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O CORRESPONDENTE

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17
Jul23

Depende, comparado a quê? É relativo

Talis Andrade

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por Gustavo Krause

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No início da década de setenta, fui aluno de um talentoso e irônico professor argentino no curso de especialização tributária promovido pela OEA. Na conversa boa e instrutiva dos intervalos e encontros extracurriculares, ele sempre transmitia sabedoria e bom-humor.

Entre vários, ficou gravado o seguinte conselho: “Diante de uma pergunta complexa, empulhativa, embaraçosa, responda em ordem crescente e quando chegar a ‘relativo’, fique certo de que a busca pela verdade é um belo exemplo de curiosidade sem resposta”.

Na sequência, o Professor acrescentava: “quando a resposta for ’é relativo’, fique certo de que dificilmente se saberá qual o ‘relativismo utilizado’”.

Se ouviu falar na Teoria da Relatividade, é bom tirar o cavalo da chuva. Trata-se de um conceito revolucionário da Física que um génio da humanidade – Albert Einstein (1879-1955) subiu nos ombros de outro gênio – Isaac Newton (1643-1727) e unificou a ideia de espaço-tempo (A propósito, “As eras são todas iguais, mas o gênio está sempre acima da era em que vive”); se ouviu falar em relativismos é uma referência que teve em Franz Boas (1858-1942) o fundador da antropologia cultural e mestre de Gilberto de Freyre (1900-1987).

Difícil acreditar em tamanha sofisticação: o entrevistador estava, apenas, empenhado em cumprir a missão jornalística de apurar grave contradição do Presidente e o Presidente, por sua vez, na ausência de argumento convincente saiu-se com o, chamemos… “relativismo popular”.

Não saiu, foi encurralado e manchou o argumento que lhe garantiu a vitória eleitoral: a defesa de uma democracia ameaçada.

Democracia é um substantivo que dispensa adjetivos muito embora os vários institutos de pesquisas mundiais avaliem formações ou deformações do regime, adicionando qualificativos como democracia imperfeita, semidemocracia, até chegar ao oxímoro “democracia iliberal”.

Com efeito, esta tentativa de hibridismo “democracia iliberal” tão exaltado por Viktor Orban e adotado pelos critérios e pontuações das plataformas de classificação (DI, V-Dem, Freedom House etc…) legitimam a erosão das instituições que sustentam os pilares da liberdade individual e a limitação do poder político, elementos constitutivos da democracia liberal.

Na dinâmica da sociedade humana, o mais remoto conflito é o da felicidade dos afetos com a força negativa da opressão. Um liberta, o outro domina, escraviza. Daí a necessidade existencial de assegurar a fruição de liberdade pela ausência de constrangimentos, ampliada pela capacidade de participar das decisões que dizem respeito ao destino de cada indivíduo e ao da comunidade que constituem.

Historicamente, os raios da ação do homem livre, a exemplo da liberdade de consciência, crença e de autorrealização, foram ampliando um estatuto de cidadania universalmente aceito, mas nem sempre respeitado, ou o que é mais grave, violados, com frequência, exatamente, por “um relativismo” que abala os alicerces da notável construção do espaço de convivência chamado Democracia.

Nesta matéria, convém reler alguns trechos do notável Noberto Bobbio (1909-2004) que viveu intensamente o século XX e nos repassa a luz de sua experiência de vida. Talvez sirvam de lição aos relativistas.

“Aprendi a respeitar as ideias alheias, a deter-me diante do segredo de cada consciência, a compreender antes de discutir, a discutir antes de condenar”

“A atitude do bom democrata é a de não se iludir sobre o melhor e não se resignar com o pior”.

“A democracia é um conjunto de regras que estabelece quem está autorizado a tomar decisões coletivas e com quais procedimentos”.

“Direitos do homem, Democracia e Paz são três momentos necessários do mesmo momento histórico: sem direitos do homem conhecidos e protegidos, não há democracia; sem democracia não existem condições mínima para a solução pacíficas dos conflitos. Em outras palavras, a democracia é a sociedade de cidadãos e os súditos se tornam cidadãos quando lhes são reconhecidos direitos fundamentais; haverá paz estável, uma paz que não tenha a guerra como alternativa quando existirem cidadãos não mais deste ou daquele estado, mas do mundo”.

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