: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/01/governo-bolsonaro-ignorou-alertas-em-serie-sobre-falta-de-oxigenio-em-manaus.shtml

[1] Art. 1º Quem, com a intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como tal:

  1. a) matar membros do grupo;
  2. b) causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo;
  3. c) submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial

    200 mil mortes_sid.jpg

     

 
15
Dez20

Nota da Comissão Arns: O Presidente perdeu a condição de governar

Talis Andrade

loba roma.jpg

 

“O momento é grave. É hora de dar um basta ao desgoverno. Hoje é preciso falar ao conjunto dos brasileiros, nossa população multiétnica, multirracial, com diversidade cultural e distintas visões políticas, 210 milhões de cidadãs e cidadãos. Hora de falar ao povo, detentor e destinatário dos rumos do país.

Assistimos em 2019 ao desmanche de instituições e estruturas de Estado, em nome de alinhamentos ideológicos e guerras culturais. A partir de fevereiro último, com a chegada da pandemia em nosso território, ao grande desmanche somaram-se ataques à ordem constitucional, à democracia, ao Estado de Direito. Não podem ser banalizados, muito menos, naturalizados.

Como alertaram os cientistas, a Covid-19 encontraria no Brasil campo fértil para o seu alastramento: um país-continente com enorme desigualdade social e concentração de renda, sistema de saúde fragilizado por cortes e tetos orçamentários, saneamento básico precário, milhões de brasileiros vivendo em bairros, comunidades e distritos sem infraestrutura, sucateamento da educação pública, desemprego na casa das 13 milhões de pessoas e uma economia estagnada. Acrescente-se a esse quadro, as características próprias da atual pandemia – um vírus com alta velocidade de transmissão e sintomatologia grave, para o qual ainda não há remédio ou vacina eficazes.

Talvez imune ao vírus, mas com toda certeza imune ao sofrimento humano, o Presidente da República, Jair Bolsonaro, tem manifestado notória falta de preocupação com os brasileiros, com o risco das aglomerações que estimula, com a volta prematura ao trabalho, com um sistema de saúde que colapsa aos olhos de todos e até com o número de óbitos pela Covid-19, que totalizam, hoje, muitos milhares de casos – sobre os quais, aliás, já se permitiu fazer ironias grosseiras e cruéis.

Mas a sanha do presidente não para por aí. Enquanto o país vive um calvário, Jair Bolsonaro insufla crises entre os Poderes. Baixa atos administrativos para inibir investigações envolvendo a sua família. Participa de manifestações pelo fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Manipula a opinião pública, e até as Forças Armadas, propagando a ideia de um apoio incondicional dos militares como blindagem para os seus desatinos. Enfim, o presidente deixa de governar para se dedicar à exibição diária de sua triste figura, em pantomimas familiares e ensaios golpistas.

Preocupado com o amanhã e sob o peso do luto, o Brasil precisa contar com um governo que coordene esforços para a superação da crise, começando por ouvir a voz que vem das casas, das pessoas que sofrem, em todas as partes. Não há como aceitar um governante que ouve apenas radicais fanáticos, ressentidos e manipuladores, obcecado que está em exercer o poder de forma ilimitada, em regime miliciano-militar que viola as regras democráticas e até mesmo o sentido básico da decência.

Só resta sublinhar o que já ficou evidente: Jair Bolsonaro perdeu todas as condições para o exercício legítimo da Presidência da República, por sua incapacidade, vocação autoritária e pela ameaça que representa à democracia. Ao semear a intranquilidade, a insegurança, a desinformação e, sobretudo, ao colocar em risco a vida dos brasileiros, seu afastamento do cargo se impõe. A Comissão Arns de Defesa dos Direitos Humanos entende que as forças democráticas devem buscar, com urgência, caminhos para que isso se faça dentro do #EstadodeDireito e em obediência à Constituição”.

Assinam, em nome da #ComissãoArns, os ex-ministros José Carlos Dias, presidente da Comissão Arns de Defesa dos Direitos Humanos e ex-ministro da Justiça (governo FHC); Claudia Costin, ex-ministra de Administração e Reforma (governo FHC); José Gregori, ex-ministro da Justiça (governo FHC); Luiz Carlos Bresser-Pereira, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), ministro da Administração e Reforma do Estado e ministro da Ciência e Tecnologia (governos FHC); Paulo Sérgio Pinheiro, ex-ministro da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos (governo FHC); Paulo Vannuchi, ex-ministro de Direitos Humanos (governo Lula), todos fundadores da Comissão Arns.

 
 

ave rapina.jpg

 

 
07
Nov20

De quantos estupros se compõe um estupro?

Talis Andrade

assédio suicídio Kavehadel.jpg

 

Um estupro foi registrado no país a cada oito minutos em 2019

 
por Wilson Gomes /Cult
- - -

O mundo está assim agora: a gente vai dormir na terceira década do século 21, mas no outro dia acorda lidando com problemas do início do século 20, quando não com questões e mentalidades que faziam parcamente sentido em algum ponto bem remoto do passado. Acho que era a isso que o filósofo Ernst Bloch chamava de acontemporaneidade, com o alfa privativo mesmo. Não é que as coisas sejam extemporâneas, fora do seu devido tempo, é que comportamentos e mentalidades típicas de temporalidades diferentes convivem e colidem, hoje, apesar de tudo. 

O fato é que há certas formas arcaicas de pensar e de existir que teimam em não ir embora e ficam nos assombrando, mesmo quando incompatíveis com o estágio esperado de progresso histórico e de evolução da humanidade. Mais que incompatíveis, são desmoralizantes, uma vez que jogam na nossa cara que a natureza humana reluta em abrir mão de comportamentos que hoje nos desumanizam, nos rebaixam. Olhando-nos no espelho e vendo tantas sobras de fases atrasadas, brutas e imorais da humanidade, quem acredita que o ser humano é fundamentalmente bom e pode melhorar tem um momento de ceticismo e vergonha. Muita vergonha.

Como não se sentir repugnado com o fato de que ainda em 2020 pelo menos metade da humanidade, as mulheres, tenham medo da outra metade, os homens, e tenham boas razões para temê-la? Falei “pelo menos metade” pois também as crianças, de ambos os sexos, poderiam basear em dados empíricos o medo do predador masculino, apesar de séculos de humanismo cristão, de Iluminismo e de democracia liberal. 

Dados, por certo, não faltam. A 14ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que no Brasil se estupra com uma frequência assombrosa. Um estupro foi registrado no país a cada oito minutos em 2019. “Registrado”, quer dizer, consignado em boletins de ocorrência por quem conseguiu coragem e teve recursos para tanto. Ninguém sabe quantos estupros, de fato, ocorrem, mas o número deve ser muito maior. Não é inquietante que no tempo que você leva para ler esta coluna pelo menos uma mulher ou menina esteja sendo estuprada no Brasil? Tem mais. 58% das vítimas de estupros registrados no ano passado eram crianças de até 13 anos. A maioria nem estava na rua ou exposta a estranhos, pois em 84% dos casos a própria casa é o suplício das mulheres e o estuprador é um conhecido da vítima, um familiar ou uma pessoa da sua confiança.  

É assustador e revoltante para todos os que creem em uma sociedade baseada em igualdade, liberdade e respeito à dignidade humana, os que estão convencidos de que cada um tem o direito de buscar a felicidade e de viver a sua vida como melhor lhe pareça. Mas gostamos de achar, para o conforto da nossa consciência, que somos um mar de civilização e respeito, com algumas ilhas eventuais de brutalidade e selvageria moral. Será mesmo?

Não faz muitas semanas e estávamos discutindo o caso de Robinho, o jogador de futebol, condenado na Itália por ter abusado sexualmente, em grupo, de uma garota bêbada em uma boate italiana. Não foram pouco os que saíram em defesa do jogador, alegando que, afinal, uma moça que se coloca em certas situações não teria o direito de alegar estupro quando recuperasse a consciência e percebesse que serviu aos caprichos sexuais dos machos que a cercavam. Candidamente, o jogador alegou absoluta inocência, pois, afinal, “tão somente” enfiou o pênis na boca de uma menina inconsciente; sexo, explicou, é apenas quando há penetração vaginal. Multidões correram em socorro do argumento do jogador, coitadinho, tão garoto, tão inconsciente, tão vítima da messalina italiana. 

Esta semana, uma nova história bizarra nos mesmos moldes veio à tona com a divulgação de uma sessão online de julgamento de um caso de estupro em Santa Catarina. Diferentemente da Itália, o acusado não foi condenado. O que se destaca no caso são as cenas de constrangimentos e humilhações da vítima a que todos puderam assistir em mídias digitais. Uma moça que havia sido abusada sexualmente em uma boate de ricos, depois de drogada e inconsciente, foi atacada ferozmente e humilhada pelo advogado do réu, sem que tenha sido devidamente defendida pelo juiz do caso. Independentemente do que eu pense da sentença, foi infame o que foi feito naquela sessão do tribunal à moça que foi buscar justiça. Assim como foi definitivamente infame o modo como todos se comportaram com ela naquele julgamento.

O que aconteceu naquele tribunal foi gravíssimo no presente e para o futuro. Chama-se vitimização secundária ou revitimização, e consiste em submeter a pessoa estuprada a ondas sucessivas de humilhação e dor. A segunda vitimização costuma se dar na família ou na própria delegacia – e as delegacias de mulheres foram criadas como forma de reconhecer e mitigar o fato. A terceira vitimização pode acontecer na opinião pública, seja na esfera pública tradicional, produzida pela cobertura dos jornais que muitas vezes transforma a vítima em culpada, quanto nas formas não tradicionais das mídias digitais, onde os feios, sujos e malvados concorrem para ver quem tira mais pedaços de quem teve a ousadia de denunciar o violador e ir buscar o amparo da Lei. 

Às vezes temos ainda uma outra onda de revitimização, ainda mais repugnante quando se dá, como neste caso, no espaço institucional onde a vítima deveria ter do seu lado a força do Estado e não ser violada e humilhada sob o olhar complacente de quem deveria fazer-lhe justiça.

 

Já é suficientemente grave
para o Estado de Direito a
vitimização secundária nas
delegacias de polícia e na
esfera pública, mas a
revitimização em um
tribunal é um escândalo.

 

 

O curioso deste caso é que enquanto uma parte da sociedade ficou chocada com os eventos e pediu que os envolvidos fossem responsabilizados, outra parte refazia o processo na esfera pública para condenar a moça estuprada. Como tudo no Brasil, de vacina a jogos de futebol, até os estupros foram politizados e se tornaram objeto de polarização, mesmo que nada tenha a ver com política partidária. Agora, se você é de esquerda, de centro, e até da direita civilizada, fica do lado de quem sofreu o estupro e acha que haverá justiça se houver condenação e punição social; se você é bolsonarista, transforma o estuprador em vítima e o estuprado em réu, como nos dois exemplos acima. 

Foi assim que Rodrigo Constantino, por exemplo, o comentarista que se tornou a voz mais engajada do bolsonarismo em mídias digitais, 600 mil seguidores no Twitter, 300 mil no Facebook, legiões de fãs na Jovem Pan, na Record e em mais uns três veículos da imprensa, fez da causa o seu palanque. Em lives e tuítes, condenou as “feministas amargas lutam [que] pelo ‘direito’ de tomar todas num quarto com homens, consentir em fazer sexo bêbada, e depois bancar a vítima de estupro, sem aceitar ainda a opinião dos outros de que tem comportamento indecente”, disse. 

Para este lado moral e político do Brasil, do qual Constantino é a face mais visível e abusada, há mulheres respeitáveis e há as outras, que não têm o direito de alegar terem sido estupradas mesmo não tendo concordado com o sexo a que foram submetidas, posto que se colocaram em situações que “a decência” não autorizaria. Não é que os bolsonaristas defendam o estupro. Antes, creem demonstrar isso cabalmente uma vez que defendem a castração química dos violadores e o porte de armas para mulheres como forma de impedir o estupro. Os que defendem que o estupro é um tipo penal que não se aplica a todas as relações sexuais não consentidas com qualquer mulher, mas apenas com as mulheres que obedecem ao código de decência do bolsonarismo. 

Depois finge-se não se entender por que tantas vítimas de estupro sofrem caladas, às vezes por ano, mas não denunciam o crime. Denunciar para serem julgadas e revitimizadas? Ou por que tantas vítimas não resistem à violência do estupro somada à projeção das outras violações que sofrerão por consequência, e se suicidam. No Brasil do século 21, infelizmente, por causa de dessa mentalidade, um estupro é sempre composto de muitos estupros. 

- - -

Thalia foto blusa laranja.jpg

O delegado, o promotor, o juiz esqueceram o suicídio de Thalia Mendes Meireles, 16 anos. O caso se deu no Maranhão. Não culparam o boto cor-de-rosa. E sim a 'baleia azul', que estava na onda.

A menina foi estuprada quando tinha onze anos.

Depois de muitos estupros, preferiu a morte. Deixou um lindo poema em prosa como carta de despedida:

thalia carta 1.jpg

Thalia carta-2.jpg

Thalia carta -3.jpg

Thalia carta -4.jpg

Thalia carta final -5.jpg

thalia mendes nova foto.jpg

 

04
Nov20

Caso Mari Ferrer é um estupro à razão. Doloso, como todo estupro

Talis Andrade

Sentença de "estupro culposo" gera revolta na internet

 

por Gilvandro Filho

- - -

Não dá para imaginar o sentimento que passou pela cabeça dos pais da blogueira Mariana Ferrer ao assistirem as cenas da audiência com filha. Dor, revolta, desolação, desesperança.

Quem suportaria ver sua filha ser espezinhada por “homens de bem” cuja missão é fazer cumprir a Lei, mas que, que crueldade de desfaçatez. Ela não estava nos porões da casa de eventos onde André de Camargo Aranha, um covarde endinheirado, a perseguiu, assediou e, ato contínuo, estuprou. Pelo contrário, Mariana estava numa sala de audiência, em Florianópolis (SC), em busca da Justiça que merecia encontrar e onde o desfecho não podia ser outro que não a condenação exemplar do seu algoz. Mas encontrou algozes piores que o mauricinho que se diverte violentando meninas.

Naquele recinto jurídico, a jovem Mariana encontrou “doutores da Lei” que, ao arrepio da Legislação, do bom senso e da decência, distorceram tudo, transformaram – como é próprio do machismo irresponsável e criminoso – a vítima em acusada. E criaram, cinismo máximo, a esdrúxula figura jurídica do “estupro culposo”, sem intenção de estuprar, aberração inexistente no Código Penal.

Na sala de audiência, estupraram Mariana pela segunda vez. Com agravantes. O advogado de defesa do estuprador, Claudio Gastão da Rosa Filho, dos mais profissionais bem pagos da cidade, virou o caso ao avesso e acusou a vítima de “dissimulada”, para citar o mínimo. “Essa lágrima de crocodilo… você ganha pão com a desgraça dos outros”, expeliu o “causídico” autor da tese do “estuprador culposo”, aceita sem corar de vergonha pelo Ministério Público que, de pronto, pediu o arquivamento do caso, solicitação aceita pelo juiz Rudson Mattos.

O doutor Gastão, pelo visto, não deve ter filhas, mulher ou mãe. Não tem como se imaginar alguém que tem mulheres na família fazer de um estuprador uma vítima e de uma vítima uma criminosa. Com certeza, ele iria sofrer, mesmo que, seguindo sua própria tese, ele admitisse que o suposto estuprador teria violentado sua parente “sem intenção de fazê-lo”. É de se supor, no caso do advogado, a mesma “sentença” que ele insinuou contra a jovem blogueira, a de ganhar “o pão com a desgraça dos outros”.

A reação de Mariana é um dos apelos mais desesperados que o Direito brasileiro já produziu. Uma vergonha para o País. “Excelentíssimo, estou implorando por respeito. Nem acusados são tratados do jeito que estou sendo tratada. Pelo amor de Deus, gente… O que é isso?”. De doer…

Tudo corroborado pelo  juiz Rudson que a tudo assistiu, dócil e silente, como outra personagem grotesca dessa farsa. Não moveu uma palha para impedir um crime de assédio e agressão, às suas barbas.  Ao final, acatou o MP e absolveu o acusado por falta de provas. O caso parece filme de terror, mas não é. É uma página deplorável e desonrosa produzida pela Justiça Brasileira e por um país cujo dirigente máximo tem entre suas frases antológicas a célebre “Não lhe estupro porque você não merece, é feia”, dirigida a uma adversária política.

A Corregedoria Nacional de Justiça abriu investigação para investigar o juiz Rudson. O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) repudiou o termo “estupro culposo” e vai acompanhar os desdobramentos dos recursos. O ministro do STF Gilmar Mendes chamou as cenas da audiência de “estarrecedoras”. No Congresso, mais grita. Senadores como Fabiano Contarato (Rede-ES) e  Alessandro Vieira (Cidadania-SE) entraram com representação no CNJ sobre o caso que, na Câmara, mereceu reações fortes de parlamentares como Sâmia Bomfim (PSOL-SP) e Tadeu Alencar (PSB-PE).

Que não fique só nisso.

estupro _jotaa.jpg

 

12
Jul20

Margarida Salomão cobra explicações do novo ministro da Educação sobre declarações polêmicas

Talis Andrade

beto (1)  milton ribeiro.jpg

 

Como vem acontecendo desde o início do governo de extrema direita Jair Bolsonaro, o novo ministro da Educação, pastor presbiteriano Milton Ribeiro, coleciona declarações polêmicas sobre crianças, mulheres e sexualidade. Por isso, a deputada Margarida Salomão (PT-MG) defende que Ribeiro explique ao Congresso suas declarações e informe se ainda concorda com seus antigos posicionamentos.

Em entrevista ao site Congresso em Foco, Margarida Salomão, que é presidenta da Frente Parlamentar da Educação, afirmou que as posições do novo ministro são muito preocupantes. “Circula uma série de informações sobre posições assumidas por ele no passado que são muito preocupantes. A visão da legitimidade, da propriedade dos castigos físicos na educação, está superada secularmente. Isso é um retrocesso inacreditável e intolerável”, comentou a parlamentar.

Sexo

Em vídeos de pregação religiosa, Milton defendeu o castigo físico como uma forma de pais educarem os filhos, disse que universidades “ensinam sexo sem medida” e que o homem deve ser o líder em casa.

Diante das posições polêmicas do novo ministro, a Frente Parlamentar Mista da Educação e a Comissão de Educação da Câmara querem ouvir esclarecimentos dele a respeito de suas declarações antigas e também sobre seus planos para a pasta. Os dois colegiados pretendem fazer o convite na próxima semana.

Fé religiosa

Margarida disse que é preciso saber do ministro se ele ainda tem as mesmas convicções. Ela ressaltou que não há qualquer problema em ele ser pastor. “Poderia ser padre, budista. Todos têm direito a professar sua fé religiosa. O que não pode é transferir essas convicções da esfera privada para a pública, isso compromete o exercício da função pública”, declarou a deputada.

“Ele tem todo direito de ter mudado de pensamento. Precisamos ouvi-lo. Mas no contexto de uma gestão desastrosa da educação, como temos tido, esses vídeos aumentam nossa desconfiança”, acrescentou.

 

11
Jul20

Novo ministro da Educação: para aprender, criança “deve sentir dor”

Talis Andrade

Milton Ribeiro, ministro da Educação

 

Em uma pregação, ele incentiva castigos físicos para se corrigir os menores e diz que "cura não é obtida por meios justos e métodos suaves"


Parte do método defendido pelo novo ministro da Educação, pastor Milton Ribeiro, para se educar crianças inclui a defesa de que elas “sintam dor”. Em um vídeo de uma de suas pregações, ele incentiva que os pais apliquem castigos físicos como forma de obter a “correção necessária para a cura”. “Talvez algumas mães até fiquem com raiva de mim, mas (a criança) deve sentir dor”, diz o pastor.
 

Ele ainda tenta antecipar possíveis críticas de que seu método seja considerado antipedagógico: “Eu amo as crianças da minha igreja”.

Ribeiro argumenta que a correção necessária para as crianças “não ocorrerá por meios justos e métodos suaves”. Esse tipo de método, em sua argumentação, só seria entendido por crianças mais desenvolvidas, ou mesmo superdotadas.

“A correção necessária para a cura não vai ser obtida por meios justos e métodos suaves. Talvez uma porcentagem muito pequena de crianças precoces, superdotadas é que vai entender o seu argumento. Deve haver rigor, desculpe, severidade”, apontou.

- - -

Para este correspondente, o novo ministro deve seguir Bolsonaro, e defender a tortura de presos. E ter o coronel Ustra como herói. 

Pelo andar do andor, quem diria, vamos ter saudades de Abraham Weintraub, idiota da escola de Olavo de Carvalho, e analfabeto de pai e mãe. 

16
Mai20

Bolsonaro precisa de um Mengele

Talis Andrade

mengele.png

 

 

por Fernando Brito

Tijolaço

 - - -

Participar do governo Bolsonaro, como disse ontem ao falar na TVT é como entregar a alma para entrar no Inferno.

Por isso, não supreende nem desperta piedade a demissão do ministro da Saúde, Nélson Teich, menos depois de ter assumido a cadeira do “fritado” Luiz Mandetta.

Não bastava a sua anomia, não chegava o ar lúgubre, não era suficiente a sua covardia tatibitati.

Bolsonaro precisa de um cão, de um completo vagabundo, de um borra-botas que seja seu cúmplice na tarefa de juncar de cadáveres o chão do Brasil.

Ele quer um Mengele.

Alguém tem de soar o alarme: Jair Bolsonaro não é apenas indiferente às mortes aos milhares.

Ele as quer, ele quer a explosão de dor e desespero para pavimentar seu caminho ao poder absoluto, tal como as milícias precisam de corpos no chão para impor seu império de medo e submissão às comunidades.

novo-ministro mengele.png

 

05
Abr20

Covid-19: o drama dos médicos especializados em ‘fim de vida’ na França

Talis Andrade

 

 

"Não é porque estamos em um período centrado em emergências que devemos esquecer a humanidade", dizem os profissionais especializados em “cuidados paliativos” no fim da vida, uma categoria importante da medicina francesa. Os especialistas neste tipo de cuidado também estão na linha de frente da pandemia galopante de coronavírus para tentar evitar qualquer "submersão" ao desespero, sobretudo para os pacientes em estado grave da Covid-19.

Para os agentes de saúde responsáveis ​​pelo alívio de pessoas com formas graves de Covid-19, que enfrentam ansiedade, dor e asfixia, e que não serão capazes de se beneficiar da reanimação artificial, o desafio é aprender com o que aconteceu na Alsácia, uma região muito afetada pela doença na França.

Em Mulhouse, em particular, as equipes não estavam preparadas para a chegada maciça de pacientes, disse o professor Régis Aubry, ex-presidente da Sociedade Francesa de Cuidados Paliativos (SFAP), que trabalha em uma unidade de um hospital universitário na região de Bourgogne Franche Comté (centro).

De repente, o SFAP, em consulta com outros especialistas (geriatras, ressuscitadores, pneumologistas) foi mobilizado para ajudar e treinar colegas de saúde. Para alguns pacientes, a reanimação pode ser inalcançável: "Fazer uma triagem? É isso que os médicos da reanimação fazem o tempo todo", lembra o professor Olivier Guerin, presidente da sociedade francesa de gerontologia e geriatria (SFGG )

Garantir "apaziguamento"

Assim, mesmo antes da era do Covid-19, para certas doenças crônicas, como "insuficiência respiratória grave, sabe-se que a ressuscitação ou reanimação não é benéfica a longo prazo, não faremos com que sofram por nada", diz o Dr. Thibaud Soumagne, ressuscitador do Hospital Universitário de Besançon, que também é pneumologista. Neste hospital, como em outros lugares, foi criada uma unidade de cuidados paliativos para a Covid-19.

Mas se as necessidades de ressuscitação excederem em muito a oferta disponível no país, as pessoas que poderiam se beneficiar delas correm o risco de serem privadas.

Aconteça o que acontecer, as abordagens terapêuticas oferecidas a todos os estabelecimentos de saúde e médico-sociais, mas também em casa, no contexto da epidemia na França, não visam a eutanásia, lembra o SFAP, que publicou propostas emitidas e folhas de conselhos terapêuticos de emergência para locais afetados pela saturação hospitalar ou que provavelmente serão saturados em breve.

O objetivo é "proporcionar alívio aos pacientes mais afetados" em caso de dificuldades respiratórias ou angústia.

No entanto, com "a escassez de midazolam (Hypnovel) para adormecer, a falta de morfina assim como de seringas elétricas", o Dr. Bernard Devalois, médico em cuidados paliativos em Bordeaux alerta contra "a tentação da eutanásia" que os cuidadores de lares de idosos podem sentir quando confrontados com os mesmos mergulhados em sofrimentos horríveis, como a asfixia.

Bernard Devalois lamenta, a esse respeito, "a ausência de um estoque estratégico de midazolam", que ele afirma ter "proposto constituir, quinze anos atrás, no caso de uma pandemia".

"Cuidado digno"

Morfina para aliviar dores e dificuldades respiratórias (dispnéia), midazolam (Hypnovel) para sedação (adormecer) e um medicamento para congestão brônquica, combinados, servem para amenizar o fim da vida, de acordo com o SFAP. Na ausência do Hypnovel, outros produtos injetáveis, como Valium ou Rivotril, são possíveis, mas "é um procedimento degradado", julga o Dr. Devalois.

“Os sintomas respiratórios são muito provocadores de ansiedade. Os ansiolíticos melhoram o conforto do paciente. Alguns por via oral são úteis, mas não podem mais ser usados ​​nos estágios finais do desconforto respiratório. Na fase de asfixia, a urgência é implementar sedação profunda muito rapidamente”, recomenda o Dr. Devalois.

As agências regionais de saúde (ARS) devem pedir às farmácias dos hospitais que forneçam estoques suficientes dos medicamentos necessários para asilos e pequenos hospitais, sugere ele.

O professor Claude Jeandel, presidente do Conselho Nacional de Geriatria Profissional, solicitou ao Ministro da Saúde o acesso aos medicamentos recomendados pelo SFAP "para tratamento digno da angústia respiratória asfixia do grande número de residentes que não têm hospitalização e que morrerão em asilos ".

 O modelo atual não está adaptado ao atendimento estruturado de idosos e pessoas com doenças crônicas na cidade, observa o professor Guérin, culpa segundo ele, da ausência de médicos coordenadores nos asilos, com poderes para prescrever em situações de emergência e de enfermeiros noturnos.

depeche. francia 5ab.jpg

lacroix. francia 5ab.jpg

ouestfrance. 5ab.jpg

parisien. 5ab.jpg

sudouest. francia 5ab.jpg

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub