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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

21
Jan21

Militares, crimes e a tentação autoritária

Talis Andrade

Por Roberto Amaral

O general comandante do exército não gostou do artigo “Na pandemia, exército volta a matar brasileiros”, de Luiz Fernando Viana, (Época. 17.1.2021) e mandou o general chefe do centro de comunicação social do exército responder à revista. O subordinado cumpre à risca o mandato do chefe, e, no melhor (embora canhestro) estilo do velho e expurgado florianismo, ou lembrando os tempos do grotesco marechal Hermes da Fonseca, mais que defender a corporação, supostamente injuriada, desanca o jornalista acusado de blasfêmia e tenta intimidar a revista, ou seja, investe contra a liberdade de imprensa: 

“(...) O Exército Brasileiro exige imediata e explícita retratação dessa publicação, de modo a que a Revista Época afaste qualquer desconfiança de cumplicidade com a conduta repugnante do autor e de haver-se transformado em mero panfleto tendencioso e inconsequente”. 
 
O segundo general, por força do hábito, certamente, se expressa como se estivesse dando ordem a um subordinado. Ora, senhor, não existe "imediata retratação" na democracia: o general comandante que busque na Justiça uma possível reparação, nos termos da lei, como qualquer cidadão pode buscar.
 
Agora, conjecturemos. E se a revista não for acometida de medo e pusilanimidade, que farão os dois generais? Se tal é a pena que pesa como espada de Dâmocles sobre o periódico, que estará reservado ao articulista? Fosse nos idos do Estado Novo, ditadura imposta ao país pelas tropas do ministro da guerra, general Eurico Gaspar Dutra, os militares fechariam a revista e o coronel Filinto Muller prenderia o jornalista nas enxovias do DOPS no Rio de Janeiro. Nos idos da ditadura de 1964, os fardados cassariam os direitos políticos do articulista e o confinariam em Fernando de Noronha, como fizeram com Hélio Fernandes. 
 
Mas que fazer agora, quando o regime ainda é o democrático e constitucional? Ameaçam a livre expressão de pensamento, princípio das democracias ocidentais incorporado à nossa ordem constitucional como direito fundamental desde o primeiro texto republicano. Renunciam ao direito de resposta, que implica a contestação do articulado, e ingressam no campo fácil das ameaças e da intimidação, artifício aliás muito cômodo, embora cediço, para quem pode usar a espada como último argumento.

Em síntese: além de arrogantes, os dois generais atentam contra a Constituição o que constitui crime, pelo qual devem ser representados pelo Ministério Público.

Mas o texto dos generais, ademais de não responder ao artigo indigitado, repito, encerra uma série de imprecisões, ou inverdades, que, de tanto serem repetidas, tomam foros de verdade. Comento algumas delas. Não é certo, por exemplo, que devemos nossa unidade territorial aos militares. A expansão é obra de mamelucos, negros escravizados, índios, e da ação genocida de bandeirantes saídos de São Paulo, mas saídos também da Bahia, de Pernambuco, do Maranhão, do Pará e do Amazonas. Segue-se o povoamento do sertão, obra do povo, a que se reporta Capistrano de Abreu. A integridade territorial, por outro lado, foi obra de nordestinos, na colônia, e de gaúchos na colônia e no império em guerras que consumiram milhares de vidas. No Império foi obra da Regência, confirmada e consolidada na república pela diplomacia do Barão do Rio Branco.
  
É verdade que nossos soldados foram para os campos da Itália, já ao final da guerra (1944), combater as tropas do Eixo, mas é igualmente verdade que fomos à guerra contra a insistente resistência dos generais Eurico Gaspar Dutra, Ministro do Exército, e do todo poderoso general Góes Monteiro, chefe do estado maior da força, como está fartamente documentado. Aliás, na reunião do ministério (27 de janeiro de 1942) que decidiu pela beligerância, a proposta foi apresentada pelo civil Getúlio Vargas, contra o parecer do ministro da Guerra. 
  
De outra parte, há certas e incômodas verdades que os generais não comentam, como a “guerra do Desterro”(1894) e o “ajuste de contas” do sanguinário coronel Moreira César, como não têm uma só palavra sobre o covarde massacre dos beatos de Antônio Conselheiro, para proteger os interesses dos latifundiários da Bahia. Ainda na República, em 1937, lembro o bombardeio do Caldeirão, no Ceará, contra os camponeses do beato Lourenço, evento esquecido à direta e à esquerda. Não sei se a marinha registra com orgulho a Revolta da Chibata, de 1916. 

Estamos falando em fatos recentes, republicanos. Mas não foi diverso o papel do exército no império, sufocando, à custa de muito sangue, as tentativas de independência e republicanismo que caracterizaram, por exemplo a Confederação do Equador (1824), esmagada, como a Revolução Praieira (1849), com a mesma fúria que antes se abatera sobre a Revolução pernambucana de 1817 e que terminou com o fuzilamento do Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo, que passou à história como Frei Caneca e hoje é pranteado como santo e herói.

O articulista da Época a ele não se refere, mas a historiografia séria desqualifica qualquer entusiasmo cívico diante de nosso papel na guerra do Paraguai.

Os militares sustentaram, até a exaustão, em nome dos grandes proprietários, dois impérios, cujas bases radicavam no escravismo e na estagnação, uma das raízes do atraso de hoje. Preferiram, sempre, um país tacanho, de analfabetos e mal alimentados, de deserdados da terra, a tocar nos privilégios da classe dominante, sejam os velhos latifundiários do Império, sejam os grandes fazendeiros da primeira república, seja o empresariado rentista, improdutivo, de nossos dias.
 
O progresso é visto como ameaça, pois pode desestabilizar o statu quo do mando secular.

E os militares brasileiros, a quem a nação deve outros serviços, jamais se notabilizaram na defesa da democracia. Na República a golpearam insistentemente desde as ditaduras dos marechais Deodoro da Fonseca (1889-1891) e Floriano Peixoto (1891-1894) até hoje. Vide o golpe de 1937, arquitetado por Góes Monteiro e operado por Eurico Dutra; o golpe de 1954 operado pelas três forças e que teve no general Juarez Távora um de seus comandantes, a tentativa de golpe contra as eleições de 1955 (que teve entre seus líderes o general Canrobert Pereira da Costa e o brigadeiro Eduardo Gomes); a intentona de 1961, encabeçada pelos três ministros militares e o chefe do estado maior do exército, general Cordeiro de Farias; o golpe de 1964, que nos legou 20 anos de ditadura, com seu rol de cassações de direitos políticos, prisões, torturas e assassinatos, muitos levados a cabo em dependências militares, como o assassinato de Mário Alves Alves de Souza Vieira, no quartel da polícia do exército no Rio de Janeiro, e de Stuart Angel, na base aérea do Galeão.

Sempre na defesa da ordem (pleiteada por todos os privilegiados), dos interesses da grande propriedade da terra, da burguesia e do capital internacional, contra a emergência dos interesses populares, travando o processo histórico. 

O fato é este: até hoje não se fizeram as reformas necessárias para transformar a nação em país soberano, como a reforma agrária pedida desde o primeiro império por José Bonifácio. Aliás, por defender “reformas de base” um presidente da República foi deposto e implantada, pelos militares, uma ditadura, pesadelo que ainda nos assombra.

As democracias não falecem por doença congênita. Jovens ou maduras elas são assassinadas, e só há uma arma capaz de atingi-las mortalmente: a espada, seja empunhada por uma sedição, seja por um golpe de Estado. No Brasil e no mundo o golpe de Estado é a forma que as forças dominantes dispõem para chegar ao poder evitando os percalços de eleições. Ele ou é dado diretamente pelas forças armadas, ou é levado a cabo com seu assentimento cúmplice. Mas em qualquer hipótese nenhum golpe de Estado se sustenta sem o poder militar. No Brasil ele foi agente de todos os golpes de Estado levados a cabo com sucesso. E foi ele que abriu caminho para a aventura do capitão insidioso, e hoje lhe dá proteção. 
 
Os militares, portanto, na medida em que sustentam e participam do comando do governo, até mesmo (e com escandalosa inépcia) na administração da saúde (onde pontifica a estultice de um general da ativa), estão solidários com todos os seus erros e crimes, inclusive os de lesa-pátria, como a política externa que nos transforma em aliados subalternos do império do Norte e seus interesses.
  
Dessa obviedade histórica não podem fugir. Resta-nos supor que as forças armadas ainda conservem – porque nem todos os generais estão ocupando sinecuras no governo – capacidade de reflexão e, antes que seja irremediavelmente tarde, revejam o papel que estão cumprindo, contra a história que pretendem representar, contra os interesses do país e de seu povo, contra a vida e a esperança. 
27
Dez20

Frei Tito “começou a morrer de fato nas mãos do Delegado Fleury”

Talis Andrade

Lançamento hoje da biografia de Frei Tito

“A História do Brasil não é conhecida” lamenta autora de livro sobre Frei Tito, “mártir da ditadura”

A escritora e jornalista Leneide Duarte-Plon acaba de lançar a versão francesa de “Um homem torturado, nos passos de Frei Tito de Alencar”, em coautoria de Clarisse Meireles. O livro resgata a trajetória do frei dominicano, torturado nos porões da ditadura e que se suicidou em 1974 na França. Um documento minucioso sobre a luta armada contra o golpe militar no Brasil.

O ponto de partida dessa biografia de Tito de Alencar é mostrar como a tortura pode destruir um homem para sempre. “Tito morreu de fato na sala de tortura” diz Leneide em entrevista à RFI.

A ideia de contar a trajetória do frei dominicano surgiu quando a jornalista brasileira, residente em Paris, foi assistir uma palestra onde o psiquiatra Jean-Claude Rolland relatou sua primeira experiência, nos anos 70, de tratamento de uma das vítimas da tortura da ditadura militar no Brasil. Ele se referia ao Frei Tito de Alencar, que nessa época vivia em um convento na França, onde sofria delírios e alucinações.

“Nesse dia o livro começa” conta Leneide, que iniciou uma série de entrevistas no Brasil e na França, com sua filha Clarisse Meirelles, também jornalista. Em 2014 o livro foi publicado pela editora Civilização Brasileira e indicado ao prêmio Jabuti um ano mais tarde. Recentemente, a obra foi traduzida para o francês e lançada pela editora Karthala com o título “Tito de Alencar (1945-1974) – Un dominicain brésilien martyr de la dictature (“Tito de Alencar, um dominicano mártir da ditadura brasileira”).

Marcas invisíveis

Em 1968, o cearense Tito, aos 23 anos, se engajou, como muitos religiosos da ordem dos dominicanos, nas ações de apoio logístico à Ação de Libertação Nacional, liderada por Carlos Marighella. Detido um ano depois, o Frei foi violentamente torturado, primeiro pelo delegado Sérgio Fleury, de São Paulo, e depois por outros agentes do DOPS, a polícia política do regime militar brasileiro.

Junto com outros 69 prisioneiros políticos, Frei Tito foi trocado pelo embaixador suíço no Brasil, Giovanni Bucher, sequestrado em dezembro de 1970 pela guerrilha armada VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). Libertado, mas banido do Brasil, em 1971, ele se exilou no Chile e depois na França. Mas a tortura o afetou de tal maneira que ele nunca mais conseguiu se reconstruir psicologicamente.

“Os torturadores vieram dentro dele para a França. Ele passou a sofrer alucinações, não conseguia mais dormir e revivia a tortura que sofreu dia e noite no Brasil. Realmente a tortura pode destruir uma pessoa. Foi o caso dele”, observa Leneide, lembrando que um de seus torturadores o havia prevenido durante os interrogatórios: “Podemos destruir você sem deixar marcas visíveis”.

A jornalista ressalta que Tito “começou a morrer de fato nas mãos do Delegado Fleury”. Em seus delírios de perseguição, ele o via ameaçando sua mãe, sua irmã e os membros de sua família. Acolhido no belo convento Sainte-Marie de La Tourette, perto de Lyon, construído por Le Corbusier, o Frei acabou internado em um hospital psiquiátrico, mas não conseguiu superar o tormento. Tito preferiu a morte ao “convívio” com seus torturadores.

Cristão e revolucionário

Para escrever esse livro, Leneide fez uma pesquisa exaustiva e entrevistou dezenas de pessoas que participaram das organizações armadas contra a ditadura. Muitas delas, como o Frei Betto, conheceram o jovem dominicano.

Segundo Leneide, Tito vivia contradições, mas achava impossível “ser cristão sem ser revolucionário”. Ela cita um de seus textos em que ele resume a concepção dominicana do evangelho: “Nós não existimos para salvar as almas, mas para salvar as criaturas, os seres humanos vivos, concretos, no tempo e no espaço bem definido. Temos uma compreensão histórica profunda de Jesus”.

“O evangelho que os dominicanos pregavam é o evangelho que liberta o homem aqui na terra, na vida real, que batalha pela justiça social”, afirma ela, se referindo ao engajamento de uma parte da Igreja Católica contra a ditadura militar e contra a violação dos direitos humanos no Brasil.

Por meio dos testemunhos que ouviu, a jornalista concluiu que as dúvidas que o Frei tinha não eram ligadas às contradições entre marxismo e cristianismo. “Ele se questionava sobre a revolução brasileira, sobre a imaturidade da revolução e sobre a impossibilidade de ela ser bem-sucedida pelo fato de não ter o povo apoiando em massa”.

Para Tito, lembra Leneide, “o difícil era acreditar que eles teriam algum sucesso e chegariam ao objetivo. Fracos como eles eram, face a uma ditadura terrível e ao terrorismo de Estado, que acabou aniquilando completamente a resistência armada”.

Marighella, o “Che brasileiro”

Um dos capítulos do livro é dedicado a Carlos Marighella, chefe da Ação de Libertação Nacional (ALN), cujo codinome na clandestinidade era Ernesto, homenagem evidente a Ernesto Che Guevara, líder da revolução cubana.

O baiano Marighella é descrito pelos membros de várias organizações armadas, entrevistados por Leneide e Clarisse, como o grande líder revolucionário brasileiro. Ele já preconizava a revolução e a luta armada nos anos 30, quando foi preso e torturado pela polícia do ex-presidente Getúlio Vargas.

Segundo relatos dos entrevistados, Marighella pensava desde 1968 em uma união das forças revolucionárias brasileiras, que não deveria se limitar ao Brasil, mas sim fazer parte de um plano global contra o imperialismo que dominava a América Latina. O líder da ALN foi morto pela policia em novembro de 1969 em uma emboscada, no mesmo dia da detenção de Frei Tito e de outros dominicanos.

Narrativa da ditadura está de volta

Apesar da importância de Marighella no cenário da resistência armada contra o golpe militar de 1964, seu nome é praticamente desconhecido dos jovens no Brasil, embora, segundo a jornalista, ele seja “um grande herói da história brasileira”.

“É importante dizer que Marighella não é muito conhecido das novas gerações como a História da ditadura também não é conhecida. Houve um ocultamento desejado e trabalhado para que essa História ficasse debaixo do tapete”, lamenta a jornalista, ressaltando que o Brasil não fez um trabalho de memória até hoje.

“E não é de espantar que a narrativa da ditadura volte em todo o seu esplendor. É algo que interessa à extrema direita que está no poder no Brasil. E o trabalho do livro é o resgate da memória”. Segundo ela, é importante contar a história da ditadura e do terrorismo de Estado implantado nessa época.

Leneide Duarte-Plon espera que as novas gerações possam se informar sobre o que foi a ditadura militar para “impedir que os nostálgicos dos torturadores e da tortura imponham o discurso deles”.

Fonte – UOL

16
Dez19

A extrema direita nazista, fascista, integralista, católica (TFP) e evangélica (BBB)

Talis Andrade

Não foi Bolsonaro que trouxe a extrema direita de volta ao palco. Ela já estava aqui, como sempre esteve. Reportagem de março de 2014 já mostrava o alinhamento entre militaristas, fundamentalistas, racistas e até integralistas para derrubar o governo Dilma, influenciar as eleições e implantar sua necropolítica fascista

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Integralista na Marcha Com Deus pela Liberdade de 15 de março de 2014. Na frase em alemão se lê: não tememos a morte ou o diabo. Foto: Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá - www.mediaquatro.com

 

No executivo, no judiciário, no legislativo, os poderes da bíblia, do boi, da bala (as bancadas BBB) que sempre governaram o Brasil. No Século XX de Mussolini na Itália, Hitler na Alemanha, a imitação Integralista de Plínio Salgado, que é o partido da Aliança de Bolsonaro. 

Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá – www.mediaquatro.com – em especial para os Jornalistas Livres mostra a cara desenvergonhada desse Brasil punitivista, cruel, insano, genocida (excludente de ilicitude), das reformas trabalhista (o fim da CLT) e da previdência (a aposentadoria da fome).

A mídia hegemônica e as redes sociais se espantaram essa semana ao “descobrir” que os fascistas brasileiros perderam totalmente a vergonha e resolveram mostrar suas atitudes e símbolos à luz do sol, em espaço público. Primeiro foi a retirada pela PM de uma faixa da torcida antifascista do Botafogo.

 

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Foto: reprodução Instagram

 

Depois alguém flagrou um homem de meia idade sentado tranquilamente num bar de Unaí, Minas Gerais, com uma braçadeira de suástica nazista sobre a manga da camisa.

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Foto: reprodução Instagram

 

E, finalmente, reportagem do tradicional jornal paulistano O Estado de São Paulo mostra que os Integralistas, versão brasileira do nazismo nos anos 1930, estão de volta à atividade em plena luz do dia.

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Captura de tela do site gratuito Press Reader de foto Hélvio Romero / Estadão – Fonte: https://www.pressreader.com/brazil/o-estado-de-s-paulo/20191215/283205855157928

 

Para nós, que sempre fomos antifascistas e cobrimos as manifestações de rua no Brasil antes de virar modinha com as Jornadas de Junho de 2013, temos visto isso, fotografado, registrado, reportado e tentado alertar a esquerda, que infelizmente se achava invencível na política institucional e aparentemente até hoje não conseguiu se rearticular para barrar o processo de fascismo galopante que vivemos, e não somente no Brasil. 

Barrar o fascismo é fundamental. Nem mesmo as ideologias de centro-direita, nem o liberalismo clássico podem fazer frente a um regime fascista, como explica nessa palestra em inglês o pesquisador Jason Stanley, escritor do livro Como o fascismo funciona: A política do “nós” e “eles” (um bom resumo didático em português pode ser visto no Meteoro.Doc, inclusive fazendo as referências corretas com o Brasil de Bolsonaro citado três vezes na palestra).

Abaixo, reproduzimos na íntegra a reportagem de março de 2014 publicada originariamente no site Brasil+40 sobre a dita Marcha Com Deus e a Família Pela Liberdade, que além dos integralistas e “segurança” de supremacistas brancos, trazia TODOS os grupos e mesmo slogans em faixas que apareceriam em todas as TVs, revistas e jornais do Brasil a partir de março de 2015 na campanha pelo Golpe contra Dilma Roussef e depois no apoio a Bolsonaro.

Não digam que não avisamos!

A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM

Reedição da Marcha com Deus e a Família pede o retorno dos militares ao poder ignorando que a mentalidade militarista nunca deixou a polícia, os presídios ou a periferia

Com o golpe de 2016, de fato consequiram “seu” país de volta. Essa e todas as fotos seguintes: Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá – www.mediaquatro.com

Quando skinheads, integralistas, fanáticos religiosos e saudosistas do regime militar conclamam nas redes sociais a população brasileira a cerrar fileiras contra um golpe comunista e/ou gaysista (acuma?), a censura na internet (Marco Civil), os perigos à liberdade de expressão (dos discursos de ódio de “jornalistas” como a Rachel Sheherazade), a vinda de guerrilheiros/escravos disfarçados de médicos (de Cuba), as urnas eletrônicas (que fraudariam as eleições que eles não conseguiram ganhar) etc, a coisa pode até parecer piada ou alucinação. Mas quando mais de mil passeiam pelo centro de São Paulo gritando esses slogans e agredindo quem se coloca contra isso, aí já é vandalismo!

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Brincadeiras à parte, o número de pessoas que saíram de suas cavernas e detrás das telas de computador onde estão relativamente protegidas para destilar toda sua falta de informação real e preconceito infelizmente não foi insignificante, como alguns jornais publicaram. Ao contrário disso, o fato de colocarem suas “ideias” na rua, de cara limpa, com propostas absurdas mas factíveis (como sempre diz a Professora Malena Contrera, os psicopatas são perfeitamente lógicos e coerentes em sua loucura) é muito significativo do momento que o Brasil e o mundo atravessam, além de ser resultado do processo histórico que vivemos entre 1964 e 1985, e no assim chamado período da redemocratização.

Diferente de outros países como Chile e Argentina, onde os crimes das ditaduras foram abertos por comissões da verdade e os criminosos acusados, condenados e presos, no Brasil a Lei da Anistia de 1979 (recentemente reafirmada como juridicamente válida pelo STF, apesar dos acordos internacionais em contrário assinados pelo país e da Constituição de 1988) tem garantido a impunidade e preservado a identidade de torturadores e assassinos fardados, além de seus comparsas civis.

Manifestante traz na camiseta o símbolo do DOPS - Departamento da Ordem Política e Social, usado durante da ditadura para perseguir, torturar e matar dissidentes

Manifestante traz na camiseta o símbolo do DOPS – Departamento da Ordem Política e Social, usado durante da ditadura para perseguir, torturar e matar dissidentes

Depois dos períodos ditatoriais no continente, presidentes envolvidos em grandes negociatas e esquemas de corrupção nas privatizações do ciclo neoliberal no Peru, Bolívia e Venezuela também foram julgados e detidos ou estão foragidos nos Estados Unidos. Por aqui, Sarney e Collor seguem sendo eleitos para o Senado e FHC não teme ser investigado pela venda por preço irrisório da maior empresa mineradora do mundo (a Vale), nem pelo sistema telefônico nacional e muito menos pela compra de votos para sua reeleição ou a brutal desvalorização do Real no segundo mandato que derrubou a menos da metade o valor das estatais vendidas.

O CCC nos anos 1960 e 70 era o Comando de Caça aos Comunistas. Hoje dizem querer caçar corruptos mas atribuem a corrupção apenas à comunista Dilma

O CCC nos anos 1960 e 70 era o Comando de Caça aos Comunistas. Hoje dizem querer caçar corruptos mas atribuem a corrupção apenas à comunista Dilma

Para quem quiser conhecer a verdadeira origem da insegurança pública, da impunidade e da falta de qualidade nos sistemas públicos de saúde e educação no Brasil, um bom começo é estudar o que há disponível de história, antes que os revisionistas mudem os fatos, da ditadura civil-militar. Sim, civil! Afinal, jamais os militares teriam tomado o poder se não fosse o dinheiro grosso investido pelos Estados Unidos e por empresários nacionais no desmonte de serviços altamente lucrativos hoje como segurança, educação e saúde.

Religião, civis, militares, ideologia e mídia em uma única foto

Religião, civis, militares, ideologia e mídia em uma única foto

Do mesmo modo, a violência no campo e o inchaço das periferias certamente seriam menores se as reformas de base, como a reforma agrária, propostas pelo PTB de João Goulart em 1961, não tivessem sido abortadas pelo golpe.

Na linha de frente da marcha à ré, os skinheads

Na linha de frente da marcha à ré, os skinheads

Quem empunhou as cores da bandeira nacional no último sábado 22 de Março,via de regra, são aqueles que se beneficiaram e ainda se beneficiam dos frutos de 1964, enquanto a maior parte da população padece de uma herança maldita ainda presente na impunidade cotidiana de torturadores e assassinos pagos com os impostos de todos para manter os pobres longe da velha classe média e garantir o direito à propriedade de grandes latifundiários e especuladores, mesmo que sejam escravistas ou grileiros.

Um dos únicos detidos na marcha. A polícia não informou o motivo.

Um dos únicos detidos na marcha. A polícia não informou o motivo.

Afinal, quem são os heróis, saudados aos gritos nas ruas, numa corporação militar que matou 111 presos em 1992assassinou mais de 600 em 48 horas nas periferias em 2006, desalojou com bombas 1.600 famílias no Pinheirinho em 2012 e agrediu e deteve de forma totalmente ilegal mais de 800 manifestantes e jornalistas entre junho de 2013 e março de 2014, pra falar só de São Paulo? Pior, o que cada uma dessas ações recentes resultou em termos de melhorias na segurança, educação ou saúde?

Segurança reforçada "do nosso lado" , como dizia o panfleto de convocação da marcha.

Segurança reforçada “do nosso lado” , como dizia o panfleto de convocação da marcha.

Prós versus Contras

Importante lembrar, contudo, que protestos civis questionando o atual modelo de democracia representativa refém dos grandes capitais, como temos visto desde junho passado, não são exclusividade do Brasil. Mas, distintamente dos que pregam maior repressão aos movimentos populares, os jovens nas ruas de todo o mundo ainda não conseguem apontar um caminho para a sociedade e o resultado final é a participação cada vez menor nos processos eleitorais. Não é à toa que os reacionários, sem número para se contrapor à maioria da população, bombardeiam os programas sociais ao mesmo tempo em que pedem o fim do voto obrigatório. Na Espanha dos “indignados”, onde mais de um milhão foram às ruas contra as medidas de austeridade no último fim de semana, os franquistas voltaram ao poder há dois anos também por causa de uma abstenção recorde de 46%. Na Grécia, os neonazistas não ganharam por pouco (diferente dos adeptos ucranianos que tomaram o poder à força e com apoio estadunidense) e na França o partido de extrema-direita acaba de ganhar as eleições municipais no mesmo esquema de poucos votos, falta de organização e desânimo das esquerdas.

Se Deus foi, não dá pra dizer, mas representantes da igreja, com certeza

Se Deus foi, não dá pra dizer, mas representantes da igreja, com certeza

Por aqui, tirando vitórias pontuais de movimentos específicos, como o MPL que conseguiu barrar o aumento das tarifas de transporte em várias cidades, a maior parte dos protestos mais à esquerda não trazem propostas afirmativas, apenas negativas. A própria manifestação de contraponto à Marcha de sábado trazia o título de ANTIfascista e apesar de reunir mais gente teve, obviamente, repercussão menor. Da mesma forma, o movimento mais forte nas ruas esse ano traz em destaque a expressão NÃO vai ter Copa. A outra parte do slogan (sem direitos) quase não aparece. Uma pergunta simples, pragmaticamente falando, o que tem mais chance de se concretizar no curto prazo: a redução da maioridade penal ou o cancelamento da Copa do Mundo?

Civis e militares juntos por uma nova intervenção "constitucional"

Civis e militares juntos por uma nova intervenção “constitucional”

Fundamental ressaltar, também, que é muito mais fácil criminalizar manifestantes mascarados, especialmente os adeptos da tática Black Bloc, e acusá-los na mídia de extrema violência (ainda mais depois da morte do jornalista Santiago Ilídio Andrade no Rio de Janeiro) do que apontar, dentro da PM e dos governos, os responsáveis pelas agressões a pessoas (e não a vidraças), mutilações e mortes na brutal repressão às manifestações. Não podemos esquecer, por exemplo, que NINGUÉM está respondendo processo pela perda do olho do fotógrafo Sérgio Silva em 13 de junho de 2013, enquanto a morte de Santiago foi esclarecida em menos de uma semana.

A campanha contra o Marco Civil da Internet, chamada de censura pelos manifestantes, não conseguiu impedir sua aprovação na Câmara

A campanha contra o Marco Civil da Internet, chamada de censura pelos manifestantes, não conseguiu impedir sua aprovação na Câmara

Se queremos um avanço real na sociedade e não a volta da ditadura, devemos olhar com atenção quais táticas trazem resultados de fato, quais nos levam a ficarmos reféns da violência para conseguir visibilidade e o que significa essa armadilha. É preciso observar a ação dos grupos que conseguem passar sua visão de mundo nos meios de comunicação em massa, inclusive os reacionários, quem os apóia e quais os interesses não revelados por trás deles. Temos de desconfiar da cobertura da grande imprensa, mas criar formas de diálogo e de influenciar e influir nos seus fluxos. E, finalmente, temos de desenvolver as alternativas factíveis para os modelos atuais que sejam mais democráticos e justos para o conjunto da população e especialmente os mais vulneráveis e historicamente prejudicados. A rua é de todos que têm coragem de ocupá-las. Mas as vitórias políticas são de quem tem plano e estratégia para conquistá-las.

A população realmente marginalizada não tava nem aí pra marcha

A população realmente marginalizada não tava nem aí pra marcha

 

06
Dez18

Cruvinel e o DOPS de Moro

Talis Andrade

 

 

A lei é para todos, dependendo quem seja. A “total confiança” de Moro em Ônyx Lorenzoni, assumidamente recebedor de dinheiro “por fora”, mas “inocentado” pelo superministro de Jair Bolsonaro por “serviços prestados” ao moralismo, é uma evidência que só escapa aos cegos propositais que vêem as vantagens, mas não o desastre da entronização da perseguição político-policial-judicial seletiva que se instalou no Brasil, à qual a mídia deu acolhimento entusiasmado.

 

Tratei do tema ontem, aqui, e hoje, no JB, destaca a reação ao poder que a polícia morista provocará entre os parlamentares e o potencial de descontentamento que isso trará. Descontentamento ou, quem sabe, submissão.

 

A Polícia de Moro

Teresa Cruvinel, no JB

 

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Sob o comando do futuro ministro Sérgio Moro, a Polícia Federal vai reforçar o núcleo encarregado de investigar ministros e parlamentares com foro no STF, providência apontada como essencial à continuidade do combate à corrupção.

 

Assim será montada a mega Lava Jato do super Moro que, pelo andar da carruagem, terá focinho de polícia política: ministros também foram citados como alvo mas são os parlamentares, especialmente os de oposição, que estarão na mira.

 

Dificilmente alcançarão ministros de Bolsonaro. Ontem mesmo Moro declarou que Onyx Lorenzoni, contra quem o STF abriu investigação sobre suposto recebimento de caixa 2 da Odebrecht, tem sua “confiança pessoal”.

 

A corrupção é o novo nome da subversão, embora Bolsonaro e seu núcleo duro tenham também fixação em “comunistas”, rótulo que hoje no Brasil serve a qualquer um que não seja de extrema-direita ou não comungue do discurso bolsonarista.

 

Apesar da guerra ao “marxismo cultural” que estaria entranhado em tudo, ao ponto de Bolsonaro perguntar ao futuro ministro da Educação se ele tinha “faca nos dentes” para combatê-lo, é pela corrupção que se buscará o “inimigo interno”, criminalizando adversários políticos mais incômodos.

 

Outros governos, nesta fase de transição, estão preocupados em pacificar, conquistar mais aliados, alargar o capital recebido das urnas.

 

Já o de Bolsonaro exibe esta forte disposição para guerrear, seja aqui dentro ou lá fora, o que deixa uma parte do Brasil assustada e temerosa.

 

O núcleo anticorrupção da PF, chamado SINQ (Serviços de Inquéritos Especiais), segundo matéria da “Folha de S. Paulo”, depois de perder força e coesão durante o governo Temer, agora será fortalecido e reestruturado pelo futuro diretor-geral da PF, Maurício Valeixo.

 

São providências para que Moro disponha de um braço bem equipado para tocar esta espécie de Lava Jato do Executivo, sem prescindir dos aliados do Judiciário e do Ministério Público Federal.

 

E isso sugere que, na era Bolsonaro, a PF não desfrutará mais da autonomia que conquistou nos governos Lula e Dilma, ao ponto de o próprio ministro da Justiça, na época José Eduardo Cardoso, ser frequentemente surpreendido com ações contra o PT e integrantes do governo.

 

E ele sempre justificativa: em sua gestão, a PF atuava “republicanamente”, com absoluta independência.

 

Agora haverá subordinação não apenas formal a Moro, mas operacional.

 

Ministros poderão até ser investigados, quando houver interesse em jogar alguém na frigideira.

 

A resposta ao teste da autonomia futura da PF virá no começo do governo, quando saberemos se vão prosseguir ou serão arquivadas as investigações sobre a participação do futuro superministro da Economia, Paulo Guedes, em esquema fraudulento de desvio de recursos de fundos de pensão das estatais.

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Bolsonaro irritou-se ao ser abordado sobre o assunto dizendo desconhecer essas investigações.

 

Onyx já havia sido perdoado por Moro, por ter se arrependido e pedido desculpas, o que levou o senador Roberto Requião a apresentar o irônico projeto da “Lei Lorenzoni”: em crimes eleitorais, se o acusado demonstrar arrependimento, estará perdoado.

 

Assim, o braço forte de Moro cairá é sobre parlamentares, assim como o Dops da ditadura caía sobre os “subversivos”.

 

O problema é que Bolsonaro precisará do Congresso para governar, e até já começou a cortejar os partidos.

 

Se Moro fustigar muito os parlamentares, criará problemas para a coordenação política.

05
Dez18

Como nos velhos tempos

Talis Andrade

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por Nilson Lage
____

Prenuncia-se a volta, renovadas e federal, da velhas Dops – delegacias de ordem política e social.

 

Com isso – esperem para ver, sou bom em previsões do gênero – virão devassas em sedes de partidos, sindicatos,e clubes, o clima de suspeição alimentado pela paranoia dos generais tornará possível o retorno daqueles “atestados de bons antecedentes” exigidos a três por dois e nenhuma pessoa de bom senso assumirá cargo público se não estiver associada e protegida pela quadrilha no poder.

 

E, finalmente, voltarão aqueles pequenos anúncios de jornal de antigamente – agora nas redes sociais -, ilustrados com a cara do interessado:

 

João das Couves, furta-cor, amancebado, morador na Rua das Casas, bairro das Ruas declara que não é e nunca foi petista, socialista ou qualquer coisa igualmente insultante, jamais pensou fora da caixinha, frequenta a igreja, paga os dízimos e o décimo-terceiro, é feroz democrata e dedicado dedo-duro.

 

PS de Fernando Brito: Nilson Lage, 82 anos, é professor aposentado de Jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da de Santa Catarina e, portanto, testemunha ocular e contrariada de nossas temporadas autoritárias.

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