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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

25
Jan22

Pandemia e infodemia: crises e desafios para o diálogo entre ciência e sociedade

Talis Andrade

 

presidentes de rua.jpg

 

Por Leandro Giatti /Jornal da USP

ampla constatação da gravidade da pandemia da covid-19 ocasionalmente não nos permite perceber outras questões determinantes dos sucessos ou insucessos para seu enfrentamento. Assim, um agravante a ser compreendido e mitigado trata-se da infodemia, que se sobrepõe ao quadro sanitário crítico que a humanidade enfrenta com a covid-19. A infodemia é um efeito colateral dos benefícios propiciados pela conectividade digital e consiste em um excessivo volume de (des)informação não aferida que circula rapidamente a respeito de um problema, fazendo com que sua resolução seja dificultada. Direto ao “x” da questão: a forma como desinformação, fakenews e teorias conspiratórias estão sendo disseminadas certamente está dificultando para que governos e sociedade se organizem para enfrentar a crise. A infodemia está degradando a já não tão exemplar relação entre ciência e sociedade.

Nos últimos séculos, o relacionamento entre ciência e sociedade tem se baseado na atribuição de confiança e credibilidade ao conhecimento acadêmico. De fato, contribuições científicas vêm sendo cruciais para a humanidade e, dentro de um escopo de conhecimento estabelecido e assertivo, os benefícios da ciência são inequívocos. Por exemplo, para o caso de doenças respiratórias transmissíveis, o uso de máscaras e o distanciamento social são medidas eficazes para conter a disseminação. Mas a ciência possui limites e desafios mediante a incertezas e fenômenos emergentes, como no caso do surgimento da covid-19. Uma nova e desconhecida doença traz consigo uma série de perguntas a serem respondidas, o que remete à necessidade de aprimoramento e superação por parte da comunidade científica. Assim, muitas perguntas sugiram e demandaram respostas urgentes, sendo que ainda muitas destas questões permanecem sem resposta.

Apesar dos desafios de conhecimento, a ciência se reproduz a partir de experiências pregressas e processos exitosos. É o que acontece com o desenvolvimento e aprovação de vacinas. Quanto a isso, mesmo diante de um novo agente etiológico ou com novidades tecnológicas, um conjunto de procedimentos já bem conhecidos, seguros e assertivos é replicado com base em sucessos e conhecimentos comprovados. Essa forma de reprodução de pressupostos e metodologias caracteriza o que Thomas Kuhn denominou de ciência normal.

O conhecimento consolidado e devidamente qualificado deve pautar o diálogo com a sociedade, mesmo diante de incertezas, as quais devem servir para o progresso da ciência e de sua relação com a sociedade. Mas não é isso o que vem acontecendo no cenário atual. A velocidade de disseminação de informações falsas, o uso seletivo de verdades parciais e o próprio uso político deste contexto infodêmico estão colocando desinformação em pé de igualdade com o conhecimento científico consolidado. Este contexto não apenas abala a relação ciência e sociedade, como também promove rupturas, polarização e forte antagonismo dentre os mais distintos atores sociais, colegas de trabalho, amigos, familiares.

Este potencial de divisivo tem caracterizado estratégia política no Brasil de hoje. No livro Os Engenheiros do Caos, de 2019, o autor Giuliano Da Empoli descreve como políticos de extrema direita vêm se beneficiando do potencial das redes digitais, explorando conectividade a partir de projetos radicais e lealdade constituída estrategicamente pela manipulação de emoções. Neste contexto, a disseminação de informações absurdas se consolida como um vetor de coesão mais eficiente do que informações qualificadas. Assim, vemos a exacerbação do papel da desinformação e a armadilha oferecida pelo mau uso da tecnologia.

Novas epidemias ou pandemias sempre são acompanhadas de algum grau de desinformação, medo e crendices infundadas. Mas o que vemos hoje é um novo patamar para disseminação, onde não apenas a desinformação veicula muito rápido, ela também se acredita em redes de confiança e lealdade, colocando-se de maneira totalmente indevida em comparação com o conhecimento científico qualificado e assertivo.

Observemos a cruzada contra a vacinação de crianças no Brasil. Imagine que você tem um bolo a sua frente, então você vai lá e pega apenas a cereja. Dessa forma, procede-se com uso seletivo de uma verdade parcial, como no caso da afirmação de que poucas crianças morreram de covid-19. Mas este bolo tem muito mais massa e recheio. Então é preciso constatar que não morreram poucas crianças quando se compara a causa de covid-19 com outras doenças que já estão no calendário vacinal brasileiro. No mais, a imunização das crianças em um país de população jovem como o Brasil representa muito para controlar a disseminação do vírus. Também, o risco do processo de imunização é muito menor do que o risco de não vacinar, ou seja, evidenciando uma relação de segurança e eficiência.

As incertezas relacionadas a fenômenos emergentes como a covid-19 carecem, na verdade, de maior diálogo com a sociedade sobre os limites da ciência. Isso remete a reconhecer, que mediante a dúvida e a impossibilidade de respostas científicas plenas, os grupos sociais em suas mais distintas conformações e contextos encontrem alternativas positivas para lidar com a crise, claro, de forma consonante com as melhores decisões e políticas públicas. Para ilustrar, no início da pandemia em 2020, a comunidade de Paraisópolis em São Paulo fez valer seus atributos organizacionais e capital social para criar instituir “presidentes de rua”. Esses atores, em contexto periférico urbano, contribuíram para manter o distanciamento social, principalmente de pessoas infectadas, e organizaram o acesso a recursos como alimentos para os mais necessitados. Havia, portanto, um reconhecimento de saberes científicos qualificados para se compreender minimamente a doença, sua gravidade e forma de contágio. Havia também, competência local, solidariedade e criatividade, mesmo diante das muitas incertezas científicas do início da crise.

O que se coloca aqui, é a necessidade de estimular e criar meios para que a ciência, mesmo com limitações e incertezas, seja objeto uma ressignificação produtiva nos mais distintos contextos sociais. Mas claro, isso deve ser feito com honestidade intelectual, uso do conhecimento científico mais qualificado e humildade mediante a importância dos mais distintos saberes que serão relevantes para essa, digamos, ecologia de saberes. Sim, os fenômenos emergentes e permeados por incertezas demandam reflexão conjunta e colaborativa com os mais distintos atores sociais e suas formas e interpretar o mundo. Essa forma inclusiva e dialogada de fazer ciência, com reconhecimento de incertezas, reflexão e controle crítico por parte da sociedade, tem sido denominada ciência pós-normal. Mas, claro, esse diálogo não pode se concretizar com o uso indevido, manipulativo e desonesto da desinformação. O deletério uso político da infodemia conduz a uma sobreposição de fatores negativos que exacerbam a crise. Sua forma de causar rupturas e antagonismo é contraproducente e destrutiva, levando ao que podemos considerar como uma falha sistêmica – várias crises operando sinergicamente e se potencializando. No caso da covid-19, isso certamente se traduz em centenas de milhares de mortes evitáveis.

É fundamental conhecer melhor e encontrar meios para conter a infodemia e seus efeitos negativos. A organização mundial da saúde, por exemplo, vem propondo o desenvolvimento de alternativas de infovigilância para o caso de desinformação associada a epidemias. Importante também é que plataformas digitais assumam postura mais responsável quanto aos conteúdos veiculados e que sociedade e poder público sejam mais conscientes, interativos e proativos nesse sentido. Torna-se necessário responsabilizar pessoas que produzem e veiculam desinformação deliberadamente ou sob interesses escusos. É preciso reconhecer que aquilo que acontece no mundo virtual pode causar (e causa!) consequências no mundo real.

 

 

27
Out21

Entenda quais são os 9 crimes atribuídos a Bolsonaro pela CPI

Talis Andrade

bolsonaro por vaccari e blake.jpeg

 

 

Para a comissão, Bolsonaro praticou os seguintes crimes:

Crime de responsabilidade por ter defendido a imunidade de rebanho por contágio, atentando contra o direito à vida e à saúde
Incitação ao crime ao estimular a população a infringir medidas de distanciamento social e incentivar a invasão de hospitais de campanha
Emprego irregular de verba pública e destinar recursos para a compra de remédios ineficazes
Falsificação de documento particular ao atribuir ao TCU estudo questionando o número de mortes por Covid em 2020
Crimes contra a humanidade na condução da pandemia
Prevaricação ao não pedir que fosse investigada a suspeita de corrupção na compra da vacina Covaxin
Charlatanismo ao defender o uso de remédios ineficazes contra a Covid
Crime de infração de medida sanitária preventiva ao não usar máscaras em público
 

nove crimes de bolsonaro vaccari.jpeg

 

21
Abr21

Bolsonaro e a paixão pelo golpismo: por que não dá o golpe, então?

Talis Andrade

Blog de Geografia: Charge de J. Bosco: golpe de 1964

 

Por Lenio Luiz Streck

- - -

Em 31 de março de 1964 eu tinha 8 anos. Não sabia do que se tratava.

Todavia, senti o golpe na carne. Aprendi na concretude, quando meu pai foi preso em pleno trabalho na lavoura. Lembro a trilhadeira marca Continente — meu pai colocava a palha manualmente, sempre com o perigo de perder as mãos — cercada por mais de uma dezena de soldados, armados até os dentes, levarem meu pai e o atirarem dentro de um caminhão.

Era um novo método de aprender a história. O método de ver o que resta de famílias atingidas pelo rio da história, que arrasta a tudo. O resto é do capítulo de "histórias privadas".

Despiciendo falar dos males causados pela "noite que durou 21 anos'. E tem gente, como o presidente Bolsonaro, que nega que tenha sido golpe. Elogiam. "Salvaram o Brasil".

Pois é. O Brasil foi tão salvo que precisamos de mais de 30 anos de democracia constitucional para tentar curar as feridas.

E quando as feridas começam a descascar, anunciado apenas algumas marcas, vem de novo o medo. A ameaça. Pasmem: em 2021. Sim, em 2021, no meio de uma pandemia que mata mais do que duas bombas atômicas.

Paradoxalmente, a ameaça é a contrario sensu. "— Não se preocupem: está tudo bem". "— Os militares são legalistas". E o Brasil "respira" aliviado: ufa. A Constituição será cumprida, diz o novo ministro da defesa e o general-vice-presidente.

Como deixei anunciado no título, se eu fosse senador ou deputado federal teria ocupado a tribuna, no dia da crise (30 de março de 2021) para fazer um repto ao Presidente e a quem estivesse embriagado pela saudade da ditadura e o AI-5:

"Por que não dá, logo, o golpe? Assuma que odeia a Constituição. Pare com essa ronha de 'o STF me impede de governar', 'os governadores estão implantando o estado de sítio', 'os governadores tiram a liberdade' etc. etc., etc."

Assuma, Presidente. Faça o golpe.

Mas tenha em conta que terá de fechar no mínimo a metade dos jornais, TVs, rádios, prender metade do Congresso, fechar o STF e aguentar o isolamento mundial. O Brasil não é uma ilha, mesmo que Vossa Excelência se esforce para tal. Rasgar a Constituição tem custos.

Pergunto: Na hipótese de, como seria a chegada do Capitão-Presidente-autor-de-um-autogolpe na Alemanha? O Brasil viraria uma distopia? Um Conto de Aia?

Algum país da União Europeia receberia o mandatário brasileiro? Hungria, talvez. Se hoje já está difícil depois do desastre do combate à pandemia e das patacoadas de Ernesto Araújo, que dirá se o Brasil passar por um regime de exceção.

O Brasil tem de se curar dessa ferida causada pelo golpe — sim, foi golpe e não movimento, General Braga Neto — de 1964.

Vamos admitir que podemos ser adultos politicamente e ter uma democracia. Demo-cracia: a força do povo e não demo-parabellum.

De uma vez por todas. Estamos em meio do maior desastre humanitário da história. O mundo já nos considera um país-pária. Já somos um perigo sanitário. Brasileiros são barrados no mundo todo.

E o Presidente da República, eleito por mais de 57 milhões de votos, está preocupado em aumentar seus poderes e/ou fazer manobras que insinuam golpe-estado-de-exceção, inclusive com o medíocre deputado Major Vitor Hugo querendo dar o drible da vaca com um projeto que permite ao presidente fazer intervenções nas liberdades, inclusive com a convocação de policiais militares estaduais.

O Brasil quer vacinas. Quer paz. Quer comida. O Brasil não quer golpe, Senhor Presidente.

Mas, se quiser fazer um putsch, faça logo. Mas assuma o custo. Vai ter de prender milhões de pessoas. Milhões.

Com certeza, se fizer o "atalho constitucional" (sic), será uma vitória de Pirro. Sim, o neo-pirrismo à brasileira: mais um golpe, mais uma vitória do autoritarismo...

Porém, já nem se poderá dizer, como Pirro, "mais uma vitória dessas e estarei lascado". Por quê? Porque já não haverá nem vencidos e nem vencedores.

Veja-se o paroxismo. Até o deputado bem direitista Kim Kataguiri detectou o ar de golpismo que estava no ar no dia 30. E, cá para nós, neste ponto Kim é insuspeito. Algo como "se até Kim falou isso..."

E da tribuna do Senado ou da Câmara, eu pediria: "— Presidente: ainda dá tempo de Vossa Excelência ajudar na campanha contra a Covid. Imagine, com o seu prestígio, fazendo uma campanha dizendo 'use máscara, faça distanciamento social e deixe de lado essa coisa de tratamento precoce — eu estava enganado'. Já pensou no sucesso?"

Ao terminar, vem-me à mente de novo a cena de meu pai sendo cercado pelos soldados em meio à colheita de arroz daquela minúscula lavoura no interior do interior do mundo.

E me vem à mente o meu dia seguinte. Do bullying de meus coleguinhas na escola... Que me cercavam e diziam: o teu pai foi presoooo...

E eu não sabia o que responder!

Presidente, eu, uma criança, cercado pelos outros moleques, sem saber dizer por que meu pai fora preso.

Não vamos reviver isso, Presidente. Nem em pensamento. Nem em (seu) sonho.

Viva, pois, a demo-cracia! "Demo" significa "povo". E não... bem, Vossa Excelência sabe, não é Presidente?

Charge: Brasil-avestruz não vê clima pra golpe. Por Aroeira

24
Mar21

Instalação ‘imediata’ de CPI para investigar atuação caótica do governo na pandemia

Talis Andrade

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A senadora Leila Barros (PSB-DF) defendeu, em suas redes sociais, a instalação da CPI da Covid-19, que conta com assinaturas suficientes para funcionamento, mas segue engavetada no Senado.

Para Leila Barros, embora a moção aprovada nesta semana para pedir ajuda internacional na aquisição de vacinas estocadas nos EUA tenha sido importante, é necessário que a Casa estabeleça um processo de cobrança e fiscalização das ações do governo em relação à pandemia.

Enquanto a doença segue descontrolada, a vacinação caminha em ritmo lento e o Brasil vive a trágica situação de ter dois ministros da Saúde, sem que nenhum deles demonstre ter autoridade para adotar as medidas que o país necessita para salvar vidas, escreveu a senadora.

“Por sua vez, o presidente da República continua promovendo aglomerações e ‘receitando’ medicamentos que a ciência já concluiu serem ineficazes. Diante desse quadro desastroso, o Senado Federal precisa reagir”, defendeu.

Depois de mais de um ano de pandemia de covid-19, não faltam motivos para apurar a atuação do Palácio do Planalto. Nesse período, o País teve nada mais nada menos que quatro ministros da Saúde.

Atualmente, há na mesa do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), um pedido de abertura de CPI relativo à condução da pandemia pelo governo federal que cumpre todos os requisitos constitucionais, assinado por 31 senadores de 11 partidos políticos.

Deixá-lo na gaveta, como se fosse algo politicamente turbulento demais para o momento atual, como alega Pacheco, não é apenas ignorar a Constituição, mas é ser cúmplice com o descaso de Bolsonaro com a saúde e a vida da população, considera a socialista.

“Temos que compreender como chegamos à tragédia atual e prestar satisfações à sociedade. Desde o dia 4 de fevereiro, foi protocolado um pedido de instalação de CPI para investigar as causas que levaram nosso país a esse estado de calamidade. Precisamos adotar as providências necessárias para que ela seja instalada, pois a situação continua se agravando. Não podemos mais esperar!”, protestou Leila Barros.

Para a senadora, a CPI representa também uma esperança de que, sendo pressionadas, as autoridades federais passem a agir com “maior responsabilidade e presteza”.

“Chega de tentar minimizar a intensidade dramática dessa tragédia. Nossos parentes e amigos estão morrendo. Provavelmente, muitos deles poderiam ter sobrevivido se o país não tivesse assumido a postura de menosprezar vacinas e até desqualificar a eficácia do uso das máscaras e do distanciamento social. A CPI da Pandemia tem que ser instalada imediatamente!”, disse.

Leia: Covid, o que Brasil pode aprender com países que reaagiram bem à pandemia

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24
Mar21

Coronavírus: 'Brasil é exemplo de tudo que podia dar errado', diz infectologista brasileira que trabalhou no CDC dos EUA

Talis Andrade
  • Luis Barrucho /BBC News

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Denise Garrett trabalhou mais de 20 anos no Centro de Controle de Doenças (CDC) do Departamento de Saúde dos EUA

 

"O Brasil é o exemplo de tudo que podia dar errado numa pandemia. Temos um país com uma liderança que, além de não implementar medidas de controle, minou as medidas que tínhamos, como distanciamento social, uso de máscaras e, por um bom tempo, também as vacinas. Viramos uma ameaça global."

Essa é a opinião de Denise Garrett, infectologista, ex-integrante do Centro de Controle de Doenças (CDC) do Departamento de Saúde dos EUA e atual vice-presidente do Sabin Vaccine Institute (Washington).

Com a experiência de quem trabalhou no CDC por mais de 20 anos, Garrett não poupa críticas ao governo federal em relação ao combate à pandemia de covid-19.

No órgão, ligado ao Departamento de Saúde dos EUA (equivalente ao Ministério da Saúde no Brasil), ela atuou como conselheira-residente do Programa de Treinamento em Epidemiologia de Campo (FETP) no Brasil, como líder da equipe no Consórcio de Estudos Epidemiológicos da Tuberculose (TBESC) e como conselheira-residente da Iniciativa Presidencial contra a Malária em Angola.

"Um ano depois, estamos no pior lugar em que poderíamos estar, com uma transmissão altíssima, com uma variante extremamente alarmante e com sistema de saúde à beira de colapsar".

"O Brasil parece viver em um universo paralelo. Enquanto todos os países estão indo numa direção, seguimos na contramão".

Especialistas consideram que o Brasil vive o pior momento da pandemia - o país vem registrando nos últimos dias seguidos recordes de mortes diárias.

O Brasil é o segundo país do mundo em número de óbitos (294 mil), atrás apenas dos EUA (542 mil), de acordo com dados da Universidade Johns Hopkins (EUA).

Garrett falou por telefone à BBC News Brasil. Confira os principais trechos.

 

Luis Barrucho entrevista Denise Garrett

BBC News Brasil - Faz um ano que a OMS decretou a pandemia de covid-19 no mundo. Qual é a sua análise a respeito da situação do Brasil?

Denise Garrett - O Brasil é o exemplo de tudo o que podia dar errado numa pandemia. Temos um país com uma liderança que, além de não implementar medidas de controle, minou as medidas que tínhamos, como distanciamento social, uso de máscaras e, por um bom tempo, também as vacinas.

A situação hoje é extremamente preocupante. Temos uma população que está exausta. E fizemos um lockdown 'meia boca'.

Um ano depois, estamos no pior lugar em que poderíamos estar, com uma transmissão altíssima, com uma variante extremamente alarmante e com sistema de saúde à beira de colapsar.

O Brasil parece viver em um universo paralelo. Enquanto todos os países estão indo numa direção, seguimos na contramão.

Um fator decisivo para isso, além daqueles sobre os que eu já falei, foi o incentivo do uso de medicações sem nenhuma comprovação cientifica com a população acreditando nelas como uma medida de proteção.

Ou seja, em vez de praticar o distanciamento social e usar máscara, muita gente acreditou no presidente da República e achou que se protegeria com ivermectina e hidroxicloroquina. Não vi nenhum outro país do mundo fazendo isso.

De fato, aqui nos Estados Unidos, o ex-presidente Donald Trump também chegou, em determinado momento, a recomendar esse medicamento. Mas, no Brasil, houve um protocolo recomendado pelo Ministério da Saúde.

O impacto dessa fake news é imenso - e faz com que até colegas médicos sofram pressão do próprio paciente.

Além de tudo isso, não temos vacina. O governo não fez acordos quando deveria fazer. O presidente disse que não se vacinaria. O estoque que o Brasil tem agora não é proveniente do governo federal.

 

BBC News Brasil - Muitos especialistas, tanto do Brasil quanto de fora, vêm dizendo que o país se tornou uma ameaça global. A sra. concorda?

Garrett -Claro. O Brasil virou uma grande ameaça global. O país se tornou um caldeirão para novas variantes.

Vírus estão sempre mutando. As mutações que forem favoráveis a ele, quando não há restrição à transmissão, serão selecionadas e vão predominar.

Eventualmente, e isso ainda não aconteceu, uma vez que as novas cepas estão respondendo às vacinas, que protegem contra a forma mais grave da doença, podemos ter variantes que comprometam a eficácia das vacinas.

Claro que num ambiente onde a taxa de vacinação é baixa e a taxa de transmissão alta, como no Brasil, esse risco é muito mais elevado.

Ninguém está seguro até que todos estejam seguros. Nenhum país vai se sentir seguro enquanto houver um país como o Brasil, onde não há nenhum tipo de controle.

Todos os esforços louváveis de outros países que estão funcionando podem simplesmente ser perdidos por causa de um país que não se importa com a pandemia. E onde não existe uma sensibilização pela vida por parte da liderança do país.

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Garrett diz que falta liderança ao Brasil em combate à pandemia de covid-19

 

BBC News Brasil - Neste sentido, a sra. acredita que os brasileiros possam ser mal vistos e até mesmo impedidos de entrar em outros países?

Garrett -Isso é algo que já ocorrendo. E eu vejo isso se intensificando ainda mais. Há restrições contra a entrada de cidadãos brasileiros pelo mundo. Qualquer país de bom senso faria isso. Qualquer país que se preocupa com a saúde de sua população.

É óbvio que os países vão se proteger. As medidas que o Brasil não tomou o restante do mundo tomou. Quando se fala que vai ao Brasil agora é um risco. Antes era o risco de violência, demoramos para mudar essa imagem, agora é a covid-19.

 

BBC News Brasil - O que a sra. acha que o Brasil deveria fazer neste momento?

Garret -Duas coisas. O Brasil precisa de um lockdown estrito a nível nacional. Passou da hora de um lockdown a nível municipal ou estadual. E quando eu falo em lockdown, eu me refiro a não sair de casa, só em caso de urgência. De esvaziar as ruas, mesmo. Só funcionar serviços essenciais.

Existiu uma época em que poderíamos até fazer confinamentos a nível municipal ou estadual, quando a pandemia no Brasil ainda era "muitas pandemias".

Explico: somos um país enorme e houve um momento em que tínhamos diferentes estágios da pandemia em diferentes localidades. Ou seja, medidas localizadas poderiam ser tomadas.

No estágio atual, essa possibilidade não existe mais. O país inteiro está à beira do colapso. Não adianta fechar um Estado e os outros continuarem abertos. E as pessoas transitando de um para outro.

O Brasil precisa retomar o controle sobre o vírus. O vírus está solto - e isso é urgente. Só assim vamos reduzir os casos e, por consequência, as mortes.

Outra coisa é vacinar a população.

Precisamos de planejamento e estratégia. Mas, infelizmente, não tenho esperança quanto ao governo federal sobre isso.

23
Jan21

Cientistas e acadêmicos se mobilizam contra ataques ao professor Pedro Hallal

Talis Andrade

Reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) até o ano de 2020, Pedro Hallal coordena a pesquisa Epicovid, referência no mapeamento do avanço da doença em todo o País. Hallal é docente associado da UFPel no curso de graduação em Educação Física e nos programas de pós-graduação em Educação Física e Epidemiologia e ganhou grande reconhecimento nacional pela pesquisa durante a pandemia e pelo debate sempre pronto sobre as medidas de contenção da pandemia. Entretanto, tal atuação incomodou diversos grupos ligados ao governo federal, que agora promovem um linchamento público do professor após o mesmo ter afirmado estar com Covid-19. As agressões se deram pelo deputado Bibo Nunes (PSL-RS) em programa da Rádio Guaíba.

As agressões aparecem no momento em que o governo federal não quer nomear o candidato que obteve mais votos na consulta à comunidade acadêmica para reitoria da UFPel. Diante desse fato, os candidatos, que venceram a disputa planejam construir um gabinete paralelo em defesa da autonomia universitária.

Diante de tais agressões a comunidade científica e acadêmica se mobiliza em solidariedade ao professor Pedro Hallal e está coletando assinaturas à nota de apoio que disponibilizamos na íntegra abaixo:

NOTA DE APOIO DE CIENTISTAS BRASILEIROS AO PROFESSOR PEDRO RODRIGUES CURI HALLAL

A comunidade científica brasileira vem assistindo nos últimos dias um processo deplorável e injustificável de ataques ao Prof. Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas. O Prof. Pedro Hallal é um dos inúmeros cientistas brasileiros que, mesmo diante das inúmeras dificuldades para se fazer ciência no Brasil, liderou o maior inquérito sobre a prevalência de infecção por Covid-19 no país e, a partir da interpretação dos achados do referido estudo, vem prestando aos diversos veículos de comunicação os esclarecimentos acerca da evolução da pandemia em território brasileiro, sem eximir-se de apontar as inúmeras falhas na coordenação política do enfrentamento a esta importante crise sanitária.

A crítica é práxis científica e atitude necessária para o desenvolvimento e enfrentamento dos problemas de um país, pois é a partir da adequada interpretação dos achados científicos que se pode apontar os caminhos a serem seguidos e chamar atenção aos desvios que estão sendo cometidos. O Prof. Pedro Hallal, a exemplo de tantos outros especialistas, que atuam e recomendam com base no conhecimento científico, destacou a impropriedade da ação adotada por alguns políticos brasileiros que, ao longo dos últimos 10 meses, insistiram em desrespeitar as orientações mais básicas para o controle da pandemia de Covid-19, como o uso de máscaras e o distanciamento social.

Esta NOTA é uma MANIFESTAÇÃO DE APOIO ao Prof. Pedro, que siga sempre inabalável na sua missão de auxiliar o desenvolvimento social a partir da atividade científica. É, também, por outro Iado, uma expressão de repúdio da comunidade científica brasileira às ações difamatórias, caluniosas, desrespeitosas e injuriosas que vem sendo desferidas por figuras dos mais altos escalões da república. Em um estado democrático não se pode admitir que aspectos políticos e ideológicos sejam justificativa para coagir cientistas que alertam para ações impróprias ou para inações por parte de agentes públicos dos diferentes níveis de governo.

11
Abr20

Bolsonaro põe brasileiros em grave perigo, afirma ONG

Talis Andrade

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Deutsche Welle

A organização de direitos humanos Human Rights Watch divulgou um relatório afirmando que o presidente Jair Bolsonaro coloca "os brasileiros em grave perigo ao incitá-los a não seguir o distanciamento social e outras medidas para conter a transmissão da covid-19".

Segundo a ONG, o líder brasileiro também "age de forma irresponsável disseminando informações equivocadas sobre a pandemia".

"Bolsonaro tem sabotado os esforços dos governadores e do seu próprio Ministério da Saúde para conter a disseminação da covid-19, colocando em risco a vida e a saúde dos brasileiros", disse José Miguel Vivanco, diretor da Divisão das Américas da Human Rights Watch.

"Para evitar mortes com essa pandemia, os líderes devem garantir que as pessoas tenham acesso a informações precisas, baseadas em evidências, e essenciais para proteger sua saúde. O presidente Bolsonaro está fazendo tudo, menos isso."

No texto, a ONG ainda relaciona e critica uma série de medidas e atitudes tomadas pelo presidente desde o início da pandemia, como a medida provisória editada em 20 de março para retirar dos estados a competência para restringir a circulação de pessoas. A ordem foi mais tarde derrubada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

O relatório diz também que, "apesar do risco potencialmente fatal para a saúde dos brasileiros, Bolsonaro tem minimizado a gravidade" da doença desde o início da crise, chamando-a de "gripezinha" e de uma "fantasia" criada pela imprensa.

"O presidente Bolsonaro tem repetidamente desconsiderado as recomendações de distanciamento social e incentivado as pessoas que não são 'idosas' a fazerem o mesmo, colocando-as em risco de contágio", completa o texto.

O país soma 19.638 casos confirmados de coronavírus e mais de mil mortes, segundo dados do Ministério da Saúde desta sexta-feira.

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