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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

21
Dez20

Deus o maior general

Talis Andrade

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por Fernando Brito /Tijolaço

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O Brasil vive uma situação que nem o pior dos pesadelos poderia figurar.

Somos um país governado por um psicopata, cercado de generais-anões, e que conta com uma súcia de alucinados e uma falange de marombados valentões para fazer arruaças.

Imaginem que agora, para “provar” as sandices de Jair Bolsonaro e Ernesto Araújo de que o “vírus chinês” é uma conspiração comunista, aquele brutamontes que quebrou a placa com o nome de Marielle Franco está contando uma história destas que parece ter sido contada por alguém que cheirou proteinato e injetou açaí na veia, ou que virou jacaré depois de tomar anabolizante.

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Diz o tal Daniel Silveira, cabo da PM e deputado federal, que, quando esteve na China, a convite do governo chinês, foi passear na Grande Muralha e um agente do Partido Comunista disse-lhe:

“Não permitiremos outras culturas no Brasil além da nossa, vamos dominar o Brasil e com isso, o mundo.”

Vejam que enredo: o governo comunista o convida a ir passear na China e manda um agente lhe contar o plano secreto para “dominar o mundo”.

E o pior é que tem gente que ainda escreve que não vai acontecer porque ”temos o maior general de todos, o que nunca dorme e sempre está apostos para guerrear por nós: Deus!”

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04
Out20

A batalha pela Bíblia

Talis Andrade

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Teóloga americana analisa como movimento reacionário faz leitura deturpada do cristianismo para justificar retrocessos e aponta urgência em devolver à Bíblia seu caráter emancipador

 

Por Liz Theoharis

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Em 26 de agosto, durante a Convenção Nacional Republicana, o vice-presidente Mike Pence encerrou seu discurso parafraseando a Bíblia. Diante de uma multidão reunida na área externa do Forte McHenry, em Baltimore, ele exclamou: “Olhemos para a Old Glory e tudo o que ela representa. Olhemos para nesta terra de heróis e deixar que sua coragem nos inspire”. Basicamente, ele reescreveu uma passagem do livro de Hebreus do Novo Testamento: “Corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé. Ele, pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz”.

Não há nada de novo, é claro, no fato de um político americano juntar religião e política em sua campanha. Ainda assim, a decisão de Pence de substituir Jesus pela bandeira americana causou surpresa em algumas tendências religiosas e políticas. A fusão da bandeira com Cristo foi o sinal mais recente da crescente influência do nacionalismo cristão na era Trump.

Não é difícil encontrar provas de quão profundamente o nacionalismo cristão influencia nossa política. Durante a pandemia, a Bíblia foi usada (e distorcida) repetidamente para justificar o negacionismo em relação ao Covid-19 e a inação do governo, para não falar da repressão pura e simples. No fim de março, quando as cidades estavam confinadas e as autoridades de saúde pública recomendavam medidas rigorosas de quarentena, um dos primeiros atos de Donald Trump foi reunir seus seguidores na Casa Branca para o "Dia Nacional de Oração" para dar força aos americanos para seguir em frente apesar da morte e das dificuldades.

Em seguida, ainda na primavera, protestos contra os fechamentos causados pela pandemia – financiados com dinheiro obscuro de organizações como a dos irmãos Koch – exigiram que os estados reabrissem as atividades econômicas e que as diretrizes de distanciamento social fossem afrouxadas. (Esqueça qualquer tipo de máscara). Nestas manifestações, cartazes diziam coisas como: "Até o Faraó libertou escravos durante uma peste" e "O Texas não carregará a marca da besta." E mesmo com as comunidades religiosas admiravelmente se virando para se adaptar aos cultos por zoom, bem como aos cuidados pastorais e velórios remotos, Trump continuou a atiçar as chamas da discórdia religiosa, declarando que o culto presencial era "essencial", levando juristas a questionar sua autoridade para dar tal declaração.

Por falar em sua versão do nacionalismo cristão, ninguém deve esquecer o espetáculo de junho, na Lafayette Square, perto da Casa Branca, quando Trump fez com que manifestantes por justiça racial fossem afastados com gás lacrimogêneo para que ele pudesse caminhar até a Igreja St. John e posar em seus degraus, exibindo orgulhosamente uma Bíblia emprestada. Embora tenha exibido o livro aos fotógrafos, ninguém apostaria que Trump o tenha sequer folheado. (A operação de comunicação pode ser duplamente lucrativa: uma Bíblia que ele assinou após o evento da Lafayette Square está à venda por quase 40 mil dólares).

A batalha pela Bíblia na história americana

Para entender como o poder é exercido na América por políticos ricos e seus círculos de extremistas em 2020, é preciso levar em conta o papel da religião na vida nacional. Uma batalha épica pela Bíblia está em curso em um país que foi, em larga medida, entregue a evangélicos brancos nacionalistas. Por meio de uma rede endinheirada de igrejas e organizações, universidades e think tanks, e com linhas diretas para os mais altos cargos políticos do país, obtiveram carta branca para definir os termos do que deve ser o debate religioso no país e ditar até o significado de moralidade em nossa sociedade.

Com Trump, esse nacionalismo religioso atingiu o auge quando um movimento reacionário – que inclui tecnocratas bilionários, televangelistas e milícias armadas – fincou raízes através de uma mensagem bem simples: Deus ama a América cristã branca, favorece o estado mínimo e as grandes empresas e recompensa o individualismo e empreendedorismo. Enquanto isso, os pobres, os negros e os imigrantes são os culpados pelos problemas da sociedade, mesmo no momento em que os ricos ficam ainda mais ricos naquele que ainda é o país mais rico da história.

Os perigos representados pelos nacionalistas cristãos de hoje são bem reais, mas a batalha pela Bíblia não é nova nos EUA. Nos anos 1700 e 1800, proprietários de escravizados citavam o livro de Filemon e passagens das epístolas de São Paulo para defender que a escravidão era uma ordem de Deus. Eles também arrancavam as páginas do Êxodo das bíblias que davam aos escravizados. Durante a Era dourada do século 19, tanto igrejas quanto políticos pregavam um “evangelho da prosperidade” que exaltava as virtudes do capitalismo industrial.

Décadas mais tarde, os segregacionistas continuaram a usar versos bíblicos soltos para legitimar as práticas de Jim Crow, enquanto no fim dos anos 1970 a Maioria Moral ajudou a integrar uma nova geração de extremistas cristãos na política nacional. Em minha juventude, lembro-me de políticos citando as cartas aos Tessalonicenses na campanha pela aprovação da Reforma do Estado de Bem-Estar Social de 1996 como prova de que Deus acredita que se deve procurar um trabalho para ter acesso aos programas de assistência pública.

Estudantes de religião e história sabem que, embora essas batalhas teológicas tenham muitas vezes descambado desastrosamente para o uso de violência, privação e ódio, o pensamento religioso cristão também tem sido um ingrediente importante para a mudança social positiva no país. A escravizada fugitiva Harriet “Moses” Tubman via a Underground Railroad como um projeto cristão de libertação, enquanto o escravizado fugitivo Frederick Douglass lutou pela abolição através de igrejas em todo o norte do país nos anos que precederam a Guerra Civil. Um século depois, perto do fim de sua vida, Martin Luther King Jr explicou como, para realizar seu sonho de justiça universal, seria construída uma comunidade de Deus por meio de uma "igreja da liberdade dos pobres".

Em cada capítulo da história americana, abolicionistas, trabalhadores, líderes sindicais, militantes de direitos civis e outros representantes dos oprimidos lutaram por um país melhor não apenas nas ruas e locais de trabalho, mas também no púlpito. Nos destroços do atual momento trumpiano, com um ascendente nacionalismo branco fascista, as pessoas de consciência fariam bem em seguir o exemplo.

O “pássaro psicológico” da má religião

No meu livro Always with Us? What Jesus Really Said About the Poor (Sempre conosco? O que Jesus realmente disse sobre os pobres, sem tradução no Brasil), concentro-me em um fenômeno que há muito me preocupa: como, neste país, a Bíblia tem sido tantas vezes manipulada para apagar seu potencial de emancipação; e particularmente, a maneira como aquela que o teólogo Jim Wallis chamou de a mais famosa passagem bíblica sobre os pobres (do Evangelho de Mateus) – “os pobres estarão sempre conosco” – foi distorcida.

Desde que eu era menina, não passei uma semana sem ouvir alguém citar Mateus como uma explicação de por que a pobreza é eterna e sua mitigação é função, na melhor das hipóteses, de obras de caridade e da filantropia (certamente não do governo). Este raciocínio atravessa muitas de nossas instituições religiosas, inclusive o que é hoje conhecido como "cristianismo evangélico", mas também nossas casas legislativas, nossos tribunais, forças armadas, escolas e muito mais. Esta lógica não apenas fez a cabeça de jovens cristãos, mas ajudou a espiritualizar (e cristalizar) a pobreza, justificando implícita ou explicitamente uma desigualdade cada vez maior.

Hoje, a ideia de que a pobreza é o resultado de mau comportamento, preguiça ou pecado, e não de decisões dos poderosos, nitidamente ganha espaço na Washington de Donald Trump e Mitch McConnell. Passagens bíblicas, como a de Mateus, se tornaram mais uma ferramenta ideológica brandida por reacionários e pelos ricos para desviar a atenção das falhas sistêmicas do país.

Consideremos, por exemplo, o desenvolvimento histórico da região conhecida como o "Cinturão da Bíblia" (ou o "Cinturão da Pobreza"). Ele atravessa todo o Sul, da Carolina do Norte ao Mississippi, do Tennessee ao Alabama, onde vivem pessoas pobres de todas as raças. Trata-se da região americana onde a pobreza é mais profunda e numa área contígua, fenômeno em parte possibilitado por uma teologia herética, pela má interpretação bíblica e pelo nacionalismo cristão.

A convergência de pobreza e religião no Cinturão da Bíblia tem uma longa história, que remonta aos primeiros colonos no tempo da escravidão. Manteve-se no tempo das leis de Jim Crow, que vigeu na região até os anos dos Direitos Civis, e sobrevive no que se passou a chamar, na política, de “Sul sólido” (antes democrata, hoje republicano). Dentro de seus limites sobrevive um legado brutal do método de dividir para conquistar que, até hoje, politiza a Bíblia ao afirmar que a pobreza resulta de pecados contra Deus e ensina aos pobres, em particular aos brancos, que, embora tenham pouco ou nada, pelo menos estão “melhor” do que os negros.

No fim da marcha sangrenta entre Selma e Montgomery, no Alabama, em 1965, Martin Luther King explicou a política milenar de divisão na região:

“Se pode-se dizer, sobre o período de escravidão, que o branco conquistou o mundo e ofereceu Jesus ao negro, deve-se dizer, sobre o período da Reconstrução, que a aristocracia sulista conquistou o mundo e ofereceu Jim Crow ao branco pobre... E quando o seu estômago vazio gritava pela comida que os seus bolsos vazios não podiam pagar, devorou Jim Crow, um pássaro psicológico que lhe contava que, na pior das circunstâncias, ao menos tinha a sorte de ser branco, e não negro. E, assim, ela devorou Jim Crow... E também os seus filhos aprenderam a se alimentar de Jim Crow, o estágio mais avançado do esquecimento psicológico”.

Esse “pássaro psicológico” foi temperado e cozido em uma mistura volátil de pseudociência racista, ortodoxia econômica e má religião. Na verdade, manteve seu enorme poder em grande parte usando a Bíblia e uma versão do cristianismo para validar a pilhagem e o sofrimento humano em uma escala impressionante. Pela lei, Jim Crow pode não existir mais, mas sua história assombra os EUA até hoje, e a Bíblia continua a ser usada como arma para validar um poder político branco, racista e antipobre.

À medida que empregos e oportunidades desaparecem nos EUA do século 21 e as igrejas estão, em muitas comunidades, entre as últimas instituições verdadeiramente funcionais, a Bíblia, independentemente de sua interpretação, ainda influencia a vida cotidiana de milhões de pessoas. A forma como ela é compreendida e pregada afeta os rumos políticos e morais do país. Lembremos que esses estados do Cinturão da Bíblia – onde o nacionalismo cristão (que muitas vezes se utiliza de sua própria versão distorcida da Bíblia) reina supremo – respondem por mais de 193 votos do colégio eleitoral e terão, portanto, um papel fundamental para decidir o destino de Donald Trump e Mike Pence em novembro.

Tive uma experiência com essa interpretação bíblica e teológica e seu papel crescente em nossa política nacional em junho de 2019, durante uma audiência do Comitê de Orçamento da Câmara dos Representantes. O tema era a pobreza nos EUA e as realidades econômicas de famílias em dificuldades. Um grupo racial e geograficamente diverso de líderes da Poor People’s Campaign (Campanha dos Pobres), da qual sou codiretora, foi convidado a falar sobre essas realidades. Naquele dia estavam também presentes dois pastores negros convidados por congressistas republicanos como exemplos de como a fé e o trabalho árduo são a única receita para uma vida boa e estável para os pobres.

Viemos apresentar o que chamamos de Orçamento Moral dos Pobres, um estudo que mostra que os Estados Unidos têm dinheiro para acabar com a pobreza, a fome, a falta de moradia e muito mais, o que falta é vontade política para isso. Em resposta, os membros do comitê recorreram a estereótipos batidos sobre por que, em um país tão rico, tantos somos pobres. Alguns citaram o suposto fracasso da Guerra contra a Pobreza dos anos 1960 como prova de que os programas de ascensão social simplesmente não funcionam, ignorando a forma dramática como os políticos minaram essas iniciativas nos anos seguintes. Assim como os pastores, outros testemunharam como foram bem-sucedidos, saindo de situações de dificuldade econômica através de esforço individual, defendendo que a caridade cristã como forma de aliviar a pobreza. Ouvi a todos enquanto promoviam uma teologia herética que afirma que as pessoas sofrem com a pobreza principalmente por estarem afastadas de Deus e por não terem suficiente fé em Jesus.

Naquele dia, as paredes da sala do comitê da Câmara ecoaram palavras vazias que distorciam o que a Bíblia realmente diz sobre os pobres. Um representante republicano chegou a comentar que, embora tivesse familiaridade com a Bíblia, nunca havia encontrado nenhuma passagem “onde Jesus diga a César para cuidar dos pobres”. Outro, previsivelmente, sugeriu que a caridade cristã – e não os programas patrocinados pelo governo – é a chave para aliviar a pobreza.

Alguém menos familiarizado com os argumentos destes políticos poderia ter ficado surpreso ao ouvi-los buscando justificativas teológicas. Como estudiosa da Bíblia e da história dos movimentos sociais, sei bem como os textos religiosos nos orientam a cuidar dos pobres e despossuídos. Como líder sindical, aprendi que aqueles que estão no poder hoje, sempre – e muitas vezes desesperadamente – procuram corromper e distorcer o potencial de libertação de nossas tradições religiosas.

Em resposta àquele deputado, o reverendo William Barber, meu codiretor na Campanha dos Pobres, e eu mostramos o quão interessante era o fato de ele se identificar com César (não necessariamente a comparação mais lisonjeira que se possa imaginar, especialmente porque o cristianismo bíblico diverge de César e do Império Romano). Em seguida, detalhei muitas das passagens e mandamentos da Bíblia que nos exortam a organizar a sociedade em torno das necessidades dos pobres, a perdoar dívidas, pagar aos trabalhadores um salário digno, em vez de favorecer os ricos ou "César". Essa, está claro, é a fórmula da era Trump (onde, nos últimos seis meses pandêmicos, os 643 americanos mais ricos ganharam 845 bilhões de dólares extras, aumentando em 29% sua riqueza combinada). Também apontei que os programas de redução da pobreza mais eficazes, como o Head Start, são financiados pelo governo federal, não por entidades filantrópicas ou pela caridade cristã.

Boas novas dos pobres

Na Campanha dos Pobres, muitas vezes começamos nossas reuniões de organização mostrando uma série de mapas do país com códigos de cores. O primeiro inclui os estados que aprovaram leis de supressão de eleitores desde 2013; o próximo, aqueles com as maiores taxas de pobreza; em seguida, aqueles que não expandiram o Medicaid e aprovaram leis anti-LGBTQ. E por aí vai. Nosso último mapa exibe os estados com maior densidade de evangélicos autodeclarados.

Tenho certeza de que você não se surpreenderá ao saber que esses mapas se sobrepõem quase perfeitamente, principalmente no Cinturão da Bíblia, mas também no meio-oeste, nos estados do meio-Atlântico e até mesmo em partes do Nordeste e do Oeste. O objetivo é mostrar como a batalha pelo direito ao voto, pelo acesso à saúde e por outros recursos essenciais está intrinsecamente ligada à batalha pela Bíblia. O que está em jogo é a saúde de todo o país, porque os mesmos políticos que manipulam a Bíblia e o direito ao voto para ganhar as eleições, aprovam, quando eleitos, orçamentos e políticas imorais.

Quando o vice-presidente Pence alterou aquela frase do Livro de Hebreus, ele estava entrando de cabeça neste campo de batalha ensanguentado, com uma Bíblia profanada nas mãos. A questão é: por que ele e outros nacionalistas cristãos têm o poder de definir o cristianismo? Se eles estão tão decididos a "fixar os olhos na Old Glory", não deveriam também fixar os olhos no que Jesus realmente disse?

A palavra grega evangelia, de onde vem “evangélico”, significa levar boas novas aos que foram empobrecidos pelos sistemas de exploração. As boas novas da Bíblia, também definidas como evangelho, falam repetidamente sobre cativos sendo soltos, escravizados libertos e todos os oprimidos sendo cuidados. Diz-se que se você cortar todas as páginas que falam de pobreza, a Bíblia desapareceria. E quando você lê realmente as palavras naquelas páginas, vê que o evangelho não fala sobre a inevitabilidade da pobreza ou a necessidade de caridade, mas sobre a responsabilidade das autoridades para com todas as pessoas e a possibilidade de abundância para todos.

Em um momento em que 43,5% dos americanos são pobres ou sofrem com incêndios, tempestades, crise de saúde, pandemia, despejo ou perda de empregos por causa da pobreza, não poderia ser mais importante para os americanos começarem a lidar com essa realidade e nossa obrigação moral de mudá-la. Em vez disso, os políticos aprovam leis de supressão de títulos de eleitores, excluem crianças de programas de alimentação e permitem o envenenamento da água, do ar e da terra, com a benção dos líderes religiosos nacionalistas cristãos, que escolhem versículos bíblicos para justificar tais políticas. Não se trata somente de uma crise religiosa. É também uma crise política, econômica e moral que, em meio a uma pandemia, está empurrando este país para cada vez mais perto da morte espiritual.

Se ainda valer a pena salvar os EUA, estamos diante de uma batalha da qual ninguém deve ficar de fora.

- - -

Liz Theoharis é teóloga, codiretora da Poor People’s Campaign e diretora do Kairos Center por Religiões, Direitos e Justiça Social do Union Theological Seminary.

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' | Tradução de Clarisse Meireles para Carta Maior

 

03
Out20

Poetas nordestinos contra Bolsonaro no sertão

Talis Andrade

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por Urariano Mota

- - -

Dos jornais na quinta-feira primeiro de outubro:

“O presidente Jair Bolsonaro desembarcou nesta quinta-feira (1º), em São José do Egito, no sertão do estado, para inaugurar a segunda etapa do Sistema Adutor do Pajeú”.

Nesse giro, de cabeça e ausência de caráter, Bolsonaro inaugurou obra inaugurada por Lula e Dilma. A primeira etapa da adutora foi inaugurada em 2013, no governo Dilma. Antes, a captação das águas no Eixo Leste da Transposição do Rio São Francisco foi inaugurado no governo Lula. Mas o presidente de improviso e seus seguidores em caráter de traição, como o senador Fernando Bezerra Coelho, pensam que calam a voz da consciência. Sobre eles, falaram antes os poetas de São José do Egito, terra fértil da poesia popular.

No discurso – na falta de melhor palavra -, Bolsonaro teve dificuldade para lembrar o nome do município e pediu para os moradores buscarem bons candidatos nas eleições deste ano. Alguns trechos da fala do boneco de Trump na presidência, em São José do Egito:

“Vamos caprichar para escolher prefeitos e vereadores. Vamos escolher gente que tenha deus no coração….”

Ora, contra essa fala, o poeta Lamartine dos Passos e Silva na inédita Antologia dos poetas do Pajeú, que tenho em arquivo, escreveu estes versos numa premonição:

 

O DEUS CAPITAL

E assim, do níquel, fez-se o verbo santo;

Eclodia o poder do capital.

Triunfante miséria social

Envolveu os humanos com seu manto;

Proclamando a riqueza e o seu encanto,

Congelando justiça e consciência.

E, abolindo da terra a inteligência,

Faz-se Deus de poder universal;

Gera um mundo tão vil, tão desigual;

Joga os homens na vala da indecência.

 

É o único Deus que oferece

Paraísos reais aqui na terra

É quem diz quando há paz ou quando há guerra;

É quem diz quem progride ou quem padece.

Sua fonte é o trabalho que arrefece

O espinhaço do proletariado.

Seu destino, entretanto é projetado,

Sobre os cofres repletos da nobreza

Condenando o mais pobre a mais pobreza

Dando, assim, mais desgraça ao desgraçado.

 

É o sustento dos Deuses-fantasia;

Compra fé do mais justo ao mais tirano;

Borda d’ouro e cristais o vaticano;

Encarcera e profana o Deus-poesia.

Em seu nome a verdade principia;

Em seu nome a verdade se extravasa.

Onde lança os tentáculos arrasa,

Como um polvo gigante, soberano,

Ditador imortal desse oceano

De ganância, cinismo e mente rasa.

 

Dele o poder emana, é sua cria;

Pelo dinheiro, o poder mancha o nome;

Pra minoria farta se consome

(podre paródia de democracia).

E os baluartes da demagogia,

Com um Deus no bolso, roubam toda a massa;

Esses ladrões, depois que o pleito passa,

Voltam pro trono longe da miséria.

Enquanto o pobre tomba na matéria

Que, em breve tempo, só será carcaça.

 

Mas sem saber onde pisava, sem conhecer o pensamento e sentimento da voz poética dos sertanejos, o boneco de faixa de presidência cometeu mais esta ignorância:

“Deus foi tão abençoado que nos deu até a hidroxicloroquina para quem se acometer da doença”

A isso responde a poeta Carmen Beatriz dos Passos e Silva, na mesma Antologia dos poetas do Pajeú, com este certeiro soneto:

 

PROCURA-SE DEUS

São em vão os caminhos palmilhados

Por quem faz neste mundo a violência.

Tantas guerras, humanos humilhados

Por pessoas de grande prepotência.

 

Buscam Deus nos lugares mais errados

Onde reina a injustiça, a incoerência,

Onde a paz e o amor são enterrados

Ante o ódio, a maldade e a indecência.

 

Rezam aos céus pra pedir dinheiro e fama

E a grandeza da alma é esquecida;

A moral e a bondade jogam à lama…

 

Quando alguém por justiça ainda clama,

Viram as costas pra voz já tão sofrida,

Apagando os sinais da santa chama.

 

Mas o fascista no poder não se recupera, surdo e cego que é para a poesia, e tenta recuperar um lema integralista, a versão do fascismo brasileiro:

“que tenham na alma o patriotismo e queiram de verdade o bem do próximo. Deus pátria e família”.

Para tal patriotismo Deus-Pátria-Família, Simone dos Passos e Silva Leite , uma das vozes poéticas de São José do Egito assim lhe responde:

 

HINO ÀS AVESSAS

Bradam forte os heroicos da nação

Para ver da justiça a clava erguida,

Ao lutar, desbravar bosques da vida,

Ver nascer liberdade neste chão.

Mas as flores que brotam são em vão,

Desfolhadas de forma infame e vil.

E o penhor da igualdade no Brasil

É esquecido por esta Pátria Amada,

Sem razões pra gritar “Terra Adorada”,

Pois não é dos seus filhos Mãe Gentil.

 

E as estrelas do lábaro ostentado,

Ofuscadas no breu do sofrimento,

Vão perdendo no azul do firmamento

O poder de luzir manto sagrado.

Só restou o colorido desbotado

Do que foi o pendão da esperança.

Hoje é pavilhão de insegurança

De um país sem orgulho da bandeira,

Com o progresso e a ordem brasileira

Sucumbindo e ficando na lembrança

 

Nosso hino nasceu desafinado

Entoando uma falsa liberdade,

Que na pauta da vil desigualdade,

Chora as notas de um povo aprisionado.

Se o arranjo não foi bem orquestrado

Resta, em versos, lutar pela utopia,

Libertar dos grilhões a poesia

E trazer esperança à brava gente,

Pra poder transcender eternamente

Novos sons imortais da sinfonia.

 

Então o arremedo de presidente seguiu para outros lugares, a espalhar o seu vírus. A sua única imunidade è aos poetas de São José do Egito, que cantam na voz de Gilmar Leite:

 

Quando as águas tremulam na corrente

São poemas do audaz de Rogaciano,

Que cantou contra o mundo desumano

Na defesa dos pobres e oprimidos,

Que nas margens soltavam os gemidos

 

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20
Nov19

Novo projeto de poder de Bolsonaro, a Aliança pelo Brasil é o primeiro partido neofascista do país

Talis Andrade

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por João Filho

BOLSONARO ALUGOU um partido nanico, ajudou a transformá-lo em um dos maiores partidos do Brasil e agora o abandona após uma tentativa fracassada de golpe para tomar o seu controle e abocanhar o fundo partidário. Pela ótica da dinâmica política tradicional, esse jogo é uma loucura que levaria ao enfraquecimento e isolamento do governo. Mas não é assim que pensa quem tem como objetivo destruir a democracia como a conhecemos.

O presidente da República já mostrou que não tem nenhum interesse em formar uma maioria no Congresso que o ajude a governar. É um governo que renega as mediações democráticas e busca a radicalização para atingir seus objetivos.

Desde a posse, a família Bolsonaro vem implodindo grandes aliados construídos durante a campanha. Bebianno, Alexandre Frota, Joice Hasselmann, Witzel, João Doria e Luciano Bivar são alguns nomes que foram expurgados de maneira desleal. A tropa de choque bolsonarista vai ficando cada vez mais reduzida e isso não parece ser um problema para a família Bolsonaro. Ao que tudo indica, a intenção é ir empurrando o governo com a barriga, rezar para a economia sair do buraco e continuar apostando na fidelização da sua militância alucinada nas redes sociais. Não é novidade que este é um governo preocupado exclusivamente em agradar um séquito de reacionários e lunáticos catequizados por Olavo de Carvalho.

O presidente anunciou essa semana a criação da Aliança pelo Brasil, a futura nova casa da extrema-direita governista brasileira. Mais que isso: será uma sigla controlada pela família Bolsonaro e formada apenas por devotos fiéis do presidente.

Não se sabe ainda se a Aliança pelo Brasil será criada a tempo de disputar as eleições municipais do ano que vem. Se tudo for feito como manda a lei, será quase impossível. Mas estamos no Brasil 2019 e sabemos que as leis não têm sido garantia de muita coisa.

Será necessário coletar quase 500 mil assinaturas em pouco mais de quatro meses, o que seria um feito inédito. Mas os bolsonaristas contam que isso será possível com assinaturas digitais, feitas através das redes sociais e de um aplicativo que será lançado pelo partido. Acontece que a lei não prevê a possibilidade das assinaturas digitais, apenas em papel. Como será impossível juntar quase meio milhão de assinaturas em papel em quatro meses, o bolsonarismo vai conseguir as assinaturas digitais e tentar jogar essa disputa pro campo jurídico. Diante da escalada dos discursos autoritários do governo, alguém duvida que haverá radicalização e incitação do povo contra os tribunais quando esse caso for julgado? Ou será que os Bolsonaro vão mandar logo um cabo e um soldado ao TSE? Me parece bastante claro que o bolsonarismo não irá retroceder nem aceitar qualquer decisão que não seja a criação do partido do presidente. Eles não entraram nessa empreitada para depois ficarem sem partido.

É possível que haja, como houve nas eleições, uma grande mobilização das igrejas evangélicas pela criação do partido. Será que teremos pastores na porta da igreja trocando assinatura por um pedacinho no céu? O bispo e prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella já colocou a máquina da Igreja Universal à disposição para a coleta de assinaturas.

O manifesto de fundação do partido é um ajuntamento de chavões fascistoides. Não há nada ali que lembre um projeto de país, que pregue a conciliação, que apresente propostas para a economia e para o desenvolvimento social. É só um panfleto rancoroso que aposta no maniqueísmo e no confronto como método de governo, tendo Jair Bolsonaro como um líder messiânico. “Muito mais que um partido, é o sonho e a inspiração de pessoas leais ao Presidente Jair Bolsonaro, de unirmos o país com aliados em ideais e intenções patrióticas”, diz o manifesto. A palavra democracia não é citada em nenhum momento do texto. O partido se apresenta oficialmente como um grupo político formado por pessoas leais a um único político. É essa lealdade incondicional ao Messias que motivou o rompimento dos bolsonaristas com o PSL. Não havia divergências ideológicas ou programáticas entre eles. A separação se deu porque o núcleo bolsonarista queria o controle do partido e não admitia conviver com correligionários que não demonstrem lealdade cega e absoluta ao seu grande líder.

Em outro trecho, o manifesto diz que “a Aliança pelo Brasil é o caminho que escolhemos e queremos para o futuro e para o resgate de um país massacrado pela corrupção e pela degradação moral contra as boas práticas e os bons costumes”. As “boas práticas” e os “bons costumes” certamente não se referem às rachadinhas no gabinete do Flávio Bolsonaro nem ao conteúdo pornográfico que o presidente publicou no Twitter. É só a velha ladainha moralista que os moralistas gostam de pregar, mas não de cumprir.

Nos perfis do projeto de apresentação do novo partido de Bolsonaro, as palavras “Deus”, “pátria” e “família” são exibidas. Não parece coincidência o fato de esse ser o lema dos integralistas.

 

Inspirados no fascismo italiano, os integralistas são um movimento ultrarreacionário, criado há oito décadas no Brasil para abrigar o ideário fascista. A Ação Integralista Brasileira teve papel fundamental no golpe militar de 64 e hoje apóia o governo Bolsonaro. Durante as eleições, o grupo formalizou apoio à candidatura do ex-capitão e chegou a participar de um ato de campanha na avenida Paulista. Muitos integralistas são filiados ao PRTB de Levy Fidelix, cujo lema da campanha para deputado federal também era “Deus, pátria, família”.

Mas não é só o lema. Tudo na Aliança pelo Brasil lembra os integralistas, desde a estética à ideologia. A defesa dos valores cristãos, a rejeição à democracia liberal, o nacionalismo autoritário — tudo parece ser uma cópia dos integralistas. Não dá nem para chamar de versão moderna do integralismo, porque tudo no bolsonarismo cheira a mofo.

A Aliança pelo Brasil pode ser classificada com tranquilidade como o primeiro partido neofascista do Brasil. Sim, neofascista. Todos os elementos estão ali: o ultranacionalismo, o anticomunismo, a contestação permanente da democracia liberal, a veneração por um líder populista, o discurso autoritário. Será um partido neofascista de cunho religioso e que já nascerá com alguma relevância no jogo político partidário, já que foi criado pelo presidente da República e tem como uma de suas principais bandeiras a exaltação de sua figura. É uma pena que a grande imprensa nacional, que até hoje evita chamar o governo Bolsonaro de extrema-direita, jamais chamará o neofascismo pelo nome.

A democracia brasileira está prestes a fornecer espaço para um partido cujos fundadores ameaçam constantemente a democracia, atacam princípios constitucionais e exaltam os criminosos do regime militar. É um partido que resgatará oficialmente o legado do fascismo brasileiro. O Partido Social Liberal, que foi temporariamente ocupado para a extrema-direita poder entrar na democracia, ficou pequeno. Faltava um partido genuíno, criado para unir todos as tribos neofascistas que desejam exaltar Bolsonaro e o Deus cristão. Não falta mais.

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