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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

21
Nov20

Viver num jogo roubado

Talis Andrade

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Poetisa, escritora e atriz Elisa Lucinda fala sobre o racismo estrutural no Brasil no momento em que mais um negro é assassinado por "seguranças"de um supermercado
 
 

Por Elisa Lucinda, especial para os Jornalistas Livres

Hoje comemoramos 18 anos do Parem de Falar Mal da Rotina em cena e nesse tempo o conteúdo e suas formas foram também se transformando. Quem acompanha o espetáculo desde que nasceu, sabe que dentro dele há o tema do racismo e é parte importantíssima do roteiro. Me lembro que quando começamos esse trabalho os ouvidos eram mais turvos, as cabeças mais obtusas, os egos mais encastelados numa redoma em que era mais difícil se admitir o racismo. Já na primeira versão o Parem falava de cabelo ruim versus cabelo bom e protestava: “Meu cabelo é ruim por que, fez alguma coisa com o senhor?” De lá pra cá a “piada” ainda provoca riso mas algo mudou. Acredito que nas grandes cidades e nos espaços intelectuais e acadêmicos começa a ser admitida a possibilidade de assumir essa triste condição de racismo estrutural que infelizmente está entranhada na vida brasileira. Quero dizer que não é mais tempo para adiar o tema no divã de cada um. Não dá mais. É rasteira nas pernas dos progressistas, é uma grave contradição no discurso dos revolucionários. Quem no Brasil lutou contra a desigualdade e não fez nessa luta um recorte racial e de classe, me desculpe, mas não lutou contra a desigualdade. Ou ao menos deixou de ver o óbvio e essa não visão fez falta na análise final. Tornou fajuta aquela grande dissertação, aquela tese. Estou falando que só agora, grandes amigos meus, inteligentes, respeitados, alguns famosos, têm me confessado o quanto passaram grande parte de sua vida achando que raramente encontrar negros gerentes de banco, de empresas, protagonistas de novelas, dirigindo cinema, parlamentos, cidade, Estados e país era mera coincidência. Muita gente até aqui acreditou que 56 % da população brasileira estava desconsiderada e excluída unicamente por por falta de mérito próprio, por falta de competência. Creia-me, existe uma certa “inocência” branca, uma nebulosa visão sobre toda a injustiça exercida contra indígenas e negros desde o começo de nossa história em que é vista como uma simples coincidência.

André Rebouças, o mesmo que construiu o que é hoje a sede carioca da Ação e Cidadania, na Barão de Tefé, o primeiro prédio feito por mão de obra negra remunerada, era um engenheiro abolicionista, que fez muito mais que o Túnel Rebouças, sua proposta era uma república nova com a abolição: cada negro liberto, receberia uma terra para plantar, seria alfabetizado, seria indenizado pela escravização e teria acesso aos estudos. O bravo abolicionista e seus colegas perderam essa batalha. Não venceu a sensatez e, embora em nome de Deus tenha sido feita a nossa colonização, também não venceu a bondade. Ainda que, na sequência à imigração européia tenha sido oferecido terra e trabalho remunerado, o mesmo não se deu com a população negra, nem com a indígena. A branquitude sempre foi genocida com esses povos desde os primeiros contatos. Portugueses desembarcaram aqui doentes, sujos, famintos, perdidos em terras estrangeiras. Foram pelos indígenas curados, alimentados, banhados. Quando se viram recuperados trataram de trair os nativos. Quem nos colonizou sequestrou negros, estuprou indígenas, matou tribos inteiras na base do engano e da discrepância de recursos. Cheio de covardia e violência é o passado, cheio de covardia e violência é o presente. O que não se esperava era esse Brasil novo, disposto a botar fogo no parquinho a partir da morte de George Floyd, o que não se contava era com o resultado do sistema de cotas que fez com que os desconsiderados sociais entrassem nas universidades e derramassem dentro dela o seus saberes. Afinal, negros trazem a honra de terem sido os primeiros homens da Terra. Por muito fomos só nós, nos primórdios. O branco veio depois. Para dar só alguns exemplos, negros trazem a medicina, a arquitetura, a aritmética, a geometria, a engenharia, o papel, a escrita na bagagem de suas criações. Exigimos respeito. Há um Brasil recente feito de cidadãos que cresceram com seus cabelos crespos, conscientes de suas belezas, seguros de sua nobreza.Um Brasil que sabe que é diáspora, que veio do continente africano, que veio do Congo, país exemplar na arte da diplomacia, antes do sangrento negócio nos mares. Antes da carnificina, do sequestro e tráfico de pessoas negras, a África já tinha seu funcionamento coletivista e até monarquias à sua maneira. Hoje temos um Brasil que sabe que não descende de escravizados mas antes, de uma África anterior a essa safadeza. Cruel foi o nosso holocausto. Esse Brasil está disposto a mudar a cara das eleições. Esse Brasil se candidatou. Esse Brasil também tem sido eleito.

Concomitantemente, a cada hora uma pessoa branca se revela antirracista e quer mexer no seu lixo. Está disposta a meter a mão na própria cumbuca. Sabe que vai encontrar a deslealdade no jogo. Sabe que não é por acaso que nem ela e nem ninguém da família dela pode se casar com negro, sabe que muitas fortunas vieram de mão de obra praticamente escravizada. E estão correndo atrás. Concordo. Paga um mico imenso o racista hoje. E eu quero que fique constrangedor, que as pessoas de “bem” que vão às festas de aniversário de criança levando as babás dos seus filhos uniformizadas ainda por cima, se sintam constrangidas. A cada hora destampa-se mais um bueiro. Por exemplo, no ano passado eu fiz vários filmes, nove, precisamente, e nos últimos tempos, felizmente, tenho recebido muitos convites para o audiovisual. Então me vejo pela primeira vez com uns oito roteiros para ler. Agora depois de trinta e quatro anos vivendo na Cidade Maravilhosa! Imediatamente me lembrei de amigas minhas da mesma geração, só que brancas, e que há muitos anos estão sempre dizendo “que têm muitos roteiros para ler.” Eu me perguntava por que eu não recebia a mesma quantidade de convites? Por que era raro? Se eu contasse para uma amiga branca isso ela dizia que era paranoia minha. E quando eu perguntava a um produtor de elenco sobre a possibilidade de eu fazer esse ou aquele filme, a resposta era sempre a mesma “é difícil papel pra você; não tem papel pra você”.

Aviso ao leitor, isso aqui não é mimimi, isso aqui não é vitimismo, isso aqui é aquilo chamado fato acontecido do qual, por muito tempo, não havia nem espaço para falar. Felizmente há brancos abrindo suas redes para ocupações e há brancos dispostos a falarem os seus salários. Sim, dos seus salários, e por que? Há uma discrepância gigantesca entre o salário profissional negro e do profissional branco. Ponto. É verdade, ninguém inventou essa informação. A gente sempre soube que era diferente mas não sabíamos da proporção. Ninguém é obrigado a falar publicamente quanto ganha, mas podemos conversar pontualmente cada um com nossos amigos e estarmos preparados para a ajustar descalabrosa diferença. Se algum sindicato levasse a sério o tema, daria até cadeia, penso eu. Eu mesma tive um produtor que me disse logo que veio trabalhar comigo, quando soube do valor do meu cachê: “Nossa, isso é cachê de…” e citou uma atriz branca. Me lembro que fiquei chocada. O que será que ele queria me dizer? Somos duas artistas no mesmo mercado e eu ainda com o diferencial de ser escritora. De que será que ele falava? O que é que esse infeliz queria me dizer? Abriu-se a caixa de Pandora. Rompeu-se aquele silêncio e não somos mais tão poucos no corredor das vozes ouvidas. Estamos cada vez mais em bando e se cada um de nós é obrigado a se superar, a ser exímio em cada trincheira, nos imagine em grupo.Há muito tempo os movimentos sociais, em especial o movimento negro, vêm empunhando essas bandeiras e denunciando os mesmos absurdos que escrevi aqui. Mas só agora a branquitude parou para ouvir e descobriu que era ignorante, descobriu que quando estudou literatura, filosofia e cultura universal, ficou faltando a África. Descobriu que ser conhecedor somente da mitologia grega sem saber distinguir Exu de Oxum como bem mostra a mitologia negra, revela um déficit imenso na sua subjetividade. Toda a cultura universal ocidental que só se referenciou na sabedoria europeia é capenga, deficitária. É uma teoria falha porque falta-lhe um pedaço. Arrogante, o colonialismo ainda insiste em chamar a língua nativa dos povos de dialeto. E a voz dominadora de língua. Pois é, meus amigos, essa é a bagunça que temos nas mãos para organizar o caminho do que poderia se chamar o futuro de uma civilização. Para isso precisamos cuidar do presente.

Agora, nesse mês da Consciência Negra, algumas vezes eu tive que dizer: “Não aceito esse trabalho, não faço esse trabalho escravo, principalmente no mês da Consciência Negra, minha consciência não deixa! Fico achando sádico ser chamada para trabalhar de graça, para falar de antirracismo de graça, num mercado chefiado por brancos onde já valemos menos, e que nos obriga a lutar direitos all the time. Tem hora que dá cansaço. Flávia Oliveira costuma dizer quando perde a paciência com o que chamamos de white fragility: “Ai, gente, não é isso que eu queria dizer, será que isso é racismo? Eu não tive a intenção, minha babá é negra.” É quando Flavinha responde: “Ah, meu bem, o bloco de ensino fundamental é noutro prédio”.

Por fim, fiquei estarrecida ao concluir mais uma obviedade: Ora, a ideologia escravocrata justificou o domínio sob nossos corpos acorrentados com uma teoria genética de inferioridade étnica. E tentou-se inutilmente embranquecer o Brasil com base nessa teoria eugenista. Ora, mas a pergunta que não quer calar é a seguinte: Se somos geneticamente inferiores, por que será então que é preciso roubar no jogo? Os brancos não ganhariam num jogo limpo? Enquanto fica a pergunta, chamo a branquitude esperta para a luta, para o aquilombamento contemporâneo. Por que não estudamos o Quilombo do Palmares é que não sabemos que nele viviam abolicionistas brancos, poetas, revolucionários, gays, humanistas, artistas, bravos anti escravagistas que se embrenhavam na luta contra aquele cancro social instalado. O racismo e sua necro política é um problema dos brancos e possui muitas formas de matar os pretos. Por isso é coisa para ser tratada imediatamente nesta hora furuncular. O cineasta Joel Zito Araújo sugere que todo dia é preciso matar o racista que existe dentro de cada um. Pois até quando vamos permitir e colaborar com o apartheid onde vivem os filhos brancos de tanta gente “bacana” brasileira? Quando Marthin Luther King fala contra o silêncio dos bons, é disso que ele estava falando, da grande omissão que muitas pessoas evoluídas, instruídas oferecem secularmente a essa causa. Eu vou repetir: No “esporte” da disputa econômica e social brasileira, os competidores não saem da mesma raia, não recebem o mesmo treino. De modo que os que não têm técnicos nem vitaminas, nem mestres, nem intercâmbios ficam predestinados pela sujeira do jogo, a limpar os sapatos dos campeões. Chega. A justiça, meus atentos leitores, é uma questão matemática. E o erro nosso não acontece na conta de somar, nem de multiplicar, nem de diminuir. O erro, minha cara gente branca, é na conta de dividir. Enquanto escrevo mais um negro é assassinado na porta do Carrefour.Todo racista está envolvido neste crime.

20 de novembro, pelo Direito ao direito, fim de primavera, 2020.

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29
Jan20

Historiador relembra embaixador brasileiro que salvou centenas dos nazistas, 75 anos após Auschwitz

Talis Andrade

Embaixador do Brasil na França entre 1922 e 1944, prisioneiro de guerra detido na Alemanha, Luiz Martins de Souza Dantas (1876–1954) ajudou centenas de pessoas perseguidas pelos nazistas a emigrar para o Brasil mediante a emissão de vistos. O historiador Fabio Koifman conta a história de Souza Dantas no livro "Um Quixote nas trevas" (Ed. Record, 2002, São Paulo).

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Por Márcia Bechara

RFI

Fabio Koifman reuniu mais de 7.500 documentos e listou 245 nomes de pessoas salvas por Souza Dantas. Com base em sua pesquisa, ele escreveu a biografia do embaixador. Segundo o historiador, "Dantas bateu de frente com o governo colaboracionista de Getúlio Vargas ao salvar judeus, comunistas e homossexuais da deportação para campos de concentração". 

Quando a França foi invadida pela Alemanha nazista, e o governo francês trocou a capital francesa de Paris para Vichy, e a única esperança de salvação para os judeus em solo francês passou a ser a emigração, e um dos destinos era o Brasil. "Ele ajudou pessoas em Paris antes da Liberação, mas só começou a liberar vistos de próprio punho quando o governo saiu da capital", conta o autor.

Apesar da política restritiva de imigração do governo Vargas na época, Souza Dantas, desafiando a proibição, teria concedido cerca de 500 vistos e ajudou mais de 800 pessoas a fugir da barbárie nazista. Em 1941, a investigação administrativa realizada contra ele, acusando-o de fornecer "vistos irregulares" e ao final da qual ele foi convocado a se aposentar, não o impediu de continuar a emitir vistos. Além disso, o embaixador permaneceu em seu posto, porque era impossível substituí-lo durante esse período conturbado.

As portas da embaixada brasileira em Vichy, onde a delegação brasileira havia sido transferida, permaneceram abertas para os ameaçados. Koifman lembra que o carro onde estava Souza Dantas chegou a ser metralhado durante a ida a Vichy, em plena ocupação. "Depois que foi processado, ele foi forçado a conceder os vistos à mão, porque não existia serviço consular brasileiro", diz o historiador.

As portas da embaixada brasileira em Vichy, onde a delegação brasileira havia sido transferida, permaneceram abertas para os ameaçados. Koifman lembra que o carro onde estava Souza Dantas chegou a ser metralhado durante a ida a Vichy, em plena ocupação. "Depois que foi processado, ele foi forçado a conceder os vistos à mão, porque não existia serviço consular brasileiro", diz o historiador.

Em 1943, a sede da Embaixada do Brasil foi invadida por oficiais nazistas. O embaixador e seus assessores foram deportados para Bad Godesberg, na Alemanha, e trancados em um hotel até março de 1944, quando foram trocados por prisioneiros alemães no Brasil. 

"Justo entre as nações"

Em Paris, uma placa presta homenagem a Souza Dantas no local da antiga Embaixada do Brasil (Avenida Montaigne, 45). Em 2003, o Yad Vashem (o memorial do Holocausto para o povo judeu em Israel) também concedeu ao embaixador brasileiro o título de "Justo entre as nações". 

Sobre o fato da América do Sul ter recebido a diáspora judia da Segunda Guerra, mas também, posteriormente, inúmeros fugitivos nazistas, Koifman afirma que se tratava de uma predileção pela "imigração branca". "O país se mantece interessado em receber imigração europeia, branca. Eles tinham uma política migratória que privilegiava gente com o que era considerado 'uma boa formação étnica', uma espécie de eugenia", analisa.

Questionado sobre as acusações de que o primeiro escalão do governo atual, de Jair Bolsonaro, flertar diretamente com a ideologia nazista, no ano em que a França celebra os 75 anos da liberação dos judeus do campo nazista de Auschwitz Birkenau, Fabio Koifman lamenta. "É um desconhecimento, uma apropriação de valores, o presente não tem nenhum nexo com o passado. Mas alguns aspectos da estrutura nazista de governos autoritários são revistos hoje em dia", diz. "É lamentável por que isso revela o pouco da percepção dessas pessoas sobre o que é cultura e liberdade". 

 

14
Mai18

A Lava Jato longe de Fisher Island, o bairro mais rico dos EUA, onde 10% dos moradores são brasileiros

Talis Andrade

* Ilha de Miami Beach é o código postal norte-americano com maior renda per capita do país

 

*Justiça faz que não sabe da vida de luxo dos corruptos que venderam e compraram estatais

 

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Fisher Island e Miami Beach (à direita). PALAZZO DEL SOL&DELLA LUNA

 

 

Fisher Island, uma ilha particular ao lado de Miami Beach que só pode ser acessada de balsa, é o código postal mais rico do país mais rico do mundo, os Estados Unidos. A renda média dos seus 1.300 residentes é de cerca de 2,5 milhões de dólares (cerca de 9 milhões de reais) por ano, de acordo com uma análise de dados fiscais nacional realizada pela publicação financeira Bloomberg. Os abastados moradores de Fisher Island, um enclave paradisíaco com sua própria praia de areia branca trazida das Bahamas, ganham em média meio milhão de dólares a mais do que o segundo código postal mais rico, a cidade de Atherton, epicentro de Silicon Valley e sede de grandes empesas tecnológicas como o Facebook. No local, convivem moradores de 37 nacionalidades, mais da metade norte-americanos e em segundo e terceiro lugar brasileiros (10%) e russos (7%).

 

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Hotel do clube de Fisher Island. FISHER ISLAND CLUB

 

“Esta ilha já é uma marca que significa máximo luxo, como um iate ou um relógio. É o [relógio] Patek Philippe dos condomínios. Em qualquer lugar de nível do mundo você diz que mora em Fisher Island e não tem de dizer mais nada”, diz a agente imobiliária Dora Puig na cozinha de “puro mobiliário italiano”, que mostra em um apartamento à venda no último edifício construído, o Palazzo Del Sol. Um apartamento de 700 metros quadrados com vista para o mar e design minimalista –“com um toque de vida praiana”, qualifica– cujo preço inicial é de 19 milhões de dólares. Uma cobertura no mesmo edifício acaba de ser vendida por 32 milhões, o máximo que se pagou na ilha –embora o recorde certamente será superado em 2019 por outra do Palazzo Della Luna, um condomínio em construção, pelo qual pedirão 40. O recorde até hoje em Miami é de 60 milhões para uma cobertura duplex. Esta reportagem de PABLO DE LLANO, correspondente do jornal El País, em MIami, continua. Também para causar mais emoções patrióticas, foram alterados os títulos. Galeria de fotos aqui

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Um lago do campo de golfe da ilha. FISHER ISLAND CLUB

14
Mai18

Estamos matando uma geração de negros e negras no Brasil

Talis Andrade

Sabemos que os negros têm menos acesso a educação. Têm menos acesso a saúde. Têm menos acesso a transporte. Morrem antes

 

Júlia Dias Carneiro entrevista Lilia Moritz Schwarcz

 

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Mercado da rua do Valongo, litografia a partir de aquarela de Jean-Baptiste Debret, 1835

 

BBC Brasil - As gerações pós-Holocausto viveram o choque com a barbaridade e os horrores da Alemanha nazista. Você acha que no Brasil pós-escravidão houve um senso de choque posterior, uma percepção de que o país perpetrou barbaridades?

Lilia Schwarcz - Aqui no Brasil, não. Você teve essa percepção em outros lugares. E existem alguns memoriais espalhados pelo mundo que falam do que foi a escravidão, como o memorial da abolição em Nantes, na França.

No Brasil, qual foi o suposto? Que a escravidão era a lei. Era legal. E durante muito tempo foi naturalizada. A ideia da naturalização é terrível. Sempre se mostrou uma escravidão muito benéfica. Basta vermos as imagens que passam a ideia de uma escravidão ordeira, tranquila. Como se isso fosse possível, em um sistema que pressupõe a posse de um homem por outro.

Só muito recentemente é que foi se colocando em pauta a dimensão da chacina, e o fato de a escravidão mercantil da era moderna ter produzido a maior diáspora vista no mundo depois de Roma.

Até o movimento negro contestar a data de 13 de maio, a data era uma data cívica. Era celebrada. Era despolitizada. Atualmente, estamos politizando essa data e deixando bem claro que é preciso lembrar para não esquecer. Mas não é possível celebrar.

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Vendedora de bananas em fotografia de Rodolpho Lindemann

 

BBC Brasil - Ganha força um movimento de cobrança por essa dívida histórica?

Lilia Schwarcz - Eu penso que sim. O movimento internacional por cotas e políticas de ação afirmativa é uma tentativa de cobrar essa dívida histórica. Essa discussão começa no Brasil tarde, no fim dos anos 1970, e demora para pegar.

Os dados do censo vêm mostrando como o país é profundamente desigual. Quando comparamos marcadores sociais da diferença, como classe e raça, vemos que raça é sempre um agravante.

Estamos matando uma geração de negros e negras no Brasil. Sabemos que os negros têm menos acesso a educação. Têm menos acesso a saúde. Têm menos acesso a transporte. Morrem antes. São dados radicais que estamos recriando. Eu acho que ações desse tipo (as cotas raciais) são importantes porque há momentos em que é preciso desigualar para depois igualar. Não se pode falar em uma meritocracia universal num país tão desigual como o Brasil.

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Augusto Gomes Leal com sua ama de leite Mônica, albúmen de João Ferreira Villela, de 1860

 

BBC Brasil - A eleição da Marielle Franco no Rio foi um exemplo da força que movimentos em prol da igualdade racial e de gênero vêm ganhando. Como você compara a força desses movimentos hoje com o que acontecia na sua juventude?

Lilia Schwarcz - A minha geração viu o crescimento dos direitos civis, do direito à diferença na universalidade, e se orgulhou muito dessas novas conquistas. Acho que, no Brasil e no mundo, nós acreditamos que essas conquistas democráticas estavam de alguma maneira asseguradas.

O que estamos vendo agora é um momento claro de crise e recessão democrática, colocando em risco essas conquistas.

A morte da Marielle representa muito esse momento. Depois de 30 anos de conquistas democráticas, começamos a ver que direitos não são conquistados para sempre.

É absolutamente simbólico que sua morte tenha ocorrido bem no ano dos 130 anos da abolição. A Marielle usou das franjas do sistema. Ela se formou na Maré, entrou na PUC por política de cotas, fez valer o seu mérito, virou uma das vereadoras mais votadas no Rio por sua pauta de inclusão racial e de gênero. Sua morte ainda sem respostas é outro escândalo da nossa democracia.

 

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Dama em liteira, carregada por escravos, e suas acompanhantes em aquarela de Carlos Julião do último quarto do século 18

 

 

BBC Brasil - No livro Brasil: Uma Biografia , você e a historiadora Heloisa Starling dizem que o país é uma obra ainda em aberto, e questionam se conseguiria consolidar a república e a democracia. Recentemente, a perspectiva ficou mais pessimista?

Lilia Schwarcz - Quando terminamos o livro, estávamos encantadas, Heloisa e eu, com as passeatas de 2013, com as manifestações, com a ideia de um Brasil mais plural, mais vigilante. Acho que todos ficamos. O que não notamos era que existiam dois grupos que desfilavam na avenida (nos protestos de 2013). Sabíamos, mas depois ficou mais claro. Um que queria esse Brasil diferente, mais plural, mais inclusivo, mais variado; e outro que também queria um Brasil diferente, mas que, de alguma maneira, estava colocando tudo na conta de Dilma Rousseff e de um partido. Um Brasil que queria não pluralidade, mas de fato eliminar o adversário.

Ideologias políticas à parte, acho que o impeachment da presidente Dilma abriu a tampa da democracia no Brasil e deu lugar para a política de ódios, de intolerância. A temperatura política acabou derretendo as nossas instituições. Quando escrevemos Brasil: Uma Biografia , Heloisa e eu dizíamos que a democracia estava forte porque as instituições estavam consolidadas, mas a república ia muito mal. Agora vemos que tanto a república como a democracia vão muito mal, com as instituições muito enfraquecidas e o descrédito da política e dos partidos. Vivemos um momento que pede muita vigilância.

 

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Negra tatuada vendendo cajus em aquarela sobre papel de Jean-Baptiste Debret

 

BBC Brasil - Nessa atual conjuntura, como você vê o cenário para as eleições deste ano?

Lilia Schwarcz - Quem diz que sabe, mente. Não vejo nenhum sinal agora que permita comentar como vai ser a composição dos partidos, quem vai se apresentar de fato. Há muitos sinais para ficar em alerta. É preciso aguardar.

 

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