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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

21
Set21

A terceira via e o uso da ideologia, slogans e símbolos de Bolsonaro

Talis Andrade

Bolsonaro mantém no governo o slogan nazista da campanha: "Deus acima de todos. Brasil acima de tudo".

Diante da apologia da violência, do ódio, a divindade de Bolsonaro da Teologia da Prosperidade é bem primitiva, e renovada pela a xenofobia, o racismo, a homofobia, a misoginia nazistas. 

Pela exibição do ministro Marcelo Queiroga, esta semana em Nova Iorque, o deus Priapus, evocado com a apresentação do dedo do meio. 

O gesto de arma com os dedos, símbolo da campanha de Bolsonaro a presidente, outro signo fálico, considerado representativo dos templários, relacionado a BaphometBafomete ou ainda Bafomé, uma representação de satã criada pelo Papa Clemente V na perseguição aos templários. 

Teve propaganda de Bolsonaro em que ele aparece como cruzado no combate "Deus acima de todos" contra o comunismo, a corrupção, religiões indígens e afro-brasileiras, e pecaminosos costumes como o kit gay, a mamadeira de piroca, o aborto. 

Pode ser uma imagem de 1 pessoaBolsonaristas organizam caravanas para ocupar Câmara em Brasília e  pressionar deputados a eleger Lira

Eliminados os templários, o culto a Bafomé passou a ser associado aos judeus, mas recentemente ao ocultismo, à maçonaria, que motivou o ataque de Adelio Bispo de Oliveira a Bolsonaro. 

Anderson Bahia escreveu em 13 de outubro de 2018: Muita gente anda espantada como a representação de algumas ideias, consideradas toscas, ganharam tanta força recentemente. Que a maioria da população concorda com a frase “bandido bom é bandido morto”, já se sabe há algum tempo. Mas daí a arma feita com os gestos das mãos virar uma onda no país e, pior, ser um dos principais símbolos do candidato que lidera as pesquisas para a Presidência da República parece um absurdo para alguns.

No esforço de entender como isso se deu, algumas respostas vão surgindo. Uma delas é dizer que há uma ascensão das ideias fascistas na sociedade. Sugere que a violência se legitima como prática social e se apoia na ampliação do clima de intolerância que insiste ganhar o tom de “novo normal” do Brasil. Fatos recentes como o assassinato de Moa do Katendê e da jovem que teve uma suástica marcada por canivete em seu corpo parecem corroborar essa compreensão.

Não se pode negar o crescimento do fascismo, mas também não é possível atribuir a ele a resposta única ou principal para o fato da arma ter se tornado um símbolo na proporção que virou. Acreditar nisso é deixar de considerar outros fatores.

Em 3 de setembro de 2017, quase um ano antes da campanha eleitoral para presidente, Kiko Nogueira observava o "drama das pistolinhas de Eduardo Bolsonaro", o filho 03 de Jair Bolsonaro: 

Em suas “Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”, Sigmund Freud incluiu em suas interpretações dos sonhos as armas como símbolos da genitália e, em particular, do pênis.

“Todas as armas e ferramentas são símbolos do órgão masculino: por exemplo, martelo, arma, revólver, punhal, espada, etc”, escreveu.

Abaixo, o desabafo que o deputado Eduardo Bolsonaro fez no Facebook relatando seu drama com seus chaverinhos nos aeroportos:

PRECONCEITO CONTRA CHAVEIROS!!!

Preciso falar com vocês algo que tem me incomodado. Não será uma confissão tipo Sandy e Júnior, mas foi algo que me atingiu profundamente. Em minhas andanças por aí passei por um aeroporto em que a funcionária do raio-x quis encrencar com meus chaveiros de arminhas pendurados em minha mochila. Um revolverzinho de ferro e uma pistolinha de borracha (foto) , ambas com alguns centímetros de comprimento. Sem a minha permissão ela saiu abrindo o zíper da minha mochila e tratando de esconder os chaveiros dentro da mochila. Perguntei o porquê daquilo e ela disse ser uma norma que era proibido ter no aeroporto qualquer coisa que lembrasse uma arma. Eu falei algo que na minha cabeça era óbvio – mas talvez para ela não fosse – disse que aqueles chaveirinhos não atiravam, que ninguém acharia que era um objeto ameaçador.

Ela insistiu, disse que poderia sujar para ela caso alguém visse e etc. Vendo tamanho abismo decidi ser impossível seguir numa argumentação, falei que aquilo estava ferindo meus princípios, minha pessoa, minha moral, tudo – falei isso para evitar de falar outras coisas – tirei os chaveiros escondidos de dentro da mochila, deixo-os a mostra novamente e simplesmente saí dali. Não xinguei, não resmunguei, não fiz cara feia, não queria estressar a menina, apenas saí. Mas saí com vontade de sair do Brasil também. Ridículo uma pessoa se prestar àquilo. Se fosse um chaveiro de metal imitando folha de maconha ou uma genitália de borracha certamente eu não teria tido esse problema…Líder evangélico critica silêncio após Bolsonaro imitar arma em ato cristão  - UOL Notícias

O sinal dos dois dedos eram usados antes das armas de fogo, do descobrimento da pólvora. Antecede ao deísmo judaico, ao surgimento do cristianismo e do islamismo. Impressionantemente chefes de igrejas, beatas e crianças passaram a exibir o sinal dos dois dedos que, na Idade Média, os tribunais religiososos puniriam com as torturas de Ustra, as fogueiras da Santa Inquisição. 

Em uma imagem recente, vide os códigos ocultos de polêmica escultura de Bafomé nos Estados Unidos.(AP)

O crescimento da ultra direita como política ou religião, que apela para os mais baixos instintos inconscientes, não é só um fenômeno do bolsonarismo, realisticamente um movimento internacional pela presença dos propagandistas de Trump, viagens internacionais de Bolsonaro a países governados por ditadores ou pela extrema direita, visitas de lideranças alemãs ao Palácio do Planalto, a supremacia branca e a multiplicação de cédulas nazistas, principalmente no Sul e Suldeste, a transformação das escolas do Paraná em miniquartéis. 

Steve Bannon participou da campanha presidencial. Outros agitadores da extrema direita estiveram no Brasil, nas semanas que antecederam as manifestações golpistas de 7 de Setembro: Jair Bolsonaro se reuniu com dois membros da cena conspiracionista e negacionista da pandemia na Alemanha. Vicky Richter e Markus Haintz, ligados ao Querdenken ("pensamento lateral" em alemão), movimento que organizou no último ano protestos contra as medidas do governo alemão para frear a pandemia de covid-19. Em abril, o serviço de inteligência interno alemão colocou setores do movimento sob vigilância nacional por suspeita de "hostilidade à democracia e/ou deslegitimação do Estado que oferece riscos à segurança".

Em julho, o presidente recebeu no Planalto a deputada alemã de ultradireita Beatrix von Storch. Filiada à AfD, Von Storch é uma figura influente da ala arquiconservadora e cristã do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), que tem membros acusados de ligações com neonazistas. Uma organização ligada ao partido também chegou a ser colocada sob vigilância dos serviços de inteligência alemães no início do ano. Neta do antigo ministro das Finanças de Adolf Hitler, Von Storch ficou conhecida na Alemanha por publicações e afirmações xenófobas.

Priapus.jpg

Deus Priapus exibindo o dedo do meio

Em 2 de junho de 2019, a Folha de S. Paulo publica reportagem sobre a "obsessão fálica" do presidente. Uma impetuosidade que atinge os quatro filhos e membros do governo. 

Em 17 de junho de 2020, a secretária de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, tinha a visão de que a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) tinha um pênis na porta.Internet especula o que seria o "pênis" da Fiocruz, dito por Mayra Pinheiro  na CPI da Covid | Lu Lacerda | iG

"É um órgão que tem um poder imenso, porque durante anos eles controlaram, através do movimento sanitarista, que foi todo construído pela esquerda, a saúde do país”, disse a capitã Cloroquina. 

A imprensa da Espanha publicou. Eliane Brum, em 19 de junho de 2019, no El País, alertou: "Ei, Bolsonaro, até o pênis está diminuindo". A excelente jornalista pretendeu chamar a atenção dos bolsonaristas: "as liberar agrotóxicos numa velocida inédita, o governo envenena o Brasil". 

Escreveu Eliane Brum:

"Pesquisa feita com jovens da bucólica região do Vêneto, na Itália, foi publicada no The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, em novembro de 2018. Mas só ganhou repercussão no último fim de semana nas redes sociais no Brasil. Os cientistas analisaram 212 jovens expostos ao veneno, comparando-os a um grupo de controle, de não expostos, de 171. A média de idade era de 18 anos. Embora seja um grupo pequeno, a investigação foi conduzida dentro dos critérios corretos, por uma equipe respeitável. O trabalho aprofunda aspectos que já vinham sendo investigados por outros cientistas. Os jovens expostos aos produtos tinham pênis menores, menor contagem de espermatozoides, menor mobilidade dos espermatozoides e uma redução da “distância anogenital” (distância entre o ânus e a base dos testículos), uma medida que os cientistas consideram uma marca de saúde reprodutiva. A porcentagem de espermatozoides de formato normal no grupo exposto era pouco mais da metade comparada ao grupo de controle. Como os produtos químicos são transferidos das mães para os bebês, é provável que os jovens tenham sido contaminados antes do nascimento.

Como se sabe, a palavra “pênis” é poderosa. Atrai especial atenção nos dias atuais por conta da obsessão de Bolsonaro, que não para de criar oportunidades para falar de pinto e de tamanho de pinto. Os japoneses que o digam. Em 15 de maio, Bolsonaro foi abordado por um homem com traços asiáticos no aeroporto de Manaus. O estrangeiro disse duas palavras: “Brasil” e “gostoso”. O antipresidente reagiu com “Opa!”, levantou os braços, aproximou o polegar do dedo indicador e perguntou: “Tudo pequenininho aí?”.

Dias depois, ao comentar a reforma da Previdência, apresentada ao país como a cura para todos os males da terra com todos os males, afirmou: “Se for uma reforma de japonês, ele (o ministro da Economia Paulo Guedes) vai embora. Lá (no Japão), tudo é miniatura”. No Carnaval, o antipresidente postou no Twitterum vídeo de dois homens fazendo “golden shower” (modalidade sexual em que um urina no outro), para tentar provar que a festa mais popular do Brasil – e que satirizou todas as trapalhadas do seu governo – era uma versão contemporânea de Sodoma e Gomorra. Não colou – e Bolsonaro passou (mais uma) vergonha.

A recorrente referência a pintos segue por mais episódios do que há espaço em um artigo sobre o risco dos agrotóxicos. A inclinação foi amplamente analisada pelo jornalista Naief Haddad, na Folha de S. Paulo de 2 de junho: “De ‘golden shower’; a piada com japoneses, obsessão fálica marca Bolsonaro. Especialistas comentam fixação do presidente com genitais e sexualidade”.

Quando a notícia de que havia um agrotóxico relacionado a redução do tamanho e da largura do pênis repercutiu no Twitter, criou-se a expectativa de que talvez fosse possível chamar a atenção antipresidencial para o que seu governo anda fazendo. Afinal, nada poderia ser mais promissor: pinto e Twitter, duas obsessões de Bolsonaro finalmente juntas. Aparentemente, porém, não completou-se a sinapse no cérebro antipresidencial. Informações que atrapalham as conveniências da família e os lucros dos aliados funcionam como uma espécie de criptonita. Se forem científicas, pior ainda. O fato de jovens poderem estar sofrendo alterações no pênis e na fertilidade já antes do nascimento não parece ser um assunto capaz de interessar Bolsonaro. Importante mesmo é “golden shower” e “piada” com japoneses.

Eliane colocou o título certo, por vários motivos. Em 25 de abril de 2019, Bolsonaro alertava sobre o risco de homens terem pênis amputado por falta de higiene. Falou o presidente:

"Uma coisa muito importante, para complementar aqui. Dia a dia, né, a gente vai ficando velho e vai aprendendo as coisas. Tomei conhecimento uma vez que certos homens ao ir para o banheiro, eles só ocupavam o banheiro para fazer o número 1 no reservado", afirmou o presidente, que em seguida citou um "dado alarmante": mil amputações de pênis por ano no Brasil "por falta de água e sabão".

"Quando se chega a um ponto desses, a gente vê que nós estamos realmente no fundo do poço. Nós temos que buscar uma maneira de sair do fundo do poço ajudando essas pessoas, conscientizando-as, mostrando realmente o que eles têm que fazer, o que é bom para eles, é bom para o futuro deles, e evitar que se chegue nesse ponto ridículo, triste para nós, dessa quantidade de amputações que nós temos por ano", declarou. 

Fazer o numero 1, o numero 2 são eufemismos da nossa língua para ir ao banheiro (fazer as necessidades fisiológicas).
Fazer o numero 1= urinar. Fazer o numero 2= defecar.

Bolsonaro esqueceu que milhões de brasileiros são miseráveis (vide tag) moradores de favelas, de áreas de risco. Residem em casebres sem banheiro, sem água encanada, e não possuem dinheiro para comprar sabão ou sabonete.

Temos os moradores de rua. De acordo com a representante do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Tatiana Dias, a estimativa entre fevereiro e março do ano passado, momento de eclosão da pandemia, era de 221 mil pessoas. Tudo indica que o número aumentou, como reforça Veridiana Machado, representante do Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da Política Nacional para a População em Situação de Rua (Ciamp-Rua). “Não sabemos quantas pessoas estão em situação de rua, mas com a pandemia, é algo que nos salta os olhos. O número é expressivo, inclusive de crianças nos sinais pedindo dinheiro. Basta ir à rua e ver”, destacou.

O vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro (Republicanos), compartilhou nas suas redes sociais um vídeo ironizando as convocações de panelaço contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na noite desta sexta-feira, 15 de janeiro último. Nas imagens, um homem aparece batendo panela com um pênis de plástico enquanto grita "Fora, Bolsonaro".

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) atacou as parlamentares mulheres da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), nesta quinta-feira (8), dizendo que elas são “portadoras de vagina”. 

A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) vai protocolar uma representação contra o filho 03 do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e, segundo ela, deputadas de todos os partidos devem endossar o documento.

“Ele agrediu todas as parlamentares, inclusive as do partido dele”, disse Joice.

Eduardo Bolsonaro tuitou: "MENINOS TEM PÊNIS, MENINAS TEM VAGINA". A frase é d um menininho no filme "Um tira no jardim de infância" (Arnold Schwarzenegger, anos 90). Mas se passar hoje na tv causará alvoroço na esquerda que acusaria o guri de transfóbico ou algo do gênero.

Interessante memória cinematográfica juvenil. Transcrevo dois trechos de entrevista de Eduardo Bolsonaro à Thais Bilenky da revista Piauí:

“Ai, meu Deus! Eu escondo esse álbum dele! Deus me livre!” Heloísa Wolf Bolsonaro, mulher de Eduardo, o filho Zero Três do presidente da República, está zangada com o marido. Ele acaba de pegar o book de fotos que fez quando tentou ser modelo na adolescência para mostrá-las à piauí. “Tu vai vazar?”, ela questiona, insistindo que não quer ver as imagens publicadas na imprensa. Nelas, Eduardo aparece com a pele bronzeada e o cabelo loiro em formato tigela, à la Nick Carter, o integrante bonitinho dos Backstreet Boys. Em uma das fotos, está apenas de sunga vermelha, recostado em uma mureta com as pernas cruzadas, em pose insinuante. “Coisa brega!”, reclama Heloísa. Eduardo olha para o seu segurança e dá um sorrisinho, como quem se diverte com o incômodo da mulher. Conta que nunca mostrou à imprensa o álbum de modelo. “Não me chama de homofóbico, mas nessa época sempre tinham uns caras que queriam ou me comer ou dar para mim”, diz ele. Vigilante, Heloísa observa: “Essa tua frasezinha foi anotada, Eduardo.”

Duda, como Eduardo Bolsonaro era chamado na infância e adolescência, cresceu na Tijuca, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Embora o bairro fosse longe da praia, ele vivia pegando onda. Subiu numa prancha de body-board aos 12 anos, inspirado por Flavio, o primogênito. Um ano depois, interrompeu a prática do novo hobby para ser submetido a uma cirurgia para corrigir uma ginecomastia, que é o crescimento excessivo das mamas em homens. Sofreu na mão dos colegas de escola. Seu apelido virou Buba, o nome de uma personagem intersexual na novela Renascer, exibida pela Rede Globo, em 1993. “Falavam que eu tinha vagina e pênis”, diz. “Eu dava risada. Às vezes caía na porrada.”Vídeo Show | Novelão: Buba guarda um grande segredo em Renascer, de 1993  Assista online | Globoplay

Curioso que numa família racista, homofóbica e sexista, o filho 04, Renan Bolsonaro postou um vídeo em suas redes sociais onde afirma que tem um pai de criação homossexual e negro.

“Domingo é aniversário do meu pai de criação. Ele é homossexual negro. Meu pai botou dentro da minha casa, da nossa casa pra cuidar de mim. No domingo é aniversário dele e vocês vão saber”, disse Renan.

No domingo (20), o filho de Bolsonaro postou a homenagem em seu Instagram: “Marcelo, ao longo desses anos todos, você tem sido um grande amigo para mim. Você me ensinou muito, especialmente a como me tornar uma boa pessoa. Sua empatia e seu carinho são contagiantes, e eu serei eternamente grato a Deus por tê-lo colocado em nosso caminho. Que neste aniversário seu coração possa transbordar com o dobro da felicidade que você trouxe para nossa família! Obrigado por tudo! Parabéns! Felicidades…”, escreveu.

Eliane Brum em outra reportagem explica "Por que Bolsonaro tem problemas com furos":

Em 18 de fevereiro, o antipresidente Jair Bolsonaroprecisava tirar o foco da morte do miliciano Adriano da Nóbrega, pessoa-chave para esclarecer o esquema de “rachadinhas” no gabinete de Flávio Bolsonaro, a relação da família Bolsonaro com as milícias que atuam no Rio de Janeiro e também quem mandou matar Marielle Franco – e por quê. A eliminação de Nóbrega, com vários indícios de execução, voltava a colocar em destaque as relações dos Bolsonaros com as milícias. Era preciso desviar a atenção. Como de hábito, Bolsonaro usou o velho truque: criou um novo fato ao atacar a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo. A repórter, uma das mais competentes da sua geração, estava entre os jornalistas que denunciaram o uso fraudulento de nomes e CPFs para disparos de mensagens no WhatsApp em benefício de Bolsonaro. Uma de suas fontes, Hans River, ao depor na CPMI das Fake News do Congresso, disse que Patrícia teria tentado obter informações “a troco de sexo”, embora as trocas de mensagens entre os dois provem exatamente o contrário. Em sua coletiva informal diante do Alvorada, a mesma em que costuma mostrar bananas para os jornalistas, Bolsonaro atacou: “Ela [Patrícia] queria um furo. Ela queria dar o furo [pausa para risos] a qualquer preço contra mim”.

Este episódio, amplamente divulgado, revela mais do que o truque do manual dos novos fascistas para desviar a atenção do público. Bolsonaro tem problemas com furos. Em vários sentidos. Sua obsessão com o que cada um faz com seu ânus é notória. Está sempre tentando regular onde cada um coloca o próprio pênis. Volta e meia dá um jeito de falar de cocô, como fazem as crianças pequenas. Para ele, a vagina é um furo, visão bastante surpreendente para um homem com mais de 60 anos que já deveria, para o próprio bem, ter conhecido um pouco mais sobre o órgão sexual das mulheres. Chegou a dizer que a Amazônia “era uma virgem que todo tarado de fora quer”. Só um/a psicanalista que um dia recebesse Bolsonaro no seu divã poderia encontrar pistas para o que essa redução da sexualidade a uma coleção de furos – uns feitos para o estupro, outros proibidos para o sexo – significa. Nós, os governados por tal homem, só conseguimos entender que ele tem obsessão por furos, por cocô e por pênis. E que isso determina seu Governo.

No "Ensaio sobre fertilidade e esterilidade na Bíblia hebraica", Suzana Chwarts começa historiando:

"No que diz respeito à fertilidade, Israel é como todas as outras culturas do mundo. O ideal bíblico é o de fecundidade, abundância e multiplicidade – impulsos naturais de todas as civilizações. Este ideal está expresso no Si 128 :3-4 “Sua esposa será como vinha fecunda, na intimidade do seu lar. Seus filhos, rebentos de oliveira, ao redor de sua mesa. Essa é a bênção para o homem que teme o Eterno”. 

Todas as bênçãos de Israel focalizam a abundância e a fecundidade. Em Lv 26 Deus promete que trará

(...) chuvas no seu devido tempo, a terra dará os seus produtos, e a árvore do campo seus frutos (...) comereis vosso pão até vos fartardes, voltar-me-ei para vós e vos farei crescer e multiplicar; depois de vos terdes alimentado da colheita anterior, tereis ainda de jogar fora a antiga, para dar lugar à nova. 

Em Dt 28:4,

bendito será o fruto do teu ventre, o fruto do teu solo, o fruto dos teus animais, a cria das tuas vacas e a prole das tuas ovelhas. Bendito será o teu cesto e a tua amassadeira (...) Deus te concederá abundância de bens no fruto do teu ventre, no fruto dos teus animais, e no fruto do teu solo, este solo que Deus jurou a teus pais que te daria.

Aqui a "Fertilidade" tem a mesma importância que a "Abundância" que os cristãos nos Estados Unidos, na década de 1940, vão propagar como Teologia da Prosperidade, e importada para o Brasil somente na década de 1970.

Em 2015, tendo como fonte o Infomoneya revista Piauí destacava a impressionante riqueza dos pastores brasileiros:

1. Edir Macedo – fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, que também tem templos nos Estados Unidos, é de longe o pastor mais rico no Brasil, com um patrimônio líquido estimado pela Forbes de US$ 950 milhões, ou cerca de R$ 1,9 bilhão.

2. Valdemiro Santiago – fundou sua própria igreja, chamada Igreja Mundial do Poder de Deus, que tem mais de 900 mil seguidores e 4 mil templos. Segundo estimativa da Forbes, seu patrimônio líquido é de US$ 220 milhões, ou aproximadamente R$ 440 milhões.

3. Silas Malafaia – líder da maior igreja pentecostal do Brasil. O pastor está constantemente envolvido em escândalos relacionados à comunidade gay. “Ele é defensor de uma lei que poderia classificar o homossexualismo como uma doença e é uma figura proeminente no Twitter, onde tem mais de 440 mil seguidores”, disse a publicação.

4. RR Soares – é o mais ativo em multimídia entre os pregadores evangélicos. O religioso é compositor, cantor e televangelista. Como fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus, Soares é um dos rostos mais conhecidos na televisão brasileira. Com isso, sua fortuna estimada pela Forbes, é de US$ 125 milhões, ou R$ 250 milhões.

5. Estevam Hernandes Filho e sua esposa Sonia – fundadores da Igreja Apostólica Renascer em Cristo, Apóstolo Estevam Hernandes Filho e sua esposa, Bispa Sonia, supervisionam mais de mil igrejas no Brasil e no exterior, incluindo a Flórida. Juntos, o casal tem um patrimônio líquido estimado pelo site em US$ 65 milhões dólares, ou R$ 130 milhões.O objeto inflado durante as manifestações do 7 de Setembro.

O deus da Prosperidade esteve bem representado no grande comício golpista de Jair Bolsonaro no dia 7 de Setembro último. Comentou Juan Arias:

"Um dos muitos detalhes simbólicos foi o surgimento na cena de um pênis gigante com as cores verde e amarelo da bandeira do Brasil, que foi apropriada pelas forças mais golpistas do país. O pênis inflado estava colocado sobre um carrinho vazio de supermercado. Estava rodeado por homens de idade.

Dizem que o presidente não sabe chorar, e muito menos pela dor alheia. Sua melhor identidade é a raiva; seu lema, a destruição; sua vocação, a terrorista; sua sexualidade, misteriosa; seu sonho de poder absoluto depois de ter ameaçado todas as instituições, com o agravante de que essas instituições parecem amedrontadas e acovardadas pelas ameaças fanfarronas do aprendiz de ditador e terrorista.

Melhor, mais simbólico e mais real do que o pênis gigante e grotesco verde e amarelo da avenida Paulista teria sido uma fila de carrinhos vazios de supermercado para simbolizar o drama que aflige e faz chorar em silêncio tantas famílias vítimas da incapacidade de governar de quem há muito deveria estar fora do poder para permitir que o país recupere a esperança que lhe foi tragicamente roubada. E como ensina a psicologia, nada é mais difícil para uma pessoa e para uma nação do que a desesperança que seca a alma e arrasta para a depressão". 

Bolsonaro perder a eleição porque fez um péssimo governo é um julgamento do eleitor. Voto contra Bolsonaro cidadão.

Para que não voltem a ser usados pela misteriosa Terceira Via, a campanha de Lula, para exemplificar, deve ser contra os slogans e símbolos que elegeram Bolsonaro. O ideário. As ideologias da direita, da extrema direita, do nazismo, do fascismo, do integralismo. Para que jamais sejam utilizadas novas cores para propagar antigas mensagens de um Brasil escravocrata, racista, preconceituoso, colorista, fundamentalista, com um militarismo golpista e cruel e um judiciário elitista e parasita. 

 

21
Dez20

Deus o maior general

Talis Andrade

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por Fernando Brito /Tijolaço

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O Brasil vive uma situação que nem o pior dos pesadelos poderia figurar.

Somos um país governado por um psicopata, cercado de generais-anões, e que conta com uma súcia de alucinados e uma falange de marombados valentões para fazer arruaças.

Imaginem que agora, para “provar” as sandices de Jair Bolsonaro e Ernesto Araújo de que o “vírus chinês” é uma conspiração comunista, aquele brutamontes que quebrou a placa com o nome de Marielle Franco está contando uma história destas que parece ter sido contada por alguém que cheirou proteinato e injetou açaí na veia, ou que virou jacaré depois de tomar anabolizante.

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Diz o tal Daniel Silveira, cabo da PM e deputado federal, que, quando esteve na China, a convite do governo chinês, foi passear na Grande Muralha e um agente do Partido Comunista disse-lhe:

“Não permitiremos outras culturas no Brasil além da nossa, vamos dominar o Brasil e com isso, o mundo.”

Vejam que enredo: o governo comunista o convida a ir passear na China e manda um agente lhe contar o plano secreto para “dominar o mundo”.

E o pior é que tem gente que ainda escreve que não vai acontecer porque ”temos o maior general de todos, o que nunca dorme e sempre está apostos para guerrear por nós: Deus!”

ribis- marielle consciencia negra quebra placa car

04
Out20

A batalha pela Bíblia

Talis Andrade

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Teóloga americana analisa como movimento reacionário faz leitura deturpada do cristianismo para justificar retrocessos e aponta urgência em devolver à Bíblia seu caráter emancipador

 

Por Liz Theoharis

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Em 26 de agosto, durante a Convenção Nacional Republicana, o vice-presidente Mike Pence encerrou seu discurso parafraseando a Bíblia. Diante de uma multidão reunida na área externa do Forte McHenry, em Baltimore, ele exclamou: “Olhemos para a Old Glory e tudo o que ela representa. Olhemos para nesta terra de heróis e deixar que sua coragem nos inspire”. Basicamente, ele reescreveu uma passagem do livro de Hebreus do Novo Testamento: “Corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé. Ele, pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz”.

Não há nada de novo, é claro, no fato de um político americano juntar religião e política em sua campanha. Ainda assim, a decisão de Pence de substituir Jesus pela bandeira americana causou surpresa em algumas tendências religiosas e políticas. A fusão da bandeira com Cristo foi o sinal mais recente da crescente influência do nacionalismo cristão na era Trump.

Não é difícil encontrar provas de quão profundamente o nacionalismo cristão influencia nossa política. Durante a pandemia, a Bíblia foi usada (e distorcida) repetidamente para justificar o negacionismo em relação ao Covid-19 e a inação do governo, para não falar da repressão pura e simples. No fim de março, quando as cidades estavam confinadas e as autoridades de saúde pública recomendavam medidas rigorosas de quarentena, um dos primeiros atos de Donald Trump foi reunir seus seguidores na Casa Branca para o "Dia Nacional de Oração" para dar força aos americanos para seguir em frente apesar da morte e das dificuldades.

Em seguida, ainda na primavera, protestos contra os fechamentos causados pela pandemia – financiados com dinheiro obscuro de organizações como a dos irmãos Koch – exigiram que os estados reabrissem as atividades econômicas e que as diretrizes de distanciamento social fossem afrouxadas. (Esqueça qualquer tipo de máscara). Nestas manifestações, cartazes diziam coisas como: "Até o Faraó libertou escravos durante uma peste" e "O Texas não carregará a marca da besta." E mesmo com as comunidades religiosas admiravelmente se virando para se adaptar aos cultos por zoom, bem como aos cuidados pastorais e velórios remotos, Trump continuou a atiçar as chamas da discórdia religiosa, declarando que o culto presencial era "essencial", levando juristas a questionar sua autoridade para dar tal declaração.

Por falar em sua versão do nacionalismo cristão, ninguém deve esquecer o espetáculo de junho, na Lafayette Square, perto da Casa Branca, quando Trump fez com que manifestantes por justiça racial fossem afastados com gás lacrimogêneo para que ele pudesse caminhar até a Igreja St. John e posar em seus degraus, exibindo orgulhosamente uma Bíblia emprestada. Embora tenha exibido o livro aos fotógrafos, ninguém apostaria que Trump o tenha sequer folheado. (A operação de comunicação pode ser duplamente lucrativa: uma Bíblia que ele assinou após o evento da Lafayette Square está à venda por quase 40 mil dólares).

A batalha pela Bíblia na história americana

Para entender como o poder é exercido na América por políticos ricos e seus círculos de extremistas em 2020, é preciso levar em conta o papel da religião na vida nacional. Uma batalha épica pela Bíblia está em curso em um país que foi, em larga medida, entregue a evangélicos brancos nacionalistas. Por meio de uma rede endinheirada de igrejas e organizações, universidades e think tanks, e com linhas diretas para os mais altos cargos políticos do país, obtiveram carta branca para definir os termos do que deve ser o debate religioso no país e ditar até o significado de moralidade em nossa sociedade.

Com Trump, esse nacionalismo religioso atingiu o auge quando um movimento reacionário – que inclui tecnocratas bilionários, televangelistas e milícias armadas – fincou raízes através de uma mensagem bem simples: Deus ama a América cristã branca, favorece o estado mínimo e as grandes empresas e recompensa o individualismo e empreendedorismo. Enquanto isso, os pobres, os negros e os imigrantes são os culpados pelos problemas da sociedade, mesmo no momento em que os ricos ficam ainda mais ricos naquele que ainda é o país mais rico da história.

Os perigos representados pelos nacionalistas cristãos de hoje são bem reais, mas a batalha pela Bíblia não é nova nos EUA. Nos anos 1700 e 1800, proprietários de escravizados citavam o livro de Filemon e passagens das epístolas de São Paulo para defender que a escravidão era uma ordem de Deus. Eles também arrancavam as páginas do Êxodo das bíblias que davam aos escravizados. Durante a Era dourada do século 19, tanto igrejas quanto políticos pregavam um “evangelho da prosperidade” que exaltava as virtudes do capitalismo industrial.

Décadas mais tarde, os segregacionistas continuaram a usar versos bíblicos soltos para legitimar as práticas de Jim Crow, enquanto no fim dos anos 1970 a Maioria Moral ajudou a integrar uma nova geração de extremistas cristãos na política nacional. Em minha juventude, lembro-me de políticos citando as cartas aos Tessalonicenses na campanha pela aprovação da Reforma do Estado de Bem-Estar Social de 1996 como prova de que Deus acredita que se deve procurar um trabalho para ter acesso aos programas de assistência pública.

Estudantes de religião e história sabem que, embora essas batalhas teológicas tenham muitas vezes descambado desastrosamente para o uso de violência, privação e ódio, o pensamento religioso cristão também tem sido um ingrediente importante para a mudança social positiva no país. A escravizada fugitiva Harriet “Moses” Tubman via a Underground Railroad como um projeto cristão de libertação, enquanto o escravizado fugitivo Frederick Douglass lutou pela abolição através de igrejas em todo o norte do país nos anos que precederam a Guerra Civil. Um século depois, perto do fim de sua vida, Martin Luther King Jr explicou como, para realizar seu sonho de justiça universal, seria construída uma comunidade de Deus por meio de uma "igreja da liberdade dos pobres".

Em cada capítulo da história americana, abolicionistas, trabalhadores, líderes sindicais, militantes de direitos civis e outros representantes dos oprimidos lutaram por um país melhor não apenas nas ruas e locais de trabalho, mas também no púlpito. Nos destroços do atual momento trumpiano, com um ascendente nacionalismo branco fascista, as pessoas de consciência fariam bem em seguir o exemplo.

O “pássaro psicológico” da má religião

No meu livro Always with Us? What Jesus Really Said About the Poor (Sempre conosco? O que Jesus realmente disse sobre os pobres, sem tradução no Brasil), concentro-me em um fenômeno que há muito me preocupa: como, neste país, a Bíblia tem sido tantas vezes manipulada para apagar seu potencial de emancipação; e particularmente, a maneira como aquela que o teólogo Jim Wallis chamou de a mais famosa passagem bíblica sobre os pobres (do Evangelho de Mateus) – “os pobres estarão sempre conosco” – foi distorcida.

Desde que eu era menina, não passei uma semana sem ouvir alguém citar Mateus como uma explicação de por que a pobreza é eterna e sua mitigação é função, na melhor das hipóteses, de obras de caridade e da filantropia (certamente não do governo). Este raciocínio atravessa muitas de nossas instituições religiosas, inclusive o que é hoje conhecido como "cristianismo evangélico", mas também nossas casas legislativas, nossos tribunais, forças armadas, escolas e muito mais. Esta lógica não apenas fez a cabeça de jovens cristãos, mas ajudou a espiritualizar (e cristalizar) a pobreza, justificando implícita ou explicitamente uma desigualdade cada vez maior.

Hoje, a ideia de que a pobreza é o resultado de mau comportamento, preguiça ou pecado, e não de decisões dos poderosos, nitidamente ganha espaço na Washington de Donald Trump e Mitch McConnell. Passagens bíblicas, como a de Mateus, se tornaram mais uma ferramenta ideológica brandida por reacionários e pelos ricos para desviar a atenção das falhas sistêmicas do país.

Consideremos, por exemplo, o desenvolvimento histórico da região conhecida como o "Cinturão da Bíblia" (ou o "Cinturão da Pobreza"). Ele atravessa todo o Sul, da Carolina do Norte ao Mississippi, do Tennessee ao Alabama, onde vivem pessoas pobres de todas as raças. Trata-se da região americana onde a pobreza é mais profunda e numa área contígua, fenômeno em parte possibilitado por uma teologia herética, pela má interpretação bíblica e pelo nacionalismo cristão.

A convergência de pobreza e religião no Cinturão da Bíblia tem uma longa história, que remonta aos primeiros colonos no tempo da escravidão. Manteve-se no tempo das leis de Jim Crow, que vigeu na região até os anos dos Direitos Civis, e sobrevive no que se passou a chamar, na política, de “Sul sólido” (antes democrata, hoje republicano). Dentro de seus limites sobrevive um legado brutal do método de dividir para conquistar que, até hoje, politiza a Bíblia ao afirmar que a pobreza resulta de pecados contra Deus e ensina aos pobres, em particular aos brancos, que, embora tenham pouco ou nada, pelo menos estão “melhor” do que os negros.

No fim da marcha sangrenta entre Selma e Montgomery, no Alabama, em 1965, Martin Luther King explicou a política milenar de divisão na região:

“Se pode-se dizer, sobre o período de escravidão, que o branco conquistou o mundo e ofereceu Jesus ao negro, deve-se dizer, sobre o período da Reconstrução, que a aristocracia sulista conquistou o mundo e ofereceu Jim Crow ao branco pobre... E quando o seu estômago vazio gritava pela comida que os seus bolsos vazios não podiam pagar, devorou Jim Crow, um pássaro psicológico que lhe contava que, na pior das circunstâncias, ao menos tinha a sorte de ser branco, e não negro. E, assim, ela devorou Jim Crow... E também os seus filhos aprenderam a se alimentar de Jim Crow, o estágio mais avançado do esquecimento psicológico”.

Esse “pássaro psicológico” foi temperado e cozido em uma mistura volátil de pseudociência racista, ortodoxia econômica e má religião. Na verdade, manteve seu enorme poder em grande parte usando a Bíblia e uma versão do cristianismo para validar a pilhagem e o sofrimento humano em uma escala impressionante. Pela lei, Jim Crow pode não existir mais, mas sua história assombra os EUA até hoje, e a Bíblia continua a ser usada como arma para validar um poder político branco, racista e antipobre.

À medida que empregos e oportunidades desaparecem nos EUA do século 21 e as igrejas estão, em muitas comunidades, entre as últimas instituições verdadeiramente funcionais, a Bíblia, independentemente de sua interpretação, ainda influencia a vida cotidiana de milhões de pessoas. A forma como ela é compreendida e pregada afeta os rumos políticos e morais do país. Lembremos que esses estados do Cinturão da Bíblia – onde o nacionalismo cristão (que muitas vezes se utiliza de sua própria versão distorcida da Bíblia) reina supremo – respondem por mais de 193 votos do colégio eleitoral e terão, portanto, um papel fundamental para decidir o destino de Donald Trump e Mike Pence em novembro.

Tive uma experiência com essa interpretação bíblica e teológica e seu papel crescente em nossa política nacional em junho de 2019, durante uma audiência do Comitê de Orçamento da Câmara dos Representantes. O tema era a pobreza nos EUA e as realidades econômicas de famílias em dificuldades. Um grupo racial e geograficamente diverso de líderes da Poor People’s Campaign (Campanha dos Pobres), da qual sou codiretora, foi convidado a falar sobre essas realidades. Naquele dia estavam também presentes dois pastores negros convidados por congressistas republicanos como exemplos de como a fé e o trabalho árduo são a única receita para uma vida boa e estável para os pobres.

Viemos apresentar o que chamamos de Orçamento Moral dos Pobres, um estudo que mostra que os Estados Unidos têm dinheiro para acabar com a pobreza, a fome, a falta de moradia e muito mais, o que falta é vontade política para isso. Em resposta, os membros do comitê recorreram a estereótipos batidos sobre por que, em um país tão rico, tantos somos pobres. Alguns citaram o suposto fracasso da Guerra contra a Pobreza dos anos 1960 como prova de que os programas de ascensão social simplesmente não funcionam, ignorando a forma dramática como os políticos minaram essas iniciativas nos anos seguintes. Assim como os pastores, outros testemunharam como foram bem-sucedidos, saindo de situações de dificuldade econômica através de esforço individual, defendendo que a caridade cristã como forma de aliviar a pobreza. Ouvi a todos enquanto promoviam uma teologia herética que afirma que as pessoas sofrem com a pobreza principalmente por estarem afastadas de Deus e por não terem suficiente fé em Jesus.

Naquele dia, as paredes da sala do comitê da Câmara ecoaram palavras vazias que distorciam o que a Bíblia realmente diz sobre os pobres. Um representante republicano chegou a comentar que, embora tivesse familiaridade com a Bíblia, nunca havia encontrado nenhuma passagem “onde Jesus diga a César para cuidar dos pobres”. Outro, previsivelmente, sugeriu que a caridade cristã – e não os programas patrocinados pelo governo – é a chave para aliviar a pobreza.

Alguém menos familiarizado com os argumentos destes políticos poderia ter ficado surpreso ao ouvi-los buscando justificativas teológicas. Como estudiosa da Bíblia e da história dos movimentos sociais, sei bem como os textos religiosos nos orientam a cuidar dos pobres e despossuídos. Como líder sindical, aprendi que aqueles que estão no poder hoje, sempre – e muitas vezes desesperadamente – procuram corromper e distorcer o potencial de libertação de nossas tradições religiosas.

Em resposta àquele deputado, o reverendo William Barber, meu codiretor na Campanha dos Pobres, e eu mostramos o quão interessante era o fato de ele se identificar com César (não necessariamente a comparação mais lisonjeira que se possa imaginar, especialmente porque o cristianismo bíblico diverge de César e do Império Romano). Em seguida, detalhei muitas das passagens e mandamentos da Bíblia que nos exortam a organizar a sociedade em torno das necessidades dos pobres, a perdoar dívidas, pagar aos trabalhadores um salário digno, em vez de favorecer os ricos ou "César". Essa, está claro, é a fórmula da era Trump (onde, nos últimos seis meses pandêmicos, os 643 americanos mais ricos ganharam 845 bilhões de dólares extras, aumentando em 29% sua riqueza combinada). Também apontei que os programas de redução da pobreza mais eficazes, como o Head Start, são financiados pelo governo federal, não por entidades filantrópicas ou pela caridade cristã.

Boas novas dos pobres

Na Campanha dos Pobres, muitas vezes começamos nossas reuniões de organização mostrando uma série de mapas do país com códigos de cores. O primeiro inclui os estados que aprovaram leis de supressão de eleitores desde 2013; o próximo, aqueles com as maiores taxas de pobreza; em seguida, aqueles que não expandiram o Medicaid e aprovaram leis anti-LGBTQ. E por aí vai. Nosso último mapa exibe os estados com maior densidade de evangélicos autodeclarados.

Tenho certeza de que você não se surpreenderá ao saber que esses mapas se sobrepõem quase perfeitamente, principalmente no Cinturão da Bíblia, mas também no meio-oeste, nos estados do meio-Atlântico e até mesmo em partes do Nordeste e do Oeste. O objetivo é mostrar como a batalha pelo direito ao voto, pelo acesso à saúde e por outros recursos essenciais está intrinsecamente ligada à batalha pela Bíblia. O que está em jogo é a saúde de todo o país, porque os mesmos políticos que manipulam a Bíblia e o direito ao voto para ganhar as eleições, aprovam, quando eleitos, orçamentos e políticas imorais.

Quando o vice-presidente Pence alterou aquela frase do Livro de Hebreus, ele estava entrando de cabeça neste campo de batalha ensanguentado, com uma Bíblia profanada nas mãos. A questão é: por que ele e outros nacionalistas cristãos têm o poder de definir o cristianismo? Se eles estão tão decididos a "fixar os olhos na Old Glory", não deveriam também fixar os olhos no que Jesus realmente disse?

A palavra grega evangelia, de onde vem “evangélico”, significa levar boas novas aos que foram empobrecidos pelos sistemas de exploração. As boas novas da Bíblia, também definidas como evangelho, falam repetidamente sobre cativos sendo soltos, escravizados libertos e todos os oprimidos sendo cuidados. Diz-se que se você cortar todas as páginas que falam de pobreza, a Bíblia desapareceria. E quando você lê realmente as palavras naquelas páginas, vê que o evangelho não fala sobre a inevitabilidade da pobreza ou a necessidade de caridade, mas sobre a responsabilidade das autoridades para com todas as pessoas e a possibilidade de abundância para todos.

Em um momento em que 43,5% dos americanos são pobres ou sofrem com incêndios, tempestades, crise de saúde, pandemia, despejo ou perda de empregos por causa da pobreza, não poderia ser mais importante para os americanos começarem a lidar com essa realidade e nossa obrigação moral de mudá-la. Em vez disso, os políticos aprovam leis de supressão de títulos de eleitores, excluem crianças de programas de alimentação e permitem o envenenamento da água, do ar e da terra, com a benção dos líderes religiosos nacionalistas cristãos, que escolhem versículos bíblicos para justificar tais políticas. Não se trata somente de uma crise religiosa. É também uma crise política, econômica e moral que, em meio a uma pandemia, está empurrando este país para cada vez mais perto da morte espiritual.

Se ainda valer a pena salvar os EUA, estamos diante de uma batalha da qual ninguém deve ficar de fora.

- - -

Liz Theoharis é teóloga, codiretora da Poor People’s Campaign e diretora do Kairos Center por Religiões, Direitos e Justiça Social do Union Theological Seminary.

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' | Tradução de Clarisse Meireles para Carta Maior

 

28
Ago20

Flordelis: um caso forjado na cultura evangélica predominante

Talis Andrade

 

Flordelis: filhos estão presos por morte de marido

Personagens foram forjados por uma religião que é capaz de projetar visibilidade e poder, mas que se revela desprovida da essência do Deus

 

Nos últimos dias, tomamos conhecimento do resultado do inquérito sobre o assassinato do pastor Anderson do Carmo, marido da deputada federal evangélica, também pastora e cantora gospel, Flordelis (PSD/RJ), acusada da autoria.

Com detalhes sórdidos, amplamente divulgados nas mídias, a narrativa em torno do crime é digna de um folhetim e não é objeto deste texto. O que nos interessa aqui é tomar o caso e sua repercussão como retratos dramáticos do contexto em que se encontram as igrejas evangélicas no Brasil.

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Sim, Flordelis e o que ela se tornou representam uma parcela significativa do movimento evangélico.

A parlamentar foi forjada, durante os últimos 30 anos, pela ânsia de visibilidade midiática, além de consequentes status de poder financeiro e político.

Foi desse processo, deflagrado pelos “ministérios” gospel nos anos 90, que nasceu o Ministério Flordelis, igreja articulada pela jovem que lhe deu o nome, com a ajuda da mãe, numa casa na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro.

Era uma entre as milhares de pequenas igrejas, nascidas da cultura pentecostal da autonomia, da informalidade e da capacidade de agregar pessoas.

O nome “Ministério”, historicamente utilizado no contexto das Assembleias de Deus e suas divisões políticas, tornou-se jargão do gospel que prosperou pelas mídias e alcançou as igrejas, justamente nos anos 90.

“Ministério”, termo da Bíblia, vem da palavra latina ministerium, e quer dizer “serviço das coisas divinas – a Deus e ao santuário”. A expressão é aplicada a funções clérigas e leigas. Ministros, portanto, são todos aqueles que servem.

O uso do termo, na cultura gospel, transformou o sentido, passando a ser atribuído a cantores alçados a pessoas com autoridade e igrejas autônomas, criadas por iniciativas geralmente individuais ou familiares.

Com isso, uma parcela significativa destas lideranças introduziu no cenário evangélico, por meio de uma forte estratégia de disseminação – mídia e programas (congressos, palestras, cursos e seminários) –, um novo discurso e um novo papel para elas, cujo eixo central é o denominado avivamento espiritual.

A partir desta lógica predominante na cultura evangélica dos anos 90, significativo número de igrejas centrou atividades na música, que ganhou status de parte central dos cultos. Alguns doss “ministros” alcançaram espaço em mídias, se tornaram celebridades e ganharam status e poder.

Para gozar de ampla aceitação, o conteúdo das canções, que doutrinam e formam os novos cristãos e cristãs, aborda de temas atraentes às expectativas de fiéis, como em todo processo publicitário: obter de Deus conquistas e sucesso na vida, fim do sofrimento, felicidade na família, saúde, guerra contra inimigos.

No discurso, Deus é o Senhor dos Exércitos, General, dominador sentado no trono em uma sala onde poucos têm acesso.

É preciso “fazer por onde” com ações de “determinação”, que passam por “sacrifícios” de oração, jejum e ofertas e cobrar a retribuição de Deus, que deve ser fiel, depois de tudo “depositado aos pés do trono”, para atender às expectativas descritas acima.

Emerge daí o investimento em atividades de assistência social, ênfase nunca tão intensa entre evangélicos quanto nas últimas décadas.

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Diversas igrejas, grupos e celebridades do segmento passam a investir em trabalhos sociais, e, na lógica empresarial da “responsabilidade social”, lançam mão da ação social para conquistar maior número de consumidores/adeptos, ou como marketing pessoal/institucional para construir imagem positiva com o grande público.

É o discurso predominante no contexto evangélico a partir dos anos 90, arrebatador de expectativas dos mais pobres, origem de muitas Flordelis e Andersons, que batalham para sair das dificuldades tantas, e de uma classe média cheia de desejos.

Também toca nas esperanças de mulheres, chamadas nesses círculos de “princesas”, em busca de quem as ame e respeite; de jovens, cansados dos discursos tradicionalistas que nada têm a lhes dizer.

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Este discurso responde ainda aos crentes em um deus bélico e vingativo diante de seus conflitos, com ânsia de “pisar na cabeça do inimigo”, que pode ser identificado como um vizinho, um parente, um grupo religioso, movimentos feministas e LGBTI+ e/ou partido político.

São 30 anos de doutrinação nesta direção, com base quase nula no evangelho (“boas notícias”) pregado por Jesus de Nazaré e do sentido da cruz que ele carregou e onde ele foi pregado, baseado na tolerância, na misericórdia, no despojamento.

Da doutrinação emergem inúmeros casos como o de Flordelis e os tantos outros que vêm à tona, não com tanto estrondo. Alguns são abafados para manter a aparência de “pureza” da religião, como Flordelis teria desejado fazer ao dizer a um dos filhos que não se separaria para não “desagradar a deus”.

É, na verdade, a manutenção da imagem que garante o poder. Isso ocorre com frequência, especialmente no interior das igrejas maiores e mais tradicionais do protestantismo, para garantir a aparência de retidão da instituição.

Flordelis e personagens similares, com maior ou menor status, foram forjadas por uma religião que é capaz de projetar visibilidade e poder, mas que se revela desprovida da essência do Deus sobre quem diz propagar: o amor.

Mas não o amor de mensagens superficiais e fáceis, mas aquele que é que é paciente, benigno, não arde em ciúmes, não é arrogante, não é desagradável com o outro, não procura os próprios interesses, não se irrita, não guarda ressentimento, se incomoda com a prática da injustiça e se alegra com a verdade, que sofre, crê, espera, suporta tudo, e, por isso, o amor jamais acaba! (1ª Carta de Paulo aos Coríntios, capítulo 13).

Jesus, fonte de inspiração para qualquer que se declare cristão, cristã, disse aos seus seguidores antes de ser preso e executado: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (João 13).

Eis aí um questionamento que evangélicos brasileiros deveriam fazer (católicos também, depois do mais recente caso, o do Divino Pai Eterno, que é assunto para outro artigo): pelo que são conhecidos? Pelo que têm sido identificados?

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